Diário de um chegano (2)

Diário macho

 

Foi com a alegria de um membro da Mocidade Portuguesa que pude ver o nosso André a regozijar-se com um jovem que, com ardor lusitano, mostrava o seu ódio aos estrangeiros que vêm para o nosso país preguiçar, violar as nossas mulheres e que recebem um subsídio mal saem do mar, depois de virem a nado desde Bombaim. Quando uma criança grita que é preciso mandar embora os estrangeiros, ergo as mãos e canto graças, porque está no bom caminho: quando acabar os trabalhos de casa (primeiro, os trabalhos de casa), irá cuspir em pretos e bater em homossexuais ou vice-versa, desde que cuspa e bata.

Foi também com enorme gáudio que vi a nossa Ritinha a divertir-se na presença de jovens que chamavam “gatuno” a Luís Montenegro. A minha cunhada, que é da corja esquerdalha e até nem gosta do Montenegro, veio dizer que não se pode andar assim a insultar pessoas, mas nós, no nosso partido, não temos medo das palavras, não queremos palavras que escondam. É por isso que nosso André fala em “bandidagem”, que é para toda a gente entender. Há quem diga que só se passa a ser “gatuno” quando isso é provado em tribunal, mas nós sabemos bem que os tribunais fazem parte do sistema corrupto que protege sempre os mesmos há 50 anos.

Além disso, só complicam – quando mandarmos nisto, nem vamos precisar de tribunais. Perguntamos ao nosso André, que é um perdigueiro de bandidos. Mostramos-lhe uma pessoa e ele dá logo a sentença e manda aplicar a pena. Mais: só não vê um gatuno quem não quer ver. É tão simples: ou tem a pele escura ou não é do Chega.

Isto da pele escura, a propósito, faz-me pensar que é perigoso uma pessoa ir de férias. O meu vizinho foi daqui branquinho e, quando voltou, todo bronzeado, via-se mesmo que era um gatuno, pronto a vender tapetes, a violar as nossas mulheres e a fritar chamuças ao mesmo tempo, porque os monhés, por causa daquela deusa com muitos braços, conseguem fazer tudo ao mesmo tempo.

Já me disseram que falo muito de os imigras violarem as nossas mulheres, mas eu bem vejo que a minha tem muitas saudades do Sandokan, que era um preto claro que batia nos brancos e andava metido com uma loura. Depois digam que não tenho razão.

Contra o Orçamento do Estado para 2026

When the band first started, I went for a vocal approach that was rhythmic and spoken, but sometimes unleashed, because of all the different guitar tunings we used.
Kim Gordon

Ministro das Finanças entregou OE no Parlamento (foto: Rui Gaudêncio)

Ontem, um dia antes da data prevista, o Governo apresentou a proposta de Orçamento do Estado para 2026 (OE2026). É sabido que em 20122013201420152016201720182019, 20202021, 2022 [1] e [2], 2023, 2024 e 2025 as coisas não correram bem. Prevê-se que, para 2026, tudo esteja como dantes. Recorde-se que, nas palavras do Governo, a Proposta de Lei do Orçamento do Estado para 2026 é um dos documentos políticos e legislativos mais importantes da vida colectiva de Portugal (e das “vidas individuais das pessoas e empresas”), por isso, “é urgente, inadiável e uma exigência categórica de transparência, a apresentação e explicação aos portugueses do seu conteúdo”.

Sem mais delongas, vejamos alguns exemplos do Relatório (pdf), para compreendermos um bocadinho melhor aquilo que efectivamente se passa no mundo ortográfico português: [Read more…]

Diário de um chegano (1)

Diário de raça lusa (“querido diário” é coisa de paneleiragem rafeira, não da raça pura lusitana)

 

Fiquei com o sangue a ferver de fervor patriótico, quando o nosso venturoso líder lembrou, e bem, que até pode haver problemas em Gaza, mas que aqui na Moita as pessoas também passam muito mal. Até pode ser que haja por lá milhares de mortos, mas o que é nós temos a ver com isso? Além disso, enquanto morrem não imigram para cá, para nos roubar os empregos, violar as nossas mulheres e obrigar-nos a comer carneiro com bedum. Nós somos lusitanos e machos e, se é para violar as nossas mulheres, estamos cá nós, nunca precisámos que viessem substituir-nos. Quanto ao emprego, o meu é tão mau que até devia ser dado a um imigra.

Se eles vierem, ainda sou capaz de lhes dar a morada da minha cunhada, que é uma esquerdalha comuna, que está sempre a falar em empatia e a dizer-me que eu devia ter vergonha de ser um grunho, porque até tirei um curso. Está sempre a dizer-me que vou todos os domingos à missa, mas que de cristão não tenho nada, como se eu não soubesse que o primeiro dever de um cristão é aviar mouros, pretos e paneleiros, gente que nem um touro sabe pegar. E toda a gente sabe que Deus escolheu o Trump e o Ventura, que assim podem trabalhar por turnos.

As outras da flotilha foram meter-se no meio da confusão e, como é costume nas gajas de esquerda, estavam mesmo a pedi-las. Agora, queixam-se de maus tratos, quando toda a gente sabe que estavam financiadas por terroristas que mataram e matam milhares de pessoas, não é como o exército israelita, que também mata milhares de pessoas, mas são pessoas que merecem ser mortas.

Agora vou dar sangue, que é para poderem fazer transfusões, a ver se a raça portuguesa fica forte como o Pichardo ou o Nader, lusitanos puros.

Jane Goodall e André Ventura

Podemos escolher várias palavras e expressões para designar a morte de alguém. Podemos dizer que morreu, que foi para o outro mundo, que dorme o sono eterno, podemos dizer que nos deixou. Jane Goodall deixou-nos.

Quando morre alguém que deu exemplo de tanta generosidade e dedicação, que olhou para diferentes como semelhantes ou para semelhantes como iguais, ficamos abandonados à sorte de uma humanidade que continua a revelar-se animalesca, verificando-se, nos últimos tempos, uma  revalorização do ódio, uma perseguição do outro, a obsessão da identidade nacional como desculpa para a agressão.

Jane Goodall deixou-nos sozinhos diante de uma multidão que vive maravilhada com símios que descobriram que mostrar constantemente os caninos dá votos.

No tempo do Salazar é que era bom

Citando:

De acordo com os dados recolhidos nos Censos de 1970, um em cada quatro portugueses (25,6%) era analfabeto. Essa percentagem de pessoas que não sabem ler nem escrever foi baixando ao longo das décadas seguintes: 18,6% em 1981; 11% em 1991; 9% em 2001; 5% em 2011; e 3,1% em 2021.

Também é verdade que, em 1970, cerca de 68% das casas não tinham duche ou banho, 53% não tinham água canalizada e 42% não tinham instalações sanitárias.

De resto, nesse mesmo ano da morte de Salazar, a taxa de mortalidade infantil registada em Portugal era uma das mais elevadas da Europa: 55,5‰, isto é, morriam 55,5 crianças com menos de um ano de idade por cada 1.000 nascimentos. Em 2024 fixou-se em 3‰, uma das mais baixas do mundo.

Sublinhe-se neste âmbito que, em 1970, apenas 38% dos partos ocorriam em estabelecimentos de saúde.

Efectivamente.

Ceci n’est pas un Bürger

Alguém lembrou o festival do marisco, nos Camarões, mas aguardem a fúria do Ventura quando Marcelo anunciar que vai a um certame em Cheddar ou Yorkshire, a uma ‘vernissage’ em Champagne ou de férias para Chantilly. Isto para não falar do próximo encontro luso-brasileiro, pensado para Limão, Palmitos, Polvilho ou Jaboticaba. Esperemos sobretudo que nada o leve a Damasco, ou a Lima, no Peru. Bolonha ‘mai’, apesar de lhe agradar a Meloni mas Frankfurt ou Hamburgo é que nunca mesmo, que o germanófilo de Mem Martins já saiu escaldado de Berlim.

André Ventura ESMAGA-SE a si próprio

Apoiantes do Chega divididos entre a liberdade de expressão desbragada de André  Ventura e o 'respeitinho é muito bonito' dos seus detratores - Expresso

Cartoon: Nuno Saraiva

André Ventura, como populista que é, usa tudo o que pode para pôr as redes sociais a arder. Porque é, politicamente, um incendiário e um completo irresponsável, que não olha às consequências da sua demagogia, prejudique quem prejudicar. Todos os meios justificam o único fim que lhe interessa: poder absoluto.

Sendo o extremista que é, não será de admirar a figura absolutamente ridícula que ontem fez, e que agora transcrevo para vocês. Disse Ventura:

“Pessoal, vocês não vão acreditar, eu acho que ninguém vai acreditar, eu próprio tenho dificuldade de acreditar que isto que eu tenho aqui é verdade. Vocês sabem que o Parlamento português aprovou hoje uma deslocação do Presidente da República – pá, eu tenho que olhar para isto bem que eu tenho que ter a certeza disto – para ir com os nossos impostos e o nosso dinheiro à Alemanha a um Burgerfest. A um festival de hambúrgueres. O CH votou contra, como é evidente, isto é uma bandalheira, mas sabem porque é que isto passa, porque é que estas coisas passam? Porque vocês não sabem disto, vocês não se revoltam com isto porque não sabem. Então eu vou-vos dizer isto: o Parlamento aprovou hoje a ida do nosso Presidente da República, a nossas expensas, às vossas expensas, à Alemanha, a um festival de hambúrgueres. Agora digam o quão ridículo isto é. O quão estúpido isto é.”

Marcelo foi convidado para estar no Bürgerfest 2025, um evento anual realizado na residência oficial do presidente alemão, que celebra o trabalho voluntário e o envolvimento cívico dos cidadãos. E Portugal é o país homenageado na edição deste ano. Bürgerfest significa, literalmente, Festa do Cidadão. Numa coisa, Ventura tem razão: isto é mesmo ridículo. E estúpido. Mas só porque Ventura não conseguiu evitar a diarreia mental.

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A propósito dos incêndios e do “conhecimento do território”

Que nous cherchions le sens du mot latin arbor ou le mot par lequel le latin désigne le concept « arbre », il est clair que seuls les rapprochements consacrés par la langue nous apparaissent conformes à la réalité, et nous écartons n’importe quel autre qu’on pourrait imaginer.
–Saussure (1916)

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Há poucas horas, soube que o “conhecimento do território” (conceito extremamente vago) foi aduzido algures enquanto trunfo para discussões televisivas de canais portugueses entre leigos. Convém conhecer as árvores do território, sim, mas igualmente ler os relatórios (os políticos não lêem relatórios, como a nossa experiência com o AO90 explica).

Além disso,  como sabemos, uma árvore é um amigo.

Siga:

Arderam, em 2017, cerca de 1,4% dos espaços que tinham sido considerados como urbanos, no IFN6, em 2010. As percentagens referentes a cada uma das utilizações secundárias indicam que são o pinheiro‑bravo e o eucalipto as espécies que, em ocupação secundária das áreas urbanas, mais fazem aumentar a probabilidade de o espaço urbano arder (12,5 e 9,4% respeCtivamente). Valores intermédios (entre os 2 e os 3%) correspondem a situações de mato, de carvalhos, de castanheiros, ou de outras folhosas, ou a culturas permanentes (olival, vinha, pomar), com percentagens de 2,1%, de 2,8% e de 3% respeCtivamente. Percentagens mais baixas encontram‑se em situações em que as ocupações secundárias são pinheiro‑manso, outras resinosas ou sobreiros (0,9%), culturas temporárias ou pastagens de sequeiro (1%) ou, ainda mais baixa (0%) nas pastagens de regadio.
— AVALIAÇÃO DOS INCÊNDIOS OCORRIDOS ENTRE 14 E 16 DE OUTUBRO DE 2017 EM PORTUGAL CONTINENTAL RELATÓRIO FINAL (pdf) (link)

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Assegurado o normal funcionamento das instituições bancárias

O “cartel da banca” termina com um perdão de 225 milhões de euros aos 11 bancos acusados de conluio pelo Tribunal da Concorrência. Nada temam!

A integração do CH no sistema segue dentro de momentos

Lina Lopes foi militante do PSD, eleita deputada pelo círculo de Lisboa em 2019 e 2022. Antes disso esteve no SINDEP, e, posteriormente, na direcção da UGT.

Na eleição de 2024, o jogo de cadeiras no interior da AD atirou-a para lugar inelegível. E foi então que Diogo Pacheco Amorim, o deputado do CH que outrora integrou o MDLP, organização ligada ao terrorismo de extrema-direita no pós-25 de Abril, a convidou para o seu gabinete parlamentar.

Ou, como se diz em linguagem Chega, “ofereceu-lhe um tacho à girl, pago pelos contribuintes”.

Uma vergonha, portanto.

E, como aconteceu a tantos ex-PSD, foi escolhida pela unipessoal de André Ventura para ser candidata à CM de Setúbal. Decisão revertida quando surgiu a acusação de que terá recebido um “apoio financeiro” de um empresário da cidade, que incluiu almoços, jantares e até lanches grátis, um empréstimo no valor de 20 mil euros e até a compra do carro de Lina Lopes por um valor acima de 38 mil euros.

Não sei quanto a vós, mas fico com a sensação de que o CH está a integrar-se de forma muito rápida e plena no tal sistema que alega combater. As suas principais figuras chegam do PSD, os seus financiadores vêm das famílias mais ricas e poderosas do país, as tramoias sucedem-se, como se sucedem os tachos, e, aparentemente, vale tudo para chegar ao poder.

A farsa anti-sistema já só engana os tolos. Como papas e bolos.

À frente dos portugueses, prioridade aos boys…

O antigo CEO da Spinunviva tem plena consciência da gravidade dos incêndios que assolam Portugal. Tanto assim é que hoje pediu ajuda internacional e cancelou as férias. Perguntará algum leitor distraído, porque não o terá feito anteriormente, quando se sabe há alguns dias que a situação é catastrófica? A resposta é simples, porque estava agendada para ontem a festa do Pontal, o país está em vésperas de eleições autárquicas, o Primeiro-Ministro também é líder do PSD e não se poderia dar ao luxo de cancelar o maior evento anual do circuito pimba do azeite e carne assada, que contou com a esmagadora maioria dos membros do governo e candidatos às autárquicas…

 

Chamar xenófobo e racista a um xenófobo e racista é um insulto?

Segundo parece houve, recentemente, até na direita democrática,

(temos de acreditar na possibilidade de que há uma direita democrática)

um certo regozijo porque André Ventura terá arrasado Filipe Costa Santos numa entrevista conjunta na CNN.

Na realidade, André Ventura fugiu a duas perguntas incómodas, limitando-se a criticar o comentador, tendo este considerado que o líder do Chega é xenófobo e racista. Ventura, especialista em demagogia, considerou que essas duas classificações constituem insultos ao partido e aos eleitores do partido.

Vamos por partes.

  1. Se se considerar que alguém é racista e xenófobo, não há eufemismo que lhe valha.
  2. “Racista” e “xenófobo” poderão ser usados como insultos, mas apenas no caso de os visados não serem racistas nem xenófobos.
  3. O facto de o Chega ser o segundo maior partido não serve para provar que não é xenófobo nem racista.
  4. O mesmo facto referido no ponto anterior pode levar-nos a pensar na possibilidade de que, em Portugal, há, pelo menos, um milhão e meio de xenófobos e de racistas.
  5. O Chega, os seus militantes e os seus eleitores poderão, se quiserem, tentar provar que não são racistas nem xenófobos.
  6. Também poderão não querer provar nada disso ou o contrário ou poderão, em muitos casos, querer confirmar que são isso tudo, porque os portugueses e o sangue e a história e as naus e o cristianismo.
  7. Ventura, no debate, limitou-se, repita-se, a não responder a duas perguntas e a fazer barulho, algo que lhe trouxe muita popularidade e muitos votos. É, portanto, natural, que os seus eleitores e outros nas proximidades tenham gostado do seu desempenho.

O Chega virou woke (ou como o lambão baba o dedo para ver de onde sopra o vento)

Chega woke.

O Chega não tem ideias nem ideais próprios. Os ideais, esses, são os de antanho, de um tempo de miséria e penumbra geral. As ideias, essas, são aquelas que a extrema-direita, sobretudo a europeia, estiver a difundir por aí. No caso, como o único exemplo de uma espécie de moderação da extrema-direita surgiu do governo italiano, encabeçado por Georgia Meloni (e a sua amiga benzoilmetilecgonina), o Chega tem tentado, desde as últimas eleições, tornar Ventura numa Meloni.

Ora, se o Chega é contra os transexuais, convinha tentar não tornar o seu líder num. E se o Chega fala tanto em substituição populacional, que lhe importa se as portuguesas fornicam, engravidam e parem? Afinal, estamos a ser substituídos.

O melhor, nestas matérias, era pôr a anti-feminista Rita Matias a falar… porque já se provou que esta anta usa argumentos feministas para se dizer anti-feminista. E agora o Chega, cheio de tesão woke, quer pôr-se ao lado das feministas também… sendo anti-feminista. Está bem, abelha…

Por fim:

Rita, presta atenção:/Verás que não há nenhum mal,/abre lá o teu coração/e as pernas por Portugal. 
André, não tenhas vergonha/e não sejas salafrário;/eu sei que tu largas peçonha,/mas está na hora de saíres do armário. 

O controlo da imigração descontrolada

Como algumas pessoas sabem, até há poucos dias havia em Portugal uma imigração completamente descontrolada, com a velha ponte que liga Valença a Tui (neste caso, Tui a Valença) a ameaçar ruir sob o peso dos imigrantes naturalmente descontrolados. Também descontrolados, entravam outros imigrantes em Elvas, em magotes saídos de Badajoz. Mais abaixo, em braçadas descontroladas, imigrantes saltavam para o Guadiana em Aiamonte e desaguavam em Vila Real de Santo António.

Em muitos cafés, portugueses passaram a desconfiar uns dos outros. Numa certa adega minhota, alguém disse:

  • Acho que o Joaquim da Zeza é imigrante.
  • Porra, a que propósito?

  • Então, o gajo bebeu uns copos e ficou descontrolado. Como os imigrantes.

O que vale é que, do dia para a noite, isso acabou, porque o governo de Luís Montenegro disse que acabou. E todos sabemos que, quando Luís Montenegro diz uma coisa, a coisa passa a ser verdade: ainda há dias se descobriu que o verdadeiro autor dos Cadernos de Lanzarote é Sophia de Mello Breyner, descendente de imigrantes ainda não descontrolados, que irá receber, a título póstumo, o Nobel da Literatura de 1998, o que levou Pilar del Rio, outra imigrante outrora descontrolada, a assumir a paternidade de Miguel Sousa Tavares.

Venturoso país este que, num ápice, num ai, no sopro de um decreto, acaba com a imigração descontrolada. Venturoso país.

Mariana&Leitão

Mariana Leitão.

Para Mariana, já temos a Mortágua.
Para Leitão, já temos a Alexandra.
Portanto, não serve nem para Mariana, nem para Leitão.

Ps. “Novo socialismo” à direita? Pensei que o Hitler já tinha inventado essa em 1920.

A invenção da grande vaga de crimes

Todos já incorremos no disparate de confundir uma experiência pessoal com um dado sociológico alargado. É o “Isto só a mim!” ou o “Este país é uma vergonha!” decorrentes de termos sido vítimas de um carteirista.

Em conversa de café mais ou menos alcoolizada, podemos chegar a defender a pena de morte, a tortura ou a condenação a ver jogos do Futebol Clube do Porto da última época no caso de o criminoso ser portista. Depois, o processo civilizacional a que vamos sendo sujeitos faz efeito e passa-nos.

O populista que chega ao poder (executivo, legislativo ou outro) é um bêbedo numa tasca que tem solução preferencialmente violenta para tudo. Para isso, conta com a ajuda das redes sociais necessariamente desreguladas e com uma comunicação social reduzida tantas vezes a caixa de ressonância.

André Ventura e o seu agente Luís Montenegro alimentam-se de uma insegurança que apregoam, com a ajuda das manchetes que eles próprios geram: o  crime, a insegurança, as violações, os “nossos” valores, a imigração, a nacionalidade.

Note-se: é preciso que haja muita gente crédula e ignorante para engolir falsas percepções. Sim, sim, podemos dizer mal dos eleitores. Podemos, podemos.

A imagem é da primeira página do Diário de Notícias de hoje. A notícia é esta.

Tenho cá a percepção…

… de que esta notícia…

…não tem qualquer relação com esta…

…e, valha-nos deuze, muito menos com esta…

Percepções, percepções everywhere… temos o governo mais radical desde 1974… e olhem que nos aconteceu o Cavaco duas vezes. 

Sorria como manda a hipocrisia

Estamos num ponto tal em que já nem sequer choca que o líder da extrema-direita portuguesa recite, como se de uma lista de descartáveis ou criminosos incuráveis se tratasse, os nomes de crianças que frequentam as escolas portuguesas; crianças essas filhas de pais estrangeiros, mas muitas delas já nascidas em território nacional.

Façamos, pois, o exercício contrário.

De repente, enquanto se discutia a lei da imigração em França ou na Alemanha ou na Bélgica ou no Luxemburgo ou na Suíça, um qualquer bobo da corte armado em Hitler da loja dos trezentos balbucia meia-dúzia de cagalhões contra pessoas de origens diferentes que frequentam as escolas lá do burgo, grande parte delas nascidas no próprio país e começa a recitar:

  • Luís Miguel Marques
  • Vitor da Silva Fonseca
  • Mariana Santos Travassos
  • Diana Andrade Ribeiro
  • Ricardo André Esteves
  • Tiago Filipe Cunha
  • Rui Miguel Dias Lopes
  • Fátima Campos Rios

E por aí fora.

Há algum português que não tenha familiares emigrados?

A pimenta, no cu dos outros, é sempre refresco. Mas, em tempos de ódio puro àquele que vem de fora (mas que chique usar, comprar e visitar aquilo que vem de fora), convém sempre relembrar que somos sempre estrangeiros nalgum lugar. E que não somos nem daqui, nem dali, somos do Mundo.

Não ser nem ateniense nem grego é não querer ser mais papista que o Papa. Saibamos integrar e adaptarmo-nos, para que sejamos sempre acolhidos e nos adaptemos.

E as percepções continuam a dar abadas à realidade, quando se comprova, agora, que a maioria das nacionalidades atribuídas se deveram à lei dos judeus sefarditas e, também, ao pedido de nacionalidade por parte de brasileiros, entre outros, com avós portugueses.

Volvidos cinquenta anos, Portugal quer voltar a ficar orgulhosamente só – seguindo a lógica dos Donos Disto Tudo, da Rússia à China, dos Estados Unidos a Israel, do Irão à Turquia -, enquanto uma elite radical se apodera da República para a transformar noutra coisa qualquer que com ela se assemelhe.

A tudo isto, o ilustre Dantas que é Presidente da Assembleia da República chama-lhe “liberdade de expressão”. Já antes nos tinha dado a solene lição de que ser racista é mera questão de opinião, agora confirma-o com veemência. “Morra o Dantas, morra! Pim!”

“Sorria como manda a hipocrisia;
Ser escravo e se adequar é bem mais adequado que dizer que não.
E oportunamente as oportunidades surgirão
Para que você também possa escravizar os seus irmãos.

E por ora é razoável não pisar fora do raso,
Não cagar fora do vaso,
E comer merda todo dia.
Mas no fundo quem aceita o inaceitável
É o grande responsável pelo mal do mundo. Você não sabia?”

O escândalo político do 4 de Julho português

It is noteworthy that English native speakers show a clear tendency to perceive Catalan diphthongs in terms of English diphthongs.
— Juli Cebrian (2017)

***

As crianças não são identificáveis, mas os nomes são associáveis e a associação é tendenciosa. Em Portugal, o Pedro, o António e o José passam despercebidos, mas o Anselmo, o Miguel Maria e o Tadeu já não — apesar de serem portuguesíssimos de bem e da Silva (como eu, na acepção populista). A deputada do Livre (livra!) poderia ter perguntado ao deputado Ventura o porquê de nāo ter mencionado o nome do portuguesíssimo e actualíssimo Zeinal. Mas, para isso, para desmontar esta conversa bacoca, é preciso pouca politiquice, mais qualidade na AR, menos gritaria, ausência de pathos (ui!) e muita leitura.

***

O Preço dos Ovos vai baixar

Ontem, só entre a porta do meu laboratório e a casa de banho apanhei 30 m2 de burcas (ai não, eram 70m2). Já não se pode, é burcas a sair pelas fichas da eletricidade, uma praga. Esta medida do Chega é muito boa porque vai baixar o preço dos ovos, da habitação e diminuir as filas de espera nos hospitais, vai ser espetacular.
Mas acho que o Chega não foi suficientemente corajoso. Eu proibiria a construção de iglus nos areais das nossas praias, mandaria prender todos os esquimós e expulsá-los para a terra deles. Aí é que daríamos um salto no índice de desenvolvimento que até os cangurus (a proibir também) ficariam com os olhos em bico.

Botas cardadas

“O fascismo é uma minhoca
Que se infiltra na maçã
Ou vem com botas cardadas
Ou com pezinhos de lã.”

Longe vão os tempos em que os fascistas se deslocavam pelo Rectângulo com pezinhos de lã. Agora é vê-los ameaçar e agredir sem filtro ou vergonha, de botas cardadas calçadas, em todo o esplendor da sua delinquência criminosa, a espancar cidadãos comuns na sopa dos pobres ou à porta de teatros.

A normalização do terrorismo a que temos assistido, por estes dias – que, estranhamente, não levou ao rasgar das vestes dos hipócritas securitários, que podem ter lá um ou outro amigo – tem várias origens.

Tem raízes na seita do Bolsonaro da Temu, na postura do PAR quando legitima o discurso troglodita no Parlamento, na importação do pensamento neofeudalista, distribuído a baixo preço, em reels e tiktoks, por aspirantes a techbros, e, claro, nos burlões do YouTube, que descobriram que o ódio, a violência e a redução das mulheres a objectos são negócios tão ou mais lucrativos que a promoção de casas de apostas ilegais. [Read more…]

Polígrafo, Polígrafo, Polígrafo

O Polígrafo decidiu verificar a veracidade (em bom rigor, a exactidão) desta frase de Marcelo Rebelo de Sousa:

Portugal é o único actual Estado-membro não fundador que, com Durão Barroso e António Costa, viu os seus nacionais serem presidentes de duas instituições europeias: a Comissão Europeia e o Conselho Europeu.

Começa o Polígrafo por contextualizar:

Remata o Polígrafo desta forma:

Efectivamente:

Portugal (…) tem, hoje, um presidente da Comissão Europeia, o ex-Primeiro-Ministro António Costa, que chegou ao cargo em Dezembro de 2024.

Isto é grave.

Mas mais grave ainda é o texto ter sido publicado em

de Portugal Continental e da Madeira e, até este momento (em

14 de Junho de 2025 às
10:51

de Bruxelas–menos uma hora em Portugal Continental e na Madeira) ninguém do Polígrafo ter dado pelo gravíssimo disparate.

Manual de combate ao Chega

Seguem-se as cinco maneiras mais eficazes de combater o crescimento da extrema-direita testadas em Portugal e no mundo:
1. Realizar reportagens semanais sobre o mundo obscuro e as formas de financiamento da extrema-direita. Tem resultado bastante bem. A sociedade adere em massa e as tendências de voto diminuem no momento.
2. Acompanhar ao minuto cada incidente que acontece com candidatos destes partidos, principalmente se envolver saúde e idas ao hospital. De preferência, seguir ambulâncias até à porta do hospital e propagar imagens da vítima ferida. É apenas informação, é útil para o debate e não se trata de qualquer manobra para ser assunto dias a fio.
3. Sempre que um político de extrema-direita tem um relacionamento amoroso ou de amizade com uma pessoa estrangeira, apontar a incoerência e partilhar por todos os meios possíveis. É outra técnica que tem destruído totalmente os argumentos anti-imigração (é verdade que o que falam é de imigração descontrolada e isso vai ao encontro do sentimento da população, mas agora não interessa).

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O povo quer o quê?

O povo quer este Primeiro-Ministro e não quer outro”, afirmou Luís Montenegro à guisa de conclusão da sua leitura dos resultados eleitorais.

Ora, segundo os resultados em território nacional – faltam os votos dos círculos de emigração -, dos 9.265.493 inscritos, votaram 5.965.446. O que significa que para 3.300.047 votantes, deixar ou não o Luís trabalhar não mereceu a ida às urnas.

Mas, mantenhamos o foco nos que se deram ao trabalho de ir votar: 5.965.446.

Dos 5.965.446, votaram na AD 1.915.098. O que significa que 4.050.348 votaram noutros partidos. Ou sejam, não queriam que o Luís continuasse a trabalhar. Preferiam Pedro Nuno Santos, André Ventura, Rui Rocha, etc. Se quisessem o Luís, teriam votado AD, e não votaram.

Na verdade, “o povo” não quis este Primeiro-Ministro. Se quisesse, a AD não teria apenas 32,10% dos votos.

Tal como Mark Twain achou das notícias da sua própria morte, também a leitura do Luís quanto aos resultados eleitorais, é manifestamente exagerada. Mas, compreende-se: se não fosse ele a dizer tal coisa, quem iria dizer?

O plural majestático da culpa não vai derrotar a extrema-direita

José Mário Branco já ironizava. Na hora de tirar lições, a culpa é de todos no geral para não ser de ninguém em particular. Essa incapacidade crítica tem certamente responsabilidade no pior resultado eleitoral da esquerda da história democrática. Pior do que a derrota eleitoral, que já seria má, é essa derrota ser o espelho da relação de forças em vários campos de batalha da nossa sociedade, das tascas às redações, dos andaimes à academia. A baixa intensidade da generalidade do movimento social e sindical – salvo poucas e honrosas exceções – associado a uma juventude muito individualista, e, consequentemente, muito à direita, devia levar todos a pensar que é um ato de loucura tentar mudar a realidade a repetir uma equação com os mesmos parciais, à espera de um resultado diferente.

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Não havia necessidade, Presidente Carlos Moedas… – Epílogo

Já depois das 13h00 de ontem, hora de encerramento compulsivo da actividade, os estabelecimentos comerciais visados pelo despacho da CML foram informados pela PSP que poderiam continuar em funcionamento até às 16h00.

A comunicação chegou tarde e a más-horas, apesar do incumprimento estar a ser generalizado, os restaurantes continuavam abertos, mas várias reservas haviam sido canceladas e muitos clientes escolheram outros locais para almoçarem.

Este episódio mostrou uma liderança fraca, errática da autarquia lisboeta, navegando ao sabor do coro de protestos que ecoou no país. O executivo de Carlos Moedas nunca teve um plano de segurança, nem se articulou com a Junta de Freguesia e muito menos ouviu os comerciantes, que seriam os primeiros interessados na segurança dos seus espaços, que obviamente não queriam vandalizados.

Episódio lamentável e desnecessário da inteira responsabilidade da CML.

Não havia necessidade, Presidente Carlos Moedas…

É fácil tomar decisões políticas quando as consequências apenas afectam terceiros. Um despacho da CML presidida por Carlos Moedas, assinado pelos vereadores João Moura e Rui Cordeiro, determinou o encerramento hoje a partir das 13h00 de vários estabelecimentos nas imediações do Estádio Alvalade. Lê-se no despacho que o mesmo responde a solicitação da PSP. Questionado por vários munícipes nas redes sociais e através de email, Carlos Moedas tenta passar a mensagem que nada pode fazer, algo que ninguém com um mínimo de inteligência acreditará. [Read more…]

Chega, um partido ao serviço dos mais ricos

De todas as parvoíces que vejo a claque de André Ventura disparar, a mais patética, parece-me, é aquela que coloca o líder do CH no papel de Robin dos Bosques do Parque das Nações:

  • Ele vai tirar aos poderosos para dar aos mais pobres.

A primeira evidência que esta ideia estapafúrdia deixa a nu é a incapacidade da maior parte dos apoiantes do CH ser incapaz de ler o programa do partido ou de ir além dos Tiktoks que vê em loop.

Não vos vou maçar com uma lista exaustiva, mas vou dizer-vos isto:

  1. O CH é financiado pelos milionários que surgem nesta imagem. Muitos deles receberam milhões em contratos com o Estado, como é o caso de José Maria Bravo, dono da Helibravo, que lucrou dezenas de milhões alugando os seus helicópteros ao Estado português, durante governos PSD/CDS e PS. Ou, como se diz em chegano, “andou a mamar”.

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O CH, a cruzada anticorrupção e os amigos corruptos do CH

Acho piada à malta que acredita religiosamente que o CH, se fosse governo, faria mais do que os outros partidos em matéria de corrupção.

Até porque o presidente-herói da maioria deles, Donald Trump, acaba de ser subornado pelo Qatar com um avião de 400 milhões de euros, e não se lhes ouviu um pio. Qatar que, recordem-se, é o albergue e financiador do Hamas. A matou centenas de pessoas na construção do Mundial.

Alguém se indignou?

Nem um.

Pelo caminho, ainda apertou a mão ao novo presidente da Síria, o antigo líder da Al-Qaeda lá do sítio, e prometeu levantar as sanções contra o país. Assim, do nada? Pelos vistos não. Parece que vai nascer uma Trump Tower em Damasco.

Alguém rasgou as vestes?

Claro que não. [Read more…]

Ventura, a indisposição e o lobo

Indisposição de Ventura marca dia em que líder do Chega admitiu vitória de Montenegro

Não sei se aquilo que ontem vimos foi real ou encenação. Vindo de André Ventura, todo o cuidado é pouco. No fundo, é como a história daquele menino que passava a vida a dizer que vinha aí o lobo: depois de tantas mentiras, o comum mortal fica de pé atrás.

A casa que tinha 30m2 afinal tem 70 e situa-se num condomínio de luxo com piscina e segurança privada.

Os imigrantes que representavam 30% da população do distrito de Braga, afinal só representam 3.3%.

Os imigrantes que andavam a viver à nossa custa afinal estão a garantir a sustentabilidade da Segurança Social.

A criminalidade que estava a crescer afinal não está, e a mentira é desmontada pelos números das forças de segurança e do RASI, que o veio confirmar: em 2024 caiu 4,6% face a 2023. [Read more…]