Os pés pelas mãos
Passar à História
(adão cruz)
Texto, sempre oportuno, de Marcos Cruz
PASSAR À HISTÓRIA
Como Se Fora Um Conto – O mês de Junho terminou, já acabaram as festas populares – o S. João –
À minha direita o mar, lá ao longe, à minha frente uma parede de pedra e à minha esquerda as duas senhoras já entradas na idade terceira, que ciciavam. Sentadas uma ao lado da outra, à mesa do café, falavam em surdina dos tempos de antigamente. Em cima da mesa estavam guardanapos, uma torrada de pão de forma, uma mirita, uma meia de leite e um pingo.
O tema da conversa era a festa do São João, comparando a de agora, com a de outrora.
Na verdade pouco se entendia da conversa, apesar dos meus esforços de atenção e do meu esticar de orelhas para aquele lado, já que conseguiam falar bastante baixo.
No entanto lá pude perceber sobre que conversavam e apanhar uma ou outra ideia. Essencialmente, adoravam o Porto e a sua festa da noite de S. João, mas não gostavam de barulho, nem dos martelos, nem da música que dos altifalantes saía e que se ouvia por toda a cidade, nem do ronco das recentes vovuzelas. Também lhes fazia falta o alho e a cidreira, e os bailaricos. Sim, os bailaricos que havia, e que assumo que ainda haja, toda a santa noite, em inúmeros pontos da cidade do Porto.
Aos poucos fui deixando de as ouvir. Catalisados pela conversa que eu entre-ouvia, os meus pensamentos começaram a tomar conta de mim.
Vi-me na minha meninice e também no fim da minha juventude. A revolução tinha acabado de acontecer e a «liberdade» tinha chegado.
Na altura a festa do S. João estava [Read more…]
S. João

(adão cruz - S.João - mais um 2010)
(Texto de Marcos Cruz)
S. JOÃO
Saramago, o festim dos medíocres
A morte de Saramago parece ter acordado ódios, rancores e invejas que jaziam latentes e adormecidos.
Escrevem-se artigos, fazem-se comentários em blogues, circulam e-mails que, como dizia Almada, se são portugueses me fazem desejar ser espanhol. Morar em Espanha é, aliás, uma afronta que muita gentinha não perdoa a Saramago. Ontem, um post num blogue a que não faço o favor de linkar deixou-me triste, muito mais triste do que revoltado, com a pequenez de alguns conterrâneos meus contemporâneos, com a maldade verrinosa perante alguém cuja obra lhes é indiferente e desconhecida, ainda que a ela depreciativamente se refiram.
Saramago era um homem perfeito? Todos sabemos que não, de homens perfeitos estão os céus e restantes paragens vazios.
Mas gente que não escreve quatro palavras seguidas sem dois erros ortográficos de permeio perora sobre o escritor e sua escrita.
Tipos que têm de Deus a imagem de um velhinho de túnica e barbas brancas sentado no cocuruto do universo, zelosamente velando por eles, dissertam sobre a falta de fé de Saramago.
Católicos convictos comparam a cremação a um acto de fé tardio e desejam que arda eternamente no inferno, sem remissão nem perdão.
Acríticos defensores das virtudes do neo-liberalismo chamam-lhe traidor por ter decidido atravessar fronteiras e habitar outro país.
Filhos que venderiam a mãe por três tostões acusam-no de avidez e ganância.
Indivíduos a quem não se compraria um carro em segunda mão falam do seu sucesso como produto, apenas e somente, de bem sucedidas campanhas de marketing.
Patetas que se curvam de inveja e bajulação perante um vencedor do terceiro prémio do totobola desdenham o Nobel de Saramago.
A lista continuaria se a mim próprio não agredisse.
Triste país, tristes filhos, fraca gente, alegre falta de escrúpulos e de vergonha.
Ainda tinha umas coisas para dizer sobre o Saramago mas li isto
Nunca liguei muito ao José Saramago-escritor.
Adorava o José Saramago-político.
Gostava assim-assim do José Saramago pessoa.
Tinha uma opinião francamente positiva em relação ao José Saramago homem.
O José Saramago-jardineiro era um desastrado.
O José Saramago-contador-de-anedotas-em-castelhano era um prato!
Era impecável o José Saramago-vizinho.
O José Saramago-colega-de-quarto era um desleixado inacreditável.
O José Saramago-marido era muito atencioso mas deixava sempre o tampo da sanita levantado.
e assim sendo, o Diogo Augusto deixou-me sem essas coisas, palavras e esse género de.
Já não tenho.
escrevemos. qual o debate?

qual a utilidade da ciência para a arte de saber governar?
Eis a questão. E, como o poeta de Hamlet, não quero ficar na dúvida. Tenho por hábito enviar os textos que escrevemos, para comentários, às pessoas com as quais trabalho. Como as visões são heterogéneas, estes comentários também o são: uns propõem textos alternativos; outros dizem que ficam com novas ideias; há ainda os que nem respondem. Numa equipa de trabalho, é normal ser assim.
A polémica é pretexto para outros textos. Mas onde está o colega e o leitor? Será que eu escrevo apenas pelo prazer de escrever, com metáforas mais ou menos adequadas, com factos que permitem ideias novas, com ideias novas ou já muito manipuladas? Será que avanço? Em Portugal, não recebi mais do que recensões muito agradáveis ao meu ego. Mas, polémica nenhuma. Já em 1992, no meu livro “A religião como teoria da reprodução social”, fiz o primeiro desafio no Prefácio. Até hoje, silêncio. Silêncio ainda na 2ª edição da Fim do Século…
Duas palavras a Saramago
(Peço desculpa de estar a meter, tantas vezes, a família ao barulho. Se os digníssimos responsáveis pelo Aventar discordarem, agradeço que me digam e acatarei todas as indicações. Desta vez é um pequenino poema de minha irmã, a escritora e poeta Eva Cruz).

(adao cruz)
Duas palavras a Saramago
Levantado do chão
como só os Homens de sonho se erguem
não há vida que te deite nem morte que te leve.
A lucidez esparsa em luz nas páginas dos teus livros
de mão dada com a terna dureza do teu carácter
há-de curar os olhos da cegueira
e abrir as palavras do teu Evangelho
às correntes límpidas dos rios
que regam a terra de sabedoria.
Ler como ser

(adao cruz – o eco)

(Em tempo de livros parece-me útil este texto de Marcos Cruz)
Ler como ser
Penso se um dos trunfos da escrita não será o facto de que quem lê está envolvido na leitura e, dentro da dinâmica própria em que a leitura se processa, não tem tempo para reflectir sobre o que vem a seguir. Refiro-me, concretamente, a estes textos que escrevo. À medida que os vou escrevendo, cada uma das palavras impressas me ecoa na cabeça e, como qualquer eco, traz uma aparência indefinida, dividida ou multiplicada, não sei, mas em que são perceptíveis várias derivações, relações profícuas, como quando se atira uma pedra a um rio e os círculos nascem uns dos outros, trementes, nunca parados, mas suficientemente nítidos para os podermos cristalizar na memória e, depois, se for caso disso, fazermos uso deles. Mais ou menos assim é, aliás, a vida: nunca pára, não dá para apanharmos verdadeiramente nada a não ser essas impressões e, depois, se for caso disso, fazermos uso delas. Será a vida um eco? Não sei. Mas também não era por aí que eu ia. [Read more…]
Saramago devia ir para o Panteão
Mas não vai.
É bem feito. Quem é que o mandou ser comunista?
Saramago e o Estado Laico
Era o ano de 1992 e o governo de que Cavaco Silva era o primeiro, por interposto Subsecretário de Estado da Cultura Sousa Lara , cortou o Evangelho segundo Jesus Cristo da lista de livros concorrentes ao Prémio Literário Europeu. “A obra atacou princípios que têm a ver com o património religioso dos portugueses. Longe de os unir, dividiu-os.” Mas nem Cavaco nem Sousa Lara estavam sozinhos.
Dezoito anos mais tarde, tudo mudou. Para não distrair o governo da difícil tarefa de disfarçar a crise financeira onde também caímos, o mesmo íntegro, intelectualmente honesto e nunca equivocado Cavaco Silva, promulga a lei do casamento entre pessoas do mesmo sexo, atentando assim contra o feroz discurso homofóbico da Igreja Católica e ignorando o milenar património religioso dos portugueses. Escapou-me alguma coisa?
Declaração de interesses: não li o Evangelho de Saramago. De Saramago só conheço alguns capítulos de Viagem a Portugal
Saramago – está na hora de acabar!
1975 – Saramago é nomeado director adjunto do DN. “Quem não está com a revolução, é melhor não estar no DN.” diz para os atónitos jornalistas e colegas. Em tempo de opções radicalizadas, os editoriais vinham ao serviço da facção gonçalvista do MFA. O saneamento de 30 jornalistas colou ao seu nome um rasto de polémica que o acompanhou sempre” – Publico de hoje.
Foi preciso lutar para termos uma democracia em Portugal. Primeiro contra a tentativa totalitária da esquerda, depois contra a tentativa totalitária da direita. Foi preciso lutar e foi preciso vencer, há nomes e rostos que estiveram de um lado e outro da barricada e isso não se esquece passando uma esponja de elogios inflamados.
Saramago foi um homem de susceptibilidades à flor da pele, mal tratado por um alucinado medíocre que esteve sub-secretário de estado da cultura, não mais perdoou ao país o que considerou um agravo . País, esse, onde vendia os seus livros e utilizava a língua mãe para escrever, foi viver para longe porque o país não era digno dele. Eu estou do lado do meu país, mesmo que tenha burros como o sr. Sousa Lara .
Inchei de orgulho por lhe ter sido atribuído o Prémio Nobel da Literatura , admiro a sua obra e fiz do Memorial do Convento um dos livros da minha vida. Nunca gostei de Saramago tambem porque perfilhava uma ideologia contra a qual luto e continuarei a lutar.
Mas é tempo de enterrar velhos sentimentos, não ódios, porque eu não perfilho ódios, mas também não tenho “santinhos” a quem dedicar as minhas preces.
É pois tempo de acabar. Descansa em PAZ José Saramago!
Pais, a profissão mais antiga e mais desprestigiada do mundo

Começava a escrever este texto, ouvi a notícia que todo o mundo sabe. Às nossas 11.30 de ontem, 9.30 de Lanzarote onde morava, calava para sempre José Saramago. Bom ou não, este texto é para ele, além do escrito em Aventar e em Estrolábio.
A condição da criança dura apenas um instante. Um minuto das várias horas que estruturam o nosso ser histórico. Ser pai é um sentimento que parece durar até o derradeiro dia da nossa vida. [Read more…]
Amigo Saramago
Amigo Saramago
Recebi, desde há umas horas atrás, alguns telefonemas e mensagens de amigos meus espanhóis que te adoram. Uma amiga minha dizia que a qualidade ou virtude que mais admirou em ti, e que mais a marcou, foi a lucidez. Concordo absolutamente com ela. E disse-lhe que tu morreste, segundo me informaram, em plena lucidez e consciência, sem qualquer medo ou surpresa em relação à morte. Foi assim e não podia ser de outra maneira, porque tu tinhas da vida e da morte o conceito antropológico, filosófico e de liberdade com que vivem e morrem os homens que não são homens vulgares.
E tu não foste um homem vulgar. Por isso me afligem as pessoas que te ignoram e odeiam, como ignoram tudo o que está para além da fronteira onde a sua mente não consegue chegar ou não quer chegar. Do ponto de vista literário, tu fizeste o que, até aí, ninguém fez, talvez depois do Padre António Vieira. Revolucionaste a literatura, quebraste a cristalização da literatura clássica como se tivesses feito explodir um fogo de artifício ao fim da página trinta ou quarenta do teu “Levantado do chão”. Criaste uma profunda influência na maior parte dos escritores portugueses actuais. E não só portugueses. Eu não sou nenhum especialista em literatura nem pretendo arvorar-me em tal, mas como tu pensavas, e bem, a literatura é uma espécie de “Casa de Deus” onde todos cabem e têm o seu lugar. Claro que “Casa de Deus”, aqui, a terás entendido como casa da arte. Deus nada tem a ver contigo nem comigo. [Read more…]
In memoriam a José Saramago: O Serralheiro/Escritor
Insubmisso.
Interventivo…
Jamais Omisso,
Genuflectido!
Homem de Crenças
Homem Sofrido
Nas Desavenças
Sempre Temido…
Homem do Povo
Sua Condição
Sempre e de novo
Homem do Não…
De Proletário
A prémio Nobel
Tão Solidário
Quão admirável
Génio das Letras
Obra que medra
Sem meias Tretas
“Jangada de Pedra”
Palavra em riste
Sempre em peleja
Fácies Triste
Postura castreja
Com Portugal
Palavra ao vento
“Memorial
“De” um “Convento”
“Pequenas Memórias”
De tão ruim
Velhas histórias
Desse “Caim”
Adeus, José
Lá nesse assento
Retoma o pé
Para novo alento!
Que contributo
Ante o fastio
Preenche o luto
Deste vazio?
(Mário Frota)
Luto Nacional na morte de José Saramago
A maior homenagem a José Saramago não é o luto nacional que vai, e bem, ser decretado. São os do costume que infestam as caixas de comentários vaporizando ódio, horrorizados por um comunista fazer descer a bandeira nacional a meia-haste.
Calculo o gozo que deu a Saramago imaginar a polémica costumeira como tantas outras que provocou. Se houvesse vida após a morte estava a rir-se, e eles, que acreditam nas almas, imaginando-se a chatear a memória do homem que sempre detestaram.

Saramago (sa-ra-ma-go) sm (ár sarmaq) Planta crucífera (Raphanus raphanistrum).
«Onde dez mil páginas não bastariam, uma é demais»
«A viagem não é longa, o viajante pode ir devagar. E, para seu maior descanso, deixa a estrada principal e segue por esta, modestíssima, que faz companhia ao rio Lis. É um modo de preparar-se em paz para enfrentar o Mosteiro de Santa Maria da Vitória. O viajante escreve estas palavras muito seguro de si, mas em seu íntimo sabe que não tem salvação possível. Onde dez mil páginas não bastariam, uma é demais. Tem muita pena de não estar viajando de avião, assim poderia dizer: ‘Mal pude olhar, ia muito alto’. Mas é pelo chãozinho natural que vai, e está quase a chegar, não há aqui fugir um homem ao seu dever. Mais fácil tarefa foi a de Nuno Álvares, que só teve de vencer os castelhanos.» (José Saramago, Viagem a Portugal)
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Homens – entulho

(adao cruz)
Homens – entulho
Para além de nós há o mundo, e durante muito tempo ignorei o mundo.
Esqueci as valas comuns que toquei ao de leve, muito ao de leve, não fosse os mortos magoar.
Nas margens verdes do Dniepre, regadas de lágrimas, onde cresceram flores sobre o chão de Babi-yar.
Umas de sal e água no mar quente de Bissau bordando a lodo o cais de Pidjiguiti, outras de sangue esguichado das cabeças à tona de água em último respiro, outras de terra ensopada em rios de morte.
No ventre de um Wiriyamu fuzilado, na penugem de Chinteya, nas balas de Vaina, no esventrar de Zostina.
Nos gestos de um vulcão de raiva, em cada taça de vingança que nem a morte amansa nos túmulos da Palestina.
Sangue de Cristo – In Nomine Patris – mártires sem martirológio, corpos fecundos erguei bem alto os ossos descarnados que a morte é de acordar e semear flores na aposta de outros mundos. Erguei os rostos mirrados dos famintos da Terra, dos homens-entulho da grande vala comum, cavada no peito dos Humilhados e Ofendidos pelos homens sem rosto, rasgada no ventre dos Condenados da Terra pelos homens sem alma.
José Saramago…..esgotaram-se as palavras

silêncio, Saramago está a dormir...
As palavras leva-as o vento. As lembranças ficam com nós.
Não faz muito tempo, tive a honra de jantar com ele na casa de Belém. Partilhámos a mesma mesa.
José Saramago era um Abel
Silêncio! Está a dormir até o seu próximo romance….
José Saramago, 1922-2010
Não sou exactamente um apreciador entusiasmado da obra de José Saramago: ideias geniais, uma escrita que nem por isso. Mas foi sem dúvida um dos grandes escritores da nossa língua, detentor de amores e ódios.
É aos que dele disseram o que maomé não pensou do toucinho que deixo uma pequena informação: não, não vai arder no inferno. Pelo simples facto de que tal não existe, e extinta a vida ficará a obra. E os seus primeiros romances, muito em particular o Memorial do Convento e a História do Cerco de Lisboa, bem o merecem. Adeus José Saramago.
Freios, porcos e maus

( Pormenor - adao cruz)
(Estive fora e depois de regressar adoeci. Por isso, esta ausência do Aventar. Peço desculpa de preencher o vazio ( ou talvez não), com um texto que não é meu. Nestes tempos um tanto conturbados, dentro e fora do Aventar, em que vêm à tona, com muita facilidade, valores e desvalores, eu penso que este texto do Marcos Cruz pode ser interessante).
Freios, Porcos e Maus
Devia haver um Dia Mundial do Desenfreado (pela piada fonética, até merecia ser feriado), em que todos despejássemos indiscriminadamente o que trazemos dentro, o lixo orgânico e anímico no mesmo saco, no saco do Dia. Eu, cá por mim, vou fazer de conta que é hoje e, daqui para a frente, o que este texto contiver já terá de ser lido à luz dessa ausência de critério. Normalmente, o que me acontece é pegar numa ideia mínima e desenrolá-la, como se faz à massa de rissóis. Só que depois não vou lá com os copos, aliás, se lá fosse com os copos não escreveria nada de jeito, ou às tantas até era assim que arranjava maneira de o fazer, pois quem sabe se as minhas coisas são ou não de jeito é quem as lê, incluindo eu quando assumo esse papel. Nesta última frase, confesso já, quebrei as regras, porque onde escrevi “assumo esse papel” pensei antes escrever “o faço”, mas como tinha escrito, um pouco acima, “arranjava maneira de o fazer”, achei melhor não repetir o verbo. Mas continuemos: não vou lá com os copos, em vez disso junto a massa toda e chapo-a no blogue, menos bruta, concerteza, mais espalmada, mas para vocês fazerem dela o que quiserem. Porque é que me sai das mãos, ou do rolo, menos bruta do que a ele chegou, eis a questão. Em todo o caso, é uma questão que hoje, por ser, para mim, Dia Mundial do Desenfreado, não poderei explorar, ou melhor, poder explorar até posso, mas não poderei esclarecer, porque não garanto coerência ou consistência na abordagem, ou então não seria Dia Mundial do Desenfreado e sim Dia do Freio, a que levanto desde já o dedo do meio, porque esse é todos os dias. [Read more…]
Como Se Fora Um Conto – A Srª Maria, o Sr Manuel, e o Orgulho de se Ser Português
A srª Maria e o sr Manuel casaram-se em 2008 entre o Natal e o Ano-Novo. Para ela o primeiro casamento, tardio, pois que quase na casa dos cinquenta anos. Para ele uma repetição.
A srª Maria tem formação em economia e é CEO de um banco, e o sr Manuel foi Ministro das Finanças e é uma pessoa muito importante num partido político, ambos da África do Sul.
A srª Maria é uma das mulheres mais influentes do Mundo, segundo uma revista importante, a Fortune. Diz-se por lá até, que é a nona mulher mais influente do planeta.
Para esta crónica o sr Manuel deixa aqui de ter interesse. Não é Português nem nasceu em Portugal. É uma pessoa que não nos diz nada seja a que título for. As suas relações sanguíneas e familiares com o nosso País, são nulas. Só foi aqui falado pelo peculiar nome, que faria lembrar um qualquer ancestral lusitano, e pelo seu casamento com a srª Maria
Para esta crónica a srª Maria continua a ter interesse. Não é Portuguesa mas nasceu em Portugal, na capital do que um dia foi um Império. [Read more…]
Desilusão

(adao cruz)
(Dedicado ao Joaquim Quicola, amigo que eu sei que me entende)
Desilusão
Olho as folhas caídas na espiral de espinhos e flores e água sem regresso. Minha voz de gravador que outros ouvem, só eu não, tem milhões de segundos num segundo que já foi meu.
Sonho de amor, invisível e ateu.
Pela escada fantasma do falso destino, destino essencial, quem subia ou descia, afinal…era eu.
Nos gestos por dentro, nos jardins de contraste da natureza fecunda, no penoso brio de um curriculum lavrado na areia, meti as mãos na areia e palpei o futuro.
Palpei a filosofia dos cadáveres, e em febril pulsação, espremi a vida dentro de uma mão cheia.
Enchi de virilidade a cidade, a cidade e o lixo, o lixo e o luxo, a luz e eu.
No fundo das veias nasceu gelado um provinciano despojo, feito de tempo gasto e de nojo.
Por dentro e por fora saltaram faíscas de senso e contra-senso, que apenas escreveram epitáfios de sangue em letra de amor e fizeram um caixão com as tábuas da verdade.
A verdade era uma mesa, a vida os dados, e o amor a saudade de quem jogou a certeza nos passos errados.
Entre a tese e a antítese nada voa nem mexe, não há sim nem não entre passado e presente, e o futuro é o deserto que temos à frente.
Neste chão de lama, na ejaculação abortada, nos restos de orgia da orgia de restos, em ritmo de coração moribundo, sobra o tremor da carne adormecida.
A arte, o sonho, a verdade, o viço e a cor perderam o brilho, e a esperança sopra cinzas que ninguém sabe do que são.
Como Se Fora Um Conto – O Descalabro do J
O Descalabro do J
O estrondo, enorme e contínuo, baralha as ideias, impede o pensamento e perturba o imperturbável caminhar das horas e dos dias.
As casas, os prédios e as pontes, caem como baralhos de cartas, lançando a destruição à sua volta. As estradas, as ruas e os caminhos, desaparecem, deixando no seu lugar, uma amálgama de trilhos sem sentido e sem indicação de rumo.
No meio de tanta desgraça, J sente-se perdido. Olha à sua volta e só a devastação e a ruína se encontram à vista. O desespero ameaça tomar conta das suas acções. As soluções não existem, os caminhos não se vêm, a solidão está presente.
Os familiares, mesmo que voltassem com os seus esforços e cheios de boa vontade, não apagariam a tristeza nem acalmariam a desesperança.
J é a imagem personificada do desânimo.
Ao seu lado, não tem companheiros de infortúnio. Ninguém repara no seu sofrimento, ou ao menos se importa. Cada um tem a sua própria dor. E as dores dos outros são sempre privadas. [Read more…]
As Putas

(adao cruz)
(Texto de Marcos Cruz)
(Não deixem de ler. Eu próprio fiquei impressionado)
AS PUTAS
Desejosamente…fugazmente viva

(pormenor - adao cruz)
Dizem as noites sem olhos que estás morta, excessivamente morta, provisoriamente fugazmente morta.
O electrocardiograma parece uma linha isoeléctrica, mas o coração pulsa. Há corações vivos que não pulsam!
O pulso do morto é o pulso de quem palpa o pulso do morto, todo o médico e enfermeiro sabe disso, mas ninguém lhes tira da cabeça que a morte ainda há-de oferecer, um dia, a alguém, um cálice de Porto.
O salto da neurobiologia ao pensamento está dentro da biologia evolucionária, e a morte que se acautele, porque o pensamento poderá libertar-se e marimbar-se para as suas ameaças.
Não esquecer, contudo, que a prenhez do pensamento pode tornar-se um suplício quando o défice do “ser” ultrapassa o voluptuoso incremento do “parecer”.
Dizem as madrugadas sonhadas que estás viva, fugazmente viva, provavelmente não excessivamente morta.
O orgulho da própria morte pode transformar-se numa embriaguez perigosa, que faz trocar a “velhice” dos vinte pela “juventude” dos cinquenta.
Traumatismos e superações são rosário de todas as vidas, plasticizadas ou não.
Pena é que o facilitismo da gestualidade se sobreponha à interpretação das matrizes da vida e redunde em arremedos de paraíso.
Dizem as manhãs acordadas que estás morta, excessivamente morta, desejosamente…fugazmente viva.









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