Aventem o que quiserem: eu chamo-lhe homicídio. O que passou no Hospital de São José no passado foi puro homicídio. Não há nem podem haver desculpas.
Não existe teoria da conspiração possível para mascarar o que passou: Paulo Macedo sabia. Sabia demais. Tinha sido alertado pelo grupo parlamentar do Bloco. Tinha sido alertado pelos administradores hospitalares. Tinha sido alertado várias vezes pelas Administrações Regionais de Saúde. Não actuou. Matou. Por omissão, o que torna a situação muito mais grave. No São José, nas urgências do Garcia de Horta, no Hospital de Aveiro. Não tenho a menor dúvida quando penso que Paulo Macedo foi longe demais: a ruptura total do SNS tinha como objectivo claro fazer morrer gente para criar um fenómeno de desconfiança dos cidadãos para com o SNS. Quando o ser humano sente que um serviço nacional de saúde completamente desmembrado afecta-lhe o seu bem mais precioso e é uma máquina de criar mortandade, o ser humano pensa duas vezes. Foge. Tem medo. Vai para o privado onde sabe que, pagando, será bem atendido, será tratado na hora.
Não há nem pode haver desculpa
Cultura 2011-2015. Contributo para um balanço
Em 2011 a mudança de governo trouxe uma novidade – deixou de haver Ministério da Cultura. E então, a acreditar nos principais órgãos da comunicação social, e em muitos bem pensantes e bem falantes da denominada área cultural (ou lá o que isso é), essa medida, acabar com o Ministério e passar a Secretaria de Estado, era um indício do menosprezo que a “direita” tem em relação às matérias da cultura. A falta de rigor nessa análise não permitiu ver que também não havia Secretaria de Estado da Cultura. Tivemos assim não um Ministério da Cultura, não uma Secretaria de Estado da Cultura, mas um Secretário de Estado. O que acontecia pela primeira vez desde 1980. Adiante. Como primeiro titular da pasta, Francisco José Viegas. Sucedeu-lhe Jorge Barreto Xavier.
No caso de F.J.V. três questões marcaram o seu mandato, pela negativa. Desde logo a questão da Barragem de Foz Tua, caso em que “lavou” as mãos como se nada tivesse a ver com o caso. Relembro um célebre Relatório sobre a Barragem entregue ao Estado Português que foi escondido (divulgado em primeira mão pelo jornal Público, traduzido neste blog). [Read more…]
À responsabilidade de Paulo Macedo
Nas últimas semanas, a existir um epíteto para qualificar todas as acções do anterior governo que o novo governo está, sem surpresa alguma, a descobrir, podemos designá-lo como “cada cavadela, cada minhoca” – se o governo PS perfurar a fundo a destruição causada pelo anterior governo no país, irá decerto encontrar dezenas ou até centenas delas, cada uma, quase sempre, maior e mais turbulenta que a anterior. O exemplo do que está a acontecer no BANIF, é, somente, mais um cromo repetido na mais recente história deste país, país no qual, todos os banqueiros que afundaram o seu banco em prol da ganância, ao invés de acabarem numa prisão perto de si, acabam quase sempre por contornar a lei e sair do jogo com uma reforma choruda. O que não vale neste país ser banqueiro e gerir mal o seu banco ou desregulador. Numa e noutra profissão, mesmo que as coisas não estejam a correr bem, o Sr. Doutor nunca acaba por ser responsabilizado pelos erros que comete e o comum cidadão acaba quase sempre por pagar a factura.
Apresentação breve
Gostava de informar os leitores deste prestigiado espaço de debate que, a partir de hoje, sou autor deste espaço. Nessa perspetiva, faz sentido uma pequena apresentação. A minha atividade profissional é a de Professor Universitário. Mantenho desde sempre uma intervenção cívica muito intensa. Um pequeno resumo da minha atividade já bastante desatualizado (por falta de tempo), pode ser encontrado aqui. Um resumo ainda mais breve, mas um bocadinho mais atualizado, pode ser encontrado aqui.
A minha intervenção neste espaço será sempre afirmativa, feita pela positiva, tentando promover um franco debate de ideias e opiniões como é característica do Aventar.
A todos os meus cumprimentos.
J. Norberto Pires
O denominador comum

Para sermos mais honestos que ele teríamos que nascer duas vezes. Isso e condecorar Alberto João Jardim no dia em que o país acordou em sobressalto com mais um assalto bancário ao bolso do contribuinte, cortesia do banco que financiou o regime que enterrou a Madeira em dívida, sob a batuta daquele a quem Cavaco entregou hoje uma comenda e apelidou de patriota.
Sempre que nos deparamos com estes actos de terrorismo financeiro, que pelas contas do Diário de Notícias já custou aos contribuintes cerca de 13 mil milhões de euros desde 2007 – 7,3% do PIB, quase um ano de colecta de IVA – surge o denominador comum: Cavaco Silva. Foram os seus rapazes que arruinaram o BPN, foram vários os financiamentos de campanha que lhe chegaram do BES, o tal banco no qual os portugueses podiam confiar, e agora sabemos também que foi cúmplice no encobrir de uma fraude com a chancela de altas individualidades do seu partido. Cavaco, sempre Cavaco. Será que ainda vamos a tempo de o ver assim?
Fotomontagem via Os Truques da Imprensa Portuguesa
Ilhas do Futuro: Madeira

imagem: Arte
Devo penitenciar-me pela minha ignorância quanto à Ilha da Madeira, à qual pouco mais associo do que o patusco Alberto João Jardim, o bailinho, o vinho e o sotaque peculiar da sua gente. Qual não foi o meu espanto ao ver, enquadrado na série documental “Ilhas do Futuro” do programa franco-alemão Arte, o documentário “Madeira – A luta pela água e pela electricidade”, que apresenta a ilha como pioneira em matéria de energia renovável.
Segundo diz, aquilo com que sonham gestores de energia do mundo inteiro tornou-se realidade na ilha da Madeira: foi construído “um enorme reservatório para armazenar energia eólica, possibilitando assim a produção de energia eléctrica de origem renovável, mesmo quando não há vento. Nos próximos anos, a ilha pretende aumentar a produção de energia hídrica, eólica e solar para, já em 2020, cobrir metade do seu consumo de electricidade através de fontes de energia renováveis. Em comparação, a UE planeia, até a 2030, um aumento da produção de energia eléctrica renovável de apenas 27%.” [Read more…]
Admirável mundo novo

Na Coreia do Sul, de acordo com uma reportagem da BBC, algumas empresas propõem aos seus funcionários a simulação do seu próprio funeral. A ideia pretende ser, digamos assim, generosa: ajudar os empregados a gerir o stress provocado por uma sociedade altamente competitiva e com uma das maiores taxas de suicídio do mundo, de modo a reconciliá-los com a vida, torná-los mais equilibrados e… produtivos.
O enredo desta iniciativa assenta num ritual que tem tanto de macabro como de pueril: depois de confrontarem os voluntários com vídeos que realçam a forma positiva como certas pessoas reagem a problemas muito mais graves – pessoas com cancro terminal gozando a última réstia de vida, pessoas sem membros aprendendo a nadar… -, é-lhes pedido que redijam, perante um caixão aberto, uma carta de despedida para os seus entes queridos. Terminada a tarefa, entre soluços, prantos e outras pieguices, são convidados a entrar no féretro, que será encerrado durante 10 minutos, o suficiente para se confrontarem com o sentido da vida.
Afirma um dos adeptos do método, presidente de uma firma de – é isso mesmo – recursos humanos, que “a experiência de entrar num caixão é tão chocante que lhes pode provocar um reset às suas mentes, permitindo-lhes reconfigurar totalmente as suas atitudes”.
A entrevista de José Sócrates: Pulha ou pulhice?

Vamos por partes. Desde logo, para início de conversa, penso que quem conhece o que escrevi e escrevo no Aventar (e noutros espaços) há muitos anos certamente saberá que sou insuspeito nesta matéria. Nunca apoiei José Sócrates, fui crítico de boa parte das políticas dos seus governos e fui entusiasta da sua queda em 2011. Posto isto, vamos então falar sobre a entrevista.
Eu não faço a mínima ideia se José Sócrates é culpado ou inocente daquilo que o acusam. Não conheço o processo e, confesso, não sou leitor atento do Correio da Manhã – o que não evita tropeçar com as várias notícias e matérias produzidas pelo CM em relação a este caso em tudo quanto é blogue, programa televisivo e redes sociais. Quando este processo começou nas televisões (e começou nos directos televisivos da sua prisão) cheguei a escrever duas coisas sobre o tema: a arrepiante (negativamente falando) cobertura televisiva do processo nos primeiros dias; o meu espanto ao pensar que um Primeiro-ministro (no caso um “ex”) do meu país podia estar envolvido em semelhante e por isso ter, desde logo, demonstrado algumas reservas e considerar que se devia esperar pelo normal desenrolar do processo em vez de se começar logo a “sentenciar”.
Ontem e hoje fui um daqueles que viu a entrevista com toda a atenção possível, sem reservas mentais nem quanto ao canal nem tão pouco quanto ao jornalista (dos melhores que temos em televisão, na minha opinião). Já quanto ao entrevistado, por muito que não quisesse, existiam as reservas mentais de quem foi um opositor de boa parte das suas políticas e de quem nunca votou nele. Bem pelo contrário.
E o que vi? Vi um homem amargo, ressentido mas focado. Podemos não acreditar em nada do que ele disse? Podemos. Podemos acreditar em tudo o que ele disse? Podemos. Assim sendo, o que concluir?
Será Arnaldo Matos um ex-lacaio da CIA?

Arnaldo Matos, um revolucionário de gravatinha (foto Ana Baião).
Nos anos 70 havia fortes suspeições que o MRPP (por onde passou Durão Barroso e outros ilustres do PSD) tinha sido um partido criado pela direita com patrocínio da CIA para minar o PCP. Não sou eu que vou deslindar esse mistério, mas o que é certo é que em posteriores atos eleitorais a sigla PCTP e o símbolo do partido não pararam de roubar votos ao PCP (sou do Bloco, aviso já). Ainda nas últimas eleições, na minha mesa eleitoral, fui abordado por uma senhora com cerca de 40 anos para a ajudar a identificar o seu partido no boletim de voto. “Não consigo ver bem os símbolos”, disse-me. Acompanhei-a à saída onde estava um poster com uma réplica do boletim de voto. Vi-a passar o dedo pelo MRPP e disse “não é este”, e depois pela CDU “é este”. Esta foi a função mais relevante do MRPP na sociedade portuguesa desde que foi a votos: roubar votos ao PCP. Nunca governaram, nunca assumiram responsabilidades políticas, apenas roubaram votos ao PCP, votos estes que nunca serviram para nada a não ser a direita. Parabéns Arnaldo Matos pelos préstimos à direita. Não sei se alguma vez foste pago pela CIA (como muitos infiltrados em partidos de esquerda europeus financiados pela French Connection, essa belíssima criação da CIA), mas parece. O que escreveste no editorial da Luta Popular desta semana poderia ser um texto escrito por um órfão da CIA, ressabiado, confuso sem saber o que mais fazer para destruir a esquerda, na ressaca do fim da Guerra Fria e do fecho das torneiras que alimentavam os lacaios infiltrados nos partidos de esquerda europeus. Não sei se assim foi, mas poderia ser.
Provas de aferição e ou Exames?
O novo governo está a criar uma enorme expectativa junto da população, farta que estava de levar pancada da direita radical que nos governou nos últimos anos. Nas escolas e na educação há também um novo olhar sobre as politicas educativas, que se esperam, poderem ajudar a melhorar o sistema educativo, no seu sentido mais amplo.
Será, por isso, natural que comecem a ser conhecidas algumas novidades, como é o caso do fim dos exames do quarto ano e a sua substituição, segundo o Jornal de Notícias, pelas provas de aferição.
Ainda sem informação oficial, a notícia do JN parece responder à crítica da direita que projecta no fim dos exames uma ideia de escola facilitista.
E, sobre esta questão, importa deixar algumas notas: [Read more…]
Vandalismo ou arte?
Marco Faria
Há uma certa tentativa maldosa para deturpar factos, fazendo com que um caso que é aparentemente claro, possa, aos poucos, transformar-se numa nuvem e numa polémica. Um grupo de jovens foi “grafitar” um comboio da CP, no Apeadeiro de Águas Santas-Palmilheira, na Maia. O episódio correu mal, e deu lugar a uma tragédia. Foi há uma semana. É de lamentar a perda de vidas humanas, sempre. Mas, por favor, não queiram fazer do revisor da CP o culpado da situação. Não adianta tentar inverter os papéis. Os jovens que vandalizam com tintas as carruagens em circulação – e eu sempre pensei que o fizessem em máquinas estacionadas durante a noite – conhecem os perigos em que se envolvem. Jovens tão corajosos para pisar carris com milhares de volts mas que se puseram a milhas e apenas se entregaram no conforto de uma esquadra policial em Madrid. Em consciência, sabem que cometeram um erro. E infelizmente foi fatal para três jovens. Mas não foi o pó do extintor que provocou a tragédia, foi sim a impertinência de rapazes que se achavam no direito de pintar e de danificar propriedade alheia. O Ministério Público irá arquivar o processo, obviamente. O revisor actuou de forma equilibrada e ponderada na protecção de interesses superiores (dos passageiros e da carruagem). Se há uma lição a retirar deste caso é que somos demasiado complacentes com estes comportamentos. As autarquias disponibilizam muitas vezes espaços adequados para os “graffiters”. Tenho a noção de que penalizar meramente comportamentos transgressivos pode, na verdade, não resolver nada, mas a criminalização é apenas um sinal de que se alguma coisa correr mal, os envolvidos poderão em teoria ser responsabilizados. Os pais que perderam os filhos têm o direito a constituir-se assistentes. Todos nós temos também o dever de pedir que os tribunais comecem a sancionar estes casos, obrigando, por exemplo, os miúdos a limpar as carruagens com o seu próprio esforço e pagando do seu bolso. Tendemos socialmente a desculpabilizar o “graffiti” como uma brincadeira de miúdos, ou arte de intervenção respeitável. Até ao dia em que alguma coisa corre mal, ou quando nos chega a casa o orçamento de remoção de pirataria decorativa pintada no nosso prédio. Sai-nos do bolso, caramba. Para que casos como este não se repitam, e também para que um certo esterco fértil das redes sociais não ande por aí a virar o bico ao prego e pretenda culpar e perseguir um revisor (e a sua família) que agiu com sensatez, eu tinha de dizer isto.
Ne me quitte pas

Foi ao som de “Ne me quitte pas” de Jacques Brel que Bono Vox, ajoelhado, fez a homenagem dos U2 a Paris e encerrou a iNNOCENCE Tour.
Ver Bono ajoelhado fez-me pensar na política francesa e europeia. Está quase a fazer um ano que regressei a Paris e voltei a ver/sentir o que já tinha visto e sentido poucos anos antes. Desconforto.
Desconforto de muitos franceses, portugueses, africanos ou asiáticos que se sentiam (e sentem) “abandonados” por um conjunto de políticas internas descuidadas que os atiram para os braços da Frente Nacional, uma espécie de “lado negro” da política francesa. E as últimas eleições em França (tanto as europeias como agora as regionais) são disso testemunha.
Um Presidente diferente

Que enorme diferença. Ver Marcelo Rebelo de Sousa a ser entrevistado enquanto candidato a Presidente da República na SIC e tentar comparar com a esmagadora maioria dos nossos políticos em situações do género.
O que costumam fazer os nossos políticos quando são entrevistados em televisão? Simples, responder com a máxima ambiguidade possível e até impossível. O que fez Marcelo? Respondeu a tudo de forma clara, directa e sem “rodriguinhos”. Sem procurar agradar a Deus e ao Diabo. Sem fugir a nenhuma pergunta. Sem atacar ninguém. Limitou-se a dizer o que pensa e com bom senso. De forma séria e ao mesmo tempo descontraída. Dominando perfeitamente o meio e sabendo utilizar o modo certo. Sem artificialismos.
E arriscando. Muito. Afirmar que não vai fazer uma campanha tradicional – não aceita donativos de nenhuma espécie, só vai ter uma sede de campanha (em Lisboa), não vai colocar cartazes nem outdoors nem nada é, mesmo nestes tempos e mesmo com a notoriedade que se lhe reconhece, um enorme risco.
É um candidato diferente. Estou convencido que se vencer, como espero, será um Presidente diferente. E como Portugal precisa de um PR diferente…
Dehors les immigrants! – diz o Santos
Eu (e todos os meus amigos da escola também) tenho (e cada vez mais!) m familiar, um vizinho ou alguém próximo que emigrou para França ou já de lá voltou depois de décadas a aforrar para um futuro menos pesado. Eu, e possivelmente todos os portugueses, conheço pessoas na diáspora em quatro continentes, em latitudes distintas e múltiplos fusos horários.
Pela coragem que tiveram no momento da partida (agora já não vão num comboio de saudades) e pelas provações por que passaram, fico também reconhecido aos países que os acolheram e onde fizeram questão de se integrar.
Não tenho dúvida alguma de que Portugal seria muito mais pobre do que apenas “o país mais pobre da Europa Ocidental” (como escrevia o The Guardian há dias).
Se Paris (teremos sempre Paris, não é?) não fosse a terceira maior cidade portuguesa, se no Luxemburgo não se falasse português, assim como em Andorra ou na Alemanha, se na Califórnia, em Toronto ou Montreal, qual teria sido a miséria dos que para lá ousaram partir?
Mas, ainda que possamos achar estranho que portugueses (de segunda ou mesmo de primeira geração) a residir e trabalhar noutros países se associem a movimentos anti-imigração, a verdade é que tal acontece sobretudo a coberto de muita ignorância e alguma estupidez.
“Vêm para cá roubar os nossos empregos, baixar os salários”, dizia um… filho de um emigrante português… é por isso que é cada vez mais importantes o ensino da História nas escolas.
Por falar nisso, neste país com quase 900 anos, há um programa na tv aberta sobre História? – será por falta de tema?
(cartaz via Nuno Roby Amorim)
Lições de História
Não há dúvida que as lições de História são extremamente elucidativas. Estando eu a ajudar a minha filha a estudar para o ponto de História, que inclui o tema “colonialismo e imperialismo”, deparo-me com a seguinte citação proveniente do discurso do senador norte-americano Albert Beveridge, pronunciado em Boston, em Abril de 1898:
“As fábricas norte-americanas produzem mais do que o povo americano pode utilizar; o solo norte-americano produz mais do que podemos consumir. O destino traçou a nossa política: o comércio mundial deve ser e será nosso. E nós vamos consegui-lo, como a nossa mãe (Inglaterra) nos ensinou. Em todo o mundo, estabeleceremos sucursais comerciais como centros de distribuição dos produtos americanos. A nossa frota comercial cruzará todos os oceanos. Edificaremos uma marinha à medida da nossa grandeza. As nossas sucursais comerciais tornar-se-ão colónias, que se governarão a si próprias, içarão a nossa bandeira e farão comércio connosco. Pela via do comércio, as nossas instituições seguir-se-ão à nossa bandeira. E a lei americana, a ordem americana, a civilização americana e a bandeira americana serão içadas em territórios até então sangrentos e selvagens que, através destes instrumentos de Deus se tornarão belos e civilizados.”
Neste sentido, saudações da Monsanto!
O que no fim do século passado podia ser dito às abertas é agora enroladinho por exemplo num Tratado Transatlântico de Comércio e Investimento… Vá-se lá perceber porque é que os governos europeus estão tão entusiasmados com a ideia…

Natal, tempo de paz e muitas pistolas

É possivelmente um desvio psíquico insanável e inultrapassável o que afecta a percepção do ridículo nos Estados Unidos da América. A candidata ao Congresso Michele Fiore, há que dizê-lo, fez um postal de Natal ternurento, fofinho e carinhoso…
Entretanto, as armas caseiras mataram tanta gente nas últimas três semanas como os terroristas desde… 2001. Apanhem esses bandidos!
Práticas da Fundação Gates a propósito de Zuckerberg
Alguns dos leitores muito indignados com o meu post anterior sobre a “doação” de Zuckerberg à caridade mundial, argumentaram que a Fundação Bill & Melanda Gates tem trabalho feito na área da investigação farmacêutica, da educação de crianças no terceiro mundo, etc. Tudo isso é verdade e é positivo. Aliás, se estas fundações se limitassem a essas atividades, como dão a entender na sua propaganda, não haveria muito a apontar-lhes. O problema é que estas fundações servem em primeiro lugar para a evasão fiscal. Isto não é propriamente um detalhe quando as quantias sujeitas a imposto são a ordem das dezenas de milhares de milhões de dólares. O facto de não tocarem no capital transferido pela empresa mãe e apenas se servirem dos juros e dos dividendos da fundação para as atividades caritativas ilustra perfeitamente o grau de genuinidade da caridade. Mas o mais grave é a ética dos investimentos destas fundações em fundos e em produtos financeiros, que envolvem valores mais elevados do que a filantropia, da ordem dos milhares de milhões de dólares. É nesta questão que a reportagem acima denuncia as empresas em que investiu a Fundação Gates, como a Lockheed Martin (armamento), a Lehman Brothers (co-responsável pela crise financeira) entre outras empresas, cujas práticas produzem efeitos no terreno que são contraditórios (miséria, proliferação de armas, exploração social, doenças, etc.) com as práticas filantrópicas da Fundação.
Ler artigo de Charles Piller nos Los Angeles Times, citado nesta reportagem.
Zuckerberg doa a Zuckerberg e foge ao fisco

É impressionante a falta de sentido crítico dos nossos media na difusão da notícia da “doação” da fortuna de Zuckerberg à caridade internacional, transmitindo a ideia de um filantropo profundamente generoso, completamente desligado da volúpia do clube dos multimilionários norte-americanos, realizando um sacrifício pessoal por “um mundo melhor”.
Quando se lê com rigor a carta de Zuckerberg, percebemos que doará durante os próximos 45 anos (a doação não é imediata) 99% da sua participação na Facebook (cerca de 45 mil milhões de dólares) à fundação Chan-Zuckerberg que pertence à própria família Zuckerberg. Foi registada como uma sociedade de responsabilidade limitada, ou seja uma Chan-Zuckerberg Ltda. e não uma fundação caritativa. Este estatuto não obriga Zuckerberg a aplicar o dinheiro em ações caritativas, permitindo-lhe investir em tudo o que quiser, inclusivamente em investimentos lucrativos. Zuckerberg poderá também transferir para a fundação os lucros da sua participação na Facebook escapando aos impostos, mas ainda mais interessante é a possibilidade da sua família herdar a sua fortuna via fundação sem ser taxada.
Nada disto é novo, a fundação da família de Bill Gates funciona em moldes semelhantes e como já foi denunciado em várias peças de jornalismo de investigação, a sua atividade económica mais importante é o investimento em fundos e em produtos financeiros. A caridade é uma atividade quase de fachada financiada apenas com os juros e os dividendos da sua fortuna envolvendo quantias bem mais modestas que as transações da fundação de Gates nos mercados financeiros.
Cimeira do Clima em ano de temperatura recorde
(Publicada ontem no Esquerda.net)

Inicia-se hoje em Paris a Cimeira do Clima coordenada pelas Nações Unidas. Espera-se que desta cimeira surjam medidas decisivas para combater o aquecimento global, particularmente para impedir que a temperatura média global se eleve a 2ºC acima da temperatura média do século XX. Acima destes 2ºC aumenta consideravelmente a probabilidade de impactos irreversíveis à escala local e global, bem como o rigor das medidas a implementar para travar as alterações climáticas e para mitigar os seus efeitos. Estas importantes conclusões decorrem dos relatórios elaborados pelo Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas, o último relatório é de 2014. Estes relatórios compilam as conclusões de milhares de trabalhos científicos (teóricos, experimentais, modelos de computação, observações por satélite, etc.) realizados por centros de investigação distribuídos por todo o planeta, publicados nas revistas científicas mais relevantes e revistos pelos melhores especialistas na matéria. Foi graças a este trabalho colossal que se concluiu com mais de 85% de confiança que o aquecimento global registado tem origem na atividade humana (produção de energia, indústria, agricultura, transportes, etc.).

Duas curtas histórias sobre o valor do trabalho em Portugal
Pedro Guimarães
Um grande grupo editorial do Porto, muito conhecido pela sua dimensão económica e pela sua presença no mercado dos manuais escolares, ofereceu-me em contraproposta a orçamento uns “generosos” 50 € pelo licenciamento de imagens para uso durante seis anos nos seus manuais de 5.º e 6.º ano. Educadamente recusei, reiterando o óbvio, que em vez de esmola preferiria oferecer o uso das imagens gratuitamente, exigindo em troca da disponibilização dos manuais gratuitamente a famílias necessitadas, sendo que os livros a disponibilizar deveriam alcançar pelo menos uma fracção do valor de mercado dos direitos que estes senhores procuravam adquirir. Estamos a falar de meia dúzia de livros, ou uns poucos kgs de papel se preferirem. Troca por troca. Mas não, nada disso, esmola ou nada. [Read more…]
Marés Vivas
Viver em Vila Nova de Gaia é um privilégio.
Neste cantinho onde o Douro encontra o atlântico há gente boa, gente de trabalho, que se entrega, a cada dia, à construção de um futuro melhor para os seus. Todos os dias, desde bem cedo, há muita gente que cruza as pontes para ir trabalhar, havendo, também,cada vez mais, quem o consiga fazer do lado de cá do rio. E, toda esta gente, merece o melhor.
No entanto, os últimos acontecimentos em torno do espaço do Festival Marés Vivas mostram que no passado recente, as opções políticas em Gaia, foram tudo, menos a pensar nos Gaienses.
O Marés Vivas é uma referência no plano dos festivais de Verão, nomeadamente, pelo enquadramento que confere aos espetáculos – ali, juntinho às águas do Douro, entre a Afurada e a Reserva Natural Local do Estuário do Douro, local escolhido por imensas espécies de aves para um merecido descanso entre migrações e na época de acasalamentos. É, também por isso, um local, ambientalmente, sensível. [Read more…]
“ (…) é também o que nós somos, míseros e gigantes contra as águas”

… e com maior ou menor conforto dependendo da embarcação ou do lugar onde tivemos a sorte ou o azar de ir parar…
Por favor, não “desamigue” idiotas no Facebook
Miguel Szymanski
Por favor, não “desamigue” idiotas no Facebook.
No Facebook há cada vez mais pessoas que “desamigam” idiotas, por exemplo, pessoas, que vêem nos refugiados – refugiados, porque em fuga do terrorismo – a causa do terrorismo. Ao “desamigarmos” idiotas no Facebook damos o primeiro passo para criar um gueto de idiotas. Uma aldeia de idiotas, um facebook que é a cara chapada dos idiotas.
Idiotas que deixam de ler pessoas mais inteligentes ou mais cultas – ou, pelo menos, pessoas menos idiotas -, porque foram “desamigados”, não se tornam menos idiotas. Tornam-se mais idiotas. E nós não precisamos de mais idiotas a falar uns com os outros, para nós ficarmos a falar sozinhos, feitos idiotas.
Temos que continuar a falar com o idiota. Esse é o nosso dever. A nossa cruz. Às vezes sobre filosofia, às vezes sobre política ou futebol.
Por favor, não o “desamigue”. Adopte um idiota. Dê-lhe abrigo e flocos alimentares para o cérebro. Ele são muitos e precisam.
Teatro de fantoches

Passos e Portas consultam um batalhão de médicos que lhe confirma o diagnóstico: estão efectivamente a ser vítimas. De alucinação. Passos e Portas trocam um olhar cúmplice, gesticulam com movimentos amplos, abrem muito os olhos e saltitam duas vezes, partindo uma enorme lâmpada fundida que se formara sobre as suas cabeças. Com o susto, desatam a correr em grande algazarra e lançam-se para um lamaçal onde encontram um grupo de lesmas. Estas perguntam-lhe em uníssono: “mas, mas, mas, mas… qual é a pressa, qual é a pressa?”. Passos e Portas desenroscam e extraem as respectivas línguas, enroscando no seu lugar duas gordas e luzidias lesmas. Passos experimenta a sua, a rappar em loop: “flato lento em água mole bate mais que rock’n’roll, flato mole em água benta tanto dá que arrebenta”, enquanto Portas vai cantando, com swing: “agora não, que estou em indie gestão; agora não, que estou em indie gestão”. Nisto aparece, a arrastar-se sinuosamente, como um réptil, uma pequena banana madeirense. “É uma canção de engonhaaaaaar, tanto sono, vou dormiiiiiiiiiir, tão bela como as dentolas de uma vaquinha a sorriiiiiiiiiir”. Os médicos, que assistiram a tudo, concordam: “Meninos, afinal, a nossa Constituição é mesmo inconstitucional! Como permitiu que estes malucos sequestrassem Portugal?”. A história termina com um certo boneco do Bordalo a distribuir Pedrada e Paulada às personagens correspondentes. E aos médicos delas carenciados, folhas de beladona q.b….
“Abaixo os concertos dos Eagles of Death Metal, não é seguro ir a um concerto desses porque Deus odeia a sua música”
O refugiado Albert Einstein dizia uma vez que “duas coisas são infinitas, o universo e a estupidez humana, e não estou completamente certo acerca do universo“. E a prová-lo estão os tempos que correm e que a televisão tão bem documenta.
Nuno Markl fez uma síntese pequenina mas sintomática do que sobre uma banda de música as televisões têm dito por estes dias.

Os Eagles of Heavy Metal são”uma banda de heavy metal que pode ter sido escolhida pelos terroristas como vingança pelas torturas feitas por soldados americanos (…), fazem “versões dos Eagles em heavy metal”, são os próprios Eagles, “autora de clássicos como Hotel California e o nome da banda “significa Anjos da Morte” e são “uma banda de soul”.
Ora, se a televisão tem a virtude de estupidificar parecendo ser coisa séria, porque não pode um pastor baptista americano tentar fazer o mesmo, mas com piada? Fala assim pastor Steve Anderson a propósito de França e do atentado de há dias…
“Querem falar de uma nação pecaminosa? – isso é perverso” (da dita aprovação estatística do adultério em França).
“Sabiam que a França é frequentemente descrita como um dos paises mais gay friendly do mundo? (…) e que a maioria dos franceses apoio o casamento gay? (…) e que Paris é uma das cidades mais queer friendly? (…) e que “fazer comentários homofóbicos é ilegal em França? Este sermão seria ilegal em França!” (…)
“eles não têm a liberdade de expressão para pregar a palavra de Deus, como nós estamos a fazer hoje aqui”.
“O presidente da Câmara de Paris entre 2001 e 2014, era um sodomita declarado, Bernard Delanoë, (…) saiu do armário e daí a três anos foi eleito Mayor de Paris”, “há dúvidas de que França é uma nação pecaminosa?”, (Paris) “é uma capital sodomita, é um antro sodomita, é um holocausto de abortos todos os dias, é um sítio perverso onde o adultério é a norma, é aceitável, é maravilhoso (…), “é por isso que a França sofreu este ataque, porque eles são perversos aos olhos de Deus”, “e estão a sofrer hoje por causa dos seus pecados. Essa é a verdade!” (…) (as pessoas inocentes) “foram a um concerto perverso”, “Abaixo os concertos do Eagles of Death Metal, não é seguro ir a um concerto desses porque Deus odeia a sua música, porque a alcunha do vocalista é “o diabo”!” (…), “God bless America”.
Amen…
Guerra e paz? Educação! Mas, sem deixar de fazer a GUERRA
O silêncio das teclas tem monopolizado o meu teclado. Por mais que tente, não consigo encontrar coerência na reflexões sobre a problemática do terrorismo. Hoje, ao fazer um minuto de silêncio com os miúdos, dei por mim a desejar que eles possam ter direito a um futuro de liberdade e em segurança.
Procurei pensar no que poderia ser feito para resolver o problema. Pensei nas armas que Espanha e outras Espanhas vendem à Arábia Saudita, que depois as fornece ao DAESH.
Pensei nas vantagens estratégicas que Israel tira da instabilidade no médio oriente, algo que lhe permite manter a lógica da guerra permanente.
Pensei no petróleo necessário ao modo de vida ocidental que, dividido entre grupos de árabes, será sempre mais “controlado” do que num contexto de união de todos os povos árabes.
E até me lembrei das bestas quadradas que, nos Açores, avançaram para o ataque ao Iraque.
Mas, por agora penso que há duas coisas muito mais urgentes:
- atacar o DAESH em FORÇA e com todas as bombas que cada um de nós conseguir suportar;
- desenhar um projeto de propaganda à escala europeia que permita levar aos jovens árabes uma mensagem diferente, algo que lhes apresente um sentido para a vida, que consideram perdida. Mais escola?
E, mesmo correndo o risco deste post não ter servido para nada, pelo menos servirá para a manifestação de apoio aos Anonymous.










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