Cavaco: fazer mais e pior com o mesmo

Cavaco Silva publicou, hoje, um texto no seu facebook, com esta ideia originalíssima: os funcionários públicos devem fazer mais e melhor com menos, “para manter viva a esperança no futuro”.

Em primeiro lugar, seria importante que alguém, na Casa Civil, explicasse a Cavaco que só se pode ter esperança no futuro, embora – confesso – ainda me martirize a sonhar com um passado diferente daquele que tive, como, por exemplo, quando o actual Presidente foi Primeiro-Ministro e revelou a ausência de visão que viria confirmar até hoje.

Os funcionários públicos têm muito má fama, sendo, muitas vezes, considerados uma gente improdutiva muito bem paga, preocupada em cumprir horário, à espera do conforto injustamente seguro que chega sempre no fim do mês. Se Cavaco comungar desta visão, saberá, no fundo, que a recomendação para que os membros de uma tal tribo trabalhem mais e melhor, ainda por cima ganhando menos, só poderá cair em saco roto.

No entanto, mesmo que seja um exercício ocioso, podemos imaginar que existem, entre os funcionários públicos, alguns trabalhadores dedicados, sérios, preocupados, também, com o bem da nação. Não será difícil acreditar que essas raridades possam ser pessoas informadas e que, apesar da dedicação honesta com que trabalham, se sintam desmotivadas, ao sentirem-se roubadas por vagas de políticos desonestos, incompetentes ou ignorantes, e ao verificarem que são obrigados a viver com menos, devido àquilo que outros gastaram e continuam a gastar. Por muito que não queiram, insensivelmente, há muitas probabilidades de que se a revolta se instale ou de que o rendimento seja afectado pelo desencanto.

Não vejo, portanto, como poderá um mau funcionário trabalhar mais ou como poderá trabalhar ainda mais um funcionário competente. Da mais alta figura da nação esperar-se-ia que fosse um Presidente da República, ou seja, um defensor dos cidadãos, mas Cavaco só quer ser Presidente. A República não faz parte das suas preocupações: sendo ele tão pouco, não se espera que faça mais e melhor.

Tristezas pagam dívidas

O povo é sábio! E tem sempre a solução para tudo: quem não arrisca não petisca ou mais vale um pássaro na mão, que dois a voar. Nunca falha – parece o Camilo Lourenço. Vem isto a propósito de uma mensagem de Passos Coelho escrita há uns tempos e que agora surgiu no arrastão.

Sabemos aqui no Aventar, que a maioria do povo português acreditou nesta mensagem. Logo, ninguém estranha os pentelhos do Eduardo que, dizem-nos de fonte segura, não conhecem os da Celeste e até os estranham.

Ana Malhoa

Ana Malhoa

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Irlanda: a ordem é ocupar casas!

A Standard & Poors poupou a Irlanda ao corte da notação financeira. Sem se perceber bem o critério utilizado. De facto, depois de um alucinado entusiasmo das autoridades locais e pífias análises de comentadores neo-liberais, com aclamação do sucesso das medidas de austeridade, conclui-se que, afinal, a mossa produzida pelo ‘sistema bancário irlandês’ é muito pesada e a cura está a léguas de produzir os objectivos anunciados. Pelo contrário, os números reflectem a dimensão e efeitos de inverso desfecho:

Descrição

Valores

População – nº de habitantes (2010)

4.476.000

Nº de desempregados (3.º T – 2011)

303.000

Taxa de Desemprego (3.º T – 2011)

14,60%

PIB – taxa de crescimento (3.º T –2011)

– 1,9%

Menos retóricos do que a gentinha lusa, os irlandeses são decididos e eficazes na acção. O movimento ‘Occupy’, de que Liam Mac Bháird, na imagem acima, é um dos líderes, promoveu a ocupação de casas-fantasma, Da notícia, originalmente publicada no “The Guardian” e divulgada pela “Presseurope”, destacamos as seguintes passagens:

Há cerca de 400 mil prédios vazios, na República da Irlanda, e o Instituto Nacional de Análise Regional e Ordenamento Territorial (NIRSA)…

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A Grande Loja Laranja e a EDP

Corleone não gostou das nomeações para a EDP

Pandas

Em 1998   após um referendo , e pela primeira vez desde o inicio do Sec. XVIII  , a Escócia voltou a ter um Parlamento  . Foram logo estabelecidas as regras para as futuras eleições    de maneira a impedir que qualquer partido obtivesse uma maioria absoluta , pensando sobretudo no Scottish National Party (SNP)  que , para os defensores da União , vinha aumentando de popularidade de forma preocupante .

Porém em Maio de 2011 , e sob a liderança de Alex Salmond , para muitos o mais brilhante , sagaz e astuto politico do ainda Reino Unido , o SNP obteve uma retumbante vitória e a tal julgada impossível maioria . E fê-lo prometendo ao eleitorado  referendar a independência da Escócia   , quase certamente em Junho de 2014 . A escolha da data é tudo menos inocente , pois  será nessa altura que se comemoram os 700 anos da famosa batalha de Bannockburn e a vitória do pequeno exército Escocês , comandado por Robert the Bruce , Rei da Escócia , sobre uma muito mais poderosa força Inglesa .

É verdade que o First-Minister Salmond propunha que nesse futuro referendo constassem além do Sim ou Não à independência , uma terceira alternativa que seria algo de intermédio , uma “devolução máxima” dos poderes do Parlamento de Westminster ao Parlamento de Holyrood  ; tudo suficientemente vago que permitisse negociar e negociando manter a integridade do Reino Unido . [Read more…]

O pastel III

Nomeações: Passos Coelho mente

Vi e ouvi, fortuita e surpreendentemente, as imagens da ‘SIC Notícias’ da intervenção de Pedro Passos Coelho na ‘Conferência Made in Portugal’, realizada pelo ‘Diário de Notícias’. Com recurso a gráficos e ao inestimável ‘Power Point’, o PM desdobrou-se em explicações para declarar ao País que o seu governo tem cumprido a regra de fazer nomeações, exclusivamente, com base em critérios de competência e sem atender a filiações partidárias.

À semelhança do que fez em tantas outras ocasiões anteriores, Passos Coelho mentiu, recorrendo a explicações sem nexo nem consistência – os casos da CGD e das Águas de Portugal foram dos que melhor evidenciaram a falta de honestidade intelectual e política do PM.

Caso se tornassem necessárias provas para as mentiras e topetes de Coelho no que toca a nomeações selectivas, com base na filiação partidária, aqui está uma prova mais, anunciada pelo ‘Jornal de Negócios’:

Franquelim Alves, ex-secretário de Estado do Governo liderado por Durão Barroso, deverá ser o novo gestor do programa COMPETE, depois de o actual, Nelzon de Souza, ter apresentado a sua demissão, de acordo com a Antena 1.

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O pastel II

Hoje dá na net: Léon

Léon, um assassino profissional é obrigado a tomar conta de uma miúda de 12 anos. Um filme de Luc Besson com Jean Reno e Natalie Portman. Este filme ocupa a 32ª posição no Top 250 do IMDB. Página IMDB.

Em inglês, sem legendas.

Blogs do ano 2011: fim das inscrições

O Aventar está a organizar a votação “Blogs do ano 2011”. As inscrições fecharam ontem às 24 horas. Durante o dia de hoje estaremos a preparar as votações que arrancarão no próximo domingo. As próximas etapas são:

  • 14 de Janeiro: publicação das listas finais
  • 15 a 21 Janeiro de de 2012: votações (1ª eliminatória)
  • 22 de Janeiro de de 2012: publicação dos resultados da primeira eliminatória e apresentação dos concorrentes da segunda fase
  • 23 a 28 de Janeiro de 2012: votações (2ª eliminatória)
  • 29 de Janeiro: publicação dos resultados finais

Salvo correcções de última hora, há 582 inscrições em 30 categorias. Agradecemos o interesse que a iniciativa tem despertado e faremos os possíveis para proporcionar uma votação com fair play.

Votações e mais detalhes aqui.

o pastel

A doçaria portuguesa: depois dos natas, os papos d’anjo

pasteis de natapaps d'anjo

Primeiro foi o Ministro da Economia e do Emprego a iniciar a saga de notícias sobre a nossa doçaria, evocando os pastéis de nata. Agora são servidos Papos d’Anjo, designação e marca de uma empresa de vestuário de Catherine Monteiro de Barros, cuja insolvência foi deliberada pelo Tribunal de Comércio de Lisboa, segundo notícia do “Público”, da qual reproduzimos o seguinte trecho:

O rol de dívidas que a empresa de Catherine Monteiro de Barros, filha do empresário Patrick Monteiro de Barros, acumulou chega a perto de quatro milhões de euros. O maior credor é o BES, com um incumprimento de quase 1,6 milhões. Aos cerca de 30 trabalhadores ficaram por pagar quase 400 mil. E o Estado também foi lesado: as dívidas ao fisco e Segurança Social totalizam 355 mil euros.

Resta acrescentar que, nos quatro milhões de euros em dívida, se inclui o remanescente de dívida à CGD, no valor de 540 mil euros, relativo a uma operação de ‘leasing’ na compra de instalações, assim como 780 mil euros à AICEP – a empresa recebeu 1,9 milhões ao abrigo do QREN. O Estado português, directamente ou através de instituições, ficará lesado em mais de 2 milhões de euros, caso a empresária e eventuais avalistas não os paguem.

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Imitação à vida. Ensaio de etnopsicologia da infância

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El Ângelus, 1857-1859, por Millet

Para os meus netos Tomas e Maira Rose, os van Emdem da Holanda, e Ben, May Malen, Javier, Max Raúl ou os Isley da Grã-Bretanha, fihlhas de repaigas nascidas Iturra- González.

Bem sei do filme que existe com este título* de 1956, com Lana Turner e John Gavin. Como todo leitor deve supor, não é do filme que queria falar, muito embora a temática seja semelhante ou tenha sido feita. Os adultos do filme imitam outros para aprenderem a viver e comportar-se como for conveniente aos roles que representam. [Read more…]

Eu e o meu mau feitio

Outras opiniões de Manuela Ferreira Leite sobre a saúde dos portugueses


«É deplorável que se consinta que indivíduos que sofrem de moléstias incuráveis continuem a contaminar as pessoas sadias. Isso corresponde a um sentimento de humanidade do qual decorre o seguinte – para não fazer mal a um arruinam-se centenas.»

«Tornar impossível que indivíduos doentes procriem outros mais doentes é uma exigência que deve ser posta em prática de uma maneira metódica, pois se trata da mais humana das medidas.»

«Deve-se proceder, sem compaixões, no sentido do isolamento dos doentes incuráveis».

«Quem sabe exatamente se está doente ou não? Não se verificam inúmeros casos em que uma pessoa aparentemente curada, recai e causa desgraças horríveis, na perfeita ignorância da realidade?»

«Tudo o que se fez foi, ao mesmo tempo, insuficiente e irrisório. A corrupção do povo não foi evitada.»

«O papel do mais forte é dominar. Não se deve misturar com o mais fraco, sacrificando assim a grandeza própria.»

« Educando o indivíduo, o Estado deve ensinar que não é uma vergonha, mas uma lamentável infelicidade, ser fraco ou doente, mas é um crime e também uma vergonha.»

Estas e outras opiniões de Manuela Ferreira Leite na sua última obra

Todos contra a Barragem 0,1% – Depoimentos sobre o Douro e o Tua. 6 – Daniel Deusdado


Passei os últimos quatro anos com o peso da morte do rio Sabor na parte subterrânea do meu cérebro. De vez em quando, subitamente, lembrava-me de um rio pequeno que parecia chorar e rir, rebelde e limpo, de que quase ninguém queria saber à excepção de uns sonhadores unidos na Plataforma Sabor Livre.
Perante a ameaça de uma gigantesca barragem, eles falavam de um rio ainda com peixes, águias, lobos, vegetação milenar, muito inóspito, livre da nascente à foz, que viam morrer às mãos da ganância energética da EDP. E claro, com a bênção do anterior Governo – eram necessários muitos milhões para abater ao défice, a EDP pagava-os, foi sem espinhas.
Assim se vendeu a preço de saldo um extraordinário pedaço selvagem do território português, verdadeiramente único para quem tivesse olhos de ver – e muitos seriam os que, cada vez mais, acorreriam para sentir o que era a natureza em estado puro como quase já não há no mundo ocidental. Ou acham que os turistas viajam para visitar barragens e “centros de interpretação ambiental” que ficcionam o que existia antes destes holocaustos hídricos? Ou que alguém vem para Portugal para tomar banho em águas sujas e perigosas como são as de muitas barragens? [Read more…]

Eu, maçon, me confesso

Não me sentiria bem comigo próprio e perante os meus colegas e leitores se continuasse a esconder a minha ligação à Maçonaria.
Repare-se que não tenho nada contra os irmãos que não o fazem e que, por causa das represálias, preferem ocultar a sua condição. Ninguém é obrigado a divulgar o que quer que seja da sua vida privada.
Por que razão aderi à Maçonaria? Porque comungo dos ideais que norteiam esta sociedade fraternal que cultiva os valores da liberdade, igualdade e fraternidade.
Pena que muitos não o compreendam e que muitos outros pensem que tudo se resume a tráfico de influências. Já estou habituado desde que a minha mulher se vira para mim todas as semanas, quando saio de casa depois do jantar para a nossa Loja de Passos Manuel, no Porto, e me diz: «Já vais para aquilo dos aventais»? Desde que um blogger bem conhecido da nossa praça me disse na cara que o Aventar tem o sucesso que tem, mesmo sem vedetas, pelo facto de eu estar ligado à Maçonaria, acredito em tudo. Esse blogger chegou mesmo a fazer a ligação aventar – avental e a relembrar a presença neste blogue da Ana Anes! [Read more…]

Hoje dá na net: Nosferatu

Em dia de bruxas, de azar e de outras superstições, fica bem um clássico do terror. Nosferatu (Nosferatu: Eine Symphonie des Grauens) foi realizado, em 1922, por F. W. Murnau. O realizador baseou-se no Drácula de Bram Stocker, livro com uma grande fortuna no cinema. Max Schrek, o actor principal, compõe uma personagem verdadeiramente aterrorizadora, a ponto de se ter criado uma lenda de que seria um verdadeiro vampiro que teria como pagamento poder sugar o sangue da estrela feminina Greta Schröder.

A globalização do pastel de nata – o Álvaro merece o Nobel!

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Passos Coelho, quando sondou individualidades para o governo e escolheu  conselheiros, recorreu de certeza a uma das melhores sociedades portuguesas de “headhunters”. Ao ler nas entrelinhas os derradeiros relatos e artigos da Mozart49, não me espantaria que a preferida tenha sido a Heidrick & Struggles (Dr. Nuno Vasconcellos, a publicidade aqui no ‘Aventar’, por enquanto, é gratuita; depois compensa-nos com uns tempos de antena no novo canal privado da TV).

Apenas uma sociedade do género da Heidrick & Struggles, mais ou menos filial da Mozart49, teria capacidade, ‘know-how’ e sagacidade de descobrir o Prof. Álvaro Santos Pereira  na longínqua Vancouver, para Ministro da Economia e do Emprego.

O ministro Álvaro nasceu com o privilégio de uma mente brilhante. De invulgar visão. Jamais houve outro estratega português dotado de tão sábia inteligência, há dois séculos. Bastará referir que os ‘pastéis de Belém’ existem desde os princípios do Século XIX e, de então para cá, nem uma personalidade  sequer tirou da cartola a ideia de que, para equilibrar a Balança Comercial, uma das soluções é globalizar, vender pastéis de nata por esse mundo fora. Somos uns doces, governo incluído

O ministro Álvaro merece o Nobel!

A Segurança Social lesa contribuintes (2)

segurança socialSei que, por vezes, sou demasiado intolerante e rude com os governantes, os actuais e os passados. Em síntese, aqueles que há 35 anos conduziram o País ao caldo intragável que nos azeda a vida. De facto, não tolero a incompetência, o clientelismo político e toda um conjunto de cabotinos a desempenhar funções governativas. É o caso de Mota Soares e Marco António Costa.

No espaço da blogosfera, e sem me entrincheirar em anonimatos, ontem dei-lhes forte e feio. Razão? São os primeiros responsáveis por um erro grosseiro que está a afectar milhares de pensionistas: a omissão dos valores pagos a título de Taxa Extraordinária, incidente sobre o 14.º mês de 2011, nas declarações do Centro Nacional de Pensões (CNP).

Passadas cerca de 5 horas de espera, hoje vi atendida a minha reclamação no citado CNP, com o seguinte esclarecimento da parte de uma simpática funcionária:

“O senhor tem razão e aqui tem uma nova declaração corrigida. Informou-me a minha chefe que, facto, estão a chegar ao serviço um considerável número de pensionistas com declarações erradas, em prejuízo dos próprios, e entretanto os serviços informáticos já criaram uma solução para emitir novas declarações…”

Os problemas deste género gravitam em infindável órbita impulsionada por uma causa comum. Mudam os governos, mudam as empresas informáticas – na Saúde foi desde a ‘Novabase’ à ‘Alert’, passando por não sei quantos mais – e as soluções tecnológicas, quando atingem a maturidade a nível funcional, acabam por ser abandonadas ou transformadas pelas equipas de confiança do novo elenco governativo. Será este o caso ou tão só incompetência?

Repito o aviso:

Leiam atentamente as declarações recepcionadas do Centro Nacional de Pensões, a fim de não serem penalizados nas contas finais do IRS de 2011.

Todos contra a Barragem 0,1% – Depoimentos sobre o Douro e o Tua. 5 – Pedro Homem de Mello


«Que diz além, além entre montanhas,
O rio Doiro à tarde, quando passa?
Não há canções mais fundas, mais estranhas,
Que as desse rio estreito de água baça!…
Que diz ao vê-lo o rosto da cidade?
Ó ruas torturadas e compridas,
Que diz ao vê-lo o rosto da cidade
Onde as veias são ruas com mil vidas?…
Em seus olhos de pedra tão escuros
Que diz ao vê-lo a Sé, quase sombria?
E a tão negra muralha à luz do dia?
E as ameias partidas sobre os muros?
Vergam-se os arcos gastos da Ribeira…
Que triste e rouca a voz dos mercadores!…
Chegam barcos exaustos da fronteira
De velas velhas, já multicolores…
Sinos, caixões, mendigos, regimentos,
Mancham de luto o vulto da cidade…
Que diz o rio além? Por que não há-de
Trazer ao burgo novos pensamentos?
Que diz o rio além? Ávido, um grito
Surge, por trás das aparências calmas…
E o rio passa torturado, aflito,
Sulcando sempre o seu perfil nas almas!…»

Pedro Homem de Mello, Poesias Escolhidas

Outros textos:
1 – Francisco José Viegas
2 – Guilherme Felgueiras
3 – Eça de Queirós
4 – Miguel Torga

Sugestões para novos textos:
Formulário de contacto do Aventar ou caixa de comentários deste post.

«Esperança» com um ótimo resultado

 

A Porto Editora organizou uma votação intitulada “Palavra do ano 2011” que determinou o seguinte: «Austeridade» é a palavra do referido ano; «Esperança », a segunda; e «troika» em 3º lugar. Austeridade: palavra repetida, insistida e ouvida mais vezes ao longo do ano passado. Mas ainda neste início de 2012, como já se esperava: o governo prepara novas medidas de austeridade… Palavra nº 1, é, porém, indesejada, odiada, desencadeando arrepios. Mas esta insistência do governo na “via da austeridade” poderá ser, segundo o Nobel da Economia, Joseph Stiglitz, “uma aposta falhada”. “Sem crescimento, os níveis de dívida não serão sustentáveis”.

Tanta austeridade poderá não ser o melhor caminho. Talvez não seja a palavra do ano 2012.  Esperemos que venha a ser destronada pela «Esperança» que esteve lá perto…

Quem não sabe é como quem não vê

Deixando de lado a questão de fundo com que já se entreteve o Paulo Guinote, há no artigo do Daniel Oliveira agora republicado no Arrastão um detalhe de somais importância, este:

O fim da Formação Cívica bate certo com tudo o resto. A escola não forma cidadãos, forma amanuenses. E nada como cidadãos ignorantes dos seus direitos e deveres para continuarem a aceitar tudo de braços cruzados.

que me toca profissionalmente. Tento não escrever sobre educação no Aventar, onde no activo estamos quatro professores (bem regressado sejas João Paulo, espero que não te eclipses outra vez quando o teu Sport Lisboa chegar à páscoa), mas há limites.

A dita Formação Cívica começou por ser uma Formação Pessoal e Social  alternativa para os alunos que não tinham Religião e Moral, à mesma hora, como era de bom tom. Caiu o Carmo, a Trindade e deve ter ajudado a cair alguém no governo, íamos na década de 90.

Quando entrou em vigor, leccionada por quem estivesse mais à mão, acompanhou a genial ideia de cortar tempos e tempos lectivos à Geografia e à História. Como era previsível transformou-se num passatempo entre a prevenção rodoviária e o complexo mundo do civismo, que dá para tudo e não serve efectivamente para nada.

Os cidadãos, Daniel Oliveira, como deves ter percebido quando andaste na escola, formam-se enquanto tal aprendendo História e Geografia, que foram as vítimas de serviço ao anabenaventismo que tanto te comove. No caso da História ficámos com a mesma História da Humanidade para ensinar, mas com menos umas 70 aulas no 3º ciclo o que naturalmente se traduz em mais memorização e muito menos importância dada ao perceber porquê.

Que isto tenha tido uma maternidade supostamente de esquerda (e nem estou a pôr em causa que os seus responsáveis o sejam na sua vida quotidiana), tem de ser visto à luz do papel dos mestrados da bosta (calão docente da década de 80), vulgo Boston, e das ESE’s  onde inventaram o eduquês, a cretinização do ensino que ainda sobrava de Magalhães Godinho.

A Formação Cívica serviu para formar amanuenses, à conta da ignorância no saber social e humano das disciplinas fundamentais. Esta é a realidade, sobre a qual podia recolher várias anedotas, mas nisso sou muito corporativo e fico muito caladinho.

Deixem-me falar-lhes sobre o clientelismo.

Clientelismo é, segundo os dicionários: maneira de agir que consiste numa troca de favores, benefícios ou serviços políticos ou relacionados com a vida política. Ora todas as discussões, em Portugal, sobre a vida política, deviam começar por esta definição. É claro que generalizaríamos se enfiássemos o Carmo na Betesga, ou seja, Portugal no clube exclusivo de países onde o clientelismo impera. Não é assim, mas é certo que o nosso país integra o pelotão dos países onde a corrupção é maior, sendo o clientelismo uma expressão da corrupção.
Quando há meses se formaram movimentos de cidadãos indignados, precários e acampados, todos eles se esqueceram deste pequeno pormenor: não é o voto que manda, é o clientelismo que tem última palavra. Percebê-lo é o primeiro passo para mudar as coisas que alguns queriam mudar, embora muitos quisessem apenas… mudar. O quê, era irrelevante.
Durante os últimos séculos os portugueses viram com bons olhos o clientelismo, cultivaram-no com gosto. Desde o jeitinho à cunha, passando pela manutenção de vínculos familiares como força de manter certos feudos (mesmo apesar do republicanismo primário), o português, qual feitor analfabeto, sempre se sujeitou a ir de chapéu na mão à caso do doutor, pedir emprego para a filha ou filho. O facto de os colocar na universidade não mudou nada esta mentalidade. Se não era, agora, o pai a pedir emprego, era o filho que conhece bem o valor do factor C [vulgo para cunha].

E há pessoas que depois dos 70 anos deviam tapar a cara…


já que não conseguem tapar a boca

Os benefícios do tabaco

Fátima Reis, uma investigadora dos malefícios do tabaco, constatou em restaurantes que “havia pessoas a fumar a cerca de um metro de distância da porta e foi observada entrada de fumo no estabelecimento.” Fátima Reis suponho que também deve ter visto automóveis a um metro de distância de algumas dessas portas mas não nos conta se observou o fumo dos escapes a caminho da cozinha.

Emília Nunes, da Direcção-Geral de Saúde, tem um ideal: “que as pessoas não fumassem em casa ou quando vão no carro com terceiros, mas isso são questões que não podemos legislar”.

Podia argumentar contra a nova lei do tabaco que se avizinha. Podia demonstrar que o verdadeiro sonho de Francisco George é proibir o tabaco e provavelmente todos os vícios. Quer ele que eu viva mais anos, não tenho a pretensão de lhe explicar que um ano da minha de fumador me pode ter dado mais pequenos prazeres que dez da sua ocupados a preocupar-se com a minha saúde. Podia escrever os insultos que me inspiram, e merecem, estes purificadores da existência humana,

Não vale a pena, neste caso confio em dois ministros, o das Finanças e o da Saúde. Ambos sabem que os impostos pagos pelos fumadores pagam os tratamentos de todos os cancros pulmonares e mais uns tantos, e acreditam na poupança que a estatística que nos dá menos anos de vida provoca na Segurança Social.

Quando aterramos no reino da imbecilidade nada como invocar o vil metal: resulta quase sempre.

na fotografia Oscar Niemeyer, nascido em 1907, fumador, retirada do excelente Volúpia na Tabacaria onde podem apreciar centenas de imagens de fumadores muito pouco anónimos

Televisões e futebol

Alguma coisa se passa no mundo da bolaTV ou da TVbola. E não estou só a falar da concorrência que a Sport TV faz à pirataria.

Reparem: a SIC inimiga de estimação de qualquer portista, consegue entrevistas exclusivas de Pinto da Costa, pasme-se, com o Nuno Luz a entrevistar. O mesmo operador, a SIC, em dia de Sporting – Porto viaja no autocarro dos Super – Dragões para Lisboa e até entrevista o seu líder.

Mais a sul, vemos também, para surpresa minha, a direcção do BENFICA num discurso de aproximação à Olivedesportos – na entrevista de Luís Filipe Vieira ao jornal A bola, Vieira deixa cair o discurso anti Olivedesportos e até se refere à ajuda que a empresa deu ao Benfica em tempos idos.

Os dois, Porto e Benfica, são hoje detentores de canais de televisão – de que forma isso está a mexer com a Olivedesportos?

Para baralhar mais as coisas, aparece o Oliveirinha a atirar-se ao irmão

Alguém explica esta confusão?

Só faltava agora a A Bola dar a notícia que o PC ganhou um prémio mundial ou o Jogo informar da renovação do Aimar…

Hoje dá na net: Quando éramos ricos

Quando éramos ricos, quando o dinheiro parecia que não ia acabar, quando pensávamos que tudo era para sempre, fizemos as melhores escolhas? Gastámos bem o dinheiro? Fomos prudentes? Inteligentes? Cautelosos? Ou delapidámos e acrescentámos problemas aos problemas por vir, despesa futura à despesa passada?

Quando éramos ricos passa-se aqui ao lado, em Espanha. E cá? À nossa escala, fomos diferentes quando pensavamos que éramos ricos?

Manuela Ferreira Leite:

Da próxima vez que abrir a boca, não se esqueça do que vai dizer e também: o Serviço Nacional de Saúde não é “gratuito”, como insinua – é pago com o dinheiro dos contribuintes portugueses, mesmo por aqueles que, aos 70 anos, possam não conseguir pagar a vital hemodiálise

Pessoas a quem desejo que precisem de hemodiálise e não tenham dinheiro para a pagar

Manuela Ferreira Leite, Helena MatosElisabete Joaquim e A.A.A. (estes últimos com uma vaga atenuante pelo pudor demonstrado, que fiquem só falidos quando chegarem aos 70 anos).

Esta praga que aqui rogo é um nojo? é. Mas, além de as pragas não surtirem efeito, repelente é haver gente que ataca o princípio de todos termos direito à saúde independentemente da conta bancária. Porque quem o faz, do alto do seu seguro e imaginando que nunca ficará sem ele, vendo o mundo da mesma forma como sempre o encarou a aristocracia (a bem dizer nem a burguesia clássica desce tão baixo) e achando que por alguém ser pobre tem menos direito à vida porque ninguém o mandou ser pobre, não tem um mínimo de humanidade, não passa de um crápula abjecto, uma imitação grotesca de um ser humano. Para mais fazem-no em nome da mentira, aceitando a fuga aos impostos e a acumulação de capital à pala do estado, que é o país onde vivemos e que desta forma efectivamente será incapaz de sustentar o SNS.

Além disso de boas maneiras e tratos de cavalheirismo estaria o inferno cheio se existisse. Para esse peditório, enquanto não acabarmos de vez com os pobres, nunca darei.

imagem da gui

Errata: parece que me tinha enganado num nome. Que horror. Fica a abreviatura. Desconfio que trará boas memórias ao destinatário.