Cavaco é discípulo de John Cage

I have nothing to say / and I am saying it / and that is poetry / as I needed it” – diz John Cage, compositor autor da famosa peça 4’33’’, obra dividida em três andamentos em que não se passa absolutamente nada. Apenas um silêncio total. O pianista, na versão para piano, ou o maestro, na versão orquestral, apenas têm de estar atentos ao indispensável cronómetro para não falhar o “fim” da peça.

Mas a verdade é que a obra ficou para a história. É o caso do silêncio do nosso presidente: incompreendido hoje, a história lhe fará justiça. Assim ficamos a saber quais as influências filosóficas e estéticas de Aníbal. Hoje é, pois, um dia feliz. Claro que não faltam musicólogos a garantir que John Cage é um maganão. Genial, mas um aldrabão. E não faltará quem, entre nós, garanta que Cavaco partilha esta condição com o compositor. Sem a parte do “genial”.

Uma Odisseia que hoje acaba

O melhor que se produziu em todas as televisões portuguesas, departamento de ficção. Sem comparação sequer com a concorrência mais próxima, e que andaria por um Herman muito remoto. Não é para meninos, não é de digestão fácil, também por isso é excelente. Acaba hoje, “suspenso pela RTP” reza o argumento, mas é possível ver todos os episódios.

Deixo-vos com a sequência que até agora mais me encantou, um exercício de representação muito, mas mesmo muito fora, da Carla Maciel e do Gonçalo Waddington:

Homens indignadinhos

A maioria que governa a autarquia de Coimbra, a que se juntaram autarcas de outras localidades – Mealhada e Pedrogão Grande – está muito abespinhada com a “insensibilidade social” de Assunção Cristas e as malfeitorias das Águas de Portugal. Querem aumentar as tarifas, imagine-se.

Os putativos candidatos autárquicos do PS botaram fala em conferência de imprensa, onde deram largas a não menor indignação. Até aqui, nada a dizer. Mas quando apelam a que a Assembleia da Republica se debruce sobre o problema, eu digo alto e para o baile! É que, ó distraídos concidadãos, a AR debruçou-se, há poucos dias, sobre o problema. E as vossas rapaziadas (PSD, PP e PS) opuseram-se a uma lei que impediria a privatização das águas. E nem uma voz ou um braço se levantou, nas vossas bancadas, que desse alguma credibilidade à vossa indignação de pechisbeque.

Tudo quanto ultrapasse as vossas continhas de amanuense de trazer por casa, é demais. Fazem este escarcéu por um aumento de tarifas da lavra de um dos vossos – das vossas, neste caso -, mas endireitar a coluna vertebral para impedir o retrocesso civilizacional que significaria entregar a água a um monopólio privado, isso nem pensar. Quem vos crê que vos compre, corja de aldrabões de meia tigela. Mas depois não se queixe, que já não há paciência.

O Consiglieri

O Consiglieri é uma figura relevante na estrutura hierárquica da Mafia. Ele é um dos vértices do poder da famiglia, juntamente com o boss e o underboss. Este tipo de organização reproduz-se noutras instâncias de poder. Mas estou a divagar. Que terá isto a ver com a notícia do dia, o conselho do António Borgia, perdão, Borges, de diminuição generalizada de salários, já retomado publicamente por Passos Coelho e Gaspar? Sim, que terá? Porca miseria! Mascalzoni!

Sai Baba, entra Maduro

AlvarezDuty

O sucessor de Chávez frequenta Puttaparthi. Não é um hippie nem vai à Índia à procura de parties, mas sim de milagres que lhe possam garantir uma boa e milagrosa gestão dos problemas que a Venezuela enfrenta. De cinzas transformadas em comida, até às bocas que arrotam jóias, Maduro fica assim a dispor de algo mais do que a produção de petróleo.

Não poderá a nossa classe política partir em peso para umas consultas destas? Por cá, cinzas não faltam.

Exactamente, como previsto: o lince e as raposas

Ontem, escrevi que, provavelmente, o prefácio de hoje  nos traria *marços , *atuas e outras disortografias.

De facto, trouxe-nos. Ei-las.

Não se trata evidentemente de bipolaridade (orto)gráfica, uma vez que o autor, como muito bem sabemos, apenas adopta uma grafia. Daqui a mil anos, os paleógrafos no activo durante o ano de 3013 deliciar-se-ão com esta fase do segundo decénio do século XXI, em que a grafia utilizada por determinados escreventes de português europeu assumia formas diferentes, consoante o carácter privado/social ou público/oficial do texto. Descobrirão esses paleógrafos que, na fronteira entre aquela sincera, estável e correcta grafia privada e aqueloutra hipócrita, aventureira e incerta grafia pública, havia máquinas com nome de felino e vopes, volpes, voalpes e até uma confusão entre vóclepes e voulpes. Nessa altura, no século XXXI, farão exactamente a mesma pergunta que tantos fariam mil anos antes: porquê?

P.S. – Aproveitando a corrente do público/privado, deixo-vos na companhia de um excelente vídeo, com Jorge Buescu a explicar a criptografia de chave pública. “A chave que encripta a mensagem é pública, mas a chave que decifra a mensagem é privada”. Exactamente.

Postalinhos de Barcelos (1)

barcelos1

Gaspar e Portas – o etíope, o alemão e o careca

Miguel Sousa Tavares, com quem discordo e concordo, foi traído nesta fotografia:

o etíope, o alemão e o careca

Nos artigos que publica, descreve sempre a ‘troika’ segundo esta sequência: ‘o etíope, o careca e o alemão’. Sucede que o fotógrafo, impotente para impor a ordem dos fotografados, captou o famigerado trio de forma diferente: ‘o etíope, o alemão e o careca’. A alteração, porém, é mera questão de formato, porque, no conteúdo, as três figuras estão em sintonia: lixar o povo português.

O crucial à volta da ‘troika’ e desta 7.ª avaliação não se centra na ordem de descrição ou desfile das três funestas figuras. O dramatismo do problema centra-se nas divergências da coligação governamental acerca do tempo – prazo – para execução do corte dos 4 mil milhões na despesa pública.

Segundo o ‘Público’, sabe-se:

Paulo Portas, apresentou à ‘troika’ o guião para suavizar os cortes na despesa do Estado, mas que ainda não foi alcançado um acordo nesse sentido, já que Portugal quer três anos para poder aplicar o corte de quatro mil milhões de euros e pretende definir anualmente as áreas afectadas, de acordo com a evolução económica do país. [Read more…]

Octaphraudócrates

«… é objectivamente mais grave prejudicar o interesse público, em nome de interesses particulares adoptados por influência de amigalhaços do que prejudicar interesses particulares por influências particulares.» josé

Pois é, josé. Segue-se que, curiosamente, não se passa nada num País de merda.

Em Março, a aprender como o Presidente actua

Cavaco 832013

Segundo o senhor presidente da República, no próximo dia 9 de Março (isto é, amanhã), será divulgado o prefácio do livro Roteiros VII,  através do qual saberemos como “deve actuar um Presidente da República em tempos de grave crise económica e financeira”. Amanhã, obviamente, irei consultar a página oficial do senhor presidente, para ler o prefácio e aprender como actua um presidente da República em tempos de crise económica e financeira e ainda por cima grave. Repare-se que o senhor presidente da República escreveu “Março” e “actua”, não escreveu nem março, nem atua. Provavelmente, o prefácio de amanhã trar-nos-á *marços , *atuas e outras disortografias. Mas já sabemos que, apesar de ser um dos primeiros e principais responsáveis pelo desastre ortográfico de 1990, Cavaco Silva não se mete nessas aventuras.  

Ministério da Educação: como despedir trabalhadores necessários

pblico 1set2012A notícia já tem alguns dias, mas vale a pena, ainda, comentá-la: desde 2009, o concelho do Barreiro perdeu 222 professores, enquanto o número de alunos tem aumentado.

As causas para este facto são apontadas na mesma notícia: os mega-agrupamentos, o aumento do número de alunos por turma, a redução da carga horária de algumas disciplinas e a redução de pessoas nas direcções.

Se se tivesse a certeza de que alguma dessas medidas serviria para melhorar as condições de trabalho das escolas, ainda poderia concluir-se que havia professores a mais. A verdade é que são prejudiciais para aquilo que é essencial: as aprendizagens dos alunos.

Pelo meio, esta situação torna ainda mais risível a propaganda que aponta a baixa de natalidade como causa para a dispensa de milhares de professores: mesmo admitindo que na maioria dos concelhos o número de alunos possa ter diminuído, ao contrário do que acontece no Barreiro, a diminuição de nascimentos está muito longe de justificar o despedimento maciço dos últimos anos.

A repartição do Ministério das Finanças a que chamam Ministério da Educação soube inventar maneiras de despedir trabalhadores fundamentais, prejudicando, desse modo, o país. Com uma opinião pública desinteressada, qualquer declaração vaga sobre natalidade ou rácios constituem bacalhau bastante.

Dia Internacional da Mulher

dia mulher

Hoje é Dia Internacional da Mulher.
Por cá, há quem use dar uma flor ou um «miminho» às mulheres da sua vida ou como campanha de promoção de alguma coisa.
E ficamos por aí. Mulheres felizes porque receberam alguma coisa, homens felizes porque deram provas de ser grandes e atenciosos para com as mulheres. Assunto encerrado.

Eu não recebo nada no Dia da Mulher. Não preciso. Recebo todos os dias aquilo que muitas mulheres nem no Dia da Mulher recebem. Tenho a sorte de ser tratada como todas as mulheres merecem ser tratadas. Mas eu pertenço a uma minoria.

Neste dia, tal como em muitos outros, mas admito que no 8 de Março particularmente, penso na infelicidade que ainda é ser-se mulher em muitos cantos do mundo, até mesmo em Portugal. [Read more…]

Croniquetas de Maputo: Toponímias

     O Nuno lançou-me um repto que eu queria concretizar: fotografar a sua antiga casa em Maputo, numa rua que tivera nome de princesa e agora ostenta nome de presidente/poeta.

A Av. Salvador Allende, tinham-me dito, era perpendicular ao Hospital Central, o qual ficava entre as avenidas Eduardo Mondlane e Agostinho Neto. Estando eu na popular Rua do Bagamoyo, e sendo ainda um esticão até à avenida do  chileno, convinha-me decidir como lá chegar.

Podia ir a pé pela Karl Marx acima, cruzar a 24 de Julho, a Ahmed Sekou-Touré e apanhar a Eduardo Mondlane bem junto ao cemitério hindu. Mas também podia subir a Av. Samora Machel, seguir a Ho Chi Min, virar na Amilcar Cabral e continuar pela Agostinho Neto ou, até mesmo, pela Mao Tsé Tung, sem no entanto chegar à Kim Il Sung,  e entrar na Salvador Allende pelo seu início.

Também podia ir de taxi, é claro, negociar o preço antes de entrar, ter o dinheiro mais ou menos contado, passar pela Vladimir Lenine,  [Read more…]

Os dias são nossos. Todos os dias são nossos.

Não sei bem qual delas admiro mais: se a minha avó Maria, que pariu 13 filhos sozinha e ainda ajudou a nascer meia aldeia; se a minha avó Leontina, que pariu apenas 10, 8 dos quais ao lado da minha mãe, numa esteira, no chão (“mandava-me ir chamar a tia Amélia e eu já sabia para que era”), que percorria os 20 km que separam Antões de Pombal com um cesto de laranjas à cabeça, para vender nos tempos de fome; se a avó do meu homem (que também foi muito minha, nos anos em que convivemos), que ficou viúva aos 32 anos, com cinco filhos e sem qualquer ajuda; ou a minha mãe, uma muralha à prova de tudo. [Read more…]

A Arundhati Roy e às mulheres jamais esquecidas de o ser

É Dia Internacional da Mulher. Cumpro o ritual, homenageando sentidamente as mulheres.

Respeito a efeméride em memória das mulheres emanantes das saudades mais longas da minha vida – as minhas quatro bisavós; conheci-as todas. Jamais se evaporarão da memória. Elas e todas as outras com quem urdi diferentes laços familiares ou de amizade. Pesam, sobretudo, os afectos naturais da família, essa célula social elástica. Ora se contrai, ora se dilata, cadenciada pelo ritmo de quem parte e de quem chega.

Às mulheres da minha vida, mas também a todas as outras jamais esquecidas de o ser – algumas, senhoras de poderes de obscena tirania, constituem um terceiro e abjecto grupo que me repugna – presto a minha homenagem através da combatente antiglobalização, Arundhati Roy. Uma mulher de elevado estatuto intelectual e ético. Nascida na Índia, país onde são correntes ignominiosas acções de violência e segregação de mulheres, a luta de Arundhati por um mundo justo adquire maior significado quanto à coragem de combater em meio adverso e que os homens dominam. Eis um trecho do seu livro ‘O Fim da Imaginação’:

Os jovens trocistas e esganiçados que derrubaram o Babri Masjid são os mesmos cujas fotografias apareceram nos jornais nos dias que se seguiram aos testes nucleares. Estavam nas ruas, a celebrar a bomba nuclear indiana ao mesmo tempo que “condenavam a Cultura Ocidental” esvaziando grades de ‘Coca-Cola’ e ‘Pepsi’ nas sarjetas. A sua lógica deixa-me algo perplexa: a ‘Coca-Cola’ é Cultura Ocidental mas a bomba nuclear é uma velha tradição indiana?    [Read more…]

Prometo Um Pénis de Ouro Para Todas as Mulheres

Pé MessianoAgora que já capturei alguma atenção, mais a sério. Não venho propor um novo princípio constitucional que garanta uma espécie de Pénis-Magalhães de Ouro a cada portuguesa, vibrátil, na linha dos direitos inefáveis, tendências democratizadoras e aspirações furadas que a Constituição consagra, deveria garantir, mas cujo chulé na verdade nem sequer cheiramos. Também não se está aqui a pensar em roubar aquele caralho de mel que parece estar na boca de Filipe Pinhal quando fala, ó ânsias de falo!, para dá-lo liberalmente a quem de direito carece da mais elementar glucose em suporte rígido. Pudessem todas as mulheres oprimidas e mal-pagas deste Portugal ousar chorar despudoradamente como ele, após anos de capitalização, offshores e mais valias. Não. Venho somente com a minha lenga-lenga beata do costume. Se há uma herança e um testemunho que desejo passar à mulher em geral e especialmente à mulher portuguesa não é de todo que todas passem a ter um áureo pénis só seu, realístico, áspero, nervurado e evocador, claramente artificial e artístico, como o Pé de Ouro engendrado a partir de um molde de silicone com Messi dentro. [Read more…]

Se não fosse 8 de Março

Se não fosse 8 de Março, eu saberia escrever sobre ti. Quem?

Tu, a que partiu? A que ficou? A que sorri? A que sofre? A forte, que nada parece afectar? A frágil, que mesmo assim é o meu castelo? A que é a minha vida? As que foram? A que me deixou? A mãe, as mães que tive? As madrinhas dos meus sonhos? Tu, o sol das minhas noites, o luar dos meus dias? Tu, a de uma noite, de muitos dias, de sempre? Tu, a recordação de outro tempo? Tu, a perene, o exemplo, a genica e o ânimo?

Se não fosse 8 de Março, eu saberia escrever sobre ti. Não importa quem. [Read more…]

Insulto às mulheres

Hoje lembrei-me desta publicidade.

Porque é Dia Internacional da Mulher e porque, embora as mulheres sejam cada vez mais numerosas e mais presentes em praticamente todos os sectores da sociedade moderna dos países desenvolvidos, há ainda um longo caminho a percorrer.
Porque, apesar de todas as qualificações e de todos os esforços, uma mulher profissional é frequentemente preterida quando compete com um concorrente homem.
Porque, mau-grado toda a evolução na sociedade e as provas dadas por muitas mulheres em lugares de chefia, elas continuam a ser muito minoritárias nesses postos de trabalho.
Porque eu sou mulher e já me senti assim insultada quando um colega (tão incompetente que foi a única pessoa despedida naquela empresa) ganhava mais do que eu, trabalhando muito menos e muito menos eficazmente.
Porque, mesmo antiga e com fraca qualidade, continua a representar aquilo que diariamente se faz a muitas mulheres.

Pelo menos no Aventar ganhamos todos o mesmo, homens ou mulheres.

Então vamos lá baixar os salários

Começando pelos de topo, para variar. Menos 12% para políticos e nomeações políticas.

Te doy mis ojos – Dou-te os meus olhos

Filme Espanhol sobre a violência doméstica. Tem a particularidade de abordar ambos os lados: agressor e vítima.
Exclusivamente em Castelhano, podendo activar-se as legendas naquele idioma para melhor acompanhamento.
Ficha IMDb aqui

Poio Encomioso do Dia

Poio Encomioso do DiaEstá no JN de hoje, em papel, página 33. Horripilantemente mal escrito e banalóide, conforme seria de esperar.

 

Com o acordo ortográfico há mamas até ao tecto

tetosPara que não me acusem de só ver defeitos no chamado acordo ortográfico (AO90), quero hoje manifestar o meu regozijo, como mamífero masculino, pelo facto de, com o AO90, a língua portuguesa poder contar com mais mamas, devido à criação de mais um par homográfico: tecto transforma-se em teto, passando a escrever-se da mesma maneira que uma das muitas palavras que servem para designar a glândula mamária. [Read more…]

Finalmente, consegui dizer-te!

Pela lei da vida, devias partir, eu sei. Aprisionado nessa quase inconsciência, já não sabendo se estavas do lado de cá ou de lá da ponte que liga as duas vidas, o fiozinho cada vez mais ténue, que te ligava a esta, partiu-se num estalido mínimo, imperceptível, e tu, definitivamente, já não estavas aqui. Soube-o ontem, por um amigo comum, com quem reeditei uma tradição de almoçarmos às quartas-feiras, sanadas as mais importantes sequelas dum enfarte e que te trouxe com 25 quilos a menos, mas muito mais resistência, já consegues andar sem parares de trinta em trinta metros, que bom, fiquei contente.

Então lá foste desfiando os amigos que já não se sentarão mais à mesa. Entre eles, ele!

(Estou a ficar velho, já passo de uma personagem a outra, com esta facilidade a que a idade me vai guiando cada vez mais… Ou será propositado? Às tantas, vou ter de multiplicar os que restam para ainda me parecerem muitos.)

Voltando a falar contigo, o que partiu, devo dizer-te, para despedida, que tinha uma enorme inveja de ti. Tinha eu dezassete, quase dezoito, entrei no Expresso depois do meu primeiro dia de trabalho. A pessoa que me abriu as portas do emprego tinha sido a mesma que me apresentou ao dono do restaurante económico, casa de pasto para ser mais preciso, dizendo-lhe que eu era o novo cliente ao jantar (ao almoço, tinha a cantina). [Read more…]

Pedro Passos Caralho Não Acorda

Ontem, pela milésima vez diante da TV para assistir a mais um debate parlamentar, percebi como somos patetas nas francas expectativas colocadas em cada megamanifestação pacífica, repleta de insultos e pedidos de demissão que não mordem, cartazes-desabafos a vermelho contra a traição dos políticos e o terror pela miséria semeada já sentida ou iminente.

Para mudar algo, prioridades, acentos, sensibilidades governativas internas e globais externas, nem que fosse o discurso seco de um Primeiro-Ministro, remetido ao seu etéreo assento de estrelas cristalino, para qualquer coisa de mais afinado com o que sofremos, teríamos de ocupar a rua dias consecutivos, pacificamente, se conseguíssemos, ou suicidar-nos em massa, ou organizar-nos meticulosamente, descobrindo uma unidade semelhante à dos dedos de uma mão. Mas percebi sobretudo como é completamente tonto quer o que um Passos Caralho desta vida tenha a dizer quanto a isso quer o que um verdadeiro paneleiro político como Sócrates disse alguma vez em circunstâncias muito semelhantes. É que nisso são iguais. Lidam connosco, apesar de nós, e tal é imperdoável. Os mundos da rua e da decisão política, sobretudo no pico desta crise cega, mostram-se irredutíveis e não deveria ser assim. Ouvir não quer dizer ceder. Sentir com empatia a dor e a impaciência das massas não leva necessariamente à kryptonite de converter em hesitante e fraca a decisão resoluta do decisor. [Read more…]

Fabricar notícias

Olhem para mim a subscrever um texto do João Miranda

Silêncio, Comès morreu

silence

Morreu um certo Didier Herman, eternizado no mundo da BD como Didier Comès. Tendo como uma das suas referências Hugo Pratt, Comès criou histórias com a densidade e a tensão de um romance. Pessoalmente, tal como acontece com Pratt, sempre preferi lê-lo no preto-e-branco que faz justiça a um certo negrume melancólico de que as suas narrativas são feitas. Silêncio é, provavelmente, o seu álbum mais conhecido.

Queixa feita ao provedor do DN

Caro provedor,

Fui leitor e comprador do DN desde que o José Manuel Fernandes liquidou o “Público”. Até hoje. Um jornal que se permite publicar um retrato biográfico/perfil de Hugo Chávez sob o título, na versão on-line, de “Chávez: um caudillo dos tempos modernos” e, na versão  impressa, de “o caudilho do pós-guerra fria que criou a nova Venezuela”, da autoria de Albano Matos, indicia uma falta de seriedade, rigor e isenção com a qual não posso, atento o estatuto editorial do jornal, conviver. Pois uma coisa é opinar acerca da figura de Hugo Chávez ou reportar o modo como alguma opinião pública e publicada o via ou vê, outra é,  desrespeitando não só os valores jornalísticos acima referidos, como o povo que nele livremente votou e por isso a própria democracia, associá-lo a um ditador fascista que se perpetuou no poder pela subjugação violenta.

Sabendo que outros leitores do DN partilham esta opinião (atentos os comentários on-line recolhidos pela dita peça jornalística) e porque não deixarei de manter acesso a recortes de imprensa na área dos media, passando a ler o DN apenas por dever de ofício, gostaria de obter a sua opinião sobre o que entendo ser um atropelo deontológico significativo que põe em causa a integridade do jornal, visto que nos permite pensar que  outros assuntos não serão por ele tratados com a equidistância que se exige.

Grato desde já

E com os melhores cumprimentos

João Pedro Figueiredo

O verde-tinto no seu melhor

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Numa daquelas operações de grande aparato a que estamos habituados, nada faltou. As equipas de reportagem do sr. Balsemão lá estavam à porta da garagem do Campus da Justiça da República das Bananas, aguardando o início do raid e contabilizando viaturas, magistrados, polícias e acompanhantes que partiam para uma visita “surpresa” a algumas sedes bancárias.  Com a maior desfaçatez deste mundo, a pivot da SIC Notícias foi desfiando todos os passos dados desde a partida sob os holofotes da estação televisiva, até aos quinze minutos de pausa para umas baforadas de cigarro, mesmo antes da entrada nos gabinetes a vistoriar.

Que grande surpresa deve ter sido para os aflitíssimos responsáveis pela banca!

Que mau gosto!

Uma operador de telecomunicações tem uma campanha que mete alguns sites completamente a vermelho. Que coisa intragável.

PR, PM e manifestações: em que ficamos?

O Presidente Cavaco Silva

Recuperado de longa letargia, o PR veio a público e, a propósito das manifestações de Sábado passado, afirmou:

Uma síntese das palavras de Cavaco Silva:

Devemos ter todo o respeito àqueles que se manifestaram […] numa manifestação com aquela dimensão as vozes que se fizeram ouvir devem ser escutadas…

O Primeiro-Ministro Passos Coelho

Passos Coelho que garantiu não querer polémicas sobre manifestações, acabou por entrar em controvérsia com a oposição:

Reproduzimos algumas das afirmações do primeiro-ministro:

[…] Nenhum governo deve ficar indiferente a essas manifestações públicas e elas não podem deixar de ser tidas em conta,eu não governo em função desssas manifestações e desses protestos.

[Read more…]