Como combater uma ditadura

Se bem entendo alguns comentários à morte de Camilo Mortágua, uma ditadura deverá combater-se com conversas educadas, participando em debates durante os quais os opositores deverão tentar, civilizadamente, explicar ao ditador, ou a quem o representa, que deve ser um democrata. Como se sabe, os ditadores são pessoas sempre disponíveis para prescindir do poder ou para convocarem eleições livres se lhes falarem com jeitinho.
Revolucionários, ainda por cima, barbudos, que usam de violência para combater a opressão não passam de terroristas, pessoas que, no fundo, só provocam os ditadores.
Felizmente, Portugal tem gente como Cavaco Silva, que soube, por exemplo, recusar uma pensão a Salgueiro Maia, esse homenzinho horrível que passou o dia 25 de Abril de 1974 a incomodar pessoas de bem, desde militares do regime até ao senhor presidente do Conselho.
Aprendei: não é com vinagre que se apanham moscas. E as ditaduras são moscas como as outras. Mel, muito mel. Basta estudar História.

PS já Chega?

O presidente da câmara de Loures, Ricardo Leão, defendeu «despejo “o despejo “sem dó nem piedade” de inquilinos de habitações municipais que tenham participado nos distúrbios que têm ocorrido na Área Metropolitana de Lisboa

Estes ataques de justiceirismo são típicos de vários tipos de ébrios. Pode acontecer numa conversa entre amigos que beberam um bocado de mais e dão por eles a explicar como é que se resolviam sumariamente os problemas dos incêndios, com propostas que incluem atar os pirómanos a uma árvore durante o incêndio que atearam. Também temos os partidários do Chega, ébrios de grunhice, parecendo que têm como alvo os bêbedos com solução alcoolizada para tudo.

O presidente da câmara de Loures é do PS, mas parece ter ficado intoxicado com algo que o levou a ter um ataque de chganismo. No fundo, para esta gente, os tribunais, as leis e a decência são coisas que atrapalham. É o marialvismo do “havia de ser comigo” ou do “isto era preciso era um Salazar”.

A ilusão da identidade nacional

A extrema-direita gosta muito de falar de uma coisa a que chama “identidade nacional”, porque acreditam, uns, ou fingem acreditar, outros, que há uma definição muito simples para isso.

Para essa gentinha, os portugueses são muito católicos, descendem todos directamente dos que assinaram o tratado de Zamora e têm sangue de cristãos que bateram nos mouros entre 1147 e 1249, quando conseguimos expulsar heroicamente a mourama, atirando-a ao mar. Os bravos descendentes desses mesmos portugueses fizeram-se aos oceanos e deram novos mundo ao mundo, espalhando desinteressadamente, e para ilustração dos selvagens, a cultura e a Fé.

A História deu as suas voltas, mas, para a gentinha, a identidade ficou esculpida no granito do tempo, ao ponto de ser facílimo identificar um verdadeiro português ao fim de um curto questionário. Há um nós que não se confunde com os outros. Identidade, aliás, vem de idem, o mesmo – o outro é alter, Deus nos livre de tal coisa, especialmente de for o Deus de Ourique, porque não há outro melhor.

A identidade é algo que só se pode descobrir na sua absoluta incompletude, tal como uma fotografia nunca será mais do que um momento de uma pessoa e, mesmo assim, um momento incompleto, porque nunca está ali a pessoa toda, porque a pessoa é um contínuo cheio de descontinuidades. Só um tolo ou um desonesto poderá cair no simplismo bacoco e na consequente arrogância de explicar o que é isso da identidade nacional. [Read more…]

Orçamentos grátis

Ver crianças a brincar é sempre enternecedor, especialmente quando fingem que são presidentes da república, primeiros-ministros, políticos, deputados e outros soldadinhos de chumbo.

O menino Marcelo começou por criar uma crise política, com base numa interpretação infantil da Constituição, dissolvendo um parlamento onde existia uma maioria estável.

Note-se que a estabilidade da maioria dita socialista era apenas numérica, não mental, mas, que se saiba, a demissão de um primeiro-ministro não pode ser suficiente para uma dissolução, a não ser que se ande a brincar à política.

O menino Costa já não queria brincar mais e aproveitou para sair, fingindo que estava amuado. Entretanto, já arranjou brinquedos novos: no dia 1 de Dezembro vai poder começar a brincar como Presidente do Conselho Europeu. Enquanto vai e não vai, dedica-se a brincar ao comentário político, um passatempo infantil muito praticado na comunicação social portuguesa.

O menino Pedro Nuno Santos, aliás, quando lhe disseram que não podia continuar a brincar aos ministros, também teve uma passagem pelo recreio do comentário político (que é muito mais político do que comentário). Teve de interromper a brincadeira para ir jogar ao jogo da liderança do PS, por causa da brincadeira do menino Marcelo, quando o menino Costa disse que já não queria brincar mais. [Read more…]

Montenegro é a nova Anita

Já nas bancas a mais recente aventura de Anita: Montenegro na lancha.

Miúdos à porrada, no recreio

Ser adulto é um fingimento. No fundo, somos o que sempre fomos. Podemos engravatar a pose, podemos usar umas palavras mais perfumadas, mas basta um raspão na epiderme e lá está o miúdo que amua ou que se revolta ou que tem medo. Também lá está o bebé manipulador que aprende a chorar quando tem fome ou quanto quer atenção.

Do reino animal, ficou-nos, ainda, a ideia de que um olhar mais demorado é uma provocação. O país, o bairro, a escola, o clube, levam-nos também a acreditar que pertencemos a um grupo essencialmente virtuoso, num contraste sempre avassalador com os outros.

A nossa infantilidade pouco latente, contaminada pela agressividade do animal e pela doutrinação das histórias que nos enchem o imaginário de inimigos, criou os adultos que dirigem o mundo desde sempre, que se bombardeiam uns aos outros, quando antes chutávamos com mais força ou dávamos uns empurrões no recreio.

As razões apontadas pelos adultos que governam o mundo para se agredirem uns aos outros são variantes dos motivos infantis “Eu já cá estava!” e “Ele é que começou!”. No recreio, isso dava direito a um ou outro olho negro; no mundo actual, há gente com armas que custam milhões e matam milhões.

O Deus de Frazão

Pedro dos Santos Frazão, deputado do Chega, escreveu no X aquilo que podemos ler na imagem mais abaixo. Segundo Pedro, que conhece bem a divindade – ou não se atreveria a escrever o que escreveu –, foi a mão de Deus que protegeu Donald Trump do caminho das balas.

Não sei quantas mãos tem o Deus de Frazão, mas, se forem duas, ainda ficou com uma desocupada. Talvez por já ter uma provecta idade, tal como Biden, o Deus de Frazão não conseguiu evitar a morte do pai que protegeu a mulher e a filha no mesmo comício em que Trump foi alvejado. Era muita coisa para fazer ao mesmo tempo e o velhinho de barbas brancas (Frazão deve ter um retrato em casa) teve de escolher. Ou então, assim como tem planos maiores para Trump, o Deus de Frazão tinha planos menores para Corey Comperatore. Também há a possibilidade de o Deus de Frazão não ter tido tempo para pensar em planos para o morto, abandonando-o à sua sorte, enquanto, no último segundo, desviou a cabeça de Trump. Fico, ainda, a saber que o Deus de Frazão não teve tempo ou planos para todas as crianças mortas em tiroteios nas escolas americanas. [Read more…]

Maria João Marques, juíza, procuradora e tudo

Ontem, foi um dia triste: fui bloqueado pela Maria João Marques no X.

A colunista do Público e comentadora no Malditas Segundas Feiras na SIC Notícias publicou o seguinte tweet, a propósito da libertação de Assange:

Resolvi comentar o que se segue:

Fui, finalmente, brindado com esta edificante resposta.

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Quando um liberal apoia um socialista…

…o socialista é muito liberal – «António Costa é o melhor socialista para o Conselho Europeu.» (Luís Montenegro).

O Costa do Castelo

Quando a emigração é muita, há fortes possibilidades de que o país não ofereça o suficiente aos seus cidadãos, que, naturalmente, irão procurar no estrangeiro aquilo que a pátria não tiver.

António Costa, como qualquer outro cidadão, tem direito a emigrar. Efectivamente, Portugal já não tinha capacidade de albergar um político tão hábil, pelo que é justíssimo que suba dentro da estrutura da Multinacional onde foi obrigado a começar por baixo, exercendo o cargo de primeiro-ministro de Portugal.

É fácil confirmar a extrema habilidade de António Costa. Em primeiro lugar, conseguiu, com a Geringonça, criar a ilusão de que o país foi governado à esquerda. Depois, ainda transmitiu a impressão de que ficara contente com a maioria absoluta que lhe caiu indesejavelmente no colo. Após vários casos e casinhos, alcançou o objectivo de se sentir obrigado a demitir-se, mostrando-se suficientemente revoltado para parecer que estava descontente com a decisão de Marcelo Rebelo de Sousa. E estamos a falar apenas dos últimos oito anos, que o currículo de Costa é vastíssimo.

Lisboa é pequena para quem revelou tanta competência. Bruxelas e a Europa serão suficientes durante uns anos.

Entretanto, Costa será uma referência para todos aqueles, dentre nós, que têm esperança em subir na vida, um modalidade de alpinismo que, em Portugal, só se exercita verdadeiramente no estrangeiro, esse país que nos fascina.

O patriota português que fala alemão

Rui Fonseca e Castro, o tristemente célebre ex-juiz, é uma figura ridícula e perigosa, tal como era Hitler, que inspirou Chaplin e provocou milhões de mortos.

Nas redes sociais, Fonseca e Castro publica os habituais conteúdos dos fachos obcecados com invasores estrangeiros, pedófilos e homossexuais, tendo boicotado há poucos dias o lançamento de um livro.

Num discurso paupérrimo, em frente à Assembleia da República, gritou umas coisas identitárias, vociferou o seu patriotismo e terminou com um “Ausländer raus” (“Estrangeiros, fora!”, em alemão), porque ser português é menos importante do que ser nazi.

Não é um caso de política, é um caso de polícia.

 

Escutas

Era uma vez um primeiro-ministro muito fraquinho a que chamavam socialista e que ficou muito aborrecido por ter conseguido uma maioria absoluta, quando estava desejoso de ir para a Europa, essa região distante de Portugal, não em quilómetros mas em euros.

Era uma vez um presidente da República que vivia obcecado com a popularidade, tão carregado de opiniões, que se tornou incontinente, desejoso de estar dos dois lados da política, comentador-político ou político-comentador. Este mesmo presidente da República tinha sido constitucionalista e declarou, apesar disso, que a demissão do primeiro-ministro implicaria a queda do governo, com base num argumento próprio de um comentador e impróprio de um constitucionalista.

Era uma vez uma investigação inconsistente que deu ao primeiro-ministro a oportunidade de se demitir em direcção à Europa, demissão aproveitada pelo presidente que deu ouvidos ao comentador e ignorou completamente o constitucionalista, que uma pessoa não é obrigada a ouvir as vozes todas que tem dentro de si.

Pelo meio, um antigo ministro, que já tinha procurado emprego como comentador, voltou muito depressa à política para ser primeiro-ministro e acabou na oposição e um antigo chefe parlamentar que estava na oposição chegou a primeiro-ministro.

No ano em que o 25 de Abril comemora cinquenta anos, cinquenta amantes do 24 de Abril chafurdam na Assembleia da República.

Continuemos à escuta.

Em terra de cegos…

…quem tem um olho é aeroporto.

Novo aeroporto – proposta de frase publicitária

Luís Vaz de Aviões.

Juve Leo e o novo aeroporto

Elementos da Juve Leo integrarão o pessoal de terra do novo aeroporto: «Estamos habituados a mandar tudo pelos ares na zona de Alcochete.»

Nome do novo aeroporto

Aeroporto Jamé.

A IL, o regime comunista do Estado Novo e o combate aos caçadores furtivos que matam unicórnios cujo corno serve para tratar a disfunção eréctil

Como todos sabemos, o corno de unicórnio tem poderes medicinais, sendo usado para tratar a pele atópica e a disfunção eréctil ou a pele eréctil e a disfunção atópica, não sei bem, porque ainda estou a tentar entrar em Medicina e as médias estão altíssimas. Por isso, os unicórnios correm perigo de extinção – nas matas e florestas de todo o mundo, especialmente em Monsanto e na Arrábida, há caçadores furtivos que matam, sem escrúpulos e sem balas, unicórnios aos milhares.

No desfile comemorativo dos 50 anos do 25 de Abril, a Iniciativa Liberal, dentro do mesmo espírito informado e científico, gritou a palavra de ordem “Comunismo nunca mais”, de maneira a pôr os pontos nos bês. Viva a Iniciativa Literal!

Obrigado, 25 de Abril

«Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!»
“Aniversário”, Álvaro de Campos

Os dias, tal como as pessoas, têm virtudes e defeitos. O dia 25 de Abril de 1974 é o pior dia da História de Portugal, à excepção de todos os outros.

Passos Coelho e os que comem criancinhas

No tempo do salazarismo, havia um faduncho anticomunista que servia para alimentar o medo do papão leninista-estalinista-siberiano. Incluía, o dito faduncho, versos como “Maldita seja a Rússia soviética!” e “Malditos os que comem criancinhas!”. Quando se pensava que já não seria possível reencontrar um discurso tão primário, eis que Passos Coelho reaparece para reavivar fantasmas em que ele próprio não acredita, mas que lhe dão jeito para a campanha em que se integra, juntamente com outros intelectuais do mesmo calibre, como Paulo Otero ou João César das Neves, alguns dos autores que integram a colectânea “Identidade e Família”.

Descaindo os cantos da boca, de modo a imitar uma gravitas de estadista, Passos Coelho disse que há uma «sovietização do ensino».

Um dos mitos alimentados pela direita tola

(ou pela direita que fala para tolos)

é o de que a Escola Pública é uma verdadeira madraça dominada por comunistas e outros parentes desgraçadamente próximos que andam a catequizar as pobres criancinhas, que, a não serem comidas ao pequeno-almoço, hão-de transformar-se, por força da doutrinação, em futuros comedores de criancinhas, em consumidores de drogas pesadas, médias, leves e pesos-pluma e em heterossexuais convertidos em quaisquer outros sexuais que tentarão obrigar toda a população a mudar a orientação sexual. [Read more…]

Homens e mulheres de verdade!

É o tema do II Congresso dos Jovens da Família do Coração Imaculado de Maria.  Aguardo as conclusões para ficar a saber se sou homem, se sou mulher e se sou de verdade.

Passos Coelho, o falso Dom Quixote

 

Dom Quixote combatia moinhos de vento, pensando que eram gigantes. Passos Coelho diz às pessoas que está a combater gigantes, mesmo sabendo que são moinhos de vento. Dom Quixote teria um défice cognitivo, Passos é astuto até à perfídia.
Passos Coelho quer, sobretudo, pastorear eleitorado, mantendo o gado junto, porque pode vir a precisar dele daqui a poucos anos, quando voltar à política donde finge que saiu.
Para manter junto o eleitorado que se dividiu entre AD, IL e Chega, parece acreditar que terá de ser extremista. Assim, à boa maneira do simplismo maccarthista ou do salazarismo básico, aponta o papão comunista, esquerdista ou esquerdalho, falando em “sovietização do ensino” e fazendo de conta que a Escola é uma fábrica ideológica habitada por profissionais ideologicamente uniformes e igualmente destituídos de qualquer ética. Esta espécie de argumentação faz parte da vulgata direitralha.
Passos não é burro, mas acredita profundamente na burrice de quem o ouve. É um Ventura barítono, um virtuoso da mentira.

A IL, o Chega e o CDS entram num bar…

…e só se vê um partido.

Os 49 anos do cinquentenário do 25 de Novembro

IL, Chega e CDS pedem inclusão do 25 de Novembro no programa dos 50 anos do 25 de Abril.

 

  1. Uma aliança de três partidos com representação na Assembleia da República quer que as comemorações do cinquentenário do 25 de Abril incluam um acontecimento que perfaz, no mesmo ano, 49 anos.
  2. Vejo, aqui, um sinal de inclusão, talvez porque a aliança em causa queira dar importância a todos os algarismos e não apenas a comemorações que terminem em 0 ou em 5. Então, o 9 e o 49 valem menos? Além disso, cinquentenário é quando um homem quiser.
  3. Por outro lado, esse mesmo desejo de inclusão fica por cumprir, quando a mesma aliança, decerto por lapso, se esquece do cinquentenário dos 49 anos do 11 de Março de 1975.
  4. Em termos pessoais, tenho a dizer que, se no cinquentenário de uma data histórica que se comemora este ano, tivermos de incluir a comemoração de um outro facto que ocorreu há 49 anos, exijo que o meu aniversário do ano que vem seja também comemorado este ano e espero que os meus amigos me ofereçam duas prendas no dia do meu aniversário deste ano, dia a que juntarei também o dia do meu aniversário de 2025. Se não fosse muito incómodo, e já agora, poderíamos juntar também o de 2026, que não há duas sem três.
  5. Tendo em conta a compreensível preocupação em celebrar datas o mais depressa possível, decerto a mesma aliança quererá lembrar os 48 anos do assassínio do padre Max e de Maria de Lurdes Correia, do atentado que vitimou Adriana Corço Callejas e Efrén Monteagudo Rodríguez ou ainda do ataque bombista que, falhando o alvo, matou Rosina Teixeira, esposa do sindicalista António Teixeira.
  6. O tempo é aquilo que quisermos fazer dele. As datas são como alguns cheiros, provocam sensações, fazem-nos viajar. Ora, para os partidos desta aliança, o 25 de Novembro de 1975 é o 24 de Abril de 1974 que se pôde arranjar.

Primeiro de Abril sempre

 

Sobre a expressão “as pessoas em casa”

Apesar de a Carla Romualdo, com o irritante brilhantismo do costume, já ter glosado esta expressão, numa rede social felizmente perto de mim, deixo aqui o meu contributo. Ou contribruto.

O mundo da comunicação social está pejado de gente que sabe tudo aquilo que sentimos e está a par de tudo o que desejamos, para além de saber muito bem, talvez melhor do que nós, o que é que sabemos.

É vulgar, portanto, ouvir frases como “As pessoas em casa não compreenderiam que…”. Ouvi-a recentemente na boca de um político que consegue ser a pior versão das más versões dos políticos que temos.

Pergunto-me sempre como é que esta gente sabe o que é as pessoas em casa compreenderiam ou não compreenderiam. Sonho com o dia em que um telespectador ligue para um programa em que o público participa para comunicar que está em casa e ninguém sabe o que é ele compreende ou deixa de compreender e que agradecia que deixassem de falar dele ou por ele.

Uma variante desta frase tem um alcance ainda maior, porque não se limita à casa. É uma frase que vai pelas ruas, pelas avenidas e colhe, qual touro holístico, qualquer cidadão esteja ele onde estiver.

Essa frase tanto é usada por políticos como por concorrentes do Big Brother e pode assumir inícios como “Os portugueses sabem que…” ou “Os portugueses sentem que…”. Não há relativização, não há excepções, os emissários de tais frases incluem nos seus enunciados todos os portugueses, como se os conhecessem de ginjeira, incluindo a residência com número da porta e código postal, o restaurante da diária costumeira e a série preferida.

É verdade que somos um país pequeno, mas  ainda deve haver um ou dois cidadãos de que nunca ouvimos falar e cuja opinião ou sentimentos não conhecemos. 

O “líder da oposição” e a Carochinha

A linguagem é feita de uma espécie de automatismos, expressões fixas que são repetidas até à vacuidade, mesmo que pareçam cheias de significado.

A expressão “líder da oposição” é uma delas. Trata-se de uma espécie de cargo para o qual não há uma eleição, apenas uma nomeação. Normalmente, essa nomeação é feita pela própria pessoa que ocupa o alegado cargo, a fazer lembrar um elogio em boca própria, que é, como se sabe, vitupério.

É certo que a nomeação para o cargo está associada ao facto de se ser o líder do segundo partido mais votado nas eleições. Mesmo assim, nunca se percebe muito bem como é que isso implica liderar a oposição, já que esta pode ser constituída por vários partidos de diferentes ideologias que nunca obedeceriam ao dito líder da oposição, que poderá, então, ser da oposição, mas não líder.

Neste momento, o aparente cargo está a ser disputado por Pedro Nuno Santos e por André Ventura, enquanto Luís Montenegro está à janela, sabendo bem o que a Carochinha acabou viúva devido ao excesso de apetite do João Ratão.

A propósito, e em homenagem a um recente aniversariante, aqui fica um vídeo.

Greve dos jornalistas

Greve geral nas redacções – página do Sindicato dos Jornalistas.

E não se pode criticar os eleitores?

Quando alguém, como é o meu caso, não fica satisfeito com o resultado das eleições, aparecem umas acusações que não me parecem menos estranhas por serem frequentes.
1 – é preciso respeitar a vontade do povo.
Tanto haveria a dizer.
Em primeiro lugar, ó alminhas, criticar não é faltar ao respeito. Depois, criticar não altera votação nenhuma nem manda os criticados para o calabouço da minha prisão política particular gerida por barbudos que torturam os prisioneiros com canções revolucionárias e outras crueldades. Finalmente, em democracia, um cidadão, se lhe apetecer, pode criticar os outros cidadãos todos, incluindo os próprios pais.
Quando critico os outros, posso estar convencido de que sou melhor do que outros? Sim, é possível e, diria, recíproco. Se eu considerar que as minhas opiniões são melhores do que as de outra pessoa, corro o risco de ser atacado por algum complexo de superioridade, mas isso não tira nenhum bocado a ninguém. Curiosamente, as pessoas que consideram que as minhas ideias são um disparate também se julgarão superiores a mim. Entretanto, enquanto andamos nestas discordâncias, enquanto nos julgamos superiores uns aos outros, não nos cai nenhum membro e o mundo pula e avança.

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Quem não tem vergonha, todo o mundo é seu

Dois vídeos carregados de mediocridade, com especial destaque para o pretendente a estadista, Pedro Passos Coelho.

No primeiro vídeo, Coelho é muito rápido a criticar António Costa, talvez um dos demissionários mais felizes da história, depois de ter conseguido meter água em muita areia, ao ponto de ficar metido num lodaçal de todo o tamanho. No mesmo vídeo, surgem outros dois artistas pimba: José Sócrates defende Costa (como se Costa já não tivesse, por culpa própria, problemas suficientes) e André Ventura secunda Passos Coelho.

No segundo vídeo, o mesmo Passos Coelho recusa-se a comentar o caso de Miguel Albuquerque. O vídeo não está completo – na realidade, Coelho escuda-se no facto de ter sido primeiro-ministro e presidente do PSD, não querendo, por isso, intervir, adoptando uma pose conciliatória.

Tudo gente sem vergonha na cara. Tudo gente que confirma o velho ditado de que somos capazes de ver o argueiro no olho do vizinho, ignorando a tranca que trazemos no próprio olho. A democracia portuguesa tem as virtudes próprias no único regime legítimo; os defeitos que tem são todos destes figurões que vão governando em simpática alternância, sendo a rivalidade uma aparência consubstanciada em frases medíocres e resultante da disputa de alguns tachos, mais distribuídos do que disputados. [Read more…]

O possível ministro da Educação da AD ou Mudam as moscas

Vídeo roubado à Missão Escola Pública. Alexandre Homem Cristo é, pelos vistos, um especialista em Educação, estatuto que parece ser atingido sobretudo por gente que procura soluções para enfraquecer o poder reivindicativo dos professores.

O especialista em Educação nem sequer esconde que a concessão de maior poder aos directores das escolas serve para retirar poder aos sindicatos, como se esse poder fosse incomensurável e correspondesse a um problema. É um problema para quem gosta pouco dessas manias da democracia e dos direitos dos trabalhadores. Educação é outra coisa.