O Luto e o Alívio

Mais uma boa crónica de Miguel Esteves Cardoso! Só ele para se lembrar de escrever sobre «coisas» como o alívio.

O alívio é um prazer. Concordo. E é pouco elogiado. Concordo também!

Alívio parece nome de gente! – digo eu.

MEC escreveu ontem: “O alívio é o livramento do medo que acabou por não acontecer, do encargo da ansiedade, da angústia do trabalho depois de feito. (…) O alívio é a liberdade. É o tal grande peso que, num instante mas duradouramente, se alevanta do nosso peito e nos deixa respirar oxigénio puro como se fosse pela primeira (…)”.

Fui ao dicionário ver «alívio» e «aliviar». De «alívio», temos acto ou efeito de aliviar, diminuição de peso, de cor, etc.; descarga. De «aliviar», temos, para além do conhecido «aliviar a tripa», «dar à luz» e «aliviar o luto», que eu não conhecia, e que significa, esta última expressão, começar a usar um vestuário que não é totalmente de luto. [Read more…]

A curva do universo ou da vida

oscar niemeyer

Morreu um homem feliz.

Morreu uma pessoa que acreditou até ao fim nos seus ideais.

Morreu o “embaixador da arquitectura brasileira” e o “último grande arquitecto do século XX”.

Morreu Oscar Niemeyer (1907-2012), a poucos dias de completar 105 anos.

Eu olho para trás, não sou como os outros que dizem que fariam tudo igual, eu faria muita coisa diferente. A vida é difícil, a vida nos leva a coisas que às vezes a gente não quer. A vida é um sopro, a gente vem, conta uma história e todo o mundo esquece depois. (…) Cem anos não dá prazer. Eu ia passar os cem anos sem muita alegria. A vida passou, eu procurei ser correto, trabalhar, mas não estou contente, na verdade não traz nenhum prazer. Só se o sujeito pensar que é importante, e eu acho isso tão ridículo, se ele pensar que é importante ele está fora do mundo.

(…) O que me atrai é a curva livre e sensual, a curva que encontro nas montanhas do meu país, no curso sinuoso dos seus rios, nas ondas do mar, no corpo da mulher preferida. De curvas é feito todo o universo.

(publicado na secção Cartas à Diretora do Público, 7/12)

Joaquim Benite (1943-2012)

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Mudou o teatro em Portugal mudando-se para Almada. Encenou com a raiva terna (ou a ternura enraivecida, não sei bem) que o caracterizava. Tinha o génio dos génios. Foi a ser esse, assim, que construiu um projecto teatral único em Portugal.

Joaquim Benite (1943-2012) teve uma vida cheia e singular para um homem da sua geração. Jornalista, e depois crítico de teatro, trocaria a imprensa pelo teatro, escolhendo contribuir activamente para uma mudança no teatro feito em Portugal – que no início dos anos 70 era dominado pelos empresários da cena comercial de cariz prevalecentemente popular, de texto pobre e piada fácil. A obra que construiu ao longo de mais de quarenta anos testemunha um percurso sui generis, de um homem essencialmente afeiçoado à palavra, ao teatro de texto e de intervenção política.

Todo o teatro é político, lembrou várias vezes em entrevistas, devolvendo ao fazer teatral uma das suas funções na sociedade, ao arrepio da lógica do entretenimento que prevalecentemente continua a determinar práticas diversas. O teatro que apaixonava Joaquim Benite (sortilégio que nunca o abandonou) era esse teatro: o da literatura. Foi esse desejo de um outro teatro para os portugueses (para ele próprio, para os actores com quem trabalhava, e sobretudo para o público) que o levou a encenar textos de Shakespeare, Brecht, Thomas Bernhard, Lorca, Camus, Beckett, Marguerite Duras,etc.

No entanto, a sua acção transformadora afirmou-se também numa preocupação com tudo o que faz do teatro uma arte total, e de que é exemplo a grandeza inédita dos espaços cénicos que dirigiu, a desproporcionalidade voluntária entre o palco e a plateia, conferindo à cena desse teatro de arte a justa dimensão para o grande texto que sempre Joaquim Benite se propunha transformar no poema dramático que pudesse, num só ensejo, ser o espelho de todos – tocando também todos por igual na sua humanidade sensível.

A sua sensibilidade plástica levou-o a trabalhar com alguns dos mais notáveis artistas criadores das coisas materiais de que o teatro também é feito: os cenários, cujas formas e lugares numa cena de teatro Joaquim Benite procurou transformar em elementos poéticos constitutivos desse teatro – um teatro que ao longo da vida encenou com a raiva terna (ou a ternura enraivecida, não sei bem) que o caracterizava. Tinha o génio dos génios. Foi a ser esse, assim, que construiu um projecto teatral único em Portugal.

O seu desaparecimento deixa um lugar insubstituível na cena teatral do País e um lugar de honra na História do teatro português do pós-25 de Abril. Mas deixa também uma obra indelével em curso, de que fazem parte uma companhia de teatro (de artistas e técnicos formados por ele), um festival de teatro de dimensão internacional, e o vasto público que, como mais ninguém em Portugal, soube mobilizar para o teatro e demais artes do palco a que gostava de chamar «o fazer cultural».

Joaquim Benite (1943-2012)

O teatro português e a cidade de Almada estão de luto.

Um homem das mulheres

Perdi durante anos o contacto com a ovelha negra da minha família, o mais ruinoso, boémio, mal comportado, sacana de tio que nos pode tocar em sorte, e apesar – ou por causa – disso, o favorito de qualquer sobrinha.

Voltei a falar com ele há pouco e encontrei um desses conquistadores arruinados pelo tempo e pela vida vagabunda mas que continua a sentir-se, e a ser, irresistível. Há muitos anos era um campeão da má vida, um gabarolas que ganhava todas as rixas de bares, até aquela em que lhe cortaram um tendão com um gargalo de garrafa, o que o deixou com um dedo mendinho perpetuamente espetado, sinal de elegância que pode condizer com a chávena de chá mas não com o copo de vinho tinto que ele costumava erguer. Se algum recém-chegado ao tasco tinha a infeliz ideia de fazer pouco do dedo espetado, acabava a noite nas urgências do Santo António. Acho que em alguns antros de má fama, o mendinho espetado ainda é recordado como uma lenda, como certas histórias de piratas. [Read more…]

Yael Ronen

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© Schaubühne

A encenadora israelita Yael Ronen (n.1976) esteve no passado mês de Julho em Lisboa para, no âmbito do Festival de Teatro de Almada, apresentar no Teatro Nacional D. Maria II a sua mais recente criação: A véspera do dia final. Encenadora associada da Schaubühne (a mítica companhia de Berlim), Ronen foi nomeada em 2009 para o New Theatrical Realities Prize, um importante prémio europeu que reconhece a originalidade e a inovação das dramaturgias emergentes. Oráculo prudente, a encenadora trabalha no fio da actualidade, constantemente seguindo o que está a passar-se no teatro do Mundo, incessantemente actualizando o seu objecto teatral: “Estamos sempre prontos para que no fim da representação o Mundo já não seja o mesmo”, explicou a um jornalista alemão. As suas peças têm normalmente actores de diferentes nacionalidades (sobretudo israelitas, alemães e palestinianos), com quem Ronen trabalha em conjunto os seus textos, levando para as peças partes do próprio processo criativo: os telefonemas dos pais dos actores árabes e judeus, pedindo-lhes para que não representem terroristas, para que não falem mal da própria religião; o actor israelo-palestiniano que não teme o terror no Médio Oriente mas sim que alguém em Berlim, onde os teatros não têm checkpoints, entre armado pela Schaubühne adentro e o mate.

Constantemente no fio da actualidade, Yael Ronen tenta contudo ver para além das parangonas dos jornais e da desinformação que distraem a Humanidade daquilo que está a acontecer-lhe: a alienação pela religião, o recrudescimento das identidades nacionais, os grandes conflitos cujos desfechos terão inelutáveis consequências para todos, e de que é evidente paradigma o estado das coisas na Cisjordânia. O racismo, o preconceito, o fundamentalismo religioso, a violência por detrás dos falsos compromissos de negociação entre povos desavindos, a manipulação a que estão constantemente sujeitos, a desesperança: eis a combinação explosiva que segundo Ronen (mas não está sozinha nessa visão) nos afectará a todos se não interviermos atempadamente. Para dissecar as idiossincrasias de tudo o que nos separa ou reúne, Yael Ronen e a sua trupe abordaram as religiões como produtos nos quais apenas o marketing (essa ciência que é um remédio santo) parece ser capaz de encontrar qualidades. Assim, requalificando comercialmente os grandes símbolos (Jesus não já na cruz mas numa cadeira eléctrica, ou o judaísmo como religião de elite – “apenas 0,3% da população mundial mas 35% dos prémios Nobel”), a encenadora israelita consegue demonstrar-nos a que ponto a globalização da bárbara cultura da economia está a alienar-nos da histórica vocação universalista da Europa – actualmente paralisada, apenas capaz de, através do seu tribunal internacional, declarar ilegal o muro de várias centenas de quilómetros que separa os ‘ocupas’ de Israel dos restantes territórios palestinianos.

Dezembro


It was a cold and wet December day

Rodrigo Pinto e Diogo Oliveira, os Billy Elliot lusos

Em tempos de tão más notícias, de tanto negativismo alimentado por quem nos deveria dar esperanças, há luzes, grandes luzes que se levantam neste magnífico país do qual nos podemos sempre orgulhar. Sou uma Portuguesa orgulhosa de o ser. Admiro os Portugueses que toda a vida lutaram por uma vida melhor, aqueles que, com parcos recursos conseguem sustentar uma família e pagar as suas contas. Todos aqueles que, mesmo desempregados, mesmo sabendo que o mercado de trabalho está difícil, arregaçam as mangas e vão à luta. Caem e reerguem-se mais fortes, mais afoitos, mais prontos a arrostar com as dificuldades. [Read more…]

Curiosidades silenciadas

Portugueses, espanhóis, franceses, holandeses, nórdicos, americanos  e  ingleses, eis os habituais maléficos personagens em filmes dignos de Óscares, lágrimas e obras literárias que nos obrigam a um questionar da natureza humana. Este video mostra outra vertente universalmente conhecida, mas normalmente silenciada nesta época de todos os medos e comprometedor silêncio.

Porque será então importante uma reflexão? Porque a escravatura é uma realidade em alguns países, curiosamente podendo-se contar uns tantos prevaricadores entre as embaixadas em serviço na capital portuguesa.

Eduardo Lourenço, Vasco Pulido Valente e eu

    
Não é todos os dias que temos no PÚBLICO a opinião de Eduardo Lourenço, vulto da cultura portuguesa, intelectual de primeira, filósofo respeitado. Mas do seu texto «Da não-Europa» (sobre o futuro da UE), publicado no passado dia 24 e redigido em Vence (França), onde vive a maior parte do tempo, eu percebi muito pouco, quase nada. Ficou-me apenas a ideia de que a Inglaterra tem, para além de outros adjectivos, o de ser “uma super-nação”.
Fiquei desiludida por não conseguir acompanhar o seu racionício. Falou-me numa outra «língua» a que não tenho acesso pela minha humilde formação.
Que pena, pensei. Que ignorante me fiz. Um desperdício: Eduardo Lourenço escreveu no PÚBLICO e eu não aproveitei : “Frankenstein histórico que é hoje a União Europeia “; “nada que se pareça com o sonho para ela “demoníaco” de Jean Monet verá a luz do dia”; “E estaríamos agora a viver — quem sabe — uma  pax britannica numa Europa predestinada desde os tempos de César aos divinos filhos de Albion… “; “uma Europa onde não triunfem apenas instâncias obscuras sem outra ideologia que a da gestão do “ouro do Reno” wagneriano, convertido em deus do coração humano”; etc. Lindo, mas não percebo nada!! [Read more…]

João Tordo fez-me Chorar

Agora mesmo,  a minha mulher chamou-me a atenção para o Conto de Natal de João Tordo, num suplemento do Jornal de Notícias de hoje, Somos Livros. Tinha começado a ler e estava a achar divertido, partilhou. Decidi ler também. Atirei-me ao texto na esteira daquele prazer que cintilava nos olhinhos dela. Éramos os quatro na cozinha. Filhas brincando, pintando, a mais velha a aprender a ler com um puzzle de palavras entre mãos com que formava sucessivas frases. Da narrativa do João não falarei. Quem puder, que a prospecte e a sinta com o corpo todo, num JN junto de si. Do que senti, sim, tenho de falar e já. Não é todos os dias que se chega ao fim de uma leitura com os olhos marejados. E não fui apenas eu. A minha mulher também. Mal terminei, saí da cozinha com a palma das mãos nos olhos. Ela terminou depois de mim e eu vi as suas lágrimas, que para mim são o ápice do Belo, o Excesso do Poético, enquanto eu estiver vivo. Não sucede vulgarmente que o coração se nos estremeça só com uma história escrita certamente no Olimpo, junto das musas, olhos nos olhos com elas. Se quiserem enternecer-se e seguir neste dia mais humanos e mais sensíveis, leiam este conto do João. Foi uma Epifania para mim. Mais uma pela qual dou graças a Deus.

Sherlock Holmes na farmácia

Entrei na exposição “A Farmácia no Tempo de Aníbal Cunha” com aquela atitude birrenta de adolescente que alinha num programa a contragosto, sabendo que vai entediar-se, e apenas diz que sim para fazer a vontade a outros. Mãos nos bolsos, cara de parva, olhar sobranceiro, resignada à ideia de que ia perder tempo. Parece que há um resquício de estupidez juvenil que teima em desaparecer e se arrasta triunfalmente pelas décadas seguintes.

Antes de mais, a exposição é de entrada livre, e vai manter-se no átrio de Química do edifício da Reitoria da Universidade do Porto até 13 de Dezembro.

Aníbal Cunha foi um ilustre farmacêutico, e um empenhado republicano. Participou na revolta de 31 de Janeiro e foi um dos responsáveis pela criação da Faculdade de Farmácia do Porto, de que viria a ser director.

A exposição reúne equipamento de trabalho, como alambiques ou balanças de precisão, frascos e boiões de farmácia, cartazes publicitários dos medicamentos da época, e objectos capazes de despertar a vossa curiosidade como  uma máquina para fazer supositórios.   [Read more…]

Pré-venda a 26 de Novembro!! Iupiii!!!!

Mal posso esperar.

O mundo em que Vasco Pulido Valente entrou

Vasco Pulido Valente, todos o conhecem, não fala de si próprio. Mas agora que completou 71 anos (quarta-feira) deu-lhe para, com alguma “perversidade”, pensar no mundo em que entrou.

Gosto desta expressão “o mundo em que entrei“. Ora Pulido Valente nasceu a 21 de Novembro de 1941, quando “Hitler ocupava a Áustria, a Eslováquia, a República Checa, a Polónia, a Dinamarca, a Noruega (…)” e Portugal «neutro», numa neutralidade “arriscada e mais do que duvidosa”.

Gosto desta frase também: “O mundo não servia para se começar a vida“.

Ainda as suas palavras, para terminar a crónica dos «71 anos»: “É triste, ao fim de tanto tempo, chegar ao desespero a que nós chegámos. Mas, depois de 71 anos, talvez seja melhor do que nascer com a sombra de Hitler a 60 quilómetros de Moscovo. Portugal precisa de sair do seu isolamento e da sua complacência. E, agora, por uma vez, não tem outro remédio.” [Read more…]

Manuel Cruz: O nosso povo aguenta mas eu não sei até quando

1 é bom para fumar 2 é bom para bater 3 para dizer 4 é bom para falar 5 para ouvir 6 para ir lá para trás 7 eles sentem-se mais 8 eles sabem que o são 9 não cabem na cela 10 rebentam com ela

Como um arco-íris

Somos as coisas que moram dentro de nós. Por isso há pessoas que são bonitas. Não pela cara, mas pela exuberância do seu mundo interno. Há a estória da linda princesinha que foi enfeitiçada e, sempre que abria a boca, dela só saíam cobras, sapos e lagartos. Algumas pessoas, quando falam, delas sai um arco-íris.

(Rubem Alves, Do Universo à jabuticaba)

Felicidade tem U

Procuro notícias interessantes no PÚBLICO de hoje…

“Tal como nós, os orangotangos e os chimpanzés são mais felizes no início da vida e quando ficam mais velhos (…). A curva da felicidade ao longo da vida tem a forma de um U, os portugueses são mais felizes aos 66 anos. (…) Acontece aos homens e às mulheres, aos solteiros e aos casados, aos ricos e aos pobres, aos que têm filhos e aos que não têm“, disse então o economista Andrew Oswald sobre a crise da meia-idade, quando divulgou os resultados do trabalho na revista Social Science & Medicine.”

“Esperávamos compreender o famoso quebra-cabeças do padrão da felicidade humana e acabámos por mostrar que não pode ser por causa de empréstimos, divórcios, telemóveis ou outra parafernália da vida moderna“, diz Oswald. “Os símios não têm nada disso, mas têm uma crise de meia-idade pronunciada.

Ideias que não passam de estatísticas e estudos para «cientista ver» e que não acrescentam nada à nossa vida.

Mas vamos lá contrariar este estudo e aquele U! E trabalhar para sermos mais felizes na meia-idade!!

P.s.- a felicidade interessa!

Maionese

Palavra deliciosa, perfumada e viajada! E espanhola, acima de tudo!

A maionese é esse molho fabuloso que melhora qualquer sandes por mais pobre que ela seja! Mas não só. Acompanha bem com inúmeros pratos!! Tão importante ter no frigorífico como ter o leite!

Molho frio feito de azeite, vinagre, gemas de ovos, sal e especiarias, a maionese terá sido descoberta em Minorca no século XVIII por um primo do cardeal Richelieu que a provou numa estalagem local. Levou-a, ainda bem, para Paris, onde a iguaria obteve imediato sucesso na corte real.

A maionese é espanhola, embora as marcas que levamos para casa a façam mais alemã…

Mayonnaise, para os franceses, maionese para nós, ela é, para os espanhóis, uma «salsa mahonesa».

(Adoro a etimologia, essa parte da gramática que nos explica a origem das palavras.)

É que a maionese, mayonnaise, foi inventada em Maó (Mahón, em castelhano), capital da ilha de Minorca.

O seu a seu dono, por favor!

O rei de Redonda

Esta foto mostra o monarca John Gawsworth poucos meses antes de morrer, quando era já um sem-abrigo que mendigava pelas ruas de Londres, quase sempre alcoolizado. Deve ter sido alvo da caridade de alguns e da indiferença, quando não do desprezo, de outros, como sempre acontece aos mendigos, mas quantos saberiam que este homem era um rei e não um qualquer rei, o que já não seria pouco, mas o soberano de um reino imaginário, de um pedregulho perdido nos mares, povoado apenas por gaivotas e ratazanas, mas cuja corte incluía algumas das mais interessantes figuras do seu tempo?   [Read more…]

A Bola: ascensão do erro ortográfico

Ainda sou do tempo em que se podia aprender a escrever lendo jornais, sendo A Bola um baluarte da correcção e da vivacidade da língua, ou não tivessem lá escrito homens como Vítor Santos e Carlos Pinhão.

Como benfiquista, ainda não estou convencido do valor absoluto de Matic, embora tenha a certeza de que é melhor do que Javi Garcia, pela simples razão de que este já não faz parte do plantel. Como amante e aprendiz da língua portuguesa, desgosta-me que se faça referência à “ascenção” do médio benfiquista. Desejo-lhe, no entanto, para bem do Benfica e da ortografia, uma “ascensão” fulgurante.

Tradições

Diz que há autores mais actuais do que Camilo

Edviges Ferreira, presidente da Associação de Professores de Português, entre alguns comentários acertados acerca das discrepâncias entre as metas curriculares e os programas de Português, comenta a possibilidade de Camilo Castelo Branco voltar a ser estudado na disciplina de língua materna: “Durante muitos anos esteve no Secundário, mas as pessoas acharam que tinha de sair. Não me chocaria que voltasse a aparecer nos currículos, embora eu ache que há escritores mais actuais.”

Em primeiro lugar, é necessário notar que “as pessoas” constitui uma expressão demasiado vaga. Seria mais rigoroso afirmar que isso foi da responsabilidade dos autores autores dos programas de Português, programas esses que, goste-se ou não, reduziram o peso da literatura portuguesa e, concomitantemente, da história da literatura portuguesa. [Read more…]

Átrio dos Gentios

Decorre durante os próximos dois dias o Átrio dos Gentios, em Braga e Guimarães, subordinado ao tema “O Valor da Vida”.

Ana Luísa Amaral (“não sei se sou crente”; “tenho saudades de Deus”) confessa que gostava de ter fé e D. Carlos Azevedo explica o conceito do Átrio dos Gentios, no debate que ocorreu hoje à hora do almoço na Rádio Renascença.

“Crentes e não crentes amam a vida, defendem a dignidade e têm inquietações sobre estas questões.”

Vale a pena ouvir, não demora muito tempo. São dezoito minutos que ainda cabem na nossa vida!

“Felicidade inteligente”; “todos sentimos a dor, todos pensamos”; ” a arte pode ser um caminho para expandir os afectos”; “a compaixão, sentir com o outro”; “ver o outro feliz”; “o futuro exige de nós que sejamos ponto de partida” ; “precisamos de recantos e cantos onde a nossa alma se anime”; “narrar a vida torna-a mais preciosa”; “a poesia é a versão laica da oração”- são algumas das ideias que se podem ouvir entre a poetisa e o sacerdote.

Não há muros entre nós, crentes, e não crentes.

A pessoa que somos

481 A pessoa que somos, e que parece evidente, aprende-se devagar.

Também é matéria difícil. Mas tudo o que é essencial na vida é difícil. (…)

(Vergílio Ferreira, Pensar)

Um dia… Um dia, alguém irá conseguir que A Minha Pessoa seja matéria a estudar nas escolas! Ideia maluca? Eu não sei…

Quando eu gosto, eu digo

«Por que temos medo de dizer a uma pessoa que gostamos dela?». Minha mãe, imagino que ela gostasse de mim. Mas ela nunca me disse. Nem o meu pai. Teria sido tão bom se ela me abraçasse e dissesse: «Meu filho, como eu gosto de você!». Dirão que não é preciso. Discordo. É preciso. Escrevi uma carta para meu irmão mais velho que começava assim: «Meu querido irmão Ismael…». Ele me respondeu espantado: «É a primeira vez na minha vida que alguém me chama de querido». E ele já estava nos seus 75 anos de idade! Resolvi que não vou ficar atrás da cortina, espiando. Quando gosto, eu digo.

            (Rubem Alves, Do Universo à jabuticaba)

Mozart luta contra a servidão nas suas óperas

 

Mozart na sua infância

 

Escrever sobre Mozart, é apenas um pretexto para referir um precursor da defesa dos, hoje em dia, denominados defensores dos direitos humanos. Durante a sua época de vida, existiam abusos de poder contra os trabalhadores da terra dos senhorios que as possuíam. Os trabalhadores eram denominados servos, palavra que vem da definição: Aquele que não dispõe da sua pessoa, nem de bens. Ou homem adstrito à gleba e dependente de um senhor. Fonte: Dicionário Priberam da língua portuguesa. [Read more…]

Luís, o poeta, decassílaba-se sobre a Greve Geral

Logo de Macedónia estão as gentes,
A quem lava do Axio a água fria;
E vós também, ó terras excelentes
Nos costumes, engenhos e ousadia,
Que criastes os peitos eloquentes
E os juízos de alta fantasia,
Com quem tu, clara Grécia, o Céu penetras,
E não menos por armas, que por letras.

Logo os Dálmatas vivem; e no seio,
Onde Antenor já muros levantou,
A soberba Veneza está no meio
Das águas, que tão baixa começou.
Da terra um braço vem ao mar, que cheio
De esforço, nações várias sujeitou,
Braço forte, de gente sublimada,
Não menos nos engenhos, que na espada. [Read more…]

Mudar de Vida

Apoie este filme sobre José Mário Branco, aqui.

Almoço Aventar, Epifania do Outro

E, levantando-as do chão, a Maria Celeste deu-nos folhinhas de choupo, recordando como a sua forma é a de um coração, cor, cordis, cordata.

Ao princípio, nunca se faz a menor suspeita de como a palma das nossas mãos e a amplitude dos nossos braços desabrocharão perante a epifania do outro que não conhecíamos, do outro já conhecido. Tudo parece incerto, ou tolhido de ansiedade ou sem quaisquer expectativas que contrastem com a banalidade habitual de se estar vivo e haver vagamente gente que passa ao largo, dia-a-dia. Há quem acalente antecipadamente a alegria do Encontro agendado. Há quem albergue uma migalha de medo, talvez insegurança por causa desta tenda de carne onde moramos, batida pelo sol dos anos, vergastada pelos aguaceiros da dor inescapável. Depois, sem peias, sem reservas, sem barreiras, milagre da comida, sortilégio da bebida, vontade-árvore de dar tudo sem esperar nada, o almoço transfigura-nos e o afecto faz-se torrente, esporo de pólen da Elaeis guineensis, inseminando de milagre e de anti-acaso o estarmos juntos. Tudo concentrado numas horas de nada. Gargalhada daqui, aceno dacolá, um sorriso, um brilho bruxuleante no olhar acalentado pelo brilho no olhar bruxuleante. Falo por mim e, ouso-o!, falo pelos demais amigos do Aventar, ontem, na adega do Casino da Urca, a um passo de Santa Clara-a-Velha: se éramos corpos, ficámos corpo. Mais corpo.

«Mais um copo, Fernando!» «Bela jeropiga caseira, Jorge!» «Não poderia deixar de me fazer acompanhar das minhas filhinhas e da mulher! O Ricardo, igual.» «Vamos no Cozido à Portuguesa.»

O tempo trai-nos. Por ser fugidio e não haver como descarregar todos os ficheiros de quanto somos no âmago, queremos dizer-nos tudo ou ouvir tudo de todos na fracção infinitesimal de um segundo.  Só crianças se entregam assim e se partilham assim, numa avidez desmedida, sorte a delas e a nossa, se lhes semelharmos. Pensámos nos aventadores que não estavam. Espreitávamos o que aventavam.

A Maria Celeste esteve connosco. E o que eu nela vi foi grandioso: viagem que fala de si, da Itália ao Amazonas, encanto que pulsa com a vida, com a arte, com o cosmos, com tudo o que Portugal tem de único e admirável. Conversar com a Maria Celeste, abraçá-la, beijar-lhe a fronte muitas vezes, comover-me com ela, rir e pasmar com as descobertas e reflexões dela, recordou-me o quando éramos todos meninos e passávamos certamente toda a tarde a brincar e a interrogar-nos. Às vezes o nosso buraco de adultos é inconfessável, no seu deserto de presenças, e mesmo intransponível, até que a insistência muito além de cordata de alguém nos estende a mão para ressurgirmos à luz. Foi assim comigo. Foi assim, sem dúvida, com a Maria. Mas eu sabia bem ao que ia. Ela, talvez não inteiramente. Esvaiu-se-nos a tarde, fomos felizes mesmo em rebelia contra um tempo impiedoso de tão apressado.

Tanto mais teria eu de pincelar acerca do José João, do seu humor e narrativas; do Fernando, simpatia que incarnou e se fez homem; da neo-aventadora Teresa, espirituosa como poucas; da astuta e bela Carla; da meiga e vivaz Céu; da maternal Noémia; da Lourdes maternal, mulher que eu amo; de todo um grupo sob o deslumbramento das nossas quatro meninas que brincavam por todo o perímetro. Nem faltou um forte abraço à gente boa que tão bem nos acolheu e alimentou. Enfim…

Não, não há palavras!

Arquitectura para cães ou o futuro é deles

Niemeyer, 104 anos, o arquitecto brasileiro conhecido sobretudo por traçar Brasília, está doente; os nossos jovens arquitectos emigram; os ateliers dos grandes como Siza Vieira estão a dispensar pessoal e o gabinete pode fechar; e o presidente da Ordem dos Arquitectos afirmou à RR que “A profissão de arquitecto atravessa, tanto quanto há memória, a mais grave crise de sempre, por falta de oportunidades, trabalho e encomendas, o que tem como resultado uma situação de praticamente paragem de grande parte dos ateliers ou dos profissionais envolvidos, sobretudo, na área de projectos, mas também todos aqueles que estão ligados ao sector da construção”.

desemprego na construção civil já atinge 100 mil (dados de Outubro).

Não havendo casas de gente para construir, os arquitectos e designers “de renome”  dedicam-se ao desenho de uma linha de casas de cães

O futuro é dos animais!

O que pensará Niemeyer destes novos clientes e da nova «arquitectura»?

Não me admirava nada que por aí surgisse um novo curso ou nova disciplina nos cursos de Arquitectura.

E para concluir: cães tratados como gente e gente tratada como cães