Estas criancinhas

Confesso o meu cansaço dos partidos políticos. Não é nada pessoal, com este ou aquele dirigente, nem em particular com este ou aquele partido político. O meu cansaço é em relação a todos, sem excepção, face ao modo como, decididamente, a democracia e a propalada cidadania são meros refugos do poder efectivo destas organizações.

Cansa-me, particularmente, esta convergência dos partidos políticos em nos fazerem de parvos nestes jogos em que são autênticas criancinhas mimadas em que fazem perrices, choram e ficam amuadas, sempre de dedo em riste umas contra as outras, quando as suas brincadeiras de recreio não correm como querem.

Lá vêm elas, depois ter connosco, de lágrimas a correr pela cara, a fazer queixinhas, a choramingar para que as outras fiquem de castigo.

O problema é que sempre lhes fazemos as vontades. E como se de petizes se tratassem, acolhemos depois com mimos os que, temporariamente, levaram um par de orelhas de burro e ficaram virados para um canto, com medo de irreversíveis traumas.

Em certos casos, chegamos ao ponto de as ver a fazer traquinices e rimos. Aqui e além até elogiamos a destreza que a traquinice exigiu para ser feita. De censura, no máximo, só encolhemos os ombros ou abanamos a cabeça.

Por mim, nenhuma destas criancinhas voltava a ter recreio tão cedo, só passava de ano com mérito, só brincava depois de estudar e de fazer os trabalhos de casa e não tinha direito a sobremesa se não comesse a sopa.

(Crónica publicada no semanário “Opinião Pública” a 27/04/2011)

o saber das crianças e a psicanálise da sua sexualidade-II

A fase correspondente à unificação das pulsões parciais sob a primazia dos órgãos genitais apresenta-se com uma organização da sexualidade muito próxima à do adulto (fase genital).

Nos Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade (1905), Freud compara as fases fálicas e genitais: “Essa fase, que merece já o nome de genital, onde se encontra um objecto sexual e uma certa convergência das tendências sexuais sobre esse objecto, mas que se diferencia num ponto essencial da organização definitiva por ocasião da maturidade sexual: com efeito, ela apenas conhece uma única espécie de órgão genital, o órgão masculino… Segundo Abraham [1924], seu protótipo biológico é a disposição genital indiferenciada do embrião, idêntica para ambos os sexos“. [Read more…]

o saber sexual das crianças. desejo-te, porque te amo

Bellini, Norma, Area Casta Diva, Maria Callas

Nota introdutória e intercalada: este texto forma parte de um livro publicado no ano 2000, Afrontamento, Porto, apresentado na Guarda por Daniel Sampaio. Intercalo estas palavras na minha multidão de blogues, para calar um pouco o debate político que até o dia de hoje, tenho endereçado aos leitores.

Estas crianças crescidas, são o resultado das estratégias reprodutivas dos seus ancestrais, como vamos ver no capítulo 3. O seu saber, é manipulado ao contrário do ensinado pelos pais, pelos parentes. O seu saber é levado pela conjuntura dos tempos e das reacções dos seus pares. Eu insisto de que as crianças estão feitas para fugirem deles, das formas mais complexas possíveis. (Iturra 1997 c). Em pequenos, da sua vista. Em adultos, da sua vigilância

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rebobina-me mãe

mae-segurando-colo_~PAA509000024.jpgREBOBINA-ME, MÃE

Para Maria, a neta da minha amiga Ana Maria*

Os senhores leitores devem estar habituados a ler o que escrevo sobre os direitos das crianças. Não apenas por eu ser da Amnistia Internacional e colaborar com Human Rights Watch. O motivo real, é que as crianças não têm apenas direitos à paz, à alegria, à calma, ao respeito por parte dos pais, mas também à capacidade de serem entendidos por eles e de receberem respostas adequadas à idade da sua epistemologia. [Read more…]

as crianças crescem

(texto em quatro andamentos, escrito velozmente ao som de Tchaikovsky)

Piano concert 1 em B Flat Minor

Bem sei que estamos em época de eleições, de lutas políticas, de enganos e mentiras, ou dos mais lutadores que lutam pela justiça e a igualdade. Como Babeuf em 1785, assassinado pelo seu candor em 1795, guilhotinado pelas pessoas do seu partido por falar a verdade, como o nosso Primeiro-ministro demissionário. Não há quem nos governe nem sabemos quando vamos ter um governo apropriado para nós salvar da falência que caiu sobre nós por causa dos próprios governantes. Vamos esquecer e falar do mais importante na vida: as crianças e a sua educação. Se for homem de fé, diria: haja deus para salvar as nossas crianças da hecatombe causada pelos que pretendem governar-nos…

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etnopsicólogo em trabalho de campo

200px-William-Adolphe_Bouguereau_%281825-1905%29_-_A_Calling_%281896%29.jpgParece-me importante começar por definições, para que o leitor não se engane, mas definições leves, para não aborrecer. Um etnopsicólogo, é quem faz psicanálise às crianças no sítio em que moram. Normalmente, por serem crianças, a análise é em grupos de brincadeiras, a imitar a vida dos seus adultos, a melhor forma que um investigador sabe ou aprende, o que acontece em casa, sem ter entrar nas vidas privadas de grupos domésticos. Grupo Doméstico, como define Jack Goody em 1974, no seu módulo Addison-Weslley da Universidade de Nova-Iorque: os que partilham o mesmo teto, a mesma comida e colaboram nos mesmos trabalhos produtivos.

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ser pai – ser amante – amar sem condições

pode-se ser pai ou pela paixão, ou por ventre alugado, ou por adopção

As palavras são semelhantes, as pessoas são diferentes. No entanto, uma está amarrada a outra, atada. Não amor de pai sem filho, não há filho sem mulher. Um facto é a condição do outro, como o sol que brilha no inverno e tiras-nos o frio, como as estrelas que cintilam ao longe. Não há filho sem mãe, como não há mãe sem homem nem paixão sem sol ou sem estrelas, que na intimidade da paixão, são capazes de engendrar uma nova criatura. Este triângulo de pai, mãe filho, tem um ponto de partida. A paixão diz aos que querem ser pais que sem o sol da paixão nem o cintilar das estrelas, é impossível dar da sua vida íntima e pessoal, o sopro de vida de um bebé que começa aos gritos primeiro, até o seu desejo de carinho estar calmo e satisfeito e a sua [Read more…]

Violência infantil

É a terceira estalada que a gaja à minha frente dá na filha de 4 anos. Porque anda a saltar de um lado para o outro, porque não pára quieta, porque sim.
Estremeço por dentro, mas olho à minha volta e parece que ninguém no café dá por isso. A empregada diz que a criança é mal educada, a mulher ao lado da mãe vira-se para a miúda e diz «És má, és má».
E ninguém olha para a mãe – eu olho-a nos olhos com desprezo, mas infelizmente, não tenho coragem de me levantar e dar dois pares de estalos na fronha daquela puta. No fundo, sou tão culpado como ela.

em nome do pai, e do filho e do esp…

A criança traída. Canção sem Palavras.

A fórmula é conhecida no mundo cristão, seja ele Romano, Ortodoxo, Calvinista, Presbiteriano, Adventista, ou outro. É a fórmula usada no ritual de entrada de uma criança no mundo social. Tenho referido, noutros textos meus, que os seres humanos são inaugurados na interacção social, por meio de ritos. Rituais, nos quais a Igreja Romana é prolixa. Outras Igrejas têm apenas dois rituais de iniciação: o baptismo e o matrimónio. Eventualmente, os Presbiterianos a Ceia do Senhor ou Comunhão.
Confissão, apenas os Romanos e a Alta Igreja Anglicana ou High Church da Grã-bretanha, que Isabel I, teve o cuidado de guardar para si, para os seus pares e para o futuro. Para saber mais, é preciso ler os meus textos dedicados a esta temática, ou os textos dos cientistas da Religião, os que estudamos a Religião como uma instituição social, organizada pelos seres humanos, como definem Ludwig Feurebach em 1821,

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natal, o presente das crianças: lições

o primeiro natal de uma pequena família internacional: os Isley

…para Camila, filha companheira, o seu marido Felix e para sua filha May Malen, a minha nova neta

 1. Sonata introdutória.

Perguntou-me um dia uma estudante da minha Universidade portuguesa: Senhor Professor, porque estuda crianças? A minha resposta foi breve: porque sou pai. A seguir, proferi uma explicação mais explícita. Não é apenas sermos pais, é o que as crianças nos ensinam. Até parece que não são pequenas. Até parece sermos nós os que dizemos as sabidas coisas da vida. Sabidas coisas, um conceito que substitui todas as acções e aventuras na interacção da experiência da vida, dessa interacção que, por habituados como a ela estamos, esquecemos de reflectir. Reflexão que nem nos faz mal. Pelo contrário, reflexão que nos ajuda, a nós, adultos a crescer, a partir das crianças. Crianças adultas e crianças a crescerem. Como as filhas que tantos de nós pais, temos. É verdade que a simplicidade e o carinho, a honestidade e a lealdade são parte da vida que nós praticamos e transferimos para a nossa descendência. Essa descendência que começa a aumentar sem nós darmos pelo facto. Um dia somos filhos, anos virados, somos autónomos e indivíduos, anos depois, caímos no chão de um amor que acompanha os nossos afectos, a nossa emotividade mais íntima. E, dessa intimidade, aparecem os primeiros descendentes que fabricamos. E não é um erro de estrangeiro dizer fabricamos, são feitos do amor pela pessoa que os leva no seu corpo durante meses e que do seu corpo os alimenta. [Read more…]

a globalização do genocídio das crianças

criança que tenta flutuar sobre o genocídio que sobre eles, generam os seus adultos

http://www.youtube.com/results?search_query=Beethoven+F%C3%BCr+Elisen&aq=f

Não sou adivinho. Apenas observo o que acontece no mundo. E tremo de indignação.

Gostava de ver risos, notícias de que a vida está menos cara, saber que foi editada uma nova versão de uma obra de Bach, que o leite já não é caro, que se ganha mais, que baixou a inflação, aumentou o Produto Interno Bruto, o PIB. Que não é apenas o Presidente Chávez da Venezuela a recuperar o cargo, ou que a Rainha-mãe da Grã-bretanha, esse exemplo de vida cuja história me agrada ler, pregou um grande susto ao Fascismo na Segunda Grande Guerra.

Mas sabe o leitor que ando sempre a tocar os sinos para chamar a atenção sobre o sentir das crianças. Escrevi, em Setembro de 1999, um conjunto de ideias sob o título Crianças, os senhores do mundo esmagam os fracos. Em Fevereiro de 2000, tentei chamar a atenção para um debate político (socialista/ capitalista), no qual é usada uma criança, através do texto Prostituição das crianças. Devuelvan-nos al niño, no dia em que Elias González foi o centro do debate entre Cuba e USA. Debate que levou a que o meu artigo fosse publicado, em castelhano, em Espanha e na América Latina. Em Janeiro de 2001 escrevi As ditaduras e o saber das crianças. Tinha visto os filmes de Spielberg A lista de Schindler, e La Amistad, ou O império do sol; bem como o de Roberto Benigni A vida é bela e o de John Irving: Regras da casa.

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A expectativa dos grandes para o futuro dos miúdos

“O que queres ser quando fores grande?”

A pergunta adivinhava-se a todo o instante. Os adultos têm destas coisas, uma vontade tremenda de saber o que a miudagem quer ser quando ‘for grande’. Os petizes é que não estão para essas coisas, querem é que os deixem em liberdade. O que querem ser quando forem grandes não faz parte da ementa nestes dias de pouca responsabilidade.

Mas exigia-se a resposta. Os enormes olhos dos grandes aguardavam, em expectativa muda. “Mecânico de automóveis”. A resposta foi dada em instantes, quase sem pensar. Não queria nada ser mecânico de automóveis, mas tinha ouvido uma conversa onde alguém, um outro grande, disse que era profissão um pouco suja mas segura e com rendimentos garantido.

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o crescimento das crianças (introdução)

a escola era uma sala da paróquia.Vilatuxe cresceu, e escola também

Introdução

 

1 Durante os anos 1995, 1996 e 1997, fiz trabalho de campo entre os Picunche do Valle Central do Chile. Do que fica dos Picunche. Hoje são a memória de costumes que não têm explicação para eles. E não se denominam Picunche, eles próprios: ou são proprietários, ou inquilinos, ou pessoas habilitadas pelos seus estudos superiores, como se pode ver das genealogias que construí no trabalho de campo. Conheci aos Picunche em criança, de forma diferente a como os conheci em adulto, ou em criança adulta. Eram para mim, pessoas habituais. Até para mandar em elas. Anos mais tarde, saí do Chile e não voltei durante trina e três anos. Em 1994 fui oficialmente convidado a visitar o País e dar cursos e conferências. Retornei á terra que conhecia no Valle Central, terra na qual tinha vivido por dois anos e meio em 1971, até esse Setembro trágico de 1973, que me devolveu á Inglaterra. Ver essa terra outra vez, foi uma emoção. Visitei o Concelho de Pencahue, da Província de Talca e encontrei um arquivo deixado pelos espanhóis, que se tinham apoderado do País em 1542. E a minha visão mudou. A minha visão ia já mudada. E entendi aos Picunche, como nunca o tinha feito antigamente. Resultado de esse entendimento, sã as notas que escrevo em este texto. Em conjunto com as notas que fiz de Vilatuxe, a aldeia Galega que tinha estudado a partir dos anos setenta. Fui vinte e cinco anos depois.  E entendi Vilatuxe de forma diferente, como o digo em estas notas. Os anos mudam ás pessoas. As políticas mudam os contextos. Entretanto, não abandonei Vila Ruiva, em

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as crianças, essa pequenada que nos faz rir e manda em nós

as crianças gostam reir e mandam em nós

Excerto da Introdução do meu livro O imaginário das crianças. Os silêncios da cultura oral, 1ª edição, Escher, Lisboa 1997, 2ª edição, Fim de Século, Lisboa. Para alegrar a vida após tanto debate sobre política educativa…

“Olá padrinho!”, diz a pequena quando lhe telefono para saber dela. Uma voz entusiasta que me cumprimenta com um carinho que, certamente, aprendeu dos seus pais e avós. Pais e avós que, por seu lado, aprenderam o entusiasmo pela vida e pelas pessoas dos seus próprios pais, bem como de toda a sua ancestralidade. [Read more…]

a Joana da Figueira e os rapazes da Madeira

violência familiar:uma testemunha

Para as crianças vítimas de violência familiar

Sabemos que o mito que orienta o nosso comportamento é o da Sagrada Família definida pelos cristãos romanos: um pai que trabalha, uma mãe a tomar conta da vida doméstica, uma criança que brinca com os seus pares e ensina aos eruditos do Templo de Jerusalém, por brincalhão, sorridente e sábio que é ao ponto dos pais ficarem impressionados. Ideais conhecidas por nós da cultura romana e faladas por mim nesta coluna imensas vezes. Reiterada, para lembrar sempre o necessário respeito incluído na interacção dos seres humanos, seja qual for a sua idade e a sua geração. Esse respeito que precisa de ser entendido como a conversa entre adulto e criança, com ideais e palavras definidas pelo entendimento do mais novo. O mito serve apenas para nos indicar da necessária bondade e educação que esse adulto transmite ao mais novo. No denominado Decálogo ou Dez Mandamentos, existe uma frase que manda respeitar pai e mãe. Mas, não há retorno: em lado algum é possível ler honrar as crianças. Pode-se comentar que todo o Decálogo tem por objectivo organizar o contexto de bem-estar para o conjunto do grupo social. E, sem qualquer dúvida, receio do esquecimento dos pequenos no conjunto da vida social. Diz Freud em 1885 que a criança  é todo ser humano desde a concepção até o começo do entendimento aos cinco anos de idade. Procura o seu divertimento ideal e erótico e a subtracção à morte, o que denominou Eros e Thanatos, para surpresa do mundo científico e do mundo social em geral. Até ao dia de hoje. Em 1966, um seu seguidor, Wilfred Bion, contradiz e para definir que o ser humano, criança ou adulto, tenta confrontar a dor para aceitar a humilhação a que a vida definida por Adam Smith, John Maynard Keynes, Margaret Thatcher, Ronald Reagan,

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a criança, esse valor de câmbio

uma das crianças sujeitas ao que anda na moda: a pedofilia

Para a escola de Belas

Estou empenhado em duas lutas, em duas frentes diferentes. Um, é mostrar aos leitores, como pensavam os fundadores da nossa ciência da Antropologia, especialmente em etnopsicologia da infância; a outra, em desmascarar os adultos abusadores de crianças. Este texto tem por objectivo a luta por crianças sãs e a viverem no seu lar.

O que acontece na faixa de Gaza e quotidianamente no Afeganistão, esses Talibãs que não apenas matam, mas abusam das crianças. Como na Madeira….

Temos hábitos. Hábitos de conceitos. Hábitos de significados. Hábitos emotivos. Os primeiros, são de grande facilidade de definir: um conceito diz o que uma coisa é, uma actividade ou um facto. O significado, diz-nos a abstracção dessa realidade. Como valor, o tempo usado em fabricar uma mercadoria. Como câmbio, a utilidade de trocar um bem que eu faço por um bem que não tenho, intermediado pela abstracção dinheiro ou capital. E fica assim, rapidamente tudo definido e no seu sítio racional. Os emotivos, nem conseguem ser hábitos. Ou, por outra, temos o hábito de ter emoções e sentimentos, como referi no jornal de Julho deste ano. Texto que referia conceitos abstractos de sentimentos. E, como refere a dedicatória, bom para o que eu costumo denominar processo de ensino e aprendizagem.

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Guerra! uma carta para os meus descendentes

crianças a fugir da fome e da morte

…guerra não é apenas um conflito bélico, é também e crise económica que vivemos… conflito que as crianças sofrem e não se sabem defender como fala esta imagem… a ida era alegre, hoje em dia é se terror, fome e fugida…o que pensam as crianças, analisadas por um adulto que os observa?

Meu querido puto,

Andas a brincar na tua bicicleta de duas rodas, pelas ruas do bairro. Ris e pareces muito feliz e contente. Até largaste as fraldas, por pensares ser adulto ao manipulares a tua bicicleta. Corres e não só ris, como atacas. Atacas qual carga de cavalaria, perante um inimigo imaginário, esse que é desenhado pela tua ideia da guerra. Para ti, a guerra passa por ser uma brincadeira. E ainda bem. Porque, meu puto, seria bom que a guerra fosse uma brincadeira e não essa realidade espantosa, dura e terrível, que vês reflectida na cara dos teus pais. Uma cara de tristeza e de depressão. Palavras que nem entendes, como não deves entender a palavra guerra.

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o kaos da criança. a economia deriva da religião

crianças a rir entre alternativas opostas e contraditórias, esse seu kaos...

1. Introdução

A vida da criança parece ser uma grande paz. É o ser que depende de outros, é acarinhado, é cuidado, é considerado como o senhor da casa. Ou não. O mundo não é a preto e branco. A vida social tem por característica ser heterogénea. Um conceito com o qual tenho já tanto batido, que remeto para os meus textos. Apenas lembrar que é heterogénea por existir o carinho ao pé da mágoa, o beijo ao pé do berro, o exemplo ao pé do desatino. Tudo isto, entre adulto e criança. Ou entre crianças. A criança é denominada o centro do lar por estar a ser ensinada a comportar-se. A comportar-se entre os outros com respeito e subordinação; ou com decisão amável para saber dizer não. À criança é-lhe ensinado os limites do seu afazer e da sua interacção. Ai dos pais ou adultos que o não saibam fazer! A crítica social cai forte sobre eles e, ainda por esse temor do que vão dizer se… o grupo da criança é comedido com a mesma. E, no entanto, a criança vive em kaos. Kaos, esse conceito da mitologia grega que diz que do espaço inacabado e profundo, surgiu o Olimpo desde o qual foi espalhada Gaeia ou a maternidade de todos os negócios do mundo. Uma maternidade endereçada a manter a calma e a serenidade entre as pessoas. Como Hesiodo e Homero descrevem nos seus texto do Século VIII antes da nossa era. A criança vive no caos descrito pela tradição grega, transferida como foi ao nosso imaginário. Imaginário já povoado de realismo político por Aristóteles nos seus tratados, especialmente o da Öikonomia ou as actividades reprodutivas dentro de um lar. Toda criança vive necessariamente dentro de um Kaos por não entender as opções dos seus adultos na vida da cidade ou Polis, como Aristóteles designa no Século IV antes da nossa era.

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Publicidade e marketing infanto-juvenil…

Se o melhor de tudo são as crianças… nãos as explorem nem às famílias!

Das Leis dos Livros:

“LEI DAS PRÁTICAS COMERCIAIS DESLEAIS
 
Práticas comerciais consideradas agressivas em qualquer circunstância
São consideradas agressivas, em qualquer circunstância, as seguintes práticas comerciais:
e) Incluir em anúncio publicitário uma exortação directa às crianças no sentido de comprarem ou convencerem os pais ou outros adultos a comprar-lhes os bens ou serviços anunciados…”

“CÓDIGO DA PUBLICIDADE
Restrições ao conteúdo da publicidade

Artigo 14.º
Menores

1 – A publicidade especialmente dirigida a menores deve ter sempre em conta a sua vulnerabilidade psicológica, abstendo-se, nomeadamente, de:
a) Incitar directamente os menores, explorando a sua inexperiência ou credulidade, a adquirir um determinado bem ou serviço;
b) Incitar directamente os menores a persuadirem os seus pais ou terceiros a comprarem os produtos ou serviços em questão;
c) Conter elementos susceptíveis de fazerem perigar a sua integridade física ou moral, bem como a sua saúde ou segurança, nomeadamente através de cenas de pornografia ou do incitamento à violência;
d) Explorar a confiança especial que os menores depositam nos seus pais, tutores ou professores.
2 – Os menores só podem ser intervenientes principais nas mensagens publicitárias em que se verifique existir uma relação directa entre eles e o produto ou serviço veiculado.”

Há que tornar a posições veementes em torno do marketing e da publicidade infanto-juvenil! Que enxameiam o mercado de consumo e atingem as crianças e os jovens nas suas fragilidades mais frisantes!
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120 milhões de pobres na UE!

O que representa cerca de 25% do total da população da UE! Segundo outro  critério pode calcular-se em 80 milhões! Destes 19 milhões são crianças.

Bruxelas estabeleceu como objectivo tirar 20 milhões da pobreza o que representa baixar para 20% o índice de pobreza. Estes números estão correlacionados com a taxa de desemprego que a UE espera conseguir baixar para 25% entre as pessoas dos 20 aos 64 anos.

Na verdade, é com a criação de emprego que se conseguirá combater a pobreza e a exclusão social e não com subsídios, embora ajude temporariamente.. É um passo gigantesco que os 27 membros tenham conseguido chegar a acordo sobre uma matéria tão importante.

Há, agora, que cada Estado membro estabeleça um objectivo adequado à sua situação particular e fixar um quadro de acção, para que tudo possa ser agregado ao nível europeu pela Rede Europeia Antipobreza.

O velho ditado,sempre actual. ” Não me dês um peixe, ensina-me a pescar” !

o crescimento das crianças em vilatuxe

Fundada no Século XI, recostruida no Século XIX, 1864,centro de eunióes dos fregreses

1 Durante os anos 1995, 1996 e 1997, fiz trabalho de campo entre os Picunche do Valle Central do Chile. Do que fica dos Picunche. Hoje são a memória de costumes que não têm explicação para eles. E não se denominam Picunche, eles próprios: ou são proprietários, ou inquilinos, ou pessoas habilitadas pelos seus estudos superiores, como se pode ver das genealogias que construí no trabalho de campo. Conheci aos Picunche em criança, de forma diferente a como os conheci em adulto, ou em criança adulta. Eram para mim, pessoas habituais. Até para mandar em elas. Anos mais tarde, saí do Chile e não voltei durante trina e três anos. Em 1994 fui oficialmente convidado a visitar o País e dar cursos e conferências. Retornei á terra que conhecia no Valle Central, terra na qual tinha vivido por dois anos e meio em 1971, até esse Setembro trágico de 1973, que me devolveu á Inglaterra. Ver essa terra outra vez, foi uma emoção. Visitei o Concelho de Pencahue, da Província de Talca e encontrei um arquivo deixado pelos espanhóis, que se tinham apoderado do País em 1542. E a minha visão mudou. A minha visão ia já mudada. E entendi aos Picunche, como nunca o tinha feito antigamente. Resultado de esse entendimento, sã as notas que escrevo em este texto. Em conjunto com as notas que fiz de Vilatuxe, a aldeia Galega que tinha estudado a partir dos anos setenta. Fui vinte e cinco anos depois. E entendi Vilatuxe de forma diferente, como o digo em estas notas. Os anos mudam às pessoas. As políticas mudam os contextos. Entretanto, não abandonei Vila Ruiva, em Portugal, que faz 17 anos que conheço e estudo. É desse conjunto de vivências, notas, convívio quotidiano com os habitantes, que me ocorreu continuar a elaborar uma tese que faz já tempo, ando a pensar e continuo a defender em este livro. Enquanto oiço a minha querida Nozze de Fígaro, que me inspira o como eram as pessoas vivas na memória social que faz indivíduos que hoje são. [Read more…]

Pedro e o lobo

O compositor russo Sergei Prokofiev, decidiu, em 1936, compor um tema musical que permitisse explicar às crianças as sonoridades dos diversos instrumentos musicais que compõem uma orquestra. Pedagogicamente, cada personagem é representado por um instrumento.

No entanto, o mesmo título tem sido usado para identificar uma das fábulas atribuídas a Esopo (autor grego do Séc. VI A.C., cuja existência vagueia entre a lenda e a realidade), – embora também surja em algumas publicações como “Pastorinho e o lobo” – cujo enredo consubstancia, como é normal nas fábulas, uma mensagem também ela pedagógica, para crianças e adultos, e que ainda hoje, usualmente, é invocada.

“Pedro e o lobo” é, pois, mais conhecido como a fábula do pequeno pastor que de tanto brincar às falsas ameaças da presença de um lobo, resulta que quando o lobo efectivamente surge, já ninguém o leva a sério e ela acaba por perder as suas ovelhas.

Todavia, ambas têm inegável mérito: a composição musical de Sergei Prokofiev visa cativar e instruir a criança pelos caminhos das sonoridades e da música; a fábula, no seu natural pendor metafórico e alegórico, ensina que não devemos enganar os outros, cuidando do crédito das nossas palavras.

Aproximar as crianças à música, guiá-las nos caminhos dos sons, faz parte integrante de um saudável processo de crescimento. Mas, também, os adultos só têm a ganhar se se propuserem a essa mesma descoberta, educando e apurando os sentidos e a percepção.

O mesmo se diga de incutir responsabilidade e cuidados nos mais novos, ensinado-os a não enganar os outros, dando-lhes referências de cuidados a ter quanto ao que valem as suas afirmações. Um sentido de responsabilidade no que se diz, no que se afirma, na interacção com os outros. O mesmo valendo – de modo ainda mais vincado, porque a maturidade por isso demanda – para os adultos: para nos levarem a sério no que dizemos, temos de o dizer com seriedade. Sob pena de, tal como o Pedro – ou o Pastorinho – de Esopo, de tanta ameaça falsa, ninguém acreditar quando ela for verdadeira.

O melhor do mundo são as crianças

Sempre me meteu dó a tendência dos adultos para desprezaram a sabedoria infantil. Confundem miúdos com cotas em miniatura, e não ligam pevide à sua avisada voz.

O que sucedeu após o terramoto que tantos estragos fez no Chile, mais precisamente na ilha de Robinson Crusoe devia servir de lição e ser ensinado em todas as escolinhas para velhos do mundo:

pouco antes das 4:00 de sábado, Martinna Maturana ouviu a mãe a falar ao telefone. O sismo violento tinha acabado de acontecer e o avô, que vive em Valparaíso, ligou para avisar. «Aqui está tudo bem», respondeu-lhe a mãe da menina. Mas Martinna avisou a mãe que tinha ouvido ruídos estranhos. Como esta não lhe ligou, foi avisar o pai, que é cabo em Robinson Crusoe. Também ele lhe disse que não havia problema nenhum.

A Martina não desistiu, e do alto dos seus 12 anos dirigiu-se ao alarme da ilha, fazendo-a accionar como pôde.

Salvou a vida a 700 humanos, adultos incluídos, que saltaram da cama e assim evitaram o tsunami, substituindo as autoridades chilenas que se esqueceram de lançar o alerta.

Boa Martina. Agora prepara-te para aturar os adultos. Fizeste o que toda a gente faria no teu lugar, se fossem adultos com 12 anos, claro.

Mente cultural

Para Manuela Raminhos

Crianças brincam enquanto a sua mente cultural trabalha

Parecia-me que começara o texto com uma gralha. Todo o cabeçalho ou definição deve começar por um artigo. Mas, como se trata de um conceito, retirar o artigo não é gralha, é apenas reduzir o campo de pesquisa do que se quer falar do conceito e não a universalidade do fenómeno, que acaba, assim, por nada definir. Se disser a mente cultural, falo de actividades múltiplas; se digo mente cultural, reduzo a ideia a um fenómeno que pode acontecer universalmente. E falar de Antropologia de forma hermenêutica, é aprofundar no campo do significado do conceito e não da acção do conceito, que varia de sociedade para sociedade. [Read more…]

Infância pobre é para toda a vida!

Cientistas nos US chegaram à conclusão que uma infância pobre até aos cinco anos marca para sempre o ser humano, não só no seu desenvolvimento mas tambem a nível neurobiológico e na saúde para o resto da vida.

“Descobrimos que as crianças que crescem em ambientes desfavoráveis reagem de forma desproporcionada ao stress, e conseguimos medir isso através de avaliações hormonais e neurológicas, utilizando scanners cerebrais, e mais recentemente com análises genéticas”.

Estes estudos vêm comprovar o que o senso comum já observava, principalmente em pequenos agregados urbanos em que todos se conheciam, quem tinha boas condições de vida singrava quem vivia na pobreza mostrava-o na escola e nas relações com os outros miúdos da mesma idade. E na idade adulta quem é conhecido e venceu são os filhos de quem já naquela altura eram os senhores da cidade.

O ascensor social é muito pouco eficaz, mas grande parte da derrota vem, sabemos agora, do facto da pobreza e dos maus tratos marcarem para sempre a saúde das pessoas e permanecem para toda a vida. Isto mostra que o apoio social não é um custo, é um investimento, porque recupera pessoas para a vida profissional activa e, dessa forma, gasta menos do que ter pessoas que são um fardo social.

Erradicar a pobreza não é só um imperativo civilizacional é tambem um objectivo fundamental para termos pessoas mais capazes de contribuirem para o bem estar de todos!

Pediatra violou 103 menores nos US!

Oa abusos terão acontecido há uma década mas tudo indica que será o pior caso de pedofilia nos US e que chegou aos tribunais.

Earl Bradley, pediatra americano foi ontem acusado de ter violado 102 raparigas e um rapaz desde o ano de 1998. Há vários filmes dos actos feitos pelo médico e que foram encontrados no seu consultório.

Para além da pedofilia, há algo que não bate certo nestes casos. Desde a rapariga que foi raptada e que vive numa cave anos e anos e ninguem dá por nada, até às crianças que são violentados por adultos e que ninguem dá conta e quem dá conta não diz nada, como aconteceu aqui em Portugal com o caso Casa Pia e as famosas fotografias escondidas numa gaveta e que mostravam pessoas importantes e conhecidas nestes actos criminosos.

A verdade ( e lamento profundamente aquelas pessoas que tudo fazem mas as suas condições de vida não lhes permite defender efiscazmente os seus filhos menores) é que há uma espécie de conluio, de benevolência entre violentadores e todos nós. A vizinha grita mas nós seguimos a velha máxima ” entre marido e mulher não metas a colher” ; vimos um adulto bater numa criança e achamos que sendo filho não temos nada com isso;  vimos um velho ser agredido por um energúmeno e achamos que devemos seguir com a vidinha, e assim por diante…

Estes casos acontecem porque andamos todos a tratar da vidinha, cada um por si, esta sociedade já nem sequer é capaz de proteger quem é mais fraco, e não é só em termos de violência fisica. Há quatro milhões de pessoas pobres em Portugal e assobiamos para o alto; nos US há uma guerra na sociedade e entre os partidos porque Obama quer proteger quarenta milhões de pobres com seguros de saúde e há quem ache que essa medida é injusta; ( devem mesmo morrer sem cuidados médicos!).

Se a justiça, a generosidade escasseiam e a impunidade campeia, ficamos surpreendidos com estes crimes porquê? São o resultado do Homem que fomos criando e da sociedade que desenvolvemos!

PS: E, pronto, lá vou eu para a caminha com a consciência tranquila depois desta prática!

Nem todo o perigo é tão perigoso como a cabeça de alguns adultos

É mãe galinha? Super-pai? Salta-lhe o coração quando o seu filho quer subir a uma árvore? Desata aos gritos se ele brinca com um pau? Esconde o martelo para que ele não dê uma martelada num dedo? E um fogo? O seu filho já acendeu um fogo? Já usou um canivete? Você acha que o ajuda afastando-o de TODO o perigo? Gever Tulley acha que não. Decida-se, o seu filho é uma criança ou uma alface? Ou melhor, quer o seu filho pronto para enfrentar o mundo, ou para ser devorado por ele? Ou de outra forma: quer que o seu filho compreenda o mundo e o risco ou está à espera que o mundo se adapte a si e ao seu medo do risco?

O Guerra

Tinha o Zé oito anos, quando na escola em que estudava chegou um colega que se chamava Guerra, que era bem mais crescido de corpo do que qualquer um dos demais colegas. Mas por razões que a ignorância de então jamais apurou, era um miúdo mentalmente frágil, atrofiado pelo medo, inseguro e submisso.

Naquelas idades as crianças revelam uma particular maldade. Razão pela qual o Guerra logo se transformou no “bombo da festa” da rapaziada da turma.

Todos mandavam nele. Todos lhe batiam. Todos. Incluindo o Zé, que arrastado por aquela corrente de maldade e crueza, sentia gáudio em exibir autoridade e domínio sobre aquele gigante submisso.

Um dia, o Guerra encontrou o Zé sozinho no recreio e pediu-lhe um lápis porque lhe haviam roubado o dele. Abordou-o medrosamente e disse-lhe:

– “Emprestas-me um lápis? Mas não me batas!…

O Zé ficou a olhar para aquele gigante de contradições. Tinha o nome Guerra, era mais crescido do que ele e pedia-lhe que não lhe batesse. Naquele momento as lágrimas vieram-lhe aos olhos. Como sempre acontece, quando relembra esta história.

Lágrimas de arrependimento, de remorsos por todo o mal que sofreu aquele frágil gigante e em que ele foi cúmplice. Quando lhe deu o lápis sentiu que esse seu acto tinha sido o único gesto humano que tivera para com ele, ao fim de meses de escola.

O Guerra afastou-se numa humildade servil que o expunha a toda a violência. E o Zé não foi capaz de o acompanhar de regresso à sala de aulas onde o Guerra se refugiava durante os intervalos, pois sentiu que preferia estar sozinho do que acompanhado por uma ameaça.

Naquele dia sentiu-se o pior e o mais cobarde de todos os miúdos. Ganhou consciência de todo o mal que lhe havia feito, da crueldade de que era capaz. Naquele dia o Guerra atormentou-o por todos os males que lhe havia feito.

No dia seguinte, o Zé estava decidido a falar com ele, a pedir-lhe desculpa, muito embora o castigo estivesse sempre dentro de si.

Tarde demais: os pais do Guerra mudaram-no da escola para uma outra onde teria melhor acompanhamento. Ninguém na turma percebeu ao certo o que era isso. Dizia-se que tinha ido para uma escola de malucos. Mas o Zé sabia que malucos eram todos os que violentaram a sua inocência e a sua fragilidade.

Nunca mais o Zé viu o Guerra ou dele teve notícias. O rosto do Guerra, as suas expressões, ainda hoje as revê com a mesma nitidez da dos tempos de escola. Não sabe se superou as suas fragilidades, se fez amigos ou se continua um gigante submisso. Sabe que consciente ou inconscientemente o seu rosto se espelha na sua memória sempre que vê uma qualquer humilhação ou injustiça. O Guerra é para o Zé a definição de humilhação e de injustiça. E uma razão para desejar um mundo mais humano.

Um mundo que o Guerra não teve.

Repor a família tradicional

Repor a família no centro da política social, sem motivos morais, mas porque é a melhor forma de proteger crianças e adultos.

A maior preocupação, não é a forma de relação dos pais, mas a que mais e melhor estabilidade e qualidade der às crianças e aos adolescentes.

E daqui se parte para políticas concretas e que o Estado deve promover: a) apoiar activamente o papel do pai e as responsabilidades partilhadas entre ele e a mãe. b) substituir incentivos fiscais por apoio público à família nos momentos chave c) construir redes de apoio para ajudar adultos e crianças a ultrapassar situações de divórcio ou de rupturas .

É desta forma séria que se discutem os problemas inerentes à família, na velha e democrática Inglaterra. À direita, não se resiste à tentação de se ver na família tradicional e no casamento um superior princípio moral, à esquerda, não se resiste à tentação de desvalorizar em absoluto esta forma de vida.

A verdade é que famílias intactas produzem excelentes resultados no futuro das crianças (quando comparados com os resultados de crianças criadas em outros ambientes) e não interessa se há ou não casamento, o que interessa é que exista família intacta: pai, mãe e filhos.

Não há, nestas propostas, qualquer sentido moralista, mas sim porque é na família tradicional que as crianças e adultos concretizam o seu maior potencial.

PS: ver Martim Avilez Figueiredo no i “Politics for a new generation,the progressive moment” de 2007 e “The progressive manifest” de 2004 -livros de Antony Giddens.

Um desejo para 2010

Num país em que a população está num crescente processo de envelhecimento, pondo em perigo a continuação da própria nação; onde a dívida pública é galopante; onde o desconcerto das instituições, sejam públicas ou privadas, face às demandas da cidadania se enraíza cada vez mais, desrespeitando-se princípios básicos de legalidade com a maior das facilidades; e onde a República capitula às adversidades e usa a comunicação social para mascarar essa realidade, a preocupação que ronda o casamento homossexual, principalmente em sede de adopção, parece-me, uma vez mais, mais um exercício autismo lusitano.

Confesso que, a mim, a adopção de crianças por casais homossexuais faz-me enorme confusão, tal como o próprio casamento homossexual, enquadrando a questão na óptica do secular instituto do casamento e da génese deste. Mas faz-me ainda mais confusão que o actual processo de adopção seja tão estúpido, anacrónico e obstrutivo a quem quer dar uma vida melhor a crianças que se vão amontoando em instituições, sem afectos ou referências. É desumano tanto para as crianças que perduram nas instituições, como para quem quer tomar conta delas e ampliar as suas famílias.

Pior ainda, é que nada se tem feito de verdadeiramente válido para apoiar as famílias. Para apoiar o aumento da natalidade.

Somos, antes, uma país que fez do baixo custo da mão-de-obra uma bandeira de competitividade, sem nunca perceber que haveria um custo social terrível a pagar. E a factura aqui está: não há dinheiro para ter filhos, não há dinheiro para ter casa, não há dinheiro para ter carro. Excepto se for emprestado. E aqui temos um povo mal pago e endividado, a quem é dito que para vencer os desafios do futuro é preciso ser mais produtivo, apostar na qualidade e ser inovador.

Este não é um artigo a favor ou contra o casamento homossexual.

É um artigo contra a incapacidade da República em resolver os seus problemas e desviar as atenções daquilo que é essencial à sobrevivência futura da nação.

É um artigo a favor de que os assuntos com verdadeiro interesse para o futuro do país, passem a estar na ordem da agenda política e do debate nacional.

Quando se falou do aborto, falou-se de concepção, de liberdade, mas muito pouco se falou de família excepto para justificar a manutenção de uma dada estatuição penal, como se fosse esta a base programática de construção e de apoio à família.

Quando se fala de casamento entre homossexuais, agita-se o tema da adopção, mas não se aborda nem rumos civilizacionais nem a vergonha que é o actual sistema de adopção que protelam a entrega de crianças, à sombra sabe-se lá de que interesses institucionais.

É urgente debater a família, estabelecer prioridades sociais e de rendimento, passando por políticas de educação, de saúde, laborais e fiscais. É urgente cuidar do essencial, e deixar o acessório. Ou o problema não será que país vamos deixar aos vindouros, mas antes a que vindouros vamos deixar isto?

Desejo que em 2010, haja vontade de falar do futuro do país além do TGV, das escutas, de homossexualidade ou de aeroportos.

Desejo, mas não espero.

Entretanto: Feliz 2010!