Jacob Maersk

Nós tivemos um navio naufragado na nossa praia, anos e anos a vê-lo enferrujar, um colosso enterrado, ou o que restava dele, um pedaço de proa ao alto, que os miúdos usavam como parque de diversões, perigoso como era, havia que trepá-lo apesar da inclinação, segurar-se às ripas podres, evitar as lâminas enferrujadas, e, uma vez conquistado, segurar-se bem ao bico da proa e olhar em volta, capitão por instantes. As meninas lingrinhas como eu não o trepavam mas ficavam a ver os rapazes, como se exibiam barco acima enquanto nós temíamos vê-los morrer ali mesmo enquanto comíamos maçãs, que história teríamos depois para contar, aquele rapaz matou-se no barco encalhado, era tão giro, fazia covinhas na cara quando ria. Mas eles salvavam-se sempre, regressavam ao areal triunfais, pegavam-se à porrada para celebrar o feito, obrigavam o vencido a comer areia, e nunca nenhum morreu, o que para nós era bom e entediante. [Read more…]

Municipalização da educação: quietinhos, não respirem, já está!

Santana Castilho *

Nuno Crato, Poiares Maduro e os autarcas experimentalistas trataram a Educação como se fosse uma grande rotunda e os professores como pacientes sujeitos a raio xis: quietinhos, não respirem, já está! É o mais generoso que se pode dizer quando se analisa o processo e a proposta de Contrato Interadministrativo de Delegação de Competências, com que pretendem pôr em prática o que é comumente designado por municipalização da Educação. O processo teve a clareza de um pântano. O documento são 28 páginas de verbo magro e matreirice gorda. Deplorável, para qualquer Administração pública decente. Adequado a um Governo a que só falta privatizar o Galo de Barcelos. Passemos a alguns factos ilustrativos da mediocridade, que todos não cabem.

Várias cláusulas da proposta de contrato são ilegais, porque desrespeitam o regime de autonomia, administração e gestão das escolas públicas, fixado em três diplomas (DL nº 75/2008, de 22 de Abril, DL nº 224/2009, de 11 de Setembro, e DL nº 137/2012, de 2 de Julho). É o caso concreto da alteração das competências dos conselhos gerais e dos directores, que só um decreto-lei poderia derrogar. O choque entre a lei e o contrato é mais gritante no caso das escolas com contratos de autonomia. Aqui, são duas portarias (a nº 265/2012 e a nº 44/2014) implodidas pela autocracia dos contratantes. [Read more…]

A armadilha

Quem siga a politiquice terá reparado no recorrente tema “presidenciais”. Guterres avança? E Marcelo? Santana acha mesmo que se esqueceram da incubadora? E aquela personagem do Batman irá a votos? Enfim, uma novela recorrentemente alimentada por PSD e PS.

Compreende-se que assim seja, já que essa é a próxima eleição. Ou não será esse o caso?

Pois o caso é, de facto, outro. A seguir teremos eleições legislativas, das quais pouco se fala, sendo a agenda mediática alimentada com uma eleição secundária neste momento.

É uma estratégia que interessa simultaneamente ao governo e ao PS. Ao primeiro para adiar a discussão do que será o próximo programa de governo e ao segundo para adiar a discussão do que será o próximo programa de governo. Ambos procuram fugir da explicitação do que será a sua futura governação, a saber, a continuação da política de mais impostos, mais cortes e mais privatizações.

E quanto menos se falar do que vão fazer mais manso andará o povo, sem que cresça espaço para uma solução Syriza por cá. Infelizmente, ainda vamos sofrer muito até que o arco do poder caia.

Agora a vida vale menos de 21 euros

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Pelo menos, assim parece.

Na semana passada assistimos a um doente implorar pela sua vida porque não lhe compravam um tratamento de cerca de quarenta mil euros. Depois desta triste cena (não critico, obviamente, o senhor nem o seu desespero, acho a cena triste porque ninguém devia ter que implorar assim pela sua vida perante ninguém, muito menos perante gente que mais não é do que verme), lá se arranjou o medicamento, porque, embora o Estado deva fazer tudo para salvar vidas, mas não a todo o custo, depois do escândalo que aconteceu, seria muito mau que mais pessoas morressem sem tratamentos. Nessa altura, o valor da vida estava em menos de 42 mil euros, com oferta de um tratamento por cada paciente que não melhorasse com o referido medicamento.

Esta semana, contudo,  a bolsa de valores vitais sofreu uma reviravolta e cada cabeça passa a valer menos de 21 euros. Mas não quero ser má para este governo tão simpático e cumpridor que até vai antecipar o pagamento da dívida. À custa de muita miséria e morte, mas que é isso comparado com a honradez? No caso dos doentes psiquiátricos até se percebe, afinal não são muito bons da cabeça, logo, o valor por cabeça de certeza será menor. Para além disso, poder-se-à dizer que não há um risco directo de perda de vida. Mas tratando-se de um medicamento que é administrado em situações de urgência a doentes esquizofrénicos e bipolares, não haverá realmente risco de vida do próprio e de terceiros? Ah e tal, argumenta o Infarmed, não há injectável, mas há comprimido. Ah, então pronto! E quem é que vai enfiar o comprimido na boca de um paciente descompensado em situação de urgência? Nanja eu! Pois… É impossível. Só mesmo por via intramuscular.

O que vai ser preciso para que estas pessoas tenham de novo acesso ao medicamento? Que terá um doente de fazer para fazer aumentar o valor da sua vida? Apontar uma arma ao ministro?

 No meio disto tudo, o que dizer dos laboratórios? Evidentemente que eles (neste caso a Lilly) não estão isentos de culpa e deveriam ser penalizados pelo aproveitamento que fazem. É inadmissível que um medicamento aumente de 5 euros para mais de 21. As suas garras estão tão sujas de sangue quanto as dos governantes que taxam o valor da vida conforme lhes dá jeito.

Há que pagar as dívidas

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Regressou o discurso da honradez, que imagina um país como um humano, e homem que é homem paga as suas dívidas. Acho bem. Para começar governo que é governo paga o que deve aos seus cidadãos.

Quero o que é meu de volta. O meu salário sem cortes, as cinco horas semanais que trabalho à borla, os feriados também. Quero os meus que emigraram de volta, familiares amigos, vizinhos, as gentes que passavam por mim na rua e o desemprego empurrou para longe. Quero o meu serviço nacional de saúde, que paguei e pago para funcionar bem. Quero a minha escola pública, que ensinava e agora se privatiza de tantas maneiras. Quero os meus serviços públicos, que minguam.

Porque as dívidas também se negoceiam, podes ficar com as PPP todas, dispenso, os contratos swap, renego, o offshore da Madeira desde que encerrado, é simbólico, e as dívidas dos bancos falidos ou por falir, agradeço.

Mostra lá que és um homem de palavra, cumpridor e honesto, ó Passos Coelho.

Grécia, Portugal – A Luta É Internacional

Grécia, Atenas, vista da janela do meu quarto, em Agosto de 2011. A Acrópole.

Grécia, Atenas, vista da janela do meu quarto, em Agosto de 2011. A Acrópole.

Guardo desses vários dias na Grécia (Santorini, Creta e Atenas), em Agosto de 2011, a melhor das lembranças. Lembro-me de mal chegada a Atenas ter ido à Praça Sintagma à procura dos indignados (obviamente, a primeira coisa a fazer mal pousadas as malas no hotel) e, nesses dias, não estar lá ninguém. No hotel perguntei. A senhora respondeu-me em espanhol: ‘los indignados se han ido de vacaciones‘. Natural, era Agosto e o calor era insuportável mesmo para os indignados.

Lembro-me da melancia fresquinha e muito doce, oferecida no fim de todas as refeições, gratuitamente, e do bem que (me) sabia. E do café forte. E da vista do meu terracinho em Santorini e do iogurte grego (entre outras iguarias) que a senhora me deixava sempre na mesinha com vista para o azul impossível. E de todos os pores do sol nesse terraço, como noutros. E das amizades inauguradas em Creta, algumas que haviam (hão-de) durar porque feitas do comércio puro dos afetos, entre aqueles que se reconhecem sempre, seja qual for a distância e o lugar, como iguais.  [Read more…]

Já chegou

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Teve o nosso leitor Rui Manuel Alves da Silva a amabilidade de me oferecer um exemplar do Charlie Hebdo, a tal edição. Chegou hoje, intacto, e muito lhe agradeço. Há coisas que queremos mesmo ter, em papel, pelo que significam. Esta era uma delas.

Abri o envelope e desprendeu-se uma suave e doce fragrância, com toques de luxuria espiritual, um aroma forte impregnado do suor e também do sangue vertido na Bastilha, cheirou-me a liberdade.

Muito obrigado.

Para que serve um Conselho Geral?

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Pelos vistos, serve para reconduzir um Director escolar sem ter de recorrer a essa maçada chamada eleições. E para fazer inúmeras e intermináveis reuniões burocráticas que servirão para legitimar uma decisão que já foi tomada. E para fazer a avaliação do trabalho do Director, mas, claro está, só depois de terminado o seu processo de recondução (por favor não se riam).
E dar aulas, não?

Petições que desaparecem

10 mil aparentemente insignificantes cidadãos assinaram uma petição para a reabertura da CPI à aquisição dos submarinos. Desapareceu, outra vez. Que competente que é a gestão de Albino Soares.

Armados em chico-espertos

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Alguém pode explicar, muito de-va-ga-rinho, aos governos de Portugal, da Espanha, da Itália e da Irlanda, que essa do “se houver para a Grécia, também queremos” só faria sentido se estivessem dispostos a acabar com a austeridade, os cortes na dívida por si só não chegam?

Claro que eles não entendem: a austeridade é um meio para o neoliberalismo assente em salários baixos, privatização do estado, liberdade mínima e lucros máximos. Mas que ao menos se assumam, e ficamos todos esclarecidos.

Paralíticos Gregos vs Donas de Casa da HSBC

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Ouvimos José Rodrigues dos Santos a fazer eco das vozes que apontam como principal problema da crise grega exemplos como o dos falsos paralíticos. O argumento cola bem quando se quer atiçar pobres contra pobres, mas a verdade é que o subsídio atribuído aos falsos paralíticos que enganavam fisco grego não se compara nem de perto nem de longe com o roubo gigantesco das “donas de casa” da HSBC. Dona de casa era uma das profissões virtuais declaradas por clientes do HSBC que na verdade eram industriais, artistas, jornalistas, princesas, traficantes de armas ou de droga. É esta diferença de campeonatos entre os paralíticos e as donas de casa que ajuda a compreender melhor a crise grega. As contas “especiais” (contas artilhadas para fugir ao fisco) do HSBC relacionadas com a Grécia ascendem a mais de 2,3 mil milhões de euros (~2,6 mil milhões de dólares). Por exemplo, um dos apanhados, o grego Lavrentis Lavrentiadis tinha sete contas no HSBC com ligações a outras contas bancárias (paraísos fiscais) onde detinha 4,6 milhões de dólares. O senhor Lavrentiadis não era paralítico, mas em 2012 foi acusado de fraude, lavagem de dinheiro, participação em associação criminosa e de emprestar a si próprio, cerca de 600 milhões de euros, através de um banco do seu próprio grupo. Esteve 18 meses em prisão preventiva e vai ser julgado em março deste ano.

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Um conto de crianças chamado requalificação

Despedimentos

Foto@Jornal de Notícias

A propósito da gestão de panelas sociais-democratas e centristas na Segurança Social sobre a qual aqui falei ontem, chamou-me a atenção a Carla Romualdo para esta notícia, que dá conta da situação de 480 funcionários, também da Segurança Social, que iniciam amanhã um processo de “requalificação” que, como sabemos, significa que vão todos para o olho da rua.

Pobres trabalhadores. Tivessem eles o cartão partidário certo e talvez não fossem “requalificados”. Tivessem eles o cartão partidário certo e, como se dizia nos tempos do saudoso conselho de administração do BES, “punha-se o Moedas a funcionar” e arranjavam-se uns cargos de assessor. Não tinham experiência? Não faz mal, estes também não e safaram-se bem. Tivessem eles o cartão partidário certo e facilmente estariam entre os milhares de boys que o bloco central usa como instrumento para perpetuar o seu poder na pesada máquina estatal. Tivessem eles o cartão partidário certo, ou que sabe o pai certo, e lá se arranjaria qualquer coisinha. Imunidades incluídas.

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Bem vindos ao Swissleaks

Uma história de fraude fiscal denunciada pelo ICIJ, com epicentro na filial suíça do banco HSBC, através da qual centenas de multimilionários fugiram aos impostos nos seus países. Não perca o próximo episódio porque nós também não!

A Grécia escuta a segunda trombeta do apocalipse

Depois o segundo anjo tocou a sua trombeta e uma grande montanha de fogo abrasador foi lançada ao mar. Uma terça parte do mar transformou-se em sangue, uma terça parte dos animais do mar morreu e uma terça parte dos navios naufragou.

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E ao final da segunda semana de governo de esquerda, radical, comunistas, vade retro tarrenego Tsipras belzebu, ainda há gregos, ainda comem e dormem, e o mundo não acabou.

Mas treme. Vítor Bento, esse acérrimo defensor da austeridade e um dos seus teórico-filósofos viu as trevas e cegou. Na senda de uma Ferreira Leite, mais sério que um Carlos Abreu Amorim.

A Áustria, pátria dos hayekes, dos mises e de seu pai Adolfo, critica a Alemanha e encontra lógica na proposta grega (por menos que isto já foram anexados uma vez, devem querer repetir a dose). Já não tinha chegado a recepção de um ministro do partido da Margaret  Pinochet ao Varoufakis, meu deus? [Read more…]

Admitem-se Deficientes com ausência de Braço ou Perna (m/f)

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“com capacidade de imitar monstros como zombies, psicopatas, fazer sons e feições assustadoras, etc…”

O homem que não queria ser eleito para dar emprego aos amigos

Boys

Fotomontagem@Uma Página Numa Rede Social

À imagem do proprietário, o Twitter de Pedro Passos Coelho é um hino à arte de aldrabar e iludir eleitores. Dos impostos que não iam ser aumentados aos anéis que não iam ser vendidos, há lá matéria para envergonhar uma pessoa de bem ao ponto de pré-depressão com tendências suicidas.

Hoje descobri este simpático lembrete n’Uma Página Numa Rede Social que costumo visitar e que aconselho vivamente a que consultem também. Dizia Passos que não queria “ser eleito para dar emprego aos amigos“. Que queria “libertar o Estado e a sociedade civil dos poderes partidários“. Mas como a palavra do primeiro-ministro vale tanto como as profecias de um qualquer messias de uma daquelas seitas ultra-radicais que antecipa o Apocalipse, os boys continuam a crescer e a multiplicar-seSegundo o Jornal de Negócios, a Segurança Social está “enxameada” deles. Há um ano e meio eram cerca de 4400, hoje já devem andar nos 6 ou 7 mil. Adorava conhecer os números do desemprego jovem nas direcções concelhias, distritais e nacional da JSD e JP. Devem estar ao nível da Alemanha. Não admira o papel servil e as figuras ridículas que vão fazendo para defender o indefensável.

A massificação da comunicação visual

fotografia
Humberto Almendra

Sinais dos tempos, ou como transformar o intransformável num produto não vendável. A fotografia acabou massificada de tal forma que é mais lucrativo organizar concursos pagos por submissão que dar destaque à condição intelectual do autor. O autor, é discurso pessoal e político. Para mim, fotografar sempre foi uma forma de auto-reclusão. de experiência artística. De expressão plástica. Não é nem nunca será uma profissão. Quando isso acontece é por acidente. Hoje, as pessoas focam-se muito na técnica esquecendo o discurso. Discurso esse que é o fundamento de qualquer actividade artística. Fotografar não é uma afirmação mas um desenvolvimento interior. É como meditar. É algo que se trabalha para dentro. Acontece o mesmo com desenhar, tocar, esculpir. Trabalhar a própria razão ou a questão artística é ir ao encontro da nossa própria essência. é encontrar-nos como companhia a meio do caminho. É um florescimento astral semeado dentro do próprio corpo. [Read more…]

Os portugueses da lista Falciani estão a ser investigados?

SwissLeaks

Desde ontem o CIJI (Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação) tem divulgado relevantes informações sobre uma gigantesca fraude fiscal ocorrida entre 2006 e 2008, relativa ao caso Falciani. Hervé Falciani ex-informático da filial suiça do banco HSBC, depois de uma evasão rocambolesca às autoridades suiças que procuravam proteger os interesses (mafiosos) do banco, conseguiu asilo em Espanha onde tem ajudado o fisco local a atuar contra variadíssimos casos de evasão fiscal – vale a pena ver o documentário (abaixo) que descreve a fuga de Falciani à fúria dos banqueiros suiços. As personalidades envolvidas na fuga fisco via HSBC vão desde artistas como David Bowie, John Malkovich até ao Rei da Jordânia ou o piloto Fernando Alonso. Em Portugal, estranhamente não se está a dar grande atenção ao caso, sobretudo quando é revelado que cerca de 850 milhões de euros estavam guardados em contas suspeitas da HSBC ligadas a negócios e clientes portugueses. Que negócios são esses? Que clientes são esses? Estão a ser investigados? Isto está ligado ao caso Monte Branco? Mais importante que divulgar nomes, é saber de que tipo de atividades e de que tipo de falhas na legislação estes esquemas beneficiaram.

É com pena que constato que não existe nenhuma entidade ou jornal português associado ao CIJI. Será miúfa de represálias dos grupos económicos que controlam os nosso principais órgãos de comunicação?.

Pinheiros e eucaliptos

Fonte: https://www.flickr.com/photos/fernandocomet/6078852709/sizes/l

Rui Manuel Vitorino

A minha formação acadêmica nada tem a ver com agricultura ou recursos florestais. Quando um leigo olha a floresta existe uma imagem normalmente associada a pinheiros e eucaliptos e essa imagem pode de alguma forma adaptar-se a perfis atribuídos ás empresas e empresários por todo esse mundo fora.
Vejamos uma empresa média com uma produção de bens necessários ao funcionamento da sociedade, trazendo mais valia para todos os envolvidos garantindo bem estar aos que nela trabalham e aos que dela beneficiam. Não sendo uma árvore nobre como um carvalho, uma nogueira, o pinheiro é uma árvore que necessita de tempo para crescer para dar os seus frutos.
Eis que chega o eucalipto, crescimento rápido, seca tudo à volta, sonega recursos e em caso de incêndio queima tudo à volta num fósforo.  [Read more…]

Entreguem a Santo António

Parece que a Assembleia da República não sabe onde meteu a petição em que mais de 10 mil pessoas exigem um inquérito parlamentar à compra dos famosos Tridente e Arpão, os submarinos alemães.

O documento foi submetido por via electrónica, quem o fez tem o comprovativo de que a submissão foi realizada com sucesso, mas, de acordo com o Jornal de Notícias, fonte da AR diz que ali “não entrou nada”.

Creio que neste caso “perder” é um verbo inadequado. Provavelmente houve uma arrumação inconseguida e a petição deve estar neste momento num sítio que não lembra a ninguém. Quem nunca encontrou os óculos no frigorífico ou a colher do iogurte no balde do lixo que atire a primeira pedra. E como a sabedoria popular, antiquíssima, nunca é de desdenhar, eu sugeria à Assembleia da República a oração a que recorriam as nossas avós e bisavós e que tem décadas de êxitos comprovadíssimos. [Read more…]

Vai uma passa, Paula?

paula teixwira da cruz
Paula Teixeira da Cruz, também conhecida – ai de nós…- por ministra da justiça, deu entrevista. Para lá do desinteressante desfiar de banalidades ácidas, resolveu dar uma de modernaça, a ver se consegue polir a baça imagem que dela nos vai ficando. Assim e para surpresa geral, decidiu proclamar a necessidade de liberalizar (depois tentou corrigir o verbo para “despenalizar”, mas era tarde; já lhe tinha fugido o pé para a chinela) as drogas ditas leves. Não nego a pertinência da questão e o interesse em a discutir. Mas não se tratou de nada disso, como se torna evidente pelos termos simplórios e boçais com que a ministra a abordou. Para ela, o argumento é o da despenalização da droga e sua venda permitir acabar com o crime em si e toda a criminalidade associada. Não deixa de ser um argumento com algum mérito – já o conhecemos há décadas -, mas atirado assim, a sêco, sem articulação com a teia de complexidade que, a muitos níveis, o problema convoca, não passa de uma miserável manifestação de oportunismo político e a prova de que não temos um governo – ouvido sobre o assunto, o Passos meteu os pés pelas mãos, obviamente tolhido pela surpresa – mas um conjunto de maganos que asneiram cada um para seu lado, sem princípios, sem tino, sem decência, tratando da sua própria chafarica e preparando o futuro que se afigura incerto. Nem que seja promovendo umas passas que possam atenuar a dor que não passa.

Diálogo esquisito

– “Durão Barroso vai ser professor universitário.”
– “Sim? Que sorte têm os estudantes de Coimbra!”
– “Mas o Durão não vai ser professor na Universidade de Coimbra!”
– “Precisamente. Que sorte têm os estudantes de Coimbra!”

Os homens não usam gravata

Fazer uma gravata a alguém consiste em ir pelas costas e apertar-lhe o pescoço com o braço. Uma boa definição do objecto mais ridículo que pode conter uma indumentária moderna.

Ter o pescoço amarrado com um trapo qualquer sem utilidade alguma seria puro masoquismo se a sua imposição não fosse sádica. Recorda-me sempre a lenda patética do Egas Moniz, da família amarrada pelo pescoço.

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Tendo sempre recusado tal nó (e não me venham com os protocolos, já tive de invocar o mesmo direito que os eclesiásticos a tapar o pescoço de outra forma, abençoadas camisolas de gola alta) e se não entendo o seu uso compreendo o gosto de alguns pelo penduricalho, tal como compreendo os homossexuais, gostos não se discutem e cada um é como cada qual, já a sua obrigatoriedade sempre me fez espécie.

Vem tudo isto a propósito da escandaleira e tolice, para moderar a linguagem, que aí anda porque a maioria dos novos governantes gregos não usam gravata. [Read more…]

Momento de humor: Luís Montenegro fala sobre dignidade

Luís Montenegro mostrou-se desagradado com a intervenção de José Carlos Saldanha na Comissão Parlamentar de Saúde, tendo declarado que esse episódio “não dignificou o trabalho parlamentar”.

Na minha opinião, no entanto, o que verdadeiramente não dignifica os trabalhos parlamentares é termos uma maioria de deputados, para não dizer a totalidade, que está na Assembleia da República para votar, dar a pata e rebolar, de acordo com as ordens das direcções dos partidos, quando foram eleitos para representar o povo.

O que verdadeiramente não dignifica os trabalhos parlamentares é termos deputados que conseguem afirmar que as pessoas não estão melhores, ao contrário do país, que, esse sim, está muito melhor, como se fosse possível um país ser o contrário dos cidadãos.

O que verdadeiramente não dignifica os trabalhos parlamentares é termos deputados que pensam que os problemas pessoais dos cidadãos podem condicionar o desempenho do trabalho parlamentar, porque, para estas gravatas amestradas, esse trabalho, já se sabe, não é resolver os problemas dos cidadãos.

O que verdadeiramente não dignifica os trabalhos parlamentares é haver um deputado que pensa que os dramas pessoais não devem ser levados para o “seio do debate político”, porque, para estes cabides de fatos caros, o debate político e parlamentar deve estar o mais afastado possível dos dramas pessoais, essas coisas que levam os doentes a gritar que não querem morrer e outras incomodidades.

O que verdadeiramente não dignifica o trabalho parlamentar é termos Luís Montenegro a chefiar uma das bancadas parlamentares.

Evidências

Se não mudarmos a Europa, a extrema-direita irá fazê-lo”. – Tsipras

AvançAR

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Ao contrário do que afirma Ana Drago nesta entrevista recente à SIC Notícias, a chamada plataforma cidadã Tempo de Avançar não é, infelizmente, uma coisa nova. E não é nova porque lhe falta massa cidadã, justamente, isto é, uma participação inequivocamente emanada dos cidadãos, e dos cidadãos indistintamente considerados, ou seja, cidadãos não-afectos ao Bloco de Esquerda, por exemplo sob a forma de simpatizantes (e basta consultar a lista de primeiros aderentes – entretanto organizados em Conselho de candidatos efectivos – para ver a que ponto ela está capturada por esses simpatizantes e amigos mais ou menos próximos do BE).

Não vejo nenhum problema em ser-se simpatizante ou amigo do BE, era o que mais faltava. Já votei no BE – ah pois foi. Mas já vejo um problema em verificar a que ponto se está disposto a lançar mão de exemplos bem sucedidos ocorridos noutros países (o Syriza, o Podemos) para tentar construir, com evidente artificialidade, o que em Portugal não há (ainda): a emergência de um movimento de cidadãos ou de uma coligação de pequenos partidos reunidos em torno de um programa anti-austeridade, de defesa dos interesses democráticos e nacionais, e aptos (i.e., prontos e preparados) para governar – o povo do País e junto da UE. E essa demagogia, enunciada ainda no adro, entristece quem, como eu, está atento à marcha da procissão dos aflitos e descontentes com os partidos, e muito especialmente os da Esquerda.

Levado pela mão de figuras todas elas emanadas do Bloco de Esquerda – dissidentes de dissidências várias, como são os casos de Rui Tavares, Ana Drago e Daniel Oliveira –, o movimento Tempo de Avançar não parece, assim, ser substantivamente diferente do que ainda há semanas foi tentado por uma outra dupla de também dissidentes do BE: Joana Amaral Dias e Nuno Ramos de Almeida, fundadores do Juntos Podemos, ao que se sabe entretanto já dissolvido por novas (ou renovadas) dissidências. [Read more…]

Jornal de Notícias e AO90 prejudicam alunos nos exames nacionais

wp_20150206_08_53_59_pro (1)Esta semana, o destaque do Jornal de Notícias de 6 de Fevereiro foi aquele que se pode ver na imagem.

O JN é um dos jornais que, sem que se perceba porquê, decidiram adoptar o chamado acordo ortográfico (AO90).

Ora, o acento agudo de “pára”, segundo a Base IX, 9º, é para suprimir. No 5.4.1. da Nota Explicativa, os autores do AO90 tentam explicar por que motivo se tomou essa decisão, recorrendo, em parte, ao segundo mantra do acordismo.

A manchete do JN, dotada, eventualmente, de uma vontade própria, contraria, assim, a ortografia adoptada pelo prestigiado jornal. Embora defenda, no mínimo, a suspensão imediata do AO90, percebo que isso tenha de se fazer gradualmente: hoje, a manchete; a notícia local, amanhã. [Read more…]

Paula Teixeira da Cruz em reflexão depois do caso submarinos

“Não me pronuncio sobre Sócrates, mas temo pela separação de poderes se o PS ganhar as eleições.”

Hipótese

Nunca faltei a uma eleição, posso garantir-vos. Desde 1969, quando votei pela primeira vez. Nunca me abstive, anulei um voto ou votei nulo (isto não implica crítica a ninguém, cada um sabe de si). Achei sempre que há, entre as hipóteses oferecidas – nomeadamente nas presidenciais, já que nas outras eleições mantenho a escolha da estreia -, uma preferível.

Mas há dias, estando num café, da minha paz “gozando doce fruito”, fui surpreendido pelo habitual debate televisivo entre Santana Lopes e António Vitorino. Encolhi os ombros e voltei ao meu jornal. Mas uma voz surda, com um toque de raiva mal contida, fez-se ouvir: “ainda vamos ter de escolher entre estes dois **##~~&&**“»» na segunda volta das presidenciais”. A ideia foi-se-me agarrando aos ossos e comecei a sentir um vazio no eestômago.

É que a possibilidade, ridícula que pareça, cada vez se me afigurava mais possível. E, por uma vez – pela primeira vez! – ocorreu-me como seria agradável passar esse dia à beira-mar da manhã ao pôr do sol – quer dizer, do abrir ao fechar das urnas. Eu sei, não é bonito nem faz bem à saúde ter pensamentos tão sombrios com este frio. E sabe-se lá o que farei no próprio dia. Mas deixem-me gozar, por hora, esta pequena indulgência.

O Apeadeiro Feliz

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