A participação de Passos Coelho na campanha prejudicou ou beneficiou o PSD?
Problema de expressão: Open Conventos
Devia ser como no cinema
A língua inglesa fica sempre bem
E nunca atraiçoa ninguémCarlos Tê
Há uns tempos, escrevi sobre o Pordata Kids. Recentemente, descobri que uma outra iniciativa igualmente meritória foi baptizada e lançada no mundo com o nome Open Conventos.
Se o objectivo é chamar o turista estrangeiro, o que está ali a fazer, desavergonhada, uma palavra portuguesa? Se o alvo é o português, para quê uma palavra inglesa? “Conventos abertos” ou “Abrir os conventos” ou “Conventos desconhecidos” seriam disparates? Tu, leitor, sentir-te-ias menos cosmopolita e, ao mesmo tempo, menos português?
Enquanto se conhece o magnífico património arquitectónico, por que razão se desconsidera o linguístico? Será que somos tão saloios que não podemos participar em iniciativas anunciadas exclusivamente em português? Em vez de uma expressão que não está em nenhuma língua, não seria melhor publicar um anúncio com a mesma expressão em duas línguas, apelando ao indígena e chamando o estrangeiro?
Não sei, talvez já não seja o timing certo para fazer estas perguntas. Fico a aguardar o vosso feedback.
Ensinar ou preparar para os exames?
João Costa é secretário de Estado da Educação desde 26 de Novembro de 2015. Está, portanto, prestes a perfazer uma legislatura.
A equipa de que faz parte acabou com os exames nacionais de quarto e de sexto ano, inventando umas provas de aferição inúteis no quinto e no oitavo. Os argumentos para acabar com os primeiros foram tão profundos como os de Nuno Crato para os manter ou impor; as razões para justificar a criação das provas de aferição são igualmente inexistentes.
João Costa, aliás, como muitos que passaram pelo Ministério da Educação, tem funções tão decorativas que acaba por se dedicar a inutilidades folclóricas. Sendo o ideólogo de serviço, limitou-se a impor ideias vagas acerca da flexibilidade e da inclusão, o ai-jesus de muitas sessões de formação, a fazer lembrar o entusiasmo dos pregadores e pastores de seitas religiosas.
Recentemente, João Costa declarou que “as escolas devem preocupar-se em ensinar em vez de se inquietarem com a preparação dos alunos para os exames nacionais, argumentando que desta forma os estudantes terão melhores resultados académicos.”
Em primeiro lugar, os exames existem e têm uma importância enorme no percurso que leva os alunos a entrar no Ensino Superior. Se um professor se preocupar com os alunos, deve, portanto, preocupar-se com a preparação para o exame, o que não é incompatível, imagine-se!, com ensinar. [Read more…]
“A verdade e nada mais que a verdade”
Comentários ao Manifesto – Pela Verdade dos Factos e à vergonhosa decisão do Parlamento no Educare.pt. Num país em que o poder político é inimigo dos professores e da Escola.
Mais depressa se apanha um Centeno que um coxo
Mais festa no Aventar: Pedro Correia ganha o prémio UCCLA
No ano em que o Aventar festeja 10 anos de vida, o nosso A. Pedro Correia desengavetou os seus escritos, concorreu ao prémio UCCLA e ganhou. Nada que nos surpreenda, mas que nos deixa naturalmente orgulhosos.
Praças é o título do livro. Será apresentado na Feira do Livro de Lisboa e será vendido nas livrarias FNAC e com o jornal Público.
Deixo mais abaixo a opinião de quem pôde e soube ler estes escritos. É o Pedro Medina Ribeiro, também escritor e que, ainda há pouco, nos deu a honra de um texto comemorativo dos 10 anos cá de casa. Tomai e lede:
Há um par de anos li um grande livro. Ao prazer que retirei da leitura acrescentaram-se outros prazeres.
Em primeiro lugar, tinha sido escrito por um amigo e senti um orgulho enorme naquele amigo que escrevia tão bem.
Em segundo lugar, era prosa inédita. Não é muito bonito dizer isto, mas senti uma ponta de vaidade por ser detentor de conhecimento privilegiado: eu era das poucas pessoas que sabia que, um dia, aquelas folhas viriam a ser publicadas e lidas com o entusiasmo que merecem.
O A. Pedro Correia anunciou ontem que este seu livro ganhou, entre quase oito centenas de manuscritos, o prémio União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa.
E eu fico muito feliz.
O princípio da igualdade como treta
O modo como a luta dos professores é comentada por uma mole de gente muito, pouco ou nada encartada merece algumas notas, mesmo se a distinção entre os vários tipos é difícil, tal é a ignorância, tantos são os preconceitos: no fundo, o que separa os encartados dos outros é o facto de que os primeiros são pagos para serem igualmente ignorantes.
Manuel Carvalho, o director do Público, regozijava-se, há pouco, na pele de comentador televisivo, com os recuos do PSD e do CDS no âmbito da recuperação do tempo de serviço dos professores. E regozijava-se porque a aceitação das reivindicações dos professores criaria desigualdades relativamente a outros trabalhadores, mesmo dentro da Função Pública.
Outros, diplomados em redes sociais, tão licenciados como Sócrates ou Relvas, acusam os professores de só se preocuparem com os problemas da sua própria classe, reclamando aquilo a que outros não têm direito, insensíveis diante dos dramas alheios. Esta reacção (porque não podemos chamar-lhe pensamento) estende-se a qualquer classe profissional que, de algum modo, proteste ou faça greve.
Vou confidenciar-vos algo da minha vida privada: já sofri várias entorses no mesmo pé. Peço antecipadamente perdão pelo meu egoísmo, pela minha insensibilidade, mas, naqueles momentos, estava tão concentrado na minha dor que não conseguia pensar, por exemplo, numa pessoa que tivesse partido as duas pernas. Mais: confesso que não pensava sequer em pensar. [Read more…]
Intoxicação: contra os professores

No Correio da Manhã de hoje, a manchete era aquilo que se vê mais acima. O valor do salário mensal indicado a vermelho é o ilíquido, ou seja, há uma parte daquele valor que não serve para ir às compras ou para pagar uma renda, entre outras actividades lícitas e necessárias. Não sou muito dado a teorias da conspiração, mas qual é o leitor incauto que não pensará que aquele é o valor líquido que 22 mil professores milionários irão receber já a partir de Dezembro de 2021.
O Expresso, citando o Correio da Manhã, anuncia que esse valor será alcançado graças à “contagem de 70% do tempo de serviço”. Os professores perderam quase cerca de 9 anos de tempo de serviço e recuperarão pouco mais do que dois anos. É só fazer as contas e, sobretudo, ler o Decreto-Lei.
O valor noticioso de algo que pode vir a acontecer daqui a dois anos é extraordinário e serve apenas para confirmar que os media estão ao serviço da manipulação da opinião pública. Retiro do facebook do Maurício Brito a análise que se segue. Lapidar. A hiperligação inserida no texto é da minha responsabilidade. [Read more…]
Sem contacto com a ortografia


Em dois dias seguidos (18 e 19 de Abril de 2019 – série Sem Medo), na RTP2, pudemos ler, nas legendas, os espécimes realçados nas duas imagens acima publicadas. Repito: RTP2, Portugal. [Read more…]
Carlos Costa, o super-herói do Banco de Portugal
Carlos Costa, governador do Banco de Portugal, declarou que fazia “figura de corpo presente” nas reuniões do conselho de crédito da Caixa Geral de Depósitos. Parece que só lá ia porque era preciso assegurar o número de administradores necessários para que as decisões fossem tomadas, a fazer lembrar o miúdo que era recrutado para um jogo de futebol porque faltava um para ficarmos iguais. Os que hesitavam, dizendo que jogavam pouco, acabavam por ficar à baliza, porque sempre era melhor, pelo menos atrapalhava.
Algumas pessoas ficaram escandalizadas com esta confissão, mas a verdade é que Carlos Costa não pode ser acusado de incoerência, porque continua a fazer a mesma figura como Governador de Banco de Portugal. Também aqui, ninguém poderá acusá-lo de ter tomado verdadeiramente alguma decisão.
Carlos Costa não só poderá continuar a exercer funções, perdoe-se-me a contradição, após a reforma como poderá fazê-lo depois da morte, tendo em conta as modernas técnicas de mumificação. Se houvesse necessidade de prova, as constantes intervenções de Cavaco Silva seriam suficientes. Carlos Costa, tendo em conta que os mortos não se cansam, poderá acumular vários cargos, já que, para efeitos práticos, fazer-se de morto ou estar morto é o mesmo.
Apesar de alegadamente vivo, Carlos Costa poderá, de qualquer modo, acumular a governação, por assim dizer, do Banco de Portugal com um lugar no Madame Tussauds. Um leitor mais ansioso poderá perguntar “Mas em que secção?” É evidente: na dos super-heróis. Carlos Costa será o Homem Visível, aquele que tem o superpoder de ser visto em reuniões, a que junta, ainda, a capacidade extra-sensorial da amnésia.
Entretanto, o departamento de merchandising do Banco de Portugal, já está a preparar uma novidade: os clientes poderão passar a comprar miniaturas de Carlos Costa, que passará a ser vendido como o primeiro boneco de inacção do planeta.
Quanto custa a recuperação do tempo de serviço dos professores?
Em Julho de 2018, os sindicatos e uma grande quantidade de professores resolveram que era preciso trair a luta pela recuperação do tempo de serviço sonegado à classe docente, porque havia férias e porque as negociações seriam retomadas num Setembro que traria uma vitória quase certa e bronzeada.
Foi o que se viu. O governo insistiu em pagar uma parte da dívida que tem para com os professores, fingindo que está a ser generoso.
Na altura da traição, governo e sindicatos concordaram em criar uma comissão para saber quanto custaria recuperar o tempo de serviço docente. Apesar de não haver, até hoje (e para sempre), conclusões, o governo tem continuado a propagar a ideia de que isso implicaria um custo de 600 milhões de euros, com os sindicatos a fazer algum barulho para que não se note o silêncio.
Finalmente, um grupo de professores resolveu fazer o trabalho que o governo, os partidos e os sindicatos não quiseram fazer, facto que, finalmente, teve alguma repercussão nos jornais e na blogosfera. Ficam aqui algumas ligações, caso alguém queira informar-se. Para os mais preguiçosos, fica já um spoiler: o custo é bastante inferior ao anunciado por António Costa. Mais: mesmo que não fosse, as dívidas são para se pagar.
Louve-se o trabalho desenvolvido pelo Maurício Brito e pelo Paulo Guinote.
Revista Sábado – Quanto custa compensar 100 mil professores pelos 9 anos de serviço?
Correio da Manhã – Tempo de serviço dos professores custa 320 milhões de euros por ano
Contas a sério – Maurício Brito
Sempre soubemos que o valor é apenas um pretexto – este texto é mais uma análise lúcida do Paulo Guinote e inclui, no final, um print screen de uma polémica entre o Maurício Brito e o Camilo Lourenço no facebook. Aqui, no Aventar, alguns autores já têm escrito sobre Camilo Lourenço, pelas piores razões, as únicas para se escrever sobre a triste figura.
Leite, tabaco e droga: o triângulo do Inferno
Luís Cabral da Silva, especialista em transportes, lacticínios e estupefacientes, explicou, por assim dizer, que, com a baixa dos preços dos passes, as pessoas mais necessitadas poderão comprar leite, tabaco e, já agora, droga.
O pobrezinho, como se sabe, só está como está porque quer, porque o mundo está cheio de oportunidades, assim ele quisesse trabalhar. O pobrezinho, na realidade, é só um parasita que anda a ser sustentado com o dinheiro dos impostos das pessoas que trabalham. Com esse dinheiro, que não ganhou, na melhor das hipóteses, o pobrezinho irá comprar, como se sabe, um pacote de leite, um maço de tabaco e um saquinho de erva. Sabonete não precisa, porque o pobrezinho é naturalmente porco e, se cheirasse bem, já não era pobrezinho. [Read more…]
Vede a unificação ortográfica e pasmai!

O chamado acordo ortográfico (AO90) foi criado para uniformizar a ortografia lusófona e para acabar com uns alegados desentendimentos gráficos entre falantes intercontinentais da língua lusa e dar início a um universo editorial cheio de edições únicas do Minho a Timor. Escolheu-se o chamado “critério fonético”, o que garantiu, logo à partida, a impossibilidade de criar uma ortografia única. A incúria e a falta de rigor juntaram a essa impossibilidade a possibilidade de, dentro do mesmo país, poder passar a escrever-se “expectativas” e “expetativas”, em nome do estranho critério acima referido.
Os defensores do AO90, diante do caos, dizem que não era bem uniformizar, era só aproximar ainda mais, o que levou a que nascessem diferenças outrora inexistentes, como “receção” e “recepção”. [Read more…]
Rui Pinto, vilão ou herói?
As minhas costelas benfiquistas poderão levar a que leitores mais apressados vejam nesta minha breve opinião a defesa de um clube. Apesar de saber que isso vai ser ignorado, desejo deixar claro que sou adepto do Benfica durante os 90 minutos que dura um jogo, que não encontro nenhuma superioridade moral no meu clube, que não me espantaria que houvesse ou que haja muitos esquemas mafiosos associados directa ou indirectamente ao Benfica, o que quiserem, assim fique provado em tribunal, mesmo sabendo que pode haver uma grande distância entre tribunais e Justiça.
Ora, parafraseando Churchill, a propósito da democracia, é forçoso reconhecer que o nosso sistema de Justiça é o pior que há, à excepção de todos os outros. Por isso, enquanto Luís Filipe Vieira, o Benfica ou o diabo a quatro não forem condenados, serão inocentes, por muito que nos custe.
Rui Pinto, para quem não gosta de futebol ou para quem não gosta do Benfica, dois sentimentos respeitáveis e compreensíveis, é um herói. Se da sua actividade resultar a condenação de criminosos, óptimo, independentemente da cor clubística, partidária ou da roupa interior. [Read more…]
Educação ou o campo de minas
No que se refere à Educação, esquerda e direita não têm pensamentos, têm tiques e reacções. O ideólogo de serviço, neste momento, é João Costa. Atacado por um vago esquerdismo que aparenta pensar nos mais desfavorecidos, já glosou a habitual treta da escola que deve preparar para a vida, apareceu, ainda, a combater a “acumulação de saberes” e inventou a Cidadania e Nova Inclusão.
A reflexão sobre a cidadania sempre foi inevitavelmente transversal, porque qualquer área do saber a implica. João Costa, no entanto, como todos os que desprezam os professores e as escolas, sentiu que era necessário impor uma disciplina, ao mesmo tempo que desvaloriza os saberes, especialmente os ligados às Humanidades. Por causa de mais uma criação desnecessária, as disciplinas de História e de Geografia estão a perder horas em algumas escolas. Não sei como é que a acumulação de ignorância e e o cultivo de generalidades formam cidadãos.
Cada vez mais, no entanto, dou por mim a pensar que a culpa, em parte, é dos professores e das escolas, que aderem entusiasmados às modas que equipas ministeriais vão impondo aos sabores das mudanças eleitorais, sempre de acordo com tiques e convencidos de que tiveram ideias brilhantes. Deus nos livre de quem se julga brilhante!
Ferraz da Costa com a barriga encostada ao balcão
Nos cafés e nas tascas, os amigos reúnem-se, bebem uns copos e, de uma penada, resolvem todos os problemas do mundo com base em nada. É a informação que não passa cá para fora, mas eu tenho um primo que, é o eu sei que os funcionários públicos são quase todos tarados sexuais porque conheço um que, é um estudo publicado no facebook que diz que, é o a mim não me enganam que eu não ando aqui a ver passar os navios.
Daqui virá pouco mal ao mundo, porque os disparates que dizemos entre amigos morrem no café ou na tasca e esfumam-se mal desencostamos a barriga do balcão, ficando a camisa cheia de nódoas e de falsos argumentos. Um pouco de alienação, no entanto, não faz mal a ninguém.
Ferraz da Costa deu uma entrevista. Mesmo perfumado e sentado num sofá dos mais caros, debitou um discurso tão vácuo como o dos nossos amigos ébrios que explicam tudo, que isto é muito simples.
Diz o alegre conviva o seguinte:
Não estou a dizer que os salários devem ser altos ou baixos. Acho que para muitas pessoas até são mais altos do que deviam, pois não deviam ser tão altos para os que apresentam maior absentismo ou para os que não se importam com o que se passa ou para os que ficaram em casa.
Zero à esquerda e à direita
Com um raciocínio maquiavélico, Marcelo pergunta aos professores se dois é mais do que zero. A questão não é assim tão simples, como poderá saber quem queira saber (lendo, por exemplo, um texto do Paulo Guinote): a solução escolhida pelo governo, para além de sonegar aos professores o pagamento de uma dívida, acrescenta injustiças ao provocar ultrapassagens na carreira. Marcelo, embora simpático, é o criado que atira uma moeda aos alperces da pobre hortaliceira de Cesário: “Se te convém, despacha; não converses./ Eu não dou mais.”
O PSD, pela voz igualmente maquiavélica de David Justino, declara que não cairá na armadilha do Bloco de Esquerda, fazendo de conta que está do lado dos professores e fingindo que está contra o governo, alegando, ainda, que repor o tempo de serviço por via legislativa poderá ser considerado inconstitucional. O PSD, como se sabe, tem um passado recente de respeito cego pela Constituição.
Entretanto, a Plataforma Sindical prepara já a organização da habitual vigília, da costumeira manifestação e da usual luta que fechará para férias. Os inimigos dos professores e da Educação são, assim, o governo, os sindicatos, a maioria dos partidos e uma grande parte (a maioria?) dos professores.
Não estou optimista e, o que é pior, já começo a não estar preocupado. Se for só eu, talvez não seja mau sinal. Sinto-me a regressar aos tempos infantis em que deixava a outra equipa meter golo, quando havia um contra-ataque, porque os mamões dos meus colegas ficavam quietos lá à frente.
Nossa Senhora da Censura
David Justino é simpatiquíssimo
Oportunidade de negócio para a rolha portuguesa
Os rankings e o colaboracionismo dos professores
Copio do facebook do José Gabriel, com uma vénia demorada, um excerto que corresponde àquilo que penso sobre a publicação dos rankings, ou melhor, sobre o modo como os rankings são interpretados: «Esta fraude estatística, destinada, inicialmente, a acalmar os ardores hormonais das direcções do Público – e, como é costume, a sangrar o erário público a favor das empresas privadas -, transformou-se numa anedota de efeitos nefastos e pasto fácil de comentários analfabetos.»
Não me espanta, portanto, que os ignorantes atrevidos e mal-intencionados continuem a transformar este rito anual num momento de propagação da ideia de que os rankings são um instrumento de avaliação do trabalho das escolas.
Também já não me espanta, por ser habitual, que, ao fim destes anos todos, directores de escolas e professores se tenham deixado contaminar por esta febre, ao ponto de comemorarem subidas em rankings ou de transformarem descidas em momentos de pura depressão, aceitando méritos ou culpas que não lhes cabem completamente, contribuindo para que a Educação não seja verdadeiramente discutida, aceitando o pensamento simplista de que o sucesso dos alunos depende apenas das escolas ou a ideia de que as escolas devem assumir uma atitude de concorrência empresarial, desvirtuando, afinal, a sua função.
Um dos problemas da Educação – que são muitos – consiste, cada vez mais, no facto de que os professores interiorizam – ou normalizam, como está na moda – os disparates proferidos e impostos por ignorantes e vendedores de banha da cobra com poder político e/ou mediático. Quando, numa área de actividade, os profissionais agem contra a própria área, a esperança é cada vez menor. Hoje, é dia de rankings: não faltarão patetices.
Odorico Paraguaçu é o Secretário de Estado da Energia
Odorico Paraguaçu é uma personagem aparentemente ficcional (porque é a realidade que, de tão absurda, parece verdadeira ficção). Odorico ganhou as eleições para a prefeitura de Sucupira, graças ao seu verbo e à promessa de criar um cemitério. Este espaço, depois de inaugurado, ficou às moscas, porque as pessoas insistiam em não morrer, para raiva e desgosto do prefeito.
João Galamba, uma criação socrática reciclada por António Costa, deslocou-se ao concelho da Guarda, na qualidade de Secretário de Estado da Energia, e, anunciando investimentos na região de uma empresa chinesa conhecida por EDP, levantou o queixo na direcção dos munícipes, exigindo-lhes que consumam mais, quase anunciando que, caso não o façam, serão mal agradecidos. Se coubesse ao Estado abrir bordéis, sendo Galamba secretário de Estado da prostituição, imagino o que estaria a exigir, neste momento, aos habitantes da Guarda.
Já se imagina, entretanto, nos lares egitanienses, as reprimendas que os pais passarão a dirigir aos filhos: “Então tu, minha besta quadrada, vens para a sala e apagas a luz da cozinha? Tu queres a ruína da Three Gorges, queres que o senhor Mexia tenha menos uma gravata e que o senhor Galamba receba um puxão de orelhas do senhor primeiro-ministro? Vá lá acender a luz e aproveita e liga dois aquecedores, já! O que é que disseste?! Estamos no Verão? Ó rapaz, tu até me tiras do sério, pá! Vais já de castigo para o teu quarto e ligas o computador, a televisão e a playstation! Eu que veja que está escuro, meu animal!”
Dias Gomes está às voltas na tumba, triste por descobrir que, afinal, a realidade é um guionista verdadeiramente genial: Galamba será menos tétrico, mas não fica atrás de Odorico.
As reivindicações dos enfermeiros são justas?
Esta é a pergunta cuja resposta interessa verdadeiramente conhecer. O problema, no entanto, está no muito ruído que é gerado à volta das greves.
António Costa considerou que a greve dos enfermeiros é “ilegal” e “selvagem”. O primeiro-ministro tem direito à sua opinião, embora o segundo adjectivo seja demasiado sensacionalista para que possa ser usado de modo leviano. Sendo licenciado em Direito, estará obrigado também a usar com parcimónia um termo como “ilegal”.
Os políticos, quando estão no poder têm, sobre greves, o mesmo discurso redondo: não está em causa o direito à greve, mas ou é injusta (mesmo selvagem) ou as reivindicações não poderão ser satisfeitas, porque o défice iria ser agravado, ou não é a altura ideal para se fazer greve. Os mesmos políticos, na oposição, são a favor das justas reivindicações dos trabalhadores e fazem de conta que não são igualmente culpados da destruição do sistema.
A Comunicação Social, nestas alturas, prefere o óbvio e entrevista os utentes que estão a ser prejudicados pela greve, como se houvesse greves sem incómodos. Há, com frequência, histórias de alguém que se tinha levantado de madrugada para ter uma consulta por que esperava há meses. Curiosamente, a Comunicação Social perde muito menos tempo a investigar os milhares de casos de pessoas que precisam de madrugar nos Centros de Saúde ou de consultas que só têm lugar muito tempo depois de serem marcadas. [Read more…]
Com a Saúde brinca-se
Concorrência, meritocracia, eficiência e outros chavões aparentemente virtuosos foram o cavalo de Tróia que permitiu que os privados deitassem a mão a áreas essenciais da sociedade, como a Saúde ou a Educação. O empresarialês é a linguagem que tudo explica, disfarçando o que não é mais do que a sede de lucro. O gestor-economista-empreendedor-consultor é o guru da boa nova, a luz que guiará os ignaros.
Marcelo Rebelo de Sousa defende a existência de consensos no que se refere ao Serviço Nacional de Saúde, deixando a ameaça vetar o projecto de Lei de Bases da Saúde, caso não conte com voto favorável do PSD. Há pouco tempo, Luís Filipe Pereira, economista, claro!, e antigo ministro da Saúde de Passos Coelho, defendeu que deve haver mais parcerias público-privadas (PPP) na Saúde.
O desinvestimento nos hospitais públicos é mau para a saúde dos portugueses. As PPP são más para a saúde de Portugal. Tudo isto, no entanto, é bom para Luís Filipe Pereira e para Marcelo Rebelo de Sousa.
Jamaica
Pessoa amiga disse-me, há uns anos, depois de dar aulas a criancinhas de um bairro problemático, que nunca pensou ser possível odiar criancinhas de oito anos. Terão sido momentos, mas esses momentos em que o comportamento é todo bairro, já família, impõem a selvajaria na sala de aula, numa agressividade incontrolável, seja contra quem for. Coube a essa pessoa, irrepreensível, manter-se no seu posto, cumprindo um dever profissional e social, porque é a Escola que, tantas vezes, faz pelas crianças aquilo que família e sociedade não fazem, uns porque não sabem, outros porque não querem.
Imagino o que será a raiva reprimida de um polícia sério obrigado a lidar diariamente com gente agressiva que a sociedade mantém na pobreza e no crime ou com gente agressiva que se mantém na pobreza e no crime, que um pronome pode fazer diferença quanto às causas, mas não apaga a realidade. Explicar as razões de um crime não é, evidentemente, razão para perdoar um crime: se um polícia for agredido por um pobre ou por um negro, o pobre ou o negro continuam a ser criminosos, por muito que a vida lhes seja madrasta ou guarda prisional. [Read more…]
Inclusão, o fetiche da moda na Educação
O Ministério da Educação é uma secretaria menor do Ministério das Finanças e serve, especialmente desde 2005, para aumentar ou confirmar cortes na despesa, actos diferentes de poupar.
As diferenças entre os sucessivos governos, na área da Educação, são, assim, meramente folclóricas e superficiais, evitando tocar nos pontos verdadeiramente importantes. Entre outras leviandades, vem a Direita e confunde exames com exigência, chega a Esquerda e corta exames em nome da igualdade, mais coisa menos coisa, sem que o poder legislativo perca verdadeiramente tempo a pensar, até porque os deputados estão ao serviço dos partidos e não dos constituintes, o que quer dizer a Educação não é uma prioridade na Assembleia da República. [Read more…]
A fealdade das feministas
O mundo tem tanto de perigoso como de cómico ou é cómico por ser perigoso ou é o perigo que pode ser cómico.
Em 2015, ainda na qualidade de pastora, Damares Alves, actual ministra brasileira dos Direitos Humanos , da Família e da Mulher, explicou que as feministas não gostam de homens e que isso se deve a serem feias e, portanto, incapazes de atrair membros do sexo oposto. Na plateia, dezenas ou centenas de mulheres lindas aplaudiam.
Dou por mim, muitas vezes, a irritar-me com alguns exageros das feministas, mas sinto-me, ainda, obrigado a perceber que o mundo está muito atrasado no que se refere aos direitos das mulheres, bastando lembrar que, na Europa, a luta das sufragistas, por exemplo, foi há coisa de um século, ou seja, ainda ontem.
A piada machista de que as mulheres que defendem os seus direitos são uns coirões que ficaram para tias, no entanto, será uma das opiniões menos relevantes da antiga pastora. Preocupante será a ideia de que a igreja evangélica perdeu espaço nas escolas, acrescentando que não deveria ter permitido que a ciência ficasse entregue aos cientistas e muitas outras que a globalização vai espalhando.
O ministério terá afirmado que as opiniões da pastora não servirão de base à actuação da ministra, numa cisão interior eventualmente brutal. Uma pessoa, contudo, pergunta-se: não terão sido as ideias da pastora a causa para ser convidada para ministra?







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