Odisseia: a televisão sem medo

odisseia-rtpEstreou, ontem, Odisseia, um programa de Bruno Nogueira, Gonçalo Waddington e Tiago Guedes. Estando a televisão portuguesa transformada em telelixo, é natural que evite a mistura entre inteligência, sensibilidade, provocação ou cultura. Nada disso é evitado neste programa, num duplo risco de afrontamento da indústria televisiva e do próprio humor.

Bruno Nogueira é, há alguns anos, um caso sério de humor irreverente e inteligente, mesmo quando desbragado (e o desbragamento é uma manifestação de inteligência, especialmente  numa sociedade em que se pensa que vestir um fato é sinal de seriedade). Por outro lado, fica-se com a impressão de que o rapaz sabe que o humor não pode estar obcecado em ser inteligente, até porque as piadas demasiado inteligentes podem levar tanto tempo a ser compreendidas que uma pessoa arrisca-se a perder a vontade de rir. Para além disso, estamos perante um humorista que parece gostar do risco de chocar e, até, do risco de não fazer rir. [Read more…]

Virar ao contrário

Aqui está a saída para o nosso país – é só virar tudo ao contrário, não?

Parem de inventar!

O FMI sugeriu mais uma medida de destruição do País: subir o IVA da Cultura para 23%, por uma questão de equidade. Mas a que igualdade se referem?
A Cultura tem um orçamento ridículo, equivalente a 0,1% do OE.

Nagisa Oshima 1932-2013, RIP

Ficará conhecido mais por este Império dos Sentidos, e pelo Feliz Natal, Mr. Lawrence que, por exemplo, pelo excelente Um Verão em Okinawa .

Pior do que isso, O Império dos Sentidos será relembrado sobretudo pelas cenas que fizeram um bispo garantir escandalizado que tinha aprendido mais em 10 minutos de RTP2 que em toda a vida (compreende-se: o enredo é, digamos assim, heterossexual). Mas os caminhos, limites e sua ausência no que toca ao desejo são insondáveis. Obrigado Nagisa Oshima.

Já agora, aqui fica a resposta de Herman José ao escândalo: [Read more…]

Porta dos Fundos, outra vez

Um portuga está como estamos, nem os nossos humoristas produzem uma gargalhada de jeito, a vida cada vez mais deprimente.

Então vai ao youtube e importa isto do Brasil. Resulta. Obrigado irmãos.

Tomem lá mais este: [Read more…]

O relatório do FMI em poucas palavras

A palavra History surge apenas e somente fazendo referência ao historial contributivo. Democracy aparece uma única vez (!) e remetida para uma nota de rodapé relativa a uma tese norte-americana de 1962 sobre democracias constitucionais. Já politics e as suas derivações pode ser encontrada apenas 6 vezes no documento, enquanto que a palavra Constitution e familiares próximas surge quase sempre apensa ou muito próxima da palavra constrangimento.

C215 “Down the Road”

Christian Guemy, mais conhecido como C215, um dos artistas mais importantes da cena mundial de arte urbana/street art, lançou um vídeo que o próprio descreve desta forma concisa:

C215 painting in the streets of Lagos (PT) and Tudela (SP) + music by C2C (2012)

Eu limito-me a acrescentar que C215 realizou estes trabalhos na segunda edição da residência artística ARTUR organizada pelo LAC – Laboratório de Actividades Criativas, que ocorreu entre 24 de setembro e 6 de outubro de 2012 em Lagos.

La java des bombes atomiques

“Merda Louca”, mais tarde “Merda Louca, o Lobo Branco”, é a tradução livre do nome do colectivo musical francês que integrou o alinhamento do primeiro concerto Rock In Opposition (RIO), em 12 de Março de 1978, no New London Theatre, uma iniciativa dos ingleses Henry Cow que juntaria ainda os italianos Stormy Six, os suecos Samla Mammas Mana e os belgas Univers Zero, sob o lema “a música que a indústria discográfica não quer que oiçam”.

La java des bombes atomiques, canção de Alain Goraguer e de Boris Vian, conta a história de um bricoleur que construía bombas atómicas em casa, tentando continuamente melhorá-las visto que o seu raio de acção não ultrapassava o perímetro de um quarto. Durante muito tempo trabalhou nas suas criações, interiorizando as limitações e o potencial das suas descobertas. Quando souberam que as suas pesquisas estavam prestes a dar resultados, os grandes chefes de Estado decidiram fazer-lhe uma visita. O autodidacta recebeu-os o melhor que pôde no seu atelier, onde acto contínuo os trancou e fez detonar a bomba. Em tribunal, defendeu-se com eloquência e com a consciência do dever cumprido. Primeiro condenado, depois amnistiado, viria – justiça lhe sendo feita – a ser eleito chefe do Governo.
Os Etron Fou Leloublan (inicialmente Chris Chanet, Ferdinand Richard e Guigou Chenevier) gravaram cinco álbuns de estúdio e os seus membros continuam a poder ser seguidos, a solo ou em grupo, por quem procura o improvável na música.

Pornogostos

Eu gosto.

O meu amigo José Magalhães parece que não. Gostos não se discutem. Agora a pseudo-diferença entre pornografia e erotismo, discuto, discuto.

A burguesia sempre achou, no intervalo dos seus vícios privados e públicas virtudes, que porno é coisa de pobre. Pois que seja. Mas com IVA igual para todos.

É o que acontece quando não se compreende que a fome de cultura não é um luxo, nem um vício. É mesmo uma necessidade que deve ser de todos. Mas entendi-te: pobre inculto não faz greve embora cuspa no chão.

Os mapas do meu pai

Quando eu era catraia, e com catraia quero dizer ter nove, dez anos, o meu pai levava-me a caminhar pela cidade. Arranjava um pretexto, um sítio qualquer a que tínhamos de ir, mas o verdadeiro propósito parecia ser o de que caminhássemos dezenas de quilómetros. Metíamo-nos por atalhos que ele dizia conhecer, porque o meu pai sempre acreditou que conhecia atalhos, mesmo nas cidades onde nunca tinha estado, e sempre se recusou a admitir que não fazia ideia de onde estava. Às vezes, os atalhos corriam bem, isto é, cortávamos caminho e descobríamos uma ruela nova, uma ligação insuspeita entre lugares. Outras vezes, corriam mal e acabávamos a andar muito mais do que o previsto. E outras vezes ainda, corriam muito pior e éramos perseguidos por uma matilha de cães. Na verdade, só aconteceu uma vez, e nesse dia, quando nos deparámos com uma matilha que se lançou na nossa direcção com dentes arreganhados e latidos raivosos, eu olhei para o meu pai com essa fé, tão ingénua quanto fervorosa, que as crianças sempre depositam na capacidade dos pais de resolverem todos os problemas. Num perfeito tempo de comédia, o meu pai devolveu-me o olhar, gritou:

– Corre! [Read more…]

Subscrevo!

feira do livro

O blogue “Clube de Leitores”, que obteve 37,19% dos votos no nosso concurso do ano passado, tendo vencido a sua categoria, referiu ontem o fim da Feira do Livro do Porto.

Dando conta duma notícia do JN, “De acordo com o que noticiou o diário, na origem do problema está a recusa da Câmara Municipal do Porto em renovar o protocolo de quatro anos que terminou o ano passado, através do qual a organização da feira recebia 75 mil euros, apoio logístico e isenções camarárias”.

Ficamos a saber que a CMP não tem 75 mil euros para subsidiar um dos maiores eventos culturais da cidade.

Questão de prioridades, dir-se-á, e as corridas da Boavista são melhor investimento… Já os imperadores romanos nos tinham ensinado o “panem et circenses” para manter o povo feliz e contente.

O blogue adianta ainda, segundo Miguel Freitas, da APEL, “A avançar a feira iria realizar-se em Junho, mas para isso, segundo cartas enviadas pela APEL aos associados, terão de ser os editores a assumir a verba que a Câmara de Rui Rio deixou de atribuir”. E o secretário-geral da associação de livreiros não acredita que os sócios estejam dispostos a suportar gastos adicionais “num período de crise em que vivemos“. Junte-se o facto de  “os resultados comerciais no Porto não serem relevantes para a maioria das editoras“.

Perante esta situação, também eu subscrevo a frase lapidar do blogue: “Não há muitas palavras para estes acontecimentos para além de uma enorme vergonha e uma série de insultos que me queimam cada vez a língua”.

Jesus é castigado após a visita do Magos

A criança não se comportou devidamente perante os sábios. Mordeu o nariz ao Gaspar, que lhe segurava com dois dedos uma bochecha enquanto fazia: Buubuu, pausadamente, acrescentando, muito depressa para os seu ritmo habitual:

– Lindo menino, é pena não ter escalão familiar para usufruir do abono de família…

E assim Jesus experimentou de sua mãe as primeiras palmadas.

max ernestMax Ernst: A Virgem bendita castigando o menino perante três testemunhas: André Breton, Paul Éluard e o artista

A palavra do ano é enrabado, diz-se entroikado na presença de estranhos

Sobre o evento “palavra do ano” com que a Porto Editora tenta copiar instituições de outras línguas, ficam uns dislates da minha lavra.
Infopédia regista enrabado, como “particípio passado de enrabar”Já o Houaiss acha enrabado um adjectivo, que se enrabou.
Para a Porto Editora a palavra mais votada, entroikado, é um adjectivo, aliás, um adjetivo. Não serei eu nesta casa a dissertar sobre este detalhe gramatical. O verbo neologismar, que aprendi com o velho e sábio José Pedro Machado e eles aceitam mas não dicionarizam, diz-me ao ouvido que o povo inventa quando precisa, ou acha graça, mas com um certo sentido, uma lógica. Raras vezes se neologisma a partir do vazio, sem uma raiz que seja sua mãe fonética, sem um pai etimológico, uma afenidade, enfim, o neologismo não usa ser órfão.
Ler a palavra entroikado como significando que está numa situação difícil; tramado, lixadoé digno dos pudores da Porto Editora, a que quando meteu o caralho nos seus dicionários já gerações de liceais se  tinham rido com a sua ausência.
Afirmo: a  palavra do ano é enrabado, eufemística, humorada e propositadamente dita entroikado. A língua ainda somos nós que a fazemos, se precisarem de referências procurem nos facebooks deste mundo; a troika não entroika, nem tal faria sentido – enraba; uns gostam, outros não.
Ah, e o mais das vezes, a palavra no ânus tem sido aplicada sem preservativo nem vaselina.

cu

Cu português contraindo-se perante a ameaça de novo entroikanço

Porta dos Fundos

Parece que  são cinco humoristas mais uns actores, e uma equipa de filmagens que faz baratinho mas muito bem feito. Porta dos Fundos não é numa televisão,  é num canal do Youtube. Começaram por moer o juízo a uma cadeia de restaurantes. Como no Brasil há quem perceba de marketing viral não foram processados, foram contratados.

Um humor arraçado de britânico (esta Versão Brasileira é tão monty que até já foi fedorentada), non sense e descontracção brasileira, ou seja: muita bicheza, muita foda, muita blasfémia.

O português, ao contrário do que acha o Dario (que já aqui publicou a sobre mesa,  obra-prima até ver) não é tão fácil de entender como isso, mas tem legendas, em caso de desespero.

Vídeos curtos à 2ª e 5ª,  na primeira 2ª de cada vez programa de 15 minutos.

Fica o primeiro:
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Getatchew Mekurya com The Ex

Getatchew Mekurya, sax tenor, nasceu em Adis Abeba em 1935. Em 2004, os ex- punk holandeses The Ex, depois de terem conhecido a reedição, na série Éthiopiques, do álbum de 1970 “Negus of Ethiopian Sax“, convidaram o septuagenário músico a participar no espectáculo do seu 25.º aniversário. Mekurya retribuiu, propondo-lhes colaboração no seu álbum de 2006, “Moa Anbessa“, e posteriormente no seu álbum do ano passado, “Y’Anbessaw Tezeta“, no qual se lhe juntaram alguns músicos de jazz contemporâneos (incluindo o excelso Ken Vandermark) – Wiki dixit.
Neste clip, Mekurya, com outros músicos e performers etíopes, junta-se aos The Ex, aqui com Mats Gustafsson e Paul Nielsen-Love, em concerto no Centro Cultural da Universidade de Addis Abeba, em 21 de Fevereiro de 2011.

Leitor de tabaqueira

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(foto de Lewis Hine)

“Ganham a vida a ler em voz alta” para os colegas da fábrica de charutos. Uma profissão que é património nacional e quer ser mundial.

Que coisa fantástica, esta notícia que tomo conhecimento no último dia do ano!

Cada fábrica de charutos de Cuba tem um leitor!

Lêem jornais, poesia, revistas de cozinha, o horóscopo da semana, livros para ensinar a perder peso, romances eternos ou até o último best-seller de Dan Brown. “Sem eles a rotina dos operários que passam os dias a enrolar folhas de tabaco não seria a mesma.”

São “peça essencial na indústria tabaqueira” cubana.

Uma profissão com 150 anos e única no mundo!! Foram eles que fizeram a politização dos trabalhadores do tabaco.

Atenção aos autores lidos desde o século XIX: Dostoievski, Balzac, Shakespeare, Dumas, entre outros. É preciso dizer que quando nasceu esta profissão, em 1865, 85% dos operários eram analfabetos.

Hoje restam ainda entre 250 e 300 leitores nas fábricas de charutos em Cuba ” e a sua função mantém-se inalterada”! [Read more…]

Abraçar a Casa da Música

Casa-da-musicaEsperemos que o abraço agendado para hoje às 15.30h, possa salvar a Casa da Música dos cortes anunciados para 2013.
Esperemos que sejam ouvidos os mais de 40 signatários do apelo Um Abraço à Casa da Música. Eles têm razão: “Um Governo que desinveste na Cultura  não acredita no futuro (…)  nem honra os seus compromissos” e, por isso, não merece a confiança dos cidadãos.
A Casa da Música merece um «15 de Setembro», sim. Mas, ao contrário do que sugeriu Paulo Rangel , essa manifestação – mais que oportuna neste momento -, devia ser feita não só pela população do Porto e sua região, como também por todo o país!
A Casa da Música é a casa de todas as músicas e de todos os públicos. É também daqueles que, em princípio, nunca lá entrariam. Estamos a falar do trabalho que a Casa da Música desenvolve com as comunidades desfavorecidas – «som da rua» ou o trabalho que fizeram em 2008 com reclusos de Custóias no projecto “A Casa vai a casa”. Lembro-me que li “Não podendo ir Maomé à montanha, há que levá-la até junto do profeta. E,  ultrapassado que está o estigma de serem vistos como “meninos do coro”, são  agora quase 50 os reclusos do Estabelecimento Prisional do Porto (em Custóias,  Matosinhos) inscritos num projecto que os fará actuar na Casa da Música (…)os  Ala dos Afinados,que tinham uma canção:  “Uma vida, uma oportunidade/Um castigo, um futuro/Liberdade”.
Mas a Casa da Música é ainda mais (são muitas as suas valências). [Read more…]

Uma puta é uma puta mas é uma puta

Vender o corpo incluindo o uso sexual do mesmo chama-se prostituição. Trabalhadora sexual, diz-se agora.
No meu dicionário, é assim.
bois
Puta é outra coisa. Ao contrário de uma prostituta, que vende o que lhe resta ou porque não a deixam vender menos ou porque lhe apetece, as putas, e os cabrões, concorrem a sufrágios, até os vencem, chegam ao poder e deixam morrer pessoas por falta de assistência médica em hospitais arruinados para abrir o mercado ao livre empreendedorismo das companhias de seguros.
Faz uma certa diferença.
E já agora: os cabrões também não são necessariamente homens traídos,  mas são sempre filhos da puta.
É o dicionário que uso, tal e qual como se fala na minha rua, bem perto de um largo onde trabalham prostitutas. Fica esta nota semântica a propósito de dúvidas geradas por causa de uma frase onde incluí a puta da Maggie, e posso acrescentar cabrões como o Ronaldo, o George e o Augusto, aquele amigo da puta Thatcher de apelido Pinochet.

Pintura: Bois de Ole Ahberg

Adília Lopes

Ontem, enquanto fazia umas pesquisas na internet para algo que queria escrever no Facebook (sim, eu sou uma daquelas que usam o Facebook com bastante assiduidade, sendo até frequentemente o alvo das graçolas dos amigos LOL, :-), <3), cruzei-me com uma tese brasileira interessantíssima (estes estudos são sempre brasileiros, só os brasileiros publicam tanto na net, sem receios de roubos ou apropriações) onde se fala de Adília Lopes e da sua escrita. Claro que pesquisa leva a pesquisa, que isto de surfar na net para pesquisas é viciante, e acabei por encontrar vários poemas conhecidos e outros desconhecidos. [Read more…]

Aconteceu em Dublin

Pelo quarto ano, o grande Bono, vocalista dos emblemáticos U2, animou as ruas da «fair city» Dublin. Aqui, acompanhado por Lisa Hannigan e Glen Hansard. Quem também alinhou nesta cantoria solidária foi a fantástica Sinead O’Connor, juntamente com outros artistas. Todos ele fizeram da bela Grafton Street, símbolo do consumismo, uma rua solidária. Estes seres humanos admiráveis juntaram-se a fim de angariar fundos para instituições de ajuda a pessoas sem abrigo, no que já se tornou uma tradição da noite de Natal de Dublin.

Feliz Natal e um fantástico 2013

O Aventar, com quem escreve, com quem comenta, com quem aparece para ler foi parte de mim no último ano.2feliznataljp

A Todas e a Todos desejo um fantástico Natal e um 2013 cheio de coisas boas!

À falta de competência para escrever mais e melhor deixo nas palavras de Manuel António Pina o que vos quero dizer.

Obrigado por estarem por aqui!

A canção dos adultos

Parece que crescemos mas não.
Somos sempre do mesmo tamanho.
As coisas que à volta estão
é que mudam de tamanho.

Parece que crescemos mas não crescemos.
São as coisas grandes que há,
o amor que há, a alegria que há,
que estão a ficar mais pequenos.

Ficam de nós tão distantes
que às vezes já mal os vemos.
Por isso parece que crescemos
e que somos maiores que dantes.

Mas somos sempre como dantes.
Talvez até mais pequenos
quando o amor e o resto estão tão distantes
que nem vemos como estão distantes.
Então julgamos que somos grandes.

E já nem isso compreendemos.

O brilho da Lua é diferente em Março

lua

Maria Cantante tem 74 anos. Não sabe ler. Não sabe escrever. Exibe a licença de condução de velocípedes tirada em Setembro de 1960 (que ainda guarda na carteira).

Não foi à escola. Aprendeu a escrever o nome porque o seu irmão queria que ela fosse a sua madrinha de casamento. Copiou várias vezes até ser legível. É isso que sabe escrever. Assim, aprendeu a escrever o seu nome aos 21 anos. Tem o seu B.I. e o cartão de Eleitor assinados.

Não foi à escola porque teve que tomar conta dos irmãos mais novos.

Ditava frases para a menina que tomava conta e para a própria filha: “O pão é um alimento que aparece na mesa de toda a gente. O pão é feito de milho, trigo e até de cevada”; “ O amor de mãe encerra tudo quanto pode haver de generosidade e sacrifício. A mãe é santa que nos adormece, embalando-nos com ternura nos passos vacilantes de criança”.

As contas que sabe fazer são só as de somar.

Nunca comprou fiado; “não tinha dinheiro, não comprava”. Nunca quis «esmola». Diz que sempre fez um controlo do dinheiro. Não gasta se não tiver dinheiro. Não compra fiado, repetia-me.

Antes de ter o segundo filho não tinha nem uma cadeira. Comprou-a para que a parteira se pudesse sentar quando fosse o parto. [Read more…]

Caminho com Sophia

lagos

Vais pela estrada que é de terra amarela e quase sem nenhuma sombra. As cigarras cantarão o silêncio de bronze. À tua direita irá primeiro um muro caiado que desenha a curva da estrada. Depois encontrarás as figueiras transparentes e enroladas; mas os seus ramos não dão nenhuma sombra. E assim irás sempre em frente com a pesada mão do Sol pousada nos teus ombros, mas conduzida por uma luz levíssima e fresca. Até chegares às muralhas antigas da cidade que estão em ruínas. Passa debaixo da porta e vai pelas pequenas ruas estreitas, direitas e brancas, até encontrares em frente do mar uma grande praça quadrada e clara que tem no centro uma estátua. [Read more…]

A bruxa

Cá no bairro todos os negócios vão mal excepto o da bruxa. Chamo-lhe bruxa de um modo se calhar abusivo, ou simplista, porque ela intitula-se “conselheira e terapeuta espiritual”. Mas tenho a atenuante de que sou do norte, e, nas duas margens do rio Minho, ser bruxa ou meiga não só não chega a ser insulto como até pode ser elogio.

Esta nossa bruxa é a mulher mais elegante da rua, tanto assim que parece sempre desenquadrada, como se se tivesse materializado de repente, com os seus vestidos negros de veludo e os sapatos de salto alto, num bairro de mercearias e casas antigas. Quando sai de casa deixa na rua um eco de tacones lejanos e um perfume denso, enjoativo, que sempre me faz pensar em plantas carnívoras, cheirem elas ao que cheirarem. Tem um olhar duro, demasiado impiedoso para quem aconselha e cura, e é isso, mais do que a sua linha de negócio, que me faz desconfiar das suas intenções. [Read more…]

E agora?!

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Segundo o dicionário Infopédia, da Porto Editora, nado-morto, tomado como adjectivo, significa: “que foi dado à luz sem vida”. O mesmo dicionário dá como definição complementar, em sentido figurado: “que fracassou logo no começo”.

Nada melhor para classificar, mais uma vez e depois de todas as polémicas, o mais recente (des)acordo ortográfico.

Segundo o editorial da “Sábado”, “o Brasil anunciou que pretende adiar a aplicação desse acordo de 2013 para 2016”. Fosse só um adiamento, e compreender-se-ia que nem todos os países de língua oficial portuguesa cultivem as alterações à escrita ao mesmo ritmo. Mas não foi isso que aconteceu. Segundo o ministro da educação brasileiro, “esses três anos não vão servir para preparar a aplicação do acordo – vão servir para o contrário”, porque a norma, já em vigor em Portugal, ficou “muito aquém do que se poderia fazer”. [Read more…]

Concurso Blogues do Ano 2012

O Aventar organiza pela segunda vez o Concurso de Blogues com o objectivo de promover e divulgar o que de mais interessante se faz na blogosfera portuguesa e de língua portuguesa, demonstrando a sua diversidade.

O concurso é organizado em duas fases de apuramento, a primeira aberta a todos os que queiram participar e a segunda constituída pelos 5 mais votados de cada categoria.

Datas importantes:

  • Inscrições: 13-12-2012 a 04-01-2013
  • Votações da 1ª fase: 07-01-2013 a 18-01-2013
  • Resultados da 1ª fase: 20-01-2013
  • Votações da 2ª fase: 21-01-2013 a 25-01-2013
  • Resultados finais: 27-01-2013

Os interessados poderão inscrever os seus blogues aqui.

Para mais informações e divulgação, é importante consultar:

Para que as votações sejam o mais fidedignas possível, e porque estamos a trabalhar num meio que poderá permitir formas menos correctas de participação e votação, empregam-se várias técnicas que visam garantir que um votante anónimo não faz votações repetidas. Podemos limitar a votação por cookies ou por endereço IP, ou então usando ambas as técnicas ao mesmo tempo.

Os votantes deverão ter em atenção que, se estiverem num escritório, por exemplo, apenas a primeira pessoa que votar terá possibilidade de registar o respectivo voto. Infelizmente é absolutamente necessário usar esta medida, caso contrário a votação poderá ser completamente subvertida.

Caríssimos participantes, que comecem os jogos! E que ganhe o melhor. Boa sorte a todos.

O suicidio da Europa

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Imundície moral hallal a instalar-se por contumácia nas escolas francesas, obrigando os não seguidores da seita a tragarem aquilo que não comem em casa. Na Itália, os maluquinhos do costume exigem a destruição de um fresco do século XV, ao mesmo tempo que conseguem retirar os crucifixos – …“um corpinho espetado em dois paus – das salas de aula. Um pateta que na Alemanha se intitula imã de qualquer coisa e nos faz recuar na história, pretendia há uns tempos  banir os toques de sinos, as procissões cristãs e … interditar a difusão pública da música de Bach e de outros autores, como Haendel. Na Inglaterra e entre outras bandalheiras, uma curiosa taradice para provocar. Na Suécia, com pezinhos de lá, sorrateiramente e em época de festividades natalícias, os professores recebem directivas que excluem a menção a Jesus.  Na Escócia, o Natal é pura e simplesmente omitido, ao mesmo tempo que paródias exóticas vindas das comunidades muçulmanas – há várias e algumas em rija guerra entre si, lembram-se? -, hindus, sikhs e umas tantas chinoiseres, constam nos programazinhos dirigidos pela grotesca nomenklatura da União Europeia.

A estupidez destes nossos carrascos não tem limites. Gostem ou não gostem, o facto de a Europa ter sido até há pouco culturalmente cristã, felizmente possibilitou todas estas liberalidades para com as crenças alheias. A reciprocidade não existe, não valerá a pena virem com estorietas acerca do há muito extinto califado de Córdova. Não acreditam? Ora, se puderem viajem, experimentem e logo verão.

Decididamente, parece que andam a fazer tudo para que os Le Pen europeus cheguem um dia ao poder.

Ah…! Feliz Natal.

Manoel de Oliveira, parabéns!

manoel_de_oliveira[1]

Hoje comemora os seus 104 anos cheios de vida. O mais antigo realizador de cinema em actividade e de olhos postos em novos filmes! Parabéns.

É preciso muito fôlego para soprar tantas velas. – Isso não lhe falta!

Parabéns pelo seu amor à vida. P’ro ano quero desejar-lhe mais um «feliz aniversário»!

Todo o homem é maior do que o seu erro

josé duarte

Na mão tem um livro aberto. Procuro, com curiosisdade, ler o título: Todo o homem é maior do que o seu erro. «De quem será o livro que tem nas mãos?» – pensei.

José Duarte é um advogado de Paredes preso há oito anos por falsificação de documentos e usurpação de funções. O livro que referi é a sua tese de mestrado publicada e já praticamente esgotado!

Quer agora uma autorização da Direção-Geral dos Serviços Prisionais para frequentar as aulas de doutoramento, obrigatórias. Quer ser o primeiro recluso a concluir a tese de doutoramento!

Como disse um dia a mãe do Nobel da Literatura 2012, “Filho, o homem que me bateu [um guarda que havia agredido a senhora há muitos anos] e este homem não são o mesmo”.

e-corrúpio

Em 2020 já não haverá livros, assegura-me ao telefone um amigo tomado de fascínio por essa visão pós-moderna da nossa existência próxima. Digo-lhe que não, que haverá sempre livros. Contra-argumenta lembrando a quota de mercado que têm actualmente os e-books, e afirma, insuflado de certeza pelas garantias da propaganda da tecnologia de ponta que o subjuga, que esse mercado vai crescer, que as pessoas já não vão querer ler livros em papel, que vão lê-los nos seus formatos digitais, com tablets e essas coisas que hoje também servem para ler. Digo-lhe que haverá sempre livros porque haverá sempre leitores de livros. Diz-me que esses leitores analógicos e anacrónicos vão morrer, e gradualmente dar lugar a novas gerações de leitores nada interessados no objecto-livro – segundo ele condenado, mais que não seja, porque é demasiado caro. Insisto que haverá sempre livros, e que pessoalmente não aceito participar desse programa de matança do livro. E para o calar remato: que me deixe às minhas utopias, sendo certo que essa espantosa engenharia das possibilidades se constrói com as cabeças que pensam e com as mãos que escrevem, com os olhos postos no Mundo que é preciso fazer nascer dos escombros – ruínas produzidas pelas mesmas tecnologias de mercado que reduzem pessoas a números indexados em bases de dados de consumidores-contribuintes dos e-Estados.

Desligo o telefone e baixo-me para apanhar um desses escombros: uma lamentável tradução recente de um livro de um grande escritor, talvez realizada num prazo absurdo para uma obra literária, num e-corrúpio à moda dos tempos, talvez unicamente revista num monitor de computador, talvez sem as sempre necessárias (e anacrónicas e analógicas, bem-entendido) provas de papel com emendas a lápis, ou talvez mesmo jamais revista por um revisor profissional, o que acrescentaria custos à edição – e sobretudo retiraria receitas aos editores reféns das lógicas monopolistas abjectas das grandes superfícies e suas cadeias de intermediários que, duma assentada, acabaram com as livrarias e com os ofícios da edição. E abro o escombro (editado por uma importante chancela, como agora se diz das editoras compradas pelos grandes grupos que se têm dedicado a dar cabo da edição de livros em Portugal) nas primeiras páginas para descobrir, atónita, a certificação que dá cabo de mim: as traduções dos livros desse escritor em Portugal são todas obrigatoriamente revistas por uma senhora professora doutora que assegura a sua qualidade. Como diria a minha filha tomada de perplexidade: what the fuck?!