
Por esta altura, os meus amigos já perceberam que gosto de gatos, que vivo com gatos (notem como evito dizer”tenho gatos”). Não sou o único, estou bem acompanhado. É interminável a lista das pessoas que admiro que têm – ou tiveram – gatos. A coisa vem de longe e nem sempre é uma história feliz.
Há dez mil anos, na Suméria e na Babilónia, nos locais onde os homens primeiro se foram sedentarizando, os bichanos começaram a conviver com os humanos, fazendo um controlo de pragas que aqueles aprenderam a admirar. Aqui se foram criando os primeiros laços entre homens e gatos, aqui se foram criando as primeiras lendas. Uma delas conta que os gatos nasceram do espirro de um leão, sublinhando o parentesco entre os dois felinos.
Um provérbio indiano dirá, depois, que os deuses criaram os gatos para que o homem pudesse ter o prazer de acariciar um tigre. Mas é no Egipto antigo que o gato atinge o estatuto mais ilustre. Não admira – lá vem a economia…-, já que, sendo a grandeza e o poder do Egipto assente, em grande medida, na produção de cereais, desde cedo foi percebida a importância dos gatos no controlo da ameaçadora e ruinosa rataria. Daí, a sua sacralização. A deusa Bastet era representada com cabeça de gato. Depois, a aproximação dos gatos às residências familiares dos egípcios e a sua própria sedentarização transformaram-no no símbolo do próprio lar.
Assim, o gato passou a ter um estatuto de membro da família, chorado na morte como se fosse um deles, mumificado tratado em morte como se uma pessoa fosse. As penas para quem matasse um gato podiam ser graves, indo até à própria morte. Os gregos e os romanos têm, também, uma relação cordial com os bichanos. Na idade Média, porém, as coisas mudaram completamente. O Papa Gregório IX decretou, do alto da sua santidade, que os gatos eram seres diabólicos e deviam ser exterminados. Segundo as inteligentes e profundas reflexões teológicas do tempo, os gatos eram bruxas transformadas e quem fosse visto a ajudar um gato era denunciado à Santa Inquisição, com os desastrosos resultados que se adivinham. [Read more…]






















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