Porrada nos profs

Parabéns aos lobistas da indústria de conteúdos

 

Drama atinge o hemiciclo enquanto o Parlamento Europeu apoia projecto de lei dos direitos de autor
O Parlamento Europeu aprovou o polémico projecto de direitos de autor nesta quarta-feira (12 de Setembro), provocando aplausos de júbilo e uivos de desaprovação por parte dos eurodeputados no hemiciclo de Estrasburgo.

Particularmente, os artigos 11 e 13 foram ambos aprovados, tendo sido rejeitadas várias propostas de alteração oriundas dos opositores ao projecto.

O Artigo 11 obriga as plataformas de Internet que publicam fragmentos de informação a contratar uma licença do editor original do material, enquanto o artigo 13 pede aos provedores de serviços que monitorizem o comportamento do utilizador como meio de interceptar infracções dos direitos de autor.

Parece tudo aceitável, não parece? Esperem até verem negada a tentativa de carregarem uma selfie num estádio de futebol (1), ou de partilhar um vídeo onde aparece uma televisão a emitir qualquer coisa (2). Ou a partilharem uma gravação vossa de uma música de Beethoven (3). Ou a fazerem uma citação de um livro ou de um jornal (4).

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Este país não é para democratas

Ainda sou do tempo em que jornais livres e imparciais dedicavam grande parte das suas páginas virtuais a alertar os portugueses para o perigo da ameaça estalinista que pairava sobre o nosso país. Do tempo em que o Diabo havia de subir à Terra, só não se sabia bem quando. E ninguém lhes prestou atenção, como as sondagens (manipuladas, claro) iam mostrando.

Três anos e vários apocalipses depois, já com a população portuguesa reduzida a metade, na sequência das grandes purgas comunistas que vitimaram conservadores, liberais, membros do clero, proprietários de colégios privados, dirigentes da CIP e cronistas do Observador, a catástrofe é visível. A fome e o desemprego proliferam, a polícia política encarcera todos os Camilos Lourenços que apanha e os impostos levam cerca de 90% dos rendimentos dos portugueses, que fazem fila à porta do supermercado para comprar um quilo de arroz por valores exorbitantes.  [Read more…]

Rui Rio para a fogueira, já!

Segundo o líder do PSD, a so called “Taxa Robles” (oh, the irony) “não é assim tão disparatada”. Um dia destes ainda aparece numa valeta…

A União Europeia e a Internet, novamente

Isto cansa e o exército dos eurocratas ao serviço do lobby da indústria do entretenimento, camufladalo de defesa dos autores, acabará por ganhar por exaustão.

Amanhã, irá a votos a segunda versão da estratégia de censura da Internet, agora limada mas mantendo o tom.

Já tudo foi dito. Sobra a cada um informar-se sobre os novos desenvolvimentos e agir:

https://pt.saveyourinternet.eu

Entretanto, é de ler este post “Nova resposta de @marinhopintoeu a @ruitavares no jornal @Publico é surreal #SaveYourInternet #FixCopyright #SaveUsFromOurMEPs“. A estupidez é ilimitada.

Joana Marques Vidal e os passistas que fazem futurologia

Fotografia via Jornal de Negócios

Miguel Morgado, António Leitão Amaro, Duarte Marques, Miguel Poiares Maduro e José Eduardo Martins assinam um artigo de opinião no jornal Expresso, a propósito da recondução (ou não) de Joana Marques Vidal, que começa de forma algo romântica, mas pouco realista. Porque a recondução (ou não) da Procuradora-Geral da República está longe de ser uma das “escolhas fundamentais que definem o futuro do País e da nossa democracia”. Imagino que a recondução de Marques Vidal, para os sociais-democratas que assinam o artigo, corresponda a “escolher o regime e o país” que querem, até porque Joana Marques Vidal pouco ou nada incomodou os barões do seu partido, mas não vale a pena embandeirar em arco: os grandes gatunos continuam todos em liberdade. E não há registo de que andem a passar fome ou a dividir apartamento com cinco pessoas num qualquer bairro social. [Read more…]

1900

Longe de ser consensual, é verdade – por razões evidentes – o épico de Bertolucci é um filme arrebatador. Cortado e remontado por muitos e púdicos sensores, a versão do realizador é a indispensável.

17,6%

Foi o resultado dos Democratas da Suécia, nas Legislativas deste Domingo. Apesar da ironia presente na nomenclatura, trata-se de um partido de extrema-direita, alinhado com os seus congéneres da nova vaga fascista que ameaça a Europa. Uma vaga que já governa Itália, Hungria, Áustria e Polónia, com as melhorias que lhe são conhecidas no sistema democrático, e que espreita em França, na Alemanha e na Holanda, para não falar da malta do Brexit, que se deixou levar pelos Nigel Farages desta vida. [Read more…]

Todos falam (que chegamos ao fim)

É o tema que se segue.

O mito do emprego

A ler, no “Ladrões de bicicletas“.

“Para quem se exalta com que o que se passa no emprego em Portugal, conviria olhar para o gráfico [seguinte]” João Ramos de Almeida

A oposição-administração não muito silenciosa

Nos vertiginosos tempos em que vivemos, onde o instantâneo é regra e a reflexão tende a ocupar um lugar secundário, poderá pensar-se que uma notícia de quarta-feira passada cheire a bafio. Mas é bem actual e nem precisa de ser arejada.

Muitos têm apontado a natureza louca do presidente americano, tendo repetidamente sido adjectivados de tontos para baixo. Mas agora é um elemento da administração Trump quem o afirma, o que devia ser suficiente para que as luminárias nacionais, a par das restantes, engolissem uns sapos. Talvez se tenham ficado pelas cuisses de grenouille, no entanto.

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Vostok-18

Num momento em que a Rússia cresce para ocidente e a NATO se encontra fragilizada por Trump, russos e chineses brincam à guerra. Talvez o lacaio de Putin ache que uns fucks o façam passar a perna ao ex-agente do KGB e, quiçá, torná-lo chefe do mundo branco. No entanto, a aproximação entre chineses e russos, catalisada pelas suas guerras fáceis de ganhar, é mais um passo em direcção à nova ordem mundial, na qual Putin, e não Trump, é o centro que vai resultando da implosão liderada pelo pateta cor de laranja.

Amanhã há Marcha Mundial do Clima

Como é sabido, Trump nega as mudanças climáticas; os governos europeus não negam, mas estão a léguas de praticarem aquilo que declaram fazer em prol do clima – os interesses do capital sobrepõe-se às preocupações com o planeta. O governo português demonstra ao vivo essa hipócrita contradição persistindo nos projectos de petróleo frente a Aljezur ou de gás em Aljubarrota. Além de absurdo sob o ponto de vista ambiental, é bom saber Quem ganha com os contratos de exploração de petróleo em Portugal.

A Marcha Mundial do Clima é uma iniciativa a nível internacional que exige “um mundo livre de combustíveis fósseis, em que as pessoas e a justiça social estejam acima dos lucros”.

Lisboa, Porto e Faro juntam-se à Marcha, que se realiza já amanhã, 8 de Setembro. A partida é às 17 horas, respectivamente, do Cais do Sodré, da Praça da Liberdade e do Largo da Sé.

Uniram-se a esta iniciativa 47 organizações portuguesas, para exigir uma transição justa e rápida para as energias renováveis e para travar novos projectos de exploração de combustíveis fósseis em Portugal. Todos os municípios algarvios se opõem à realização do furo em Aljezur, que o governo teima em permitir à Eni-GALP, dispensando até uma Avaliação de Impacto Ambiental antes da autorização da realização da prospeção.

Não deixe de ir marchar, TERRA há só uma!

Tudo bons autarcas II – ‘pra cima de 300 polvos

Portugal é um país onde ainda existe muito medo de escrutinar o poder. Não faltam machos latinos para insultar homossexuais nas redes sociais, fascistas de armário a clamar por Salazar ou fanáticos preparados para tudo se a honra do seu clube for questionada, mas quando chega a hora de escrutinar o senhor ou a senhora presidente, que tão reverencialmente cumprimentamos no final da missa das 11h, tendemos para comer, engolir e calar.

Porque somos fáceis, e porque os predadores políticos sabem que somos fáceis, a corrupção acontece. Acontece em todas as estruturas estatais, da base ao topo da pirâmide, com maior ou menor descaramento. E porque o descaramento faz parte da equação, nada melhor que gerir uma pequena autarquia, onde o respeitinho que é bonito abunda e o senhor ou senhora presidente é intocável e acima de qualquer suspeita. [Read more…]

Brasil reabre alas ao glifosato

Foto disponibilizada por Isabel Falcão

A Bayer e o seu presidente administrativo Werner Baumann devem ter respirado muito fundo e agradecido profundamente, sabe-se lá por via de que modalidade, ao presidente do Tribunal Regional Federal da Primeira Região (TRF-1), Kássio Marques, que aceitou, a segunda-feira passada, “o recurso contra liminar da Justiça Federal que suspendia o registro do Glifosato e demais agrotóxicos até a conclusão da análise de toxicidade pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Com a decisão do TRF, os agrotóxicos voltam a ter o uso liberado nas plantações brasileiras.“

O que interessam argumentos em defesa da Saúde e do princípio da precaução, se “sua proibição causaria impacto nos lucros da indústria do agronegócio, modelo de negócios seguido no país”???

O Brasil é o segundo maior mercado da monstruosa Monsanto, e portanto da Bayer, e a Bayer Cropscience do Brasil é a quarta maior operação do Grupo Bayer no mundo, possuindo duas importantes fábricas localizadas em São Paulo, cidade onde também fica a sede brasileira, e em Belford Roxo.

No que diz respeito ao controle das transnacionais sobre a agricultura brasileira, o que mais chama atenção nos dias de hoje é a crescente difusão das sementes transgênicas pelas grandes empresas do setor, como Monsanto, Bayer, Syngenta, que também são as grandes produtoras de agroquímicos, o que contribuiu para a transformação do Brasil no maior consumidor mundial de agrotóxicos (…).

No que toca ao agronegócio, modelo de produção agrícola dominante no Brasil, também os governos de esquerda produziram um colossal desastre, para mal do planeta e de toda humanidade. Nem é bom pensar no futuro.

Dois dedos de testa

Lê-se no PÚBLICO:

UTAO estima défice de 1,6% no semestre com impacto do Novo Banco

No período de Janeiro a Junho de 2018, destaca-se “o accionamento do mecanismo de recapitalização contingente do Novo Banco”, salientou a Unidade Técnica de Apoio Orçamental

E na TSF:

Bruxelas avisa: despesas com salários e carreiras vão pesar no défice

A Comissão Europeia reitera que a situação financeira de Portugal continua “largamente favorável”, mas reforça a importância de o país prosseguir a consolidação fiscal e reformas estruturais.

Esta segunda notícia, oportunamente semeada quando se discute o orçamento de estado, leva-me a pensar se esta gentinha da política acha que não temos dois dedos de testa. A resposta é óbvia.

Quanto à primeira notícia, então esse BES não tinha sido “resolvido” sem custos para o contribuinte? Pergunte-se à dona dona Cristas, que ainda por aí anda, apesar de entretida a ver passar os comboios (descobriu-os agora, mas nós avivamos-lhe a memória: “Ex-deputado do CDS nomeado presidente da CP“).

Anormalidades de um ano “normal”

[Santana Castilho*]

Tiago Brandão Rodrigues, em registo que já constituiu padrão, disse várias tolices a propósito do início do ano-lectivo, a saber: “estão criadas todas as condições para que o ano escolar possa começar a tempo; pudemos fazer algo que não acontecia até 2016. Em 2016, 2017, e acreditamos que também em 2018, começámos com normalidade e tranquilidade os anos-lectivos e em Setembro; há pouco tempo tivemos anos-lectivos que se iniciaram em Outubro e Novembro”.

Anos-lectivos a começarem em Novembro? Só quando o pequeno ministro era ainda mais pequeno e usava fraldas. Nunca há pouco tempo.

Vejamos, agora, detalhes de um ano-lectivo que para o ministro começa com normalidade e tranquilidade, mas que para o vulgar dos mortais arranca com uma pesada dúvida: os sindicatos ameaçam com uma paralisação de aulas logo em Outubro.

É pouco chamar obscena à colocação de professores a 30 de Agosto, por parte de um Governo que, ao invés de os proteger, os agride desumanamente. Porque é desumano, até ao último dia das férias, muitos professores não saberem se têm trabalho ou se têm que ir para a fila de um qualquer fundo de desemprego; porque é inumano, depois disso, dar-lhes 72 horas para arranjarem alojamento e escola para os filhos, algures a dezenas ou centenas de quilómetros de casa, como se não tivessem família nem vida pessoal. Esta forma com que o Governo tratou os seus professores esteve ao nível da insensibilidade patenteada por quem o representa, quando afirmou que a desgraça de Monchique foi a “excepção que confirmou a regra do sucesso”. [Read more…]

Espalhafatos e coisinhas assim

Lear. Get thee glasse-eyes, and like a scuruy Politician, seeme to see the things thou dost not.
— Shakespeare, “King Lear” (Folio I, 1623)

A TextGrid is a collection of tiers (this rhymes with cheers, not with liars).
— Paul Boersma (p. 350)

… ’tás sempre a falar coisinhas assim.
— Rodolfo Reis, 2/9/2018

***

Mais imagens esclarecedoras.

A propósito, convém sempre regressar a este belíssimo texto de Donald Davidson, cujo trecho mais célebre é o seguinte (p. 47):

A picture is not worth a thousand words, or any other number. Words are the wrong currency to exchange for a picture.

oito anos, dois meses e dez dias, o Expresso anunciou a adopção do AO90. Eis um dos resultados tangíveis das grafias utilizadas por quem actualmente adopta esse modelo ortográfico [Read more…]

A Ciência e Cultura em chamas no Brasil

O mundo ficou perplexo diante da destruição de milhões de peças com o incêndio do Museu Nacional , no Rio de Janeiro, Brasil, na noite deste domingo, 02 de setembro, e que abrigava 200 anos de história, arte e ciência.

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Eu gosto é do verão

Também gosto do verei, do verás, do verá, do veremos e, efectivamente, do vereis, actualmente tão menosprezado.

A nova ordem mundial em curso

Malcolm Nance discute o best-seller do New York Times, “O enredo para destruir a democracia: como Putin e os seus espiões estão a minar a América e a desmantelar o Ocidente“.

O tom da palestra começa com algum humor.

«Vou dizer-vos uma coisa sobre o mundo da espionagem. Trabalhamos [a equipa de observação] em edifícios, e em salas pequenas, sem janelas e não se consegue entrar numa dessas salas sem uma cripto-chave e uma autorização para ter acesso a essa chave. E tudo o que fazemos é dizer piadas durante todo o dia. A sério, não é nada sério, tal como se vê nos filmes do Jason Born. É apenas piadas seguidas de piadas. Tal como, “Ups, alguém teve um mau dia no Congo, foi o que aconteceu agora. Tiveram outro golpe palaciano? Não! O avião do primeiro-ministro caiu e morreram 40 pessoas.” Literalmente. E depois vem algo espirituoso. “Ele estava no avião?” Claro que ele estava no avião. Está no avião nesta parte do Congo, está no avião naquela parte Congo. É isto que faz a Secção de Observação da Espionagem. Se alguém da comunidade estiver a ouvir, sabem do que é que estou a falar.»

Sem abandonar o registo, logo passa a um tom mais sério, dissertando sobre o que está à vista de todos, mas coberto pelo manto da contra-informação. Toda a informação apresentada está disponível publicamente e pode ser verificada por quem o quiser fazer. A diferença está em ligar as pontas soltas.

Post scriptum
Não é claro a que acidente aéreo se refere Nance. Eventualmente poderá ser aquele onde, entre outros, faleceu Augustin Katumba Mwanke (assessor sénior do Presidente) e onde Matato Ponyo Mapo (ministro das finanças) sofreu graves ferimentos. Como sempre, nunca podemos desligar o sentido crítico perante a informação que recebemos.

Poema do detetive e companhia singular

Detetive, detetiveste, deteteve. Fim.

Dúvidas legítimas da Fenprof

Lear. Blow windes,& crack your cheeks; Rage,blow
You Cataracts, and Hyrricano’s spout,
Till you haue drench’d our Steeples, drown the Cockes.
You Sulph’rous and Thought-executing Fires,
Vaunt-curriors of Oake-cleauing Thunder-bolts,
Sindge my white head. And thou all-shaking Thunder,
Strike flat the thicke Rotundity o’th’world,
Cracke Natures moulds, all germaines spill at once
That makes ingratefull Man.
[…]
Heere I stand your Slaue,
A poore, infirme, weake, and dispis’d old man
— Shakespeare, “King Lear” (Folio I, 1623)
Reg. We shall further thinke of it.
Gon. We must do something,and i’th’heate. 
— Shakespeare, “King Lear” (Folio I, 1623)
***

Segundo o Expresso, o secretário-geral da Fenprof duvida que esteja tudo preparado para uma abertura sem problemas do ano ‘letivo’. Mário Nogueira menciona uma visão idílica do ministro da Educação, por este garantir que tudo está preparado para que o ano ‘letivo’ comece com normalidade. De facto, se experimentassem uma abertura do ano lectivo, veriam que um dos problemas ficava logo resolvido.

Efectivamente, esta imagem actual do sítio do costume

deve-se a visões idílicas de anos ‘letivos’.

De facto, também a aplicação do Acordo Ortográfico de 1990, aparentemente, decorre com normalidade, ou seja, sem «estrangulamentos e constrangimentos».

Exactamente.

***

Em nome da Coerência

Há dois dias, o ministro do Ambiente francês demitiu-se lapidarmente: “Não quero continuar a mentir-me a mim próprio. Não quero dar a ilusão de que a minha presença no Governo significa que estamos à altura dos desafios (ambientais) e, por isso, decidi demitir-me”, anunciou Nicolas Hulot. E foi-se.

Macron, que fez da luta contra as mudanças climáticas uma das suas bandeiras, tinha prometido durante a campanha eleitoral objectivos ambientais ambiciosos, como a proibição do glifosato ou a redução para metade da produção de energia nuclear em França até 2025.

O balanço de Hulot, ao fim de pouco mais de um ano em funções, é explícito: “Já começámos a reduzir o uso de pesticidas? A resposta é não. Já começámos a fazer alguma coisa contra a perda da biodiversidade? A resposta é não. Já começámos a fazer algo para a preservação dos nossos solos? A resposta é não.” [Read more…]

Postais da Raia #6 a #10 (de Cáceres a Castelo de Vide)

As terras do extremo e a campa triste de um capitão de Abril

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Tenho passado os últimos dias a atravessar fronteiras, sempre entre os mesmos países, embora em sítios diferentes. Saindo do Sabugal e do maravilhoso e relaxante hotel do Cró, de um quarto com vista para todas as estrelas do universo e com uma banheira também com vista para os campos, atravessei a fronteira na Aldeia do Bispo, sem que Espanha se fizesse anunciar. Apenas reparei que os sinais de trânsito eram diferentes e a estrada um pouco melhor. De resto, não se dá pela fronteira, nem creio que ela exista para muitos dos que a cruzam quotidianamente entre o lado português e o lado espanhol. Anda-se um bocadinho em Castela e Leão e entramos na Extremadura, ou nas terras que estão no extremo. De Espanha, claro, porque a seguir ainda há Portugal que tem as suas próprias terras do extremo, ali à beira do oceano, a última das fronteiras, o último dos horizontes, ou se calhar (de certeza, vá) não.
 

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Os agentes da ortografia

Quis pedir ajuda, mas a língua estava morta.
Mesa & Rui Reininho

Si cada español hablara de lo que sabe y solo de lo que sabe, se haría un gran silencio nacional que podríamos aprovechar para estudiar.
— Manuel Azaña (apud Felipe González)

Wenn der Mann auf dem Bett liegt und dieses ins Zittern gebracht ist, wird die Egge auf den Körper gesenkt. Sie stellt sich von selbst so ein, daß sie nur knapp mit den Spitzen den Körper berührt; ist diese Einstellung vollzogen, strafft sich sofort dieses Stahlseil zu einer Stange. Und nun beginnt das Spiel.
Franz Kafka, (ARD, adapt. 00:26:51)

***

Há erros ortográficos que nos dão indicações importantes sobre aspectos fonéticos e fonológicos. Um *’fato’ em vez de ‘facto’ ou um *’contato’ em vez de ‘contacto’, por exemplo, dão-nos interessantes pistas sobre as quais nos podemos debruçar hipoteticamente logo no segundo ponto deste decálogo. De igual modo, é sabido (por exemplo, por Cook) que um falante de uma língua estrangeira, através de certas características ortográficas presentes em textos escritos nessa língua — e não só com dados denunciados pela pronunciação —, pode desvendar particularidades do sistema fonológico da língua materna e não só do sistema de escrita em que o falante, leitor e escrevente aprendeu a ler e a escrever.

Também é sabido há muito (por exemplo, por Maria Helena Mira Mateus) que um <s> em vez de <ç> (como a *’insersão’ em vez de ‘inserção’ dos autores da Nota Explicativa do Acordo Ortográfico de 1990) demonstra a falta de adequação do “critério fonético (ou da pronúncia)”, pois “a ortografia portuguesa é fonológica e etimológica e não fonética”. Sabe-se agora também que <ç> em vez de <s> (como um *’dorço’ em vez de ‘dorso’) leva a polícia brasileira a ter dúvidas sobre a autenticidade de documentos.

Adiante.

No sítio do costume, tudo como dantes.

Através da RTP, percebe-se, [Read more…]

Postais da Raia #5 (Sabugal e arredores)

A Nave de Pedra

 

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«Quem vem de longe, das terras frescas do litoral, onde o verde salpica os olhos e se debruça nas estradas, e após a transição das ravinas do Zêzere, encontra uma paisagem que passo a passo se atormenta: a Beira Baixa. Aí, transposta que é a charneca com a sua cabeleira rala, nos cômoros a ferida aberta das ribeiras que descem ao Tejo por entre sobressaltos de xisto, ou ainda o dourado da campanha da Idanha, a querer-se alentejana sem o ser – aí, senhores, já a tristeza começa a espessar-se, a montanha crepita tendo por detrás relances de horizontes fundos, e as coisas se tornam graves. Ei-lo, um mundo de soledade, sobre que pesam crimes, mesmo se as frondes e as ramadas lhe escondem as dores do exílio.
 
Assim, de facto, o sentimos: remoto e em degredo. E Monsanto se chama, de pedra é feito – minha nave coalhada.» *
 

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Uma questão de escolha

Não me interessa saber se pertencem a uma minoria étnica, ou se são altos, loiros e possuem olhos azuis. Tão pouco me interessa se são ateus, agnósticos, cristãos, judeus, muçulmanos ou budistas. Quem teima em viver à margem da lei, atentando contra o direito à propriedade, tem que sofrer duras consequências.
Após uma frustrada tentativa de furto no interior de estabelecimento comercial, a segurança chamou a polícia que identificou os autores do crime, em seguida dezenas de familiares tentaram tirar desforço, agredindo os agentes que tiveram que receber tratamento hospitalar. Tudo isto sem que alguém tenha sido detido, apenas três pessoas foram identificadas e sabemos que isso resulta sempre em nada.
É inadmissível que ocorram este tipo de situações, sem que a polícia possa usar a força. Entre um polícia e um bandido, nem hesito, prefiro que o polícia. Mas todos sabemos que nestes casos se os agentes tivessem cumprido inteiramente o seu dever, no dia seguinte estariam acusados pelos que sempre desculpabilizam criminosos. Quando estes pertencem a uma qualquer minoria ainda aparecem algumas associações com acusações de racismo ou xenofobia.
A continuarem com este tipo de permissividade, não se queixem que um destes dias o populismo encontre terreno fértil para o crescimento eleitoral. Viver dentro ou fora da lei é também uma questão de escolha e escolhas têm consequências. Doa a quem doer, criminoso merece tolerância zero, a bem da sociedade.

Postais da Raia #3 e #4 (Sabugal e arredores)

«Ah, mas onde é que estão as aldeias todas?»*

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E podia ficar-me apenas por aqui, para resumir os últimos dois (mesmo três) dias. Não é que as aldeias não existam, mas a verdade é que estas aldeias (as históricas e as outras) não existem, ou já quase não existem. As razões são múltiplas, escrevi-o antes de antes de ontem e variam entre o abandono e a ruína e a transformação noutra coisa qualquer.

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O favor que afinal não é favor nenhum.

[fb maquinistas]

Os horários de caminho de ferro são um intrincado bailado horário, onde um comboio avariado no Sul pode significar o atraso de um comboio no Norte de Portugal, mesmo sem qualquer atraso intencional para garantir ligações.
Um comboio especial circula fora do horário planeado, muitas vezes através de vários eixos horário diferentes. Isto torna o seu encaixe algo de muito complicado.
Uma das maneiras de encaixar um comboio rápido de passageiros fretado e garantir que o mesmo tenha tempos de viagem idênticos aos comboios regulares rápidos é aceitar pequenos atrasos nos comboios mais lentos causados pela ultrapassagem do comboio especial rápido.

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