De bem com Deus e com o Saramago

 

 

     Naquele dia, Jesus  invadiu os aposentos do Pai, gritando, com a pressa de trazer a Má Nova:

     – Ó pai, ó pai, trago más notícias!

     – Irra! Já ando há mais de dois mil anos a dizer-te a mesma coisa! Quando chamares por Mim, usas maiúsculas. Fazes favor, sais, e voltas a entrar como deve ser. Só não te fulmino, porque sei que ressuscitas ao terceiro dia.

     Jesus encolheu os ombros e saiu. Com o mesmo entusiasmo, reentrou, clamando:

     – Ó Pai, ó Pai, trago más notícias!

     – Vês como és capaz? Diz lá, Meu filho.

     – O Saramago anda outra vez a criticar a Igreja e a Bíblia.

     – Saramago? Quem é esse?

     – Aquele escritor que até escreveu um livro sobre mim.

     – Com essa descrição, havemos de ir longe.

     – É aquele português que, por causa de um senhor que disse mal desse livro, resolveu dizer que se exilava em Lanzarote.

     – Ui, já Me lembro! Na altura, até pensei que se todos os portugueses com razões de queixa do governo fossem para Lanzarote, aquilo já tinha ido ao fundo. Mas, então, o homem disse mal da Igreja e da Bíblia? Mesmo que dissesse mal de Mim, qual era o problema? Até parece que não sou omnipotente. Mas, afinal, quais são as más notícias?

     – É que o pessoal da Igreja e afins ficou logo todo encrespado.

     – Pronto, já estou mesmo a ver! O rapaz Saramago comete o erro básico de falar de literatura como se fosse a realidade e o pessoal da sotaina cai-lhe em cima porque pensam que não se pode dizer mal do livro preferido deles.

     – É um bocado isso, é.

     – É o costume: têm a mania que falam em Meu nome. Se estivessem mais preocupados em dar a outra face em vez de se comportarem como membros de uma claque de futebol…! Mas tu, deixa-te estar, com aquela cena macaca de andares a bater nos vendilhões também lhes deste um rico exemplo.

     – Ó pai, outra vez essa história? Até parece que não te fartaste de fulminar gente!

     – Olha as maiúsculas, rapaz!

    

 

Clube dos Poetas Imortais: Orlando da Costa (1929-2006)

 

Conheci Orlando da Costa em 1971.Nesse ano, vim trabalhar para uma editora ligada na altura a um grupo editorial de Barcelona. A editora ia lançar aqui uma obra de grande sucesso internacional e contactámos a agência de que Orlando da Costa era director criativo para se encarregar da campanha publicitária, em todos os meios – na televisão, na rádio, na imprensa… Eu era o interlocutor da editora junto da agência e aquele fim de Primavera foi agitado, com reuniões intermináveis, após o que íamos beber um copo (às vezes mais do que um).

 

Era conhecido dentro da comunidade literária, pois o seu romance «O Signo da Ira», recebera Prémio Ricardo Malheiros de 1961. Sabia também algo sobre a sua actividade política, a militância antifascista, as prisões. Ele ouvira falar de mim, pois a minha prisão em 1968, alegadamente pela publicação de «A Voz e o Sangue» foi comentada no meio. Tornámo-nos amigos. Com o tempo, as relações profissionais (ele foi mudando de agência e a editora foi sempre atrás dele) conduziram a uma amizade muito grande e a um grande respeito mútuo, mesmo quando não estávamos de acordo – era militante do Partido Comunista e eu sempre fui muito crítico relativamente à prática política do PCP – antes e depois do 25 de Abril.

 

 

Orlando da Costa era um bom escritor, mas mais importante do que isso, era um homem bom, de uma grande dignidade e com um incomum sentido das suas responsabilidades cívicas. Depois de um jantar organizado por uma editora, em 2005, já ele estava doente, não voltámos a estar juntos, mas falámos muito pelo telefone. Por um amigo comum, o António Andrade, ia sabendo da evolução negativa da doença. Até que o Andrade me telefonou a dar a triste notícia da sua morte, antes de os canais de televisão. Lá fui à Basílica da Estrela – estivera lá a despedir-me do David Mourão-Ferreira, depois foi o Orlando e, em 2008, o velho Luiz Pacheco.

Não gosto nada da Basílica da Estrela.

Orlando da Costa, nasceu em Lourenço Marques, actual Maputo, em 1929, numa família goesa. Foi criado em Margão, vindo para Lisboa, com apenas 18 anos, em cuja Faculdade de Letras se licenciou em Ciências Histórico-Filosóficas. Ficcionista, dramaturgo e poeta, publicou uma dezena de livros, dos quais saliento os romances «O Signo da Ira» (1961), «Podem Chamar-me Eurídice» (1964), «Os Netos de Norton» (1994) e «O Último Olhar de Manú Miranda» (2000). O poema que seleccionei, foi publicado na antologia «Poemabril» (1984) e foi musicado pelo maestro Fernando Lopes-Graça:

Canto Civil – 1

            Este é o meu canto civil

            canto cívico graduado

            desde um tempo antigo que vivi

            entre poemas de aço camuflados e algemas de silêncio

            Esse era o tempo do assalto às casernas

            mas já então eu escrevia o que devia:

            a cartilha da guerrilha do amor e da paz

            para ser ensinada à luz das lanternas

            nas escolas nas igrejas na parada dos quartéis

 

            Este é o meu canto civil

            canto cívico desfardado

            escrito a vinte e oito de Abril

            do ano passado à noite

            de punho cerrado com alegria e sem espanto

            canto para ser cantado de dia

            por todos por muitos por mim ou por ninguém:

           

            Soldado raso

            ao cimo da calçada

            em guarda

            de flor e farda

            a flor que te damos

            é pão da madrugada

 

            É pão amassado

            sem liberdade

            é gesto de guerra

            em nome da paz.

            É flor de canção

            em terra mar e ar

            rubra flor popular

            num só cano de espingarda

            Soldado raso

            em sentido na memória

            lembra-te de novo e sempre

            a flor que te damos

            é da terra é do povo

            é pão da madrugada.

 

 

A Sinistra Ministra Isabel Alçada II, seguida de sábios vereadores das Novas Oportunidades

TEXTO DE ARREBENTA

Neste blogue praticam-se a Liberdade e o Direito de Expressão próprios das Sociedades Avançadas

 

O Kaos continua-me a falhar com a primeira representação oficial da Sinistra Ministra Isabel Alçada, de maneira que vamos com as Letras, que abraçam a Ignorância, uma justa alegoria da situação.

Hoje, até porque estou muito mais entretido a polir um osso de dinossauro, vou tentar ser breve, e vou voltar ao pobre do Filipe, e do bom ano em que nos conhecemos, e nunca mais me esqueço dele, com ar apavorado, quando eu lhe pus o K. 466, na tonalidade demoníaca de Ré Menor, para lhe mostrar o que podia ser a inquietação e o medo, e ele me perguntou, "mas, olha, tu queres mesmo ser meu amigo?… É que eu venho de uma família tão má, que, na Covilhã, até temos um ditado que fala de nós, e passo a repeti-lo: "Alçadas e gaios, se os virdes, matai-os…"

Suponho que não seja preciso dizer mais nada, e, como há exceções, lá seguimos amigos, mas com a sombra da nova Sinistra Ministra, a que dá facadas com sorrisos, a emergir, no crepúsculo do Socratismo — sim, rapariga, Ana Maria Magalhães dará uma boa Secretária de Estado — e, se ela não aceitar, sempre tens uma série de bruxas que tu e eu bem conhecemos, e que podem alçar-se, salvo seja, aos cargos. (Já repararam em como aqueles blogues, muito aguerridos, da "Educação", se calaram agora, não vá a nova Sinistra lembrar-se de convidar algum dos seus rigorosos autores para o Gabinete?… Pois… É…)

 

A Isabel recuperou uma história semienterrada, e agora vamos aos temas sérios, o traço de caráter da cínica, ambiciosa, pretenciosa e "snob" nova Patroa da Educação, de um tempo passado, quando, mal a Gulbenkian rejeitara o Plano Nacional de Leitura, da autoria de Conceição Rolo e Manuela Malhoa Gomes, através daqueles artifícios, muito conhecidos, da desculpa, olhe é muito bom, mas nós não queremos, que mais parecem aforismos do que argumentos, ele ter, logo de seguida, ressurgido, como "ideia" própria de Isabel Alçada. Boa safra, e há quem ainda tenha também, bem sonante, o timbre de voz, reles e ordinário, de ela a afrontar a Maria do Carmo Vieira, dizendo-lhe que, no Português, os Clássicos não tinham interesse algum (!). Suponho que preferisse as Aventuras da sua Boca da Servidão…

O resto é ainda mais triste, e retrato da taberna suja em que vivemos: donas e donas da rua, diariamente, se dirigem aos Centros de Novas Oportunidades, para obterem o "tal" diploma, que lhes confirma aquilo que sempre afirmaram, "saberem tanto como doutores…", mas a derradeira informação veio-me da Laura "Bouche", daquelas figuras que, se um dia despejasse tudo cá para fora, não era o Governo que caía, mas o País inteiro… É uma história, linda, comovente, um conto de fadas para o vosso sábado, e até podem investigar quem será o protagonista, que eu não tenho pachorra nenhuma para essas minudências.

Então, resume-se assim: com a nova escória eleita para a Câmara Municipal de Lisboa, uma sua velha amiga, de outras eras mais serenas, advogada, vai ficar agora tutelada, e às ordens, de um Vereador, persona grata, que está a acabar de tirar o 9º Ano num CNO.

Such a wonderful world… 🙂

 

(Escrito com a ligeireza do tédio dos sábados à noite, no "Aventar", no "Arrebenta-SOL", no "A Sinistra Ministra Isabel Alçada", no "Democracia em Portugal", no "Klandestino" e em "The Braganza Mothers")

 

FUTAventar – O Braga é uma senhora equipa

Bom jogo, com duas boas equipas a darem vivacidade ao futebol para melhor procurarem a vitória.

 

Um Braga que dominou por completo a primeira parte, até ao golo do Naval, resultado de uma possível falta do Tomas sobre um jogador do Braga que transportava a bola.

 

Os números não enganam, o Braga teve perto de 60% de posse de bola, rematou três vezes mais, mas a verdade é que marcaram um golo cada.

 

Mesmo que o Benfica ganhe amanhã o Braga, vai continuar em primeiro, o que é uma boa proeza. Oxalá não venha a ser castigado pelo atrevimento.

 

Em Portugal, vimos bem como o Boavista conseguiu ganhar um campeonato, em plena época gloriosa do homem de Gondomar…

Poemas com história: Reunião conspirativa

Este poema foi escrito em 1968. Inspirei-me numa reunião em casa de antifascistas abastados de uma cidade de província no Outono daquele annus horribilis do capitalismo internacional e da ditadura portuguesa – com a onda de choque do Maio parisiense a atingir as universidades, com Salazar a cair da cadeira, com a agudização da Guerra Colonial, sobretudo na Guiné. A repressão aumentava, mas a esperança dos antifascistas também. A forma de exprimir essa esperança assumia, por vezes, aspectos caricatos, como os que refiro no poema. A «unidade antifascista» obrigava, porém, a pactuar com este tipo de «resistência», onde havia mistos de reunião conspirativa, cocktail e vernissage. Com outros dois companheiros, percorremos algumas centenas de quilómetros para assistir a uma suposta reunião política e deparou-se-nos um agradável e acolhedor, mas politicamente inócuo, convívio social  entre a burguesia bem pensante da pequena cidade. Nessa altura, por bem pensante já se entendia ser democrata e antifascista. Apenas se salvou a recolha de fundos a que procedemos (o uísque também não era nada mau). O poema com que reagi a esta realidade só foi publicado, no meu livro O Cárcere e o Prado Luminoso, mais de vinte anos depois de ser escrito. Diz assim:

 

Reunião conspirativa

Uma memória dos anos sessenta

 

Chez revolucionário de lareira,

cada coisa está no seu lugar:

Lenine na estante,

uísque na garrafeira.

Nas paredes é uma festa:

Mondrian, Utrillo e Leonardo

(em boas molduras de aço anodizado),

submetem-se ao poster;

«Che» preside,

com os cabelos ao vento da Baía e a boina guerrilheira. (1)

Cá em baixo,

ao nível da alcatifa,

o Zeca chora a morte da ceifeira.

Come-se aperitivos de importação

e (presença da cultura popular)

pastéis de bacalhau.

Entre um cigarro americano

e uma (oportuna) citação

do presidente Mao,

a anfitriã cala o Zeca

e liga a televisão.

_________

(1)     – O muito divulgado poster com o retrato de Ernesto «Che» Guevara, depois também estampado em T-shirts, pensava-se na altura que era uma fotografia tirada quando foi repelida a invasão da Baía dos Porcos, organizada pela CIA. Soube-se depois que fora feita em 5 de Março de 1960 pelo grande fotógrafo cubano Alberto Korda, quando uma sabotagem fez explodir um barco em Havana.

 

Letra e espírito – Saramago e Carreira das neves

Afinal a diferença de opiniões sobre a Biblia não é mais que a discussão entre  duas formas de a  interpretar. Literal ou metaforicamente.

 

Se literal, o que Saramago faz, ele que, como bem observa António Pina, é um genial criador de metaforas, então a Bíblia não passa de um "manual de maus costumes". Se interpretada como forma  metaforica de explicação divina, então o "espírito" das "sagradas escrituras" estaria nas mãos da Igreja e só esta a saberá interpretar .

 

Saramago, reinvinda, para si e para os não crentes, o direito à heresia e à dissidência. Reinvindica o direito à não aceitação da interpretação "espiritual" e "divina" que a Igreja dá á Bíblia.

 

O Padre Carreira das Neves, apresentou como grande argumento o facto de só numa biblioteca em Jerusalém haver 300 000 livros e em Mafra, (o do Manual do Convento) mais 200 000 livros a falarem da Bíblia, o que mostra bem como se trata de textos extraordinários.Todas estas milhares de pessoas que escreveram e interpretraram os textos sagrados não podem ser todas estúpidas .

 

Reconheço que Saramago esteve melhor do que eu previa e que Carreira das Neves não deu uma para a caixa, mesmo estando do lado de Deus.

 

Enfim, ganhamos todos com esta discussão porque aprendemos todos e voltamos ao princípio. O que interessa mesmo é estarmos de bem com nós mesmos e com o próximo! ( puxa, vem na Bíblia….)

Novo Governo: A continuação das políticas

O núcleo duro diz tudo, as políticas deste governo, no essencial, vão continuar.

 

Vêm aí as obras públicas pese a dívida pública ser monstruosa. O déficite está em 6/7% do PIB, e a desorçamentação é uma vergonha, escondendo dívida e déficite nas parcerias público/privadas e nas empresas públicas (só nas empresas de transportes estarão escondidos 20% do PIB de dívida).

 

Campos e Cunha diz que não há um tostão para financiar os megaprojectos, o que não deixando de ser uma evidência, não deixa de assustar.

 

O novo ministro das Obras Públicas é um declarado adepto do investimento público, não se sabe é, se o é, nas condições actuais, mas palpita-me que se não fosse, não seria nomeado.

 

As novas caras, não têm peso político próprio nem têm experiência política relevante, pelo que tudo indica que Sócrates vai estar ainda mais presente. Um governo de rédea curta, com uma grande componente política e comunicacional, navegando à vista, com os dois olhos na opinião pública e nas sondagens.

 

Se lhe derem condições, sondagens favoráveis e um pretexto político, Sócrates  vai forçar Cavaco a marcar eleições antes do fim do mandato.

 

A vida não estará fácil para nenhum de nós, já estamos a empobrecer e vamos continuar.

As mesmas políticas vão dar o mesmo resultado!

 

 

Esmiúçar o Aventar

O Carlos Loures ama a literatura, os livros, como a si mesmo (é Biblico e é verdade).

 

O Adão Cruz , abomina a sociedade do desperdício, da injustiça social  e acredita que há sistemas de organização política da sociedade mais capazes.

 

O Luis Moreira e outros Aventadores, não esquecem que a vida pública de Saramago não é uma lição de cidadania, e não gostam do homem, pronto!

 

A ponderação destas três verdades levam à posição individual de cada um deles quanto a Saramago.

 

O Carlos, dá prioridade ao escritor que Saramago é, o Adão, dá prioridade ao comunista que Saramago nunca escondeu ser, e eu dou prioridade ao facto de Saramago ser um homem cheio de ódios e de problemas mal resolvidos, com a sua gente e o seu país!

 

Desengane-se quem julga que algum de nós se converte, ou que tomemos esta divergência, como insanável. Nem uma coisa nem outra. Ficamos assim!

A máquina do tempo: canções de beber (de Omar Khayyam a Fernando Pessoa)

 

Vamos a uma viagem pelo território de Baco. Entre dornas e jarros de tinto, passaremos pela Pérsia dos séculos XI e XII da era cristã e viremos depois até Lisboa, em Setembro de 1935.

                        Vinho! O meu coração enfermo quer este remédio!

                        Vinho de perfume almiscarado! Vinho cor de rosas!

                        Vinho, para extinguir o incêndio da minha tristeza!

                        Vinho e o teu alaúde de cordas de seda, ó minha bem-amada!

 São versos de Omar Khayyam. Ainda hoje na poesia popular do Irão se usa uma forma arcaica de rima – os rubai e os rubayat – o rubai pode ter a rima a a a a ou a a b a ou a a b b, ou seja poemas de dois versos com dois hemistíquios, que são as metades ou partes de um verso, em particular de um alexandrino. O rubayat possui uma forma de métrica quantitativa inusual na poesia árabe, medindo-se a quarteta com a quantidade de sílabas e não com a quantidade de sílabas curtas e longas. Foi seguindo estes cânones que Omar Khayyam (1048-1132), mestre da chamada quadra persa, escreveu a sua sumptuosa poesia.

 

Omar Khayyam nasceu em Nichapur, no actual território do Irão. O seu nome completo era Gheyas ad-Din Abu ol-Fath Umar Ibrahim ol-Khayymi. O último nome significa «fabricante de tendas», que era o ofício de seu pai. Não foi a poesia que o celebrizou, mas sim a matemática, pois foi autor de um tratado sobre equações do 3º grau – as «Demonstrações de problemas de al-jahr e al-Muqabalah», – obra que integra uma classificação de equações. Para cada tipo de equação do 3º grau, Khayyam aponta uma construção geométrica de raízes. Procurando provar o 5º postulado de Euclides, reconheceu a relação entre este postulado e a soma dos ângulos do quadrilátero e, consequentemente, do triângulo.

Além de matemático e poeta, Khayyam foi astrónomo e filósofo. Ouçam só este rubai, traduzido directamente do persa para o português por Halima Naimova, investigadora luso – russa da Biblioteca Nacional:

                        É madrugada. Levanta-te, ó essência de deleite!

                        Bebe suavemente, tocando a harpa.

                        Deixa aqueles que estão adormecidos. Eles não encontrarão a verdade.

                        Deixa aqueles que foram. Eles nunca voltarão.

Foi, pois, com o rigor do matemático e com a visão ampla do astrónomo que construiu os seus rubai e rubayat. E a prodigiosa fantasia com que vestia a filosófica estrutura da sua poesia? Essa, talvez lhe fosse dada pelo vinho. Sim, pelo, vinho. Bom maometano, Khayyam gostava de beber. E não se trata de uma infracção, porque, segundo julgo saber, o profeta apenas proibiu o vinho de tâmara e foram os homens da estrutura clerical do Islão que tornaram a proibição extensiva a todas as bebidas alcoólicas. Perguntava, retoricamente, o poeta: «O que será preferível? Sentarmo-nos numa taberna e em seguida fazermos um exame de consciência, ou prosternarmo-nos numa mesquita com a alma fechada?». E disse também: «Bebe vinho! Receberás uma vida eterna. O vinho é o único elixir que te pode devolver a juventude. Divina estação das rosas – vinho e amigos sinceros! Frui este fugitivo instante que a vida é.»

Fernando Pessoa estudou a fundo a obra de Omar Khayyam. E escreveu rubai e rubayat. Foi a investigadora da Faculdade de Letras de Lisboa, Professora Maria Aliete Galhoz quem recuperou esses rubai e rubayat, quase todos inéditos 44 (entre éditos e inéditos), e os reuniu num livro (ilustrado por Eurico Gonçalves) que publicou em 1997 , «Canções de Beber na Obra de Fernando Pessoa». Ouçamos um rubai de Pessoa. Tem um verso incompleto, pois é um manuscrito datado de 12 de Setembro de 1935 e o poeta morreu em 30 de Novembro desse ano. Escolhi-o por ser belo e por, incompleto, nos lembrar a transitoriedade da vida:

            Não me digas mais nada. O resto é vida.

            Sob onde a uva está amadurecida

            moram os meus sonos, que não querem nada.

            Que é o mundo? Uma ilusão vista e sentida.

 

            Sob os ramos que falam com o vento,

            inerte, abdico do meu pensamento.

            Tenho esta hora e o ócio que está nela.

            Levem o mundo: deixem-me o momento!

 

            Se vens, esguia e bela, deitar vinho

            em meu copo vazio, eu, mesquinho

            ante o que sonho, morto te agradeço

            que não sou para mim mais que um vizinho.

 

            Quando a jarra que trazes aparece

            sobre o meu ombro e a sua curva desce

             a deitar vinho, sonho-te, e, sem ver-te,

            por teu braço teu corpo me apetece.

           

            Não digas nada que tu creias. Fala

            como a cigarra canta. Nada iguala

   �

A máquina do tempo: traduttore, traditore

 

Hoje, a nossa viagem vai fazer-se por uma região pouco conhecida e ainda menos valorizada do planeta da literatura – a tradução. Nesse mundo mágico da criação literária, onde acontecem prodígios como a «Eneida», o «D. Quixote de la Mancha», o «Hamlet» ou a «Guerra e Paz», movem-se, quase como invisíveis duendes, os tradutores que, «à force de reins et de sueur», como disse Gustave Flaubert, conseguiram que muitos milhares de milhões de leitores fossem ao longo das gerações conhecendo a Ilíada, Dante, Cervantes, Tolstoi, Kafka, o que não é proeza pequena, sobretudo se nos lembrarmos que é cometida por seres praticamente invisíveis.

Invisíveis, porque, tal como acontece com os árbitros de futebol, o melhor que pode acontecer a um tradutor é passar despercebido. Quanto melhor tiver feito o seu trabalho, menos consciência deverá o leitor ter da sua intervenção. A tradução ideal, portanto, assemelhar-se-ia a um vidro muito perfeito, transparente e limpo, através do qual se pudesse ler o original, mas na língua de chegada. Um vidro que não distorcesse as imagens. Que não se visse, a bem dizer.

 

Na maioria dos casos, a tradução empobrece o texto original. Há casos, porém, como na tradução que Blaise Cendrars fez de «A Selva», de Ferreira de Castro, ou a que Jorge Luis Borges fez de «The Wild Palms», de William Faulkner. Que são exemplos em que o vidro que se interpõe entre a língua de partida e a de chegada não está limpo nem sujo, mas sim esmerilado pelo estilo genial dos tradutores. No caso da tradução de «A Selva», com a sua ironia cáustica, Almada Negreiros, aludindo ao estilo rude e primário dos primeiros livros de Ferreira de Castro, dizia que o ideal teria sido pegar na tradução em francês, feita por Cendrars, arranjar um bom tradutor e verter então a obra para português.

Gabriel García Márquez foi ao ponto de declarar que a versão inglesa de «Cien años de soledad», feita por Gregory Rabassa, ultrapassa a sua obra em qualidade literária. Tradutor, traidor, como diz o famoso aforismo italiano: estaremos nestes casos, como o de Cendrars ou o de Rabassa, perante boas obras literárias, mas más traduções, ou apenas em face de excelentes traições?

O catalão Joaquim Mallafré coloca o problema da tradução através de uma regra de três simples: «a obra original está para o leitor da obra original, assim como a tradução para o leitor da obra traduzida» e acrescenta – «o tradutor assume o papel do autor, repetindo a mesma obra noutra língua». É uma boa maneira de ver o problema.

*

Sou um leitor compulsivo e tenho sido, ao longo da minha vida profissional, tradutor compulso – isto é, numa certa fase da minha vida, compelido pela necessidade de ganhar a vida, e noutra compulsado pelas circunstâncias – as mais de as vezes por ser necessário executar o trabalho com urgência e não haver ninguém à mão capaz de o fazer dentro do prazo exigido. Como leitor sofro muito com as más traduções, com as trapaças, com a falta de brio profissional; como tradutor, sofro com a perpétua e justificada desconfiança do meu saber. Mesmo quando se trata de um vocábulo estrangeiro milhares de vezes por mim usado, vou sempre verificar se não haverá qualquer acepção menos vulgar que me tenha escapado. Sofro, sobretudo, quando, depois de editado o trabalho, descubro erros que deveria ter evitado.

Não vou aqui referir erros de tradução, pois isso obrigar-me-ia a falar de nomes, coisa que não quero. Depois, sei em que circunstâncias muitas vezes as traduções são feitas. Prazos exíguos, pagamentos parcos e ainda por cima incertos. Até há duas décadas atrás, as traduções eram geralmente pagas à página (30 linhas de 70 caracteres = 2100 caracteres). Hoje, com o trabalho feito em computador, usa-se mais como unidade de referência os conjuntos de 2000 caracteres. Mas, de uma forma geral, continua a ser um trabalho mal pago. Isto, quanto a mim, não desculpa que se façam as traduções que por aí aparecem. Já trabalhei por todos os preços desde o zero até ao bastante bem pago. O cuidado que ponho nos meus trabalhos é sempre o mesmo. Com esta afirmação, não pretendo ser modelo de coisa nenhuma, até porque conheço muita gente que procede exactamente como eu. O pior são os outros.

Estas reflexões sobre a tradução foram-me sugeridas por um livro que acabei de ler. Não vou dizer o título, pois isso poria em cheque o tradutor. Apenas um pormenor. Na obra, um romance, aparece repetidamente um sótão que se verifica pela descrição romanesca ficar no subsolo. Como o livro é traduzido de um original norte-americano, a confusão seria entre «attic», «loft» ou «garret» e «cave» (verifiquei, depois, compulsando o original, que a palavra usada foi «cave»). Embora não fosse exactamente o que se pretendia, a palavra portuguesa «cave» serviria razoavelmente, não se verificando o clássico problema dos «falsos amigos» – o ideal seria talvez «caverna».

O que se teria passado para que uma caverna subterrânea aparecesse transformada num sótão? Muito simples: a tradução não foi feita do inglês, como expressamente se indica na ficha técnica, mas sim do castelhano. Em castelhano, cave diz-se «sótano» e «sótano» – está-se mesmo a ver, não está? – só pode ser sótão! Temos, portanto, um tradutor que por ignorância ou preguiça substitui o original por uma tradução espanhola, mas que não sabe castelhano (o português da tradução é muito razoável, no entanto). Exemplos como este, de más traduções e de trapaças como esta são às centenas.

Por tudo o que fica dito e pelo muito que aqui não cabe dizer, se entende como é difícil traduzir. E como é difícil avaliar traduções, pois já tenho deparado com traduções globalmente mal feitas onde há problemas muito bem resolvidos. O contrário também acontece. Não entendo, por isso, como por vezes são atribuídos prémios de tradução, usando talvez critérios jornalísticos (falo de prémios atribuídos por jornalistas), mas sem a intervenção de especialistas, nomeadamente universitários. Como sabem eles que as traduções estão bem feitas? Mistérios.

 

 

 

Marcelo pondera e avalia gato

A Flor Pedroso de hoje falou bem mais, mas quem marcou o ritmo foi o professor. Excelente comunicador, não perde pitada para levar a água ao moinho. Já avançou com uma proposta para unir, mas o pessoal tem exercitos próprios, não quer ouvir falar de união, perde-se ou ganha-se. Perdem todos, claro!

 

A partir de agora, Marcelo une o que os outros desunem, é preciso ponderar quem é quem. Está aí o Orçamento na Assembleia da República, pressa para quê? Um Orçamento discutido e aprovado ou não, por quem está de saída, dá para tudo para o sucessor. Apoia ou não apoia um orçamento que não foi ele que discutiu, está muito mais à vontade para enfrentar Sócrates que vai querer acusar aquele menino que não o deixa governar.

 

Nenhuma pressa, até porque ninguém no partido está em condições de abrir as hostilidades. Rui Rio está muito bem no Porto, avança quando lhe pedirem e ele achar que é o momento, que não é agora. Passos Coelho quer, mas perdeu com Manuela e andou entretido a colocar minas e armadilhas, não pode. Marcelo sabe que Manuela abre o caminho quando for o momento próprio. Nada de pressas.

 

Afinal, ele está a ponderar e a unir o PSD, precisa do tempo certo! 

A ladaínha do Orçamento

Já aí está. Vem sempre nesta altura, Outono do Orçamento Geral do Estado, como as ladaínas da minha terra voltam na Páscoa.

 

Os vencimentos de miséria não podem ser aumentados, as empresas não aguentam, são as PMEs que exportam apoiadas em baixos salários. A Função Pública nem pensar, arrastam tudo, qualquer aumento é a miséria e as falências. Todos os anos, ano após ano, sem vergonha.

 

Mas a ladaínha das remunerações milionárias tambem já anda por aí, é preciso segurar os cérebros, os tais que colocaram este país, novamente, na cauda dos países mais pobres da UE, e dos mais injustos! Que vão embora! Mas vão embora para onde? Alguem os quer?

 

A ladaínha é cantada em únissono, num país governado à vez por um partido que se diz socialista e outro que se diz social-democrata, que deveriam ser partidos com consciência social e reformista, virados para uma economia moderna assente na educação, na inovação e na investigação, mas que só fazem pontes e autoestradas. 

 

De braço dado com empresas monopolistas e/ou em cartel, este Estado que abafa o empreendorismo, que pesca à linha politica as empresas que apoia e facilita, já tem aí as "beatas" de serviço.

 

Taxar os ganhos de capital em 20%? Fogem, outra desgraça, numa prática fiscal que penaliza os pobres e a classe média, só pensar em taxar as fortunas arrepia esta gente. Fogem? Mas para onde? Para os países a sério, onde as políticas são nacionais e prosseguem a equidade fiscal?

 

As mesmas empresas que recebem ajudas milionárias do Estado, que fazem contratos de "contentores de Alcântara" por ajuste directo, por 30 anos, fogem?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A máquina do tempo: o Repórter X

 

 

 

Chamava-se Reinaldo Ferreira e nasceu em Lisboa em 10 de Agosto de 1897. Foi repórter, novelista, dramaturgo e até realizador de cinema. Começou a escrever nos jornais com apenas doze anos. A partir dos vinte, foi considerado o maior repórter português. Entre 1926 e 1935, ano da sua morte (em 4 de Outubro), viveu no Porto. «Entrevistou» a famosa espia Mata-Hari e o «pai» de Sherlock Holmes, Arthur Conan Doyle, sem nunca os ter contactado. Enviou para o seu jornal reportagens extremamente vivas do que estava a acontecer na Rússia, na disputa pelo poder entre Estaline e Trotsky, mas há quem diga que as escreveu sem lá ter ido. Previu como Lisboa e Porto seriam no ano 2000 – anteviu que seriam cidades fascinantes nesse ano mítico e, naquela altura, tão distante!  – uma figura fascinante, Reinaldo Ferreira – o Repórter X, como ficou conhecido. A nossa máquina do tempo vai visitá-lo.

Em  Agosto de 1914, na redacção de «A Capital», foi admitido como aprendiz um rapazinho com 17 anos. Garibaldi Falcão, um experimentado jornalista, fora encarregado de o guiar no começo da profissão, mas estava preocupado com as peças que iam chegando sobre a Grande Guerra que deflagrara havia pouco, no dia 28 de Julho. Distraidamente, vendo o jovem inactivo,  perguntou-lhe: «Ouça lá, o menino já fez fogos?» Pensando que o estavam a tomar por um pirómano, Reinaldo Ferreira respondeu indignadamente: «Não senhor!». Desfeito o equívoco, após uma gargalhada geral dos redactores, lá foi fazer a sua primeira reportagem, a cobertura de um incêndio, um fogo posto, na Rua D. Estefânia.

Como só lhe davam coisas deste tipo – incêndios, furtos, casos insignificantes… – começou ele a inventar as reportagens sensacionais. Em 1917, horrorizou os leitores com um crime na Rua Saraiva de Carvalho, que metia um cadáver, criminosos encapuçados, muitos pormenores misteriosos e macabros, bem como um tipo sinistro, apenas referenciado como «o homem dos olhos tortos» – a história começou a sair em «O Século» sob a forma de cartas assinadas por um tal Gil Góis. O caso começou a atingir tais proporções, tal impacto entre os leitores que o jornal achou melhor revelar que tudo não passava de uma ficção. Mesmo assim, a história prosseguiu e o interesse dos leitores manteve-se até ao desfecho, à semelhança do que acontecera cinquenta anos antes com o folhetim de Eça e de Ramalho – «O Mistério da Estrada de Sintra». Data deste ano de 1917 a sua, tão célebre quanto fictícia, entrevista a Mata Hari.

Depois, em Março de 1918, em «A Manhã», Reinaldo Ferreira publicou «um inquérito à mendicidade». Fez-se fotografar andrajoso e mal barbeado e toda a gente acreditou que ele tinha andado a pedir esmola, mergulhado no submundo. Enquanto lhe tiravam a fotografia, os passantes foram deixando cair moedas. Ganhou ao todo 47 centavos.

Ainda em 1918, publicou a reportagem de um assassínio de uma estrangeira numa pensão de Lisboa. O criminoso teria sido o marido. Ajudado pelo grande desenhador Stuart de Carvalhais, na pensão em causa, virou um quarto do avesso, espalhando sangue de galinha por toda a parte e fotografando depois a «cena do crime». Já falámos aqui no assassínio de Sidónio Pais quando, na estação do Rossio, tomava o comboio para uma viagem oficial ao Porto. Pois, Reinaldo Ferreira (que, segundo parece, não estava lá) fez para o »Diário de Notícias» a reportagem mais lida sobre o magnicídio – nessa reportagem, antes de expirar, o presidente-rei teria dito: «Morro bem! Salvem a Pátria!». Frase heróica que entrou em livros e em crónicas, mas que Sidónio nunca proferiu, pois caiu fulminantemente morto abatido pelos tiros do tresloucado José Júlio da Costa.

Em 1919 foi para Paris, onde trabalhou no «Le Soir», no «Matin» e dirigiu a Agência Americana, cujos serviços chefiou em Madrid, Barcelona e Bruxelas, onde vivia em 1920. Note-se que tinha apenas 23 anos. Na capital belga ficou até 1922, colaborando no jornal «Neptune». Em 1923 nasceu o Repórter X. De regresso de Paris, estava em Barcelona quando, em 13 de Setembro, Miguel Primo de Rivera, capitão-general da Catalunha  acabava de tomar o poder. Reinaldo Ferreira não resistiu à tentação de enviar para o jornal uma crónica atacando o ditador e denunciando as suas prepotências. Segundo uma das versões, por prudência, não assinou – pôs apenas «repórter» e a seguir um rabisco ilegível. O tipógrafo ao compor o texto, tomou o rabisco por um x. Repórter X. Reinaldo Ferreira logo ficou enamorado por aquele pseudónimo nascido de uma casualidade.

Explorando a popularidade que o nome rapidamente assumiu e capitalizando o seu enorme carisma, criou o «Jornal do Repórter X». Seguiram-se o «Repórter X» e o simplesmente «X». Multiplicando-se, correndo de um sítio para outro, iniciou-se em Espanha na cinematografia, realizando uma série de filmes policiais e de comédias. Acrescente-se que também escreveu para o teatro – peças que foram representadas no »Ginásio» e no «S.Luiz». Uma delas, «1808», foi interpretada pela grande Palmira Bastos.

Em 1925, trabalhando no «ABC» foi enviado à União Soviética para fazer a cobertura dos incidentes e da luta pelo poder entre Estaline e Trotsky após a morte de Lenine. Encalhando em Paris (onde teria caído nas garras da cocaína), foi mandando telegramas para a redacção dizendo que não estava a conseguir obter o visto. Mas, enquanto explorava o bas-fonds parisiense, foi mandando trabalhos – por exemplo, terá inventado uma entrevista com Conan Doyle.

Depois, esgotadas as desculpas, chegou finalmente a Moscovo. Dali começou a enviar reportagens e entrevistas – desde o porteiro do Kremlin ao embalsamador de Lenine. Há uma suposição, plausível, mas talvez infundada, segundo parece, de que Reinaldo Ferreira continuou em Paris e foi lendo as crónicas diárias de Henri Bérau, correspondente de «Le Journal» em Moscovo. Porém, há quem defenda que ele esteve, de facto, em Moscovo e que as entrevistas são genuínas. Hoje, é impossível saber a verdade. Em todo o caso e seja como for, as suas crónicas eram formidáveis.

Ainda em 1925, fez admiráveis reportagens sobre o caso da extraordinária burla cometida por Alves dos Reis, no caso do Angola e Metrópole (que merecerá aqui também um futuro texto). Em Março de 1926, deu-se o assassínio da corista Maria Alves, estrangulada num táxi e arremessada para o passeio. Escrevendo para o «ABC» e baseando-se em crime semelhantes, foi elaborando deduções que conduziram a um criminoso para o qual a polícia não apontava – Augusto Gomes, o amante da actriz. Veio a provar-se que foi ele, de facto, o autor do crime. O assassino ficou com a convicção de que Reinaldo o seguira e assistira a tudo, de tal modo a sua ficção se ajustava ao que aconteceu. O que teria sido impossível, pois as crónicas eram enviadas de Haia onde o jornalista estava à época do crime a cobrir o julgamento de Karel Marang, relacionado com o caso Alves dos Reis.

A sua imaginação era ilimitada. Às vezes abusava dela, como quando tentou convencer os leitores de que no subsolo de Lisboa existia uma outra cidade mi
st
eriosa, construída a seguir ao terramoto de 1755, onde desde então, habitando numerosa galerias, como toupeiras, as gerações se sucediam. Como peça jornalística era inverosímil, mas como novela era potencialmente brilhante. Recentemente, ao ler um romance de Douglas Preston, sobre uma comunidade de «toupeiras» habitando sob Manhattan, em galerias desactivadas do metro de Nova Iorque, lembrei-me das «reportagens» de Reinaldo Ferreira.

Reinaldo Ferreira constituiu na sua época um paradigma de repórter. Hoje, com o endeusamento do chamado jornalismo de investigação ou «investigativo», os seus métodos seriam talvez condenados. É que ele praticou um jornalismo de inspiração ou «criativo». Morreu com apenas 38 anos, devastado por uma vida intensa em que o consumo de cocaína, morfina, tabaco, álcool, tiveram amplo protagonismo. Casou duas vezes , tendo dois filhos do primeiro casamento e um do segundo. Um deles, Reinaldo Ferreira como o pai (1922-1959) foi um notável poeta. Ganhou fortunas,  morreu quase na miséria e, apesar da sua celebridade em vida, foi rapidamente esquecido. Foi o facto de um companheiro nosso no Aventar, me ter perguntado quem era o Repórter X que me levou a escrever este texto que talvez chame a atenção de alguns leitores para tão curiosa personagem.

Por iniciativa de Natália Correia, em 1974 a Arcádia publicou a sua novela «O Táxi nº.9297». Como disse Ferreira de Castro «Foi preciso que uma grande poetisa tivesse voz orientante numa casa editora, para que se ressuscitasse um grande jornalista português, decerto o mais estranho de todos…»

Vegetarianismo Ético (II)

continuação daqui

 

 Apesar disso, o homem continua a matar e torturar animais em larga escala para satisfazer os seus interesses mais supérfulos, sendo o mais cruel e gritante exemplo disso a criação em série de animais em condições absolutamente desumanas para satisfazer as suas preferências gastronómicas. 

 
Penso que hoje em dia, ao contrário do que se passava há uns anos atrás em que os defensores do vegetarianismo tinham que procurar persuadir as  pessoas de que o regime vegetariano é saudável apresentando uma miríade  de tabelas de valores nutricionais dos alimentos, declarações de organismos  de saúde internacionais e de nutricionistas reputados, etc, já não é  necessário procurar fundamentar a afirmação de que o regime alimentar  vegetariano é saudável e nutricionalmente adequado à alimentação dos  seres humanos. É a própria OMS que o afirma e informação avalizada sobre o tema pode ser encontrada em livros e publicações da especialidade e na  internet. 
 
Ultrapassado este primeiro obstáculo, existe também um importante  argumento a ter em conta para a adopção do regime alimentar vegetariano: o  argumento ecológico. 
 
Deixo apenas alguns dados para análise:  

a) Os vegetais fornecem pelo menos 10 vezes mais proteínas por hectar  do que a carne. 
 
 
 
b) Mais de metade da água consumida nos Estados Unidos é gasta na  criação de gado. 
 
c) Meio quilo de carne exige 50 vezes mais água do que a quantidade  equivalente de trigo, concluindo a revista Newsweek que “a água  necessária a um boi de 500 kg faria flutuar um contratorpedeiro”. 
 
d) A criação intensiva de animais é a indústria responsável por uma parte  substancial da poluição dos nossos recursos hídricos. 
 
e) Nos últimos 25 anos foram destruídas quase metade das florestas tropicais da América do Norte para plantações de cereal para  alimentação de gado. 
 
f) Por fim, citando Peter Singer, o maior argumento de todos, uma vez que se aplica tanto aos defensores dos animais como a quem estende as  suas preocupações éticas apenas aos seres humanos: “ a comida  desperdiçada na produção de animais nas nações ricas seria suficiente,  se fosse adequadamente distribuída, para pôr fim tanto à fome como à 
subnutrição em todo o mundo”.
 
Daí que seja lícito afirmar que o respeito  pelos animais não é concorrente com o respeito pelos seres  humanos. É, pelo contrário, complementar. 
 
Por tudo isto, o vegetarianismo merece pelo menos ser considerado como  uma hipótese séria para uma atitude mais justa perante os animais, os seres  humanos, e o próprio planeta. 
 
Por último, uma palavra às pessoas que aceitam os argumentos acima  expostos mas que afirmam que não vale a pena deixar de comer carne  porque “uma só pessoa deixar de comer carne não vai diminuir o número de  animais que é criado nas unidades de criação intensiva” ou que “o animal que  têm no prato já está morto e nada o pode ressuscitar”: 
 
É evidente que a criação intensiva de animais não vai acabar de um  momento para o outro, assim como é inverosímil pensarmos que todas as  pessoas se vão tornar vegetarianas de uma só vez. Cada pessoa consome  em média 4.022 animais ao longo de toda a sua vida. O máximo que  podemos almejar, e essa será já uma grande vitória, é juntarmo-nos aos 
milhões de pessoas que já tomaram essa decisão e se recusam a comer a  carne de animais torturados e mortos e, assim, diminuir gradualmente a  procura de produtos animais, diminuindo o lucro obtido por esta indústria e  levando a que menos animais sejam criados intensivamente e abatidos no futuro. 
 
A este argumento acresce um outro, talvez ainda mais importante, para  deixarmos de consumir produtos derivados da indústria da carne: o facto de  estarmos a fazer a coisa certa; de sabermos que não contribuímos de forma  directa para o florescimento de uma actividade que causa um sofrimento  intenso a milhões de animais todos os anos. Madre Teresa de Calcutá dizia:  “o meu trabalho pode ser uma gota no oceano, mas sem ele o oceano seria  menor”. 
 
Em jeito de conclusão, fica um trecho da obra do conhecido filósofo Tom  Regan, “The Case for Animal Rights”:  “But prejudices die hard, all the more so when, as in the present case, they  are insulated by widespread secular customs and religious beliefs, sustained  by large and powerful economic interests, and protected by the common law.  To overcome the collective entropy of these forces-against-change will not be  easy. The animal rights movement is not for the faint of heart. Success requires nothing less than a revolution in our culture’s thought and action.” 
 

 

 

 

Vegetarianismo ético (I)

 

Peter Singer, no início do seu mundialmente famoso livro “Libertação Animal”, por muitos considerado a Bíblia do vegetarianismo, conta um episódio passado no Reino Unido em que uma defensora dos direitos dos animais o convidou para lanchar e conversar sobre o tema da defesa animal, e lhe serviu sanduíches de fiambre. 

 

Em 1989, 14 anos mais tarde, na edição revista do livro Peter Singer refere que felizmente hoje em dia os activistas do Movimento de Libertação Animal e os membros das Associações de Defesa Animal são já todos vegetarianos e não servem sanduíches de fiambre aos seus convidados. 

 

Embora isso possa ser verdade no Reino Unido, não o é certamente em Portugal nem em muitos outros países. 

 

Na realidade, muitas (atrevo-me mesmo a dizer a maioria) das pessoas que simpatizam com a causa da defesa dos animais e é contra as formas de exploração de que milhões de animais são vítimas às mãos dos humanos, continua a contribuir para a mais brutal de todas estas formas de exploração, e que maior sofrimento causa ao maior número de animais em todo o mundo: a indústria da criação intensiva de animais para alimentação. 

 

Há vários motivos para que seja assim: 

a) A maioria das pessoas nunca visitou um matadouro ou uma unidade de criação intensiva de animais, logo nunca viu (nem ouviu) a agonia prolongada que constitui a vida das vacas, porcos e galinhas que sofrem dentro deles, até ao dia em que sofrem uma morte cruel e lenta no momento do abate. 

 

b) A força do hábito. Quase todas as pessoas são habituadas desde a infância a comer carne e não só lhes custa a imaginar como poderiam sobreviver sem ela, como não desejam abandonar o prazer que retiram das refeições compostas por carnes de animais. 

 

c) As pessoas tendem a simpatizar mais e a sentir mais compaixão pelos animais que lhes são mais próximos e com quem convivem diariamente (cães e gatos) do que com aqueles que nunca tocaram ou observaram de perto. Daí que fiquem chocadas com a criação de cães e gatos para alimentação em alguns países asiáticos mas não se choquem com a criação muito mais maciça e brutal de outros mamíferos como as vacas ou os porcos para o mesmo fim. 

 

A estes motivos acresce um outro, que se prende com o facto de muitas pessoas se preocuparem com os animais apenas por gostarem deles. Por sentirem compaixão por eles, por se enternecerem com o olhar desolado dos cães abandonados com que se cruzam. No fundo, por se sentirem sentimentalmente ligados a eles. 

Gostam mais do seu animal de estimação do que de todos os outros animais da mesma espécie, gostam mais de gatos do que de cães ou mais de cães do que de porcos, e dirigem a sua consideração e instinto de protecção apenas aos animais da sua preferência. 

Assim, não baseiam a sua conduta perante os animais em princípios éticos ou morais, mas nas suas emoções. 

Na realidade, todos os animais merecem ser tratados de acordo com o seu valor intrínseco, independentemente da nossa simpatia por eles. Devem ser respeitados enquanto indivíduos que são capazes de sentir dor e prazer, e que por isso não podem ser considerados como meros instrumentos de satisfação dos nossos interesses. É um princípio de Justiça básico que assim o exige. 

 

continua

 

 

5 000 Euros de prejuízo / dia / estádio

É quanto nos custa cada um dos quatro estádios construídos a mais para o Europeu de 2004.

 

Aveiro, Leiria, Coimbra e Faro custam-nos a "visão" de estadistas, os mesmos que nos querem agora empurrar para obras megalómanas, com o mesmo tipo de argumentos. Cinco mil euros por dia é quanto nos custa cada um daqueles estádios que, como todos diziam, não eram necessários e que agora estão às moscas.

 

Mas o lobby do betão manda e o PS ainda manda mais, pelo que há que fazer obras, muitas obras, logo se vê quem paga.

 

O descalabro é de tal ordem que há em Aveiro quem proponha que se impluda o estádio e no seu lugar se construa outro de menores dimensões. Em Leiria, andam a tentar construir, num dos topos, uns hoteis e, em Coimbra, o Presidente da Académica tambem já propôs que se deixe aquele estádio, cuja manutenção é caríssima, e se construa outro bem mais pequeno.

 

Responsáveis, pais da ideia, promotores do desenvolvimento, não há, ninguém foi, ninguém dá a cara. Por acaso (ou não), foi num governo onde o responsável pela secretaria da juventude e desportos era um senhor agora muito conhecido e que tambem é o paladino das obras públicas, para que o país não fique para trás.

 

É uma espécie de trabalhar para aquecer, não serve, não precisamos mas faz-se na mesma, fica já feito, alguma vez há-de ser preciso e alguém vai pagar. Finalmente, até nos dizem que é graças aos estádios que não são precisos que podemos agora concorrer em parceria com a vizinha Espanha, ao Mundial de Futebol de 2016. Recuperamos o investimento.

 

E não vêem que é a forma de arranjar o argumento decisivo para o  investimento do TGV? Já está, para quem não quer ver, multidões a andar entre Lisboa e Madrid para não perderem nenhum jogo. E depois mais multidões para verem onde foi e outras multidões para verem..

 

Está garantida a viabilidade financeira, e em caso contrário, implode-se!

 

 

O caixeiro – viajante

Sempre que passa por aqui é para vender alguma coisa. Aproveita as homenagens que de bom grado o país lhe vai concedendo numa tentativa de o acolher, mas o ódio do senhor não se contemporiza com lamechices.

 

Vive fora do país para mostrar quanto está ofendido, o país não o merece, a não ser para lhe entregar a Casa dos Bicos para lá meter os papéis, que em Espanha, não querem. Está ofendido porque os seus conterrâneos, democraticamente, rejeitaram as suas ideias políticas.Nunca mais esqueceu que um homenzinho de estatura igual lhe fez um agravo escusado, muito semelhante, aliás, ao que ele fez aos seus colegas no Diário de Notícias.

 

Este homem quando se viu com um grama de poder mostrou o carácter de que é feito, tentando impor uma ideologia num grande diário de comunicação social que, naquela altura, era bem mais influente do que é hoje, saneando pessoas porque não confessavam a mesma ideologia. É este homem a quem agora devemos vergar a cerviz, porque o que ele diz passou a ser a bíblia, que ele renega.

 

Odeia tudo e todos com especial carinho os que lhe vão prestando homenagens e que têm orgulho por verem nele um compatriota que ganhou um Nobel. Tem vergonha de ser português. Já me cruzei mais do que uma vez com ele no estrangeiro, ouve falar portugues mas faz de conta que não percebe, não vá os batráqios dirigirem-lhe a palavra.

 

É este homem que agora vem substituir a Bíblia, é um livro que ele percebe que põe os dele no lugar a que têm direito, e não pode com isso.

 

Vou passar a benzer-me sempre que o vir !

A máquina do tempo: «A realidade é uma invenção do nosso espírito» (ou o elogio da surdez)

Ao longo dos tempos e consoante as civilizações, os surdos têm sido olhados de formas diferentes. Por exemplo, no Antigo Egipto eram pessoas importantes, adorados como deuses, servindo de mediadores entre as divindades e os Faraós. Eram temidos e, logo, muito respeitados pelo povo. Não era nada conveniente para um felá que um surdo embirrasse com ele. No outro extremo da escala fica a Alemanha nazi onde os bebés surdos eram, nos hospitais e maternidades, eliminados à nascença, por questões económicas, mas também para não virem com os seus genes defeituosos macular a pureza ariana da raça germânica. Os surdos adultos foram tratados como os judeus, os ciganos, os homossexuais e os comunistas – guetos, campos de concentração e, às vezes, câmara de gás, com eles. Sou um pouco surdo e adivinhem lá para onde é que eu iria com mais prazer na minha máquina do tempo – para o Antigo Egipto ou para a Alemanha nazi?

 

 

 

Germano da Fonseca Sacarrão, zoólogo e ecologista de renome, foi um grande professor catedrático da Faculdade de Ciências de Lisboa. As suas aulas eram tão vivas e participadas que muitos alunos de outras faculdades, de outros cursos, licenciados e pós-graduados, a elas assistiam. Dirigiu cientificamente alguns projectos editoriais a que eu estava ligado e criámos uma amizade sólida e que durou até ao dia em que, fazendo anos de casado, foi comprar um ramo de flores para oferecer à esposa, D. Maria Manuela Sacarrão, que estava de cama com gripe. A meio do caminho caiu fulminado por um ataque cardíaco.Era surdo, assumia-o sem qualquer problema, e usava um aparelho auditivo que tirava quando não queria ser incomodado. Muitas das coisa que aqui vou dizer sobre a surdez, e não só, são da lavra do Professor Germano Sacarrão.

 

Morava em Campo de Ourique, era, aliás, um entusiasta do bairro, o «quartier latin», com se diz entre os nativos. É um bairro charmoso, projectado nos anos 70 do século XIX, pelo grande engenheiro, Frederico Ressano Garcia (1847-1911), um discípulo da teorias urbanísticas do barão de Haussmann, o arquitecto da Paris imperial, com grandes vias cortadas perpendicularmente por ruas secundárias, como, aliás, já no século anterior, Eugénio dos Santos fizera com a Baixa. Campo de Ourique é uma cidade dentro da cidade, tem tudo, é auto-suficiente.

 

Até tem lugares de culto – o mercado, a Livraria Ler, do Luís Alves, no Jardim da Parada, o café centenário «A Tentadora», «Os Alunos de Apolo», onde desde 1872 milhares de lisboetas aprenderam a dançar, o CACO – Clube Atlético de Campo de Ourique… Um mundo. Há um texto muito interessante de Miguel Sousa Tavares, que também ali mora: «Viva Campo de Ourique» para o qual vos remeto, pois não é do «quartier latin» que quero falar.

 

Pois era precisamente no café « A Tentadora», na Rua Ferreira Borges, com a sua linda fachada Arte Nova, que Sacarrão contava como uma manhã foi encontrar dois surdos célebres: António José Saraiva, um morador, e Óscar Lopes que, na altura de que Sacarrão falava, era presidente da Associação Portuguesa de Escritores e vinha com frequência, creio que semanal, a Lisboa, ficando, ao que julgo saber, em casa do amigo. Saraiva há muito que abandonara o PCP (desde 1962), enquanto Óscar Lopes ainda hoje é militante (mas creio que já não está no Comité Central).As amistosas discussões de natureza ideológica eram prolongadas e ricas em finos argumentos vindos de ambos os lados, mas nunca chegando a acordo – Sacarrão que os escutava interessadíssimo, comentava – «um verdadeiro diálogo de surdos!».

 

Contava também como muitas vezes chegava a casa ao fim da tarde, fatigado e ansiando por repouso. O neto, que vivia com os avós, estava no quarto com música rock em altos berros a criada, na cozinha, ouvia rádio. A esposa via também televisão na sala. Ou ambas viam a telenovela. Um barulho dos demónios, dizia. Então, Germano Sacarrão tirava o aparelho e entrava numa deliciosa ilha de silêncio, apenas habitada pelos seu pensamentos.

 

Um dia estava ele absorto ante um quadro, numa exposição de pintura na Galeria 111, do Campo Grande. Ouviu um tropel de passos e um rumor de sussurros que se aproximava. Uma voz conhecida diz : – Olha, o meu querido professor! Voltou-se. Diante dele estava, nem mais nem menos, do que o presidente da República, Mário Soares que, aliás, reside ali, a poucos metros, na rua que tem o nome de seu pai. Na verdade, Germano Sacarrão fora professor de Mário Soares no Colégio Moderno.

 

Por questões políticas, quando veio da Suíça, onde, após a licenciatura e com bolsas do Instituto de Alta Cultura, estagiou entre 1938 e 1943, não lhe foi dada colocação no ensino oficial – nem na Universidade, nem sequer no Secundário. Generosamente, João Soares deu-lhe guarida no seu Colégio Moderno. Sacarrão nunca esqueceu esse gesto solidário.

 

Agora, a comitiva do presidente ali estava, respeitosa e sorridente, esperando a reacção de Germano. Soares abraçou-o e repetiu: – O meu querido professor! – Então Germano, olhando a comitiva numerosa, esclareceu: – De Física! Professor de Física! (Não fossem eles pensar que fora ele o mestre de política!) – E, perante os sorrisos da comitiva, correspondeu ao abraço do seu antigo aluno que, segundo parece, era um cábula de primeira. -«Muito esperto e inteligente, mas um cábula», dizia Sacarrão, que mantinha uma grande estima por Soares, embora não apreciasse a sua prática política.

 

O Professor Sacarrão era um homem generoso e bom, ao qual os problemas alheios não eram indiferentes. Um exemplo pessoal – a seguir ao 25 de Abril era considerado «burguês» e, logo, condenável, pagar impostos. Segui a onda. Por volta de 1981/82, apareceu-me um postal da Repartição de Finanças, ameaçando-me com penhora de bens, pois devia cinco anos de impostos ao Fisco – os impostos em dívida não chegavam a dez contos, mas a coima andava pelos cento e tal – hoje uma pequena importância, mas muito dinheiro na altura.

 

Numa reunião de trabalho com o Professor (ele estava a dirigir uma obra da editora), viu-me com ar preocupado, perguntou-me o que tinha e lá lhe confiei o problema. Comentámos a dureza do Estado relativamente aos que trabalham e a sua complacência para com os grandes empresários. Despedimo-nos. À tarde telefonou-me: – Ouça lá amigo Loures, estive a pensar no seu problema e eu resolvo-lho. Talvez não possa emprestar-lhe tudo, mas arranjo uma boa parte». Fiquei tão comovido que quase não consegui responder e, claro, recusei, mas agradeci muito, com as palavras que na altura considerei mais adequadas.

 

Pensava propor às Finanças um acordo de pagamento faseado. Depois João Paulo II visitou Portugal, fiz um requerimento e fui amnistiado – só paguei a pequena importância dos impostos em dívida. Mas nunca me esqueci da generosíssima oferta de Germano Sacarrão. Que, ainda por cima, e segundo me dizia, não era rico. Ele e a esposa, tinham o neto e a mãe da Doutora Maria Manuela a seu cargo.

*

A propósito de um poema que há dias aqui publiquei, referi o erro que se comete ao atribuir aos animais características próprias dos seres humanos. Sacarrão costumava dizer: – «As galinhas não são estúpidas; têm a inteligência de que necessitam para sobreviver».

 

Como
r
efere a escritora Maria Estela Guedes num excelente trabalho seu sobre Sacarrão, este preocupava-se com o facto de o discurso biológico transportar conceitos da esfera zoológica para a antropológica e vice-versa. Esta metaforização é abusiva e acientífica, na sua opinião. As metáforas nascem do impulso de manipularmos a sensibilidade alheia, de moldarmos o ponto de vista dos outros pelo nosso. «A realidade é uma invenção do nosso espírito», costumava dizer; o cérebro tem barreiras de conhecimento, está adaptado a um dado mundo e não a outro. Embora também manipuladora, em poesia, a metáfora é aceitável; em ciência não.

 

Sou um pouco surdo, como já disse. Um audiograma recente registava alguma perda de audição no ouvido direito. Mas ouço muito bem do lado esquerdo (sempre a sinistra!). Tenho o cuidado de, nas reuniões, me sentar estrategicamente com a minha antena parabólica, o ouvido esquerdo, em condições de captar o que se diz. Numa tertúlia semanal, a do restaurante Baleal (de que o nosso Luís Moreira também faz parte), os amigos já sabem onde me quero sentar e, mesmo que chegue um pouco atrasado, o lugar está reservado. Porém, sempre que me falam em usar um aparelho auditivo, lembro-me do que dizia Germano Sacarrão: «Nunca tive problemas por ser surdo – todos os meus problemas, tive-os por ouvir bem demais».

 

 

10% em Banco de Sementes

"Botânicos britânicos anunciaram ontem ter reunido sementes de 10% das plantas mais ameaçadas do planeta, naquela que é a primeira etapa de um "banco" destinado a preservar a biodiversidade mundial."

"Para Stephen Hopper, director dos Jardins Botânicos Reais, num momento em que aumenta a inquietação com as alterações climáticas e a perda da biodiversidade, o Banco de Sementes do Milénio é "uma verdadeira mensagem de esperança e um recurso vital num mundo de incerteza"."

Para mim, isto quer dizer: "Bem, parece que este planeta está mesmo marado, portanto mais vale começar a guardar "originais" antes que vão desta para melhor". Se calhar sou só eu a pensar assim, já que sou extremamente pessimista. Mas vai daí, estas alterações climáticas, que já se sentem bem, podem ser passageiras. Depois da tempestade, vem sempre a bonança, não é verdade? O que também não deixa de ser verdade, é que depois da bonança, também vem sempre a tempestade. Resta saber em que ponto estamos agora. Acho curioso é que se refira que "não existe outro banco de sementes deste tipo no mundo", quando no ano passado, o nosso Durão Barroso andou a inaugurar uma mega estrutura enterrada no Ártico (Svalbard International Seed Vault), precisamente para salvaguardar a biodiversidade das espécies de cultivo.

Motivo para alarme?! Não, nada disso! Afinal, são só cientistas e empreendedores a construírem bancos de sementes e mega-estruturas em regiões remotas, com o intuito de preservar a biodiversidade… só para o caso de algo correr mal.

Estou confiante. Vai correr tudo bem…

"Entre 60 mil e 100 mil espécies de plantas estão ameaçadas de extinção, ou seja, um quarto das espécies conhecidas, o que se deve sobretudo à desflorestação, segundo os responsáveis dos Jardins Botânicos reais."

Eanes põe em sentido os gatos

Quem teve oportunidade de privar com o Presidente Eanes sabe que tem um sentido de humor, que não se adivinha ao olhar para a pose hirta e séria.

 

Os gatos cometeram o erro de alicerçarem a conversa em militarismo, bombas e nuclear. Nada de mais diferente, do que poderemos considerar a matriz da personalidade de Eanes.É um homem escravo do dever e da honra, como o atesta os muitos anos de intervenção pública, e reconhecido por todos quantos o conhecem.

 

Esperar que Eanes aproveitasse para dizer o quer que fosse menos favorável em relação a Otelo é um registo perdido à partida. Melhor andaram quando falaram de Soares e das suas relações institucionais.

 

Parece óbvio que os gatos estão a perder gás. Hoje foi muito fraquinho.

 

 

Freeport – comissões houve. Quem as recebeu?

Novo fax (novo para a gentalha tuga, claro) há muito nas mãos da polícia Inglesa, vem não só confirmar que houve comissões, o seu montante, em libras (dá cerca de três milhões de euros) como a razão para serem pagas naquela altura.

 

O governo de Guterres estava de saída e  havia que pagar para que tudo  ficasse preto no branco. O não pagamento impedia o licenciamento do Freeport,  naquela altura e  perdiam-se mais uns anos, com o processo a voltar ao ínicio.

 

Diz a SIC que já estaria nas mãos da TVI (a tal que calou a voz à Manela e que foi comprada com a massa dos fundos de pensões da PT) mas que só agora veio a público, convenientemente.

 

Claro que tudo isto são coincidências e nada está provado.

 

Mas que este fax entre executivos da empresa proprietária do Freeport existe, existe! Para além de tudo o mais que já sabemos e que tambem não está provado.

 

Provado, provado está, que temos um empreendimento licenciado à pressa e com graves atropelos a uma zona protegida, vídeos a chamarem os bois pelos nomes, familiares envolvidos, reuniões com quem tinha capacidade de autorizar e agora o fax da polícia inglesa, a dizer o preço e as razões.

 

Só falta alguem confessar para termos caso!

 

 

Cinema – O Solista

A genialidade paga-se! Como tudo, oscila entre a grandeza e o fundo. O génio musical de alguem que tem dificuldade em acomodar-se à vida do dia a dia.

 

A solidariedade de alguem que acredita que vale a pena preocupar-se com quem vive na rua e, ao mesmo tempo, mergulhado num mundo cuja  beleza  compreende como ninguem.

 

A história real de dois homens que ainda hoje vivem em LA.

 

A não perder num cinema perto de si!

As imagens do silêncio das palavras

TEXTO DE ARREBENTA

 

Num tempo que já não é o nosso, defrontaram-se duas sensibilidades de uma Revolução: uma venceu, encostou-se à Opus Dei, e acabou por enfiar, em Belém, um cavaco que nem para lareira reles servia. A outra dissolveu-se nas memórias. A História podia ter sido outra, mas não foi. Das águas mais presentes, vem um gajo, a quem 64% dos Portugueses disse que não queria voltar a ver como Primeiro Ministro, mas que, como é habitual, na Cauda da Europa, lá teve o direito a bisar. Pelo meio, decidiu que os militares, mesmo na reserva, estavam inibidos de emitir opiniões (!).

 

Ele lá sabe do que tem medo.

 

Como militar na reserva, "O Cacimbo" silenciou, mas foi substituído por um Fotoblogue.

 

Força, Álvaro: suponho que sejam as imagens do silêncio das palavras.

 

 

A máquina do tempo: o episódio da Noite Sangrenta de 19 de Outubro de 1921

Faz hoje 88 anos. Elementos republicanos radicais da Marinha e da G.N.R. desencadearam uma tentativa de golpe revolucionário. Gerou-se uma situação confusa e descontrolada em Lisboa no decurso da qual foram barbaramente assassinados o chefe do Governo, António Granjo, Carlos da Maia, Freitas da Silva e Machado Santos, o herói da Rotunda em 5 de Outubro de 1910.

 

 

  

Na foto acima, pode ver-se o governo de Granjo. Ele está ao centro de chapéu e barba. Onze anos após a proclamação da República os republicanos davam largas ao sectarismo e matavam-se entre si. As sementes do pronunciamento militar de 28 de Maio de 1926 estavam lançadas. O fim da I República aproximava-se. Porquê tanto ódio? A nossa máquina do tempo vai levar-nos até esse dia negro.

 

 

 

A I Grande Guerra deixara a Europa devastada e desmoralizada. As democracias liberais estavam desacreditadas e os regimes autoritários, capitalizando o fracasso dos governos democráticos, iam ganhando peso. Em Itália, Benito Mussolini e os seus camisas negras estavam a um passo do poder. Na Alemanha, digeria-se com dificuldade a humilhação imposta pelo Tratado de Versalhes e o nazismo ia nascendo nesse caldo de incontida raiva. Em Portugal, ultrapassados os episódios do consulado sidonista e da Monarquia do Norte, atravessava-se um período de particular instabilidade – os golpes revolucionários, sucediam-se e os governos eram derrubados uns atrás dos outros.

 

O escritor Raul Brandão caracterizava a situação como «uma marcha heróica para um cano de esgoto». Segundo Carlos Ferrão vivia-se «uma agonia colectiva e declínio nacional». Os grandes vultos da república estavam afastados – Afonso Costa exilara-se em Paris, Brito Camacho fora para Moçambique… António José de Almeida era o presidente da República. O chefe do Governo, desde 30 de Agosto, era António Granjo (1881-1921). Activo militante republicano, foi deputado, director do jornal República, ministro da Justiça e da Agricultura e quatro vezes presidente do Ministério. Poeta e combatente da Grande Guerra era um homem de grande coragem e vivacidade. Quer o presidente da República, quer Granjo, líder do Partido Liberal, tinham derrotado nas urnas o Partido Democrático.

 

Eram os militares apoiantes deste que agora se revoltavam. Naquele dia 19 de Outubro de 1921. Lisboa acordou com os tiros de mais uma revolução. Eram sete e dez e desde as cinco e quarenta e cinco que tropas da GNR haviam começado a ocupar pontos estratégicos da capital. Na Rotunda a Guarda, que à época era a força militar mais bem apetrechada, instalou artilharia pesada e obuses, com os quais começou a flagelar alvos hostis. Só na Rotunda, a GNR concentrou 7000 homens. Granjo foi com alguns dos seus ministros para o campo de aviação da Amadora. Apresentou a demissão do seu cargo ao presidente António José de Almeida que a aceitou.

 

Cerca das cinco da tarde regressou a Lisboa. A cidade estava em poder dos revoltosos e Granjo refugiou-se em casa de Cunha Leal, seu amigo e vizinho e seu ministro das Finanças. A casa do ministro estava vigiada e os revoltosos depressa souberam que Granjo ali estava. A situação política estava perdida. A revolta triunfara, com as tropas insurrectas ocupando todos os pontos-chave da cidade. Os ministros andavam fugidos. Manuel Maria Coelho, um nome mítico, o lendário tenente Coelho da revolução de 31 de Janeiro de 1891, agora no posto de coronel, comandava os revoltosos. Embora os acontecimentos trágicos daquela noite tivessem escapado ao seu controlo. Aliás, ninguém, nenhum partido ou organização reivindicou o horror que foi aquela noite em Lisboa; quase todos o condenaram.

 

A «camioneta fantasma» (da qual hei-de falar mais em pormenor) começava a sua sinistra tarefa dessa noite, transportando António Granjo e Cunha Leal para o Arsenal, junto ao Terreiro do Paço. José Brandão, o autor de «A Noite Sangrenta», um dos livros que melhor narra o que se passou e porque se passou, descreve de maneira viva e veraz o assassínio de Granjo: «O chefe do Governo, vencido, mantém até ao fim a coragem que o abatimento não excluiu. Salta os três degraus e, então, lança as suas últimas palavras, em que há ódio e resignação: – Já sei o que vocês querem! Matem-me, que matam um bom republicano!

 

Soou uma descarga; debaixo, corresponderam. António Granjo caiu ao comprido, vertendo sangue por inúmeros ferimentos. Estava ainda nas últimas convulsões quando um dos assassinos, que, no dizer da testemunha ocular, é um clarim da GNR, de desmedida estatura, sacou da espada e a cravou no estômago com violência tal que, atravessando o corpo, ficou presa no sobrado. Depois, friamente, o facínora, pondo o pé sobre o peito de António Granjo, sacou a arma e gritou triunfalmente, mostrando-a aos companheiros: – Venham ver de que cor é o sangue do porco!».

 

Como houve diversas testemunhas oculares dos crimes, sabe-se como tudo aconteceu. O que até hoje permanece um mistério, são as razões que conduziram a actos tão horrorosos. Vitoriosa a revolta, tendo Granjo pedido a demissão, por que motivo teve de ser eliminado fisicamente? Depois de ler muito sobre o tema, a minha explicação é a de que não há explicação – um atávico ódio de classe? Os assassinos eram gente do povo, soldados rasos ou de baixa patente, com leituras apressadas de escritos revolucionários; as vítimas eram senhores, bacharéis, oficiais.

 

Talvez fosse apenas isso (a luta de classes tem as costas largas). O livro de que já falei – «A Noite Sangrenta», do historiador José Brandão, vai tão longe quanto é possível na explicação. Sendo uma edição de 1991, creio que está esgotada. Talvez o possam encontrar em bibliotecas.

A máquina do tempo: lixo televisivo e lixo político?

 

Definamos telelixo, palavra que tenho utilizado, mas que (ainda) não vem nos dicionários. Diria talvez assim:

 

«Telelixo, s. m. – Forma de fazer televisão que se caracteriza por explorar a morbidez, o escândalo, os crimes, os aspectos mais sórdidos da natureza humana, tais como o sensacionalismo e outras aberrações, utilizando-as como instrumentos do aumento de audiências. O telelixo caracteriza-se ainda pelos temas que aborda, pelas personagens que coloca em primeiro plano, pela visão distorcida a que recorre para tratar esses temas e personagens.»

 

Um recente caso ocorrido num canal privado de televisão traz, quanto a mim, ao primeiro plano da actualidade nacional a questão do telelixo, pois reúne tudo o que de nocivo existe naquele conceito tabloidizado de informação e, a ser verdade o que consta sobre a causa próxima subjacente, põe a nu a fragilidade moral das estruturas do poder no nosso País. Lixo televisivo, eventualmente misturado com lixo político. Uma mistura explosiva.

*

  Todos estão ao corrente – uma jornalista foi suspensa das suas funções, facto que provocou indignação e mobilizou a solidariedade de alguns colegas de profissão e de consideráveis sectores de opinião. Diz-se que essa suspensão teria sido motivada pelo facto de se preparar para denunciar ilegalidades cometidas por uma alta figura da política. Se foi esse o motivo é de facto intolerável em regime democrático, pois configura uma acção censória ao mais puro estilo salazarento.

 

Porém, a tal senhora foi, ao longo da carreira, uma activa promotora de telelixo, realizando entrevistas sob o figurino de julgamento sumário, em que as perguntas continham já a resposta condenatória. O que se diz na definição do conceito de telelixo, acrescentando-lhe um desprezo absoluto pelo respeito devido às pessoas, pela veracidade e pela presunção de inocência, se aplica à dita senhora que, além da capa da «liberdade de expressão» se defende também com um falso conceito de «saudável agressividade».

 

Esta prática continuada de um jornalismo prostituído, ainda mais agrava a suspeitada intervenção política – fazendo há anos a senhora este tipo de jornalismo marginal a qualquer código deontológico, só foram tomadas medidas quando uma pessoa politicamente importante foi atingida. Enfim, repito, se foi despedida por lesar interesses obscuros de uma alta personalidade, isso é condenável. No entanto, deveria há muito ter sido despedida em nome do código deontológico da carreira jornalística. Em suma, estamos aqui perante três casos não miscíveis:

 

1 – Por um lado deveria averiguar-se se existiram pressões políticas sobre a administração da empresa para a despedir. Se as houve, deveria ir-se até às últimas consequências – a demissão do político em causa. Não podemos aceitar que, 35 anos depois de Abril, se silencie quem, com razão ou sem ela, incomoda o poder.

 

2 – Por outro, há muito que a senhora deveria ter sido sancionada, irradiada, pela sua organização de classe. É uma má jornalista, que envergonha os profissionais dignos desse nome.

 

3 – Finalmente, a estação em questão há muito também que deveria ter sido proibida pelo organismo competente, a ERC, de exibir conteúdos que configuram todas as formas possíveis de telelixo do mais tóxico. Por pressões factuais ou tentando evitá-las, tomou tardiamente e pelas piores razões uma medida que há muito se impunha. Umas coisas não desculpam as outras. A eventual pressão política, sendo extremamente condenável, não pode servir para branquear a recorrente desonestidade da jornalista e o tardio despedimento desta não iliba a administração da empresa das suas responsabilidades na contínua emissão de programas lesivos da saúde cultural e social do País.

 

Lixo cultural, lixo empresarial, lixo político – há aqui muita sujidade a limpar. Não continuemos a esconder este lixo sob o tapete do nosso comodismo e da abdicação dos nossos mais elementares direitos de cidadania.

 

*

 

Em Espanha onde, pelos vistos, as coisas não vão melhor, circula um manifesto exigindo a aplicação de medidas contra a emissão de telelixo. Assumindo-se como uma «Plataforma para uma televisão de qualidade», é apoiada pela Associação de Utentes da Comunicação, pela União Geral de Trabalhadores, pelas «Comisiones Obreras», pela Confederação Espanhola de Mães e Pais de Alunos, pela União dos Consumidores de Espanha e pela Confederação das Associações de Moradores de Espanha.

 

Muito do que aqui digo a seguir, não sendo uma tradução literal, foi inspirado naquele manifesto. E não seria mau que fôssemos pensando numa iniciativa semelhante, concitando o apoio de associações de pais, organizações de defesa dos consumidores e dos ecologistas, porque o telelixo é extremamente poluente. Enfim, teria de ser uma amplo movimento de opinião dirigido, sobretudo, aos cidadãos em geral, porque, antes de mais, o telelixo e sua proliferação coloca um sério problema de cidadania, minando e pondo em perigo os próprios alicerces da Democracia.

 

*

O objectivo dos promotores do telelixo é encontrar um mínimo denominador comum que permita atrair um grande número de espectadores. Para tal, utilizam qualquer tema de interesse humano, seja um acontecimento político ou social, como mero pretexto para desencadear aquilo que consideram ser os elementos básicos para a atracção da audiência – sexo, violência, sentimentalismo, humor grosseiro, superstição, muitas vezes de forma sucessiva e recorrente dentro do mesmo programa. Sob uma hipócrita aparência de preocupação e denúncia, os programas de telelixo deleitam-se com o sofrimento, com as demonstrações mais sórdidas da condição humana, com a exibição gratuita de sentimentos e de comportamentos íntimos.

 

O telelixo, conta também, com uma série de ingredientes básicos que o transformam num factor de aculturação e de desinformação, bem como um obstáculo para o desenvolvimento de uma opinião pública livre e devidamente fundamentada. Segue-se uma lista desses ingredientes.

 

O reducionismo, com explicações simplistas dos assuntos mais complexos, facilmente compreensíveis, mas parciais ou contendo orientações determinadas. Uma variante deste reducionismo consiste no gosto das teorias da conspiração de não se sabe bem que poderes ocultos, que muitas vezes servem de álibis a determinadas personalidades e grupos de pressão no seu trabalho de intoxicação.

 

A demagogia, que consiste em apresentar todas as opiniões como equivalentes, independentemente dos conhecimentos ou dos fundamentos éticos sobre os quais se apoiam. Para tal, contribuem a realização de supostos debates, entrevistas e inquéritos, que mais não são do que simulacros de verdadeiros debates, entrevistas e inquéritos, e que longe de lançarem luz sobre os problemas apenas contribuem para consolidar a ideia do «vale tudo».

 

A demagogia tem uma variante: o desenvolvimento de mensagens esotéricas, milagreiras e paranormais, apresentadas de forma acrítica e num mesmo plano de realidade que os argumentos científicos. O desprezo pelos dir
ei
tos fundamentais, tais como a honra, a intimidade, o respeito, a veracidade ou a presunção de inocência, cuja infracção não pode em nenhum caso ser defendida sob a capa da «liberdade de expressão». Este desprezo desemboca na realização de «juízos paralelos», no abuso do sensacionalismo e do escândalo; na apresentação de testemunhos supostamente verdadeiros, mas que na realidade provêm de «convidados profissionais».

 

E, claro, na apoteose de uma televisão de trivialidade, baseada no protagonismo das personagens do mundo cor-de-rosa, cujas insignificâncias e conflitos sentimentais, tratados descaradamente de forma sensacionalista, são outro dos ingredientes deste molho infecto. O problema é ainda mais pungente quando este tipo de conteúdos são difundidos através do canal de serviço público, cuja obrigação moral e legal é o de fornecer produtos, ética e culturalmente, solventes. O telelixo nada inventou: a lisonja fácil ao espectador, o gosto pelo sensacionalismo, vêm muito de trás. Porém, na actualidade, a enorme influência social dos meios de comunicação de massas, aumenta de forma exponencial os efeitos negativos deste tipo de mensagens.

 

O telelixo encontra-se num momento ascendente do seu ciclo vital, como um cancro cujas metástases invadem todo o tecido social, impedindo que grelhas de outros modelos de informação mais respeitadores da verdade e do interesse colectivo surjam e se expandam.

 

*

Tudo o que no referido manifesto se alega para mobilizar esforços que combatam este tipo de negócio e todos os seus agentes é válido no nosso País. Num próximo texto esboçarei um manifesto para cujo aperfeiçoamento solicito a ajuda de quantos estejam de acordo em que é preciso fazer alguma coisa para que a televisão, factor tão importante de informação, cultura, entretenimento, mude em Portugal.

 

A máquina do tempo: a «Noite Sangrenta»

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Faz hoje 88 anos. Elementos republicanos radicais da Marinha e da G.N.R. desencadearam uma tentativa de golpe revolucionário. Gerou-se uma situação confusa e descontrolada em Lisboa no decurso da qual foram barbaramente assassinados o chefe do Governo, António Granjo, Carlos da Maia, Freitas da Silva e Machado Santos, o herói da Rotunda em 5 de Outubro de 1910. Na foto acima, pode ver-se o governo de Granjo. Ele está ao centro de chapéu e barba.

Onze anos após a proclamação da República os republicanos davam largas ao sectarismo e matavam-se entre si. As sementes do pronunciamento militar de 28 de Maio de 1926 estavam lançadas. O fim da I República aproximava-se. Porquê tanto ódio? A nossa máquina do tempo vai levar-nos até esse dia negro.

A I Grande Guerra deixara a Europa devastada e desmoralizada. As democracias liberais estavam desacreditadas e os regimes autoritários, capitalizando o fracasso dos governos democráticos, iam ganhando peso. Em Itália, Benito Mussolini e os seus camisas negras estavam a um passo do poder. Na Alemanha, digeria-se com dificuldade a humilhação imposta pelo Tratado de Versalhes e o nazismo ia nascendo nesse caldo de incontida raiva.

Em Portugal, ultrapassados os episódios do consulado sidonista e da Monarquia do Norte, atravessava-se um período de particular instabilidade – os golpes revolucionários, sucediam-se e os governos eram derrubados uns atrás dos outros. O escritor Raul Brandão caracterizava a situação como «uma marcha heróica para um cano de esgoto». Segundo Carlos Ferrão vivia-se «uma agonia colectiva e declínio nacional».
Os grandes vultos da república estavam afastados – Afonso Costa exilara-se em Paris, Brito Camacho fora para Moçambique… António José de Almeida era o presidente da República. O chefe do Governo, desde 30 de Agosto, era António Granjo (1881-1921). Activo militante republicano, foi deputado, director do jornal República, ministro da Justiça e da Agricultura e quatro vezes presidente do Ministério. Poeta e combatente da Grande Guerra era um homem de grande coragem e vivacidade. Quer o presidente da República, quer Granjo, líder do Partido Liberal, tinham derrotado nas urnas o Partido Democrático. Eram os militares apoiantes deste que agora se revoltavam.

Naquele dia 19 de Outubro de 1921. Lisboa acordou com os tiros de mais uma revolução. Eram sete e dez e desde as cinco e quarenta e cinco que tropas da GNR haviam começado a ocupar pontos estratégicos da capital. Na Rotunda a Guarda, que à época era a força militar mais bem apetrechada, instalou artilharia pesada e obuses, com os quais começou a flagelar alvos hostis. Só na Rotunda, a GNR concentrou 7000 homens.

Granjo foi com alguns dos seus ministros para o campo de aviação da Amadora. Apresentou a demissão do seu cargo ao presidente António José de Almeida que a aceitou. Cerca das cinco da tarde regressou a Lisboa. A cidade estava em poder dos revoltosos e Granjo refugiou-se em casa de Cunha Leal, seu amigo e vizinho e seu ministro das Finanças. A casa do ministro estava vigiada e os revoltosos depressa souberam que Granjo ali estava.

A situação política estava perdida. A revolta triunfara, com as tropas insurrectas ocupando todos os pontos-chave da cidade. Os ministros andavam fugidos. Manuel Maria Coelho, um nome mítico, o lendário tenente Coelho da revolução de 31 de Janeiro de 1891, agora no posto de coronel, comandava os revoltosos. Embora os acontecimentos trágicos daquela noite tivessem escapado ao seu controlo. Aliás, ninguém, nenhum partido ou organização reivindicou o horror que foi aquela noite em Lisboa; quase todos o condenaram.
A «camioneta fantasma» (da qual hei-de falar mais em pormenor) começava a sua sinistra tarefa dessa noite, transportando António Granjo e Cunha Leal para o Arsenal, junto ao Terreiro do Paço.

José Brandão, o autor de «A Noite Sangrenta», um dos livros que melhor narra o que se passou e porque se passou, descreve de maneira viva e veraz o assassínio de Granjo: «O chefe do Governo, vencido, mantém até ao fim a coragem que o abatimento não excluiu. Salta os três degraus e, então, lança as suas últimas palavras, em que há ódio e resignação: – Já sei o que vocês querem! Matem-me, que matam um bom republicano! Soou uma descarga; debaixo, corresponderam. António Granjo caiu ao comprido, vertendo sangue por inúmeros ferimentos. Estava ainda nas últimas convulsões quando um dos assassinos, que, no dizer da testemunha ocular, é um clarim da GNR, de desmedida estatura, sacou da espada e a cravou no estômago com violência tal que, atravessando o corpo, ficou presa no sobrado. Depois, friamente, o facínora, pondo o pé sobre o peito de António Granjo, sacou a arma e gritou triunfalmente, mostrando-a aos companheiros: – Venham ver de que cor é o sangue do porco!»

Como houve diversas testemunhas oculares dos crimes, sabe-se como tudo aconteceu. O que até hoje permanece um mistério, são as razões que conduziram a actos tão horrorosos. Vitoriosa a revolta, tendo Granjo pedido a demissão, por que motivo teve de ser eliminado fisicamente? Depois de ler muito sobre o tema, a minha explicação é a de que não há explicação – um atávico ódio de classe? Os assassinos eram gente do povo, soldados rasos ou de baixa patente, com leituras apressadas de escritos revolucionários; as vítimas eram senhores, bacharéis, oficiais. Talvez fosse apenas isso (a luta de classes tem as costas largas).
O livro de que já falei – «A Noite Sangrenta», do historiador José Brandão, vai tão longe quanto é possível na clarificação. Sendo uma edição de 1991, creio que está esgotada. Talvez o possam encontrar em bibliotecas.

FutAventar – Pena o Liedson ser fiel ao golo

Se Liedson não fosse tão fiel à função para que lhe pagam, o drama que se desenvolve em Alvalade tinha terminado hoje. A diferença entre as equipas foi aquele golo, a aproveitar um erro infantil de um defesa Penafidelense.

Uma equipa que joga um futebol íncrivelmente mau, tão mau que leva a pensar que há mais qualquer coisa para além do que está à vista.

Estiveram no estádio 9 000 pessoas tantas quantas em Monsanto, na véspera, o que diz tudo sobre o que pensam os sportinguistas. Bem podem fazer assembleias, pois se querem saber o que pensam os sportinguistas basta contá-los nos jogos.

Mau, muito mau!

Poemas com história: Em louvor dos equilibristas

 

Quase um lugar-comum, nem é uma metáfora muito engenhosa, esta dos equilibristas para designar aqueles que durante a ditadura, vestiam a pele de oposicionistas ou de situacionistas, conforme mais conveniente lhes fosse, oscilando entre a direita e a esquerda e conseguindo, nesse equilíbrio difícil, ser considerados democratas pelos antifascistas e «respeitadores da ordem» pelos salazaristas. Hoje, na democracia que temos continua a haver «equilibristas», gente que é de esquerda quando quer parecer «bem-pensante», mas suficientemente conservadora para ser aceite por quem governa e para ocupar cargos e receber sinecuras. Pensando nessas pessoas que continuam a equilibrar-se entre o «democraticamente correcto» e o «conveniente para a conta bancária», escrevi este texto que publiquei em «O Cárcere e  o Prado Luminoso» (1990):


 

Em louvor dos equilibristas

Falta ainda uma condecoração,

ordem ou comenda que consagre

o esforço do equilibrista

em prol da civilização.

Formidável ciclista,

verdadeiro paganini da circulação

em cima do arame,

o ciclista percorre,

sem qualquer hesitação,

o ténue espaço que separa

a esquerda direita.

É um simples traço,

quase uma abstracção,

um risco passado

por onde não há espaço.

Ágil, aproveita

o espaço inexistente

deslocando o corpo obliquamente:

metade sobre o risco da direita

e a outra debruçada

sobre os riscos da vertente

que à esquerda, sobre o abismo,

espreita.

Mas ouçamos a receita do artista

(que ninguém está livre

de a ter de usar:

quando menos se espera e pensa,

a corda tensa, a pista, a vertigem,

lá estão à espera

dos que não aprenderam a voar).

Diz, com modéstia,

o frágil saltimbanco:

– Afinal nem é assim tão complicado.

Sigo pela direita

quando

ando;

avanço pela esquerda

quando estou

parado.

 

Há escola para além do ruído

Tudo parece estar limitado à guerra dos sindicatos com o ministério, mas não é assim, há muito mais, e muito mais importante. Vejam:

"Prefiro ter um carro pior e tê-los aqui. É seguro e não há professores a faltarem" -José, pai.

"Os professores acompanham os que têm maiores dificuldades em regime de voluntariado." –  Alexandra,mãe.

"Quero que os meus filhos estejam numa escola com jovens de todas as classes sociais.Não os quero numa redoma de vidro" -Ana paula,mãe.

"O Ministério não teve a iniciativa de nos ajudar a melhorar.E nós precisamos de ajuda! "José Bruno -Director de Escola

"Muitas vezes as notas são o menos importante. A escola é essencial para eles terem ao menos uma boa refeição por dia." Cristina ,vice-directora de escola.

Helena de Lisboa

O Movimento de Cidadãos por Lisboa acolheu-se nos braços do PS nestas últimas autárquicas, o que foi para mim uma grande desilusão. Mas parece que nem tudo está perdido.

Recebi hoje por mail a notícia de que o Movimento apresentou a todos os partidos da oposição a reivindicação de anularem na Assembleia da República o contrato dos Contentores de Alcântara, acordado ente o governo de Sócrates e a Mota-Engil. Este contrato, chumbado pelo Tribunal de Contas, que enviou o relatório para o PGR, é um verdadeiro assalto a Lisboa, desde o número de contentores permitido até aos 30 anos de prazo, aos 600 camiões que terão de entrar em Lisboa numa das principais entradas de Lisboa, às obras caríssimas de abaixamento da rede ferroviária de Lisboa/Cascais, que vão obrigar a desviar o caneiro de Alcântara. E todas estas obras são pagas pelo contribuinte.

A Helena Roseta diz que a sua vida política responde pela sua independência. Também temos as presidenciais e a vontade secreta de Sócrates deixar apeado Manuel Alegre, é pois muito possível que Helena não deixe morrer o Movimento. Para já, está a prestar um grande serviço a Lisboa e ao país!

Vamos então, ver como se comportam os partidos com assento na Assembleia da República neste caso concreto que tanto criticaram!

 

Texto de LUIS MOREIRA