Guantánamo, a promessa de Obama

Retrato oficial do Presidente Barack Obama na Sala Oval da Casa Branca, 6 de Dezembro de 2012, por Pete Souza

Os anos passam depressa e a memória do homem é curta, convém por isso lembrar que na base naval americana de Guantánamo, em Cuba, existe há 15 anos uma infame prisão onde são enterrados vivos os suspeitos da guerra ao terrorismo. Trata-se de uma prisão onde os prisioneiros não têm direito a julgamento, onde se usam técnicas de controlo meticulosamente estudadas para destruir a vontade, para esvaziar de personalidade os encarcerados.

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Ajustes directos à lupa – Maia

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O Aventar aterrou hoje na Maia, o concelho onde se localiza o Aeroporto Internacional do Porto e conhecida pelo seu slogan “Sorria, Está na Maia”. Falta saber se pode ser adaptado a “Ajuste, Está na Maia”. Ora, segundo o portal “base.Gov” o valor global de ajustes directos do Município da Maia em pouco ultrapassa os 99 milhões de euros, um valor baixo tendo em conta o que temos encontrado por esse país fora para territórios desta dimensão. [Read more…]

Concursos de professores, a minha proposta

Os concursos de professores foram, em tempos, uma causa nacional. Vivi por dentro, nesta temática, a incompetência de sucessivos governos. Uns atrás dos outros e, quanto mais mexiam, pior a coisa ficava.

Até há uns dez anos, a coisa era simples:

  • nota de curso (faculdade) + tempo de serviço ( um valor por cada 365 dias)*.

Desta “fórmula” resultava uma graduação profissional e foi com esta metodologia que a Escola Pública se afirmou como um dos pilares da nossa democracia. Historicamente, os professores começavam o seu percurso profissional (carreira, era assim que se chamava uma coisa que existiu em tempos) longe de casa, iam concorrendo para se aproximar e como tudo tinha uma lógica, uma racionalidade suportada num sentimento de justiça e de igualdade, era um modelo consensual.

Com Maria de Lurdes, a confusão instalou-se com sucessivas alterações que mexeram no que era mais sagrado – a tal fórmula e começou a existir um acumular de injustiças que tornam quase impossível criar um novo modelo de concursos. Teoricamente, só um momento zero, em que todos os professores, mesmo os “efectivos há 30 anos”, iriam a concurso poderia trazer justiça às escolas. Mas, esta proposta, de tão estúpida, é impossível de aplicar e por isso, só podemos pensar num processo que possa ser justo, mesmo sabendo que assenta em injustiças.

E qual seria esse modelo? [Read more…]

Lettres de Paris #68

Y aura-t-il de la neige à Paris?*

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eis a pergunta que toda a gente coloca por aqui, incluindo eu mesma, que todos os dias vejo se está prevista neve para Paris. Às vezes está, mas nunca chega a acontecer. Cairam uns flocozinhos de nada, minúsculos, creio que na véspera de ano novo. Foi só. Por vezes vejo gelo junto às fontes. E é só. Acho que me vou embora sem ver nevar em Paris. E sem ver – felizmente – a destestável e perigosíssima ‘pluie verglaçante’, que é como quem diz uma chuva que ao cair no chão, tal é o frio, transforma-o numa superfície vidrada, gelada, extraordinariamente perigosa para qualquer pessoa e, obviamente, sobretudo para mim. Há muitos anos, talvez 22 ou 23, senti na pele os efeitos desta ‘pluie verglaçante’. Estava em Arlon, na Bélgica, em janeiro, e ao sair, já noite, de uma aula mal pus o pé fora de porta escorreguei imediatamente sem apelo nem agravo. Não estava à espera daquilo, nem preparada para aquilo. Portanto, no que diz respeito à chuva que se transforma em gelo mal atinge o chão, espero bem que a não venha a sentir nos poucos dias que tenho ainda em Paris. Quanto à neve, confesso que gostava de a ver cair um bocadinho. Deve ser bonita, Paris, sob a neve. Há uns dias, contei-vos, estava sentada no quentinho do meu pequeníssimo estúdio, a esta mesma secretária, quando ouvi uns rapazes na rua gritar ‘il neige, il neige’. Fui ver, era mentira. Ha uns dias também, entrando na minha sala do Ladyss, disse ao Jean, que era o único que lá estava, que tinha muito frio. Olhou para mim com a sua cara bonacheirona e simpática e sentenciou que ia nevar em Paris nesse mesmo dia. Mentira. Nem um floco caiu. De maneira que é isto. Na televisão anunciam neve e ela não vem, pelo menos em Paris. Anunciam um ‘grand froid’ e bom, apesar de estar bastante frio, ainda estou à espera que o mesmo traga os flocos fofos e silenciosos.

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O Bem e o Mal, Soares.

Nasci depois de Abril e há experiências que, até por isso, não tive.

Tal como a Bárbara, também eu tive a bandeira na mão. Mas, a minha não era do mal. Com 12 anos a explicação que me davam em 86 era simples – o Soares é o bom. O Freitas? É o mau.

É a primeira experiência política de que me lembro. Tinha uma “espécie de colete” com sacos do Soares é Fixe. Os mesmos que deitaram abaixo a palmeira do Sr. José, pendurados num fio, que o camião do lixo, se calhar de direita, puxou até ao chão.

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Os comícios no Porto!!! Brutal!

A Avenida dos Aliados COMPLETAMENTE (mas mesmo COMPLETAMENTE!) cheia pelo povo, pelas pessoas boas. Recordo também, com saudades, as conversas que ouvia sobre o Freitas do Amaral e o que ele significava de regresso a 23 de Abril. Falava-se de política.

Daí, dou um salto ao dia em nos vimos (pensava eu na altura) livres do Cavaco. Corri para a mesma Avenida festejar a chegada de Guterres ao poder. Sem qualquer vida partidária até então, via em Cavaco um inimigo, o mau. Guterres era uma forma de libertação e, ao mesmo tempo, de esperança. Com Sócrates fugi da casa mãe. Senti um afastamento muito grande e, anos mais tarde, acompanhei de perto e por dentro o nascimento do Bloco que era, para mim, uma espécie de geringonça onde gente diferente se juntava em torno de um projecto comum.  [Read more…]

Rua 25 de Abril – Carta Aberta

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José Miguel Braga

Caros colegas professores da Escola Secundária Dona Maria II e da Escola Secundária Carlos Amarante:

Não pretendo dar lições a ninguém e muito menos a quem, como eu, procura no dia a dia realizar o seu trabalho com rigor, com boa vontade e com sentido de serviço público.
Sei bem que todos somos diferentes e eu respeito a opinião dos que concordam comigo, dos que discordam de mim, mas também dos cépticos, dos que preferem não se manifestar, dos tímidos, enfim… Como todos sabem, está em curso, até “novas ordens”, um estranho processo de remoção de terras, que afecta os terrenos das “Oficinas de São José”.
De momento, não se vê afixado o alvará, mas tudo indica que se prepara a construção de uma superfície comercial “Continente Bom Dia”. [Read more…]

Está dada licença para construir no litoral alentejano

Lê-se aqui. Agora é construir, construir, construir!

Precisamos de jornais?

Precisamos? – Precisamos!
Ou precisamos apenas dos comunicados e das fotos (ao molho) que a autarquia graciosamente faz chegar às redacções? Braga, “cidade autêntica”, como agora se diz por cá, nesta matéria não é diferente de outras cidades.
Corações ao alto e as minhas preces vão para a imprensa regional.
Que descanse em paz entre os esplendores do facebook perpétuo e amen.

Fernanda

Fernanda Leitão

Escrevo isto para si, Fernanda, embora as traidoras das palavras não sejam mais que uma roupagem pobre e tosca para aquilo que nos ultrapassa, como é a morte. Vou pois usá-las parcamente. E escrevo com revolta, no fundo da tristeza, porque nunca hei-de aceitar o absurdo. Contei-lhe que Camus é o filósofo que pôs em palavras o que eu não consigo.

Conheci as suas Cartas do Canadá no Aventar, há nem dois anos. Uma escrita deliciosa e um pensamento simultaneamente fundo e livre, experiente e leve.

Foi em Maio de 2016 que a Fernanda me enviou, através do Jorge, uns links de publicações contra os acordos de “comércio livre”, sobre os quais eu andava sempre a martelar no blog. Eu agradeci-lhe e começámos a escrever-nos, à parte do grupo. Nem a um ano chegou, o tempo em que estivemos ligadas por essa comunicação limitada, mas marcada, de imediato, por uma afinidade forte e profunda.

Foi, por um lado, a sua generosidade incondicional, quando, após saber dos acordos, deu todo o apoio possível, enviando informação, disponibilizando os seus contactos com jornalistas ou gente conhecida, divulgando a petição e textos, surpreendendo-me até com uma contribuição para a Plataforma. E por outro, sempre, sempre, uma palmadinha nas costas, um vá em frente Ana, um ânimo e um carinho que me vão faltar muito, Fernanda. Bem como a sua esperança, a sua força apesar da dureza da sua vida, o seu espírito aberto e atento, o seu modo despretensioso, o seu conhecimento dos lugares e dos acontecimentos, o seu olhar acima de si própria mas sempre ao nível do próximo, o seu sorriso – que nunca vi, mas muitas vezes senti – e a sua graça.

Fernanda, não sabe o quanto a senti solidária e superior.

Partilhámos também coisas pessoais do momento, com alguma cerimónia, e num dos últimos emails recomendei-lhe o filme “Amanhã”. Disse-me que não o conseguia obter aí, mas que talvez o filme aparecesse no Festival Internacional de Cinema, no próximo ano, e que estaria atenta. Pensei ainda em enviar-lhe o DVD, mas deixei passar. Quanto me arrependo, Fernanda.

Fernanda, escreveu-me uma vez “Gostaria de ver Portugal no caminho certo, a salvo, antes de partir. Para o bem e para o mal, é a paixão da minha vida.”

Não sei Fernanda, se Portugal está no caminho certo, acho que está melhor do que já esteve, e sei que a Fernanda também pensava isso. Mas o que sei, é que é uma vergonha que este Portugal, ao qual a Fernanda tanto se dedicou e que tanto amou, não tenha tornado possível que a Fernanda nele tivesse vivido os seus últimos anos. Não sei de quem é a culpa, mas há culpados. E, neste momento, é só a lembrança da sua generosidade, Fernanda, que me dá força para olhar em frente e continuar a lutar pela justiça, mesmo desacreditando que ela é possível.

Sei que seria essa a sua vontade.

Fernanda Leitão (1936-2017)

Fernanda LeitãoOs templários não morrem. Afastam-se.

Na passada quarta-feira,  no Hospital Toronto Western, a Fernanda afastou-se em paz, depois de 80 anos ricos de vida. Escrevia-nos as suas cartas e bilhetes do Canadá, com a sabedoria de quem passou por tanto e no seu jeito de quem está de bem com a vida. Foi jornalista e lutou contra a ditadura, antes e depois da revolução, primeiro na France Press, depois no jornal O Templário, do qual foi proprietária até ir para o Canadá. Pessoas como a Fernanda deixam verdadeiros vazios quando se vão. Descanse, Fernanda, teve uma vida admirável.

Deixamos-vos as crónicas da Fernanda no Aventar, que estão aqui, e o auto-retrato que nos ofereceu, pintado com as cores nas quais ela era mestra, as da Língua Portuguesa.

Nasci em Malanje, no Nordeste de Angola, numa família de classe média chefiada por um funcionário público. No início da década de 50 o meu pai reformou-se. Fomos viver em Tomar, onde havia o Colégio de Nun’Alvares, com perto de mil alunos, quase todos internos, muitos das colónias, um batalhão do Alentejo e Ribatejo. O director era o Dr. Raul Lopes, que ficou na lenda coimbrã como o Raul das Troupes. Governava um bocado à chapada, era ditador, mas ao mesmo tempo havia um ar de rebalderia naquela malta toda. Eu teria preferido outro colégio, mas na verdade ali fiz amigos para a vida. Os rapazes do meu tempo cantavam fado e pegavam toiros. Ficavam ofendidos se alguém lhes oferecia leite ou iogurte. Todos de barba rija, como manda o figurino.

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Autárquicas 2017: assim vai o PSD

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Um certo dia, andava eu em passeio virtual pelos rigorosos meandros da imprensa nacional, tento aceder ao site do Diário Económico, que ainda não se sabia bem se estava falecido, e, se estava, qual a causa da morte, e dou por mim no (novo) Jornal Económico. Fiquei sem perceber o que aconteceu, mas o certo é que fui lá parar hoje outra vez.

Diz o jornal – malta de Lisboa, bem informada – que José Eduardo Moniz foi sondado e poderá ser o candidato do PSD à câmara de Lisboa. Um candidato independente, claro está, que entre as dezenas de milhares de militantes que o partido tem não parece haver um que sirva. Ainda esteve para ser a D. Cristas, mas parece que não vai dar. [Read more…]

Um comunicado que vale a pena ler

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n’Os truques da imprensa portuguesa

RESGATAR O JORNALISMO – um texto aberto à subscrição e partilha pela comunidade de leitores da imprensa portuguesa

Caras e caros jornalistas,

Em 4 de maio de 1993, foi aprovado o vosso Código Deontológico. É, na simplicidade dos seus 10 mandamentos, um documento extraordinariamente claro quanto aos princípios que vos devem nortear. Enquanto leitores, sentimos que estes vossos deveres, quando integralmente respeitados, nos protegem, nos consideram e nos dão confiança em vocês e no vosso trabalho. Contrariamente, sempre que os ignoram, a todos ou a cada um deles, criam em nós suspeição, desagrado e revolta.

Todos erramos, é certo. E por vezes somos demasiado intolerantes com os vossos erros. Mas vejam de onde partimos: de um quadro em que os vossos princípios – que vocês escolheram definir e partilhar com o mundo – são por alguns de vós desrespeitados diariamente, à frente dos nossos olhos.
Talvez vos surpreenda – intimamente, cremos que não – mas temos pelo jornalismo, enformado pelos princípios que tão bem souberam definir, o maior respeito e admiração possível. O jornalismo é a mais bonita de todas as ocupações, se feito por missão, por amor à verdade, à justiça e à democracia.

Esta página, que certamente muitos de vós já aprenderam a odiar, por ser um espelho onde vêem reflectido o que há de pior na vossa profissão, não pretende ser um exercício de superioridade moral. É, isso sim, um exercício de confronto entre os vossos princípios e as vossas práticas, elaborado (de forma artesanal, é certo) pelos vossos leitores. O campo de disputa e subjectivação que, do nosso ponto de vista, não existindo, era absolutamente fundamental.

Reconhecemos que o modelo de negócio do jornalismo tradicional atravessa uma fase difícil. Os jornalistas que ainda têm emprego vivem de corda ao pescoço, sob pressão, sem tempo, em condições precárias, mal pagos,… Os jornais andam de joelhos em busca de mais receitas, inventado estratégias e dispositivos cada vez mais sofisticados para inserir publicidade e amplificar a visibilidade dos seus conteúdos.

Pode parecer-vos até que poucas opções vos restam: que se querem continuar a ter trabalho, têm de aceitar que as regras do jogo mudaram e que têm de se subjugar à alienação dos princípios que vocês próprios entenderam estabelecer. Mas essa via – a de aceitarem que isso tem de ser assim – é uma escolha vossa. Terão de ser vocês a assumir esses custos.

A nossa, enquanto leitores, é a de rejeitar esse jornalismo. Sempre. Queremos rigor e exatidão. Não queremos a vossa opinião dissolvida nas vossas notícias. Não rejeitamos interpretações, mas queremos interpretações honestas. Queremos imparcialidade, investigação e respeito pela privacidade, pela dor, pela presunção de inocência. Não queremos sensacionalismo. Não queremos publicidade encapotada. Não queremos subliminares. Não queremos artigos plagiados.

Queremos o que, em 1993, se comprometeram a dar-nos, que está muito longe do que tão frequentemente nos têm dado. Talvez seja injusto e doloroso para alguns de vós ler isto. Mas serão precisamente esses os primeiros a reconhecer que temos razão. São esses os que têm a grande responsabilidade de exigir e de dar um impulso para resgatar o jornalismo.

Os vossos leitores contam convosco.

Com enorme respeito pela vossa profissão, subscrevemo-nos abaixo.

Lettres de Paris #67

Moi, la gourmande…

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que é como quem diz, eu a comilona, eu a gulosa ou ainda eu a que gosta de comer bem. Não tiro geralmente fotografias a comida e, mesmo que tire eventualmente, não tenho por hábito publicá-las. As razões são várias, mas digamos que tenho um certo pudor em publicar o que como. Não que coma demais habitualmente mas… adiante que não é disso que se trata. Abro hoje uma exceção e publico uma fotografia de comida. Uma fotografia da minha sobremesa de hoje, um café gourmand, que é como quem diz, então, guloso ou destinado aos gulosos e àqueles que gostam de comer.
É quase uma instituição o café gourmand em Paris. Ainda outro dia bebi um extraordinário, ainda que menos abundante que este (e bastante mais caro, diga-se) no Café de la Paix, um dos cafés – acho que posso dizê-lo – mais clássicos de Paris e mais bonitos, com vista direta sobre a Opéra. No fim de semana passado bebi outro no Marché des Enfants Rouges, à laia de almoço, mais modesto do que o de hoje e do que o do Café de la Paix, mas saboroso – guloso – ainda assim. Para quem não saiba, adoro comer, de verdade. Gosto praticamente de tudo (bom, menos de polvo, de chocos, de lulas, de ostras, de tamboril, de caracois e dos seus primos franceses, os terríficos escargots…) e tanto faz serem doces ou salgados, marcha tudo, por assim dizer, com apetite e alegria. Mas, apesar disto, tenho um fraquinho por doces. E muita dificuldade em resistir-lhes.

O Facebook (afinal) sabe

Só não é claro como é que o Facebook sabe dos patrocínios do Expresso.

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Com que então, a melhor juventude partidária?

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Estilo pós-soviético em Caliningrado

O retrato de Peter Marlow sobre a cidade ex-alemã, ex-URSS, agora russa. Na Magnun Photos.

Lettres de Paris #66

C’est Paris

Há uns dias, num café perto do Marché des Enfants Rouges, falei com a minha prima Lena acerca do livro de Julien Green (‘Paris’, Tinta da China, 1ª edição de 2008). Reli o livro, que comprei em 2012, no avião. E falámos dele a propósito da flânerie, palavra que literalmente poderia ser traduzida como ‘vadiagem’, mas que está longe de ser apenas isso. Flâner é basicamente passear pelas ruas e praças e observar e absorver. Com tempo. Ociosamente até. Gosto de pensar em mim como flâneuse, embora na maior parte das vezes que viajo não tenha o tempo necessário para o ser verdadeiramente.
Diz Julien Green no texto ‘uma cidade secreta’ que «Paris é uma cidade de que se poderia falar no plural (…) porque há muitas parises e a do estrangeiro só superficialmente tem algo em comum com a Paris dos parisienses». E eu sou estrangeira, irremediavelmente, para ter tempo para conhecer o que é possível (mesmo a um parisiense) de uma cidade tão diversa – já o reconheci numa carta anterior – como esta. Mas a verdade é que passear em toda a parte, subir a sítios altos e descer de sítios altos, sentar-me nos cafés, fumar nas esplanadas e observar ociosa, mas atentamente o que vai acontecendo à minha volta é uma das coisas que mais gosto de fazer, em Paris como noutro sítio qualquer. Assim mesmo, sempre estrangeira, estou certa que não conheço nenhum lugar bem, tal como, estou igualmente certa, não conheço nenhuma pessoa bem – nem a mim mesma. As cidades, escrevi também isto num postal de Bucareste, há muito tempo, precisam de tempo, como as pessoas. E as cidades tão múltiplas como Paris precisarão ainda de mais tempo. E, assim, mesmo nunca será suficiente. Ao contrário do que diz Green, no mesmo texto que mencionei, nem mesmo com tempo poderemos afirmar conhecer bem uma cidade (ou uma pessoa). Isto é bom e mau, como quase tudo, sendo que entre estes dois extremos existe toda uma série de possibilidades. Bom porque seremos sempre surpreendidos. Mau porque seremos sempre surpreendidos. Não é contraditório. Absolutamente.

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Beleza americana

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O Facebook bloqueia quem publicar fotos de mamocas, mas não tem problemas com mensagens racistas ou de ódio.

A última onda por cá consiste em publicar uma foto de Mário Soares na praia com uma jovem em topless e ser-se bloqueado pelo Facebook. A ironia tem destas coisas e o falso moralismo americano, mais a sua visão totalitária do mundo, também.

Uma boa oportunidade para ver ou rever o filme Beleza Americana.

Entretanto…

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Operação Outono

O Facebook lembrou-me este post, de há dois anos. Aconteceu-me mesmo isto. Até agora ainda não percebi.

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Funerais de Sá Carneiro e Mário Soares

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Miguel Teixeira

– o “culto” do disparate numa comparação infeliz

Tenho assistido com alguma perplexidade e até surpresa à comparação da afluência do povo aos funerais de Francisco Sá Carneiro e Mário Soares, comparações que são absolutamente disparatadas e desfasadas no tempo e na situação política. Essas comparações têm-nos chegado através de “sites” ligados à Direita radical que não perdoam a Mário Soares o apressado processo de “descolonização”(embora como se tem visto nos últimos dias através de vários testemunhos à Direita, cito Ribeiro e Castro, ex. Presidente do CDS, é injusto ele ser unilateralmente responsabilizado) e ainda por comentadores radicais como João Miguel Tavares.
Em primeiro lugar, devo dizer que considero o Dr. Francisco Sá Carneiro um dos vultos maiores da nossa democracia, que lutou incansavelmente por um Portugal mais justo, tolerante e solidário. Fundou o PPD, um partido de centro esquerda, que pediu inclusivamente adesão à Internacional socialista, situação que alguns mais jovens poderão desconhecer. [Read more…]

Quem serve quem?

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Por via da petição que requer o debate e a decisão sobre o CETA na Assembleia da República, promovida pela Plataforma Não ao Tratado Transatlântico, os partidos que são contra a submissão dos interesses dos cidadãos aos das multinacionais apresentam hoje as seguintes recomendações ao governo (por ordem alfabética):  [Read more…]

Ajustes directos à lupa – Vila Nova de Famalicão

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O concelho de Famalicão é conhecido pela sua forte vertente exportadora. A partir de hoje ficará também conhecido pela sua forte capacidade “ajustadora”. A sua Câmara Municipal não deixa os créditos por mãos alheias e ajusta “à patrão” com um valor que supera os 156 milhões de euros. Em quê? Ora é isso que vamos analisar. [Read more…]

À atenção do Bloco e do PCP

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A Ana Moreno, no seu esforço hercúleo e permanente para alertar e denunciar os perigos do CETA e do TTIP, voltou ontem à carga:

Qual será a percentagem de portugueses que ouviram falar desse acordo que já foi assinado e será votado no Parlamento Europeu no próximo mês de Fevereiro? 1%? Não faço ideia, mas quando se pergunta aleatoriamente a alguém, mesmo na capital, ninguém conhece sequer a sigla.

Já dizia o outro: não te preocupes, está tudo bem. Que interesse têm dois tratados aborrecidíssimos, para os quais nos estamos nas tintas, e sobre os quais ninguém fala? Não devem ser assim tão importantes. Se fossem haveria mais debate, mais alertas. Mas alguma vez uma multinacional poderá processar um Estado pelas perdas de lucros geradas por algo tão simples como o aumento do salário mínimo nacional? Isso são disparates de teóricos da conspiração.  [Read more…]

Ontem, o país ficou mais pobre 1269 milhões de euros

O abastecimento de 20% das necessidades de financiamento para o país custou 1269 milhões de euros, a pagar daqui a 10 anos. É um valor que se soma à gigantesca dívida de Portugal, a qual não pára de aumentar de uma forma bastante linear desde 2012. Percebe-se. Depois dos cortes cegos e dos brutais aumentos de impostos, pouco há a espremer agora aos portugueses. Obviamente, a situação não é sustentável.
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O pós-Público do Sr. Dinis

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É claro que a malta d’Os truques irrita muita gente. Durante anos, o 4º poder fez o que lhe deu na real gana, servindo interesse aqui, interesse acolá, até que as perigosas redes sociais emergiram e deram à luz novas formas de escrutínio, nem sempre objectivas ou sequer coerentes, é certo, mas ainda assim capazes de desmontar e expor a falta de rigor e a manipulação de informação. Informação que é absorvida, processada como verdade absoluta e propagada de forma descontrolada, fomentando percepções distorcidas, criando focos de tensão, alimentando ódios sectários. [Read more…]

Lettres de Paris #65

«Sei tudo o que você faz em Paris….»

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podia ser uma frase mais ou menos assustadora, se a tirassemos do contexto. Mas a frase tem um contexto, como é evidente, e esse contexto como sempre, como em tudo – e não é por ser socióloga que o digo – é muito importante. Já o contei no Facebook para alegria – aparentemente, a avaliar pelo número de ‘likes’ – dos meus amigos, mas conto de novo o contexto desta frase. Antes disso, devo dizer que dedico esta carta à G., a pessoa que a proferiu. Se me estiver a ler, G., como creio que me lê com frequência – o contexto, portanto – saiba que esta carta lhe é dedicada.
Estava eu hoje a fumar um cigarro à janela do meu estúdio, no 1º andar, virado para a estreita Rue Suger, já passava da hora do almoço, mas ainda assim, estava de calças de pijama, t-shirt e um casaco de carapuço, velho, de andar-por-casa, que o André me emprestou, tinha o carapuço posto, além do mais, por causa do frio e da rouquidão que tenho e do surto de gripe que assola a França (vi na BMFTV)… estava eu, nestes preparos, a fumar um cigarro debruçada na grande janela, quando vejo passar duas pessoas, uma senhora e uma adolescente. Continuei a fumar, de carapuço enfiado na cabeça e calças de pijama vermelhas aos quadrados, enquanto as duas olhavam insistentemente para mim, de cabeça no ar. Passaram debaixo da janela e continuaram a olhar. Achei que devia ser por causa dos meus preparos e, sobretudo, por causa do carapuço na cabeça, que me daria um ar de dread-intelectual, devido aos óculos de massa… em qualquer caso, estranho, supus eu. A senhora volta um bocadinho para trás e do passeio do outro lado da estreita rua diz-me ‘Bonjour!’. Respondi-lhe de volta ‘Bonjour’ e instintivamente tirei o carapuço, convencida que ela me iria pedir uma direção qualquer. Aconteceu já algumas vezes, enquanto fumo à janela pedirem-me direções, cigarros ou simplesmente – se é tarde – como agora – algum bêbado cumprimentar-me.

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Trabalhamos muito, mas temos pouco valor acrescentado

Este gráfico mostra o PIB por hora trabalhada. Portugal está no fim da tabela, o que significa que produzimos pouco valor acrescentado.

É este o significado da produtividade neste contexto e não se cada um de nós está a moinar ou não no local de trabalho.

Por exemplo, a Alemanha é o país da OCDE onde se trabalha menos horas por ano e, simultaneamente, é dos que têm o maior PIB por hora trabalhada.

Portugal é dos países da OCDE onde se trabalha mais horas por ano. E, como vemos, o PIB por hora trabalhada é muito baixo, o que significa que cada hora trabalhada produz pouca riqueza. Para melhorar a nossa situação, precisamos de nos concentrar em produtos que acrescentem valor. Por exemplo, não basta produzir uma boa camisa, também é preciso constituir a respectiva marca. Ou ainda, no negócio do software, não basta escrever linhas de código a metro, é preciso construir produtos que vençam no mercado. Não sendo assim, ficamos com o esforço da produção, mas vemos o grosso do lucro fugir-nos para quem fecha o ciclo do negócio.

Gráfico: página da OCDE no Facebook

Um legado sem herdeiros

Rui Naldinho

sa-carneiro-1O Blogue Direita Política que alguns escribas dizem não ser de gente ligada ao PSD, por não estar devidamente “patenteado”, não soubéssemos nós como estas coisas funcionam, resolveu durante os dias em que decorreram as exéquias fúnebres de Mário Soares, divulgar através do Facebook, uma espécie de elegia a Francisco Sá Carneiro, cuja morte ocorreu há 36 anos.
Percebe-se a orfandade da direita perante figuras que se opuseram à ditadura de forma explícita, e cujos valores democráticos Soares ajudou a construir em Portugal de uma forma ímpar, no contexto político da segunda metade do século XX.

Francisco Sá Carneiro, um homem da alta burguesia portuense, advogado de profissão, que dentro do regime fascista sempre se opôs à ditadura, teve indiscutíveis méritos. Era um democrata naquilo que a palavra tem de mais genuíno. Contudo, não há comparações possíveis entre os dois personagens, porque um viveu na clandestinidade, outro não. Um esteve preso e exilado, outro foi deputado, ainda que da chamada ala liberal da ANP. Infelizmente, Sá Carneiro teve uma vida efémera, motivada por um acidente aéreo com contornos estranhos, que para muitos não passou de um atentado. Soares viveu uma vida longa. Tudo isso são realidades indesmentíveis, mas que não acrescentam nada ao que já se conhece dos dois. Portanto, o valor intrínseco que cada um deles tem na construção do nosso regime democrático, não lhes pode ser retirado. [Read more…]

Amanhã, na Assembleia da República

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As razões intrínsecas que podem levar um partido no poder que se denomina Partido Socialista a tomar uma posição declaradamente pró-CETA – o acordo de “comércio livre” entre a UE e o Canadá – são insondáveis. O conhecimento das amplas implicações do acordo revela o seu carácter nocivo para os interesses dos cidadãos, os quais passam a estar submetidos ao arbítrio de multinacionais que poderão exigir, num tribunal especial (ICS), indemnizações milionárias por medidas governamentais que considerem danosas para os seus lucros futuros.

Ao contrário do que aconteceu na Valónia, onde o processo de consulta pública foi real e abrangente e levou a exigências claras antes da assinatura do acordo, o governo português não informa os cidadãos portugueses sobre o acordo e suas consequências e os media votaram o tema ao ostracismo.

Qual será a percentagem de portugueses que ouviram falar desse acordo que já foi assinado e será votado no Parlamento Europeu no próximo mês de Fevereiro? 1%? Não faço ideia, mas quando se pergunta aleatoriamente a alguém, mesmo na capital, ninguém conhece sequer a sigla.

Foi essa a razão que levou a Plataforma Não ao Tratado Transatlântico a apresentar uma petição subscrita por mais de 5.000 cidadãos informados, exigindo um debate público sobre o CETA na AR. O que irá acontecer amanhã, 12 de Janeiro de 2017. Paralelamente, haverá uma concentração com microfone aberto em frente à AR.

Participe e informe-se! O CETA vai MESMO ter um impacto negativo para os cidadãos e para as Pequenas e Médias Empresas!

O Discurso.