A União Europeia, o Cidadão e o Capital

O acórdão do Tribunal de Justiça da União Europeia e o presunçoso discurso de Durão Barroso no Estoril confirmam o que prevíramos aqui no Aventar. Não nos ufanamos de autoria de prognose mágica, ditada por inspiração divina. Foi mera ratificação, ab initio, de que a União Europeia privilegia a ‘liberdade de circulação de capitais’, em prejuízo da ‘coesão económica e social’ que diz estar na primeira linha dos objectivos que se propõe atingir – este último enunciado é um exercício de continuada demagogia.

No portal da UE, e sob o título ‘empregos e assuntos sociais’ é possível aceder a um arrazoado de intenções e objectivos da União, no domínio das políticas sociais. Uma vez lidos e equacionados com as práticas da Comissão, do Parlamento e do Tribunal de Justiça resultam naquilo a que, em português vernáculo, poderíamos designar por ‘conto do vigário’.

A ‘Estratégia de Lisboa’ é focada a torto e a direito, no sentido de mostrar preocupação pelo bem-estar social nos 27 Estados-Membros da EU; legítimo seria pensar que os princípios e políticas implicassem o correspondente empenho em promover pragmática homogeneidade económica e social – a tão apregoada coesão – em respeito pela inclusão de todos os países em processo de desenvolvimento global europeu. Mas não é assim. O poder financeiro e o conceito de mercado é que contam.

As autoridades europeias no caso ‘PT – Telefónica – Vivo’ demonstraram, à evidência, que a citada Estratégia de Lisboa é letra morta. Efectivamente, sem ponta de xenofobia, parece-nos legítimo argumentar que a PT, em termos de desenvolvimento económico, tecnológico e de emprego, tem para Portugal relevância especial – a capitulação do sinistro trio, BES, Ongoing e Visabeira, valha a verdade, igualmente traiu o País a que esses investidores dizem pertencer.

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PT, Telefónica, Vivo e o ‘Socialismo Neocolonial’

A trilogia ‘PT – Telefónica – Vivo’ converteu-se em romance. Com contornos de maior ‘suspense’, após o uso pelo Estado Português de poderes conferidos pela golden share na PT. Os discursos e intervenções subiram de tom. Uns a favor, outros contra. E aguarda-se a deliberação de Bruxelas, mesmo sem eficácia imediata.

Os opositores ao uso dos citados poderes, em geral, refugiam-se no argumento de que não foram respeitados os interesses dos accionistas – e eu exclamo e que espécie rara de accionistas! BES, Ongoing e Visabeira. Todos adquiriram acções da PT, sabendo da posse da golden share pelo Estado, assim como dos direitos e consequências inerentes. Agora, os mais usurários revelam surpresa e discordância à opinião pública.

De tantos ditos e contraditos, há até comportamentos de pasmar. Há um mês, o sinistro banqueiro de todos os regimes, o Dr. Ricardo Salgado do BES, defendia que o Estado deveria accionar a golden share para contrariar a compra da Vivo pela Telefónica; ontem, em declarações proferidas em Cabo Verde, disse o contrário e mais: agora há o perigo da operadora espanhola lançar uma OPA sobre a PT. De patriótico, já muitos sabíamos, Ricardo Salgado não tem migalha ou gota, como há semanas fazia notar a insuspeita escritora Rita Ferro. E está bem acompanhado por ‘compagnons de route’ de refinada ética, os empresários da Ongoing e da Visabeira. ‘Day after day’, as coisas mudam. Hoje o jornal ‘i’ anuncia que Salgado também terá dito que se houver uma OPA da Telefónica sobre a PT, o Estado deverá opor-se através da ‘golden share’. Enfim, contradições atrás umas das outras.

Deixemos, agora, a negociata dos ilustres accionistas, atraídos por parte de 7,15 mil milhões de euros – o país e as suas gentes beneficiariam imenso. Centremo-nos na crítica do arrevesado Rui Ramos na última edição do ‘Expresso’. Famoso historiador e doutorado em Ciência Política por Oxford, o ilustre académico entende que a decisão do Estado é um acto de “socialismo neocolonial”. Equivalente, escreve ele, à decisão “do país manter, não companhias de telemóveis no Brasil, mas a administração portuguesa nas terras de África” (sic). Esta visão transcendental só poderia sair de um cérebro genial.

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O Paraguai saiu, mas Larissa se despiu

Larissa Riquelme, a Noiva do Mundial

Apesar da eliminação do Paraguai e de contrariar a promessa inicial, Larissa Riquelme sempre se despiu alguma coisa  para as câmaras da televisão peruana. A generosa Larissa merecia tudo de bom e, em especial, que a selecção do seu país fosse mais adiante; porém, o Cardozo, nas grandes penalidades, é muitas vezes desastroso. As melhores exibições do Mundial de 2010 pertencem a Larissa. O resto é conversa.

O ‘5 Dias’ em perseguição ao Belenenses

Três jogadores belenenses recusam saudação fascista (1938)

Está um calor de fazer estoirar os miolos. Porém, vou ser o mais temperado possível com dois ilustres blogueres do ‘5 Dias’.

Um é autor do ‘post’ com o odioso título  P’ra baixo é o caminho! (Carlos Guedes). Considera o Belenenses o clube mais fascista de Portugal que, a partir da data do escrito, passou a ter um presidente à altura – João Almeida, deputado do CDS. O outro é o Intendente do ‘5 Dias’, Nuno Ramos de Almeida, que em comentário acrescentou:

Achas que vão recuperar o antigo nome do estádio?

Com esta “inócua” pergunta, o citado Intendente, ao que percebo arrebatado sportinguista, vinculou-se automaticamente ao tom grosseiro e ofensivo do texto de CG.

Coisa diferente, fez há tempos António Figueira em relação a um ‘post’ semelhante de Renato Teixeira, também no ‘5 Dias’. Disse-lhe: “tu atacaste por atacado e agora ficas sujeito às consequências. Deixa lá o Belém…”.

A diferença entre as duas reacções é a demonstração inequívoca entre o civismo e o bom senso de um senhor (AF) e a injúria grosseira e reles que o comentário de NRA amplia e solidifica. E reles comportamentos só podem ser lidados com linguagem apropriada. Tanto assim é que a decifraram num ápice.

Com efeito, como belenense e de esquerda – características herdadas do meu pai – senti-me ofendido com o insulto de pertencer ao ‘clube mais fascista de Portugal’. O Belenenses tem 90 anos de história. É anterior ao Estado Novo.

A minha escolha não foi o João Almeida. Mas por ter sido alvo de torpe aleivosia de ignorante ou de deliberada difamação do autor do ‘post’, com certificação do Intendente, lembrei que também o deputado do PCP, António Filipe, esteve presente na votação e, por ser belenense e fascista, talvez fosse recomendável NRA propor a sua expulsão do partido.

No comentário ao odioso ‘post’, falei em Mariano Amaro e na saudação comunista que este jogador azul fez no Estádio das Salésias, num jogo internacional em 30 de Janeiro de 1938. Mas acrescento agora que também o belenense Artur Quaresma a fez, como se comprova na fotografia acima publicada. De resto, outro jogador do Belém, Simões, recusou-se a fazer a saudação fascista, permanecendo em posição de sentido. Apenas os três jogadores do Belenenses recusaram cumprir o ritual do regime.

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A Comunicação Propagandista do Jornalismo e da Política

Nos tempos correntes, há obstáculos ao exercício da profissão de jornalista de forma livre, responsável e isenta, respeitando o Código Deontológico de 1993. A submissão de órgãos de comunicação a dominantes interesses económicos e políticos é adversidade de monta. A precariedade das relações de trabalho é outra das causas. Se a estes factores, juntarmos as transgressões deliberadas de jornalistas e chefias redactoriais, então temos todos os ingredientes do caldo do mau jornalismo.

Estes pensamentos e juízos foram induzidos por um título do jornal ‘Público’: PSD fecha a porta à liberalização dos despedimentos; título da peça sobre os objectivos da revisão constitucional que o partido ‘laranja’ está a preparar, sob a orientação de Paulo Teixeira Pinto. Um ex-presidente do BCP, expelido – coitado – para a reforma antecipada. Usufrui de uma pensão mensal superior a 30.000 euros. Mas o que prevalece é o homem ser vítima de entediante inactividade profissional. Portanto, conhecedor efectivo do drama da falta de trabalho. Sim, porque a retribuição – elevada, reduzida ou nenhuma – é factor de segunda ou terceira ordem, na problemática da desocupação. O emprego mesmo com salário mínimo é solução eficaz.

O PSD é, como se sabe, uma organização colectiva. É injusto alijar a carga apenas nos ombros do reformado Pinto. O próprio líder – há registos bastantes na imprensa – declarou a determinação de rever o texto da CP com diversos fins. Um deles, a flexibilização laboral, integrando a facilitação dos despedimentos, era meta importante. Pelos vistos, como no sentir do irmão gémeo ‘rosa’, há insegurança e hesitação no partido ‘laranja’. Ia acrescentar inabilidade e falta de vontade para a escolha de políticas de social-democracia autênticas, mas fica para a próxima. Deixemos os jovens tranquilos. Mais a mais, estão extenuados pela extensa e sinuosa trabalheira das SCUTS, na companhia dos “compagnons de route”.

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A Papoila Saltitante – Doutoramento

No post de ontem, A Papoila Saltitante, escrevi que a figura central do texto se fazia passar por professor doutor, ou seja, doutorado, quando apenas é licenciado. Baseei-me na descrição biográfica da  Wikipédia, a enciclopédia livre, a qual, de facto, não refere qualquer doutoramento de Fernando Seara. O site da própria AR (Biografia) apenas o cita como ‘Advogado’, não mencionando explicitamente licenciatura ou doutoramento.

Um comentador, José, teve a amabilidade de me conduzir para a Infopédia que, ao invés, o descreve como doutorado pelo ISCSP com a tese “O Parlamento no Sistema Político Português”.

Dada a diferença da informação existente, e a momentânea impossibilidade de saber qual a fiável, aplico o princípio in dubio pro reo, com o objectivo de reparar eventual erro de avaliação do grau académico da “Papoila” que deu mais um salto a somar àqueles que inicialmente imaginei – saltou do CDS para o PSD, segundo a Infopédia.

Do resto do conteúdo do primeiro post, aqui, não retiro nem uma vírgula.

A Papoila Saltitante

O famoso homem é meu vizinho. De volta e meia, vejo-o ao sábado de manhã, a caminhar com duas sacadas de jornais. Uma em cada mão. Dirige-se para casa, cheio de informação daqui e de acolá, e disto e daquilo. Antes esteve sentado no pequeno café, frequentado por gente muito formal e vazia de conteúdo. Saúdam-no com reverência, sobretudo elas, com vozes melífluas e gestos curvilíneos. O cabotino sente-se idolatrado. Crê ser génio. Agradece, de ar babado, com sorriso de fingimento, as manifestações bacocas de popularidade.

Tem o peito enfunado de presunções místicas. Intitula-se professor doutor e é apenas licenciado. E assim consegue ser tratado por ‘Senhor Professor’. Tem escasso mérito de cidadania, mas é um mestre do saber viver neste país de abundante acefalia. Consegue atingir e desempenhar cargos tão destacados quanto ecléticos.

Pelo comportamento exibido, uns quantos, dos poucos que ouço, tratam-no por ‘melga’. Outros dizem que é a ‘Papoila Saltitante’, em alusão implícita à preferência clubista. Prefiro este último epíteto. O acasalamento do símbolo da flor campestre e vermelha com a procura de se juntar ao poder – e de bons resultados remuneratórios – dão todo o sentido à alcunha.

Tal ‘Papoila Saltitante’ é o equivalente, em imagens televisivas, a um emplastro de luxo. É, pois, o assimétrico do emplastro anónimo, de olhar e sorrisos esquizofrénicos a mostrar-se nas costas dos repórteres desportivos de TV, como réplica psiquiátrica a Jack Nicholson, em ‘Voando sobre um Ninho de Cucos’.

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Manuel Pinho na Fundação Arpad Szenes – Vieira da Silva

Segundo o noticiado por órgãos de comunicação social, Jornal Digital por exemplo, Manuel Pinho foi nomeado Presidente do Conselho de Administração da Fundação Arpad Szenes – Vieira da Silva, por decisão da Ministra da Cultura, Gabriela Canavilhas. Substitui, no cargo, António Vitorino.

Manuel Pinho é descrito como coleccionador de arte e além disto, acrescente-se, um homem deveras exigente em matéria de decoração das paredes do gabinete de trabalho. Mas, desta feita, no que respeita à selecção da fotografia mais apropriada, a tarefa ficou muito facilitada. Optou-se naturalmente pela imagem do gesto tão taurino quanto magistral e solene que imortalizou a última presença de Pinho na AR, como ministro da economia.

Encimar este ‘post’ com a imagem em causa é a nossa singela homenagem a Manuel Pinho.

 

Rita Ferro, Isabel do Carmo e o Grupo Espírito Santo

O que há de comum nas vidas de Rita Ferro e de Isabel do Carmo? A resposta é espontânea e sonante: nada!

A escritora, lisboeta, é filha do ensaísta António Quadros e neta de António Ferro, intelectual e doutrinário do Estado Novo, fundador do célebre Secretariado de Propaganda Nacional salazarista.

A médica, hoje doutorada e professora da Faculdade de Medicina de Lisboa, natural do Barreiro, foi militante do PC, fundadora do PRP. Esteve detida em consequência de activismo de extrema – esquerda.

Entre as duas jamais existiu efectivamente algo em comum, o que justifica a resposta pronta e negativa à pergunta formulada. Todavia, analisados comportamentos recentes de Rita Ferro e Isabel do Carmo, infere-se que, erodido o passado, ambas convergem no presente em duras críticas a esse monstro económico-financeiro chamado Grupo Espírito Santo.  

Vamos a factos. Rita Ferro, no jornal ‘Expresso’, edição de 12 de Junho, publicou o artigo “Carta aberta à família Espírito Santo”. Desanca forte e feio na família dos banqueiros. Assumindo ser “herdeira genética do salazarismo, mas penitente pelos efeitos do seu regime”, crítica com voracidade o Grupo Espírito Santo (GES), por este servir de retaguarda interesseira ao governo de Sócrates e ter a chancela nos principais consórcios financeiros devotados às grandes obras do executivo socialista – Auto-Estradas, TGV, Novo Aeroporto de Lisboa e 3.ª Travessia sobre o Tejo. Considera, pois, o GES plataforma relevante de suporte a estes investimentos em inoportunos prazos. E tece eloquente conclusão:

Ao contrário do vosso Grupo – e doutros, claro, mas com menos pergaminhos – não teremos a Suíça como abrigo quando a lâmina da bancarrota nos cortar a jugular…

Acerca da escritora, estamos falados. Deambulemos agora pelos argumentos de Isabel do Carmo, na edição de Junho de “Le Monde diplomatique”. Como médica e Directora do Serviço de Endocrinologia do Hospital de Santa Maria, Isabel do Carmo desmistifica os topetes da insolente Isabel Vaz, engenheira química, gestora da Espírito Santo Saúde SA e do Hospital da Luz. Com base em entrevista da engenheira Vaz ao jornal “i” em 16 de Março, e a propósito do “emagrecimento” do Estado, a médica demonstra a falta de seriedade e de sensibilidade social da gestora do Hospital da Luz sobre o protocolo com a ADSE, quando a citada engenheira afirma:

O facto de a ADSE não ter plafond é desde logo uma vantagem

Mas, como isto não chegasse para se entender a prevalência de objectivos de ganância lucrativa sobre os direitos constitucionais de acesso a cuidados de saúde dos cidadãos, a engenheira Vaz, escrito preto no branco por Isabel do Carmo, ainda se arroja a outras afirmações reveladoras do espírito de usura:

O plafond dos seguros é em média de 20 a 25 mil euros. Se diagnosticarmos uma doença oncológica o seguro cobre em média 50%. Então mandamos para o hospital público de referência.

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A Democracia do “Money"

De debates do conceito de democracia, está a História cheia. Desde Sócrates, o autêntico, a filósofos, políticos e ideólogos da actualidade. O dinheiro, em abundância e embora ganho por métodos desrespeitosos da ética, transformou-se em valor supremo das sociedades actuais. As elites vivem na luta obsessiva pela expansão de fortunas, à custa da desigualdade e da transgressão, naturalmente perversas, de direitos básicos de milhões de seres humanos.

Dos EUA à China, da Europa à Índia, do Japão a África, o desenfreado domínio material de poucos dizima a dignidade de milhões. Contraditoriamente, e a crise financeira mundial tornou o fenómeno transparente, o materialismo converteu-se na prática de multimilionários e acólitos que, em exibições falaciosas, se fazem passar por interpretes de inspiração metafísica. São os actores dessa comédia divina e providencial, o neo-liberalismo.

Portugal, país frágil e mal governado há muito, caiu inevitavelmente nessa rede selectiva, cuja malha é apropriada para engrossar o exército dos pobres. Segundo o Eurostat, o nosso País é o 9.º mais pobre da UE, considerando que, em média, o PIB ‘per capita’ – sempre o terrível PIB! – é apenas 78% da média dos 27 países da dita União (?). No topo da lista está o Luxemburgo, com 268%, o que ratifica o efectivo fosso de desigualdade – o Luxemburgo, onde vivem milhares de portugueses, é uma praça financeira povoada de ‘paraísos fiscais’.

O referido país é, pois, o paradigma do ‘Governo do Bancos’, título de Serge Halimi no EDITORIAL – Le Monde Diplomatique – Edição Portuguesa. Em lúcida análise, o autor refere vários males: entre eles, a perversidade do sistema financeiro internacional, assim como os antigos ‘apparatchicks’ soviéticos metamorfoseados em oligarcas industriais e os patrões chineses que ocupam um lugar destacado no Partido Comunista.

Enfim, a ‘idade do dinheiro’, já havia sido retratada através da frase ‘Money makes the World Go Around’, no filme ‘Cabaret’, com Liza Minnelli.

Presidente da República ausente no funeral de Saramago – Natural!

Há dois dias, ao associar-me à homenagem a Saramago do companheiro de blogue Pedro Correia, denunciei a hipocrisia de certas figuras do centro e de direita, a enfunar simulados desgostos pela morte de José Saramago. Tinha, pouco antes, assistido na SIC a declarações cínicas de uns quantos, incluindo um padre, a elogiar a obra e o escritor. Senti – aliás, qualquer espectador atento sentiria – haver falsidade nos rostos e nas palavras daquela gente.

O Jornal “i” anuncia, agora, que o Presidente da República não comparecerá ao funeral de José Saramago. Considero coerente e correcto. Na qualidade de PR, limitou-se a palavras circunstanciais: “O País perde uma referência cultural”; entendeu, e bem, distanciar-se para posição consistente com a deliberação anunciada pelo Subsecretário de Estado da Cultura, o amanuense Sousa Lara, de um Governo por si liderado em 1992 – tal deliberação impediu, como se sabe, a candidatura do escritor ao Prémio Europeu de Literatura, com o “Evangelho segundo Jesus Cristo”.

As divergências políticas e religiosas, em especial, não se extinguem com a morte de uma das partes. Ao PR é reconhecido o direito de exercer a prerrogativa da objecção de consciência. E fá-lo com dignidade demolidora para as palavras insensatas do Conselheiro de Estado, Marcelo Rebelo de Sousa, ao considerar que Cavaco não estará presente fisicamente, mas em espírito sim – isto, sim, exala cinismo por todos os orifícios!

O cidadão José Saramago, com quem tive o prazer de privar, partirá naturalmente com a presença daqueles que, em vida, o admiraram como homem. Mas a obra legada jamais o deixará partir definitivamente. O escritor será figura perene da História da Literatura Portuguesa. Goste-se ou não.

Mundial da África do Sul – Queiroz “O Grande”

Queiroz, segundo Nicolau Santos do ‘Expresso’, é o sexto treinador de selecção mais bem pago do mundo. Ronaldo é quase o melhor do mundo. Outros jogadores, portugueses ou brasileiros, são vedetas em clubes de grande projecção: Chelsea, Real e Atlético de Madrid, Benfica – o tal dos 6 milhões rigorosamente escrutinados – F.C.Porto e Sporting.

O seleccionado luso jogou com a selecção da Costa do Marfim; designação irónica porque, na verdade, deveria chamar-se Costa do Carvão. Não em função do colorido epidérmico dos africanos, mas porque, no final do jogo, nos fez a vida negra. Terminámos, de facto, o jogo nas trevas do sofrimento.

Difícil de acreditar, mas os portugueses até podem vir a fazer um resto de campeonato arrebatador. Para muitos, o que entretanto vai prevalecendo, em função da partida de hoje e das anteriores de preparação, é a imagem de uma equipa que joga pouco, muito, muito pouco.

Visto o jogo, ainda extraímos outra conclusão: nem no futebol escapamos da crise, a qual, pelos vistos, é amplamente sistémica e estrutural. Nada fica de fora.

Duvido, pois, da capacidade da selecção de Queiroz de atingir o sucesso. Mais a mais, temos nele um treinador balofo e arrogante, de incompetência demonstrada e certificada. É claramente o técnico do sistema nacional-futebolístico. Beneficia de apoios em diversos azimutes, ou seja, de Norte a Sul do País – de Famalicão a Boliqueime, por exemplo. É um ídolo sem resultados, como tantos outros que por aí circulam. É Queiroz “O Grande”, da nossa Macedónia.

Por precaução, contra reacções adversas a este texto, já preparei a resposta. É plagiada de uma afirmação de Scolari: “E o burro sou eu?”.

Começam o Mundial e as Perguntas do Rui Santos

Rui Santos pergunta: “Acha que Carlos Queiroz procedeu correctamente, ao autorizar que Cristiano Ronaldo, em vez de acompanhar os colegas na visita aos leões, tenha ido fazer ‘ronrons’ com a gatinha?”

Passei há umas décadas pelo jornalismo desportivo, no ‘Norte Desportivo’ e na ‘Capital’. Conheci, nesses tempos, ilustres jornalistas desportivos, homens de cultura sólida. Alves Teixeira, Manuel Dias, Alves dos Santos, Vítor Santos, Carlos Miranda, Carlos Pinhão, Homero de Serpa, Viriato Mourão, Aurélio Márcio, Alfredo Farinha, Neves de Sousa e outros cujos nomes me escapam agora. Com eles aprendi.

Hoje em dia, o jornalismo desportivo rege-se por outros padrões e práticas. Falar e escrever bom português, por exemplo, não é regra imperativa. Os meios de comunicação social, com RTP, SIC e TVI em destaque, dedicam horas a fio e em exclusivo aos chamados três grandes, Benfica, F.C.Porto e Sporting. No caso da RTP, a falta é agravada por ser estação pública.

O formato dos ‘programas de debate’ é comum nos vários canais. Nem sequer, em qualquer destes, há o bom senso de privilegiar a análise dos jogos e de seleccionar como protagonistas os intérpretes do espectáculo. O resultado é simples: assistir a discussões, cujo tom varia entre os sons da tasca e do café de bairro, por gente, ao que se diz, muito bem paga. Já que de ilustre, ninguém duvida que é mesmo.

Outro formato recorrente consiste em colocar um ou dois comentadores em estúdio. Interrogados ou convidados a falar pelo(a) locutor(a) de serviço, falam durante longos intervalos de tempo, sem que nada digam. Um destes casos, e quanto a mim o mais típico, é o de Rui Santos na SIC Notícias. Quando inesperadamente o homem me aparece, “Ah ‘zapping’ para que te quero!”.

Fujo dele – e dos outros – a sete pés. Há, todavia, um embate de que não consigo livrar-me: são as ‘perguntas do Rui Santos’ anunciadas nos intervalos televisivos. Assim, hoje começa o Mundial da África do Sul – os tempos preliminares já ficaram tristemente marcados para Mandela – mas, como dizia, começa o ‘Mundial’ e as ridículas perguntas de Rui Santos. Estou a imaginar uma: “Acha que Carlos Queiroz procedeu correctamente, ao autorizar que Cristiano Ronaldo, em vez de acompanhar os colegas na visita aos leões, tenha ido fazer ‘ronrons’ com a gatinha? – é uma demonstração do jornalismo de sucesso, de hoje. O exercício felino sobre o relevante para os jogos de futebol.  

 

Café Central – O Tango ‘Mano a Mano’

José Sócrates é um político cercado por desventuras, uma das quais confessada, mas falsa: a solidão, por falta de parceiro da oposição com quem dançar o tango. Passos de Coelho, lembre-se, reagiu e afirmou publicamente estar indisponível para tal dança.

Desde a reabertura do ‘Café Central’, quem quis percebeu que o discurso de ambos é melífluo e simulado. Até porque, eles e respectivas tribos são impotentes para contrariar as ordens de Bruxelas, sob a poderosa batuta do par Merkel – Karkozy; com notória ascendência da alemã.

Ontem, conforme testemunho do Diário de Notícias, e da imprensa em geral, rosas e laranjas aprovaram na Assembleia da República o chamado PEC II; não, sem que antes essa pesada figura do ‘Cavaquistão’, Fernando Ruas, tivesse forçado o Ministério das Finanças a prescindir de controlar a admissão de trabalhadores por parte das autarquias.

Todavia, outras perversidades resultaram do acordo parlamentar entre PS e PSD: (i) efeitos da retroactividade do IRS aplicado aos rendimentos dos cidadãos; (ii) a isenção da redução das retribuições de assessores e todo um punhado de contratados políticos.

Os contributos para a crise assentam, em grande parte, no esforço do cidadão comum – assalariados do Estado e de entidades privadas, pensionistas vulgares (há os invulgares!) e desempregados. Os políticos, certamente a contragosto e por vergonha, lá contribuirão com 5% das respectivas retribuições, ao contrário dos tais assessores e contratados.

Com reclamações das minorias de direita e de esquerda, as tribos do ‘Café Central’ brindaram a aprovação do PEC II com ‘espumante da Bairrada’ – os tempos vão maus para ‘Moët et Chandon’ ou outros champanhes de renome. E, assim, no átrio do ‘Central’ os cabeças de cartaz, José e Pedro, dançaram mesmo o ‘Mano a Mano’, cujo último verso reproduzo:

“p’ayudarte en lo que pueda cuando llegue la ocasión’.

E ao José e ao Pedro não faltarão ocasiões para nos tanguear. O resto é conversa fiada. 

Mário, Mário, Mário Crespo…

Por mero acaso, quinta-feira assisti ao ‘frente-a-frente’ da SIC Notícias, conduzido por Mário Crespo. Teresa Caeiro, do CDS, e Helena Roseta, dos Cidadãos por Lisboa, seriam as esperadas protagonistas; e digo esperadas porque quem do debate sobressaiu, ufanado e enfeitado de plumas, foi Mário Crespo.

O protagonista, que a certa altura admitiu ser figura contraditória e parcial, foi, de facto, o moderador Mário Crespo. Em descarado apoio à Caeiro, destruiu insistentemente os raciocínios e o discurso de Helena Roseta, ao ponto de esta, a certa altura, questionar se o Mário, Mário, Mário Crespo estava ali no papel de moderador. Sem vergonha e ao arrepio de elementares regras deontológicas, o Mário, Mário, Mário Crespo teve o atrevimento de dizer que estava investido dos dois papéis – só não percebeu quem não quis: foi moderador – será que foi? – e ‘supporter’ da opositora de Roseta, Teresa Caeiro.

Se atendermos à ética e regras deontológicas do jornalismo, Mário, Mário, Mário Crespo fez algo de parecido àquilo de que acusou Sócrates e que, na altura, teve a minha reprovação em relação ao PM. Em suma, ontem, o Mário, Mário, Mário Crespo destacou-se por um comportamento deplorável.

Há tempos tive um bate-papo acalorado com amigos, jornalistas da SIC e da RTP, que me afiançavam que Crespo, ao contrário do que eu defendia, era uma personalidade volátil e falsa. A não ser assim, acrescentaram os meus interlocutores, Nuno dos Santos teria agido em sua defesa, sem reservas. Na altura, discordei. Porém, agora sinto-me forçado a dar a mão à palmatória: ele é mesmo o Mário, Mário, Mário Crespo, capaz de concorrer com Leite Pereira, do JN, em actos censórios, mesmo de forma sinuosa.   

Foxcoon: a morte de mais um trabalhador

A Fábrica Letal

O trabalho assassino continua. Segundo o jornail “i”, ocorreu mais uma morte na Foxcoon. A vítima, desta vez, foi um engenheiro de 27 anos. A família atribui a morte à sobrecarga de trabalho do jovem técnico.

A Foxcoon, como já escrevi aqui, é uma empresa chinesa, propriedade de um coreano, e produz equipamentos para a Apple, Dell, HP, Nitendo, Nokia e Sony – não me canso de repetir – com o recurso a operários pagos ultimamente a 120 / 130 euros mensais, para 12 horas diárias em 6 dias de trabalho por semana.

A OIT – Organização Internacional do Trabalho integra 183 países-membros, entre os quais a China. Teoricamente, através de Declaração pública e internacionalmente aceite, a citada organização e respectivos países-membros estão vinculados ao compromisso de fazer cumprir princípios e direitos fundamentais no trabalho – só teoricamente, porque na prática não se aplica.

Sabe-se lá quantas Foxconn’s e respectivos governos gozarão de impunidade semelhante por esse mundo fora? Mas, citando Joseph Stiglitz, “o modelo global sem governo global” lá vai produzindo iniquidades e, neste caso, até a morte de trabalhadores.

A teoria do mercado, tão ao gosto dos liberais e do próprio FMI, é que o trabalho também se insere no jogo “da oferta e da procura”. Isto, porque consideram as energias do ser humano equivalentes a mercadoria; e ainda que uns desgraçados morram e as multinacionais prossigam na insaciável conquista de poder e lucros globais e crescentes, a própria vida de quem trabalha é matéria irrelevante.

O regresso do rótulo ‘comunista’

Tenho assistido nos últimos tempos à utilização, por gente limitada e mal-intencionada, do rótulo ‘comunista’ para classificar quem discorde das ideias de que perfilham. É o estafado truque, a que, durante anos a fio, estive, ou melhor, estivemos submetidos no regime salazarista. 

Conveniente é esclarecer que o Estado Novo utilizava esse instrumento de forma consistente e, temos de reconhecer, inteligente. Ao agregar os opositores ao regime sob uma unicidade classificativa, comunista, atingia os objectivos de eficiência e eficácia pretendidos nos mecanismos de repressão aplicados.

Agora, como diria um meu amigo brasileiro, os “aprendizes de sapateiro” nem tão pouco são capazes de colocar um prego na sola. São fala-baratos desestruturados, auto-convencidos, sem tomar consciência de que a própria ignorância os expõe ao ridículo.

Tenho familiares e amigos comunistas, cujos ideais, embora discordando, respeito. Sucede até que, de determinada empresa industrial histórica, hoje transformada em armazém, fui afastado por um grupo de comunistas líderes da Comissão de Trabalhadores. O sucedido, por me recusar a filiar no PC, não provocou o meu desalinhamento pelos valores de justiça social e de esquerda, a que jamais renegarei. É na luta por valores socialmente justos, de que os socialistas e social-democratas portugueses são falsos defensores, que me empenharei até ao final da vida.

Portanto, nada me demove de pensamentos e doutrinas de sustentação dos meus ideais, sem ser comunista. E o meu posicionamento político não concede a terceiros o direito a críticas e epítetos gratuitos. Podem discordar e é tudo. Como, de resto, o faço em relação a comunistas com quem me relaciono, sempre em clima de diálogo e de mútua tolerância.

Eurostat: O desemprego em Portugal subiu para 10,8%

Pobreza

O primeiro-ministro, José Sócrates, bem se pode ufanar do crescimento de 1% do PIB no 1.º trimestre do ano. O propagandeado sucesso ficou dissipado por um fenómeno económico-social dramático: desemprego atinge novo recorde e chega aos 10,8%, segundo o jornal “i”.

Quando se estanca esta chaga social que, à luz das novas medidas acordadas entre PS e PSD, intensificará a miséria de ainda mais milhares de portugueses? O país real, que uns governam mal e a que outros pedem desculpa, é cenário de milhares de dramas em crescendo, amassados na indigência, na fome e na incapacidade de acesso a uma vida minimamente digna.

Pela evolução dos números, nem a OCDE acertará na previsão da taxa média de desemprego de 10,6% para 2010. A probabilidade de um valor superior é, de facto, elevada. Como dizem certos especialistas, o desemprego não pode ser visto simplesmente como uma estatística, “uma contagem de cadáveres”. A UE, os governos dos países e os partidos de oposição têm a obrigação de concertar e aplicar  medidas para contrariar tamanha calamidade social. Ou então, a coesão social, na Europa, é o que sempre pareceu: uma farsa.

 

CGD – A miopia de Faria de Oliveira

O presidente da CGD, Faria de Oliveira, nos telejornais de ontem, admitiu a venda dos 7% detidos pela instituição no capital da Portugal Telecom. “ É apenas uma questão de dinheiro, tudo se vende na vida excepto a honra…”, argumentou o ex – Ministro do Comércio, ex – IPE e ex – mais não sei quantos lugares e funções.

A falta de perfil e competência do Eng.º Faria de Oliveira para o exercício do cargo actual já se manifestara em intervenções anteriores. Apesar de utilizada para investimentos e parcerias sem nexo, a CGD tem também em carteira participações de carácter estratégico para o país. Uma delas é justamente na PT, por sua vez detentora de parte do capital da operadora Vivo, brasileira e alvo de aguda cobiça pelos espanhóis da Telefónica.

As declarações de Faria de Oliveira denotam miopia empresarial. Com efeito, reduzir a participação na PT a mera questão mercantilista – o dinheiro é que conta, considera ele – é demonstrar falta de visão estratégica. Murteira Nabo, conhecedor da matéria, corrigiu o ‘tiro’ de Oliveira. O desejável, disse, seria lançar um contra-ataque à posição da Telefónica na Vivo, acrescentando: “ E há parceiros disponíveis”.

As tecnologias de telecomunicação são, de facto, estratégicas em qualquer país. Portugal já alcançou sucessos de relevância mundial. A própria PT, através da TMN, lançou o primeiro serviço de telemóvel pré-pago do mundo; citem-se também os desenvolvimentos das ATM e ‘Via Verde’ pela SIBS. Sem uma operadora, cuja expansão internacional é facilitada através da Vivo, fica muito mitigada a capacidade de progresso na área das citadas tecnologias por Portugal, incluindo desenvolvimentos através de plataformas ‘Internet’ e da TV Digital. Faria de Oliveira não entende isto.

Telemedicina e Tecnologias de Informação e Comunicação na Saúde

Há tempos elogiei no ‘Aventar’ a conclusão de um projecto de telemedicina, resultante de parceria entre a PT Inovação SA e a Universidade de Aveiro. O projecto, sob a insígnia ‘Medigraf’, permitiu criar a solução de captar e transmitir, em tempo real ou diferido, imagens médicas de ambulâncias para unidades fixas de saúde.

O interesse sobre tecnologias para a prestação remota de cuidados de saúde levou-me a participar no passado dia 27 de Maio, no Infarmed em Lisboa, no seminário ‘Telemedicine and Health ICT in Portugal in Norway’. O evento foi promovido por AdI – Agência de Inovação, Innovation Norway e Enterprise Europe Network. O Health Cluster of Portugal e empresas tecnológicas nacionais também estiveram presentes.

O Ministério da Saúde (MS), como usual em diversos governos, não participou uma vez mais em evento deste género. A ausência é prova do alheamento das autoridades da saúde por soluções inovadoras para a actividade prestadora e a gestão de informação médica.

Mas, esse alheamento ainda mais absurdo se torna, se atentarmos no facto do país parceiro, a Noruega, dispor das mais avançadas soluções tecnológicas, a nível mundial. Tudo resultado do trabalho científico da Universidade de Tromso, da principal operadora de telecomunicações norueguesa, e ainda do NST – National Centre of Telemedicine – estas entidades não têm vocação mercantilista relativamente às infra-estruturas tecnológicas demonstradas.

Com serviços de telemedicina na maioria das especialidades médicas, suportados em tecnologias de informação e comunicação electrónica, o SNS da Noruega garante condições de fácil acessibilidade a serviços de saúde a toda a população. Em Portugal, sem médicos e alternativas, encerram-se unidades de saúde. E um dia até o próprio SNS.

Taiwan e China Imperiais

A globalização, brutal e desregulada, vem causando às economias ocidentais graves crises económico-sociais. A Europa, continente pioneiro na criação e manutenção do Estado Social, é das regiões mais afectadas. Taiwan e China, e o estatuto imperial adquirido, constituem-se como adversários imbatíveis; sobretudo se mantida a conivência de organismos como a OMC e a OIT – atente-se, a propósito, no artigo publicado há dias pela insuspeita The Economist.

De facto, enfrentando a concorrência de países sem princípios e regras sociais, ou seja, de economias onde prevalece o chamado “dumping” social, é difícil, para não dizer impossível, aos governos europeus manter políticas de maior equidade na distribuição de rendimentos e manutenção de empregos e serviços de interesse público; em particular serviços das áreas da Justiça, da Educação e da Saúde; todos sob ameaça de desmantelamento, pelo menos parcial. Por exemplo, a subsistência do nosso SNS e da fonte inspiradora, o NHS do Reino Unido, está posta em causa. As medidas do actual governo e as intenções do candidato à alternância governativa em Portugal, assim como os propósitos anunciados pelo recém-eleito PM do Reino Unido, David Cameron, não suscitam dúvidas quanto ao esperado desfecho.

Ainda por cima, não é incomum ouvir declarações do género: “O Estado tem de retirar-se do papel de prestador, mesmo na Saúde e na Educação, limitando-se, isso sim, a exercer funções de regulação”. Quero crer que muitos dos defensores desta ideia o fazem porque acreditam nela. Eu estou entre os cépticos e questiono: “O que pode fazer isoladamente um Estado, ainda para mais reduzido de poderes como nosso, para através da regulação nacional controlar os efeitos económico-sociais adversos e enormes de um mundo globalizado e desregulado?”. E respondo: “Muito pouco” – para não dizer “Nada!”. [Read more…]

A Flexibilização das Leis Laborais é Mortal?

O Diário de Notícias relata: a empresa produtora do IPhone da Apple na China, Foxconn, já se deparou, desde Janeiro último, com dez suicídios de operários. O sucedido compeliu os responsáveis da empresa a solicitar aos operários a assinatura de documento a prometer que não se suicidarão. É uma história triste e exemplar do capitalismo global hodierno.

O caso suscita  interesse em diagnosticar as razões do repetido acto. Percebem-se, na análise, causas relacionadas com as condições de trabalho vigentes: 12 horas diárias em 6 dias da semana, proibição de falar; em suma, um ambiente de semi-escravatura e depressivo.

Lido o conteúdo, obtive a resposta à pergunta formulada no título: a flexibilização das leis laborais, a julgar pelo caso Foxcoon, pode causar a morte.

O patronato português ainda se manifesta insatisfeito com a proliferação de trabalhadores a recibo verde, de baixa retribuição, e as vantagens das alterações introduzidas no Código de Trabalho (CT) pelo governo anterior de Sócrates – lembre-se que a Sonae Distribuição do Eng.º Belmiro tentou usar a permissão legislativa de 12 horas de trabalho diário, segundo o estabelecido no CT. A flexibilização legislativa é reivindicação recorrente dos nossos patrões.

Para compor discursos, utilizam o argumento das dificuldades de investimento e de competitividade. O obstáculo, lembre-se, é a rigidez da legislação laboral.

Na grande guerra das fortunas, como em outras, a morte é desfecho normal. Mas atenção, neste caso só se pode suicidar quem seja operário, trabalhe 12 horas diárias em 6 dias por semana, se abstenha de falar com o camarada do lado e ganhe um salário muito, muito reduzido. “Uma flexibilização deste género é que nos assentava a cem por cento!”, concluem os grandes empresários portugueses. Grandes não. Enormes!

E a propósito: quando é que a OMC proíbe a concorrência de países com ‘dumping social’?

A Justiça em Portugal – Os Comediantes de Negro

Les Comédiens

A justiça é um sector de graves ineficiências. Do Ministério Público aos Tribunais de diversos tipos e hierarquias, as regras, as leis e o funcionamento constituem fonte de inaceitáveis passividades e complacências. Os poderosos, grandes empresários ou políticos, são os primeiros beneficiários da ‘Torre de Babel’ do sistema de justiça português.

Além dos autoproclamados brandos costumes, somos o País das inexpugnáveis elites no poder, e na justiça em particular; elites tão inamovíveis, quanto um gigantesco bloco de mármore que, apenas à força de ser retalhado, se converte em peças dispersáveis. Todavia, a nossa incapacidade para retalhar as elites é congénita. Assim, a pesadíssima magistratura, ano após ano, lá vai permanecendo igual a si própria, aqui e acolá semelhante a uma máquina de museu, apetrechada de peças bastante truncadas.

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A semelhança entre a margarina e o produto político

Das minhas actividades profissionais, e a propósito de receitas políticas, recordo a passagem pela FNM – Fábrica Nacional de Margarina, entretanto desaparecida. Com o objectivo de vencer em concursos internacionais, reunia-me, então, com o responsável dos aprovisionamentos, que, nos anos 1990, desenvolvera um programa informático, a fim de simular a minimização de custos.

Com efeito, para o mesmo produto, margarina, ensaiávamos hipóteses, em função de custos de matérias-primas diversas: sebo, óleos de palma, peixe, soja, girassol, amendoim ou de  outra gordura. O custo mais reduzido servia de base ao preço e à oferta.

A certa altura, assaltou-me uma perturbação: ‘ao vencer um concurso, seria provável o confronto com reclamações sobre a qualidade da margarina?’. Para resolver tal inquietação, perguntei ao Director de Produção se, da utilização de matérias-primas distintas, não resultariam efeitos diferenciáveis e prejudiciais na qualidade final da margarina. Respondeu-me que não e acrescentou: “o aspecto até é o mesmo, porque o corante é substancia natural, o ß-caroteno extraído da cenoura, e garante que, nas diferentes opções, a margarina tenha o aspecto da manteiga”.

A explicação, para os fins em vista, convenceu-me. Todavia, hoje, pensando na acção dos políticos que temos, ocorreu-me a ideia da semelhança entre a margarina e o produto político. Também na política, usando impostos directos e indirectos, cortes e congelamentos de pensões e outras prestações sociais, e o desemprego, as matérias-primas usadas garantem sempre o mesmo efeito no tocante ao produto final: lesar os cidadãos comuns.

Até agora, nunca imaginei, de facto, tal semelhança entre a margarina e o produto político. Ambos são matéria gorda e nociva, uma à saúde e outra ao depauperado bolso.

Garzón no Tribunal Penal Internacional (Haia)

Ao contrário do previsto pela imprensa espanhola, e do teor do texto no ‘Aventar’ no passado Domingo, o juiz Baltasar Garzón, afinal, sempre vai para o TPI – assegura o PUBLICO em edição ‘on line’. A ida do juiz saneado foi decidida por 3 votos contra 2 desfavoráveis.

Todavia, há a ter em conta constrangimentos: (i) Garzón desempenhará funções de assessor externo e não as inicialmente previstas em serviços especiais; (ii) a transferência terá uma duração esperada de 7 meses.

Em função da alteração ao previsto no texto antes citado, aqui fica a devida rectificação.

Economia Portuguesa (III) – O crescimento económico

Os meados dos anos 1980 foram decisivos para a política, e forçosamente para a história económica e social de Portugal das últimas décadas. A adesão à então Comunidade Económica Europeia (CEE), em 1985, e a eleição do Prof. Cavaco Silva, em 1986, criaram expectativas de estabilidade política e de desenvolvimento – o PREC, social e politicamente agitado, ficara há algum tempo enterrado e surgiram, entretanto, as calamitosas contas públicas de 1983.

O Prof. Cavaco Silva, como dirigente do PSD, ascendeu ao cargo de PM em condições propícias à reestruturação e relançamento ansiados pelo País. Para maior facilidade de acção, contava com os benefícios da arrumação financeira prescrita pelo FMI e dirigida pelo Prof. Ernâni Lopes, no governo do Bloco Central; usufruía ainda das primeiras remessas de fundos comunitários de apoio à modernização do País e à integração europeia.

O Eng.º Guterres, desfrutando de vantajoso enquadramento macroeconómico internacional, contou também com tempos favoráveis. Prosseguiu a abundância de ingressos de fundos comunitários que, à semelhança do seu antecessor, poderiam ter tido utilização mais proveitosa, se aplicados em investimentos de carácter reprodutivo.

Com relação aos dez anos de governação de Cavaco Silva e aos seis de António Guterres, foram atingidos crescimentos da Economia Portuguesa superiores à média da UE (15 países), como se demonstra no quadro seguinte:

Crescimento Médio Anual do PIB (%)

Governo Período Portugal EU (15)
Prof. Cavaco Silva 1986 – 1995 4,0% 2,4%
Eng. António Guterres 1996 – 2001 3,5% 2,5%

Fonte: Banco de Portugal [Read more…]

A Defenestração de Baltasar Garzón

O jornal El País classifica de defenestração a decisão do Supremo Tribunal espanhol de afastar de funções o juiz Baltasar Garzón, personalidade que, saliente-se, estava indigitada para a magistratura no Tribunal Penal Internacional de Haia. A classificação jornalística é, de facto, rigorosa: defenestração.

O juiz do supremo José Ricardo Prada, em entrevista ao citado jornal, afirma: o afastamento de Garzón fundamenta-se em “vinganças, lutas de poder que no final levam tudo pela frente”. Lá como cá, ou não fôssemos dois povos de tradições judaico-cristãs, o subjectivismo dos órgãos de poder prevalece sobre o juízo da matéria de facto; ou seja, os crimes do franquismo que, no entender de Baltasar Garzón, deveriam ser julgados no âmbito do consagrado pela Declaração Universal dos Direitos Humanos

Houve, assim, uma ruptura com os princípios e métodos utilizados por Garzón em outros processos, nomeadamente os relacionados com as actividades da ETA, as acções contra a humanidade perpetradas pelos regimes de Augusto Pinochet no Chile, pela ditadura argentina ou os crimes de guerra na Bósnia Herzegovina.

Desta vez, para o juiz saneado, chegou a vez dos crimes do franquismo; porém, como o tema era fracturante, derrubaram Baltasar Garzón. Poderiam, pelo menos, ter recorrido a outros mecanismos, para impedir a abertura do processo. Escolheram o caminho mais fácil. Além do resto, a deliberação é susceptível de criar sequelas: o receio e a contenção de outros juízes arrojados que, no futuro, tivessem uma tentação do género.

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Café Central – Reunião de Gerentes

Anunciei a 29 de Abril passado no ‘Aventar’ a reabertura do Café Central, e as consequências previsíveis.

Na edição ‘on-line’, o Público dá conta do entendimento entre dois “gerentes do café” no sentido do agravamento de impostos em relação a quem é remunerado (IRS) e a quem consome (IVA). Neste último caso, independentemente dos baixíssimos rendimentos auferidos, sobretudo por muitos dos idosos reformados; passam a pagar 6% de taxa de IVA na compra de bens essenciais ou de medicamentos – sempre é 20% de aumento de IVA no respectivo escalão. É só fazer contas.

Do lado dos privilegiados, e porque o descaramento já começara a tornar-se insustentável, os gerentes parecem ter concordado em reduzir as remunerações dos políticos, aplicar uma taxa adicional de 2,5% sobre lucros de grandes empresas e da banca, e finalmente fazer vigorar a tão propalada tributação de 20% sobre as mais-valias mobiliárias.

Tudo isto é o anunciado pela imprensa de hoje, salvaguardando-se, porém, a necessidade de ratificação no final da reunião do Conselho de Ministros.

Trata-se, como é óbvio, de medidas financeiras, para reduzir o deficit para 7% em 2010. E as novas baixas exigidas em 2011 e 2012, até se atingir 3% em 2013? Serão feitas sempre através do mesmo tipo de engenharias financeiras do OGE, ignorando a estratégia do crescimento económico? É natural que sim. Há para aí 34 anos que o “Central” serve este café bem amargo. 

Visita do Papa – Vamos a Contas…

Pobres e pouco alegres, quando é necessário e mais a mais estamos perante a visita de um alto dignitário do Vaticano, lá desenrascamos uns milhões para a festança e a pitança, mostrando ao mundo sermos gente generosa e acolhedora. Cuidámos sempre de nos apresentar como afável e simpático povo. É um complexo ‘luso-colectivo’ de exportação, porque, internamente, não somos bem a mesma coisa, como diz o anúncio.

Segundo o  PUBLICO, em notícia que se propagou por jornais estrangeiros, LE MONDE por exemplo, o custo directo diário da visita do Papa está estimado em 37 milhões de euros, atingindo um total de 800 milhões para o período total da visita – números revelados por um estudo do Prof. Luís Bento da Universidade Autónoma de Lisboa.

Trata-se de um belíssimo investimento na fé, asseveram uns. Outros, como eu, não acreditam em milagres e esperam o anúncio das medidas draconianas a depauperar, ainda mais, os bolsos já vazios ou quase de muitos milhões de portugueses. Sexta-feira próxima, ou no limite segunda-feira, cá estaremos para ouvir Sócrates ou um seu ministro dizer: “vamos a contas’. Até lá, oremos.

O encontro do PR com ex-ministros das finanças

Dez personalidades – rectifico, altas personalidades – genialmente esclarecidas e preclaras foram hoje manifestar ao Prof. Cavaco Silva, PR, “profunda preocupação” sobre a situação do País, mas também deixar uma mensagem de apoio às medidas de austeridade para recuperar a economia, segundo notícia do Público.   

O porta-voz do grupo foi o Prof. Jacinto Nunes, cujos saberes técnico-científicos me merecem apreço. Estou a vê-lo na figura do ancião utilizado. Mas, como neste tipo de jogo de grupos, a heterogeneidade é fenómeno fatal, lá estavam mais nove ex-ministros de tonalidades fixas ou transmutáveis. Pina Moura era um destes últimos. Um comunista ex-delfim de Cunhal, que se tem transfigurado à medida das ambições pessoais, não podia desperdiçar a oportunidade de, uma vez mais, se colar aos centros de poder.

O Prof. Jacinto Nunes foi parco nas palavras, embora se adivinhe que “as medidas para recuperar a economia” correspondam a uma terapêutica, cuja divulgação se impunha perante todos os portugueses. Mas as ilustres figuras entenderam não informar minimamente o povo, imaginando, talvez, ser possível esconder o foco principal a alvejar: trabalhadores, desempregados e pequenos e médios empresários. Nas zonas da escapatória, refugiar-se-ão os deputados, de todas as bancadas, os políticos, os sacadores de avultados bónus de gestores em empresas participadas ou geridas pelo Estado e os bancos com um IRC reduzido.

Com efeito, com este género de gente, comungando de elevados rendimentos e de vestes políticas apropriadas à moda do momento; com este género de gente, dizia, tenho dificuldade em deixar o partido onde há alguns anos me filiei, o dos votos nulos.