Portugal-Cigarro Fuma-se a Si Mesmo

Este será um post para quantos alguma vez andaram aflitos na sua vida privada, com as mãos nos bolsos, a unhas neles a rapar cotão, encostados aos postes espirituais a ver se a vida passa sem reparar em nós. Portugal, hoje, é isso. Hoje, e sempre, é como se fosse uma pessoa. Por acaso aflita. Sem cheta. Há cento e cinquenta anos apertado em dúvidas existenciais. Encosta-se agora mesmo a um poste. Fuma o pensativo cigarro de si mesmo, cigarro com quase dois séculos e a cinza de mais um default tombando no chão quadridimensional da sua História Colectiva, os olhos semicerrados, os dedos nicotinados, os dentes putrescentes, o hálito entre o halo a merda ou a carniça. Fuma e cisma, com saudades, de Vítor Gaspar, o ministro que a auto-intitulada Esquerda Moderada dizia falhar estimativas, cenários, previsões, mas representava, sozinho, uma solidez que blindava Portugal da punição fiduciária dos mercados. Cisma na virulência dos galambas, putos imberbes, perfurados nas orelhas, a debitar furibundices no Parlamento. Cisma-se mais, fumando-se. Algumas demissões, por vezes, são fezes. Portugal continua encostado a uma espécie de poste da REN imaterial, fumando-se no seu cismativo cigarro. «Eu, Portugal, sou isto, não passo disto. Por um lado, governo-me, por outro tenho um programa de governo no Bloco e no PCP que é não estar em qualquer Governo, pedir a demissão de A durante meses e depois ver no que dá. Eu sou isto. E dá merda», pensa. Talvez o Portugal que se encosta e cisma estivesse no bom caminho consigo mesmo por ter Gaspar. [Read more…]

O Espelho

[Veronese_Venus+no+espelho-3.3.jpg]Quem vê a Selecção Nacional de Futebol Sénior, vê Portugal atravessando os séculos. Mole que hesita décadas a fio em tornar-se um País a sério, organizado, forte. Chama-lhe ditadura. Deixa-se comer por toda a horda de corruptos na política e nos negócios que lhe desbaratam recursos, orçamento após orçamento, ano após ano. Chama-lhe liberdade e democracia. Chama-lhe progresso. E um dia acorda. Nu.

Vê que perdeu anéis desconhecidos e podem ir-se-lhe também os dedos de polvo apresado. Falha apuramentos, na Hora H. Chora. Não quer pagar os juros dos anéis nem o transfundido sangue-visco-verde dos dedos decepados. Encoleriza-se. Resolve-se a tergiversar. Inova e passa a odiar o vento. Insulta a sorte. Mergulha no paroxismo da Raiva. Inventa um touro expiatório. Erige um matadouro de Primeiros-Ministros. Lamenta-se mediante manifs e marchas paliativas em desagravo de factos consumados, apadrinhados por quem manda.

O Mundo tem dificuldade em levar a sério esse País com medo de existir, de ser forte, apto, compacto, competente, duro de rins, flexível a criar, assente no trabalho, insistente em si mesmo, capaz de marcar golos, contra Oceanos, Procelas, Gigantes, Exércitos, Orientes. No fim, este Portugal estilhaçado-em-espelho na agremiação que o representa na Bola e que falha, ou quase alcança, cogita consolar-se a insultar o mensageiro, a assassinar a voz incómoda. A voz abrasiva, louca, tenaz, insólita, fora do aconchego das certezas vermelhas velhas, é sempre fascista. O Espelho reestilhaça. Enlouquece regicida. Apaixona-se pela mordaça. Amordaça. Venda-se. Incendeia. Denuncia o vizinho. Delata da amante o marido. Cega. Crava.

E acaba tudo bem. Em pardo. Não acabando. Recomeçando. Temo-lo visto muitas vezes, grisalho, manquejando. À mesma hora, afastando o cortinado da janela do 1.º Esquerdo, pode ver-se a aparição do Coiso País que falha em tudo, mas não falha nisto: «Olha, lá vai Portugal. Vai à rua. Leva o cão a cagar!» Se não fosse o cão cagante, relíquia-saramago de qualquer coisa compassiva e consoladora, seria ele mesmo por desfastio a enfeitar de lixo o Asseio Impudico Público por onde os pobres passam, de língua estendida, macilentos, séculos inteiros a deslizar uma existência amarela talvez equivocada, juntando com as mãos num pequeno monte raso as migalhas caídas da farta mesa dessa gentalha burguesa, dos salgados, dos soares, dos mexia, toda a nata ventruda imune ao nosso inferno, indiferente a ele, cúmplice nele. Vagarosamente desfralda-se a voz desdobrada em estilhaços-reflexo: «Recolheu ele a merda do cão, Maria, ao menos?» É fatal repetir-se a Pessoa ou a História. «Não, homem. O bicho cagou e o dono andou!» É Portugal.

Aqui estamos. Aqui Sou. Cumpro Camões Enjeitado em Vida, pronto para a mesmíssima Grande Pedra Sepulcral Colectiva, a Inveja.

Alice Munro é Prémio Nobel da Literatura

Confesso que sei muito pouco sobre a autora.

“O que significa ser escritor num país situado na periferia do mundo,

um lugar onde o termo capitalismo selvagem definitivamente não é uma metáfora? Para mim, escrever é compromisso.” O brasileiro Luiz Ruffato, na abertura da Feira de Frankfurt.

Sobre o que separa José Rodrigues dos Santos

da literatura. Clara Ferreira Alves leu o romance “inspirado” na vida de Calouste Gulbenkian e chama os bois pelos nomes.

Quando um Padrão Estrebucha

PadrãoQuando um Padrão ou um Salgado estrebucham de desconforto ou dor de hastes, o Céu faz uma festa de arromba. Se Salgado e o seu moço de recados mediáticos andam infelizes e angustiados, fazem queixinhas, por guerras lá deles, sucessão e tal, organiza-se uma santa orgia celestial, mandam-se vir uns vapores e umas dançarinhas para se curtir à larga, e a malta transige nuns bolinhos de bacalhau e num sexo platónico básico.

Na Terra, quem é que quer saber se aos salgados, aos padrões e aos quejandos lhes dói o cu?! Que se fodam! No Céu é diferente. Os Anjos apanham uma valente bebedeira, tropeçam nas asas e despejam vómito pela sumptuosa escadaria da eternidade. Deus perdoa. Ri, cofia as barbas e dá finalmente uma relaxada, fuma um cubano e dá ordens para se colocar música sensual, gajas a dançar seminuas, pois celebra-se as dores de corno de um banqueiro, atiram-se foguetes pelos seu conflitos de poder, as suas guerras de merda. Tudo aquilo que a Banca sacana faz de mal ao cidadão indefeso, as penhoras injustas e filhas da puta ou os perdões de dívidas só a nababos ou os privilégios accionistas só para nababos-paxá como Machete, tudo o que a Banca sem escrúpulos congemina contra o cidadão inerme, genu manco tomado da manada para ser comido de mil e uma maneiras, faz com que no Céu toda aquela anjada e malta defuntada ande de monco caído, coitados.

Mas quando a mesa vira e os referidos Animais do Dinheiro andam às turras no seu infinito vazio, as melhores festas são dadas no Céu, onde estão todos mortos para isto e vivos para o que interessa. Alguém me apresente o angolano Álvaro Sobrinho e que venha a meus braços. Quem enerva o Salgado e o Padrão com tanta eficácia só pode ser meu amigo. E eu faço questão de lhe dar um beijo. É dia de luto no Inferno.

Vozes de sábio não chegam ao Inferno

No sábado passado, fui ao Colégio Paulo VI, em Gondomar, assistir a uma palestra de Maria do Carmo Vieira. De todas as vezes que a ouço, reencontro o desassombro e a frontalidade necessárias na crítica a muito do que está errado na Educação, em geral, e no ensino do Português, em particular. Reencontro, ainda, nas palavras da minha colega a energia renovada para tentar ser melhor, para não me deixar acomodar.

Eis algumas das ideias que reencontrei, enquanto ouvia Maria do Carmo Vieira:

– as opiniões e os pareceres dos professores são fundamentais para a maior parte das decisões sobre Educação. Os sucessivos ministros, no entanto, limitam-se a olhar para os professores como funcionários que se devem limitar a obedecer;

– os professores não podem permitir a proletarização de que são alvo e devem exercer um exame crítico sobre todos os aspectos da sua actividade profissional;

– o empobrecimento da formação inicial e contínua dos professores é absolutamente criminoso e terá efeitos nefastos no futuro (a propósito disso, fomos brindados com uma extraordinária declamação de “Aniversário”, ao som de Prokofiev);

– a base da actividade docente reside no conhecimento científico e não nas questões pedagógicas, sendo que estas devem estar ao serviço das primeiras e não podem ocupar o papel principal na função docente; [Read more…]

Àquele que partiu

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Antes do luto, saboreie-se a inteligência do homem que partiu.

Foram 95 anos doados à causa pública, como cidadão exemplar, como linguista, crítico e literato. Até como académico, que sempre se recusou a ser.

Diziam que era um homem bom, eu reconheço que foi um padrão seguro para tantos que, como eu, ainda conservam nas suas estantes a inultrapassável História da Literatura Portuguesa, de que foi coautor. Para todos aqueles que se reveem na literatura como alfobre dos saberes e da identidade de um povo.

E saúdo o idealista que nunca fez das perseguições de que foi alvo, por ter uma alma livre, um muro de lamentações.

Boa viagem, Óscar Lopes.

João Tordo fez-me Chorar

Agora mesmo,  a minha mulher chamou-me a atenção para o Conto de Natal de João Tordo, num suplemento do Jornal de Notícias de hoje, Somos Livros. Tinha começado a ler e estava a achar divertido, partilhou. Decidi ler também. Atirei-me ao texto na esteira daquele prazer que cintilava nos olhinhos dela. Éramos os quatro na cozinha. Filhas brincando, pintando, a mais velha a aprender a ler com um puzzle de palavras entre mãos com que formava sucessivas frases. Da narrativa do João não falarei. Quem puder, que a prospecte e a sinta com o corpo todo, num JN junto de si. Do que senti, sim, tenho de falar e já. Não é todos os dias que se chega ao fim de uma leitura com os olhos marejados. E não fui apenas eu. A minha mulher também. Mal terminei, saí da cozinha com a palma das mãos nos olhos. Ela terminou depois de mim e eu vi as suas lágrimas, que para mim são o ápice do Belo, o Excesso do Poético, enquanto eu estiver vivo. Não sucede vulgarmente que o coração se nos estremeça só com uma história escrita certamente no Olimpo, junto das musas, olhos nos olhos com elas. Se quiserem enternecer-se e seguir neste dia mais humanos e mais sensíveis, leiam este conto do João. Foi uma Epifania para mim. Mais uma pela qual dou graças a Deus.

Podias era fazer um upgrading no teu writestyle!

Margarida Rebelo Pinto. “Tive de fazer um downsizing do meu lifestyle”

Não Existir Para Ninguém

O que fizemos e fazemos dos nossos velhos?

Tenho tido um tempo interminável para assentar algumas ideias acerca do problema geral da divina invisibilidade particular de cada qual, sobretudo ao olhar para algumas emanações do último Censos 2011. O envelhecimento da população. Está à vista o problema de décadas de corrupção e decrepitude políticas: lá, onde as infraestruturas foram feitas, feitas duas vezes, feitas três, feitas a rebentar de luxo e redundância, as nossas gentes, os nossos velhos, os nossos!, foram envelhecendo, foram-se isolando, numa pobreza igual, pacata, horrorosa, remetendo-se a uma invisibilidade acusadora. Com reformas de duzentos e picos, ou Estado Social-Manguito!, não podiam competir com os Elefantes Brancos que os Governos, de pau feito para outros negócios de suculento retorno comissionista e eleitoraleiro, sempre priorizaram. Assim, por todo o Portugal, nasceram-nos ilhas de velhos esquecidos de todos, sobretudo dos próprios filhos, três, quatro, que deixaram completamente para trás o terem tido um pai, o terem tido uma mãe. Se isto, em Portugal, fosse um caso isolado… Não é. Parece regra. Gente enterrada e relegada pelos seus muito antes de morrer. Em plena cidade. Em plena aldeia. Conhecemos casos. Esquecidos. Impedidos de netos, de um beijo, uma palavra quotidiana. E, no entanto, sem eles nunca poderíamos sequer começar por Ser.   [Read more…]

Um país sem língua

O texto de Inês Pedrosa já tem uns dias, mas o Latim tem mais tempo e não perde importância por causa disso.

Tal como os programas de Português estão gizados, é possível à maioria dos alunos percorrer doze anos de escolaridade e ficar sem conhecer marcos fundamentais da cultura ocidental (com tudo o que contém de oriental, é preciso não esquecê-lo). Assim, não é aceitável que os jovens portugueses desconheçam a existência de Cícero, de Marcial ou de Santo Agostinho. [Read more…]

Um grande texto do grande escritor Mário de Carvalho

Mário de Carvalho, o escritor português vivo que mais habita as minhas estantes, publicou no Facebook um texto sobre a memória e sua ausência. Ali mesmo alguns comentam que isto não era nada assim. A sério. Rui Ramos tem seguidores.

Denegação por Anáfora Merencória

“Eu nunca fui obrigado a fazer a saudação fascista aos «meus superiores». Eu nunca andei fardado com um uniforme verde e amarelo de S de Salazar à cintura. Eu nunca marchei, em ordem unida, aos sábados, com outros miúdos, no meio de cânticos e brados militares. Eu nunca vi os colegas mais velhos serem levados para a «mílícia», para fazerem manejo de arma com a Mauser. Eu nunca fui arregimentado, dias e dias, para gigantescos festivais de ginástica no Estádio do Jamor. Eu nunca assisti ao histerismo generalizado em torno do «Senhor Presidente do Conselho», nem ao servilismo sabujo para com o «venerando Chefe do Estado». Eu nunca fui sujeito ao culto do «Chefe», «chefe de turma», «chefe de quina», «chefe dos contínuos», «chefe da esquadra», «chefe do Estado». Eu nunca fui obrigado a ouvir discursos sobre «Deus, Pátria e Família». Eu nunca ouvi gritar: «quem manda? Salazar, Salazar, Salazar». [Read more…]

A Delicadeza

É nome de um livro, que dá nome ao filme francês que estreou esta semana em Portugal e classificado como «comédia romântica». Uma história de David Foenkinos (1974), considerado hoje um dos melhores escritores da nova geração, pelo menos na França.

Nathalie fica viúva. Entra numa «letargia» que dura cerca de três anos, “até ao dia em que rouba um beijo a um colega de trabalho tímido e pouco carismático”. 

“Será um beijo capaz de mudar tudo?”, lê-se na contracapa do livro (Editorial Presença, 2011). O autor cita Maupassant: “O beijo, contudo, não é mais do que um prefácio.” Foi uma amiga que me ofereceu o livro o ano passado pelo meu aniversário. Uma boa prenda, como são sempre os livros…

Isto é a delicadeza enquanto ficção!

Enquanto realidade: é uma qualidade que poucos têm. E quando encontramos alguém com ela… preste bem atenção: é maravilhoso. Um gesto, uma palavra, uma pergunta no tom certo, um toque nos ombros, um mimo…

Preste atenção. Esteja atento ou atenta às pessoas delicadas, poucas, é certo, que vai encontrando na sua vida ou no seu quotidiano.

Tentemos ser uma delas.

Fatwa à Poesia. Um Certo Gato Zarolho

Isto é um peso. Descobrir-se um homem Poeta a meio da vida, demasiado sensível às palavras e ao puzzle brutal delas sublime, esmaga-me. Tanto acalmar-me, respirar fundo sob o imperativo de escrever: «Vá lá, Joaquim, menos paixão racional! Vai lá para fora ver o azul.» Saio. Contemplo efectivamente o passar de nuvens e aviões, o irisar do disco solar sob o vapor que alveja celestial [visto do chão, o Sol está sob a nuvem, por detrás do Sol há outro chão], eventualmente bebo um copo de vinho tinto com a minha fêmea amada e acendo o meu ocasionalíssimo cachimbo de festejar futebol ou o transcurso de etapas pessoais. Regresso. E tudo me sai poema.

Há depois um gato zarolho, uma aparição clandestina aqui por casa. Amarrotado, sujo, torcido, cinza-castanho, o pobre bicho sem um olho marginaliza-se e, no entanto, implora. Implora à distância sem miar um miado. Parece em perpétuo passo de camaleão, bicho que, como se sabe, hesita fisiologicamente para trás e para a frente cada passada camuflada. Assim o nosso felino zarolho ao visar partilhar a comida do Tareco, o castrado, coiso oficial da família e que nos adoptou por sua livre e interesseira vontade.

Desculpem. Era de facto para fazer uma fatwa à Poesia. Fica para outra vez. Tudo me sai poema.

A aceitação da Morte

Chegamos ao hipermercado com a lista na mão: pão, batatas, vinho, peixe, etc. e, à entrada, os livros como que se oferecem (não estão na dita lista…). Se tivessem asas, atiravam-se e assediavam-nos mais.

Gosto de ser eu a descobri-los. Quanto mais difícil, mais vontade sinto de os ter em minha casa.

Uns livros levam a outros. Cheguei a Cidadela através d’ O Principezinho do mesmo autor, tão conhecido, o aviador Antoine de Saint-Exupéry (1900-1944) .

Mais de quinhentas páginas onde podemos encontrar meditações sobre “a solidão, o silêncio, as imagens do deserto [tema tão querido a Saint-Exupéry], o problema do tédio e da morte, do prazer e da liberdade, do «sentido da vida»”. [Read more…]

Dois ou Três Odores

Ontem, Estação da Trindade, eram seis e meia da manhã, havia um rebanho exaltado de fiscais da Metro do Porto, seguranças da Metro do Porto, a cumprir o seu dever [toda a noite e madrugada o cumpriram] e, mais discretos, postos para canto, polícias a tomar notas. Nessa gare, a essa hora, dois problemas com díspares odores: por toda a gare cheirava a uma dúzia de vadiantes romenos, homens, mulheres e meninas, com os seus lenços e as suas saias de cores demasiado berrantes para se misturarem connosco escapando ao escrutínio dos olhos e dos narizes, ora extraídos à bruta das composições, em que por hábito insistem em viajar gratuitamente, ora impedidos dramaticamente de embarcar de modo furtivo e aflito, valsa que se dançava. [Read more…]

Hoje dá na net: História de uma Flor

Ler aqui

«História de uma Flor» é um livro para crianças escrito por Matilde Rosa Araújo. A Revolução de Abril é retratada de forma lúdica através da história de uma flor, que passa de escura a vermelha, de sozinha a acompanhada, de triste a alegre. O livro está disponível na sua totalidade no Cata Livros, um site muito giro da Fundação Gulbenkian que reune um conjunto de obras infantis da maior importância.

 

Livro, leitura e liberdade

No Dia do Livro, é difícil fugir de escrever algo sobre o assunto…

Tiro da prateleira O Silêncio dos Livros de George Steiner, um pequeno ensaio escrito em 2005. Transcrevo algumas ideias para recordar e me fazer pensar:

“A maior parte das pessoas não lê livros. Porém, canta e dança.

O acto de ler livros, (…) pressupõe um determinado conjunto de circunstâncias.

Um dos requisitos fundamentais é, também, o silêncio. 

E, acima de tudo, é preciso ter tempo para ler. (…)

(…) quase meio século de vida consagrado à contínua leitura e releitura (…) e continuo assombrado (…)

(…) do milagre sempre renovado de segurar nas mãos um novo livro.” [Read more…]

Como Se Fora Um Conto – O Viúvo Provisório

O Viúvo Provisório

Sentia-a como a melhor pessoa que alguma vez lhe coubera. A cumplicidade nas diferenças que tinham era enorme. O amor que nutriam um pelo outro era ainda maior.

Reduzido a uma provisória e passageira condição de viúvo, com a cama desfeita de um só lado, com um vazio secreto de que só se dava conta a espaços na noite e na hora do acordar, João vivia os dias triste a cansado, mas só pela condição de ser assim, triste.
As insónias vivia-as sozinho, tal como ela que, no andar de cima nem cama tinha, antes um catre estreito e curto, onde dormia, ou tentava dormir. Ela que era grande, comprida, muito mais do que ele.
“que queres que te faça, ressonas!”
Ele bem que sabia disso, mas não controlava o barulho que desde há alguns anos fazia. Era um barulho com vida própria, senhor do seu nariz e totalmente independente da sua vontade. [Read more…]

Nascido a 13 de Abril (e não de “abril”, como vi por aí)

VLADIMIR: Ah yes, the two thieves. Do you remember the story?
ESTRAGON: No.
VLADIMIR: Shall I tell it to you?
ESTRAGON: No.
VLADIMIR: It’ll pass the time. (Pause.) Two thieves, crucified at the same time as our Saviour. One—
ESTRAGON: Our what?
VLADIMIR: Our Saviour. Two thieves. One is supposed to have been saved and the other . . . (he searches for the contrary of saved) . . . damned.

Samuel Beckett, Waiting for Godot, Act I

 
FRANCE. Paris. 1986. Nobel Prize winning author Samuel BECKETT.
Copyright: Bob Adelman/Magnum Photos

A inexplorada riqueza do ser humano

                                                                                                                                            O Público de 25 de abril de 2011, Dia da Liberdade, agendava a publicação em Portugal, pela Dom Quixote, de E Agora, Zé Ninguém? escrita por Rudolf Wilhelm Ditzen (1893-1947) ou Hans Fallada em 1932.

Um ano antes da morte de Ditzen, um outro Wilhelm, W. Reich (1897-1957), médico psicanalista austríaco, escreveu Escuta, Zé Ninguém!, também da Dom Quixote e já com mais de 10 edições.

Ambas as obras se centram no homem comum, nas suas dificuldades. A primeira obra, sendo um romance, fala-nos de um problema contemporâneo, a história de homem que se vê, a dada altura da vida, entre os milhares de desempregados, “transformado num desesperado zé-ninguém”. [Read more…]

Do outro lado…

               

De um recorte de jornal.

Há dias, revendo recortes velhos e amarelos, um deles chamou-me à atenção. Não propriamente pelo motivo pelo qual o guardei em 16 de junho de 2006 (David Mourão-Ferreira) mas, justamente, pelo que descobri nas costas do mesmo.

Havia retalhado um quadrado com referência ao documentário Duvidadávida dedicado ao poeta quando se completavam dez anos após a sua morte. Nessa sexta-feira, sublinhei na folha do jornal: “Que dúvida Que dívida Que dádiva/Que duvidadávida afinal a vida”. No documentário produzido pela RTP, podia ouvir-se a voz de Mourão-Ferreira numa das últimas entrevistas, já muito doente, a dizer-nos “o quão extraordinário é a vida e a maravilha que é estarmos vivos”.

Há poucos dias, como ia dizendo, vi, com outros olhos (ou efetivamente pela primeira vez), o outro lado: uma foto do actor João Castro encenando Na Morte de Marilyn, um poema de Ruy Belo. Tirei da estante o único livro que tenho de Ruy Belo (A Obra Poética) e ah! lá estava ele: [Read more…]

Guiné – Irkutsk

  (adão cruz)

Não chovia, mas o céu ameaçava desfazer-se em água. Era plúmbeo, presumivelmente a oeste, e carregado de negro do lado oposto. Uma faixa mais clara nascia por cima de Irkutsk e desfibrava-se ao longo do rio Angorá. Mais parecia um quadro de Fiódor Vasiliev ou de Ivan Aivasovsky. [Read more…]

Na morte de Agostinho da Silva (3-4-1994).

Passou discreto o aniversário sobre a morte de Agostinho da Silva (Porto, 13-2-1906 – Lisboa, 3-4-1994) talvez porque este filósofo, ensaísta e pedagogo pretendia mudar o mundo a partir de dentro, pelo espírito e não por fora, com retórica política ou cocktails molotov. Agostinho da Silva nasceu, viveu e morreu como os da sua espécie, desde o padre António Vieira, passando por Sebastião da Gama ou Sophia de Mello Breyner: discretamente arrumados para um canto, ofuscados por conveniências do politicamente oportuno e do pretenso discurso renovador dos Espertos, essa classe transversal à sociedade portuguesa. Ele, que não era do Heterodoxo, nem do Ortodoxo, mas do Paradoxo devia estar mais perto da Certeza. Nós, humildes aprendizes ou convictos ignorantes, achamos que não. Em todo o caso, neste tempo convulsivo convém reler algumas das suas obras e reflectir sobre as suas palavras, como as que se seguem, retiradas da biografia sobre Frederick William Sanderson (1857-1922):

A revolução obriga a um dispêndio de energias que não estão de modo algum em relação com os resultados obtidos; a ilusão de todos os revolucionários da história tem sido a de que, depois do movimento, se encontrariam num mundo perfeito, absolutamente de acordo com a construção teórica ou respondendo ao impulso de generosidade que os levou à acção; o estudo da história mostra, segundo Sanderson, o contrário: depois de todo o tumulto em que os melhores se perdem, depois de toda a confusão das derrocadas, verifica-se que foi mínimo o progresso e que os homens que atingem um nível de repouso não estão na realidade, muito longe do ponto de partida. [Read more…]

Literatura para crianças: A Árvore Generosa


Hoje é o Dia Internacional do Livro Infantil, sendo que prefiro dizer que os livros são para a infância ou para as crianças, mas…

Queria partilhar um dos melhores livros alguma vez escritos:

A Árvore Generosa de Shel Silverstein.

Que pode ser “lido” no youtube:

O pecado original

  (adão cruz)

Quando nasceu trazia entranhados em si dois grandes pecados, o pecado original e o pecado de ter sido gerado em mãe solteira. [Read more…]

“O Acordo Ortográfico é uma merda!”

Gostava de ter sido eu a inventar esta frase, mas a sua autoria pertence ao hoje falecido Millôr Fernandes, um dos grandes cultores da língua portuguesa, homem cultíssimo, amigo de Raúl Solnado, humorista de tal modo universal que pode ser tão citado como Oscar Wilde. Como se isso não bastasse, era um brasileiro com a lucidez suficiente para saber que os falantes e os escritores da lusofonia sabem ouvir-se e ler-se uns aos outros e que, portanto, o lugar de um monte de merda não é no meio da ortografia.

Sostiene Pereira

Morreu hoje Antonio Tabucchi; escrevera nos anos 90 “Sostiene Pereira” (Afirma Pereira), uma estória à volta de um jornalista lisboeta de meia idade, metáfora (será?) de um povo enfadado pela luz que não tem.
Numa viagem de comboio a Coimbra dá-se a epifania: Pereira sabe que a Mudança vem pela sua própria acção. Pereira não pode continuar à espera. Pereira regressa a Lisboa (noutro comboio?) e publica, enganando a Comissão de Censura, a notícia do assassinato de um amigo jornalista…
Sostiene Pereira,  é bom rever a estação do Barreiro fazer as vezes de Coimbra…

Os clássicos da Literatura no ensino do Português

O Ministro da Educação ter-se-á mostrado favorável à re-inclusão de Camilo Castelo Branco nos programas de Português do Ensino Secundário. Espero que não o tenha feito apenas para ser simpático com o anfitrião, o presidente da Câmara de Famalicão, ou devido ao facto de ser um autor da sua preferência.

Se é certo que a Educação tem sofrido um desgaste brutal, com destaque para os últimos sete anos, a disciplina de Português, o fundamento do currículo, tem sido particularmente atingida por reformas e ajustamentos sucessivos, com oscilações brutais de terminologias linguísticas e com a exclusão do estudo de autores fundamentais da cultura portuguesa, com base em concepções vagas que defendem que a Escola deve ir ao encontro dos interesses dos alunos ou que os deve preparar para o mercado de trabalho, o que tornaria desnecessário o ensino da Literatura Portuguesa. [Read more…]