Um bramido de raiva

adão cruz

 

 

Senti um frio arrepiante e um buraco negro nas entranhas tão fundo como a silhueta daquele maldito comboio da inglória velocidade rebentando a dor direito à morte que está em pé na berma do cais pela mão de uma criança.

O pai nos braços de um escombro deste mundo sem sol nem lua destino bárbaro e cruel da perda total de mão dada com o filho contra a majestade de um gélido cadafalso de ferro parido pela força de um desumano progresso contra o qual se esmagam os pobres e desamparados que vivem em contra-mão.

Meu menino sonâmbulo de olhos negros e pálida doçura quase luminosa firme terna inocente confiante na verdade desfeita em sangue pela mentira das mãos fatalistas de uma sociedade podre.

Podia ser um menino nascido no berço do lado ao colo de um pai ou de um avô trabalhador-milionário desiludido porque a sua fortuna não havia atingido o limiar do absurdo o que não deixava de ser triste mas a vida filha da puta meu menino pobre nada mais te deu do que um pai sem nada sem prendas sem força nem entreactos que te enxergassem melhor sorte do que a morte.

O monstruoso comboio entra na tua boca a toda a brida o ar louco sai em turbilhão do teu pequenino peito sem eco a vida estilhaça-se em ruidoso estrondo e o teu corpo frágil cai em pedaços sobre os bonecos das tuas meias no pavoroso silêncio dos teus olhitos redondos.

E o mundo continua como se nada tivesse acontecido.

Quando vi que eras tu o menino que estava no curto caminho da morte pela mão de um pai que não dominava a fome e não tinha dinheiro para te comprar uma bola um pai que não sorria nem cantava para ti porque a alma se perdeu na praça do medo com o sol congelado na boca senti um bramido de raiva e uma louca vontade de pedir contas a Deus.

 

Falhámos

Este não propriamente um post sobre segurança e criminalidade, é, isso sim, sobre o valor da vida.

Os crimes contra a integridade física têm aumentado de forma, para mim, inimaginável. É frequente ler/ouvir episódios de pessoas barbaramente agredidas apesar de entregarem os pertences aos assaltantes e de não oferecerem resistência. Começam também a circular histórias de pessoas violentadas por, simplesmente, não terem o que roubar.

Nos últimos dias duas pessoas foram mortas por tentarem ajudar vítimas de assaltos. O último caso envolvia aparentemente o roubo de… um boné e resultou, ao que parece, de uma uma vingança perpetrada mais tarde e a frio.

Quando estes casos começam a banalizar-se, traçam um retrato muito negro da sociedade onde acontecem. Não se trata, aqui, de fome, crise ou desespero. Trata-se de a vida do próximo valer praticamente nada, trata-se de se considerar o outro um mero impecilho próximo de ser, apenas, uma personagem virtual que se pode apagar para que o jogo prossiga e o próximo nível (a aquisição de um boné, por exemplo) seja atingido.

Uma sociedade assim falhou. E, se falhou, falhámos todos. O pior de tudo, neste jogo, é que não se pode desistir, voltar atrás e começar de novo. Somos todos joguetes e jogadores de uma coisa onde a vida e a morte se equivalem. Pouco mais.

Angélico e o valor da vida… e da morte

 

 

 

 

 

 

 

Em conversa com um amigo, este desvalorizava a morte de Angélico em comparação com outras mortes de figuras públicas ocorridas recentemente. Na sua opinião, Angélico não era ninguém e, por isso, o seu desaparecimento é coisa de somenos, até porque a culpa da morte foi dele.
Esta conversa fez-me pensar no valor que tem a vida e a morte de alguém. Uma vida não tem preço e nenhuma vida vale mais do que outra, sobretudo quando colocamos na equação os nossos preconceitos e os nossos julgamentos pré-fabricados.
É por isso que me custa a aceitar que a morte de um seja coisa de somenos em comparação com a morte de outro. E é também por isso que me custa aceitar esta verdade: pensando em todas as circunstâncias envolvidas, há mortes que são mais de lamentar do que outras. A morte de um Angélico, por exemplo, é muito mais triste e lamentável do que a morte de um António Feio. [Read more…]

Há filmes que nos marcam (1)

Há filmes que nos marcam, com cenas que nunca se esquecem.

“Scent of a woman” é uma autêntica galeria de cenas inesquecíveis.

A conversa entre Al Pacino e Gabrielle Anwar e o tango que se segue: mais que uma lição de dança, uma lição de vida.

Vidas por um fio

(Opistótono, óleo sobre tela, de Charles Bell, 1809)

Eu acabara de comer a canja. Na minha juventude, os casamentos da minha aldeia tinham canja, frango estufado com ervilhas e vitela assada. Mas nem ao frango eu cheguei. Alguém me veio chamar para ir ver uma mulher que estava muito mal, lá para os confins da Serra da Gralheira.

Enfiei-me no meu velho Hillman Minx e fui até Junqueira, no alto da serra, onde um homem me esperava. Daí em diante o trajecto seria feito a pé por montes e vales. Quase uma hora depois chegámos a um casebre, em cima uma humilde habitação e em baixo o curral da vaca. [Read more…]

Simples informação

Mera informação aos amigos do Aventar

 Tenho vários livros contendo poemas, mas livros propriamente de poesia tenho dois, ou melhor, quatro, dado que o segundo é um conjunto de três pequenos volumes, com os subtítulos “Poemas do lusco-fusco”, “Poemas de ser e não ser” e “Poemas estoricônticos”. O primeiro livro intitula-se “Esta água que aqui vem dar” e foi editado em 1993, com a prestimosa ajuda do meu amigo Eugénio de Andrade. O segundo tem o título “Nova ponte sobre um velho rio” e é de 2006.

 Estou a preparar um novo livro a que darei o título “Vai o rio no estuário”, com subtítulo “versos de braços abertos”. Neste livro, procurarei dar a poemas novos e a antigos que eu resolver reformular, uma nova forma, em que os versos se abrem e se espraiam como os braços de um estuário, tal como em criança eu abria os braços de par em par, quando chegava ao fim da corrida. Porei de lado o velho conceito de estrofes e a sua classificação quanto ao agrupamento de versos, versos que não submeterei a metrificações, encadeamentos e rimas previamente concebidos em esquemas. Uma espécie de versos livres, versos ao calhas, ao sabor do vento suave que afaga as águas de um estuário.

 Procurarei fazer com que os poemas que doravante o Aventar fará o favor de publicar (deixo aqui lugar a uma ou outra excepção) obedeçam a este princípio. Tudo isto porque há muito me sinto um tanto enjoado com a poesia que por aí se faz e se consome. Talvez porque, embora tarde, comece a ter consciência das margens apertadas do meu rio e a sentir a atracção da liberdade de abrir os braços no fim da corrida.

 Darei aqui um exemplo do que pretendo tentar fazer: [Read more…]

De volta

(adão cruz)

(Texto de Marcos Cruz)
Saio da cama a pensar que já pensei muito. Reflicto sobre a complexidade dos meus sonhos e concluo que a vida é aquilo que estivermos dispostos a receber. Levanto o corpo decidido a deitar a mente. Ainda no limbo vem-me à imagem uma autoestrada engarrafada de um lado e totalmente vazia do outro. Olho para a baba na almofada e constato que ainda salivo, mas por momentos ocorre-me a dúvida sobre se a saliva que agora tenho na boca não se deverá ao súbito e intenso desejo que sinto de passar para o outro lado da autoestrada. Penso então que não faz sentido esta confusão entre a cama e a vida. Seria um terceiro sentido. Não existe. Mas atrai-me. Fico a imaginar para onde iria ele e deparo-me com duas possibilidades: para cima ou para baixo. O que me leva a admitir um quarto sentido. O som da palavra quarto traz-me de volta ao meu. Reprimo-me por ter frustrado o projecto de não pensar e penso se não o terei feito no preciso momento em que o formulei.

Materialismo e Espiritualismo

(adão Cruz)

O mal do homem não está em pensar e ter ideias, o mal do homem está em não pensar e não ter ideias.

Por isso, na sequência de um artigo anterior aqui publicado, sinto necessidade de correr um pouco mais atrás de ideias e de fazer mais algumas reflexões em relação a este tão aliciante tema. Os que acham que sou tolo e desprovido de senso têm uma solução fácil, não leiam. Mantenham as suas valiosas ideias fechadas no cofre do deixa andar e não te rales. [Read more…]

Ler como ser

    (adao cruz – o eco) 

(Em tempo de livros parece-me útil este texto de Marcos Cruz)

Ler como ser

Penso se um dos trunfos da escrita não será o facto de que quem lê está envolvido na leitura e, dentro da dinâmica própria em que a leitura se processa, não tem tempo para reflectir sobre o que vem a seguir. Refiro-me, concretamente, a estes textos que escrevo. À medida que os vou escrevendo, cada uma das palavras impressas me ecoa na cabeça e, como qualquer eco, traz uma aparência indefinida, dividida ou multiplicada, não sei, mas em que são perceptíveis várias derivações, relações profícuas, como quando se atira uma pedra a um rio e os círculos nascem uns dos outros, trementes, nunca parados, mas suficientemente nítidos para os podermos cristalizar na memória e, depois, se for caso disso, fazermos uso deles. Mais ou menos assim é, aliás, a vida: nunca pára, não dá para apanharmos verdadeiramente nada a não ser essas impressões e, depois, se for caso disso, fazermos uso delas. Será a vida um eco? Não sei. Mas também não era por aí que eu ia. [Read more…]

Prolongar a morte (A propósito deste: O valor da vida)

Apesar de 30 anos de debate, das leis e dos esforços de uma série de grupos para melhorarem o tratamento daqueles que estão perto da morte, demasiados americanos ainda recebem maus tratamentos no final da vida e estão a sofrer “mortes más”, sem cuidados paliativos adequados e dignidade, diz o Hasting Center em Nova Yorque.

Joanne Lynn, geriatra do Ministério da Saúde em Washinton, D.C. notou no relatório que o sistema de saúde nos USA tornara possível “viver durante anos no vale de sombras da morte.”

Enquanto médico hospitalar, Jeff Gordon teve muitas oportunidades para observar as agonias de uma morte má – quando o paciente não deixa instruções adequadas acerca de como quer ser tratado no momento em que a terapia para a sua doença deixar de funcionar.

Deve tentar-se a ressuscitação cardiopulmonar se o coração parar de bater? Deve alimentar-se o paciente com tubo se não conseguir fazê-lo pela boca? Um ventilador quando se tornar dificil respirar independentemente?

Ou o paciente deve receber apenas os tratamentos de conforto – para a dor, as náuseas, a ansiedade, a depressão, e outros sintomas debilitantes – e ser-lhe permitida a morte natural?

Mas anos e anos numa cama de hospital “a prolongar a morte” representa muito dinheiro para as Seguradoras e para os prestadores de cuidados de saúde! Centenas de milhões de dólares e imenso sofrimento poderiam ser poupados se as pessoas em conjunto com a sua família e o seu médico, explicitassem o limite dos tratamentos a que aceitavam estar sujeitos e que prolongam a morte.

O Valor da Vida:

Um caso verídico que nos deve fazer pensar.

Como Se Fora Um Conto – O Descalabro do J

O Descalabro do J

O estrondo, enorme e contínuo, baralha as ideias, impede o pensamento e perturba o imperturbável caminhar das horas e dos dias.

As casas, os prédios e as pontes, caem como baralhos de cartas, lançando a destruição à sua volta. As estradas, as ruas e os caminhos, desaparecem, deixando no seu lugar, uma amálgama de trilhos sem sentido e sem indicação de rumo.

No meio de tanta desgraça, J sente-se perdido. Olha à sua volta e só a devastação e a ruína se encontram à vista. O desespero ameaça tomar conta das suas acções. As soluções não existem, os caminhos não se vêm, a solidão está presente.

Os familiares, mesmo que voltassem com os seus esforços e cheios de boa vontade, não apagariam a tristeza nem acalmariam a desesperança.

J é a imagem personificada do desânimo.

Ao seu lado, não tem companheiros de infortúnio. Ninguém repara no seu sofrimento, ou ao menos se importa. Cada um tem a sua própria dor. E as dores dos outros são sempre privadas. [Read more…]

Vida = Ciência e poesia

(Não tenho escrito nada para o Aventar nestes últimos dias. Apetecia-me desancar na mentira e hipocrisia da igreja, na continuação da escamoteação dos seus crimes e na descarada visita papal, assim como me apetecia pertencer a um grupo que eu designaria, por exemplo, de “Terrorismo Selectivo Benigno” (TSB), que fosse capaz, não de matar os ladrões de colarinho branco, mas de os fazer vomitar até ao último tostão, a massa que roubaram e continuam a roubar a todos nós e ao país. Apetecia-me, mas não ando com vontade de mexer na trampa. Assim sendo, viro-me para coisinhas inofensivas, como a que se segue). [Read more…]

Hoje salvei o mundo

Imagine que algures no mundo há alguém a quem você pode salvar a vida. Não com acrobacias intrépidas de super-herói, sem necessitar de se equilibrar no parapeito de um arranha-céus, ou saltar para um mar infestado de tubarões, ou desactivar, no último instante, um engenho explosivo.

Imagine que a única coisa que teria a fazer seria sentar-se num cadeirão almofadado, desses onde se pode adormecer com um livro em cima do peito, e estender o braço. Mais nada.

E que, com um pouco de sorte, num desses acasos que a cega lei das probabilidades determina, ser contemplado com a feliz notícia de que você, sim!, você, cidadão anónimo, igual a tantos outros, boa pessoa, talvez um pouco teimoso, que é dos poucos defeitos que não nos importamos de admitir porque achamos que revela força de carácter, você vai salvar uma vida. [Read more…]

Apenas um pequeno remate, amigo Raul Iturra

 

Permita-me que o trate assim. A mim trate-me por Adão Cruz. Aliás, não sou professor, sou assistente graduado em chefe de serviço hospitalar. Mas isso pouco interessa.

Em primeiro lugar as suas melhoras e os meus agradecimentos pelas suas elogiosas considerações.

O estímulo, a imagem, a emoção, o sentimento, a consciência, a reflexão e a decisão são elos da mesma cadeia fenomenológica, mas são diferentes e não podem ser misturados aleatoriamente dentro de um texto ou de uma conversa. [Read more…]

Filosofia de bolso (8)

Na vida devemos sempre lutar por coisas boas, porque as más estão garantidas.

Campanha Para Uma Vida Melhor

Tempos atrás, iniciei uma campanha no “meu” sítio no sentido de, sempre que possível, consumir-mos productos da nossa região. Fui criticado de todas as maneiras e feitios, e apelidado de separatista, independentista e reaccionário.

Voltando ao assunto, podemos mudar o rumo da história que se segue, que no fundo não passa de uma caricatura, começando por, cada Português, passar a consumir mais 200 euros por ano em productos da sua região, do que hoje consome, em vez de comprar productos similares estrangeiros.

“O ZÉ, depois de dormir numa almofada de algodão (Made in Egipt), começou o dia bem cedo, pelas 6h45 da manhã, acordado pelo seu despertador (Made in Japan). [Read more…]

Filosofia de bolso (4)

– Cada um tem a sua vida, mais a vida dos outros…

Filosofia de bolso (3)

– O medo e a coragem são a raiz da vida. Principalmente o medo: somos treinados para ter medo, e para ter coragem perante o medo. Dificilmente somos treinados para ter coragem pela coragem, sem ideia de medo.

Habemus paxem

Habemus paxem

Magnífica surpresa nesta saga de poetas para as cinzas nocturnas!

Há um labirinto de ismos que se entrecruzam

de pontes sobre um rio seco ou rio desviado para lá de mim

lago de silêncio com a cidade ao longe

regateando simbolismos de esferas ocas semeadas pelo parque

monumental parque de outros ismos já mortos

à espera de uma ressurreição sob o reflexo de mil janelas

empoleiradas nos altos muros da cidade virtual

em serena ode à quietude universal.

Ali na esquina há fumo branco e o estribilho feroz

de um surrealismo macabro, de um débil concretismo

experimentalista hermeticamente grosseiro

gritando aos ares habemus paxem.

Na deserta anatomia do silêncio onde outrora a poesia já morou

grita bem alto o histórico fóssil da verdade

em pedaços de vida fumegante

e monstruosas resmas de páginas em silêncio.

Montanhas de nomes a apodrecer entre escombros de pensamentos

que embrulharam a consciência adormecida durante séculos

Inglórios sufocos de ar emoldurados de paz e de vida. [Read more…]

Pensamentos XI e XII

XI

Há vida para além da morte.

Pelo menos há dú-vida.


XII

Há uma história cujo princípio e meio tu conheces.

O seu fim ser-te-á revelado no dia da tua morte.


Conheça o primeiro Caderno de Pensamentos do Sr. Anacleto da Cruz.

a paixão que mata o amor

A morte de Beatriz

Para a mulher que respeito e amo, ela sabe quem é….

O povo português anda preocupado pelas batalhas políticas. Nem sabemos quem nos governa: se é o primeiro-ministro ou a oposição. E se é a oposição, qual é, entre todos os presidentes dos partidos das bancadas que fazem do governo uma minoria, o que exerce o poder? Minoria que, estrategicamente, procurará convénios com os partidos mais pequenos que apoiam o governo minoritário, com condições eternas.

Devo confessar que é um tema interessante, apaixona-me no meu querer saber de como vamos resolver a crise económica que nos atormenta e empobrece, como vamos criar mais postos de trabalho, como vamos agasalhar os que têm frio e fome especialmente em dias de festa, como o carnaval. Povo teimoso que, com frio e tudo e sem dinheiro, passeia e anda pelas ruas da alegria, esquecendo assim as da amargura.

No entanto, quando estamos no meio de outros problemas, sobretudo emotivos, o que o governo faça ou não, passa para segundo plano nos nossos interesses. Até um certo ponto. A crise económica entra nos nossos sentimentos e ficamos fracos para o amor. Bem queríamos amar sem preocupações e oferecer presentes, mas a carestia de vida em que este fraco governo nos meteu, faz-nos mais pobres ainda: de recursos e de emoções.

Os recursos, podem ser resolvidos, o amor também. Um nada de optimismo coloca-nos nas portas da serenidade e da paz. Requisito mínimo, para sabermos conviver em permanente conflito político, especialmente nós, que apoiamos o governo de minoria e os seus aliados. [Read more…]

Invictus

How do we inspire ourselves to greatness when nothing else will do?

A pergunta ecoa-nos na mente, desde o encontro de Mandela com Pieenar. Como o fazemos? Como nos inspiramos, onde vamos buscar força quando temos que ser os melhores, melhores que todos os outros?

E a resposta é nos dada quando Pieenar e a equipa de raguêbi visitam Robben Island. Aí, o capitão da equipa ouve a voz de Mandela a recitar o Invictus e percebemos como ele, Mandela, o fez, e percebemos como é que a África do Sul foi ganhando todos aqueles jogos, mesmo que a final tenha sido adulterada. Percebemos como Mandela conseguiu unir o país, conseguiu perdoar as pessoas que o tinham colocado na prisão, percebemos como é que viveu anos e anos dentro de uma cela minúscula e sair de lá, ainda acreditando que tinha forças para liderar um país.
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Clara Pinto Correia – A alma e o embrião


Na tertúlia de que já aqui falei (ver Tintaralela de Luna), hoje foi a vez da Prof. Clara Pinto Correia nos falar sobre um tema fantástico, que é discutido desde os Egípcios que, aliás, até fixaram um prazo para a alma entrar no embrião! Dez dias!

Antes de tudo, tenho que dizer que a Clara é uma mulher extremamente simpática, sem ponta de peneiras, que ouve e dialoga como fazem todos os que estudaram e sabem muito.

Aristóteles começou por abrir uma janelinha no ovo da galinha e foi comparando o que acontecia ao embrião nos diversos ovos, tendo percebido que eram iguais até uma certa altura e depois começavam a divergir e a modificarem-se, a que atribuiu a entrada da “alma” no embrião.

Grandes nomes da filosofia e da ciência estudaram esta questão que continua sem resposta, como ficou bem patente na discussão do aborto, há ou não ali um ser, ou é apenas um conjunto de células..

A dissecação de cadáveres veio, mais tarde, postular que a alma afinal vivia no coração (até que foi descoberto o funcionamento do coração e a circulação sanguínea) ou noutros órgãos do corpo como na cabeça.

A regeneração, capacidade que alguns animais têm , veio dar um contributo enorme a esta questão quando se percebeu que a calamandra, por exemplo, ou o ouriço do mar, eram capazes de  continuar a fazer a sua vida mesmo depois de lhes ser cortada a cabeça ou o rabo. É caso para dizer que “vendem a alma ao diabo”.

Com Santo Agostinho , S. Tomás de Aquino e Sta Ildegarda, chegamos ao conceito da origem sobrenatural da alma, o que desde logo esbarra com o conceito do “pecado original”,  pois difícil é compreender que sendo o “ser” de origem divina possa carregar o pecado.

Com o advento do microscópio, cada vez mais potente, percebe-se a existência de uma vida até ali desconhecida, infinitamente pequena, e que começa a responder e a dar significado a questões até aí desconhecidas, como a existência do espermatozóide que o homem ejacula aos milhares de cada vez, mas que só um se transforma num ser com alma. Perdem-se os outras milhares de almas com os espermatozóides que perderam a corrida?

E Clara Pinto Correia termina com humor mas que é também uma verdade científica: se a alma entra no embrião no momento da união então só pode ser pelo ânus, que é, nos vertebrados, o início da vida!

PS: é um resumo, necessariamente incompleto, de uma bela aula que quis partilhar com os meus leitores.

Os números da vida

O processo de envelhecimento, contínuo, inexorável, acompanha-nos a partir do fim do crescimento. Não damos logo por ele pois, durante um bom tempo, encaramo-lo como amadurecimento, onde vamos arquivando aquilo a que chamamos de “marcas do tempo”.

Pela frieza dos números da lapidar estatística, ultrapassei metade da minha esperança de vida. Já gastei metade do tempo que, previsivelmente, irei viver. E a verdade é que não dei por isso. Sem embargo das muitas coisas que vivi, e já foram algumas, não sabe a metade. Longe disso. [Read more…]

Para reflectir

Esta semana dei por mim a ter uma conversa com uns colegas sobre os cursos que vamos tirar. Se têm ou não saída. Sobre o que nos vai acontecer. Sobre o que queremos na vida, sobre a felicidade e a falta dela. Sobre tudo o que pode correr terrivelmente mal. Estamos em humanidades, bolas, estas preocupações são justificadas em todas as áreas e especialmente na nossa. Contudo, ás tantas alguém mencionou o terramoto no Haiti, e nós percebemos que as nossas preocupações, apesar de perfeitamente justificáveis para a nossa idade, e para o nosso contexto, são pouco comparado com as preocupações daqueles desgraçados. Depois de um silêncio há um colega que diz: “a pergunta que eu faço todos os dias, mas mesmo todos os dias, é: se eu morresse hoje, será que moria feliz?”

Hoje em dia, há muito a noção de que toda a gente tem é que ser feliz, e de que tudo tem que ser fácil, e este sentimento está generalizado, especialmente entre os jovens. Eu não concordo nada com isto. Acho que a vida não é fácil, e não é para ser fácil, e não vai ser fácil. E é preciso esforço, muito esforço, e lutar e muito. E no meio disto a chamada felicidade pode ficar pelo caminho. Mas também acho que é bom relativizar as coisas. Parar um pouco, para pensar, realmente, se moressemos hoje, será que morríamos felizes.

O mar é o nosso berço

(adão cruz)

 

 

O mar é o nosso berço

Segundo Richard Dawkins, se recuarmos bastante no tempo, encontramos toda a vida no mar. Em vários pontos da história evolutiva os animais mudaram-se para terra, atingindo por vezes os desertos mais áridos e levando no sangue a água do mar.

Os estágios de transição do êxodo destes nossos pais, isto é, os nossos antepassados peixes, estão amplamente documentados nos registos fósseis. Toda a evolução inicial dos vertebrados decorreu na água, pelo que a maioria dos ramos sobreviventes dos vertebrados continua no mar.

Compreendo agora porque gostamos tanto do mar. Não deve ser fácil encontrar alguém que não goste do mar. Fazer poemas sobre a terra, à beira-mar, ou fazer poemas na terra, sobre o mar, é quase inevitável em qualquer poeta. Não há poeta que não fale em algas e areia, em ondas e maresia. [Read more…]

Quatro netos

               (adao cruz)

(adao cruz)

Aos quatro netos

Assim nascidos de uma virada

Do alto da minha escada os contemplo.

No fundo de mim mesmo

Lá no fundo da cratera

Onde ergui a minha escada

Ouço apenas a voz do medo

Entre o sonho e a quimera.

No cimo da cratera

Onde ainda chega o sol

E a noite amanhece

Nascem flores pequeninas

No seio da erva rasteira

e os degraus de nova escada

Para continuar a primeira.

A tal história

A tal história

 A tal história é muito simples, Carlos. Verdadeira em tudo até nos nomes. É tão real e conhecida na aldeia que não afecta ninguém, se a contar. E conta-se em duas palitadas. Trata-se de um sujeito da minha terra que foi meu doente durante anos e cuja vida conheci, quase do princípio ao fim.

Tinha como alcunha o “palheira”. Era porqueiro, andava com uma carroça a vender e a comprar porcos. Um dia resolveu ir até África, de onde regressou anos depois com uma pequena fortuna, muito grande se comparada com os parcos haveres da nossa aldeia. Vestia bem e comprou um volvo, vermelho e branco, estou mesmo a vê-lo, coisa rara pelas redondezas, e passou a ser o Sr. Tavares, criando em seu redor imensos amigos que o bajulavam e o acompanhavam para onde quer que fosse.

Alguns anos passaram e entre o não fazer nada e o jogo, a fortuna foi-se esvaindo até dar o último suspiro. O Sr. Tavares voltou lenta e insidiosamente a ser “o palheira”, e os amigos sorrateiramente foram debandando, até não restar um único. Só não voltou a carregar porcos na carroça porque, entretanto, a morte, bondosa como é, para não o humilhar com a miséria, se encarregou de o levar para a vida eterna, como “palheira” e não como Sr. Tavares.

Sem metafísica

E tu, preferias uma morte súbita ou ter tempo para preparar-te?

Eu pestanejo. Aclaro a garganta. Hesito com um “Bem…”.

Que diabo, na antevéspera de Natal, que raio de pergunta é esta?

Lembro-me de que há dias ouvi um podcast já com algumas semanas do “Questões de moral”, do Joel Costa, que era uma curiosa e muitas vezes divertida reflexão sobre a morte. Também ele aflorava essa questão, e até aventava que as suas últimas palavras poderiam vir a ser “Teve piada”.

Os compradores de última hora, entontecidos pelo circuito de hamster nas ruas da Baixa, roçam os ombros nos nossos mas nada ouvem da conversa.

Pergunto se preferias uma morte súbita ou ter tempo para preparar-te? [Read more…]