Foi há 71 anos que Robert Schuman proferiu o seu famoso discurso, eternizado como Declaração Schuman, que marcou o início do processo de construção europeia, colocando, assim, um definitivo ponto final em anos de guerras sangrentas e instabilidade política e social no continente europeu. De lá para cá, a hoje União Europeia transformou-se na capital mundial da democracia e da liberdade, onde o esforço conjunto resultou em mais direitos, mais liberdades, mais garantias, mais igualdade, mais fraternidade, mais respeito pela diferença e maior acesso a oportunidades do que em qualquer outro local do mundo. O caminho é sinuoso, e muito há ainda para construir, para reformar, para melhorar e ajustar. Na balança, contudo, os ganhos colectivos ultrapassam largamente as consequências nefastas que deste projecto resultaram. E nós, portugueses, que nem sempre sabemos usar ou executar o investimento que chega de Bruxelas, somos dos que menos se podem queixar. Seríamos um país muito mais atrasado, muito mais pobre, caso tivéssemos optado por qualquer uma das propostas “orgulhosamente sós”, na periferia e ultraperiferia da União. Sempre tive e – suspeito – sempre terei dúvidas quanto ao funcionamento e estrutura da União Europeia. Mas nunca deixarei de acreditar no melhor projecto civilizacional construído até à data. E não vejo propostas alternativas que nos conduzam a mais prosperidade. Só retrocesso e barbárie. Celebremos, pois, esta Europa a 27 e tudo o que conquistamos. Se não for por mais, que seja pelo privilégio de aqui estar.
Odemiração
Um dos meus melhores amigos vive na minha memória. Tinha idade para ser meu pai e foi, durante vários anos, companheiro de tantas conversas. O Manuel Dias, velho jornalista prestigiado, andou pelo mundo inteiro. Contou-me que esteve na Cidade do México, em trabalho. Perdido na metrópole, a caminho de uma sessão com gente fina, deu por si, bem vestido, a entrar num tasco muito pobrezinho, para beber uma cerveja. Não me lembro das palavras exactas, mas o Manuel fez-me ver que tudo ali era miséria, pobreza, fome, os mais pobres dos pobres. Acrescentou: “Nestes momentos, um tipo é obrigado a pensar na sua camisa, na sua gravatinha, nas desigualdades.”
Nem sempre pensamos nas desigualdades. A maior parte das vezes, não pensamos nisso, por um egoísmo que, em parte, é saudável – com tanta miséria e tanta exploração que há pelo mundo, não teríamos tempo para sermos felizes ou, no mínimo, inconscientes ou ignorantes (condições necessárias para se ser feliz). Não teríamos tempo nem descaramento para apreciar a gravata, as jantaradas, os inúmeros privilégios com que somos cumulados, porque a vida que temos não resulta só do mérito, mas sobretudo de uma série de acasos, por muito que os portadores de certezas absolutas, sectários religiosos e políticos, acreditem no merecimento.
O triste espectáculo da escravatura em Odemira não é novidade. Há quem fique admirado por se saber. Fico espantado (até comigo) por não se pensar nisso, por acreditarmos que não é possível no nosso mundo, na civilização europeia. A exploração é tão antiga como a humanidade ou é a maneira de exercermos a nossa selvajaria essencial, lobos uns dos outros. É uma pulsão, é o poder a corromper-nos. [Read more…]
Pois é
Esquerdecer do centro
Uma das conversas que vem sempre à mesa, quando alguma das franjas mais radicais tem uma postura pouco democrática para o outro espetro, é sobre o que são os extremos. Para analisarmos isto, temos de perceber, antes de tudo, onde é que está o centro.
É bastante comum ouvir que não há extrema-esquerda em Portugal. Normalmente, quem o diz é a própria extrema-esquerda ou então uma esquerda que precisa de aliados para combater a ascensão da extrema-direita. Chega a ser enternecedor ouvir os argumentos “complexos” da extrema-esquerda, desculpando-se com a existência de movimentos ainda mais radicais. Obviamente, há extrema-esquerda em Portugal e é representada também pelos comunistas e pelos bloquistas. Atenção, lá por ser extrema-esquerda, considero que o Bloco tem forças democráticas dentro do Partido e que são suficientes para me fazer confiar muito mais nele do que no PCP. Esta é a esquerda, não só partidária, que usa exatamente as estratégias que detesta no seu adversário. Ora, estigmatiza o outro lado, chegando mesmo a pedir a ilegalização de um partido, mas considera inaceitável uma declaração vergonhosa sobre o seu, como foi no caso de Suzana Garcia. Considera-se a verdadeira esquerda, a única possível, considerando tudo o resto, até uma esquerda mais aproximada ao centro, algo que distorceu os “reais” valores. Citando Francisco Mendes da Silva, “É uma lei infalível da política: quando um adversário se aproxima de nós, é porque é um livre-pensador; quando um dos nossos se aproxima do adversário, é porque é um traidor.”. Tem uma visão única para a sociedade, como se de uma disquete se tratasse. Demonstra-se contra instituições que promovem a paz, mas fecha os olhos a células terroristas. No fundo, quase ninguém se assume de um extremo, tal como nenhum criminoso diz “Pronto, fui eu, fui eu que matei o puto. Para que prisão vou?”. [Read more…]
Vira-vira
Então agora já são todos a favor da quebra das patentes das vacinas?
Enquanto foi a Esquerda a propor o levantamento das patentes, batendo nessa tecla e até esperneando: “Vocês são malucos!”, “Isso é impossível!”, “Olha-me estes esquerdalhos…”;
O presidente liberal dos EUA defende o levantamento das patentes: “Olha que boa ideia!”, “Levantamento das patentes, já!”, “Já devia era ter sido feito!”.
Era só quem vos desse com um pau nas costas.
Curiosamente, só uma parte parece pouco interessada nesta hipótese.
Foi por isto que a direita dita moderada se vendeu?
Na primeira sondagem – valem o que valem, já sei, mas não costumam errar por muito – realizada após a decisão instrutória da Operação Marquês, pela Aximage para o JN/DN/TSF, as intenções de voto do Chega registam uma queda de 1,2%, dos 8,5% de Março para 7,2% em Abril. E isto não deixa de ser curioso e revelador. Se num dos momentos de maior fragilidade do regime que quer derrubar, Ventura não só não descola, como perde gás e se atrasa na corrida com o Bloco pelo terceiro lugar, então é possível que a extrema-direita tenha atingido o seu pico de crescimento. Pelo que se parece confirmar que a direita dita moderada se vendeu por muito pouco. Aliás, parece dar-se o caso de ter até pago para se vender, ao invés de receber, ou não tivesse o crescimento do Chega sido alimentado por uma debandada do PSD e, sobretudo, do CDS. Debandada essa que, convenhamos, tem vindo a crescer, pelo menos até à presente sondagem. Porque, na verdade, a direita toda junta vale hoje tanto como valia em 2015, e não está muito distante de 2019. A variação anda na casa dos 4%. E isto acontece porque a direita, com a excepção do IL, entregou o centro ao PS para lutar com o Chega pelo eleitorado que era seu. Vamos ter mais 6 anos de António Costa. E, a continuar assim, a mais 4 de Fernando Medina ou Pedro Nuno Santos. E esta é apenas uma das consequências de jogar o jogo do Chega. E nem sequer é a pior. No caso do PSD, o mais recente elenco autárquico-mediático, e todas as contradições que encerra, fala por si. Já o CDS enfrenta a extinção, ou, na melhor das hipóteses, a despromoção à liga do Livre (atrás do qual aparece nesta sondagem), a lutar por eleger um deputado em Lisboa. E quanto mais tempo demorarem a pôr os olhos no exemplo de Angela Merkel, pior será. Chama-se cordão sanitário e é uma questão de bom-senso.
Ode, mira este Portugal

O que me diz toda esta polémica com o caso de Odemira? Que é o Portugal de sempre. O Portugal que assusta qualquer um que o “mire” de fora.
Num breve resumo: temos um empreendimento turístico que concorre de forma desleal com muitos outros na região. Cujo investimento foi feito com batota, ou seja, com empréstimos a fundo mais que perdido ou a fundo de amigo, via BES. Temos explorações agrícolas que concorrem de forma desleal utilizando mão de obra escrava. Temos um Estado que faz de conta que não vê nada. Reguladores que não regulam nada. Autarquias que não se preocupam com nada. E depois, quando a coisa dá para o torto temos o tradicional “não sabia”.
Reparem, o Senhor Zé tem uma exploração agrícola onde paga aos seus trabalhadores cumprindo integralmente as leis do trabalho a concorrer com o Zé S.A. que escraviza os seus trabalhadores. E vão os dois vender ao mercado em pé de igualdade e, claro, o Zé da S.A. consegue ter preços mais baixos que o Senhor Zé. Agora é substituir a exploração agrícola pelo restaurante, pela loja de roupa, pela mercearia e passar de Odemira para Lisboa, Porto, Braga, Vila Real e por ai fora. O mesmo se diga no tocante a “resorts” e o pequeno investidor que criou um turismo de habitação ou um Hostel. Quando vemos e lemos a “engenharia” financeira na base da criação do ZMar é todo um Portugal dos pequeninos, do amiguismo, das velhas famílias, dos chegados ao Terreiro do Paço. O BES empresta sem as garantias que exige ao comum dos mortais. As autoridades fazem de conta e deixam construir onde não é permitido ao comum dos mortais e quanto a impostos, vou ali e já venho. Ora, isto não é liberalismo económico. Nem se pode chamar a isto capitalismo selvagem. É pior, é crime sem castigo. É Portugal.
Ora, eu gostava de ver a Iniciativa Liberal a falar a sério sobre isto. A explicar que esta merda não é liberalismo, que esta merda nem capitalismo é. E sim, sou mais exigente com a IL do que com os outros nesta matéria. Porque dos outros já não espero nada. Trabalho escravo, violação das regras da concorrência, abuso de poder é o resumo do que se passa por estes dias nas notícias.
É Odemira a ser o espelho de Portugal.
Sugar a essência da vida

@ Buena Vista Pictures/Photofest
O Clube dos Poetas Mortos era o grupo das pessoas que queria sugar a essência
da vida. Que queria extrair de cada pequeno momento tudo o que ele teria para dar.
O filme é aclamado pela crítica, é citado vezes sem conta, mas parece-me que nós, enquanto seres-humanos, nem sequer chegamos perto de o perceber.
Quando nascemos, a vida está-nos praticamente pré-estabelecida. Sabemos que temos um percurso escolar obrigatório, é-nos quase impingida uma ida para o ensino superior, por forma a construir uma carreira que dure 40 ou 50 anos, a reforma na casa dos 60 e depois o calendário, como nas prisões, de quantos dias faltam até morrermos.
Meritocracia? Capitalismo? Os dois?
4 de Maio de 2021 – A noite de horror dos Pablos

É preciso algum cuidado na análise aos resultados de ontem, em Madrid, de Isabel Ayuso. A sua vitória esmagadora não é uma vitória esmagadora do PP. Não. Nem é apenas uma derrota esmagadora de um Pablo, o Iglesias. O 4 de Maio ficará para a história da política espanhola como a noite de horror para dois Pablos. O Iglesias e o Casado. Por razões diferentes.
A cosmopolita Madrid derrubou de forma implacável um dos seus representantes. Pablo Iglesias é um produto dessa Madrid cosmopolita, moderna e jovem. Foi a partir de Madrid que Iglesias partiu rumo à conquista da esquerda espanhola. E foi em Madrid que se transformou naquilo a que hoje o apelidam muitos dos que acreditaram na banha da cobra que lhes vendeu, o “podemita”. E ser um “podemita” em Espanha é tudo menos positivo. Ser um “podemita” não é ser um militante ou apoiante do Podemos. Não. É ser alguém que traiu os seus eleitores, que traiu o ideal que, supostamente, defendia e representava. É o “podemita” que se transformou no inquilino de um luxuoso condomínio habitacional dos arredores de Madrid, que vivia no meio daqueles que tanto criticou, cujos vizinhos alimentam o voto franquista do Vox. É ser tudo aquilo que antes tanto criticou aos seus adversários.
A mesma cosmopolita Madrid que votou Ayuso mas não vota Pablo Casado. Porque lhe falta a ele o que ela tem para dar e vender: carisma e “huevos”. Isto escrito por alguém que não vai muito “à bola” com a senhora. Continuo a ter muitas dúvidas na estratégia de Ayuso na gestão da pandemia (a mesma estratégia, confesso sem qualquer hesitação, que lhe permitiu construir este resultado histórico). Aliás, ao dia de hoje, Madrid continua a ser um barril de pólvora quanto ao número de infectados e ao número de doentes nas UCI. Porém, mal ou bem (o futuro o dirá), Ayuso fez algo que em política é essencial mas que se tornou raro: escolheu um caminho e foi por ali fora sem pestanejar. Escolheu manter Madrid minimamente aberta, decidiu colocar-se ao lado dos comerciantes da sua região e dizer que não se pode combater uma pandemia matando com a cura. Enquanto que nas restantes regiões de Espanha o comércio estava fechado e as regras de recolher obrigatório eram (ainda são) duras, em Madrid eram flexíveis. Se nas Baleares fechava tudo (ou quase) às 17h, em Madrid fechava às 23h (ou mais). São opções. Que só o futuro dirá qual a mais correcta.
Carlos Guimarães Pinto: Antigamente não era bom
(Carlos Guimarães Pinto, Ex-Presidente da IL-Iniciativa Liberal)

Quem diz é quem é, o teu pai cheira a chulé
Diz o líder do clã rival, aspirante a futuro delegado da turma B do 4º ano do ensino primário:
Garagem Liz – mais uma vítima das superfícies comerciais
[Jorge Cruz]
O processo de destruição legal de património é uma pratica diária que parece continuar alegremente até que exista o ultimo exemplar para destruir. Não se percebe para que existe um ministério da cultura com delegações regionais, câmaras municipais, serviços de urbanismo e de licenciamento de obras, tudo enxameado de técnicos competentes. Para além destas instituições existem ainda regras, regulamentos, planos de tudo e mais alguma coisa, associações de defesa do património, Icomos, Unesco, enfim, existe tudo o que é necessário, mas mesmo assim continuam a acontecer casos como o da “Garagem Liz”, na esquina da Rua da Palma com a Calçada do Desterro em Lisboa.
O edifício é classificado como Imóvel de Interesse Público “pelo seu Valor Arquitectónico e Artístico” (Decreto nº 8/83 de 24-1), e integra a “Carta Municipal do Património”. Construído em 1933, com projecto do arquitecto Hermínio Barros, foi concebido para um uso misto de garagem e actividade comercial, tão ao gosto da época, com “uma notável inserção na malha urbana”. A obra constitui um “interessante exemplar da arquitectura modernista de Lisboa, inserido no movimento estético-arquitectónico generalizado na década de 30, do séc. XX, muito ao gosto ‘Art Déco’, com alguns apontamentos Arte Nova”.
Por estas razões foi classificado como imóvel de interesse público.

Interesse público, é o contrário de interesse privado. Considerou-se que o edifício é “representativo de uma época e de um estilo arquitectónico com influência na malha urbana da capital”. Quer pelo seu desenho, fachada e planta, quer pela sua funcionalidade, ligada ao ramo automóvel, uma actividade importante nas primeiras décadas do sec. XX, quando o uso automóvel começou a generalizar-se. Devemos recordar como o automóvel é dos elementos “urbanos” mais estreitamente ligados ao movimento moderno, quer pelo tipo de objecto, quer pelo tipo de “modernidade” que representava à época, quando ainda não era um factor de ameaça ao funcionamento urbano. Tal como os cinemas, os edifícios industriais e os mercados, os edifícios ligados ao ramo Automóvel são elementos patrimoniais importantíssimos deste período histórico e artístico. Por isso foi, e bem, classificado como tal. O objectivo da classificação de imoveis é a sua conservação e defesa, de modo que se mantenham e sejam um testemunho das respectivas épocas.
Ora, o que é que se presta para acontecer, pese embora este cenário? O edifício vai ser [Read more…]
O Aventar e as elites

Há 11 anos, visto que não havia maneira de conseguir socialistas para escrever no blogue, o Aventar publicou um anúncio no Público a pedir “Blogger da área do PS e simpatizante do primeiro-ministro José Sócrates”.
Terá sido a primeira vez que muitos de vós terão ouvido falar do Aventar.
A polémica então criada incluiu o crash do blogue por excesso de tráfego; os ataques de falecidos blogues, como o Jugular, sem nunca referirem o nosso nome; e entrevistas de jornais – a nós e a outros por nós referidos.
Numa dessas entrevistas, a historiadora Irene Pimentel, questionada pelo Público sobre o facto de não ter respondido ao convite do Aventar, referiu que não tinha achado o convite interessante. E como não tinha achado o convite interessante, digo eu, não se deu sequer ao trabalho de responder a plebeus como nós.
São assim as tristes pseudo-elites portuguesas. Têm muito, mas falta-lhes algo tão básico como a educação.
Tudo isto para dizer que, ao fim de 11 anos, nada mudou em Portugal. Personalidades como Ana Gomes, Joana Mortágua, Joana Amaral Dias, Raquel Freire. António Barreto, Miguel Guedes, Pedro Marques Lopes ou Daniel Oliveira foram convidadas para escrever no ciclo “Do 25 de Abril à Pandemia”, em publicação, mas nem sequer se deram ao trabalho de responder.
Podiam ter dito seus merdas, acham que estou ao vosso nível?, que não tinham tempo, que não podiam, que não achavam o convite interessante, mas ter-lhes-á parecido que uma elite como é a sua não se deve misturar com gentinha como a do Aventar.
Que nunca teve nem terá dono.
Nota: Um grande obrigado a todos os que responderam ao nosso convite, tenham ou não enviado o texto solicitado.
O assédio sexual em Portugal e o ensurdecedor silêncio das Capazes
Quem não se lembra da música de Valete e do histerismo das Capazes na forma como reagiram a essa música.
A violência de género é um dos principais problemas sociais em Portugal e no resto do mundo. Um mundo profundamente machista, no qual as mulheres têm de arcar não só com o peso da biologia como com todo o peso da História. Se a igualdade entre sexos passar pelas quotas e pela discriminação positiva da mulher perante a lei, que assim seja.
Apesar de ser feminista, falta-me muito para ser um exemplo. Mas vou fazendo o meu percurso. A lei da criminalização do piropo, que em tempos me fez rir, é um exemplo de como me tenho tornado cada vez mais intolerante neste aspecto. Piropos? Com que direito?
Já o feminismo das Capazes é selectivo. Salta-lhes a tampa para defenderem as mulheres da música de Valete – valha a verdade que de mau gosto. Mas também lhes salta a tampa quando uma mulher acusa Cristiano Ronaldo de violação. Aí, só porque é Cristiano Ronaldo, um ídolo, a mulher deixa de ser a vítima e passa a ser a vil chantagista, a puta. A mesma puta de Valete.
E quando está no auge a discussão em Portugal acerca do assédio sexual e sucedem-se as denúncias de figuras públicas, a Capazes remete-se ao silêncio. Uns posts fofinhos no Facebook a apoiar as vítimas, que é para não fazer muito barulho, e está a andar.
Sofia Arruda, Dânia Neto, Catarina Furtado, Inês Herédia, Olívia Ortiz, Carolina Deslandes, Bárbara Norton de Matos, Cláudia Chéu, Bárbara Guevara e tantas outras têm sorte, ainda assim. Os seus algozes não têm, por agora, o nome publicado. Se tivessem, fosse o seu nome Cristiano Ronaldo ou outra figura pública, seriam chamadas de putas para baixo.
E se fosse um adepto?
Na última segunda-feira, após o jogo entre o Moreirense vs FC Porto, um agente desportivo agrediu um jornalista. Obviamente, a discussão foi tornada num debate clubístico em que se tenta provar que uns são melhores do que outros. Parece que ainda não perceberam que é impossível racionalizar algo que apenas mexe com emoções. Mas pior do que isto foi não ter visto quase ninguém a falar do alegado crime em si – uma agressão. Também não vi ninguém a defender um tratamento especial aos agentes desportivos a partir de agora. O que não seria se tivesse sido a agressão de um adepto? Aí caía o Carmo e a Trindade. Aí teríamos de acabar com as claques. Aí teríamos de calar os adeptos. Aí teríamos uma ação policial digna de criminoso terrorista.
Não esqueçamos que, neste mês, houve episódios de abuso policial sobre adeptos do Sporting que foram apenas esperar a sua equipa. Vai haver cartão do polícia? Houve uma discussão grave que envolveu o treinador do Sporting e noutro episódio envolveu o treinador do FC Porto. Vai haver cartão do treinador? [Read more…]
EU-Mercosul: Um protesto na rua contra a insanidade

Ontem de madrugada na Praça do Comércio, um grupo de colectivos da sociedade civil lançou, em letras gigantescas, um apelo à sensatez.
Sensatez que, em particular o governo português, com a sua arreganhada insistência na ratificação deste absurdo acordo, demonstra não ter, por amor a supostas portas abertas a negócios além-mar.
Toda a rede de acordos de livre comércio que a União Europeia anda diligentemente a tecer padece de sérios problemas. Estes ditos acordos de “nova geração” reduzem tudo ao comércio e à liberalização, sem ter verdadeiramente em conta coisas menores como os direitos humanos ou a sustentabilidade. Têm, sim, capítulos rendilhados com belas palavras alusivas a um mundo melhor, mas que disso não passam. Ao contrário dos capítulos de protecção ao investimento estrangeiro, esses sim, “com dentes”, os valores “soft” são embalados em moles declarações de intenções.
Porém, este Acordo EU-Mercosul, assinado em 2019 mas que ainda carece de ratificação e tem como alvo abranger 780 milhões de pessoas, ultrapassa tudo o que até agora se tem visto em matéria de insanidade. [Read more…]
V. Excias. estão equivocados? Não me parece.

Temos assistido aos pseudo arremessos do BE ao actual governo. Na área da Cultura a tónica tem sido na questão dos precários, nos apoios aos agentes culturais, e recentemente o estatuto dos trabalhadores da Cultura.
Não raras vezes é Ministério da Cultura para ali, Ministério da Cultura para acolá, e por aí adiante. Aliás basta ver o jornal Avante da SONAE, e por exemplo a voz do dono (Governo) neste artigo. Também noutras bandas é igual.
Enfim, a corte no seu melhor.
Mas voltando à questão, não existe Ministério da Cultura. Não no sentido irónico de dizer que esse eventual Ministério não actua, mas de facto não existe.
Desde 1974 até 1980 (6 anos) não houve nos sucessivos governos qualquer pasta governativa dedicada à Cultura. A partir daí sempre houve Secretaria de Estado da Cultura e/ou Ministério da Cultura. Com tudo o que isso implica. Em 2011, o Governo da troika extinguiu a pasta. Nesse governo não havia nem Ministério nem Secretaria de Estado. Havia um Secretário de Estado (Francisco José Viegas, e depois Jorge Barreto Xavier, ambos de triste memória). Na altura muita gente usou o argumento de não haver Ministério. Mas referiam-se à Secretaria de Estado da Cultura, que não havia. Hoje, 2021, passados 10 anos, continua a não haver nem Ministério da Cultura , nem Secretaria Estado da Cultura. Temos uma Ministra e uma Secretária de Estado, mas ambas sem pasta, tal e qual como em 2011. Mas curiosamente o BE nada diz sobre a matéria. Aquilo que seria o exemplo de como o governo da troika tratava (mal) a cultura, não se aplica ao actual governo.
Percebo, e na minha terra esse comportamento tem um nome.
É por estas e por (muitas) outras que, em meios profissionais, recomendo sempre a distinção entre
Porto e FC Porto. Estes “Porto boss” e “Porto’s boss” soam-me demasiado à famosa “quadrilha de Chicago“. E a culpa, obviamente, não é de Sérgio Conceição.

Foto: Octávio Passos.
Odemira – pandemia e ignomínia
Odemira foi um dos Concelhos que regrediu no Plano de Desconfinamento por decisão do governo, apoiado no aumento da percentagem de infectados e no risco de transmissão do vírus. Visto de Lisboa parece não haver nada a fazer senão cumprir com o plano anunciado.
O que quem lá vive vê é que nesta época de apanha da azeitona os proprietários dos olivais recorrem ao trabalho sazonal de imigrantes de todas as origens, muitos deles ilegais, alojando-os aos 10, 20 ou 30 em pequenos espaços sem condições sanitárias mínima! Para mais, estes trabalhadores sem contrato e pagos por muito pouco, são transportados ao ‘molho’ das plantações para casa e vice-versa.

Como resolve o poder central este problema? Com o Estado de Emergência ou com o que aí vem de Calamidade e com a regressão no Plano de Desconfinamento!
Como resolve o poder local? [Read more…]


















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