Já que de religião falamos, venha o Diabo…

Não simpatizo com Estados religiosos. Cristãos, Judeus, Árabes ou outros, plasmam na Lei a fé ou doutrina da maioria da população, sem respeitar o Direito à diferença e Liberdade dos restantes indivíduos. Foi sempre assim ao longo dos tempos…

Sobre o conflito Israelo-palestiniano, sem apoiar qualquer dos contendores, deixo o meu ponto de vista.

Israel é um Estado Judeu. Tem no mínimo o mesmo direito à existência que Estados islâmicos como Irão ou Arábia Saudita. O não reconhecimento do Direito à existência do Estado de Israel, implicaria uma intervenção da ONU no sentido de desmantelar os Estados religiosos. Todos eles, não apenas os monoteístas… Solução em que não acredito, pois significaria a perda do direito dos povos à sua autodeterminação. Não é aceitável qualquer ordem ou polícia mundial.

Os cidadãos de Israel ou de qualquer outro lugar no mundo, têm direito a viver em paz e segurança. Muitos dos que contestam o isolamento a que Israel condenou os habitantes de Gaza, já esqueceram as quase diárias explosões de criminosos bombistas suicidas a soldo de fundamentalistas, em cafés, autocarros ou praças, servindo os intentos de organizações terroristas. Os muros, passes e postos de controlo puseram fim a tal barbárie, intolerável no século XXI. A consequência foi condenar um povo à pobreza e exclusão. Muitos estão a pagar pela loucura de alguns, mas a sociedade israelita assim o exigiu, sair à rua em segurança é um Direito.

O Hamas insiste em lançar rockets sobre Israel, nunca reconheceu o Direito à existência do Estado Judaico, ao mesmo tempo que luta por estabelecer na Palestina um Estado que a existir iria praticar a Sharia. Lamento, mas por mais que custe isso não representaria qualquer avanço civilizacional, mas seguramente um retrocesso. O que por si só não absolve Israel dos crimes que diariamente pratica. Uma coisa é controlar fronteiras e defender território. Outra bem diferente é o sistema de apartheid que existe no seu interior. Porque Judeus e Palestinianos não têm exactamente os mesmos Direitos em Israel. Mesmo que ali nascidos, cidadãos honestos e trabalhadores. E disso poucos falam.

Falar em bons e maus, preto ou branco, neste conflito é um pouco difícil…

Gaza: «Muito gostam os políticos de pregar a reconciliação divina

e de rezar juntamente com o Papa, transferindo para os ombros de Deus a responsabilidade pelo estabelecimento da paz.» Alain Finkielkraut sobre o conflito israelo-árabe e o futuro dos judeus na Europa.

A justificação

Na sua selvática operação em Gaza, as tropas israelitas bombardearam, entre outros alvos civis, um hospital. Daí resultou mais um trágico cortejo de mortos e feridos. O argumento dos facínoras foi o habitual: os elementos do Hamas escondem-se entre a população, dizem. Tratando-se de um território minúsculo e de enorme densidade populacional, o argumento seria sempre inconcebível. Mas bombardear um hospital, sabendo-se exactamente o que se está a fazer – não se tratou de um erro de cálculo – é um acto que resume bem a barbaridade do que se passa no terreno. É que, mesmo que fosse verdade que havia homens do Hamas no hospital, pergunta-se: e daí !? Porque raio acham normal que isso explique o ataque? A naturalidade com que se procura justificar este gesto sanguinário mostra quão longe estamos da retórica dos “efeitos colaterais”. Agora é o puro terror arvorado em razão de estado. Com a bênção dos padrinhos

Gaza: enteados de Deus

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© Alessio Romenzi

Não podemos voar sobre a guerra da Ucrânia? voamos sobre a Síria e um bocadinho do Iraque

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Enquanto decorre a batalha de propaganda sobre quem lançou o míssil, sendo óbvio que a verdade não será apurada, caiu no esquecimento quem colocou o MH4 a servir de potencial alvo. E a Malaysia Airlines insiste nas suas rotas com um cheirinho a guerra, acreditando piamente na altitude e no conhecimento dos mísseis por ali usados.

Nem deve ser a única. Se viajar, veja bem por onde passa a sua rota. É certo que a 10000 metros não vai ver nada, mas à chegada receberá uma bonita t-shirt Eu Voei Sobre uma Guerra e não aconteceu nada:

voei sobre uma guerra

O Hollande é um krido

Depois de uma manifestação de apoio aos palestinianos ter acabado mal, andamos numa daquelas rotinas de o governo de Israel atacar a excessiva densidade populacional de Gaza diminuindo o número de vivos ali residentes, o governo do Partido Socialista Francês decidiu patrocinar a seguinte, proibindo-a.

Como não chegasse, estava tudo a decorrer ritualmente, quando a polícia de Hollande actuou:

[via reportagem do Le Monde]

Perfeito. A cruzada Helena Matos adorou, adorou, adorou.

É disto que falamos quando falamos do que sobra da Internacional Socialista. Acreditar que destes partidos pode vir decência, é um repetido logro. Quem ali ande e seja social-democrata está condenado a fugir, mais cedo que muito tarda. Valha-nos S. Pasok, e de uma forma ou outra estes partidos caminharem para seus seguidores.

Das margens do Ebro

A 18 de Julho de 1936 começou a guerra civil espanhola. Foi há 78 anos, muito pouco, afinal. Não só os crimes do franquismo nunca foram julgados, como os seus herdeiros aprovam hoje leis mordaça que punem com a prisão quem exerce o direito democrático de contestar nas ruas.

78 anos é muito pouco na história da humanidade, só um pequeno sopro, e temos aprendido que nenhum avanço pode ser tomado como definitivo, mas nas margens do Ebro, que tanto sangue viu correr, ainda ecoa o verso “pero nada pueden bombas/ donde sobra corazón”.

 

Não lêem jornais na Malaysia Airlines?

rota

Uma rota de aviação comercial que passa sobre um campo de batalha é de doidos varridos. Quem quer que tenha disparado o míssil tem muito menos responsabilidades no sucedido do que uma companhia que faz os seus passageiros correrem tal risco.

Começo a perceber como podem ter perdido o outro avião: esta gente não bate bem da bola.

Avião comercial abatido na Ucrânia?

MH17

Há pouco mais de uma hora, no leste da Ucrânia onde rebeldes pró-russos supostamente semeiam o terror financiados e equipados por Moscovo, foi abatido um avião comercial da Malaysia Airlines com 295 civis a bordo. Desconhece-se, até ao momento, quem terá sido o responsável pelo aparente atentado. Contudo, fonte do Ministério do Interior ucraniano confirmou que o avião foi abatido por um míssil disparado na região de Donetsk, um dos redutos dos separatistas. Os rebeldes pró-russos já vieram a público negar qualquer envolvimento no sucedido.

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No camarote com Putin: a história de um embargo que não existe

Putin

De um momento para o outro, talvez por obra e graça do divino Espírito Santo, deixou de se falar nesse ícone da violação dos direitos humanos que é a Rússia de Vladimir Putin. É possível que o futebol, que como sabemos tem a particularidade de ofuscar e adiar as mais variadas preocupações do ser humano, esteja por trás deste fenómeno. Até porque, como a foto em cima nos mostra, a Europa civilizada conseguiu partilhar o camarote da Dilma com o perigoso ditador soviético. Apesar da Rússia se ter ficado pela fase de grupos do Mundial, Putin foi convidado de honra na tribuna VIP para a final do Maracanã. Não se viu por lá Cavaco Silva.

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À Bastilha

A Revolução Francesa deixou-nos duas prendas: o capitalismo, ao arrasar o Antigo Regime e abrir portas e janelas à burguesia e seus negócios, e  luta pela liberdade e igualdade, que o capitalismo se vai esforçando por impedir.

Carmagnole, uma letra de guerra escrita em 1792 sobre uma dança vinda de Itália, aqui em recriação.

Porto, Cidade das Liberdades

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Fonte.

Tenho Alguma Vergonha da Humanidade

Tenho alguma vergonha da Humanidade, confesso.
Tenho alguma vergonha da Humanidade e sinto mesmo algum cansaço de andar há toda uma vida a ouvir falar da “faixa de Gaza”, a que já a mais nada consigo comparar que a um ghetto, a um campo de morte, a uma câmara de gás, a uma vala comum, a uma pouca-vergonha que nos coloca, a nós – Humanidade – no canto mais escuro e sombrio da sala da iniquidade.

Tenho alguma vergonha da Humanidade, confesso.

Oração

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Não acreditando na tua existência pode parecer um abuso, mas na forma como os homens te criaram, infinitamente bom e misericordioso, escutarás o pedido de um descrente da tua existência como se fosse a de um devoto, sei.

Agora que antes da final um dos teus papas já ganhou a copa e demonstrado de vez não seres brasileiro, garantindo tratamento igual para todos os povos, podias pensar num deles, teu crente, numa parte do planeta onde ainda tens teocracias, que está a levar com os maluquinhos de outro povo, igualmente teu crente, a matar pessoas todos os dias, e a malta já nem repara, nem dá importância, bombardeamentos em Gaza mal é notícia.

Mas devia ser; tal como judeus e ciganos no século passado foram amuralhados antes do extermínio final, agora temos os palestinianos, mais pós-moderno mas o mesmo gueto, os muros, o mesmo apartheid, mas com muito mais dinheiro espalhado pelo mundo para comprar a tolerância com o invasor, a propaganda, para adquirir o silêncio dos mortos.

Também podia dizer umas coisas sobre essa insistência em deixares os teus fanáticos divididos em religiões que se isarael-ó-palestinizam umas às outras, um pouco por toda a parte, mas era abuso, um ateu conhece os limites, fico, caro Deus, por Gaza. Obrigado.

imagem: Prisioneiros ciganos no campo de Belzec, Polónia, 1940.

O jornalista alemão Harald Schumann

veio a Portugal filmar a nossa miséria pós-troika e entrevistar pessoas para o seu novo documentário. O governo não aceitou falar com ele. Em Outubro passado o Aventar legendou o seu «Quando a Europa salva os bancos quem é que paga?».

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Jornalismo, socialismo, capitalismo [França]

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O jornal francês Libération também procura o modelo de negócio do jornalismo do futuro, se possível sem ter de abrir um restaurante ao lado da redacção. Entretanto, o director nomeado pelos novos accionistas (mas os assalariados poderão recusá-lo com mais de 66% de votos contra) aposta tudo no digital, na redução de jornalistas e em mais trabalho para os que ficam. «Para combater o liberalismo», afirmou ontem perante a redacção inteira reunida e «fazer do Libération o jornal de todas as esquerdas» (à imagem do que François Hollande também dizia, na campanha eleitoral para a presidência que ganhou, e a que aliás o Libération prestou vergonhosa vassalagem). Sente-se a desconfiança dos jornalistas no olhar da maioria, cheira-se o medo: o medo de ir parar ao matadouro de fazer desempregados, em muitos casos para o resto da vida.

E nada de tudo o mais que disse Laurent Joffrin (para quem esta nomeação poderá constituir um regresso ao jornal onde se fez jornalista e cuja redacção já dirigiu) parece minimamente relevante, apesar de sê-lo: o combate pela recuperação da credibilidade do jornalismo, numa sociedade que, tal como a nossa, o vê com os maus olhos de quem o sabe minado por toda a sorte de compromissos anti-jornalísticos: com os poderes políticos e financeiros, com os interesses de classes particulares, com a mediocridade que incessantemente vemos espelhada num jornalismo preguiçoso e indigno de sociedades supostamente civilizadas e democráticas. [Read more...]

É uma injustiça

filipe vi
Por muito menos do que isto o Pepe levou vermelho directo.

Esquerda ou Direita?

Onde se fala de Socialismo, Nazismo, Fascismo. Excelente artigo que recomendo a algumas pessoas que escrevem ou comentam por aqui. A ver se aprendem ao menos a evitar colar rótulos a terceiros, apenas porque sim…

Passos Coelho é um perigo para a democracia

Leio com incredulidade as reacções do PSD, do CDS e de Passos Coelho, em particular, face ao chumbo do TC. Um pensamento que se ia formulando materializou-se agora com estas declarações:

«Como é que uma sociedade com transparência e maturidade democrática pode conferir tamanhos poderes a alguém que não foi escrutinado democraticamente», questionou Pedro Passos Coelho, apontando para o caso dos Estados Unidos da América em que os juízes «escolhidos para este efeito têm um escrutínio extremamente exigente», disse. «Não temos sido tão exigentes quanto deveríamos ter sido» [TSF]

Toda a estratégia de legislar para além da lei, primeiro evocando uma situação de emergência e transitória, depois tornando-a definitiva e, por fim, mostrando-se surpreendido com as decisões de ilegalidade das suas medidas, em vez de aceitar que pisou e ultrapassou o risco, mostra que Passos Coelho é o maior perigo que temos neste país ainda democrático. Não se trata de uma voz mas de um coro a carpir por não poder legislar fora do nosso quadro legal. [Read more...]

Compreendem agora os resultados das europeias?

1. Pouca vergonha. Sim, é o termo correcto. Uma pouca vergonha. Quem? Os partidos do centro. Desde a luta fracticida (literalmente pelo poder) de Costa e Seguro no Partido Socialista Português, passando pelos sucessivos escândalos que tem sido revelados publicamente nas últimas semanas no seio do UMP francês, pelo Hollandismo bacoco, degradante e tremendamente impopular, ou pelo tugúrio vazio de ideias que os Partidos de centro-esquerda europeu estão neste momento a passar. Salve-se Rubalcaba em Espanha e Matteo Renzi em Itália. Reconhecendo o total falhanço da sua liderança, decidiu demitir após mais uma derrota eleitoral do PSOE Espanhol nas europeias.

2. De Costa e Seguro. Não demorou quem, na imprensa, tratasse de publicar peças jornalísticas sobre as várias lutas travadas entre Seguro e Costa durante 30 anos na Juventude Socialista e no Partido Socialista. [Read more...]

A menina do papá e o filho da mãe

José Xavier Ezequiel

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A rapaziada de esquerda entrou em pânico com os resultados eleitorais das Europeias no Reino (dito) Unido e ‘na’ França.

O que sucedeu no ‘reyno de sua majestade’ não interessa para nada. No que diz respeito à questão Europeia, quero eu dizer. Qual lady Godiva, sempre esteve com um pé no estribo e o outro arreado. Só o facto de não ter aderido ao Euro, diz tudo. No fundo, nada de novo. Já Churchill afirmava — “Nós estamos com eles, mas não somos como eles”.

No entanto, o que se passa em França conta. E muito. Já que mais não seja porque, juntamente com a Alemanha, foi um dos dois grandes países fundadores da hoje União Europeia. Se ainda se lembram, durante décadas falava-se do eixo Paris-Bona. Agora, infelizmente, resta o eixo Berlim-Berlim. [Read more...]

Ai!

Os vários canais de televisão estão embevecidos com estas histórias de princesas e princeses. Ai que magnânimo e sábio que foi o rei! Ai que jovem tão aprumado e educado que é Filipe! Ai a anorexia de Letícia! Ai que bondoso foi o príncipe que casou com uma plebeia! Ai o partido socialista espanhol que é republicano mas jurou defender para sempre a monarquia! Ai que os malandros dos republicanos, que não percebem nada disto e não sabem nada de amores românticos, andam na rua a exigir um referendo! Aiii!!

Onde para o socialismo? Para onde vai o PS?

juan carlos

© Pedro Armestre/AFP (http://bit.ly/1hR4b82)

Hoje, antes da notícia do dia, li o artigo Onde pára o socialismo, e para onde vai o PS?, de Elísio Estanque.

Elísio Estanque escreve “exceção” (sim, com aspas). Elísio Estanque escreve atual. Elísio Estanque escreve atualização. Elísio Estanque escreve projeto. Elísio Estanque escreve espetáculo. Elísio Estanque escreve direção. Elísio Estanque escreve ruturas. Elísio Estanque escreve efetiva. Elísio Estanque escreve pára. Elísio Estanque escreve pára? Sim, Elísio Estanque escreve pára. Elísio Estanque adopta o Acordo Ortográfico de 1990? Elísio Estanque escreve pára. Elísio Estanque escreve “onde para o Socialismo”? Não. Elísio Estanque escreve “onde para a ousadia”? Também não. Elísio Estanque escreve “onde para a social-democracia”? Ver respostas anteriores.

Elísio Estanque, onde pára o Acordo Ortográfico?

Post scriptum: Juan Carlos não abdicou. Juan Carlos anunciou que pretendia abdicar.

Juan Carlos não abdica daquilo para que não foi eleito

franco juan carlos

Não há regime mais abjecto que o monárquico. Defender a entrega da chefia do estado a alguém apenas porque é filho de outro alguém, que por sua vez ali estaria por vontade divina, é em tudo contrário aos mais elementares princípios de uma civilização moderna.

Claro que umas monarquias, como a norte-coreana, são ainda mais repugnantes que outras, e é verdade que sob a tutela de um rei pode existir alguma liberdade e democracia, mas estarão sempre incompletas, falta-lhes o elementar princípio de que todos os homens nascem livres e iguais, em direitos e deveres.

O que se passa hoje na nossa vizinhança, onde um nacionalismo doentio tem como símbolo máximo da sua unidade um rei que jurou fidelidade a um assassino, Juan Carlos, o Bourbon herdeiro de um regime fundado por golpistas criminosos que derrubaram uma República referendada, “abdica” em favor de quem não vai a votos, mas é seu filho. Uma monarquia esbanjadora nos gastos, baseada numa montagem mediática chamada 23F, tenta a sua continuação. Há que referendá-la, por muito que isso custe aos vendedores de revistas cor-de-rosa.

Retrato de um mundo de desigualdade extrema

Raoul Vaneigem

«Como pudemos chegar a esta fúria económica que remete o planeta para a avidez financeira, não tolerando rasto de vida que não mereça ser sacrificado no altar do lucro, pilhando os recursos humanos, animais, vegetais e minerais, com uma raiva lucrativa que é a própria essência do niilismo e do terrorismo?

O poder do dinheiro e o dinheiro do poder sempre foram inseparáveis. A loucura do dinheiro e do poder desenfreado caminham lado a lado, fustigados pela avidez ascética e pelos prazeres reduzidos aos dejectos da carência afectiva. No seu rasto, o dinheiro sempre atraiu o sangue, a corrupção, a violência. Os privilégios exorbitantes que lhes são doravante consentidos, acrescentam o ridículo ao odioso.

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História infantil ou o “Euro-Não Euro” explicado às crianças

(plateia infantil atenta; o contador começa)

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Era uma vez um avião muuuiiito bonito chamado Euro. Nesse avião iam, em passeio, meninos e meninas de todos os partidos, embora alguns gostassem mais do avião que outros. Tinham sido as suas famílias a fretá-lo – embora, valha a verdade, todos tivessem sido obrigados a pagar. Iam muuuuiiiito contentes, embora não soubessem ao certo o programa da viagem. De repente – horror! – o avião pegou fogo! “Não tenham medo”, diziam os meninos que gostavam muito do avião, entre os quais os que vestiam bonitas camisas laranja e cor de rosa tinham visível ascendente sobre a maioria dos outros. “Os nossos pais garantiram-nos que é seguro e muito bom. Vamos ficar aqui sossegados que tudo se resolverá, o fogo apagar-se-á.”

“Não!”- gritaram alguns pequenos de camisas sortidas e de cores mais ou menos indistintas. “Antes queremos morrer da queda que queimados! – gritavam, fazendo menção de se dirigir para a porta. Entretanto, um puto de conspícua camisa vermelha foi-se dirigindo para o fundo da cabina. “Onde vais, ó comuna?”- perguntou-lhe um dos garotos. “Vou ali ao fundo providenciar, à cautela, um para-quedas. E, já agora, um extintor…”.
E assim, meninas e meninos, acaba a nossa história, disse o contador. Perceberam? Siiiiiim – responderam as crianças. Para os seus botões, o contador sussurrava: se estes percebem, porque diabo não percebem os crescidos?

Admirável mundo velho

competitivos

Jorge Almeida Fernandes disserta hoje no Público sobre o populismo do Podemos, o novo partido que em poucos meses escavacou o bipartidarismo espanhol. Entendem estas almas plácidas e serenas que está tudo bem como está e não poderia estar melhor, criticando todos os movimentos que dão voz precisamente ao que estão fartos de que isto fique sempre na mesma.

O conservadorismo é um ideologia muito meiga, querida e terna. O conservador não quer mudanças porque o conservador está bem como está, embora eventualmente possa ficar melhor se tiver acesso ainda mais simplificado a um paraíso fiscal. O conservador é normalmente de direita, mas numa Internacional dita Socialista qualquer até se diz de esquerda, mas da responsável. Responsável por termos chegado a este ponto, após décadas de terceira via, a tal que acha inevitável ser tão liberal como uma Thatcher, e que para gáudio do mesmo Jorge Almeida Fernandes agora enterra as ruínas da esquerda italiana. Responsável pelo aumento da desigualdade e pela liberdade de os mercados financeiros assaltarem à mão desarmada todos os povos e todos os direitos que conquistaram. [Read more...]

Casa roubada, trancas à porta

EUR

Esmiuçados os resultados das eleições europeias e constatado o crescimento exponencial dos partidos eurocépticos, vários líderes do pote burocrata europeu correram a alertar para o perigo que tal representa para o projecto europeu. Destacadas personalidades como Angela Merkel, Durão Barroso, Jeroen Djisselbloem, David Cameron ou François Hollande, vieram imediatamente a terreiro falar no problema do emprego e no seu compromisso para o combater. Não sei o que será mais idiota: se esta lógica de “casa roubada, trancas à porta“, se o simples facto de só se terem lembrado desse problema quando sentiram a sua posição ameaçada pelos radicais democraticamente eleitos.

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O Presidente da C.E.

Ângela Merkel estava preocupada. Aquela ideia de incluir na nomeação do presidente da Comissão Europeia a consideração dos resultados eleitorais do Parlamento Europeu nunca lhe agradara. E quando viu os candidatos, pior ainda. Começando no gá-gá luxemburguês até ao vermelho grego, passando por uma ecologista e o seu próprio rival interno, aquilo não augurava nada de bom. E agora, perante os resultados, como fazer? Estava nestas elucubrações quando recebeu como que uma revelação! Na verdade, embora os resultados dos vários candidatos fossem expressivamente diferentes, nenhum tinha tido verdadeira maioria, isto é, face ao parlamento, cada um deles tinha menos votos que todos os outros juntos. Só havia uma solução: legitimar um escolhido por uma bênção do alto e, já que as igrejas ficam muito caras e Ângela não sabia como falar com Deus, como faziam os antigos, só lhe restava ungir o escolhido com uma bênção mágica, como a que Merlin tinha brindado Artur, por exemplo. Então, ocorreu-lhe que o seu próprio nome tinha algo de celestial: Ângela! Quer dizer: Anja (lamento incomodar os eruditos que discutem o sexo dos anjos, mas esta é mesmo feminina). Ela própria podia, pois, outorgar a bênção legitimadora. Escolheu um nome que lhe agradava – nenhum dos candidatos, claro – e lá foi ela para a reunião do Conselho Europeu, rosnando “Eles vão ver, eles vão ver…”.

sem surpresas (mas com um certo ar de alarme)

pela primeira vez desde que tenho consciência cívica e política (desde os meus 11\12 anos) decidi não assistir a uma noite eleitoral. deixei o professor marcelo a pregar aos incautos, o dr. karamba marques mendes a adivinhar o número exacto dos próximos cortes orçamentais, a Judite de Sousa (sem ou com Montenegro; com ou sem equívoco na pessoa) num saco do Pingo Doce e a televisão desligada de forma a poupar energia e pagar menos à China Three Gorges. encontrei-me com a minha princesinha AMF e fomos ao cinema ver Grace of Monaco de Olivier Dahan. apesar da história ser batida, o filme de Dahan acaba por ser bastante interesse e, no plano técnico, é simplesmente fantástico. desde os planos à direcção das cenas, passando pelo límpido som de voz nos diálogos entre personagens.

a campanha foi degredante. do surfer rosa (bem que queria ir ver os pixies para a semana ao primavera sound mas mas todo o argent é escasso nos dias que correm) nos currículos escolares aos vírus despesistas. de reminiscências do holocausto que não foi vivido em verso à governação socratina. Até o filósofo (cientista política, teorético político) teve que se meter na querela e vir a público lavar roupa suja. Sócrates himself, teve ali uns 7 orgasmos seguidos durante os 3 episódios em que pode comentar a campanha. discutiu-se tudo excepto política europeia. discutiu-se tudo excepto os problemas que neste momento precisam de ser resolvidos na europa bem como os que estão a rebentar. como a deflação. o partido socialista ainda tentou lançar a discussão sobre a mutualização da dívida na fórmula desusada de eurobonds mas… com tamanha babugem estavam à espera que a malta andasse informada e estivesse minimamente ciente dos projectos europeus defendidos pelos candidatos?

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