“Those were the days my friend”

Que 2020 vos seja favorável, leitores e autores.

Como estragar um bom filme – versão canal AMC

A última moda, de há tempos a esta parte, por parte de alguns canais por cabo consiste em inserir auto-promoções enquanto está a ser exibido um programa, sem no entanto o interromper.

O emplastro pode ir do simplesmente intrusivo, como quando há bonecada ou mini-clips sobrepostos ao programa, até serem a parte principal do que está a ser visto, como na imagem supra, onde o filme, neste caso, continua numa pequena janela do ecrã.

Neste exemplo, capturado no canal AMC, a inversão de prioridades é total, relegando para segundo plano o que de facto poderia atrair o cliente para o canal. Soma-se a esta tropelia ao respeito do assinante outras como intervalos de 3 minutos, nada infrequentes em diversos canais, fazendo esquecer que se trata de um serviço auto-financiado pelas mensalidades.

Um exemplo menor, mas ilustrativo, da forma como a indústria dos conteúdos encara o consumidor. Meros sacos de dinheiro que vão mungindo enquanto há mama. Depois queixam-se que há quem não os esteja para aturar – basta ir ali à esquina para apanhar um steaming da pirataria, sem o DRM nem as interrupções com que chateiam quem paga.

Imagem: amostra do filme Crocodile Dundee II

* post actualizado, depois de uma publicação acidental antes do tempo

Ao cuidado de Freud: a inveja da bomba islâmica

O recente ataque à Porta dos Fundos trouxe às redes sociais mais uma enxurrada de excrescências constituídas por várias afirmações tão ridículas como perigosas, o que não é novidade, já que muitos criminosos são também cómicos. Confesso que ainda não vi o filme que deu origem ao atentado e não sei se é bom ou mau, o que, de qualquer modo, é irrelevante.

Os emissários das excrescências são, muitas vezes, membros de uma direita católica que admite brincadeiras – e bem – com os tiques da esquerda, mas que se enxofra com piadas que possam atingir a Igreja, Deus, Jesus ou os crentes.

Uns brandem o célebre “liberdade, sim, mas não à libertinagem”, muito preocupados com a ideia de que um Ser Omnipotente se possa ofender com palavras de mortais desbocados, o que é um enfraquecimento de algo ou de alguém tão poderoso. Em verdade vos digo que se Deus for o de alguns episódios do Velho Testamento, o sentido de humor não é, de certeza, o seu forte. Também vos digo que, se for Esse o existente, não estou interessado em conhecê-Lo e ficarei muito irritado por ter sido criado por alguém ainda mais maldisposto do que o do poema de Caeiro. [Read more…]

O atentado terrorista contra o estúdio da Porta dos Fundos e a farsa da luta contra o politicamente correcto

Há cinco anos, a 7 de Janeiro de 2015, fomos todos Charlie. A sociedade ocidental insurgiu-se em massa contra a intolerância do fundamentalismo islâmico, que tentou silenciar a liberdade de expressão do histórico Charlie Hebdo, e fez ouvir a sua voz.

Cinco anos depois, na véspera de Natal, a sede da Porta dos Fundos é atacada com cocktails molotov, num atentado perpetrado por uma organização terrorista de extrema-direita, que, tal como os seus homólogos islâmicos, justifica os seus actos com a defesa de valores religiosos, ironicamente num dos dias mais importantes e sagrados para o cristianismo.  [Read more…]

Maria Flor Pedroso

Sempre tive uma boa opinião sobre Maria Flor Pedroso enquanto jornalista da Antena 1.
Mas o poder corrompe. Suspender um programa durante a campanha só porque incomoda o Governo, ou fornecer informação privilegiada a uma entidade sob investigação, é a antítese do jornalismo.
Maria Flor Pedroso fez isso tudo, mesmo que o Conselho de Redacção da RTP diga que não há provas.
Se o fez por ter sido pressionada superiormente, como nos tempos de Manuela Moura Guedes ou de Marcelo Rebelo de Sousa, é grave.
Se o fez de moto próprio, é ainda mais grave. Porque mostra uma ausência total de isenção e de imparcialidade. E um jornalista assim não pode ser levado a sério.
Quando foi receber o candidato do PS à entrada da RTP, de forma subserviente, Maria Flor Pedroso mostrou ao que ia. Depois disto, mais vale aproveitar a onda e ir trabalhar para a “Acção Socialista” ou para o “Povo Livre”.
É que, enquanto jornalista isenta e independente, estamos conversados.

Personalidade do ano 2019


Os corruptos têm medo dele.
O Ministério Público, os advogados e os juízes. Os Partidos e seus políticos mafiosos. Os banqueiros. Os dirigentes desportivos e seus empresários de mão.
E porque os corruptos têm medo dele – é toda uma sociedade profundamente corrupta – vai passar longos anos na prisão.
Como português, sinto um enorme orgulho em tê-lo como compatriota.
Rui Pinto, preso político, é a personalidade do ano de 2019.

Quem merece (mais) o Piaçaba Dourado?

Pelas possibilidades que têm de fazerem malabarismo com as diferentes jurisdições dos países em que operam, as empresas multinacionais que atentam contra os direitos humanos ou o ambiente conseguem, frequentemente, esquivar-se à responsabilização, garantindo uma impunidade excepcional.

Adicionalmente, as multinacionais têm acesso a um sistema de justiça privada (ISDS) que lhes permite obter indemnizações multimilionárias quando os estados aprovam leis, por exemplo, para proteger o ambiente ou a saúde dos cidadãos, caso essas leis afectem os seus lucros presentes ou futuros.

Algumas multinacionais não têm quaisquer escrúpulos em usar e abusar dessas ferramentas. Vale a pena conhecer estas histórias.

A rede europeia activista que luta pelo fim do ISDS e a impunidade empresarial decidiu criar o Prémio Piaçaba Dourado para a empresa que tiver usado estas ferramentas da forma mais  revoltante. Foram nomeadas 10 empresas finalistas e pode votar aqui na empresa que, na sua opinião, mais abusou destes privilégios injustos.

A eleição irá decorrer até Janeiro e as votações podem ser realizadas na página original (em inglês) ou na página traduzida para português.

O Piaçaba Dourado pretende chamar a atenção para a forma suja como são mantidos estes sistemas injustos e para a necessidade de “limpar” o sistema de comércio internacional. E não será apenas a empresa contemplada com este prémio que precisará de limpezas profundas: é urgente acabar com estes privilégios injustos, pondo fim ao ISDS e à impunidade empresarial.

Sobre o futuro anexo ao aeroporto de Lisboa, conhecido como aeroporto do Montijo

Durante décadas falou-se em construir um novo aeroporto porque era preciso aumentar a capacidade e porque era perigoso ter um aeroporto ao lado da cidade. Consequentemente, o aeroporto de Lisboa seria encerrado.

Por isso, talvez tenha passado despercebido que a actual proposta recorrendo ao Montijo pressupõe que o actual aeroporto de Lisboa continue em operação. Mais, até se planeia a sua expansão. Está tudo explicado no comunicado da Vinci e ainda melhor ilustrado num vídeo produzido pela própria Vinci. Só faltou explicar porque é que o anterior perigo de ter um aeroporto no centro de Lisboa deixou de ser um problema.

Foi publicado na Nature, no passado dia 29 de Outubro, um artigo sobre a subida dos níveis da água do mar e o impacto nas zonas costeiras. A imagem seguinte é a projecção para 2030, portanto para daqui a 10 anos.

Subida do nível das águas – projecção para 2030 (fonte)

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Somos todos Porta dos Fundos, certo?

Ou isso da liberdade de expressão só é razão para defesa quando fanáticos islamitas desatam aos tiros contra os infiéis?

Só há uma coisa que me confunde. Se Deus é o Criador de tudo e mais alguma coisa, tudo sabe e tudo pode, porque é que ainda nada fez quanto a esta blasfémia? Será que é porque os senhores ofendidos têm uma coisa chamada telecomando que lhes permite não ver o que se passa no circuito fechado do Netflix?

Sede da Porta dos Fundos atingida com cocktails molotov após sátira com Jesus

Feliz Natal

A esperteza

 

A partir do conforto do seu gabinete ou da sua casa, à esperteza que se senta na cadeira de Ministro do Ambiente e que lançou para o ar umas cretinices sobre as pessoas que vivem em Montemor-o-Velho melhor fazerem em se mudarem para outros locais por causa das cheias, que até têm tido pouca relevância depois das obras na hidráulica do Mondego, feitas nos anos 80, se bem me recordo, não lhe ocorreu aplicar esse mesmo critério ao futuro aeroporto do Montijo, onde, mais cedo do que tarde, haverá problemas devido à subida dos níveis das águas do mar. Ou porque é que nunca se mudaram as populações das zonas ribeirinhas do Porto, por exemplo.

Podia ter aproveitado a ida à televisão para explicar porque é que das seis bombas de água previstas há décadas na hidráulica, só duas foram montadas e porque é que destas só uma delas está em funcionamento. Mas não era a mesma coisa, pois não?

Apesar da incúria, ainda tem o desplante em afirmar que é graças à manutenção que não ocorreu uma tragédia. Tivéssemos jornalistas em vez de porta-microfones, alguém teria colocado uma questãozinha ao xô ministro: quando é que foi feita a última manutenção e em que é que esta consistiu?

Bom natal, óptimo ano novo!

Make the world Greta again – uma bela mensagem para todos, colegas aventadores e comentadores que também fazem o Aventar, encontrada num graffiti, para as bandas de Cacilhas.

Bom Natal, Bom ano!

 

Filhos e enteados

Quem viva em zonas de influência de monumento nacional, ou com protecções semelhantes, que experimente trocar as janelas, colocar painéis solares ou alterar a cor da casa. Já para não falar de alterações que envolvam alvenaria.

Imagem: O “monolito” que Nuno Grande desenhou junto a São Bento divide opiniões

Regresso ao Futuro

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[António Alves, Maquinista]

Vivemos na Ferrovia Nacional um momento que se pode considerar histórico.
Aquilo que na filosofia da ciência se chama uma ruptura epistemológica. Estas acontecem quando um obstáculo inconsciente ao pensamento científico é completamente rompido ou quebrado. É o que acontece nos dias que correm no mundo ferroviário português. Um conjunto de factores concatenaram-se para que isso fosse possível: um ministro dedicado e consciente do papel da Ferrovia no futuro do país, um Conselho de Administração da CP tecnicamente competente e empenhado em fazer renascer o Caminho de Ferro e, até, uma mudança de linha, mas sem rejeitar a sua História e mantendo uma continuidade com ela coerente, no mais importante sindicato operacional do setor, o dos Maquinistas.
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Contra o Orçamento do Estado para 2020

Ora, questa frenesia dell’apparire (e la notorietà a ogni costo, anche a prezzo di quello che un tempo era il marchio della vergogna) nasce dalla perdita della vergogna o si perde il senso della vergogna perché il valore dominante è l’apparire, anche a costo di svergognarsi?
Umberto Eco

***

Foto: Tiago Petinga/Lusa [http://bit.ly/36HQkRp]

É impossível alguém rever-se no OE2020, a não ser que ande a espalhar o caos ortográfico. Efectivamente, a mixórdia de 1990 tem um dos seus pontos altos anuais no momento em que o ministro das Finanças entrega ao presidente da Assembleia da República um texto que o primeiro obviamente não escreveu e o segundo certamente não lerá. Baseio esta minha hipótese num facto: estes são exactamente os mesmos protagonistas dos momentos simbólicos do OE2016, do OE2017, do OE2018 e do OE2019. Se Mário Centeno e Eduardo Ferro Rodrigues tivessem escrito ou lido as propostas de 2016, 2017, 2018 e 2019, provavelmente não teríamos o caos de 2020 que aqui vos deixo, sob a forma de pequena amostra: [Read more…]

Em causa própria

Deputados como Luís Marques Guedes (PSD), João Almeida (CDS), João Olveira (PCP) e José Luís Ferreira (PEV) estão entre os mandatários e responsáveis financeiros que beneficiaram da alteração legislativa que eles próprios ajudaram a preparar no Parlamento. De acordo com o “Público”, cada um deles incorria numa coima entre 5 e 200 IAS (indexante de apoios sociais), “o que aos valores de 2019 equivalem a montantes entre 2.175 euros e 87 mil euros por cada irregularidade”. [Fonte]

Não há problema. Depois fazem-se parangonas sobre os perigos da extrema-direita e como é que ela chegou ao poder.

Adenda: a notícia original, do PÚBLICO

Não querem ver o óbvio, mas a realidade encarregar-se-á de lhes abrir os olhos

Rui Naldinho

O Professor Mário Murteira defende que, no século XXI, se verifica uma “desocidentalização” da Globalização, uma vez que os países do Oriente, como por exemplo, a China, são na actualidade os principais actores do processo de Globalização, e a hegemonia do Ocidente no sistema económico mundial, está a aproximar-se do seu ocaso, pelo que outras dinâmicas regionais, sobretudo na Ásia do Pacífico, ganharam mais força a nível global. Para Mário Murteira, a Globalização está relacionada com um novo tipo de capitalismo em que o «mercado de conhecimento» é o elemento mais influente no processo de acumulação de capital e de crescimento económico no capitalismo atual, ou seja, é o núcleo duro que determina a evolução de todo o sistema económico mundial do presente século XXI.

Dito isto, que parece ser de uma evidência atroz, não é (?), perguntar-se-á o que fizeram os Partidos Socialistas e Sociais Democratas Europeus, para enfrentar nos seus Estados, como representantes de uma faixa substancial do eleitorado, a mais vulnerável, por acaso, o processo de desindustrialização que se seguiu, com todas as consequências que daí advieram para as suas economias e populações, como o desemprego de longa duração, a diminuição do rendimento disponível das famílias, a redução da natalidade, o abandono massivo das populações, das regiões interiores para o litoral? [Read more…]

Países desenvolvidos não são para governo de marxistas…

Apesar dos britânicos estarem fartos das trapalhadas políticas dos conservadores, apesar do Brexit, apesar da impopularidade do político errante Boris Johnson, os eleitores do Reino Unido deram uma derrota colossal à esquerda radical, liderada pelo marxista Jeremy Corbin, provavelmente o pior resultado do labour desde a 2ª guerra mundial. Longe vão os tempos de Tony Blair, os militantes trabalhistas podem agora escolher continuar o caminho que os leva ao precipício, ou regressarem ao bom senso e voltarem a merecer a confiança da sociedade britânica.
Faço votos para que do outro lado do Atlântico, o partido democrático não caia na tentação de eleger Sanders ou Warren, oferecendo de bandeja mais 4 anos a Trump. Por muito graves que sejam os problemas no presente, não é com ideologias do passado, que serão resolvidos. No século XXI ninguém quer ser governado por socialistas de inspiração marxista, pelo menos nos países desenvolvidos.

Escândalo: 2,5 milhões em Ajustes Diretos à Global Media nos últimos três anos

Nesta o Ventura não vai pegar.

Câmara de Gaia, Ajuste Directo de 40.000,00 euros por 1 dia de trabalho

Ajuste Directo de 40.000,00 euros da Câmara de Gaia a Eduardo Paz Ferreira, marido da Ministra da Justiça, por um dia de trabalho.
Por mera, mas infeliz coincidência, Eduardo Vítor Rodrigues viria a ser absolvido, um mês depois deste Ajuste Directo, pelo Tribunal Relação do Porto, num processo em que fora condenado pelo Tribunal de Gaia. Não há nenhuma relação entre os dois factos, até porque a Ministra da Justiça não faz nem influencia acórdãos.
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A propósito dos limites à tecnologia

Anteriormente, publicou-se aqui uma referência sobre privacidade e estados vigilantes. Ou dito de outra forma, sobre a materialização da distopia “1984”.

Ontem foi notícia um estudo comparativo sobre o número de câmaras instaladas em diversos países.

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“Uma gaiola foi em busca de um pássaro”

“Franz Kafka certamente sabia como escrever uma história. O aforismo de oito palavras que ele anotou num caderno há um século revela muito sobre o nosso mundo de hoje. A vigilância vai em busca de sujeitos. Os casos de uso vão em busca de lucro. Jardins murados vão em busca de clientes domesticados. Os monopólios de recolha de dados vão em busca de países inteiros, da própria democracia, para envolver e re-moldar, para engaiolar e controlar. A gaiola da tecnologia de vigilância persegue o mundo, à procura de aves para prender e rentabilizar. E não pára por sim mesma. A gaiola de vigilância é o veículo autónomo original, impulsionado por algoritmos financeiros que não controla. Portanto, quando descrevemos nosso mundo orientado aos dados como sendo “kafkiano”, estamos a falar de uma verdade mais profunda do que tínhamos imaginado.” [traduzido daqui]

A Cage Went in Search of a Bird“, é uma peça de leitura obrigatória sobre o futuro da privacidade, fazendo uso de um aforismo de Franz Kafka. Num breve resumo, a tecnologia proporciona poder e este será usado indiscriminadamente, a menos que pensemos com muito cuidado sobre como o queremos ver usado.

Outras leituras:

Contas certas onde?

Receitas e despesas do subsector Estado (portanto, sem as autarquias, governos regionais e SS). Fonte: Dívida Pública Portuguesa. De acordo com o autor do gráfico:

  • A escala no eixo vertical está em milhares de milhão. 50.000 M€ = 50.000.000.000€
  • Estes são os dados que constam na execução orçamental e estão excluídos alguns itens da despesa geral do Estado. Estas são as do Estado Central.

O gráfico realça bem os mitos que se têm construído em termos dos resultados das governações PSD/CDS e PS:

  • As tentativas de equilíbrio das contas não foram feitas do lado da despesa;
  • A evolução da receita fiscal em 2011 e 2012 evidencia o falhanço que foi a política do PSD/CDS e porque é que existiu o enorme aumento de impostos de Gaspar;
  • As contas certas de Costa são ficção;
  • Se há algo certo nas governações dos governos de Passos Coelho e de António Costa é o constante aumento aumento da receita fiscal a partir de fim de 2012;
  • Agora que o PSD e o CDS estão na oposição, ouvimos os respectivos líderes barafustarem contra a carga fiscal. Fica patente o lado hipócrita do que afirmam;
  • O discurso vendido pelo PS de António Costa no percurso que o levou à vitória nas últimas legislativas assenta na mentira.

Sol, Jornal i, Record, Jornal Económico patrocinam racismo

Os jornais Sol, Jornal i, Record, Jornal Económico, Correio da Manhã, a Vida Económica ou a Essential Business, juntamente com outras empresas, patrocinam um almoço debate com o fundador do partido Chega. O mesmo fundador que está a ser investigado pelo DIAP de Lisboa, tendo o Ministério Público extraído uma certidão de processo-crime relativo à falsificação de 1813 assinaturas das 8312 entregues para a  legalização do referido partido. Dois dos fundadores do partido de Ventura, que entretanto abandonaram o partido, detetaram cerca de 300 páginas de assinaturas todas rubricadas com a mesma caneta. O tribunal assinalou a falta de coincidência entre números de cartão de cidadão e os nomes dos respetivos titulares, bem como crianças e mortos entre os subscritores, como o Simão com 8 anos ou o falecido Adelino que teria 114 anos. Sobre estes potenciais crimes da maior gravidade num país democrático, André Ventura ainda não ofereceu qualquer justificação válida.

Os referidos jornais e empresas podem dar a desculpa que quiserem, mas na minha opinião estão a promover o racismo. Podem dizer que é um evento da International Club of Portugal, que é para promover o debate político (debate político com patrocínios?), a pluralidade ou o que quiserem. Sabemos bem ao que vai o fundador do Chega, a forma como se exprimiu sobre certas minorias, cujo teor em nada se distingue do teor de discursos proferidos por notáveis nazis e fascistas do século XX. Como se não bastasse estão a dar palco a uma pessoa que é suspeita de crimes graves em democracia.

No que me diz respeito, estamos conversados. Já removi links dos meus favoritos e já atualizei a minha seleção de jornais a comprar ou a ignorar.

Lutas, causas, recuperações e inibições – Greta Thunberg e outras coisas

Sim, ela intervém numa sociedade que se tornou, há muito, perita em recuperar, instrumentalizar e, eventualmente, lucrar com as forças, movimentos e personagens que a contestam, por muito forte que seja a causa que representem. Mas isso não tira mérito a tais causas nem aos seus protagonistas. Cabe-nos estar criticamente atentos. Sendo assim, não entendo a hostilidade para com a jovem Greta Thunberg e a desvalorização de causa resultante desta atitude. Ela é uma criança. Uma adolescente, vá. Não era isto que queríamos? Não apelávamos a um compromisso da juventude na defesa de causas justas e de uma cidadania activa? E agora que isso acontece, qual é o problema de alguns de vós?
Ela pode cometer erros? Pode. E daí?
A luta que mobiliza os jovens pode ser recuperada e distorcida por um poder capitalista manhoso e que sabe bem como isso se faz? Pode. E daí?
Há causa mais imediatamente dramáticas e urgentes, com vítimas mais evidentes? Há. E daí?
Quando nos propomos lutar por uma causa temos que ir ao mercado das prioridades? Agimos ou é preferível ficar por uma imobilidade cínica? [Read more…]

Todos querem ver a Greta

À excepção do hipócrita do Presidente da República. É ouvir o Bruno Nogueira no Tubo de Ensaio de hoje.

Rui Moreira teve razão

For example, in cases where investigators of language change express violent disagreement with their predecessors, a closer look tends to reveal that a strong rebuttal of an earlier position may still crucially presuppose some determinative phrasing of scholarly questions, an indispensable collation of the facts, or pioneering paleographic spadework by the previous researcher being criticized.
Janda & Joseph

“Somos Porto”. É fácil dizer [ˌsomuʃˈpoɾtu].
Rodolfo Reis

***

Segundo o Record, Rui Moreira retorquiu

Isso é mentira,

depois de Fernando Madureira ter escrito

Houve falhas de segurança graves e tiveram de ser os seguranças e os populares a restabelecer a ordem.

Se virmos o episódio pela perspectiva de um leitor do Record, o presidente da Câmara do Porto teve razão, pois Fernando Madureira escreveu houveram. Efectivamente: houveram:

Houveram falhas de segurança graves e tiveram de ser os seguranças e os populares a restabelecer a ordem!

De facto, é mentira que Fernando Madureira tenha escrito ‘houve’.

 Continuação de um óptimo domingo.

***

Mais vale tarde do que nunca?

Lá do fundo do profundo estado de coma em que se encontra, o SPD alemão dá um tímido sinal de vida: SPD elege novos líderes críticos à coligação com Merkel.

Surge assim uma esperançosa luzinha ténue de que a social democracia possa voltar a ocupar o seu lugar histórico ao lado dos mais desfavorecidos. Os novos líderes do partido, Norbert Walter-Borjans e Saskia Esken declaram: “Somos simplesmente de opinião que nos últimos 20 anos a política do SPD seguiu fortemente o espírito neoliberal”.  Ora nem mais.

A ver veremos se não acordaram tarde demais.

As Quatro Estações

Quatro Estações, Vivaldi (RV 297) – Inverno – Cynthia Freivogel, Voices of Music 

Cada um dos doze andamentos de As Quatro Estações foi enquadrado por Vivaldi com um soneto, o qual ilustra o quadro musical desta obra de música descritiva. Com alguma imaginação, consegue-se ouvir o canto das aves na Primavera ou as tenebrosas tempestades de Verão. Supõem-se que estes sonetos terão sido escritos pelo próprio Vivaldi. Uma tradução pode ser encontrada em A Matéria do Tempo, da qual se deixa aqui uma parte.

A Primavera – 1º andamento: Allegro

Giunt’ è la Primavera e festosetti
La Salutan gl’ Augei con lieto canto,
E i fonti allo Spirar de’ Zeffiretti
Con dolce mormorio Scorrono intanto:

  

Chegada é a Primavera e festejando
A saúdam as aves com alegre canto,
E as fontes ao expirar do Zeferino
Correm com doce murmúrio.

Vengon’ coprendo l’ aer di nero amanto
E Lampi, e tuoni ad annuntiarla eletti
Indi tacendo questi, gl’ Augelletti;
Tornan’ di nuovo al lor canoro incanto:

Uma tempestade cobre o ar com negro manto
Relâmpagos e trovões são eleitos a anunciá-la;
Logo que ela se cala, as avezinhas
Tornam de novo ao canoro encanto.

Nota: Os quatro concertos estão disponíveis na Wikipedia para ouvir e para transferir.

Desigualdades, salários e globalização

 

João Vasco Gama

Um recente artigo de opinião da autoria de Paul Krugman, laureado com o prémio Nobel de Economia em 2008, explica porque é que no passado os possíveis impactos perversos da globalização sobre os salários tinham sido subestimados pelos economistas.

No dito artigo, Krugman admite que foi um erro minimizar estes impactos perversos, hoje reconhecidos, sobre o emprego, a distribuição do rendimento e os salários.

Krugman lembra que já desde 1941 se conheciam os mecanismos através dos quais o comércio internacional poderia, em princípio, conduzir a reduções salariais nos países com melhores condições laborais. No entanto, a importância real destes mecanismos deveria ser testada empiricamente, antes de ser dada como certa. [Read more…]