Oito apartamentos e um sótão (8)

Quarto esquerdo

 

Depois de passarmos a porta de entrada, estamos no hall. À esquerda, encostado à parede, um armário antigo, castanho-escuro, baixo, com uma peça de cerâmica tão moderna que parece fazer gala da sua inutilidade. À direita, um bengaleiro que parece uma árvore seca.

Avançando uns passos e virando à esquerda, entramos na sala. Não é muito grande, quadrada. A mesa e as seis cadeiras de palhinha estão em bom estado. Na parede em frente, um aparador antigo: dois potes pequenos e várias molduras com fotografias.

Vale a pena, vale sempre a pena, ver as fotografias, especialmente quando estamos à vontade, sem a presença dos retratados. Da esquerda para a direita, há uma ordem que vai de tempos mais recentes para o passado, das cores até ao preto-e-branco. Aqui, está uma fotografia muito recente de três senhores de idade. Um deles é aquele que podemos ver, nesta mesma sala, sentado no sofá, morto. Outra fotografia com os mesmos homens um pouco mais novos, numa esplanada, fazendo um brinde para a câmara, sorrindo à ignorância da morte, sem perder tempo a pensar se será a última vez que brindam, como se fizesse sentido uma pessoa estar sempre a sorrir e a pensar que poderá ser a última vez. A fotografia mais antiga é a de um homem de chapéu, a olhar para uma distância.

Se nos sentarmos no sofá, ficaremos, então, ao lado do morto. O senhor Aguiar está morto. Foi há pouco tempo, estávamos nós a entrar em casa e ele a morrer. A televisão está desligada e a mão do senhor Aguiar está perto do comando. Esta não foi, portanto, a última vez que viu televisão. [Read more…]

O meu corrupto é melhor que o teu…

Steve Bannon é uma referência para André Ventura. E corrupto sabe-se agora, facto que o líder do Chega já se apressou a desvalorizar. Pablo Iglesias, também é visado num alegado esquema de corrupção. Não ouvimos uma palavra sobre o assunto às manas Mortagua nem à Dª Catarina, líder da agremiação política irmã do Podemos…

Oito apartamentos e um sótão (7)

Quarto direito

 

O senhor Joaquim Figueiredo e a sua senhora, Maria como é evidente, já vivem no prédio há muitos anos, compraram o apartamento ainda na planta, como gostavam de lembrar, repetindo sempre as frases um do outro, para ocasional irritação de ambos, porque só o outro é que imita.

Tantos anos de convivência fizeram com que a senhora, mais faladora, contasse as histórias todas, incluindo aquelas em que não participara, como a passagem do marido pela Guerra Colonial. Maria descrevia, então, em pormenor, o cheiro a napalm, as balas tracejantes, as minas nas picadas e as idas às putas, porque a guerra é a guerra e um homem não é de ferro. O senhor Joaquim, nesta parte da narrativa, tinha sempre um sorriso entre o saudoso e o sádico, o que lhe valia invariavelmente um empurrão vagamente terno da mulher.

Estas histórias já estavam a ser contadas aos netos, ainda que a palavra “putas” passasse a “meninas”. A filha já tinha desistido de pedir aos pais que censurassem esta parte e tentava reprimir os pedidos insistentes dos netos para que a avó contasse as aventuras sexuais do avô, que, na realidade, eram mais sexuais do que aventuras.

O casamento já ia em mais de cinquenta anos, um contrato rigorosamente cumprido, um edifício antigo, com alguns remendos, mas sólido, como são os casamentos que não eram propriamente por amor, mas que acabavam numa convivência feita de alguma necessidade, de muitos deveres e um pouco de ternura muito disfarçada.

Certo dia, o senhor Joaquim sentiu-se fraco, parecia ter alguma temperatura, dificuldades em respirar, tudo muito parecido com os sintomas provocados pelo vírus. Com o agravamento, foi levado para o hospital, mostrando a fragilidade assustada dos velhos quando se despediu da mulher. Depois de algumas complicações, Joaquim Figueiredo morria, um número das estatísticas.

Maria ficou sozinha em casa, recusando o convite da filha, que já tinha um quarto para a mãe. “Ainda estou bem. Quando sair daqui, é para ir para um lar.” Aceitou que a filha passasse a deixar-lhe as compras à porta e divertia-se a dizer adeus aos netos, da varanda, quando vinham visitá-la aos fins-de-semana.

O tempo passou a correr ainda mais devagar. Sem o marido, deixava de ter refeições para cozinhar. Começou a investigar os caixotes e as gavetas de Joaquim, divertindo-se com álbuns de fotografias, viajando a um passado em que se faziam poses de estrela de cinema, o que a levava a elogiar-se a si própria: “Eras bem jeitosa, minha menina!”

Numa dessas incursões a um mundo de papéis amarelecidos, de facturas desnecessárias ou de fotografias a sépia, descobriu um molho de cartas embrulhadas por um atilho. Começou a lê-las e descobriu que o marido tivera um caso durante anos com uma mulher que tinha conhecido em Lisboa. O romance fora prolongado e tórrido, as cartas continham descrições e memórias picantes, momentos intensos, Maria não merecia sequer uma referência. Precisava de se vingar e resolveu ligar à filha:

  • Estou. Olha, descobri umas cartas que o teu pai me escreveu. Vou só ler-te algumas partes. Ora ouve.

Um sistema que gosta de velhacos

Ponto prévio: ficava muito contente se este vigarista decidisse apresentar queixa-crime contra mim. Apesar da minha identificação ser pública e acessível, para esse efeito, não terei qualquer problema em fornecer qualquer outro dado que não consigam verificar.

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Oito apartamentos e um sótão (6)

Terceiro esquerdo

 

Vou matá-lo, caralho, eu vou matá-lo, não vou ficar fechado aqui em casa com um filho da puta de um bêbado que ainda acha que me pode bater. Ou fujo, que se foda o vírus, ter um pai assim é que é um vírus e não há vacina para esta merda.

A minha mãe pirou-se desta merda, não quis saber, puta do caralho. Eu, se fosse a ela, também fugia, não sei porque é que não fujo, há tanta gente que devia fugir e fica e outros que deviam ficar e fogem. Anos desta merda!

Já na outra casa, o meu pai metia-se nos copos e gastava tanto dinheiro em vinho que tem uma cirrose. É tão bêbado que nem chega a saber que é bêbado. Pelo meio, batia em toda a gente, porque tinha mau vinho ou porque era mau e estava cheio de vinho, um gajo não chega a saber. A minha mãe ainda pegou numa faca, mas não conseguiu fazer o que tinha a fazer. Pôs-se a chorar, ainda foi pior, apanhou mais. A puta da cirrose é que não há maneira de o levar. O gajo é tão ruim que até pode apanhar quarenta vírus que não morre. Mato-o eu, filho da puta. [Read more…]

Oito apartamentos e um sótão (5)

Terceiro direito

João e Maria já tinham tudo combinado para se divorciarem, quando o vírus os obrigou a adiar os planos, fechando-os dentro da mesma casa durante mais uns tempos. A família de Maria viu nisso um sinal de que Deus queria a reconciliação. A mãe de João, viúva recente, também louvara a quarentena, porque tinha uma verdadeira paixão pela nora, ao ponto de culpar o filho pelo divórcio – talvez tudo isto o fizesse pensar, talvez se perdoassem um ao outro, porque há muito quem pense que um divórcio resulta necessariamente de uma culpa.

Depois de um namoro apaixonado, o casamento fora um passo tão claro como um degrau. Subiram juntos. Ora, o casamento, como se sabe, é mortal, porque mata ou porque morre ou porque todos temos de morrer. Explicar o fim de um casamento pode ser tão simples como comentar um jogo de futebol depois de ter terminado. Nem sempre é assim, no entanto.

No caso de João e Maria, houve como que um desgaste de material, um bocado de estuque que caiu, um ligeiro problema de humidade no canto mais fundo do corredor, pequenos desencantos que vão alastrando até atingir os alicerces. Os especialistas e os autores de frases ou de livros de auto-ajuda diriam que tinha de ser assim, porque não estavam feitos um para o outro ou porque não souberam trabalhar a relação, criar o diálogo, manter a chama viva. Todas essas frases foram ditas por alguns amigos e, por momentos, chegaram a ser sentidas por ambos.

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O problema é a CIA

Protestar pela Bielorrússia ou pela Venezuela (eleições aldrabadas), pela Coreia do Norte (eleições? o que é isso?) ou por Hong-Kong (violação de acordos) é ingerência. Protestar contra o Trump e o Bolsonaro é, obviamente, solidariedade com os explorados povos dos EUA e do Brasil.

Oito apartamentos e um sótão (4)

Segundo esquerdo

 

Azeredo Conceição sentira, desde jovem, o chamamento para o exercício de administrador de condomínio. Sempre estivera acima do comum dos condóminos, como se tivesse sido concebido sem mácula por um espírito santo do imobiliário para ser um senhor feudal ungido por Deus para comandar os vizinhos. Tudo o que se passava no prédio era da sua competência e a incompetência era tudo o que caracterizava os outros. Não havia nada que ficasse imune à sua opinião – era-lhe impossível não comentar o facto de alguém se esquecer de limpar os pés à entrada do prédio, batia à porta das outras casas para recomendar que recolhessem a roupa do estendal, criticava a permanência de um guarda-sol num lugar de garagem por constituir um atentado à decoração do imóvel e exigia que todos respeitassem o horário das suas sestas de fim-de-semana, desligando televisões e calando crianças. Para reforçar a sua importância, Azeredo não tinha mulher, tinha esposa, e a sua filha haveria de ser doutora, estatuto reservado a alguns médicos.

Quando o vírus inventou o confinamento, Azeredo viu aí claramente visto um sinal de que o mundo, ou seja, o condomínio, precisava da sua mão forte e urdiu um plano completo que iria comunicar brevemente ao condomínio, isto é, ao mundo. Passou a usar a palavra “pandemia” cerca de dez vezes por hora (um condómino mais atrevido fizera mesmo referência a isso – “Ó senhor Azeredo, consigo, a pandemia anda a dez à hora!”, numa piada que só era entendida por outros dois vizinhos, o que Azeredo entendia como um desrespeito à sua autoridade). No computador, com a ajuda da esposa e da futura doutora, concebeu planos, decretos e mapas, exigindo aos condóminos comportamentos morais irrepreensíveis, criando formulários para comunicações de saídas e entradas e marcando no chão os caminhos de ida e volta que permitiriam manter o distanciamento social. [Read more…]

Discurso fofinho

Obviamente que isto não é discurso de ódio.

Já um cartaz a dizer: “patada ……..(preencher a gosto) na boca dos comunistas” seria completamente inadmissível por, evidentemente, incitar comportamentos violentos e, por si só, razão mais que suficiente para convocar outros 2 ou 3 protestos públicos onde se tentaria alcançar o máximo histórico de 23 manifestantes.

Bielorrúsia: o mundo real é fodido, não é?

Minsk

Entretanto, em Minsk, a onda de terrorismo de Estado avança, imparável. Um tirano, violento e decadente, que governa a Bielorrússia como se fosse sua, ordenou às forças de segurança que reprimissem os manifestantes, tendo já encarcerado, sem os procedimentos legais normais no resto (ou na maioria) da Europa, mais de 6 mil jornalistas, líderes associativos e sindicais, activistas, opositores políticos e outros “agitadores”. Isto não é comunismo, nem fascismo, nem outro ismo qualquer. Isto é uma monarquia absoluta travestida de República. E a Europa deve deixar-se de politicamente correctos e retaliar. Sanções, boicote económico, corte de relações diplomáticas, não sei. O que os decisores políticos acharem mais adequado. Mas isso obrigaria a fazer o mesmo à China ou à Rússia, só para citar dois exemplos, e seria too much. Porque produtividade, crescimento económico e competitividade e tal. E as democracias ocidentais também têm as suas prioridades. Tal como o capitalismo selvagem, que não funciona sem as ditaduras que providenciam a mão-de-obra barata semi-escrava.

O mundo real é fodido, não é?

Oito apartamentos e um sótão (3)

Segundo direito

A meio de uma linha de programação, na secretária enorme, com três ecrãs também enormes, ao fim de uma noite ininterrupta de trabalho, José recebeu uma notificação com palavras fora de uso: quarentena, confinamento. A palavra a que estava mais habituado era ‘vírus’. Segundo as notícias, as pessoas deveriam evitar ao máximo sair de casa, o que, no seu caso, era uma segunda natureza. Quando, mais tarde, soube que, durante um fim-de-semana, não seria permitido viajar para fora do concelho, lembrou-se de que já não saía do concelho há mais de um ano. Levantou-se, tão perplexo quanto possível, e foi espreitar a varanda, para perceber que já não se recordava da última vez que lá tinha estado.

Teletrabalho era só trabalho, contratos assinados digitalmente, tarefas com prazo de entrega, muito raramente um telefonema. As refeições e as compras eram, há muito tempo, embrulhos e sacos entregues em casa, papéis e plásticos que se acumulavam na cozinha e no quarto, até ao dia em que decidia, quase sem razão, sair para despejar tudo no lixo, contrariado por não haver um serviço que tratasse desse assunto.

Sair de casa era um risco, porque podia cruzar-se com um vizinho e responder a um cumprimento. Tinha-se quase desabituado de cumprimentar pessoas: os seus conhecidos eram nomes na caixa de e-mail ou nicks nos jogos online. Quando descobrira que a sua vida encaixava no estereótipo do informático, sentiu-se ainda mais tranquilo. [Read more…]

Oito apartamentos um sótão (2)

Primeiro esquerdo

E agora como vão ser as aulas e as avaliações e a vida dos miúdos e a nossa, tenho de impedir que o vírus os impeça de aprender, à distância e a distância, vou fazer tudo para continuar próxima deles, nunca precisaram tanto de mim, organizar arrumar pôr em dia usar a noite, amor descobri uma padaria que traz pão a casa pão com sementes, querido olha esta receita para fazer pão em casa que descobri num tutorial, comprar desinfectante e luvas e máscara, não me posso esquecer das conferências de imprensa sobre a pandemia, sexo talvez mais daqui a bocado também feito em casa, manter a ligação com a família ligar aos meus pais e aos nossos sobrinhos por zoom por skype, cheiras tão bem hoje, a criação de um blogue porque há tanto para escrever e tanta vaidade à espera de elogios, o livro adiado que é agora, as séries de televisão que parecem livros adiados, as aulas de dança da miúda com a professora aos saltos e aos gritos num quadrado do computador, tenho de aprender a criar e a editar vídeos aprender já tudo o que não sabia e ter direito a queixar-me de não ter tempo de ter ainda menos tempo, vou ter de me arranjar que isto não é razão para nos desleixarmos não posso aparecer aos alunos de qualquer maneira, quando a menina estiver a dormir, que vontade de descansar que sono que preguiça parece que ainda é pior, a culpa é minha que já me devia ter preparado para isto, a acção de formação sobre as novas tecnologias, as velhas tecnologias na elaboração do puré já nem me lembrava de que tinha um passevite, um programa de exercícios para emagrecer depois dos bolos que todos que vou fazer, [Read more…]

Politicamente incorrecto (1) – racismo em Portugal

Propositadamente deixei passar algumas semanas desde o assassinato a sangue-frio de Bruno Candé numa rua de Moscavide, para escrever estas linhas.
Ao que se sabe, a vítima tinha um cão, que incomodava Evaristo Marinho, autor dos disparos. E segundo vários relatos que tenho lido de testemunhos na vizinhança, não era Bruno Candé a única pessoa na vizinhança a ser ameaçada pelo idoso Evaristo, 76 anos, ex-combatente no ultramar, frequentemente quezilento, neurótico, pessoa descrita como tendo mau-feitio. [Read more…]

Portugal e os Pequenitos

[João L. Maio]

Um deputado com assento parlamentar, voltou a sugerir a deportação de Joacine Katar Moreira, pura e simplesmente por esta ser negra, pela 2ª vez na sua (ainda) curta carreira parlamentar.

Duas dezenas de racistas declarados fizeram uma vigília à porta da sede da SOS Racismo, mascarados “à lá” Ku Klux Klan, com o objectivo de intimidar, amedrontar e ameaçar quem luta, todos os dias, contra crimes de ódio racial.

Um homem, preto, de seu nome Bruno Candé foi assassinado no seu próprio bairro por causa da sua cor da pele, há duas semanas.

E nisto, parece mais fácil sacar a temperatura da água do mar em Armação de Pêra ao Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, do que ouvi-lo condenar e intervir sobre estes acontecimentos atrozes que se vão sucedendo.

Relembro o Código Penal:

“Artigo 240.º

Discriminação racial, religiosa ou sexual [Read more…]

Racismo estrutural

Combater o racismo ou qualquer forma de discriminação negativa é obrigatório. Discutir com reaccionários ruidosos se o racismo é estrutural é perder tempo.

Oito apartamentos e um sótão (1)

Primeiro direito

 

O T2 tinha encolhido há dois anos. Num quarto, o casal; noutro quarto, os dois rapazes; a sala era ocupada por uma pessoa: o “meu pai”, o “teu pai”, o “avô”. Quando este enviuvara, o filho e a nora insistiram que viesse lá para casa, ele que não, eles que tinha de ser, ele que não fazia sentido, eles que não ficava ali bem sozinho. A dado momento, o viúvo considerou que já tinha recusado vezes suficientes para poder aceitar, e o filho e a nora ficaram secretamente revoltados com a aceitação, porque já estavam quase a poder desistir, irritados por terem conseguido vencer uma negociação que queriam perder. De qualquer modo, todos disseram quase ao mesmo tempo que aquilo era provisório.

A coabitação começara razoavelmente, as boas intenções ainda não eram um inferno, a novidade era divertida, o meu pai, o teu pai e o avô não era má pessoa. Repetia, divertido, as mesmas anedotas que já tinha repetido e todos faziam de conta de que se riam pela primeira vez, num pacto de ruído que não deixava de ser divertido. De vez em quando, contava uma história de que o filho não se lembrava. Ocasionalmente, trazia pão, bolos, pêssegos que lhe faziam lembrar a infância, um ou outro frango de churrasco.

Um dia, a nora apercebeu-se de que a casa toda cheirava a hálito de velho, como se, saindo da boca do sogro, tivesse ocupado a sala, avançado pela cozinha, estendendo-se pelo corredor e pelos quartos como uma presença viscosa, um nevoeiro denso. O filho começou a sentir-se irritado pela tosse matinal do pai, que ouvia cada vez mais distintamente, apesar de o quarto ser o mais distante da sala. Os netos foram desistindo de ver televisão na sala, quando se aperceberam de que o avô começava a bocejar cada vez mais alto a partir das dez da noite. [Read more…]

Lost In Translation

[João L. Maio]

É unânime entre todos aqueles que se mantêm atentos e que, sobretudo, têm bom senso, de que o ambiente está a mudar. É um facto mil e uma vezes já explorado e com dados científicos que o comprovam.

Não vale, portanto, o esforço tentar desvalorizar a questão ou assobiar para o lado e fingir que nada se passa. Passa-se, é grave, e é preciso reflectir sobre o assunto mas, acima de tudo, agir sobre ele para mudar o rumo dos acontecimentos.

Ora, esta urgência climática anunciada trouxe com ela dois tipos de pessoas e, por conseguinte, duas linhas de pensamento: as que acham que isto é tudo muito, muito grave e, cegamente, defendem a causa; e as que, de forma acérrima, declaram que tudo isto é uma teoria da conspiração e que afinal não está tudo assim tão mau. Parece não haver meio termo.

Com isto, e como não poderia, nunca, deixar de ser, a política aproveitou-se do assunto, aqui e no resto do mundo. Mas, como é sabido, Portugal é uma sociedade à parte, quase alheada do que se vai desenvolvendo no resto que há à sua volta. Todos os partidos, sem excepção, e em tempo de campanha eleitoral legislativa, pegaram no tema para dele fazerem bandeira de campanha e tentar sacar mais uns quantos votos.

E o povo, vai na conversa? [Read more…]

Esquerdofrenia

[João L. Maio]

O pior da esquerda é a constante falta de unidade. A dar tiros nos pés somos os maiores.

Num momento em que a esquerda precisa de estar unida, debater e chegar a consensos sobre a melhor forma de reagir (não gosto da palavra, mas é a correcta neste caso) ao avanço de uns certos iluminados sem luz, eis que prefere medir a pilinha do “eu sou mais anti-fascista do que tu” com os outros camaradas do mesmo espectro político.

As sondagens que vão saindo valem o que valem (ainda para mais quando as próximas Legislativas são apenas em 2023). No entanto, são sempre sintomáticas de alguma coisa, não fossem elas… amostras representativas. E essas dizem-nos que os desventurados vão galgando terreno. Um deputado fascista na Assembleia da República é um empecilho que temos tentado combater e desconstruir; agora imaginem fazer esse trabalho com quinze ratazanas lá metidas por outros milhares de ratazanas que os elegerão. Tudo isto se torna mais urgente quando ouvimos o líder da oposição dizer que não põe de parte uma coligação com os mini-hitleres cá da rua. Não acordes, esquerda…

Unam-se. Não se arruma com um fascista atirando o tiro para o ar. Separados e de costas voltadas não se combate o presente e muito menos se constrói o futuro.

“Tudo depende da bala e da pontaria/Tudo depende da raiva e da alegria”.

A “desajuda” do fechamento ou “calem o bico, cidadãos”

É demasiado óbvio que o aumento do número de assinaturas de 4.000 para 10.000 para que uma petição pública seja debatida em plenário na “casa da democracia” é um “sinal de fechamento na Assembleia da República, na participação dos cidadãos e na vitalidade da própria democracia”. E é-o de facto, não pode apenas “ser visto” como tal, conforme relativiza Marcelo Rebelo de Sousa.

Desta vez, o veto de Marcelo é em favor dos cidadãos e oferece uma oportunidade de apagar aquele dia negro para a democracia portuguesa em que a arrogância do PSD (que queria até aumentar o número mínimo para 15.000) e do PS quiseram abafar a voz da cidadania. Aceitam-se apostas.

Tudo o que seja revelar desconforto perante a participação dos cidadãos não ajuda, ou melhor, desajuda a fortalecer a democracia” – Pois é. E “desconforto” é apenas um eufemismo para a falta de pachorra destes partidos em causa própria, que não valem um chavo porque os cidadãos só lhes interessam para enfiarem o voto na urna. Até a esfarrapada justificação para a alteração da lei foi desmascarada: “o número de petições desceu em 2018 e 2019, relativamente a 2017 – portanto não é válida a justificação do trabalho parlamentar”.

E depois admiram-se que o Chega suba.

O Chega e a glorificação da criminalidade violenta

FRIght

Esta manchete é de 2018

Se Portugal fosse um país racista, segregacionista, as manifestações de homenagem a Bruno Candé corriam sérios riscos de serem abalroadas por contramanifestações de neofascistas e neonazis violentos. Felizmente, ainda não chegamos a esse ponto. O racismo existe, está impregnado no nosso tecido social, das mais variadas formas, mas os portugueses, é minha convicção, não são um povo estruturalmente racista.

Isso não significa que o racismo seja um fenómeno residual. Não é. E, a esse respeito, vivemos tempos perigosos, aqui e em todo o mundo democrático. Tempos de ressurgimento de forças que promovem o racismo e a xenofobia, não raras vezes com violência à mistura, e que dão voz à boa velha ilusão conspirativa da invasão árabe, que destruirá a tal democracia europeia que também eles querem destruir, e a submeterá a sharia qualquer. Tão útil que ela é, para contornar os princípios mais elementares que presidem às democracias liberais, e ir por aí fora, a atropelar direitos humanos e liberdades fundamentais, Tiananmen style. E dizem eles que não gostam dos chineses. Tomara eles, poder “governar” como os camaradas do PC Chinês (suspiro). [Read more…]

A falsa equivalência

CR (2)

Na narrativa do fascismo do terceiro milénio, a luta por mais e melhores direitos civis, em particular de quem não os tem, representa uma ameaça à sobrevivência da nação e dos patriotas, seja lá o que isso significa para essas pessoas. Depois existem os idiotas úteis, que, não sendo necessariamente mal-intencionados, caem na esparrela da falsa equivalência, abrindo caminho para a normalização da extrema-direita. [Read more…]

À custa das nossas possibilidades

NB

Ricardo Araújo Pereira sintetizou o embuste na perfeição, numa das últimas edições do Governo Sombra: imaginem que eu tenho um quilo de maçãs, que me custou 2€, e vendo-o a uma pessoa, que eu não sei quem é, por 1€. E essa pessoa diz-me assim “tens 1€ que me emprestes?”, para me pagar o euro. Eu empresto, e depois peço ao fundo de resolução o euro que falta.

Não, não é nada estranho. Acontece todos os dias, em todo o lado onde o capitalismo é quem mais ordena. Desta vez soube-se, porque, convenhamos, o Novo Banco é um banco em decadência, desde a sua criação, e há muito dinheiro dos cofres públicos que se perdeu por lá, para não falar no Salgado, no Sócrates e nos restantes indivíduos que pilharam o GES, depois do GES ter pilhado meio mundo. E quando estamos a falar de pessoas e entidades caídas em desgraça, a coragem dos holofotes mediáticos tende a aumenta substancialmente. [Read more…]

Lições do fascismo português: como casar uma professora do Ensino Primário

facho

No tempo do Salazar é que isto era um país às direitas. Literal e orgulhosamente. Reparem no exemplo das professoras do ensino primário que pretendiam casar, e que só precisavam de aprovação do pai, de um parecer positivo do director do distrito escolar e da autorização do Ministro da Educação Nacional. Nada mais. Era ter estas três aprovações e estava resolvido o problema. Nada dessas modernices vagabundas, que estão a destruir a família cristã, em que a mulher escolhe o seu caminho e faz as suas próprias opções. Com Salazar e o seu grupo de forcados, poucas vergonhas como essa não passavam.

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O vírus (fim)

O vírus do covid tem feito muitos estragos. Mas está longe dos efeitos do outro vírus que assola o mundo.

Assistimos ao despudor com que se mente à vista de todos, sem que os mentirosos sem importem por saberem que quem os ouve sabe que estão a mentir. Esta inversão de valores, reforçada por uma hipocrisia sem limites, tem um impacto fundamental em todos os tópicos anteriormente abordados.

A reacção do poder instituído ao breve crepúsculo em que se publicaram alguns arranhões na Internet foi de contra-informação em larga escala, estratégia que culminou nas fake news de agora. O próprio jornalismo transformou-se, em larga medida, num produto de consumo imediato, superficial e em busca do sound bite, à imagem do modelo de sociedade que temos.

Este é o maior vírus que nos ataca de há algum tempo a esta parte. Aos poucos, apaga a decência. O resto vai por arrasto.

(o vírus)

Não foi só a ministra…

Na semana passada, a ministra da cultura respondeu que ia tomar um drink quando lhe perguntaram sobre… cultura. Nesta atitude, vemos refletida a postura de todo o governo: Não trata do que tem a tratar com os portugueses e preocupa-se em demasia ao agradar os outros. Neste caso, foi utilizado um anglicismo.

Mas não pensem que isto foi o mais grave. Se este governo não fosse tão incompetente, diria que foi um momento infeliz. Mas não, é apenas mais uma para juntar às outras.

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O vírus (6)

Imagem: NPR

Pela China, vivem-se momentos de autocracia em expansão acelerada. Hong-Kong está a ser colocada sobre a lei do autoritarismo chinês. E os sinais de controlo sobre os chineses somam-se continuamente. Peça-se um comentário ao governo de Passos Coelho sobre a venda da REN e EDP à China.

Na Europa, os líderes da Polónia, Turquia e Hungria nem disfarçam o ímpeto de ditador que os caracteriza. Esse mesmo que os líderes europeus, Costa incluído, fazem de conta não verem.

Também por cá, a relativização, e até cancelamento, de leis fundamentais da sociedade parece caminhar para a vulgarização. Os Açores deram o mote. Mas recentemente, o Governo da Madeira lembrou-se de impor uma lei (uso de máscaras na rua) que é, ao que dizem, inconstitucional. Continua a a aguardar-se uma palavra do Presidente da República sobre o assunto.

A recolha de dados usando os telemóveis em registo faroeste, passou também a ser uma prática, até na Europa do burocrático (what else) RGPD. O que não surpreende, pois a resposta europeia aos problemas não difere muito daquilo que se faz em Portugal: mete-se uma lei em vigor e o problema fica resolvido.

(continua)

O vírus (5)

Foto: Dave Killen/Staff

A América de Trump continua o seu caminho para a perda de relevância internacional e de declínio nacional.

Soube-se há dias que Trump nem se deu ao trabalho de procurar saber se Putin tinha ou não oferecido recompensas para que soldados americanos fossem mortos no Afeganistão por guerrilheiros pró-Taliban. Chegaram-lhe as suas teses infantis sobre a boa-vontade de Putin.

Neste momento, a ausência de resposta à pandemia está a ter forte impacto na possibilidade de ser reeleito, pelo menos confiando nas sucessivas sondagens que colocam Biden à sua frente por valores de 2 casas percentuais. A reacção de Trump foi de lastimar-se que ninguém gosta dele, de atiçar os cães contra Fauci (a Graça Freitas de lá) e de procurar um fait-divers que tirasse o tema covid das notícias (largou-se num tweet sobre o adiamento das eleições marcadas para Novembro, algo que não está sob o seu controlo).

Gozado depois do fiasco que foi o comício que não teve os milhares de participantes esperados, graças à partida da miudagem do TikTok que se inscreveu aos magotes como falsos participantes nesse comício, Trump lança agora as garras ameaçando fechar essa rede social. Um favor que o Facebook, que não viu esta competição chegar, muito agradecerá. E que se junta ao leque das incongruências do presidente, que em alguns momentos grita que a liberdade de expressão está em causa, como quando o Twitter removeu algumas das suas mentiras, para depois ser ele mesmo um agente da limitação da liberdade de imprensa e da redução da competição.

Em paralelo, o Congresso ouviu o gangue do GAFA (Goolge, Amazon, Facebook e Apple) sobre o seu poder e sobre as suas práticas anti-concorrenciais e de devassa da privacidade. A sessão com o responsável da Google transformou-se numa espécie de suporte técnico, quando um senador republicano usou o seu tempo para procurar dessiminar a ideia de que as big tech bloqueiam o discurso do partido de Trump. Alegava ele que o email que a sua campanha tinha enviado aos eleitores não chegou à caixa de correio do seu pai, ao que Sundar Pichai explicou como funciona o sistema de separadores do Gmail, que coloca as mensagens dos contactos de amigos e família num separador principal, deixando os restantes emails para separadores de marketing, correio não solicitado, etc. Não satisfeito com a explicação e desejoso de fazer crescer o tema junto da comunicação social, Greg Steube apontou que isso da prioritização dos emails familiares não funcionou com os emails da sua campanha, ao que Pichai referiu que os sistemas da Google não foram capazes de perceber que se tratava do seu pai. Assim se transforma uma discussão sobre práticas não-concorrenciais num episódio de campanha eleitoral.

Em Portland, uma mulher vestindo apenas um chapéu e uma máscara cirúrgica ficou à frente da polícia, que lhe atirou balas de gás pimenta aos pés para a desmobilizar. Não se tendo mexido, a polícia ficou parada e acabou por se ir embora 10 minutos depois. Um episódio sem incidentes de maior, desta vez, nos confrontos entre polícia e manifestantes em Portland, cidade para a qual Trump enviou agentes federais em veículos não identificados, os quais detiveram manifestantes sem se identificarem.

(continua)

Gran Tourismo by Quinta da Pacheca

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Semiótica tal como explicado pela Quinta da Pacheca.

O vírus (4)

Pela Europa, confirma-se a nulidade em que a União Europeia se transformou, incapaz de estar à altura de apresentar um plano conjunto de resposta à presente crise.

Assistimos ao habitual espectáculo da arrogância nórdica, como se não tivessem grande benefício com o mercado único, e à mão estendida dos países do sul, pródigos nos casos de corrupção na aplicação dos “subsídios”.

Agradecem esta desunião os restantes grandes blocos, como China e Rússia, que vêm a sua posição ficar mais consolidada de cada vez que os concorrentes não se conseguem organizar.

A “solução” europeia passa por uma forte dose de empréstimos, sejam eles a fundo perdido ou não. O ponto está no recurso ao empréstimo, em vez da opção pela emissão de moeda. Se a segunda opção se traduziria numa desvalorização transversal da riqueza, já a primeira assegura a manutenção do património dos poucos que controlam o sistema financeiro. Manutenção e, inclusivamente, aumento, já que alguém (os estados) acabará a pagar juros.

Sem surpresa, foi notícia que a riqueza dos multi-milionários aumentou ainda mais durante a pandemia.

(continua)

 

O vírus (3)

Graça Freitas e Marta Temido

Agora, a DGS já recomenda o uso de máscaras como medida de contenção do vírus.

É de recordar que Marta Temido e Graças Freitas insistiram repetidamente, no início do confinamento, que as máscaras era inúteis e que, veja-se só, até eram contra-indicadas. Estavam, então, em claro contraciclo com o que se fazia nos países que lutavam activamente contra a pandemia. Este volte-face ocorreu sem que proferissem uma palavra sobre o erro que cometeram e nem sobre as consequências que poderão ter causado aos portugueses.

Este panorama é a melhor fotografia da resposta do governo às crises, esta e anteriores. Houve muita conversa fiada, que se traduziu em propaganda diária em forma de conferência de imprensa. Assistimos à mão forte na legislação, sob forma da lei fecha-tudo, que nos permitiu ganhar tempo para nos prepararmos, mas que, vemos agora, não resultou em preparação visível por parte do Governo (continua-se a anunciar planos, em vez de execução dos anteriormente anunciados).

E, por fim, o tempo mediático não foi usado para educar os portugueses, tal como fez, por exemplo, a BBC, que passou repetidamente pequenos clips informativos (curtos!), tais como ensinar a usar a máscara, como lavar as mãos e divulgação científica.

(continua)