Taberneiras

Sabemos que nos aceitaram quando as mulheres da casa nos tocam no ombro ou nos enlaçam pela cintura. São mulheres duras, calejadas, resmungonas, e nunca desbaratam os seus afagos por cálculo ou hipocrisia. Podem chamar-te “meu amor” quando te perguntam o que vais querer jantar, porque as palavras valem o que valem, mas só te tocam se tiveres vencido as barreiras que elas mesmas levantaram. A partir desse dia, és da casa.

E como és da casa, ouves catarses. Cenas de gajas, gritarias, uma garrafa de cerveja atirada ao chão, logo se disfarça dizendo que escorregou. Insultos trocados entre cozinha e balcão, mas também risadas insolentes e piadas à custa dos engatatões. Mulheres frustradas, que não estão a ir para novas, e que do amor só conheceram a traição e o bafo de vinho. Têm o coração amarrado, castigadinho com cordas para que não as meta em apuros, e gostam de comentar, com um sarcasmo que nunca chega a ser cruel, as paixões das novatas. Consolam a amiga que veio ver se o homem estava a emborcar ao balcão, e se ele vier, se ele aparecer, hão-de servir-lhe só um copo, mesmo perdendo de vender, e mandá-lo para casa com um empurrão porta fora. [Read more…]

Os gatos e os deuses

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Por esta altura, os meus amigos já perceberam que gosto de gatos, que vivo com gatos (notem como evito dizer”tenho gatos”). Não sou o único, estou bem acompanhado. É interminável a lista das pessoas que admiro que têm – ou tiveram – gatos. A coisa vem de longe e nem sempre é uma história feliz.

Há dez mil anos, na Suméria e na Babilónia, nos locais onde os homens primeiro se foram sedentarizando, os bichanos começaram a conviver com os humanos, fazendo um controlo de pragas que aqueles aprenderam a admirar. Aqui se foram criando os primeiros laços entre homens e gatos, aqui se foram criando as primeiras lendas. Uma delas conta que os gatos nasceram do espirro de um leão, sublinhando o parentesco entre os dois felinos.

Um provérbio indiano dirá, depois, que os deuses criaram os gatos para que o homem pudesse ter o prazer de acariciar um tigre. Mas é no Egipto antigo que o gato atinge o estatuto mais ilustre. Não admira – lá vem a economia…-, já que, sendo a grandeza e o poder do Egipto assente, em grande medida, na produção de cereais, desde cedo foi percebida a importância dos gatos no controlo da ameaçadora e ruinosa rataria. Daí, a sua sacralização. A deusa Bastet era representada com cabeça de gato. Depois, a aproximação dos gatos às residências familiares dos egípcios e a sua própria sedentarização transformaram-no no símbolo do próprio lar.

Assim, o gato passou a ter um estatuto de membro da família, chorado na morte como se fosse um deles, mumificado tratado em morte como se uma pessoa fosse. As penas para quem matasse um gato podiam ser graves, indo até à própria morte. Os gregos e os romanos têm, também, uma relação cordial com os bichanos. Na idade Média, porém, as coisas mudaram completamente. O Papa Gregório IX decretou, do alto da sua santidade, que os gatos eram seres diabólicos e deviam ser exterminados. Segundo as inteligentes e profundas reflexões teológicas do tempo, os gatos eram bruxas transformadas e quem fosse visto a ajudar um gato era denunciado à Santa Inquisição, com os desastrosos resultados que se adivinham. [Read more…]

Vais levar, Fabiana

Ainda há meia dúzia de esplanadas pobres, longe das ruas da moda, onde a dona serve às mesas e o marido carrega o vasilhame e faz contas à vida ao balcão. As cadeiras nunca são confortáveis, as mesas assentam sobre o empedrado irregular, a garrafa que nos trazem bem pode deslizar pelo tampo inclinado e rebolar pelo chão. Tudo é precário como se a qualquer altura os donos tivessem de levantar mesas e cadeiras e sair a correr com elas à cabeça, tal e qual como as vendedeiras de meias, que nos tiram os collants das mãos quando estamos a apreçá-los e largam a correr, rua abaixo, com a polícia caça-licenças no encalço. Mas havendo sol, e uma nesga de rio, é quanto nos basta para desfrutar do precário.

Numa das mesas, uma mulher escreve versos num caderno e esconde-os com a mão, risca a última linha, resgata da rasura uma palavra, afaga a nuca e vai-se encolhendo toda, como quem fecha a concha.

Ao meu lado, um segurança de discoteca fala ao telefone com um cliente, discute preços, horários, quer saber que tipo de festa é, quantos homens terá de levar com ele. Fico a saber que o melhor dos seus homens levou um tiro num braço mas vai ficar porreiro, como o aço. [Read more…]

Jornais na madrugada

O cansaço dissipou o sono. É madrugada alta e é quase Natal. Leio jornais on line. Cai-me debaixo dos olhos a notícia da morte do actor António Montez. A memória recua a 1959, ao teatro anatómico da Faculdade de Medicina de Lisboa. Na mesa o corpo pequeno e magro da mulher com o número 36. À volta, um grupo de estudantes de anatomia. O José Gomes Ferreira, afamado locutor da RTP, paralítico das duas pernas, na sua cadeira de rodas. A Virgínia Morais, de Macau, boémia e rabulista, que vivia num apartamento com uma criada oriental a fazer petiscos com que todos nos regalávamos. O José Álvaro Morais, dividido entre a Medicina e o Cinema, acabando por ganhar este e com pompa, em Paris, onde foi realizador de mérito. A Clementina Diniz, elegante e sofisticada, que veio a ser psicóloga de nome feito pelo saber. A Sofia Borges, de Angola, sempre agitada e cheia de pressa. A Zita Neto Raposo, que veio de Minde com o seu sorriso franco e alegre. A Maria José Cardoso, cheia de verve e obstinação. Os manos Chung Kong Sin e Chung Su Sing, vindos da China via Macau. O António Montez, dividido entre a Medicina e o Teatro, e ganhou este fazendo dele um belo actor. O Luiz Frazão, pândego e cheio de piada. E eu, ida de Tomar  sem nada que me distinguisse. [Read more…]

O príncipe da Carpátia

Podemos ter regressado à caridadezinha, se é que alguma vez saímos dela, e exigir aos pobrezinhos que sejam humildes e agradecidos, e não aspirem ao bife mas tão só às papas de cereais marca branca do supermercado, mas ainda há, rejubilemos, gente como o príncipe da Carpátia.

Contaram-me que quando ele chegou à enfermaria, era apenas “o sem-abrigo”, sem documentos nem vontade de falar. Vinha sujo, sujíssimo, a pele já muito morena ainda mais enegrecida pela vida nas ruas. Saltavam-lhe piolhos dos cabelos e pulgas do casacão gigantesco. Assim pequenino, perdido dentro do casacão, deveria parecer alguém a quem uma poção mágica tivesse feito encolher. Mas bastou que lhe servissem a primeira refeição quente para que começasse a revelar ao pequeno mundo hospitalar o seu carácter. [Read more…]

Uma história de amor

Conheci-os na enfermaria e, no que a estas linhas diz respeito, decidi chamar-lhes Maria e António. Ela já fez 80 anos, a ele falta-lhe pouco para lá chegar. São casados há muito tempo, tanto que ela já não recorda a vida sem ele. Ele deixou de saber como se chama, onde está, quem ela é, e passa boa parte do dia agitado, a tentar mover os dedos crispados pela artrose e a murmurar palavras ininteligíveis, e foi isso que me chamou a atenção, ainda antes de conhecê-la a ela. Tantas horas passadas a tentar falar, um tão grande esforço para articular palavras, que poderá ter ele para dizer-nos? Importar-lhe-á se conseguimos decifrá-las ou não? Sorrio-lhe, fraco consolo, sou tão desconhecida para ele como aqueles com quem passou a vida, não entendi uma palavra de todas as que ele pronunciou, e duvido que ele veja esse sorriso do lado de lá da névoa que lhe cobriu os olhos.

Só mais tarde a conheci a ela, uma mulher de passos inseguros, parece hesitar antes de pousar cada pé no chão. É bonita, tem um olhar inteligente e essa avidez de conversa de quem passa os dias só. Vivem um com o outro, sem filhos, e é ela quem trata dele, com a ajuda de uma cuidadora do centro de dia local. [Read more…]

Dubliners

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“É da família? Venho dizer adeus”, dizia-me uma senhora dos seus sessenta, de Guiness na mão,  quase tão vazia como a minha. Mas não era. Aconteceu estar de roupa negra, em linha com a dos outros convidados do funeral. Mais tarde, John, filho do falecido, viria fazer-me a mesma questão e informando-me que o táxi chegara. “Ah!, não está para o funeral. É tão parecido com ele.” Esperei que ele não se referisse ao morto. O seu olho brilhante, aliado ao adocicado aroma de erva, tranquilizaram-me. “Veio gente de tantos países.” Realmente, o pub estava de tal forma animado que mais parecia estar a decorrer um baptizado. Mas o extremo da vida era o outro. “Posso oferecer-te uma pint?” Ora, já fazia parte do funeral, como poderia recusar?

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neste país chove um mundo frio

neste país chove um mundo frio. passo uma parte da manhã à espera de alguém que aparece um pouco tarde. ouço o debate do parlamento sobre o orçamento de estado. a pessoa aparece finalmente. parte da conversa é sobre isso. o mundo frio que chove neste país e em cada uma das nossas casas, às vezes literalmente. depois vou à minha vida que não sendo grande coisa é a única que tenho e onde chove raramente um mundo frio, apesar do país.

entro na estação dos correios da avenida. aveiro. estou aqui para levantar uma encomenda. olho em volta. há dois velhotes que talvez venham levantar a reforma. há uma mãe velha e um filho, já homem, deficiente. e estou eu. chove um mundo frio na estação dos correios da avenida. a chuva fria cai lentamente enquanto eu pouso os olhos nos olhos dos dois velhos e nos da velha mãe e do seu filho, já homem, deficiente. ao mesmo tempo a minha cabeça lembra-me, num alheamento que reparo depois ser insuportável, as coisas pequenas da minha vida rotineira, que não é grande. as compras que preciso de fazer. entre as quais o perfume que acabou esta manhã. acordo de repente do alheamento – espécie de mecanismo involuntário contra aquilo em que os meus olhos reparam, ali em volta – e ordeno à cabeça que se concentre na estação dos correios da avenida. aveiro. o filho da velha mãe, já homem, balbucia coisas que não compreendo com um cd na mão que aparentemente reúne os êxitos de 2014 do nacional-cançonetismo-pimba. a velha mãe entende o que eu não posso ou sei. [Read more…]

O meu pai, o imortal

Os médicos chamaram-nos para que estivéssemos por perto naquelas que seriam as últimas horas de vida do meu pai. O telefonema apanhou-me à porta do hospital, prestes a entrar, mas não me surpreendeu. A única novidade era precisar de forma tão brutal o tempo restante, mas esse tempo está contado há tanto tempo que parece sempre escasso, ainda que elástico, porque o meu pai tem sobrevivido sempre, contra todas as expectativas. Desta vez não havia expectativas, não mais do que horas. Encontrámo-lo sedado, o que acabou por ser um alívio. O que mais me atormentava era a possibilidade de ele ter consciência da iminência do fim. O monitor lançava dados alarmantes, por vezes apitava histericamente, os enfermeiros, compreensivos e contristados, correram as cortinas para que a despedida fosse íntima, e um médico, que já nos tinha explicado a gravidade da situação com palavras rigorosas e um tom suave, veio vê-lo e murmurou o veredicto: “nas próximas horas”.

O meu pai e o monitor, o monitor e o meu pai, assim andaram os meus olhos durante a manhã, a seguir uma linha que não sei interpretar, a atentar no peito cansado que ainda se elevava. Chamaram-me para avisar da presença de um visitante inesperado, eu tive de sair para explicar-lhe a situação, estive fora uns dez minutos, e quando voltei o meu pai estava desperto e totalmente a leste do que se passava. Estava um pouco aturdido, lembrava-se do desfibrilador mas mais pelo susto do que pela consciência da gravidade que ele pressupunha, e era preciso mantê-lo tranquilo e pouco perguntador. Estava vivo. [Read more…]

Inveja

Maria Helena Loureiro

10003458_10202973417162965_3996828043849702933_nA Brasileira ficou, de repente, quase vazia. Uma mulher, sozinha numa mesa a meio do café, lia o Diário de Coimbra e, volta e meia, fazia comentários em voz alta. Achei que era altura de me ir embora, tendo em conta que tinha sido precisamente o Diário de Coimbra que me tinha posto com vontade de arejar. Indecisa, enfiei o nariz no livro que ando a reler à espera que a outra se calasse. E consegui deixar de a ouvir ou, pelo menos, só a ouvia lá muito ao longe que os livros, é verdade, operam milagres.
Tão distraída estava, que mal reparei numa mulher jovem que entrou com uma bébé ao colo, toda embrulhada nuns panos traçados, em overdose de rosa, muito coladinha ao peito da mãe.
Na televisão, muito baixinho, sucediam-se canções conhecidas. Foi então que a mulher começou a cantarolar ao ouvido da pequenita ao mesmo tempo que a fazia dançar e rodopiar no colo e desfazer naqueles sorrisos hesitantes e espantados das bébés, ainda muito concentradas em manter a cabeça em equilíbrio mais ou menos estável.
I believe I can fly [Read more…]

O que me salva

A bem da Humanidade, só saio de casa depois de tomar café. Hoje a Humanidade correu um grande risco, e nem chegou a sabê-lo, porque eu decidi ir tomar o pequeno-almoço… (rufo de tambores, por favor) ao sítio a que chamam “o pão-quente”. Ora, esta operação tem a sua complexidade porque implica descer as escadas de casa, andar uns duzentos metros, cruzar-me com vários indivíduos, esperar pelas luzes verdes de semáforos, entrar, por fim, no sítio a que chamam “o pão-quente”, sentar-me tão longe quanto possível da Humanidade presente e pedir o desmedido luxo calórico do menu “croissant e meia-de-leite”.

Àquela hora, a Humanidade resumia-se a sete velhotes que alternavam a atenção entre o mergulho cauteloso da torrada no galão e o programa da manhã da RTP1. Entre observar as manchas de gordura que ficam a boiar à superfície do galão e o programa da manhã, eu sei o que preferia e não era a RTP-1, mas não tinha escolha, porque ninguém desliga a televisão nestes sítios e porque eu abomino essa prática do mergulho. [Read more…]

Felizes para sempre

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Uma coisa é garantida na maior parte dos contos de fadas (com ou sem bruxas, ogres, gigantes, duendes e outra fauna diversa) desde que os seus protagonistas sejam príncipes ou princesas: no fim, casam-se e são muito felizes.

Claro que quando as personagens são plebeus arriscam-se a ser, como aconteceu com a Capuchinho Vermelho e a Avó, comidas por um lobo ou outro predador adequado o que, no caso, tem sentido moral, já que a fedelha era desobediente e atiradiça e a avó manifestava uma lamentável negligência com a qualidade da fechadura da porta. Porém, quando se trata de ser ou ascender ao estatuto de príncipe, a coisa fia mais fino. [Read more…]

Um par mortífero

Já aqui contei que a minha cadela Rita adoptou um gato vadio, o Chico. Nos outros lugares, menos virtuais, onde também o contei, a reacção foi sempre de ternura embevecida. Punham-se as cabecinhas de lado quando ouviam a história, aquele sinal inegável de que os ouvintes responderiam com adjectivos como fofo, lindo, queriducho, e outros termos detestáveis. A história começou a correr e eu fiquei conhecida em certos meios como “a dona da cadela que vive com um gato”. Houve até um vizinho que veio ter comigo na rua para perguntar-me se era eu que escrevia no Aventar porque tinha lido o post e reconhecido a cadela e o gato que ele via do seu quintal. A Rita e o Chico devolviam a uma pequena amostra de seres humanos a fé quase perdida na possibilidade de um mundo de paz e harmonia.

Embalada com o sucesso da história, não me coibi de ir partilhando detalhes mais actualizados. E aí, para meu espanto, o entusiasmo esmoreceu de forma súbita. É que a cadela começou a ensinar o gato a caçar. Ele tinha o talento inato mas faltava-lhe a aprendizagem dos procedimentos. Começaram pelas ratazanas. Ao que o Chico tinha de rapidez e agilidade, a Rita respondeu com astúcia e experiência. Percebi logo que estavam ali dois assassinos em série. Orgulhoso, o Chico foi deixando um rasto de roedores chacinados por todo o lado, a sua forma de retribuir o carinho a quem lhe dá de comer. A Rita também ficou orgulhosa dele, mas disfarçou mostrando uma entediada indiferença quando ele empurrava as ratazanas mortas para junto da cama dela, uma das mais tocantes manifestações de afecto a que se pode assistir neste mundo. [Read more…]

Ódio em nome de Deus

A comunidade islâmica do Canadá está receosa. E tem razão para o estar depois dos crimes cometidos por simpatizantes dos radicais islâmicos no Quebeque e em Otava. Martin Couture-Rouleau, de 25 anos, ao atropelar dois soldados num parque de estacionamento na província francófona, tendo morto um deles, e Michael Zahaf Bibeau, de 32 anos, ao abater a tiro o soldado que fazia a guarda de honra do Soldado Desconhecido, na capital federal, invadindo depois o parlamento, tendo no final sido ambos abatidos a tiro pelas forças de segurança, quebraram uma maneira de viver nacional feita de respeito pela diversidade e pela tolerância. Segundo país maior do mundo, depois da China, apenas com 35 milhões de habitantes, ocupando lugar de destaque entre os países com melhor qualidade de vida, o Canadá é um país onde têm vivido em harmonia, respeito e dignidade, pessoas oriundas de 190 países. É um país feito por imigrantes, onde tem sido possível respirar em paz e segurança. Ao contrário do melting pot americano (ou mesmo brasileiro), o multiculturalismo praticado pelo Canadá saldou-se pela positiva na inteira liberdade com que cada grupo étnico pode ter as suas escolas, clubes, religiões e culturas.
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Olha o fado

Quem chega cedo à taberna (ó bela palavra que agora só me apareces com o penduricalho “gourmet”) ainda apanha os fadistas na esplanada, mesmo em frente ao rio. E é fácil reconhecer a mesa da fadistagem. Há os bazofeiros, que peroram sobre o fado, porque eles sabem o que é o fado, e como é que se canta o fado, e onde é que se aprende a cantar o fado, e já precisam dos dedos das duas mãos para contar as cenas de pancadaria que viveram por causa de um fado menor. Há os melancólicos, que não dizem nada e bordam com o dedo no tampo da mesa as palavras que mais os ferem. Há as jovens promessas, que ouvem em silêncio os mais antigos, umas deslumbradas, outras reticentes, e percebe-se logo, só pelo jeito, qual das novas estrelas do fado têm por modelo.

E há os que já não cantam, ficou-lhes um fio de voz, mas acompanham com o corpo, com um jeito de ombros, um suspiro. Foge-lhes o fado do corpo, e é como se lhes fosse o sopro da vida, uma coisa triste de ver, e por isso os cuidam tanto os actuais fadistas, achegam logo uma cadeira para eles, e procuram não deixar que a velhice os roube demasiado depressa.

– Ó Costa, iogurte?! Vais lanchar um iogurte?! Tu assim estragas-te, pá. Come uma isquinha, bebe um copo.

Que é como quem diz, não te entregues já. [Read more…]

O bichinho

A minha carripana tem vinte anos e uma carcaça sentimental. Os carros velhos têm achaques, engasganços, manias, e há que saber entendê-los. A certa altura, resolveu que só pegaria quando lhe apetecesse.Tratá-lo à bruta não adiantou, insistir só o enervava. Descobri que ele pegava com mais frequência quando era eu a tentar, uma espécie de lealdade para com a dona que me pareceu enternecedora. Em pouco tempo, estava a sussurar-lhe ao painel: “Sou eu, bichinho”, e ele pegava. O mecânico riu desdenhosamente até comprovar que a frase funcionava mesmo e aí teve de engolir a gargalhada.Num certo dia em que ele se mostrava mais caprichoso, e me foi proposto empurrar-me o carro numa descida, a frase mágica foi o meu alerta: “E se me espeto contra a parede?” Foi quanto bastou para que ele arrancasse. [Read more…]

António, recebi a tua carta.

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Fui encontrá-la no chão da entrada, onde aterram até que alguém os apanhe os envelopes que o carteiro enfia por debaixo da porta da rua. Havia outra, imaginas de quem, não é? Lá dentro estava um texto em Português acordizado, razão bastante, caso não houvesse outras, para não passar das primeiras linhas. Não aguento ver assim tratada a única pátria que conheço, compreendes?

No verso do teu envelope, lá estava aquela frase a afirmar na sua importância maiúscula que «PORTUGAL PRECISA DE SI.» Quando, depois das viagens formadoras da juventude, voltei para Portugal, fi-lo a achar isso mesmo: que Portugal, onde estava tudo por fazer, precisava de mim, mesmo se na justa medida em que também eu precisava de Portugal, pelas razões de superlativo mistério que fizeram com que uma imigrante (ou estrangeirada, chama-lhe o que quiseres António) se ligasse a este lugar mental ainda tão novinha, e desafiando as mais avisadas advertências que me exortavam a abraçar outra pátria.

Volto à tua carta: abri-a, lá te descobri na imagem de cabeçalho junto a uma réplica dessa frase: «PORTUGAL PRECISA DE SI». Pronto, afinal sempre era verdade. [Read more…]

Glória

A Glória passou anos à janela, e para nós a Glória só existia à janela, uma figura imóvel no primeiro andar de um prédio de gaveto. A Glória via-nos passar pelas manhãs, no seu posto de vigia, com o roupão cor-de-rosa, às vezes com o gato ao ombro, e por vezes parecia que levantava a mão para acenar-nos, mas a mão voltava a descer sem chegar a ser aceno.

A idade da Glória era uma coisa indefinida, nenhum de nós a tinha visto de perto, mas contava-se que passava pouco dos quarenta. O merceeiro levava-lhe as compras a casa, um vizinho ia à farmácia, levantar a pensão dos pais aos correios, tudo o que fosse preciso para que a Glória pudesse viver a sua vida à janela.

Contava-se que a Glória tinha deixado de sair quando o pai ainda era vivo, mas ninguém sabia ao certo o que acontecera, falava-se de um dia em que chovia muito e alguém a viu correr para casa, com os pés enlameados, o cabelo solto e desgrenhado, e o rosto molhado de chuva e de lágrimas, e que ia tão sufocada que nem podia falar, e que não parou quando a chamaram na rua, atravessou a rua sem olhar, ela que era tão cuidadosa, correu, correu até alcançar a porta, bateu com toda a força até alguém a abrir, e desapareceu por longo tempo até voltar a ser vista à janela. Depois disso, ninguém se lembrava de tê-la visto cá fora. [Read more…]

Turistificados

No tempo em que os animais já tinham renunciado à fala mas ainda ninguém tinha inventado a palavra “turistificação”, só havia camones e esses nunca se atreviam a passar aqui na rua. Alguns dos seus ex-pertences, sim, acabavam por ali, vendidos por baixo do balcão de certas lojas, alguma câmara afanada enquanto o camone subia a peúga caída para dentro da sandália, uma bolsa deixada pela senhora de Birmingham que, de tão enternecida com o hábito popular de deixar os guarda-chuvas molhados à porta dos cafés, pensava que também podia deixar a mala enquanto ia ao quarto de banho.

O Zé Isqueiro, que ganhou a alcunha por ser pequenino e de pavio curto, diz que não, que ceguinha seja a falecida mãe mais a irmãzinha que foi para o céu com o sarampo, se alguma vez ele afanou alguma coisa a alguém, que se alembra bem desse tempo, e de quem andava na gatunagem, mas ele não, ele teve sempre medo de ir de cana, e os tempos eram bravos, pois eram, mas ele foi aprendiz de marceneiro, depois foi servir às mesas, fazia serviços de casamento e banquetes, e safou-se, que remédio, mas sempre longe da bófia, que essa quando te deita a mão nunca mais te deslarga. [Read more…]

Hipocondria em Agosto

Não sei como é convosco, mas eu, se tenho uma dor de cabeça, penso logo que é um tumor. Isto tem razões biográficas, ou pelo menos eu gosto de justificar-me assim, cresci numa casa onde a doença andava sempre a rondar, e aos oito anos já devorava a Enciclopédia Médica do Reader’s Digest com o mesmo interesse que dedicava ao Tio Patinhas.

Gosto desse jogo que consiste em levar a vida saltitando entre a alegria quase infantil e a angústia existencial, e só não sou, se é que não sou, uma hipocondríaca insuportável porque tenho gente de quem me ocupar, o que é, de resto, o melhor que pode acontecer a um hipocondríaco.

Há dias fui ao médico por uma razão tão absurda que até tenho vergonha de contá-la. Claro que, racionalmente, eu tinha motivos para estar preocupada, há sempre motivos para uma pessoa se preocupar, que diabo. A minha maleita seria, no pior dos casos, algo que poderia matar-me, e no melhor uma coisita de nada. Os sintomas agravavam-se enquanto um funcionário ensonado teimava em escrever mal o meu nome. Eu aqui a morrer e ele a trocar letras, pensava, hão-de encontrar-me caída na sala de espera, e as minhas última palavras serão “não é com O, é com U”. [Read more…]

Postcards from the Balkans #12

‘They live to make babies. They live just 24 hours. They sing and make babies. Then they just explode’

Ou Split: Sea, Sun, Shopping… Shit.

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Os livros que me trouxeram hoje os simpáticos rapazes do bar Marvlvs, com as contas, uma do café que bebi ao fim da tarde, outra da cerveja (Pan, uma cerveja croata) que estou a beber agora foram, respetivamente Life of Pi e Biosupruga, este último de um escritor Croata de quem nunca ouvi falar (Michal Viewegh) e que parece que significa ‘mulher natural’. Bem, continuo sem perceber se há um critério para os livros que trazem aos clientes… de qualquer maneira, sei já que não têm livros portugueses, pelo que, quando chegar a Portugal vou mandar um livro português aos rapazes do Marvlvs que são a simpatia em pessoa. E a música, senhores, é perfeita. Gostei do gesto do me trazerem um livro croata, como que a dizerem que me sinta em casa. E sinto. [Read more…]

Vítor Rua: o que ser músico significa

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Imagem daqui

A TSF tem uma rubrica chamada «A Playlist de…» (e a palavra playlist estraga logo tudo). Toda a sorte de mais e menos famosos entregaram já nas mãos da TSF as suas preferências musicais, confidenciando na rádio as histórias e razões ligadas às escolhas que compõem a dita … playlist, assim chamam na TSF à música da vida das pessoas. A ideia – pôr no ar música escolhida por quem a ouve e gosta dela, pelas razões particulares que nos ligam às coisas – é em si boa. É o tipo de programa que fica sempre bem numa rádio que quer ser o espelho da sociedade a que as suas emissões se destinam. É também um dever de pluralidade e de memória, em favor da música de diferentes gerações. A música que cada um ouve é uma parte de si. Para aqueles que não se importam de a partilhar, uma rubrica assim vem a calhar – e sortudos os que possam ouvir com agrado, e se possível empatia, essa música de razões subjectivas que a rádio transmite.

Mas a música que cada um ouve é também uma caixa de mistério, uma escolha que em princípio não responde a nenhuma razão mercantil, e que habitualmente não passa na rádio. Isso é bom, uma lufada de ar fresco na névoa pesada e repetitiva da música para grande consumo com que constantemente nos moem o juízo (mas não foi sempre assim). Claro que melhor ainda seria a rádio deixar-se justamente de playlists, que não servem nem a música nem os verdadeiros músicos (que também os há falsos, em grande número até), mas os interesses intermediários e parasitas da criação musical e das indústrias que gravitam em torno dela. Sucede que a dado passo também as rádios sucumbiram aos imperativos dos mercadores de discos, concertos e cervejas, e estragaram tudo (mas a XFM existiu mesmo, e não é possível esquecê-la).

Vem tudo isto que já vai longo a propósito da entrevista que Fernando Guimarães, homem da rádio e também do Aventar, fez a Vítor Rua, uma pessoa que aposto que jamais aceitaria participar numa rubrica chamada «A playlist de…». [Read more…]

Canções de uma mesma chama de secreta gravidade [Textos sobre música portuguesa V]

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«Um dia vou abrir o frigorífico e vai estar vazio», pensou certo dia Mísia quando, sozinha e angustiada em casa, pensava na crise e no seu futuro. «O que é que eu vou fazer? O que é que eu vou comer?», interrogou-se a cantora melodramaticamente à boa maneira portuguesa: sempre com a fome no pensamento. Assim nasceu o menu de canções que constitui o seu último trabalho, Delikatessen Café Concerto (2013), um jantar musical cozinhado com as suas melhores canções, e um punhado jeitoso de convidados à altura de tão finas iguarias: Iggy Pop, Adriana Calcanhotto, The Legendary Tigerman, Dead Combo, Ramón Vargas e Melech Mechaya. Para eles, e com eles, Mísia serviu canções portuguesas, francesas, boleros e tangos, afastando-se um pouco do seu caminho de fadista, embora não completamente, pois tudo o que canta se transforma de certa maneira em fados.

No final de 2011, Mísia editou Senhora da Noite, uma senhora que esconde treze outras senhoras: trata-se de um conjunto de treze temas, escritos por outras tantas autoras, de Amália a Aldina Duarte, passando por Florbela Espanca, Natália Correia, Lídia Jorge, Hélia Correia, Rosa Lobato de Faria, Amélia Muge, Adriana Calcanhotto ou a própria Mísia, num disco que celebrou o génio criativo feminino e constituiu um regresso ao Fado mais tradicional – tanto quanto a tradição pode casar-se com a modernidade do estilo de Mísia. [Read more…]

Valsa lenta

Felizes os que morrem devagar, e nesse devagar vão revendo tudo quanto foi, e quanto é, e o que ficará. Morrem como quem chega à estação de destino, o comboio abranda e nesse abrandamento vêem com detalhe a paisagem que até aí era mero esboço fugidio, recolhem a bagagem, lançam um último olhar ao lugar que ocuparam, e saem, devem sair.

Se te dizem que é melhor morrer de repente, que a morte te apanhe desprevenido, não acredites. É melhor morrer devagar, com tempo para saborear os pêssegos deste Verão, sabendo que não haverá outro Verão, e deixar que o mundo inteiro se concentre por instantes no prazer deste pêssego maduro, e que ele valha por si mesmo, sem pressas, não porque é o último mas porque é perfeito. [Read more…]

O problema do custo da diária na prisão

Diana Andringa

Anunciou o jornal Público que a Direcção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais pretende vir a afastar os directores das cadeias que não conseguirem reduzir a reincidência dos seus reclusos. De acordo com a época, as razões avançadas são contabilísticas. É que metade dos 14.500 reclusos portugueses voltam à cadeia e, segundo um responsável daquela direcção geral, cada um custa ao Estado 50 euros por dia: “O tratamento penitenciário é caro e, por isso, não nos podemos dar ao luxo de encarar a reincidência de ânimo leve”, explicou. Daí a decisão de avaliar os resultados e o perfil do director, sendo este responsabilizado e podendo ser afastado se nada mudar.

Há anos, numa intervenção no Centro de Estudos Judiciários, sugeri que todos aqueles que têm responsabilidades no sistema judicial – incluindo políticos e legisladores que respondem com aumento de penas aos medos sociais que, muitas vezes, incentivaram – deveriam passar algum tempo encerrados numa cela. Talvez isso lhes permitisse ver a prisão com outros olhos, bem diferentes do custo da diária. [Read more…]

Penas transfiguradas [Textos sobre música portuguesa IV]

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© Cláudia Varejão

Lula Pena (n. 1974) não anda cá para fazer discos a metro, nem concertos, nem canções, e nem sequer covers – e os seus são sempre já outra coisa, suficientemente ancorados nas versões originais para podermos reconhecê-las, mas constituindo objectos originais: outras coisas criadas por alguém que refaz fazendo novo, recriando com a memória e o coração.

O seu primeiro disco, Phados (1998), é uma viagem que interroga o Fado, abrindo-lhe horizontes nem sempre reconhecidos pelos mais puristas da canção nacional, e embora a sua forma de cantar faça justiça ao seu nome, que transporta como um destino marcado uma dor nacionalmente reconhecível. Nele, a cantora revisita alguns grandes temas populares de Língua portuguesa (Portugal, Brasil, África), cantados com a liberdade dos reinventores da melhor tradição, com a infinita tristeza do bardo exilado (Lula, viajante poliglota, cantou-os pelas ruas do Mundo), e com a voz profunda e inquietante da sereia de voz grave a quem Rodrigo Leão pediu emprestada a voz para o paradigmático tema-tango Pasión. Uma voz que alguém definiu já como o sendo o resultado de uma combinação de mel e lava, penhascos e mar – o que pode haver de mais português? [Read more…]

Outro Fado [Textos sobre música portuguesa III]

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© Clément Darrasse

Quando A Naifa surgiu, ninguém sabia muito bem como classificá-la, onde arrumá-la, se no faqueiro da avó, se no do Ikea, ou se noutro ainda. Quais seriam ao certo as virtualidades com significado para a música pátria d’A Naifa? E digo (escrevo) isto mapesar do Fado, que claramente habitava (e habita) a sua música, que era (e é) o seu chão, e das sonoridades tradicionais da terra portuguesa. Talvez por isso, e porque «trip-fado» definisse insuficientemente o género singular a que se dedicavam os músicos d’A Naifa, alguns preferiram cortar a eito e chamar-lhes «pós-modernos» – designação contudo também ela um bocado opaca, que apenas informava estarem eles «um bocado à frente», representando correntes ainda por deslindar em toda a sua extensão e significados. [Read more…]

Partir bibelots [Textos sobre música portuguesa II]

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Quando B Fachada apareceu, alguns tomaram-no por um rapper – falando dos que ainda não o tinham ouvido, mas apenas aos aplausos de quem já o conhecia e se limitava a dizer que as suas letras eram “bestiais”. Lá vem mais um rapper, pensaram, um rapper intelectual, deduziram esses que tomaram “as letras bestiais” do talento então emergente por coisas do hip-hop, como se apenas nessa poesia as palavras da música pudessem ter grandeza contemporânea. B Fachada, cantautor (autor, portanto, do que canta), interpreta os poemas que escreve, acompanhando-se, com desarmante singeleza e economia de meios, à guitarra ou ao piano. Canções que são sobre tudo – mas que narram sobretudo as nossas vidas humanas portuguesas: os seus vários dilemas morais, as suas mariquices e pirosadas (as suas pieguices, diria Passos Coelho), os problemas conjugais e familiares, gente que se apaixona e engravida e se separa e depois disputa entre si aqueles discos históricos do Sérgio Godinho que se podem ouvir pelos finais de tarde, as manhãs horrorosas de quem dormiu mal: a vida, em suma. Cronista do nosso mal-estar nacional, B Fachada cintila no crespúsculo do nosso passado inteiro, no limiar de uma modernidade que tarda em Portugal, na perplexidade de tudo isso.

Habilidoso investigador, não renega os seus pais espirituais (Sérgio Godinho é um deles, sem dúvida), de quem diz roubar as canções para melhor compreendê-las – e também a honestidade com que o faz e diz que faz desarma, mesmo se há quem teime em acusá-lo de ser um “assassino das canções dos outros” (!), naquela que é também uma característica nacional: encontrar sempre uma razão ilegal e/ou imoral para a recriação, como se toda ela não nascesse de pré-existências. Talvez por isso B Fachada faça questão de afirmar que não é um intérprete – e assim sabemos ao que vamos, apesar de Fachada tirar as suas canções (e as de outros) dos lugares sagrados onde costumam estar, partindo esses bibelots (mesmo se muito belos) dos nossos pais e avós, como vidro feito em fanicos destinados à transformação. Sem medo, como antigamente os portugueses de tudo e mais alguma coisa, pois B Fachada nasceu em 1984, e assim sendo as suas canções são já de uma outra “intervenção”, de uma outra História, por sinal (e ainda bem) diferente daquela da canção autoral portuguesa que só o 25 de Abril tornou livre. Diferença que não impediu a «mesmidade» do seu satírico Deus, pátria e família – para falar da trindade eterna que o cantautor disseca na sua imobilidade, empenhado em  «descastrar-nos» a todos, e malgrado os inimigos que tem feito: os que não se dispõem a ver-se no espelho de ver diminuídos (i.e., castrados) de Fachada.

La mer

Imaginemos que eu vos dizia que a polícia me tinha parado quando conduzia na marginal, e que era suposto que a polícia o fizesse porque eu levava o carro aos esses, não pela razão mais óbvia, mas porque ia a chorar tanto que já não via bem a linha, e de cada vez que limpava as lágrimas com as costas da mão aproximava mais o carro da outra faixa, e a marginal, aquela marginal, talvez a conheçam, é de dois sentidos.

Ah, não sejam assim, quem nunca meteu um fado a tocar no rádio para puxar a lágrima, quem diz um fado diz aquela canção, que atire a primeira pedra.

Bem, a polícia apareceu de repente, estava um carro-patrulha parado na bomba de gasolina, e quando eu passo, liga as luzes e vem atrás de mim, e eu chego-me mais para o passeio para que me ultrapasse, e ele não ultrapassa, penso que quem conduz deve ser um grande nabo, e é então que me ocorre, com mil demónios, estão atrás de ti! [Read more…]

Sem panos quentes [Textos sobre música portuguesa I]

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Os UHF ficarão para sempre indelevelmente ligados ao movimento do chamado «novo rock português», que inaugurou um novo tempo para essa música feita por portugueses, libertando-os tanto das heranças do rock bem-comportadinho nascido ainda durante o antigo regime dos nacionais cançonetismos, como da então prevalecente «música de intervenção» – género ancorado noutras sonoridades e que dominou esses anos pós-25 de Abril. Cantando em Língua portuguesa, os UHF anteciparam-se na verdade ao chamado “pai do rock português”, o cantor Rui Veloso, cujo famigerado álbum Ar de Rock seria lançado apenas em 1980 (e tendo para muitos demasiado ar e pouco rock). Então considerado rock da pesada, o que os UHF fizeram inaugurou em Portugal um outro som para palavras rockadas em Português, apropriando-se dos códigos do universo do rock dos anos 70, esse grito de revolta que desde há muito fazia mexer outras sociedades noutras partes do Mundo.  Com o novo rock de Portugal surgiram, para além dos primeiríssimos UHF, também os Xutos&Pontapés, os GNR, os Heróis do Mar, os Trabalhadores do Comércio, os Táxi, ou os Salada de Frutas.

Recordo-me ainda novinha a ouvir os UHF também ainda novinhos a cantar Jorge morreu (1979) e Rua do Carmo (1980) – o primeiro tema denunciando a morte de contornos sórdidos de um amigo desaparecido na turba das drogas duras (que na época ceifou muitos mais de pelo menos duas gerações de jovens portugueses), e o segundo evocando poeticamente aquela que é uma das mais importantes ruas comerciantes da Baixa lisboeta – uma rua feita para o consumo, lugar de passagem obrigatória para as incontáveis «mulheres bonitas presas às montras» e indiferentes aos «aleijados em hora de ponta». Era novo, fazer um tema de rock sobre uma rua de uma cidade. Fazê-lo simultaneamente com poesia e denúncia social tornava essa novidade ainda mais valiosa – uma pedrada no charco, outra coisa. Lembro-me também de Cavalos de Corrida (1980), [Read more…]