Ritalina: hiperactividade, educação ou negócio?

Em democracia não há territórios sagrados, apesar de existirem algumas reservas, na sociedade não médica, à entrada na esfera clínica. Normalmente, quem arrisca, leva com uma bateria de batas brancas em cima que, com argumentos, quase sempre básicos, acaba por intimidar.

Aviso, portanto o leitor, de que não é minha intenção entrar na discussão médica sobre a Ritalina, até porque, ao ler parte da informação oficial disponível, fiquei suficientemente assustado, para nem tentar perceber o mecanismo da droga mais comum nas escolas, por estes dias. O meu olhar é o de Professor.

Nas nossas escolas a quantidade de crianças medicadas é absolutamente assustadora – quase não há turma em que dois ou três meninos não tome algum tipo de medicação para a hiperactividade. E, diz-me o senso comum, que não é possível que cerca de 10% das nossas crianças sejam portadoras desta “doença”. Não é possível.

E, parece-me que há três  factores que contribuem para este manifesto exagero da Ritalina nas escolas: [Read more…]

O Acordo Ortográfico de 1990 explicado pelo Expresso

Expresso, a dois meses de celebrar cinco anos de adopção assim-assim do Acordo Ortográfico de 1990, ilustra desta forma as “palavras que ficam ao gosto do freguês”:

Sector ou setor, característica ou caraterística, acumpunctura ou acumpuntura, caracteres ou carateres.

Acumpunctura? Acumpuntura?

Acumpunctura? Acumpuntura?

Acumpunctura? Acumpuntura?

Um jornal que chegou a “poupar letras” onde não devia, gasta letras onde não pode.

Em 17 de Junho de 2011, a presidente da Associação de Professores de Português, Edviges Ferreira, dizia: “a comunicação social já está quase toda a usar a nova ortografia”, o que “irá facilitar”.

Efectivamente, é muito simples.

Desejo-vos um óptimo fim-de-semana.

(página do Expresso, via Tradutores Contra o Acordo Ortográfico)

AO90 Expresso

 

São apenas pretos

No episódio 5 do documentário A Guerra de Joaquim Furtado (aquele onde se clarifica a natureza racista e esclavagista do colonialismo português) um enfermeiro moçambicano narra o seu diálogo com um superior hierárquico, a quem questionava por uma sua colega com muito menos habilitações do que ele ganhar o dobro:

– Tens dúvida de que és preto?

– Isso não tenho dúvida

– É isso, ela é branca, ganha mais do que tu, que és preto.

Há por lá mais exemplos do mesmo. Enquanto por estes dias editava o documentário de forma a poder utilizá-lo nas minhas aulas de História, apareciam-me mentalmente no monitor as imagens dos que atravessam o deserto e o Mediterrâneo, e por ali morrem. Vítimas das guerras que homens brancos foram inventar a Sul, vítimas de nem parte da globalização os deixarem ser, vítimas da natureza humana, que tem aquela pretensão, os do costume dirão estúpida, de quererem alimentar-se, vestir-se, habitar, viver. Os do costume explicam: têm dúvidas de que são pretos? E para que não as haja em sacos negros os embalarão.

O culto da imbecilização no ensino num suposto exame da 4ª classe

Tem feito furor por aí um suposto exame da 4ª classe de 1968, que circula nas redes. Acabo de descobrir que a coisa partiu de um jornal, o Dinheiro Vivo, e circula agora por várias páginas comerciais, daquelas que publicam tudo o que dê cliques. Como qualquer não-idiota pode constatar, isto não é um exame, são páginas de um caderno de exercícios:

cadernos exerfcicios primária

Nem é preciso ter a 4ª classe, ou o 4º ano para lá chegar. Não me daria ao trabalho de escrever aqui uma linha sobre o assunto, não fosse a circulação disto grave pela ideologia, e estupidez, que está a espalhar. Vamos lá ver: [Read more…]

Como era Portugal antes da Democracia?

Ando há anos a tentar utilizar excelente série da RTP Portugal, um Retrato Social, de António Barreto e Joana Pontes, nas minhas aulas de História.

Sendo objectivo do trabalho sociológico comparar o Portugal dos anos 60 com o do séc. XXI, recolheram excelentes testemunhos de como era a nossa vida antes de Abril de 1974, servindo tanto de fonte primária como de secundária. Um computador mais rapidinho permitiu-me agora editar esses extractos, numa remontagem um pouco longa e não muito bem organizada, mas sempre melhor que utilizar os dvd’s originais. Espero mais tarde completá-la com pequenos vídeos específicos (por exemplo sobre a emigração).

Aqui fica à disposição dos interessados, que podem igualmente efectuar o seu download directo.

A Educação afunda-se com Nuno Crato a tocar no convés

Santana Castilho *

A saga experimentalista de Nuno Crato continua a saltar de programa em programa com a leveza dos hipopótamos. Chegou a hora do Português para o ensino básico, agora em falsa discussão pública até ao próximo dia 17. Porquê falsa? Porque a apreciação das sugestões produzidas (só incautos perderão tempo a sugerir seja o que for neste contexto) cabe ao mesmo comité de crânios que concebeu o programa que definiu, só para os primeiros quatro anos, os hilariantes 105 objectivos e os kafkianos 308 descritores que guiam, qual lâmpada de Aladino, o respectivo ensino. Para afinar o diapasão da crítica, recordemos três das que passarão a ser as 1.000 metas, do 1º ao 9º ano, do cientismo cratiano:

– “Ler corretamente, por minuto, no mínimo 40 palavras de uma lista de palavras de um texto apresentadas quase aleatoriamente”. Se julgávamos que uma escolha era aleatória ou não era, ficámos a saber que há, ainda, o “quase aleatoriamente”.

– “Escrever quase sem erros uma lista de 60 palavras em situação de ditado”. Se não souberem como determinar o que é “quase sem erros”, não se detenham a inquirir o rigor matemático de Nuno Crato. Ele também não pode saber.

– “Ler pelo menos 45 de 60 pseudo-palavras (sequências de letras que não têm significado mas que poderiam ser palavras em português) monossilábicas, dissilábicas e trissilábicas (em 4 sessões de 15 pseudo-palavras cada) ”. Tivesse a escola assim treinado o aluno Cavaco Silva e o insigne presidente nunca nos teria tratado por “cidadões”.

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Posição da APP sobre a decisão de homologação de um novo Programa de Português para o Ensino Bás

appAPP (Associação de Professores de Português)

O Despacho 2109/2015, de 27 de fevereiro, determina que será concluída uma nova proposta do Programa de Português para o Ensino Básico, a ser colocada à discussão pública ainda durante o mês de março de 2015. Este documento visa agregar o Programa de Português de 2009 (PPEB) com as Metas Curriculares (MC) de 2012, procurando constituir-se como “um documento único perfeitamente coerente”, introduzindo “os eventuais reajustamentos mínimos indispensáveis” que não obriguem à adoção de novos manuais.
O Despacho autojustifica-se com “os resultados positivos” que teriam sido verificados em sala de aula, “conforme as consultas efetuadas junto das escolas e análise dos respetivos resultados da avaliação dos alunos” e com os “muitos testemunhos sobre a pertinência da entrada em vigor das Metas Curriculares”.
Como é possível chegar a estas conclusões? [Read more…]

Discordância

Maria Helena Loureiro
concordancia

Com o objetivo de “incentivar o bom uso da língua portuguesa pelos alunos do 3.o ciclo do ensino básico e do ensino secundário, aumentando o seu interesse pelo conhecimento da norma-padrão do Português Europeu e estimulando o espírito de rigor e de excelência” o ME criou as Olimpíadas de Português que decorrerão de abril a setembro.
Na carta enviada às escolas, assinada pelo diretor geral da direção geral da educação, pode ler-se:
“A Direção-Geral da Educação da Educação (DGE), em parceria com o Agrupamento de Escolas Aurélia de Sousa, a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, o Plano Nacional de Leitura e a Escola Secundária de Camões, têm o prazer de convidar os estabelecimentos de educação e ensino a participar na 3.a edição das Olimpíadas da Língua Portuguesa.”
Ainda não percebi se isto é só incompetência…

A Suprema Sagrada Congregação dos Santos Exames

Santana Castilho*

Para facilitar a leitura deste artigo, começo por um pequeno glossário:

Nuno Crato – Presbítero da Suprema Congregação dos Santos Exames, em nome da qual vem destruindo a escola pública e perseguindo os professores. Oficialmente designado por ministro da Educação.

IAVE – Sigla de Instituto de Avaliação Educativa. Sucedeu ao Gabinete de Avaliação Educacional, num lance típico de algo mudar para tudo ficar na mesma. O presbítero, que financia a coisa e propõe os nomes para que o Governo designe quem manda na coisa, repete até à exaustão que aquilo é independente, julgando que prega a papalvos. Aquilo passa pelos erros que comete e pelas indigências que promove com a resiliência dos irresponsáveis.

Cambridge English Language Assessment – Organização privada sem fins lucrativos, o que não significa que não facture generosamente o que faz e não pague principescamente a quem a serve. Pagar principescamente e gastar alarvemente é desiderato de algumas Non Profit Organizations.

PET – Do inglês, comumente entendido como animal de estimação, é aqui o acrónimo de Preliminary English Test for Schools. Personifica o mais actual exame de estimação de Nuno Crato.

PACC – Prova de Avaliação de Conhecimentos e Capacidades. É o cordão umbilical que liga Nuno Crato a Maria de Lurdes Rodrigues em matéria de vexame público do ensino superior e da classe docente. O facto de persistir, depois de classificada pelo próprio Conselho Científico do IAVE como prova sem validade, fiabilidade ou autenticidade, mostra de quem o IAVE depende e contra quem manifesta a sua independência.

Despachado o glossário, passemos ao calvário. [Read more…]

O rebanho

pastor

Num grupo de professores do Facebook uma colega expõe a sua dúvida: acompanhou uma visita de estudo, obviamente não deu aulas que a ubiquidade não é para todos nem a sua profissão tem equivalente na de gafanhoto saltitando de conselho de administração em conselho de administração, foi-lhe marcada falta porque a incompetência burocrática no micro-mundo das escolas existe, e exigem-lhe que a justifique, com um artigo que assim reza no maravilhoso mundo da justificação de faltas:

As motivadas por impossibilidade de prestar trabalho devido a facto que não seja imputável ao trabalhador, nomeadamente doença, acidente ou cumprimento de obrigações legais

É um artigo giro, lembro-me que apareceu no universo docente reinava Roberto Carneiro e na altura foi dado como exemplo ficar fechado num elevador, o que deu às empresas reparadoras dos mesmos um bizarro poder no mundo do absentismo. [Read more…]

Alarme social: meses com maiúsculas no site do IAVE

Meses_IAVE2Nos últimos dias, várias vozes chamaram a atenção para os prováveis prejuízos decorrentes da obrigatoriedade de usar nos exames nacionais apenas a grafia permitida pelo acordo ortográfico de 1990 (AO90). Naturalmente, fiz parte do coro.

Hoje, no jornal Público, apresentei vários argumentos a favor da utilização das grafias de 1945 e de 1990 nos exames nacionais, tal como acontecia até ao ano passado,  e, ontem, comentei as infelizes declarações de Edviges Ferreira, que, a propósito do mesmo assunto, conseguiu a quadratura do círculo, ao reconhecer que pode haver prejuízo para os alunos, defendendo, apesar disso, que não devem ter direito a duas grafias, castigando-os por culpas que atribui aos professores. [Read more…]

O potencial destruidor de Nuno Crato

Santana Castilho *

1. A comunicação social referiu-se abundantemente a um documento produzido pelo Conselho Nacional de Educação (CNE) sobre o problema das reprovações (“retenções” na novilíngua vigente). O tratamento jornalístico glosou os aspectos mais susceptíveis de chamar a atenção do grande público, tirando conclusões que não estão no documento ou dando uma interpretação descontextualizada a recomendações feitas. É o caso do custo das reprovações. Alguém multiplicou o número de “retidos” anualmente (150.000) por 4.000 euros (custo médio atribuído por aluno) para concluir que as ditas reprovações significam a perda de 600 milhões de euros. Ora é bom de ver que o custo de funcionamento das turmas pelas quais estão dispersos os alunos que reprovam não se altera por eles reprovarem no final do ano, num sistema de ensino com obrigatoriedade de permanência até aos 18 anos. É de outra natureza o prejuízo e as contas não se fazem assim. Mas a imprecisão foi amplamente propalada. E é o caso de se ter passado implicitamente a mensagem de o CNE sugerir transições administrativas, coisa que o documento não defende. Tudo, talvez, porque a narrativa da análise do CNE é descuidada, a linguagem pouco clara e as ideias se contradizem por vezes. [Read more…]

O IAVE chumbou na PACC de Física e Química

Eugénia Machado

No dia 4 de Março o IAVE disponibilizou a Informação-prova para a PACC – Componente Específica de Física e Química.

Como é sabido pelo discurso reinante no MEC, esta prova pretende verificar se os professores, com menos de 5 anos de prática lectiva, têm conhecimentos e capacidades para leccionarem na área em que se profissionalizaram. Tal como consta na Informação-prova, pretende, o MEC, verificar, com esta prova, se os candidatos têm domínio da terminologia específica da área disciplinar, se têm capacidade para analisar textos, gráficos, tabelas, dados e efectuar os cálculos necessários à resolução de problemas.

Fazendo uma breve leitura dos “Exemplos de itens” que foram fornecidos neste documento, a primeira reacção é de perplexidade, depois de incredulidade seguida de completa descrença no “sistema” e, por fim, de quase vergonha de viver num país governado por gente tão medíocre.

Basta uma análise de apenas dois dos itens, item 1 e item 3, apresentados como exemplo, para se tirar esta conclusão. [Read more…]

Os exames de inglês/Cambridge e o preço para os portugueses

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O custo de algo não se resume a um número, traduzido num valor monetário. Lugar comum, sempre ouvimos dizer que a vida não tem valor, apesar da afirmação de Pedro Passos Coelho, enquanto chefe deste governo, lhe colocar um tecto por não se salvar alguém “custe o que custar”.

O conhecimento, outra coisa invalorável, acaba também por estar associado a aspectos que têm um preço perfeitamente quantificável, sendo um deles os mecanismos de medição, ou melhor, de gradação, desse conhecimento, como é o caso dos exames.  [Read more…]

Tornado: fundamentos filosóficos

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Bater o pé ou abanar a cauda?

Santana Castilho

1 Foi de subserviência que se tratou quando a ministra das Finanças, Maria Luís Albuquerque, foi a Berlim a um beija-mão despropositado e se prestou a ser exibida como troféu de colonização moderna pelo sinistro mandarim Wolfgang Schäuble. Foi de obediência servil o triste papel que o primeiro-ministro português representou na Europa, enquanto Yanis Varoufakis lutava por uma dignidade que ele, Passos Coelho, não tem e muito menos entende. O que vai resultar da estratégia do governo grego bater o pé à Alemanha e à mesquinha empresa de negócios em que a Europa se transformou está por apurar. Mas o que resultou dos três anos que o governo português passou a abanar a cauda à senhora Merkel e aos seus capachos já está apurado e traduzido em números. Bastam algumas linhas e outras tantas colunas do Orçamento de Estado para 2015 para verificar que os 92.424 milhões de euros inscritos sob a epígrafe “operações da dívida pública” são mais que o triplo dos 29.000 milhões resultantes da soma do se prevê gastar com educação, saúde, segurança social e outras prestações sociais. Basta recordar os 300 mil emigrados forçados, o milhão e 200 mil desempregados, o milhão e 700 mil sem médico de família, os 23.089 professores, 2.107 enfermeiros, 10.842 administrativos e 21.834 auxiliares despedidos para perceber que quem com isto se sente orgulhoso jamais entenderá quem contra isto bate o pé. [Read more…]

Suicídio pedagógico

A proposta patrocinada por alguns Institutos Politécnicos de admitir estudantes sem qualquer exame de acesso corresponde a um suicídio institucional e um recuo que. em alguns casos, não terá remédio nem remissão. Foi para isto que tanta gente tentou dar outra dimensão ao ensino politécnico, emancipando-o de perspectivas anacrónicas, malgrado todos os atropelos e atalhos duvidosos que este processo envolveu? Todos sabemos que existem profundas assimetrias de qualidade entre os diversos politécnicos e mesmo no interior de cada um entre os diversos cursos. Por outro lado, a falta de estabilidade e clarificação institucional faz com que cursos politécnicos possam ser excelentes durante algum tempo e colapsar por motivos acidentais como um despacho ministerial sobre requisições de docentes, um capricho de gestão, uma decisão como a que agora se procura aprovar e que desvalorizará irremediavelmente os Politécnicos que a ela aderirem e porá em causa o próprio sistema. O Ensino Politécnico não tem de ser o parente pobre do sistema; mas o estatuto de igualdade conquista-se com exigência, rigor e qualidade técnica e científica. Não com medidas oportunistas para encher salas abandonadas pelos alunos.

Cavaco nacional da educação

PORTUGAL FEIRAS NOVAS PONTE DE LIMA

Que a um outro Conselho Nacional da Educação, com uma maioria mais para os lados do PS/BE e parte do PC, representando a esquerda eduquesa, que acredita nas ditas ciências da educação como se aquilo fosse uma ciência, troca o aprender com o saber fazer umas cenas giras e confunde ensino com arbitragens à benfica, lhe desse para propor o fim da avaliação, não estranhava.

Já este CNE, com tanta direita tradicionalista, à antiga, e a mesma ignorância académica quanto ao ensino, mesmo invocando o pilim que se pouparia com a medida, se tenha virado para esse lado, não entranhei e muito me admirei.

Demorei um bocado até entender a tolice, mas a lógica é simples: David Justino, que preside à CNE, é muito próximo da Cavaco Silva. Cavaco Silva, como é sabido, reprovou no que hoje seria ensino básico. Cavaco tem um trauma, e antes de perder o que lhe resta de influência, deve ter metido uma cunha ao amigo para que não mais uma criancinha portuguesa passe pelo horror do chumbo, a vergonha da raposa, a humilhação de uma nega. Está tudo explicado.

Claro que podia fazer umas contas e demonstrar como acabar com as retenções sendo possível e ideal ficava muito mais caro (turmas reduzidas, professores de apoio, psicólogos, CPCJotas a funcionar, etc. etc.), mas as dificuldades com os números também são um traço do cavaquismo.

De boas intenções está o CNE cheio

De acordo com a notícia do Público, o Conselho Nacional de Educação defende o fim das retenções, argumentando que os alunos sujeitos a essa medida têm mais dificuldades em recuperar e que, para cúmulo, é uma medida dispendiosa para o Estado. Para além disso, o CNE faz referência a uma alegada “cultura de retenção”, reduzindo, no fundo e de modo simplista, as causas do problema, como é costume, aos maus hábitos dos professores.

Já começa a ser cansativo repetir que as causas do insucesso escolar são várias e que muitas delas têm origem no exterior das escolas. É igualmente cansativo relembrar que as escolas, apesar do folclore da autonomia, têm falta de recursos humanos, docentes e não docentes, o que dificulta a detecção e resolução de muitos problemas. Relembre-se, ainda, e muito a propósito, que a municipalização da educação em curso corresponde a uma diminuição da autonomia das escolas.

Tirando isso, há recomendações que me parecem razoáveis, mesmo que estejam muito longe de ser originais, nomeadamente as que se referem à necessidade de detectar o mais cedo possível os problemas que poderão dificultar aprendizagens e à realização de exames apenas no final do ano lectivo (ao contrário do que acontece para os 4º e 6º anos). De qualquer modo, e voltando a meter o rabo na boca da pescada, a primeira recomendação implica autonomia das escolas e, muito provavelmente, contratação de recursos humanos.

Municipalização da Educação: leituras e bom senso

Continua a bom ritmo o processo de municipalização da educação. Como tem sido hábito, especialmente nos últimos dez anos, trata-se de uma medida imposta pelo governo ao arrepio da maioria dos que trabalham no terreno.

Vale a pena, apesar de tudo, ler o Decreto, especialmente o palavreado introdutório, porque nunca devemos perder uma oportunidade de nos rirmos, mesmo no meio das desgraças. Aqui pelo Aventar, Santana Castilho glosou o tema. O Paulo Guinote tem dedicado vários textos ao assunto (para além dos publicados no blogue, recomenda-se “Municipalização da Educação: uma reforma necessária e coerente?”). O Arlindo, como de costume, colocou vários materiais ao alcance dos leitores, sendo de realçar a Declaração conjunta ANDAEP, CONFAP e FNE sobre transferência de competências para as autarquias (a primeira sigla é a da Associação Nacional de Directores de Agrupamentos e Escolas Públicas, a segunda é a da Confederação Nacional das Associações de Pais, sendo a terceira a da Federação Nacional de Educação). A FENPROF tem uma página especificamente dedicada esta questão.

No que se refere à transferência de competências para as câmaras municipais, o Arlindo comenta “nada disto me parece um bicho papão.” Mesmo que seja verdade, pergunto-me se deverá ser esse o critério para que um governo imponha medidas, seja em que área for.

Finalmente, o Conselho de Escolas, órgão consultivo do Ministério da Educação constituído por directores de escolas, emitiu um parecer em que são levantadas várias reservas ao processo de transferência de competências para as câmaras. Leia-se a notícia do Público sobre este parecer, com direito a contra-argumentação do Ministério.

O leitor sensato pensará “Se eu fosse ministro, iria, no mínimo, ler todos estes pareceres e, muito provavelmente, iria reconsiderar, tendo em conta que provêm de pessoas e entidades informadas e conhecedoras.” O leitor tem, no entanto, um problema: é sensato.

Municipalização da Educação: uma reforma necessária e coerente?

” (…) discordo de reformas que correspondem a ficções políticas, a pseudo-utopias particulares baseadas em conhecimentos superficiais de realidades externas, quantas vezes em rápida desactualização, destinadas a satisfazer este ou aquele grupo específico de interesse ou o ego pessoal de políticos em trânsito.” – Paulo Guinote.

Municipalização da educação: quietinhos, não respirem, já está!

Santana Castilho *

Nuno Crato, Poiares Maduro e os autarcas experimentalistas trataram a Educação como se fosse uma grande rotunda e os professores como pacientes sujeitos a raio xis: quietinhos, não respirem, já está! É o mais generoso que se pode dizer quando se analisa o processo e a proposta de Contrato Interadministrativo de Delegação de Competências, com que pretendem pôr em prática o que é comumente designado por municipalização da Educação. O processo teve a clareza de um pântano. O documento são 28 páginas de verbo magro e matreirice gorda. Deplorável, para qualquer Administração pública decente. Adequado a um Governo a que só falta privatizar o Galo de Barcelos. Passemos a alguns factos ilustrativos da mediocridade, que todos não cabem.

Várias cláusulas da proposta de contrato são ilegais, porque desrespeitam o regime de autonomia, administração e gestão das escolas públicas, fixado em três diplomas (DL nº 75/2008, de 22 de Abril, DL nº 224/2009, de 11 de Setembro, e DL nº 137/2012, de 2 de Julho). É o caso concreto da alteração das competências dos conselhos gerais e dos directores, que só um decreto-lei poderia derrogar. O choque entre a lei e o contrato é mais gritante no caso das escolas com contratos de autonomia. Aqui, são duas portarias (a nº 265/2012 e a nº 44/2014) implodidas pela autocracia dos contratantes. [Read more…]

Para que serve um Conselho Geral?

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Pelos vistos, serve para reconduzir um Director escolar sem ter de recorrer a essa maçada chamada eleições. E para fazer inúmeras e intermináveis reuniões burocráticas que servirão para legitimar uma decisão que já foi tomada. E para fazer a avaliação do trabalho do Director, mas, claro está, só depois de terminado o seu processo de recondução (por favor não se riam).
E dar aulas, não?

Nessa espécie de notícia onde o TC era força de bloqueio

Acabo de ouvir no Telejornal, RTP1, uma notícia que começava por dizer que o Tribunal de contas desbloqueou hoje uma verba para pagar 2/3 do valor que o estado deve aos professores do ensino artístico. Seguiu-se uma reportagem sobre casos de pessoas que estavam há meses sem salários e, para todos, ficou claro que vivem uma situação incomportável. Fim da reportagem, notícia seguinte.

O diabo, como deus, está nos detalhes e nesta “notícia”, eles são o fulcro da questão. Na notícia não há uma referência quanto à razão destas pessoas não estarem a receber salário. Apenas que o Tribunal de Contas que desbloqueou qualquer coisa. Portanto, havia um bloqueio. O Tribunal de Contas estava a bloquear. A causa do problema foi o Tribunal de Contas. Este raciocínio não é desenvolvido na notícia mas a linha de pensamento está lá, na frase sobre o desbloqueio, complementada pela ausência de qualquer outra explicação. [Read more…]

Presidente do IAVE chumba ao chumbar os professores

“Há um conjunto de professores que não reúnem condições para o ensino”. Professores reúnem. Um conjunto reúne. Vá lá, sr. Hélder de Sousa, meta as orelhas e vire-se para a parede.

Tão bem explicado que até eles entendem

é só para filhos de família que podem fazer mba’s muito selectivos onde se visitam os pobrezinhos nos seus habitats, aqueles pobrezinhos que só podem aspirar à mobilidade lateral que os leva a professores

Uma ideia para melhorar a Universidade do Porto?

Está bem, só uma: não (tentar) adoptar o AO90.

A reprova

Para avaliar candidatos a professor fazem-se uns testes giros. No último incluía-se um texto de José Manuel Fernandes. Repito: o analfabeto José Manuel Fernandes, que enquanto escreveu à borla no Blasfémias provou várias vezes ter com a gramática uma relação semelhante à que eu tenho com Passos Coelho. Se, mesmo revisto como sempre sobreviveu na profissão onde entrou um homem que escreve fazido à pala de mero oportunismo político, eu encarasse um texto de José Manuel Fernandes e tivesse de a partir dele escrever alguma coisa, juro que bloqueava, ou melhor, bloceava.

Já em prova anterior José Adelino Maltez, homem culto e professor universitário, experimentou e falhou:

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Governar para números ou governar para pessoas?

Santana Castilho

O filósofo Slavoj ZizeK citou T. S. Elliot num comício da Syriza para dizer que “há momentos em que a única escolha é entre a heresia e a descrença”. E clarificou a ideia afirmando que “só uma nova heresia, representada hoje pela Syriza, pode salvar o que vale a pena salvar do legado europeu: democracia, confiança nas pessoas, igualdade e solidariedade”.

O estado em que a política educativa dos dois últimos governos colocou escolas e professores faz-me suspirar por um “momento Syriza” na Educação. Por uma nova heresia, que coloque cooperação onde hoje está competição. Porque a cooperação aproxima-nos e sedimenta-nos enquanto grupo e a competição, ampliando as diferenças, afasta-nos, isolados por egoísmos. Porque a cooperação serve as pessoas e harmoniza-as, tal como a competição, hoje sacralizada na nossa cultura, serve os números e os conflitos. [Read more…]

Municipalização? Não, obrigado!

Incompetência!

Não, não se trata da palavra-passe mais usada em 2014 – essa continua a ser

Este vocábulo é muitas vezes escolhido para colocar em orações onde entram outros vocábulos como Pedro, Passos, Paulo, Portas ou até, como muitas vezes acontece nas escolas, junto de Nuno e de Crato.

Mas, se há palavra desadequada para qualificar Nuno Crato, essa palavra é incompetência. Aliás, eu diria que incompetente e Nuno Crato são antónimos. Nuno Crato tem sido o mais competente dos Ministros porque consegue colocar em prática toda a sua matriz ideológica inspirada na experiência americana dos anos 80. Diria, que tem uma espírito santo de orelha – David Justino, mas não deixa de executar o seu papel com enorme competência.

O péssimo professor de matemática que desfilava apontamentos de ignorância em todos os planos, nomeadamente nos mais inclinados, teimou em falar sobre tudo e sempre com uma tónica – a Escola Pública, como está, não serve.

E esta Escola Pública não serve porque ainda permite (a poucos, é certo) a possibilidade de aceder a um dos dois únicos mecanismos de promoção social – o outro são as juventudes partidárias. A aposta no ensino privado foi uma marca de Nuno Crato que, a seu tempo, a TVI mostrou ao país. Essa aposta é concretizada de diferentes formas – se por um lado entregou mais dinheiro aos colégios privados, por outro iniciou um processo de privatização que alguns teimam em chamar municipalização. Nuno Crato, no quadro de um governo hiper-competente, apresentou a alguns autarcas uma proposta de contrato para transferir competências para o nível municipal. Vejamos, então, em cinco pontos, o que está em cima da mesa: [Read more…]