«Não quero viver num país sem a TSF»

A frase é do jornalista Carlos Daniel e está publicada na sua página de facebook. Transcrevo o texto todo:

«Sou mais um a abrir a alma, já li tanta coisa bonita e sentida por estes dias, tenho até a sensação de estar atrasado. Mas ainda há-de ser tempo, até porque foi lá que aprendi que as notícias não escolhem hora certa. Por isso, esta é a hora de agarrarmos o microfone com as três letras azuis no cubo e dizer bem alto que não queremos um jornalismo sem TSF, uma rádio sem TSF, um país sem TSF. A rádio criada pelo génio do Emídio Rangel e moldada a seguir na liderança impecável do David Borges, um exemplo até hoje. A rádio do Sena Santos e do Fernando Alves, únicos, mestres para sempre. E tanta gente de talento a seguir, e tanta gente de empenho também, que amou aquela casa e a segurou por décadas. O meu coração aperta-se por todos eles. Assim, nos meus amigos/irmãos Ricardo Alexandre e João Ricardo Pateiro, como nos enormes Joaquim Dias e Joaquim Pedro, almas da TSF-Porto (que também foi minha durante seis anos muito felizes), deixo o abraço solidário a todos os dessa amada rádio e a vontade de ajudar no que puder. E reabro o microfone para repetir: eu não quero viver num país sem a TSF.»

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«Não te contaram a história toda sobre a tua liberdade»

Graças às grandes comemorações do 25 de Novembro, descobri a existência do Instituto Mais Liberdade, uma espécie de braço intelectual e propagandístico do chamado liberalismo português.

Na extensa lista de fundadores, temos Carlos Guimarães Pinto, Rodrigo Moita de Deus ou Pedro Mota Soares. Cecília Meireles é directora não executiva. João Miguel Tavares faz parte do Conselho de Curadores. O Presidente da Mesa da Assembleia Geral é Adolfo Mesquita Nunes.

Entre outras actividades, o Instituto Mais Liberdade criou a exposição 25N, que estará presente em frente às câmaras de Lisboa e do Porto e em mais de 200 escolas. Se não estou em erro, a página 25n.pt também será da responsabilidade deste instituto.

A exposição tem como divisa «25N – A História que não te Contaram». A página exibe a frase «Não te contaram a história toda sobre a tua liberdade».

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O 25 de Novembro do 24 de Abril

Pode ler-se num cartaz do município lisboeta que “Lisboa recorda o 25 de Novembro de 1975”. Parece-me muito bem que a capital do país tenha boa memória e que todas as datas sejam estudadas, analisadas e até festejadas por quem as quiser festejar. A fotografia escolhida para o cartaz revela, entretanto, falta de estudo.

As diferentes correntes ideológicas têm todas, em princípio, direito à vida, a não ser que ponham em risco a vida dos outros. Quando o país republicano comemora o 5 de Outubro de 1910, os monárquicos preferem celebrar o 5 de Outubro de 1143, porque terá correspondido a um momento fundacional.

Note-se que não faltam, aos monárquicos, datas para comemorar, até porque a República portuguesa, com os seus 113 anos, é uma criança à beira de uma monarquia que durou mais de 700 anos. Ele é a bula Manifestis Probatum, ele é Aljubarrota, ele é a Restauração, datas, mais datas e ainda datas.

Mas porquê então comemorar o 5 de Outubro? Porque o objectivo é apagar a comemoração republicana. E está tudo certo, porque, felizmente, vivemos em liberdade por causa de uma certa data que não vou agora revelar, porque quero criar aqui algum suspense. [Read more…]

A benfiquização do Futebol Clube do Porto

Francisco J. Marques considerou que o sucedido na última Assembleia Geral do Futebol Clube do Porto (FCP) é um sinal da benfiquização do seu clube. Ou do clube em que exerce as funções de director de comunicação.

No mundo da futebolândia, os defeitos nunca são nossos, porque são exclusivos dos adversários. O nosso clube é sempre uma agremiação exemplar, séria, democrática. Quando nos portamos mal, não fomos iguais a nós, agimos tal e qual como agem os outros, os defeituosos.

Recentemente, alguns portistas devem ter comido qualquer coisa estragada e ficaram benfiquizados. Ora, uma intoxicação desta gravidade até pode levar uma pessoa a agredir ou a intimidar um adepto do mesmo clube, algo completamente inédito no universo azul e branco. É preciso intervir rapidamente, de modo a extrair qualquer tumor benfiquista dos pobres portistas infectados. Não se pense que isso transformará os adeptos do grande Porto em cordeiros mansos, porque, aqui, cordeiro, talvez no prato, e mansos serão os pais dos benfiquistas que andam a pastar à beira do Tejo.

O incrível José Gomes Ferreira

Todos temos momentos infelizes, como, por exemplo, o guarda-redes que deixa entrar um frango. Se o mesmo guarda-redes, no entanto, começar a contribuir para a criação de um aviário, é natural que o treinador o sente no banco.

José Gomes Ferreira, em directo, agarrou um tweet de uma conta falsa de António Costa e começou a comentá-lo como se tivesse sido escrito pelo ainda primeiro-ministro. Um director-adjunto de informação de um dos principais canais de informação da televisão portuguesa talvez devesse ser mais prudente, mas comunicar e comentar são hoje actividades mais importantes do que fazer jornalismo. A chamada comunicação social está cheia de comentadores políticos que são só políticos e de alegados jornalistas que são comentadores políticos, ou seja, só políticos. [Read more…]

Quem não for trans, ponha o dedo no ar

Numa certa ordem do dia, está a recusa de Miguel Sousa Tavares em casar com a vencedora do concurso de Miss Portugal, recusa essa secundada por José Alberto Carvalho. Não sei, aliás, se podemos falar em recusa, porque, que se saiba, nenhum dos dois foi pedido em casamento pela pessoa com quem não querem casar. No mundo tantas vezes incerto das relações amorosas ou conjugais, ter uma recusa como antecipadamente certa não deixa de ser refrescante. Deste modo, Marina Machete já sabe que não vale a pena insistir com estes dois senhores e assim não se perde tempo.

Segundo Miguel Sousa Tavares, Marina é o resultado de uma operação e não propriamente uma mulher. Devo dizer que penso muito pouco sobre essências, por ser um relativista empedernido, sempre na dúvida do que é isso de ser e de não ser. A biologia é um facto, mas isto de ser humano não é só biologia. Os órgãos sexuais existem, como existe o cérebro, como existe a sociedade, com todos os seus fechamentos e aberturas. [Read more…]

Luís «porque não precisamos» Montenegro

Luís Montenegro teve um momento de festejo precoce, indo colar-se ridiculamente à perda da maioria absoluta de uma aliança entre PSD e CDS na Madeira, tentando reclamar para si um golo que Miguel Albuquerque quase falhou.

Acontece, mesmo aos mais experientes: uma pessoa entusiasma-se, o ambiente aquece, a excitação descontrola-se e o clímax surge sem se contar. Que atire a primeira pedra aquele que nunca se descontrolou.

Entre as declarações de Luís Montenegro, no entanto, avulta a frase: «Não iremos fazer alianças com o Chega, porque não precisamos.»

Montenegro é um marxista da facção Groucho e poderia dizer «Estes são os meus princípios. Se não gostar deles… tenho outros.» Não será por uma questão de princípios que Montenegro não se aliará ao Chega – quando precisar, isso acontecerá, mesmo que tenha de recorrer a falsas equivalências. O que esperar do autor da frase «A vida das pessoas não está melhor mas o país está muito melhor.»?

Professor Dorme no Carro e Tem Acesso a Cuidados Básicos na Escola

Vídeo encontrado no canal EnsinoTV

Afinal, ser primeiro-ministro é muito fácil!

Cavaco, numa das suas legítimas reaparições, lançou um livro: O primeiro-ministro e a arte de governar. A coisa anuncia-se professoral e convencida, como é timbre do homem que não tem dúvidas e nunca se engana ou vice-versa.

Na assistência, estavam os cortesãos do costume. O livro foi apresentado por Durão Barroso, que se notabilizou na qualidade de mordomo das Lajes, colaborando com um ataque às armas de destruição maciça que não existiam no Iraque, o mesmo Durão Barroso que viria a abandonar patrioticamente o mandato de primeiro-ministro, voando mais alto, chamado pelas sereias de Bruxelas, porque prescindiu das amarras de Ulisses.

Qualquer livro de Cavaco entra no rol dos que não li e de que não gostei. Por isso, limitar-me-ei a comentar uma afirmação que o autor terá proferido na apresentação: Cavaco terá dito que uma remodelação do governo é a «tarefa mais difícil» de um primeiro-ministro.

Na minha ingenuidade, sempre pensei que ser primeiro-ministro seria uma tarefa extremamente exigente, por exigir planeamento, negociações, bom senso, gestão financeira, capacidade oratória, entre muitas tarefas e competências que, para cúmulo retiram, com certeza, descanso e privacidade.

Rabo de Perdição

Usando da concisão e da elegância do costume, o Francisco Miguel Valada já fez referência ao estranho caso do autarca que toma decisões com base numa petição assinada por 37 cidadãos.

Entretanto, os argumentos apresentados no texto da petição e as declarações de alguns dos peticionários são tristemente divertidos e merecem um ou outro comentário.

Apesar do extenso currículo amoroso do escritor, podemos aceitar que «o grande amor de Camilo foi Ana Plácido», como consta da petição. O que já parece mais difícil de engolir é que a mulher a que se agarra o Camilo esculpido seja «um exemplar mais ou menos pornográfico». Como quero poupar o leitor a imagens mais fortes, deixo aqui uma ligação para um texto de Fernando Esquio, um trovador do século XIII, que se estaria a rir de quem confunde nudez com pornografia.

Entretanto, Ilda Figueiredo, um dos peticionários, critica a estátua como sendo uma afronta à figura feminina, tendo em conta a desigualdade: deveriam estar ambos vestidos ou ambos nus. Em alternativa à remoção da estátua, presume-se, o escultor deverá vestir a rapariga ou será obrigado a despir Camilo. Aguarda-se a posição dos restantes peticionários e a decisão de Rui Moreira.

Mário Cláudio, outro peticionário, considera que a figura feminina representa Ana Plácido, sendo de opinião que uma mulher «notável, talentosa e corajosíssima» não pode ser reduzida a um «corpo desnudo», o que acentuaria o pecado da «objectificação da mulher». Muito me espanta a ideia de que a nudez seja indigna ou a ilusão de que uma mulher vestida não possa ser objectificada.

Em suma, ainda há quem perca a cabeça por causa de um rabo: uns deixam escapar piropos de mau gosto, outros assinam petições.

João Costa e a vulgata antigrevista

Quando nos pisam os calos, no mínimo, exprimimos um gemido de desconforto. Se nos pisarem os calos demasiadas vezes, a coisa descambou para falta de cuidado ou para agressão.

Os professores já andam a ser pisados desde 2005, pelo que é natural que se queixem, que protestem. Talvez se possa mesmo dizer que os protestos são poucos para tanta pisadura.

Entretanto, são os professores e todos os outros profissionais da área que mantêm as escolas a funcionar de uma maneira exemplar, contra ventos e marés constituídas também pela incompetência e pelo desinteresse das sucessivas equipas ministeriais, que se limitam a cumprir instruções superiores, aprofundando um desinvestimento constante e ignorando problemas já estruturais (formação inicial de professores, atracção dos jovens), até porque não estão lá para resolver. Graças aos professores, os alunos estão, pelo contrário, sempre em primeiro lugar.

Tenho pelas greves um respeito quase religioso, mesmo quando não sou praticante, porque cada um deve reagir às pisaduras como muito bem entender. Permito-me duvidar de métodos de luta que não consigam ferir verdadeiramente o adversário, mas isso é outra questão.

Entre os políticos no poder, mesmo em democracia, há uma vulgata antigrevista a que João Costa não resiste, tendo afirmado que lamenta (que é diferente de lamentar) a convocação de greves, uma vez que os alunos deveriam estar em primeiro lugar. Trata-se de demagogia pura e tem por objectivo propagandístico transformar o grevista num irresponsável ou mesmo num agressor. O poder, mesmo em democracia, na verdade, sonha com a ditadura e a greve deveria, no máximo, existir em teoria.

A greve é, assim, uma resposta a uma agressão. Chega a ser cómico ouvir o agressor queixar-se da reacção do agredido.

Miguel Sousa Tavares: mentiroso ou desinformado?

Num texto do Paulo Guinote, fiquei a saber que Miguel Sousa Tavares escreveu na sua crónica do Expresso de 25 de Agosto que os professores reclamam “retroactivos”, o que não corresponde à verdade.

Outro comentador, então televisivo e, na altura, presidente da câmara de Lisboa, já tinha afirmado o mesmo.  Também não era verdade e não passou a ser. Esse mesmo comentador é hoje o ministro das Finanças.

não é a primeira vez que Miguel Sousa Tavares faz afirmações erradas sobre professores. Se o faz propositamente, é mentiroso. Se o faz sem querer, é incompetente.

Em qualquer dos casos, é contumaz, tal como o Expresso.

Salário emocional e eu a ver

Em linguagem deliciosamente pedestre, há quem se queixe de estar a ser fornicado e a ver. O utente desta expressão mostra-se objecto passivo da fornicação e usa o acto como metáfora de prejuízo. Ao mesmo tempo, a dita expressão mostra que a vítima, ainda que ciente do que lhe está a acontecer, não tem poder para impedir que o acto prossiga. Está a ver.

Por estes dias, e comprovando, mais uma vez, a minha vasta ignorância, descobri a existência da expressão “salário emocional”.

Note-se que não me parece descabida a ligação entre salário e emoções. Efectivamente, o salário pode ser causa de várias emoções, desde a alegria festiva até à depressão chorosa. Também neste caso, talvez possamos dizer que não há salário como o primeiro ou que o mesmo salário é eterno enquanto dura. Não me espantaria que o próximo livro de António Damásio tivesse o título O Erro de Marx. Emoção, Salário e Cérebro Humano. [Read more…]

De como os professores estão a ser roubados

Oito falácias sobre a recuperação do tempo de serviço

A teoria do eterno retorno e o mexilhão

Em Portugal, não há propriamente organização de grandes eventos, há grandes eventos sem organização. A norma é a derrapagem orçamental ou a feitura em cima do joelho, duas acções tantas vezes relacionadas, especialmente quando os dinheiros públicos estão envolvidos.

Os dinheiros públicos têm, para quem os gere, a grande vantagem de saírem da carteira de muita gente. As dívidas podem ser contraídas hoje e pagas pela gerência seguinte, que, como é costume, irá queixar-se da gerência cessante. Apesar de ser tudo feito em cima do joelho, nunca é o joelho que sofre, é o mexilhão, o molusco que paga sempre as dívidas que não contraiu e cujo salário mal dá para mexilhão.

Sempre que se (des)organiza um grande evento, no entanto, os que criam dívidas em nome do mexilhão garantem sempre que o dito evento, depois das derrapagens e da instabilidade do joelho, irá trazer retorno.

Ele é o retorno em noites de hotelaria, em litros de cerveja, em reservas de mesas, em taxas, em criação de empregos. No papel, as fortunas que se gastam nos grandes eventos são sempre ínfimas quando comparadas com os lucros que virão, o tal retorno, o milagre da multiplicação das notas que foram muitas e regressarão acompanhadas por muitas outras. [Read more…]

Com o AO90, até as consoantes mudas falam!

Recentemente, um aluno de nacionalidade portuguesa pronunciou a palavra “concepção” articulando o /p/. Aproveitei a circunstância e fiz uma pequena sondagem à turma – a maioria dos alunos, para meu espanto, declarou que pronunciava do mesmo modo.

Os três alunos brasileiros não estranharam, porque isso corresponde, em parte, à sua pronúncia, sendo que acrescentam um /i/ de ligação a seguir ao /p/.

Ao longo das últimas décadas, a palavra, em Portugal, foi sempre (ou quase sempre) pronunciada sem a articulação do /p/ (kõsɛˈsɐ̃w̃ – concèção), sendo que essa consoante tinha, entre outras funções, a de obrigar à abertura da vogal pretónica.

O chamado acordo ortográfico (AO90) estipulou a eliminação dessas consoantes mudas, em nome da unificação ortográfica. Assim, em Portugal, passou a escrever-se “conceção”, enquanto, no Brasil, se manteve “concepção”, de acordo com a regra estapafúrdia (porque limitada) de que devemos escrever de acordo com a pronunciação. Em resumo: graças ao esforço de unificação ortográfica, portugueses e brasileiros passaram a escrever a mesma palavra de maneira diferente, quando antes escreviam da mesma maneira. Sim, unificação ortográfica. [Read more…]

Notas sobre o calimero: o uso da expressão “dois pesos e duas medidas”

O calimerismo futebolês consubstancia-se numa série de expressões fixas que, grosso modo, servem para deixar claro que a nossa equipa é sempre prejudicada pelas arbitragens e/ou por outras entidades mais ou menos obscuras, como a Federação, a Liga ou uma outra sociedade secreta qualquer.

A injustiça de que somos alvo resulta sempre do facto de que somos os enteados prejudicados pelo benefício conferido aos filhos ou que estamos sempre à sombra, quando outros andam constantemente bronzeados.

Diante dessas injustiças, que, para cúmulo, são frequentes e exclusivas, o calimero calejado recorre habitualmente à expressão “dois pesos e duas medidas”. Os outros têm a leveza e a suavidade do benefício; nós suportamos toneladas e hectolitros de subtracções clínicas, desde o penálti sonegado até ao furto do VAR.

O calimero, de uma maneira geral, está plenamente convencido de que tem toda a razão, mesmo quando sabe que os adeptos dos adversários usam exactamente o mesmo, por assim dizer, argumento. É claro que há uma diferença, do ponto de vista do calimero: todos dizem o mesmo, mas só nós é que temos mesmo razão – a expressão fixa é vazia na boca alheia e cheia de significado no nosso lábio que faz um beicinho plenamente justificado.

Fica uma lista de ligações em que se faz uso da expressão “dois pesos e duas medidas”. É divertido, mas nunca será instrutivo.

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O que acontece a quem comete uma ilegalidade?

O Tribunal da Relação considerou ilegal a definição de serviços mínimos para as greves dos professores de 2 e 3 de Março.

Já se sabe que impor os serviços mínimos a uma greve às aulas é indecente, para usar um eufemismo já pouco simpático. De qualquer modo, isso só poderia ser um problema para quem sentisse vergonha.

A partir do momento em que essa imposição foi considerada ilegal, a pergunta é: o que acontece a quem comete uma ilegalidade?

Tanto mar

«Por causa das novelas percebemos perfeitamente o português do Brasil, mas o que temos mesmo pena é de não falarmos com o vosso sotaque”, disse António Costa.», “Público”, 24-04-2023

 

No dia em que Chico Buarque, um dos meus compositores favoritos, recebeu o Prémio Camões, soube que o primeiro-ministro do meu país, numa cerimónia oficial, confessou ao chefe de Estado do Brasil que nós, portugueses, temos pena de não falarmos com sotaque brasileiro. Pelo que ouço dizer, há brasileiros que defendem que o português correcto é aquele que é falado em Portugal, o que quer dizer que há muita gente a dizer disparates dos dois lados do mar. Pelo pouco que sei, o Brasil tem sotaques que nunca mais acabam, mas António Costa deve estar a pensar naquele que é usado nas telenovelas.

Entendamo-nos: eu e o meu país somos circunstâncias que acontecemos um ao outro, para sorte e azar de ambos. Não me acho nada de especial por eu ser eu e por eu ser português. Isto de ter uma nacionalidade é um casamento de conveniência que pode parecer de amor, mas é só um acaso, como é o caso do amor, a não ser para quem acredite no destino ou num deus que tenha tudo planeado, incluindo o momento em que havemos de tropeçar nos braços que queremos abraçar.

O Brasil, falado, cantado e escrito faz parte da minha vida. Tenho horas de músicas, dias de filmes, semanas de telenovelas, meses de livros, anos disto e daquilo. Nos últimos anos, tenho tido dezenas de alunos brasileiros, calorosos, engraçados, simpáticos, com direito a debates vivos sobre o ouro que roubámos ou não, com divertidos confrontos sobre pronúncia e escrita. Há muitos anos que não é possível ser-se português sem se ser brasileiro. E americano. E inglês. E francês. E italiano. E espanhol. [Read more…]

Luta dos professores – um vídeo do Ricardo Silva

Mais uma vez, vale a pena ouvir a voz esclarecida e apaixonada do Ricardo Silva.

Apesar de o vídeo ser muito mais interessante do que qualquer coisa que eu escreva, não posso deixar de notar a minha dificuldade de compreensão.

Não compreendo a que sítio esconso se vai buscar uma pergunta em que se insinua que a emotividade possa ser um problema, como se fosse possível uma pessoa ter razões para se revoltar, ficando impassível ou como se sentir ou mostrar emoções nos retirasse necessariamente a razão.

Não compreendo como é que é possível a maior confederação de pais e de encarregados de educação do país estar contra a luta dos professores. Note-se que ‘compreender’, aqui, significa ‘considerar inaceitável’. A CONFAP tem razões que o coração desconhece.

Ide ver o vídeo, ide, que há razão e coração em doses perfeitamente equilibradas.

Não são os “pais”, é a CONFAP

Pais pedem aulas extra para compensar efeitos das greves de professores

Chega elogia o governo

Chega acusa governo de atitudes “pidescas”.

Luta dos professores – ligações com vídeos

A propósito da luta dos professores, aqui ficam três ligações com vídeos de intervenções do Paulo Prudêncio, do Paulo Guinote e do Ricardo Silva. Em comum, têm a clareza e a informação. Quem vir e ouvir, não poderá ignorar. É de lamentar, no caso do vídeo do Ricardo, a intervenção de um jurista que não apresentou argumentos jurídicos, e que, para cúmulo, acredita ou parece acreditar que é indiferente ser-se professor universitário ou do básico e do secundário.

Sem querer desvalorizar, de maneira nenhuma, outras vozes, é de louvar que as televisões dêem também visibilidade a professores a tempo inteiro. A surpreendente tenacidade da classe docente terá levado a que as televisões sentissem que não era possível ignorar estes contributos, em vez da redundância vazia de outros actores.

O governo, entretanto, continua na senda de fingir que está a negociar, prosseguindo, ao mesmo tempo, um caminho de destruição do sistema educativo. Tudo começou em 2005, no triste consulado de Maria de Lurdes Rodrigues. A perda da maioria absoluta do PS, em 2009, foi fraca consolação, uma vez que o rolo compressor não parou com Passos Coelho e António Costa, sendo indiferente o nome dos ministros da Educação, simples tarefeiros que se limitam a demolir, cumprindo ordens.

Piada do dia

Maria de Lurdes Rodrigues escreveu uma crónica intitulada “Defender a escola pública”. Em breve, uma raposa irá publicar um livro intitulado “Defender o galinheiro”

Este velho caceteiro, dedicado companheiro

Talvez não fosse má ideia criar uma escola de estadistas, porque, na política portuguesa, há um excesso de palavrosos e de caceteiros. Uma pessoa olha em volta, vê sócrates, passos, portas, costas, marcelos e não encontra um estadista, um bocadinho de gravitas que seja.

Santos Silva, que, actualmente, é, pasme-se!, a segunda figura do Estado e putativo candidato a Belém, não destoa.

O actual Presidente da Assembleia da República é um antigo guterrista e socratista reciclado, tal como António Costa, aliás. Se a uns lhes foge o pé para a chinela, a mão de Santos Silva foge-lhe para o cacete, por muito que se disfarce de fato e de gravata. Como mau democrata, se é contrariado o poder que defende ou que exerce, só pensa em bater.

Há uns anos, quando era ministro de Sócrates, ao ser confrontado com protestos de professores, declarou que estes não distinguiam «entre Salazar e os democratas», o que, curiosamente, o afastou do lado dos democratas. Recentemente, criticou, a propósito da greve dos professores, o «modelo anarco-sindical» de «sindicatos recentes» (é claro que, antes disso, disse que as pessoas têm direito a protestar, sim, mas), recorrendo a uma estratégia suja que pretende apenas desacreditar as críticas, não contribuindo, por puro desinteresse, para a resolução dos problemas dos professores, que são, também os problemas da Educação. Tudo isto é triste, tudo isto é fado, tudo isto é costume.

Os professores e a simpatia da opinião pública

Só devemos falar daquilo que nos preocupa. Marcelo Rebelo de Sousa não está preocupado com os professores.

Há poucos dias, deixou escapar um pequeno pontapé na semântica, mas percebe-se o que quis dizer. O Presidente afirmou que a “simpatia da opinião pública pode virar-se contra os professores”.

Curiosamente, Marcelo é especialista em ser simpático contra outros, parecendo que está a ser simpático com outros. Sobre os problemas dos professores não tem uma palavra que não seja muito redondinha ou muito previsível.

O que Marcelo quis dizer, na verdade, é que os professores poderão perder a simpatia da opinião pública.

Tem toda a razão e até acredito que os professores estejam preocupados com isso. Por outro lado, quando alguém está convencido da justeza da sua luta, é natural que deixe de se preocupar com a simpatia dos outros.

Blanche Dubois sempre dependeu da bondade de estranhos, mas não acabou bem. As sufragistas, por outro lado, não se deixaram abalar pela antipatia da opinião pública.

Há muitos sítios onde enfiar simpatias desnecessárias.

PSD e PS ou o festival das falsas equivalências

Já se sabe que o Chega é um conjunto heteróclito de descontentes e/ou de oportunistas que, independentemente de tudo, não apreciam o jogo democrático e nem sequer o disfarçam, grunhindo ameaças sob a capa de uma alegada frontalidade politicamente incorrecta que é só vontade de bater em quem tem ideias contrárias.

Os melhores amigos da cheganada estão no Partido Social talvez Democrata e no Partido dito Socialista. As últimas letras das siglas parecem andar a perder força. O PSD continua a namorar o Chega, não vá dar-se o caso de os dois copularem e conceberem maioria; o PS continua a viver dos rendimentos que o namoro dos outros lhe proporciona, esvaziando uma esquerda que não sabe por onde subir.

Miguel Pinto Luz, vice-presidente do PSD, esteve na convenção do Chega e sentiu-se na obrigação de se justificar. Foi fácil: disse que o Chega estava para a direita como o Bloco de Esquerda estava para a esquerda, uma gente radical e barulhenta. Antevê-se o milagre: o PS aliou-se com o Chega de esquerda? O PSD aliar-se-á com o Bloco de direita.

António Costa Silva, ministro da Economia e do Mar, apresentou no Parlamento um país que parece estar melhor do que as pessoas (nota-se aqui um aroma a Montenegro?). Quando Mariana Mortágua criticou a ausência dos problemas salariais no discurso do ministro, este acusou-a de ser retrógrada, inimiga das tecnologias, no exercício velhinho de confundir alhos com bugalhos. [Read more…]

Vídeo exclusivo! PS, PSD, IL e Chega defendem os professores e a Escola Pública!

cabotino

ca.bo.ti.nokɐbuˈtinu

nome masculino

1.
actor ou comediante itinerante
2.
depreciativo actor ou comediante sem qualidade

adjectivo, nome masculino

figurado, depreciativo que ou indivíduo que procura atrair atenções alardeando as qualidades que, suposta ou realmente, possuivaidoso, presunçoso
Do francês cabotin, «idem»

Lambe-botismo em cama de humor

Ariana Cosme e Rui Trindade escrevem, hoje, dia da manifestação dos professores em Lisboa: «Está na hora de se reconhecer que este Governo e este ministro são, afinal, os melhores interlocutores que os professores e os seus sindicatos poderiam ter.»

Direito à greve, sim, mas, repetem eles

Manuel Carvalho, director do Público, é mais um dos adeptos do direito à greve, mas. No seu editorial de hoje, pretende dar lições de ética aos professores, antecipando o desagrado da opinião pública. Haveria muito para comentar, mas o naco que se segue já é suficiente:

Uma greve de um dia, dois dias ou uma semana, seria inatacável do ponto de vista dos princípios. Exporia ao país sentido de urgência e empenho num combate. Levaria os cidadãos a interessar-se pelas suas causas. A substância do protesto seriam essas causas, não os expedientes de uma paralisação às pinguinhas.

Manuel Carvalho defende, portanto, greves cujo efeito é folclórico e nulo.

Na realidade, as greves de um dia diluem-se em argumentações estéreis acerca dos números de adesão, nunca levaram os cidadãos a interessarem-se pelas causas dos professores e nunca, mas nunca, levaram o Ministério da Educação a mudar, a não ser em meia dúzia de tretas sem importância. Desde 2005, os professores (e sobretudo a Educação) têm acumulado derrotas, mantendo-se, entre muitas outras monstruosidades, um sistema de (pseudo-)avaliação que só serve para impedir que a maioria dos professores progrida na carreira, a subtracção de tempo de serviço, o abuso que consiste em não efectivar professores que andam a ser contratados há 20 anos ou contas manhosas que mantêm as escolas com défice de funcionários.

Manuel Carvalho não se preocupa com nada disso, é um cidadão que não se preocupa com Educação nem com a luta justa dos professores. Para Manuel Carvalho, como para muitos outros, lutar, sim, mas baixinho, que queremos dormir.