Zelenskyy VS Putin: o herói acidental e o odioso tirano

Existe um motivo, quer-me parecer, que faz com que Vladimir Putin não queira encontrar-se num frente a frente com Volodymyr Zelenskyy. Mais do que ser a personagem mais odiada do planeta, no presente momento, o que contrasta com a aura de último grande herói do presidente ucraniano, Zelenskyy é, literalmente, a antítese de Putin.

O primeiro é um actor e humorista que decidiu enveredar pelo mundo da política, como é seu direito (eu “punha” muito rápido o RAP, o Bruninho, a Cátia Domingues, o Markl, a Joana Marques ou o Diogo Batáguas no lugar de 80% dos deputados que estão na AR, sem pestanejar), e que agora lidera, com bravura e uns imensos tomates, a resistência à violenta invasão de um tirano que não pode argumentar estar rodeado pela NATO para invadir, esmagar e ocupar um Estado soberano que nem sequer integra a Aliança. Até porque os mísseis dele também estão apontados para cá. O argumento é real, mas não legitima, de forma alguma, a destruição em curso. Para “libertar” o Donbas, não precisa de sitiar Kiev ou bombardear Mariupol. Putin, um dos maiores financiadores da extrema-direita europeia, ele próprio um ultranacionalista, não quer desnazificar coisa nenhuma. Quer, apenas e só, decapitar e substituir o poder político ucraniano, para lá colocar outro do seu agrado.

Nenhum argumento, real ou ilusório, justifica uma invasão militar. Resistir é a única saída, mais ainda para quem recusou uma extradição segura e um exílio de luxo no outro lado do oceano. E essa é a grande afronta, talvez a maior de todas, que Zelenskyy poderia fazer ao rei-sol do Kremlin, que o olha com desdém e indigno, ele ao seu povo, de existir como nação. E eles a resistir, outnumbered and outgunned:

  • If I was in World War III they’d called me Spitfire.

A música anda sempre à frente do seu tempo.
Adiante.

O segundo é um carreirista de dois regimes, sendo hoje proprietário de facto do segundo. Começou nos serviços secretos, fez-se a vida, subiu até onde pôde e deu o salto para a política, como qualquer carreirista que se preze. Foi, desde sempre, do sistema. Mas a escalada foi impressionante, seguramente apoiada nos mesmos métodos que aprendeu e desenvolveu – com mestria, diga-se – no KGB, e é hoje o senhor absoluto da Federação Russa. Algo que lhe poderá até correr mal, mas outro dia lá iremos.

Putin é o sistema. No seu expoente máximo. O grande irmão que tudo controla, que corrompe, que persegue, que discrimina, que agride. O sistema elitista que dizima quem se lhe opõe. Que tortura, envenena e mata. Putin é a negação da democracia. E a democracia também tem os seus pequenos putin-minions, que o digam iraquianos, iemenitas ou vários povos da América Latina. Acontece que, por cá, temos o poder de lhes tirar o poder. Algo que não acontece na Federação Russa. Não é uma diferença de somenos. Faz toda a diferença. Toda.

Há muito que pode ser dito e apontado a Zelenskyy. Deixarei esses factos para outro dia. Mas não existe comparação possível entre um tirano e um político imperfeito, como o são todos, em maior ou menor grau. Em todo o caso, Zelenskyy é hoje a figura mais aproximada a líder do mundo livre, ainda que acidentalmente. Pela coragem, pela determinação e pelo exemplo. Quando os americanos saíram cobardamente do Afeganistão, ainda “ontem”, Ashraf Ghani foi o primeiro a pôr-se a milhas. Com uma mala cheia de dólares. Zelenskyy podia ter seguido a mesma via. Podia ter sido o Puidgemont que fugiu para o exílio em Bruxelas. Mas ficou. E talvez venha a morrer nas próximas semanas. Mas é ele, não as armas “cedidas” pelo Ocidente, um dos poucos que poderão dar a vitória, altamente improvável, à Ucrânia. A História contará a sua história. Cantará a sua história, concorde-se ou não com ela. Já Putin será apenas mais um merdas do Hall of Fame das abominações, à mesa com Hitler e Estaline. No esgoto da História. Para ser odiado para sempre, excepto por aquela malta que, por motivos variados, opta por branquear o ocasional ditador. A democracia tem destas coisas. É uma brincalhona.

Ser pai em tempos de guerra

Não sei se vai ficar tudo bem. Gostava de ter a certeza, mas não tenho. É impossível ter certezas durante uma guerra, mais ainda quando o agressor é um tirano sanguinário e sem escrúpulos, frio e calculista, que de louco não tem nada, por muito que aparente ser.

Ainda assim, recuso fazer parte do coro que anuncia o holocausto nuclear, porque as lições da Guerra Fria ainda estão bem presentes e a escalada é altamente improvável, mais ainda quando a NATO não intervém directamente no conflito. Contudo, no imediato, a situação com que nos deparamos é muito preocupante, por outros motivos que já todos conhecemos, e torna-se cada vez mais difícil de processar, principalmente para quem, como eu, tem filhos. Felizmente, estamos no conforto da paz, a 3400km daquele inferno. Se lá estivesse, “preocupante” não seria a palavra que utilizaria.

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Os cúmplices europeus de Vladimir Putin

Noticiou ontem o Público que França, Alemanha, Itália, República Checa, Eslováquia, Espanha, Croácia, Finlândia, Áustria e Bulgária venderam armamento e equipamento militar à Federação Russa nos últimos oito anos, após a invasão e anexação da Crimeia. Fun fact: a UE decretou um embargo de venda de armas e similares ao regime de Putin, em Junho de 2014. Não faz mal. Acena e sorri. Se questionares estás a fazer propaganda pró-Putin.

No texto do implacável embargo da intransigente União podemos ler o seguinte: é proibida a venda, fornecimento, transferência ou exportação directa ou indirecta de armas e material conexo de todos os tipos, incluindo armas e munições, veículos e equipamento militar, equipamento paramilitar e respectivas peças sobressalentes, para a Rússia por nacionais dos Estados-membros ou a partir dos territórios dos Estados-membros ou utilizando navios ou aviões que usem a sua bandeira, quer sejam ou não originários dos seus territórios”. E então, que fazer? Simples: arranja-se uma lacuna na lei – tantos advogados em part-time nos Parlamentos europeus têm que servir para alguma coisa – e decreta-se um regime excepcional de coiso. Sim, de coiso. Mas podemos chamar-lhe filhadaputice, se preferirem.

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Vladimir Putin, Isabel II e o Holodomor

– Sim, Vlad. Nós também fizemos um Holodomor na Índia, vários até, mas aquilo era tudo sub-gente, muito escurinha, e ninguém quis saber. Para a próxima, em vez da Ucrânia, invade, sei lá, o Bangladesh!

(baseado em factos verídicos)

A culpa é dos generais

Ao que tudo indica, ter-se-á decretado que alguns generais portugueses são emissários de Vladimir Putin. Confesso que não li e ouvi tudo o que escreveram e disseram, mas, como em tudo na vida, já li e ouvi tiros certeiros e auto-chumbo grosso no pé destes nossos generais-comentadores, que integram o exército de analistas da cobertura orwelliana da invasão da Ucrânia. 

Contudo, noto que acontece com eles o mesmo que tem acontecido com alguns analistas provenientes da academia, quando optam pelo comentário objectivo, focado na análise concreta dos factos, e não em perspectivas político-partidárias, guerras ideológicas ou manipulações emocionais. E isto é particularmente arriscado, ou não estivesse o ambiente altamente propício ao simplismo e a abordagens maniqueistas. O novo politicamente correcto impera, mais ainda que o próprio Putin, e quem ousa fazer uma análise que tenha em conta a sequência de acontecimentos que nos trouxeram até aqui corre o risco de acabar na fogueira virtual, acusado de putinismo e outras heresias.

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Margaret Thatcher sobre as sanções aplicadas à Federação Russa

O problema do capitalismo de casino é que ele só dura até acabar o dinheiro dos regimes ditatoriais.

Margaret something

O que vale é que podemos sempre salvaguardar os princípios democráticos e substituir o Putin pela joia de moço que é o Bin Salman.

De ditador em ditador, até à descredibilização final

Muito se tem falado sobre os PCPs desta vida, e respectivas posições sobre a invasão da Ucrânia (e muito bem), mas muito pouco sobre certos e determinados quadrantes ideológicos, que conseguem fazer igual ou pior, sempre daquela forma hipócrita e dissimulada que os caracteriza. São todos muito democratas excepto quando a economia exige a capitulação perante os interesses económicos que mandam nisto tudo. E eles capitulam, sem pestanejar. Ou, parafraseando o CEO da Volkswagen, “Limitar a actividade a países democráticos não é um modelo de negócio viável para os fabricantes”. Esclarecedor.

Vejamos, por exemplo, o caso dos impolutos conservadores britânicos, grandes guardiões da democracia, que passaram anos a receber milhões de rublos da oligarquia russa, sabendo perfeitamente a proveniência desses financiamentos, o que nunca os fez recuar. Nem cleptocracia oligárquica nem os envenenamentos de opositores de Putin por terras de Sua Majestade, como os casos de Alexander Litvinenko e Sergei Skripal.

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É o Capitalismo, Fernando!

O meu camarada Fernando Moreira de Sá ficou chocado com as declarações do CEO do Grupo Volkswagen, que afirmou que a empresa não pode vender apenas em países democráticos. Mas a coisa consegue ser ainda mais complexa e desavergonhada. A Volkswagen, como outros gigantes dos mercados ditos livres, não se limita a vender carros aos regimes mais violentos e totalitários. Consegue ter a distinta lata de distinguir entre ditaduras do bem (China, Federação Russa, Arábia Saudita, Qatar) e ditaduras do mal (Cuba, Coreia do Norte), provando que, mais do que o regime, importa saber o preço certo em euros das multinacionais ocidentais. A este respeito, o capitalismo é uma prostituta da mesma categoria do mini-Putin que anda pelas TVs a debitar propaganda pró-Kremlin.

Dicionário de Guerra: Português – Correctês

À medida que a invasão de Putin avança, aperta-se o cerco da liberdade de expressão. Mas esse cerco, lamentavelmente, não se resume à trincheira do tirano russo. Aqui pelo Ocidente, à caça às bruxas está ao rubro. De maneira que quem não debita a narrativa oficial é pró-Putin, quem questiona os antecedentes da invasão é pró-Putin, quem ousa debater qualquer variável que coloque em causa a narrativa simplista imposta pelo novo politicamente correcto é pró-Putin. Assim estamos.

Ciente dos riscos que corro, decidi lançar esta pequeno dicionário, onde pode. Os ver algumas expressões correntes e o seu equivalente em correctês. Para ir actualizando.

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Refugiados, segundo André Ventura (feat. Vladimir Putin)

Apesar das dissidências, e dos processos de autodeterminação de vereadores eleitos pelo CH, André Ventura conseguiu montar uma convenção autárquica. Mais dois ou três meses era capaz de só lá estar ele, Maria Vieira e Nuno Afonso.

Parafraseando Bruno Aleixo: “a mim que me importa”, a convenção do CH?

Não importaria muito, de facto, não a tivesse Ventura usado para lançar o isco a palermas como eu, sempre preparados para lhe dar o palco que ele deixou de ter há semanas, por não terem – no meu caso – a capacidade de ficar calados perante manifestações de racismo e xenofobia que, em boa verdade, já não surpreendem ninguém. Pela conveniência do momento, os refugiados da Ucrânia são receber de braços abertos. Já outros refugiados, de outras guerras e latitudes, não passam sub-pessoas, munidas de um extravagante iPhone, que querem vir para Portugal “viver à conta dos nossos subsídios e dos nossos impostos” e “tornar as nossas mulheres objectos e obrigá-las a andarem de burqa na rua”.

Este discurso é abjecto. Lamento se contribuo para dar palco ao indivíduo, na insignificância do palco que lhe possa conceder, mas não é para mim possível ficar calado perante este nojo. Ventura encara os refugiados do Iémen, da Síria ou da Líbia com o mesmo desprezo e a mesma falta de humanidade com que Putin encara os ucranianos. E causa repulsa, a tentativa forçada, e sucessivamente falhada, de difundir a islamofobia, num país sem historial de problemas com a comunidade islâmica, apenas para seguir a cartilha dos seus parceiros europeus, que ainda ontem recebiam financiamento em rublos e envergavam t-shirts de Vladimir Putin.

Roman Abramovich e a mão pesada do governo britânico

Pela glória de Sua Majestade, deram os seus bravos cavaleiros cabo do sonho londrino de Roman Abramovich. Quando comprou o Chelsea, em 2003, ocupando na altura o cargo de governador de Chukotka, onde se manteve até 2008, as mãos de Abramovich não estavam sujas. A sua eleição, para um oblast tão longínquo que está mais perto de Washington DC do que de Moscovo, terá seguramente sido limpa e transparente. A sua fortuna relâmpago, estratosférica, terá seguramente resultado do trabalho árduo e do seu génio fora de série. E as ligações a Putin, é sabido, remontam a 24 de Fevereiro de 2022, quando ambos se conheceram e Abramovich sujou as mãos. A mão pesada de Londres é implacável. Os oligarcas russos que andam há anos a enviar remessas para o Palácio de Westminster que o digam.

Alguém pediu um apocalipse nuclear?

Leio por aí, nas redes e na imprensa, várias pessoas que defendem uma intervenção directa da NATO no conflito. Vejo-as ser confrontadas por outras pessoas, a meu ver mais sensatas, que lhes dizem:

  • Então e se isso levar a uma escalada nuclear?

Ao que essas pessoas respondem algo como:

  • Que se lixe! Temos que fazer justiça pelo povo ucraniano, doa a quem doer.

Isso, fazer justiça. Tudo muito bonito, tudo muito poético, principalmente se aparecesse um James Bond no último minuto, para desactivar o missel balístico intercontinental com o nuke lá dentro, ao qual estaria amarrada uma lindíssima Bond girl, a jeito de ser salva e beijada pelo galã. Acontece que esta merda não é Hollywood e, havendo quem queira mesmo morrer, mais vale ir para a Ucrânia combater. Sempre será mais útil à causa.

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Sergei Lavrov meets George Orwell

As negociações que decorreram ontem na Turquia, já se sabia, não passariam de uma mera formalidade, para europeu ver. Lavrov exigiu a capitulação total e incondicional da Ucrânia, Kuleba recusou a solução proposta, por não pretender entregar de mão beijada a sua soberania, que a trôpega Blitzkrieg de Putin não conseguiu açambarcar com a mesma facilidade com que ocupou a Crimeia.

Segue tudo como dantes, quartel general em Abrantes, mas a propaganda, essa, que há muito atingiu proporções orwellianas, conheceu ontem um novo e delirante episódio. No rescaldo do encontro, e sem se rir, Sergei Lavrov afirmou que a Federação não planeia atacar nenhum país, garantindo, inclusive, que não atacou a Ucrânia. Os prédios em ruínas, as cidades arrasadas e o ataque repugnante contra a maternidade de Mariupol foram, seguramente, encenados em Hollywood. E eu ia jurar que vi a Khaleesi, em modo Mad Queen, a derreter o sul da Ucrânia montada no Drogon. E toda a gente sabe que os Targaryen andam a soldo da NATO.

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Capitalismo, o melhor amigo da máfia oligárquica de Vladimir Putin

Os oligarcas russos, como os seus congéneres chineses ou angolanos, navegam livremente nas águas neoliberais do capitalismo de casino, distribuindo as suas fortunas por diferentes ilhas paradisíacas, onde mais do que não se colocar a maçada de ter que pagar impostos, é possível depositar legalmente o produto de todo e qualquer crime, desde que efectuado na ordem dos milhões. É para isso que servem os paraísos fiscais: são o porquinho mealheiro da máfia contemporânea. O mercado livre também é isto.

Não deixa de ser curiosa, a facilidade com que os regimes autoritários e totalitários se movimentam na economia global, alegadamente construída sob a lógica da liberdade do indivíduo, e que, paradoxalmente, subsiste, em larga medida, da subjugação de milhões de indivíduos, à mercê do chicote ou da bota cardada, como acontece na China ou com as monarquias absolutas do Golfo, sem as quais o modelo económico que nos governa de facto entraria em colapso já amanhã.

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Marco Galinha e Marine Le Pen: descubra as dif… as coincidências

Na foto podemos ver José Belo, irmão de Marco Belo Galinha – dono da Global Media e acérrimo defensor de mais protagonismo para o CH nos órgãos de comunicação social do seu império privado, como de resto é seu direito – em sorridente pose com Marine Le Pen, líder da extrema-direita francesa e aliada internacional de André Ventura.

Marine Le Pen e Marco Galinha, o irmão deste destacado militante do CH que, tal como Ventura, veio do PSD no mercado de Verão, partilham a ligação ao dinheiro da oligarquia russa. No caso de Marco Galinha falamos do seu sogro e sócio, o oligarca Markos Leivikov, no caso de Marine Le Pen falamos num empréstimo, no valor de 9,2 milhões de euros, a “fundo perdido” , gentilmente cedido pelo First Czech-Russian Bank, uma instituição opaca que entretanto faliu, livrando os extremistas franceses do pagamento de uma dívida choruda, o que acabou por ser uma casualidade muito oportuna.

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Venezuela abraça o capitalismo, ou como reciclar um ditador quando precisamos dele

Segundo a Bloomberg, há venezuelanos a voltar ao país, devido a um volte-face inesperado: a Venezuela decidiu abraçar o capitalismo.

Lendo uma coisa destas, assim pela manhã, fica-se com a sensação que teve um lugar um golpe de Estado em Caracas, liderado pelo Guaidó e financiado pelos EUA, que derrubou Nicolás Maduro. Querem ver que, com as TVs ocupadíssimas em loops sobre a invasão da Ucrânia, tão ocupadas que já nem a pandemia tem um holofote que lhe valha, a coisa lhes passou ao lado?

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Miguel Esteves Cardoso sobre a importância do PCP

Grande comuna, este Miguel Esteves Cardoso. Na volta também anda às ordens do Kremlin. Ou então, como a senhora embaixadora da Ucrânia, poderá ter um familiar refém na Soeiro Pereira Gomes. Nunca se sabe…

Markos Leivikov: o oligarca preferido do jet set português

Já passaram dez anos, desde aquele réveillon em Cascais, marcado pelos diamantes e pela boa disposição. O anfitrião, proprietário do chiquérrimo Farol Design Hotel, era Markos Leivikov (na foto, à esquerda), oligarca russo com ligação directa a Putin e a outros oligarcas da rede de crime organizado dirigida a partir do Kremlin.

Não surpreende, esta proximidade entre Leivikov e o jet set português, também ele repleto de tios e tias, maridos e mulheres dos oligarcas locais, pendurados nos negócios do Estado e nas mais variadas formas de corrupção e tráfico de influências. Fazem parte do mesmo habitat natural. Leivikov, no fundo, é aquele animal selvagem, proveniente de um destino longínquo para dar um toque de exotismo ao zoológico da cleptocracia nacional, e ser admirado pela corte de percevejos eco-chiques da Comporta, agora que os oligarcas angolanos estão em vias de extinção.

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A aparição de Zita Seabra

Zita Seabra, assegura a edição de ontem do I, acredita que Nossa Senhora de Fátima irá converter a Rússia, o que não deixa de ser uma previsão curiosa, num país onde mais de 90% da população é cristã.

Na sua mais recente aparição, Zita Seabra manifesta também a sua crença numa outra possibilidade, igualmente curiosa: a de que a Rússia se livrará do comunismo por intermédio, uma vez mais, de Nossa Senhora de Fátima. Como se a divindade cristã não tivesse mais o que fazer que andar a atender as rezas de Zita Seabra.

Não obstante, é caso para dizer que Zita Seabra esteve particularmente certeira. Com décadas ou séculos de atraso, é certo, mas ainda assim certeira. No campo religioso, a implantação do Cristianismo é secular. No caso do comunismo, já lá vão mais de 30 anos desde que deixou de contar para o que quer que fosse que não seja folclore. O comunismo até pode ter saído da Dra. Zita, mas a cassete encravada parece-me, é para sempre.

Vasco Pulido Valente sabia quem Putin era…

…em 2015, no aftermath da ocupação da Crimeia. A análise está tão à frente no tempo que poderia ter sido escrita ontem e ainda estaria. O Ocidente viu, e também sabia. Tal como Putin sabia o preço do seu silêncio e colaboracionismo.

O milagre da ressurreição, em directo da Ucrânia

Espero, muito sinceramente, que seja brincadeira. Não que a ideia do regresso dos mortos à vida não seja inspirador, mas se já estamos neste patamar de propaganda, a coisa ainda está pior do que eu imaginava.

O Império (do mal?) contra-ataca

O meu camarada aventador, Fernando Moreira de Sá, escreveu aqui um texto interessante, sobre o qual me apraz deixar aqui sete notas, tipo sete pecados mortais. Aqui vão eles:

1) A discussão extremada que o Fernando refere é real, dura há anos, para não dizer décadas, e continuará bem viva, enquanto a dualidade de critérios imperar. Arrisco dizer para sempre. No caso presente, é interessante notar que há quem fique muito ofendido quando outro alguém ousa trazer para a discussão sobre a presente invasão os antecedentes que dela são indissociáveis, como se isso implicasse, necessariamente, legitimar a invasão ou defender Putin. Até porque, de uma maneira geral, as pessoas que recusam ouvir falar desses antecedentes, alguns dos quais bem presentes, são as mesmas que estão constantemente a falar – e bem – na barbárie estalinista, tendo Estaline morrido há mais de 60 anos.


2) Sobre a ideia do Império do Mal, importa referir que o Ocidente não é um império uno e indivisível. Os criminosos ocidentais estão bem identificados e não é a pertença à NATO que os define. É, por exemplo, invadir um país sem consultar todos os seus parceiros, e com base num pressuposto fabricado, como os EUA fizeram com a segunda invasão do Iraque. É, também, orquestrar um golpe de Estado contra um governo democraticamente eleito, pelo motivo de esse governo não ser favorável aos interesses de Washington. É, igualmente, nunca ter respeitado o plano de partilha da Palestina, aprovado por uma larga maioria dos membros de então da ONU, e continuar a construir colonatos ilegais na Cisjordânia, impondo uma verdadeira ditadura ao povo palestiniano. Dito isto, ninguém considera uma Noruega, uma Islândia ou Portugal como fazendo parte de um qualquer Império do Mal. Portanto não é de Ocidente que falamos, mas de agressores patológicos, como os EUA e Israel, que sim, devem ser criticados e moralmente condenados pelas suas acções, que alguns teimam em desculpar.

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Marco Galinha, Mariana Mortágua, a oligarquia russa e o tablóide Tal & Qual

Marco Galinha, proprietário do Grupo Bel, que detém a Global Média (DN, JN e TSF), tem estado nas bocas do mundo pela sua ligação a Markus Leivikov, oligarca russo com vários investimentos em Portugal, sócio e sogro do tubarão da comunicação social portuguesa.

As ligações de Leivikov ao regime cleptocrata de Putin e a outros oligarcas são já bastante conhecidas, e foram alvo de análise na RTP, no programa A Prova dos Factos, não deixando grande margem para dúvidas, pese embora o negacionismo de Marco Galinha, quando confrontado com a natureza sombria do enorme património do seu sogro e sócio, com ligações estreitas à cúpula do regime russo.

Mariana Mortágua, o maior pesadelo da elite financeira e empresarial versada na trafulhice, foi quem denunciou a ligação de Marco Galinha a Markus Leivikov. Meteu o dedo na ferida e afrontou o big shot, como é seu costume. Poucos dias depois, no tablóide Tal & Qual, Mortágua é acusada de, e cito, “Só depois de a avença ter sido suspensa se lembrou de atacar quem lhe paga…” referindo-se a condição de colunista do JN da deputada do BE.

Mas o que tem o tablóide renascido das cinzas a ver com esta trama, se nem faz parte do império de Marco Galinha?

Nada de mais. Apenas o facto de Marco Galinha ter feito tudo para que o Tal & Qual voltasse a ver a luz do dia, como nos permite concluir a publicação em baixo, de José Paulo Fernandes-Fafe, jornalista ligado ao tablóide desde os seus primórdios, que volta a integrar a equipa após a ressurreição do título. E o tablóide, ao contrário daquilo que acusa Mariana Mortágua, não ataca quem lhe paga. Opta antes por fazer o frete, com honras de capa, como se de um grande acontecimento se tratasse.

Curiosamente, vemos na mesma capa André Ventura em grande destaque, por uma alegada e não provada tampa que terá dado a Vladimir Putin, o que não deixa também de ser curioso, ou não tivesse Marco Galinha assumido querer mais espaço para o CH – do qual o seu irmão é militante activo e bem relacionado – nos títulos da Global Media. Uma coincidência, seguramente. Sobre essa e outras coincidências, vale a pena ler o Miguel Carvalho, na Visão.

E ainda há quem ache que é a esquerda que controla a imprensa deste país. Yeah right…

A ilusão da resistência

A propaganda de guerra ucraniana construiu a narrativa, a imprensa difundiu-a e as redes sociais romantizaram a encenação, com relatos de colunas militares russas abandonadas e soldados russos de bandeira branca na mão. Infelizmente, não passa de uma ilusão. A Ucrânia não está a resistir. A Ucrânia está a ser esmagada, lentamente, perante a passividade expectável do Ocidente, que se mantém na defensiva para evitar uma eventual escalada nuclear. As forças armadas ucranianas estão reduzidas a quase nada, com recursos cada vez mais escassos, e será uma questão de tempo até que Putin ocupe todas as principais cidades e a zona sul, do Donbas à Crimeia.

Se a situação se complicar para os russos, Putin porá mais carne no assador. Não irá com tudo, porque não precisa, mas convocará o suficiente para subjugar o que resta do exército e da resistência civil. O número de mortes aumentará, a destruição do país também, e o futuro estará ainda mais comprometido, como se a perspectiva de se transformar num estado-vassalo do Kremlin não fosse já suficientemente perturbadora. Não vale a pena alimentar ilusões. Sozinha, a Ucrânia não tem a mínima hipótese. E a Ucrânia, ela própria a primeira vítima desta ilusão colectiva, está sozinha. A resistência é uma ilusão e durará enquanto Putin assim quiser.

Embaixadora da Ucrânia em Portugal pronuncia-se sobre a posição do PCP

Ao que tudo indica, Inna Ohnivets não está alinhada com a narrativa do PCP pró-Putin. Poderá dar-se o caso de ter um familiar refém na Soeiro Pereira Gomes. Nunca se sabe. Com estes comunistas, todo o cuidado é pouco. Os tipos do Estado Novo que o digam.

O oportunismo das gasolineiras

Quando o preço do barril cai, as gasolineiras rapidamente nos informam que a queda só se reflecte daí a uns meses. Quando sobe, o aumento reflecte-se no dia seguinte e a culpa é do governo. E, de facto, o governo bem que se podia deixar de autovouchers e reduzir o ISP para ajudar os portugueses a fazer face à subida em curso, que não vai parar por aqui. Mas não foi o governo que decidiu aumentar os preços. Foram as gasolineiras. Mas lá chegará o dia em que os portugueses sentirão, nos seus bolsos, os efeitos fabulosos da liberalização do sector. Tem corrido maravilhosamente.

A invasão da Ucrânia e o novo politicamente correcto – O Equilíbrio do Terror #13

Andamos há anos a ouvi-los, aos berros, a anunciar o fim do mundo, porque a maleita do politicamente correcto se abateu sobre nós. Já não se pode gozar com homossexuais, não se pode poluir à vontade, não se pode ser nazi descansado, não se pode ser racista sem aparecer um woke zangado. Uma tragédia de proporções só comparáveis às do Holocausto.

Fora de tangas, é verdade que o policiamento da linguagem, em alguns momentos, tem ido longe de mais. Que a linguagem dita inclusiva, não raras vezes, atropela a integridade da língua portuguesa e a liberdade de expressão, para não falar em episódios absolutamente ridículos como aquele em que os seus proponentes defendem a substituição da palavra “mãe” por pessoa lactante, para não incomodar a ala mais radical da génerosfera.

O politicamente correcto tem sido associado à esquerda, criando, à direita, uma espécie de contra-cultura de inconformados, que não aceitam nenhum dos pressupostos associados ao conceito. No entanto, desde o início desta guerra, emergiu um novo politicamente correcto, com um nível de policiamento da linguagem sem precedentes. Já não se trata de apontar o dedo a quem discrimina ou agride verbalmente. Trata-se de rotular de ditador quem ousa meter o dedo numa ferida, que é real e factual.

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O drama em Kharkiv numa imagem

Milhares de ucranianos, amontoados e desesperados, procuram embarcar num comboio que os tire do inferno em que se transformou a sua cidade e o seu país. Dali para fora, em direcção à Europa, uma das financiadoras indirectas da destruição em curso. Não é paradoxo. É só o capitalismo na versão predilecta dos hooligans neoliberais. Porque o mercado, quando nasce livre, não exclui ditadores. Recebe-os de braços abertos.

Capitalismo pró-Putin: as empresas ocidentais que continuam a preferir os rublos à democracia

Eis a lista da vergonha: Auchan, BASF, Bayer, British American Tobacco, Bosch, Burger King, Henkel, Imperial Tobacco, KFC, LG, Nestle, McDonald’s, Metro AG, Miele, Pepsico, Philip Morris, Pirelli, Starbucks, Stellantis, Swatch, Tesco.

Talvez não estejam aqui todas, e mais haveria a dizer sobre as empresas do ramo da energia, mas, sobre essas, escreverei mais tarde. Sobre estas, assumo o meu absoluto radicalismo: boicote total a quem contribui para que Putin continue a oprimir a Ucrânia.

Putin e vinho verde. E Ricardo Araújo Pereira…

Fazer humor em tempos de guerra, uma guerra televisionada e alvo de discussão emotiva, extremada e ininterrupta, vigiada por aspirantes a censor do Tribunal do Santo Ofício, é um exercício exigente, arriscado e corajoso. Ricardo Araújo Pereira fê-lo hoje, de forma genial, naquele que foi, para mim, um dos melhores episódios de Isto é Gozar com quem Trabalha. Quem tem uma equipa daquelas e um artista como o Insónias em Carvão a sacar estas obras de arte, para não falar no imenso talento do RAP, não tem muito como falhar. Hoje brilhou.