Bela acção!

Um brinde às actividades da GALP em Cabo Delgado. A nossa energia cria distopia…

A lógica da batata, novamente

A secretária de Estado do Turismo, Rita Marques, esclareceu a AHRESP que no período da Páscoa – considerado o arranque da época turística – só os cidadãos que não tenham residência no país e sejam “forçados a circular por vários concelhos” de forma a poderem chegar aos hotéis são a exceção à regra que restringe as deslocações, à semelhança do que foi adotado no período de 30 de outubro a 3 de novembro.

Os portugueses com residência no território ficarão no período da Páscoa impedidos de circular entre concelhos, mesmo que seja com a finalidade de ficar num hotel, mantendo-se a norma de permitir “deslocações de cidadãos não residentes em território nacional continental para locais de permanência comprovada”, como é o caso dos alojamentos turísticos. O objetivo é o de “evitar a transmissão da doença covid-19, caso contrário estaríamos a desvirtuar o objetivo da norma”, especificou Rita Marques à AHRESP.

Mas tal não se aplica aos portugueses residentes que tenham de fazer deslocações ao aeroporto com o fim de realizar viagens para as regiões autónomas da Madeira e dos Açores. [Expresso]

A propaganda nunca teve por base a racionalidade. O objectivo, senhora Rita Marques, é claro, se bem que distinto no anunciado. O que em Dezembro foi permitido, porque sim, agora é proibido, porque sim.

In memoriam: Padre Max e Maria de Lurdes

“Em Memória de pessoas que tão vilipendiadas foram, durante muitos anos, pelo escol brutal do passadismo, daqui subscrevemos o apelo: não vos mataram, semearam-vos!” – assim dita a carta aberta que hoje assinala os 45 anos do atentado que vitimou o Padre Max e uma sua aluna, Maria de Lurdes, e que junta mais de 300 subscritores.

Dois de Abril de mil novecentos e setenta e seis.

Há quarenta e cinco anos o Padre Max e Maria de Lurdes, sua aluna, caíam às mãos do terrorismo da extrema-direita. Maximiano Barbosa de Sousa, padre de Vila Real, nascido em 1943, começou o seu percurso político-social em França, onde se imbuiu do espírito que deu origem à Revolução de Maio de ’68, tendo sido influenciado pelos ideais que daí resultaram.

Com o objectivo de ajudar os mais desfavorecidos, Maximiano de Sousa decidiu-se, então, por uma carreira no Clero, tendo sido colaborador da Acção Católica Portuguesa. Conhecido como Padre Max, querido entre os seus pares e fiéis, fixa-se em Vila Real. Acaba por exercer a docência em liceus em Lisboa e Setúbal. Ciente da situação política em Portugal, onde grassava uma ditadura fascista liderada por António de Oliveira Salazar, e consciente dos valores que tinha adquirido em França, Max inicia por consciencializar muitas das pessoas que passavam pela sua igreja, tentando levá-las para a luta anti-fascista, acabando, por diversas vezes, preso às mãos do Estado Novo. [Read more…]

81 Mil. Porque um número é um número, é um número, é um número.

O mês de Março vai ficar para a história recente do Aventar. No conjunto leitores/ouvintes, o blogue ultrapassou os 81 mil leitores e ouvintes num só mês, números que já não se viam há muitos anos e que confirmam uma tendência de crescimento verificada desde o último trimestre de 2020. E a estes valores não foram incluídas nem as visualizações nem as estatísticas das nossas páginas nas redes sociais (onde se destaca o Twitter com uma subida consistente nos últimos meses).

A criação do PodAventar, o podcast do blogue Aventar, ajudou e muito a estes números que fazem lembrar os tempos áureos da blogosfera portuguesa. Sem esquecer a chegada de novos membros a esta equipa que continua, 12 anos depois, a renovar-se. Contudo, existe outra razão para este crescimento: a blogosfera enquanto espaço de Liberdade. Aqui (WordPress) o senhor Zucker ainda não consegue introduzir a censura. Aqui (Aventar) todos os autores são livres de escrever o que lhes apetece. Como não estamos sozinhos na blogosfera, nem ela está morta, sabemos que existe um novo fenómeno de regresso de alguns antigos bloggers à blogosfera portuguesa. O que mais nos alegra é ver uma nova geração a chegar. A geração dos nascidos depois de 1990. Cheios de curiosidade. Cheios de vontade. Com uma força tremenda. O Aventar pode orgulhar-se de ser o primeiro dos “velhinhos” a receber essa nova geração e a criar essa mistura de gerações. Sempre com uma regra: Liberdade. Liberdade de expressão. Liberdade de pensamento.

A todos os nossos leitores o devido e sentido: Obrigado.

Concessão das barragens da EDP: a anatomia de um golpe

Retóricas novilinguísticas sobre socialismos e liberalismos à parte, o caso da concessão das barragens no rio Douro pela EDP à Engie é um daqueles sinais, por demais evidentes, de um longo historial de vassalagem do Estado aos mais poderosos interesses privados. Este negócio, que remonta a 2019, traduziu-se numa venda na ordem dos 2.200.000.000€, estando sujeito ao pagamento de Imposto de Selo de 5% do valor total da transacção, os tais 110 milhões de euros de que tanto temos ouvido falar nos telejornais.

No ano seguinte, estávamos nós já demasiadamente ocupados com vírus e outras pandemias, o governo decide alterar o artigo 60 do Estatuto dos Benefícios Fiscais (EBF) alargando a isenção do Imposto de Selo a qualquer estabelecimento comercial, industrial ou agrícola que esteja abrangido por operações de reestruturação. E o que fez a EDP? Reestruturou-se.

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Abomino o PAN

 

[Jorge Cruz]

Abomino o PAN e o seu dirigente, o não sei quantos que nem me quero lembrar do nome do artista. O fulano é, apenas por caprichos pessoais, contra praticas que eu aprecio e que acho fundamentais para o quotidiano dos homens com sítio, como sejam os toiros de morte, a caça, a pesca, o arroz de lampreia e outros prazeres da comida, tudo peças fundamentais ligadas à vida dos seres do mundo rural, desde há milhares de anos. E eu, sinto-me pertencendo a esse mundo e a essa cultura da terra e à sua rudeza simples e bela. A caça e a pesca são talvez as primeiras actividades que o ser humano praticou, e são hoje eventualmente a última ligação que temos à nossa génese ancestral de seres nómadas. Os toiros bravos foram talvez dos primeiro actos de diversão e desafio colocados ao homem errante. Caçar qualquer das outras espécies existentes teve dificuldades que foram ultrapassadas com mestria. Conseguir chegar próximo de um Uro ou Auroque (Bos Primigenius) era outra conversa, porque eram naturalmente agressivos e tinham um elevado sentido de marcação do seu território. Ao sentir o seu espaço invadido, o animal ataca para matar. Apesar de herbívoro é o único animal que tem este instinto de atacar em vez de fugir, mesmo que seja castigado. Este comportamento agressivo e nobre é um desafio à inteligência do ser humano. O Auroque acompanhou o homem no seu percurso desde Africa até à Europa. Terá tido origem na Mesopotâmia e acompanhou e evolução do homem de nómada a sedentário e ter-se-á extinguido no século XVII, no bosque Jaktorowka (Polónia) onde se diz que foi caçado o último exemplar. Folgar com um exemplar destes, até o conseguir cansar e finalmente abater, requeria mais que inteligência. Requeria arte e saber, factores que vieram a dar origem à tauromaquia como a conhecemos hoje em dia. Antes de extinto, o auroque deu origem aos encastes dos actuais touros bravos, originários de Espanha, França e Portugal (Castas Navarra, Morucha Castelhana, Jijona, Cabrera, Vazqueña, Vistahermosa, Camarguesa e Portuguesa). 

Todas estas peças de cultura são praticas saudáveis, quer física quer mentalmente, e são depositárias de estética e de ética. Hoje em dia têm importância acrescida em novos contextos, desde o social ao económico, e no caso da caça, ao equilíbrio ecológico e ao controle das espécies cinegéticas, garante da saúde destas espécies, quase todas em vias de extinção, pela influência nefasta das práticas do homem da cidade. 

Pois este artista não “concorda” com a  vida dos homens do campo, porque é um ignorante da realidade que por cá se vive, tal como não percebe nem sabe o que é um campo em poisio, ou em relvas, ou dobrado, ou um alqueve, não os distinguindo de uma pastagem, ou de um matagal. Uma coisa, que está na sua liberdade individual, é ele, por desconhecimento, não gostar de algumas praticas correntes da vida no campo, por razões apenas estéticas ou sensoriais. Outra coisa é ele pretender, por se considerar um ser superior e missionário da sua cultura urbana, impor a sua disparatada ideia de idiota citadino, por ignorância do que é a vida no campo, porque nunca teve um galinheiro, um enxurdeiro ou uma coelheira no quintal. Por essa razão, não pode arrogar-se a impor os seus conceitos, por lei, achando ainda por cima que está a fazer um favor aos trogloditas dos atrasados dos camponeses. Foi isto que fizeram os civilizados povoadores da América, ao querer “educar” os Índios, acabando com a sua imensa cultura, os seus campos de caça, a sua vida e organização tribal, por acharem que não eram suficientemente sociáveis. Os resultados ainda hoje são visíveis.  

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António Costa vs Marcelo Rebelo de Sousa – Tá o Balho Armado

Todo o namoro acaba, ou em união ou em separação. A primeira fase de namoro terminou com os incêndios de Pedrógão, com António Costa a ceder a Marcelo Rebelo de Sousa.

O namoro continuou, com menor fulgor, é certo, mas unidos e apoiantes um do outro publicamente, até ao primeiro Estado de Emergência em Março de 2020 – Costa considerava-o desnecessário. Não era, porque o Estado não dispunha de outra moldura jurídica que sustentasse as medidas impostas aos cidadãos, nomeadamente a perda de direitos e liberdades, bem como a de garantias conferido pela Constituição. Em boa verdade, é difícil de compreender que um ano passou sem que qualquer deputado ou bancada parlamentar apresentasse um projecto de lei aplicável em caso de pandemias que evitasse o recurso ao Estado de Emergência, que deveria ser usado em casos extremos de catástrofes naturais, terrorismo ou de guerra. Não, a Assembleia da República nada fez nesse sentido, nem os que votam a favor nem os que foram contra e os que se abstêm relativamente aos sucessivos Decretos de Estado de Emergência.

Costa foi cedendo sempre a Marcelo, resignando-se [Read more…]

Podia ser mentira de 1 de Abril mas não é…

Aqui há uns tempos ouvi falar de um livro que tinha sido publicado sobre a blogosfera portuguesa. Obviamente, enquanto velho blogger português e que escreve num dos mais antigos blogues portugueses, fiquei curioso. Como vivo fora de Portugal perguntei a alguns amigos se já o tinham comprado e lido. Não foi fácil. Até que um deles me disse: “esquece, não vale a pena”. Nestas coisas sou um curioso e teimei. Até que esse amigo me enviou isto:

Quando li este pequeno naco compreendi. Com que então, citando: “…só chegou à blogosfera em 2017, quando já quase toda a gente tinha ido embora”. Fiquei esclarecido. O autor, Sérgio Barreto Costa, cumpriu uma espécie de norma muito portuguesa, o “ouvi dizer”. Como aqueles “orçamentistas” que param para ver um acidente na estrada e explicam o acontecido terminando com um “eu, a bem dizer, não vi pois cheguei no fim mas uma senhora que viu tudo contou-me”. Agora compreendo duas coisas: o porquê de alguns velhos bloggers portugueses terem passado ao lado da obra e, mais importante, a sentença do autor quanto à blogosfera portuguesa: “morreu”.

Ora, para “cagar sentenças” é preciso ter alguma arte, um mínimo de conhecimentos e, também, um pouco de sorte. Se quanto às duas primeiras me abstenho (não vi o acidente), já quanto à terceira posso afirmar que a sorte não esteve com Sérgio Barreto Costa. Então a blogosfera morreu? Como se explica tal quando as audiências do Aventar, por exemplo, duplicaram nos últimos meses (efeito pandemia?). Como explicar o facto de “velhos” bloggers estarem a regressar aos seus blogues colectivos? Como explicar a vitalidade de vários clássicos da nossa blogosfera (apenas vou citar três: O Meu Quintal, Blasfémias e Insurgente)? É o problema de falar sobre o que não se conhece. Um desporto com muitos praticantes em Portugal.

Em conclusão, o autor da obra sonhou umas coisas, uns bacanos sopraram-lhe outras, os amigos forneceram uns bitaites e a coisa fez-se. Até podia ser mentira de 1 de Abril. Infelizmente, não é. É o que temos, ou, citando um outro blogger, “isto não dá para mais”.

Bom dia…

…hoje é 1 de Abril mas nem tudo é mentira.

(foto montagem de Axel Soares)

31 de Março de 2021: Acabou a lua de mel

Guardem esta data. O dia em que acabou a lua de mel entre António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa.

António Costa, ao enviar para o Tribunal Constitucional os diplomas sobre o alargamento dos apoios sociais aos trabalhadores independentes e sócios-gerentes, às famílias prejudicadas pelo encerramento das aulas presenciais e aos profissionais de saúde, acaba de contrariar de forma clara e objectiva o Presidente da República (e a vontade da larga maioria dos partidos com assento na Assembleia da República). Ou muito me engano ou começou mais uma daquelas guerras típicas e históricas entre São Bento e Belém. Voltou a política à portuguesa.

Quando os doidos tomam conta da casa

As medidas para um suposto combate à pandemia estão a enlouquecer os decisores políticos, um pouco por todo o lado. Na vertigem diária dos meios de comunicação com os números de infectados e de falecidos acontece de nos esquecermos de coisas que aconteceram nos dias anteriores. Ainda se lembram daquela reunião de madrugada em que Merkel decidiu uma coisa para nas horas seguintes pedir desculpa e decidir o seu contrário?

Agora foi em Espanha. Aliás, aqui em Espanha as contradições são tantas que era preciso criar um segundo Aventar e temático. A última foi ontem: decidiram que era obrigatório o uso de máscaras nas praias e piscinas. Perante os protestos, hoje decidiram que afinal já não é obrigatório.

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Não confundir democracia com chalupice

Sábado, em Nicosia, centenas de cipriotas manifestaram-se contra as medidas de confinamento impostas no país e exigiram mais apoios do governo para conter a crise económica. Em todas as imagens transmitidas na peça da Euronews, e foram várias, todos os manifestantes – repito: todos os manifestantes – usavam máscaras. E fizeram-se ouvir, tal como a peça na Euronews demonstra.

Concordando ou não com as suas motivações, está é uma manifestação com a qual simpatizei, como simpatizo com qualquer manifestação cujo objectivo seja o de lutar por mais dignidade, liberdades, direitos, garantias ou por qualquer outro reforço da democracia. Porque ela não foi suspensa, mas o respeito pela segurança e pela saúde dos outros não pode ser submetido a devaneios ideológicos extremistas. Como não pode ser submetido a provocações baratas ou chalupices.

Imaginem que eu sou contra o limite de velocidade imposto por lei, contra as coimas aplicadas à condução perigosa ou contra o uso do cinto de segurança. E que eu, e outros palermas de igual categoria, decidimos fazer uma manifestação para acabar com todas estes limitações à nossa liberdade de sermos umas bestas rodoviárias. Isso dá-nos o direito de conduzir como uns loucos até ao local da manif, sem cinto, em excesso de velocidade e a fazer curvas em drift, até ao Rossio, pondo em risco o bem estar dos restantes? É claro que não. E não é preciso ser um rocket scientist para perceber isto.

Em 30 de Março de 2009, este era o filme mais visto

via https://playback.fm/birthday-movie

Parabéns ao Aventar

Ricardo Lima, O Insurgente

 

Estamos prestes a fazer vinte anos desde que Evan Williams, um jovem empreendedor do Nebraska, cunhou o verbo “to blog”, nos tempos da sua Pyra Labs. A sua plataforma “Blogger”, que pretendia democratizar o weblog, haveria de ser comprada pela Google. Williams não parou. Foi pioneiro dos podcasts e com os recursos deste projecto, que fracassou, funda o Twitter para, segundo quem o conhecia, provar que não era apenas um homem de uma única ideia. Expulso da empresa que ajuda a criar, dá outra cambalhota para criar o cada vez mais popular Medium.

Decidi começar com o percurso de Evan Williams, pois este está intrinsecamente ligado à forma como nos expressamos na internet e à evolução constante dessa expressão. Morremos. Talvez o Medium ou qualquer plataforma do estilo nos dê seguimento, mas os longos textos através dos quais por anos sucessivos nos guerreamos foram sucedidos por threads de 140 caracteres e lives de instagram. O anonimato – e a imaginação necessária – com que convivemos metamorfoseou-se em rostos e em vozes, se bem que alguma convivência pacata de tempos mais moderados também se transfigurou em ódios em que já não discutimos senão caricaturas uns dos outros.
Eu tinha vinte anos e uma certeza inabalável de que tudo sabia do mundo quando, desterrado como tantos dos 90, num Fevereiro desta vida, me estreei n’O Insurgente. Tive sorte, apanhei a era dourada da blogosfera. Entrei de stick em campo, como manda a vizinhança com o saudoso Ramaldense. Passei, obviamente, a ser alvo do Aventar e a fazer do Aventar o meu alvo. Dificilmente teria sequer sido competição interna de visualizações nos primeiros tempos de um jovem de seu nome Carlos Guimarães Pinto, não fossem as citações. Ora o António Nabais me recebia à paulada, ora o finado João José Cardoso, com quem tantos belos debates travei, me elogiava, ora a coisa de invertia, ora era uma guerrilha de blogs que durava semanas, ora concordávamos todos, especialmente nos tempos mais funestos do governo Passos, alvo predilecto da carreira de tiro da blogosfera.
Em retrospectiva e para o que o convívio nas redes se viria a tornar, as nossas batalhas não eram mais que tertúlias assíncronas, regadas de bom humor e etiqueta. É inusitado estar nostálgico aos trinta. Fazer-me de velhinho antes de deixar as saias da mão e explicar à juventude, à outra, como é que as coisas se processavam numa altura em que um comentário era mais longo que um tweet e as conversas tinham fontes e referências e bibliografia densa e eu não conseguia responder ao bom velho Nabais com gifs, quando ele me massacrava tardes inteiras, pois não havia gifs, nem desenhos, nem tags nem coisa nenhuma. Não tive, no entanto, de tudo. Não cheguei a apanhar as jantaradas de bloggers nem a copofonia que só a política abrilhanta. Por isso, ao parabenizar estes veteranos que muita companhia me fizeram, não deixo de lançar o convite pós-pandémico, para que se brindem a tempos melhores.

Um regresso à Blogosfera 

Por Nuno Gouveia

 

Parabéns aos resistentes da blogosfera. A começar pelo Aventar, um dos principais blogues do inicio da década passada que ainda se mantém em atividade. E efervescente. Confesso que, como muitos outros, depois de ter deixado de escrever regularmente em blogues também deixei de ser leitor regular dos resistentes, como é o caso do Aventar, mas também de outros como o Delito de Opinião, o Insurgente ou o Blasfémias, só para citar alguns dos mais antigos ainda em actividade. Bem diferente de há 10 anos, quando passava parte do meu tempo livre a escrever e ler  blogues. Entre 2008 e 2013 participei em diferentes blogues, como a Revista Atlântico, o 31 da Armada, o Cachimbo de Magritte ou o Era uma vez na América. Isto quando não dava uma “perninha” em blogues de campanhas políticas, como o Jamais ou o Papa Myzena, ou também analisando comunicação política, no “imagens de Campanha” ou até debatendo futebol, um tema eminentemente aborrecido de discutir – não de ver, claro – no Catedral da Luz. 

Conforme se pode observar pelo meu “cadastro”, estive vários anos muito activo em blogues, mas a pouco e pouco, fui abandonando este cluster digital. Bem sei que os blogues não desapareceram e alguns até permanecem bem activos e influentes. Mas a novidade foi desaparecendo bem como a  capacidade de influenciar o debate público e com a emergência das redes sociais, especialmente do Twitter, outros espaços foram assumindo o significado social que era anteriormente ocupado pelos blogues. Curiosamente, o Twitter em Portugal continua a ter uma particularidade distintiva que caracterizava os blogues nessa fase (e diria que ainda se mantém actual): a sua abrangência reduzida e a forte incidência no mundo político. Nessa altura, quando escrevíamos em blogues, sabíamos perfeitamente que os seus leitores não eram muitos nem que a sua mensagem chegava a muita gente. Mas eram lidos sobretudo na bolha “política”, o que fez com que rapidamente surgissem muitos blogues identificados com um partido ou uma determinada corrente política. O Aventar sempre foi uma das poucas excepções, pois nunca pretendeu fazer parte destas “guerras” (talvez esteja aí uma das razões da sua longevidade), mas a regra eram blogues de direita, de esquerda ou até de facções partidárias. Foi um tempo de grande guerrilha entre esquerda e direita, entre socráticos e não socráticos, onde até direita e esquerda se juntaram para organizar uma manifestação – fez há um mês dez anos da grande* manifestação “Todos pela Liberdade”. 

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Em 30 de Março de 2009, este era o livro mais lido


via https://playback.fm/birthday-movie

Blogosfera: O anúncio da sua morte foi manifestamente exagerado

Por Rui Albuquerque, Blogue Blasfémias

 

Lembro-me, como se fosse hoje, da primeira vez que ouvi a palavra «blog». Da estranheza com que a recebi, ao telefone, do meu interlocutor, com quem falava de outros assuntos e que, de repente, me espetou com uma frase que não tinha para mim qualquer sentido: «Sabes, tenho um blog. Abri um blog com o Carlos Loureiro e o Luís Rocha: o “Mata-Mouros”!». A conversa decorreu numa tarde de início de Verão, e do outro lado da linha estava o Carlos Abreu Amorim, qual Arcanjo Gabriel a anunciar uma boa nova que passou a ser para mim, quase nesse mesmo instante, um vício e uma paixão.

Poucas horas depois do inesperado diálogo, abri, eu mesmo, um «blog», esse estranho alienígena que me acabara de ser apresentado, ao qual dei o nome de «Catalaxia». Pouco tempo depois, com o trio do «Mata-Mouros», e o Gabriel Silva, do «Cidadão Livre», fizemos uma das primeiras (a primeira?) joint-ventures da blogosfera indígena, o «Blasfémias», que foi crescendo com mais autores de outros blogs que ficariam pelo caminho. Éramos todos razoavelmente liberais, fosse o que fosse o liberalismo. Tínhamos uma enorme disponibilidade para pensar, refletir, ler e debater, escrever e entrar em polémicas. E tínhamos quase menos vinte anos do que hoje temos.

Durante boa parte dessas quase duas décadas, a blogosfera tomou conta do país. Subitamente, todos falávamos em blogs. A comunicação social convencional – os jornais e as televisões – foram obrigados a aceitá-los, embora com alguma relutância e um certo temor. Talvez com a exceção do Miguel Sousa Tavares, claro, que, como nos garantiu que jamais usaria a máscara do covid, também nos jurou que nunca leria semelhante coisa, todo o país lia os blogs mais marcantes. Estou absolutamente convencido de que, em ambos os casos, o Miguel Sousa Tavares terá honrado a sua palavra…

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Em 30 de Março de 2009, esta era a música mais ouvida

via https://playback.fm/birthday-song

O Aventar vem de longe

[Paulo Guinote, O Meu Quintal]

O Aventar faz doze anos, o que em idade de blogues é certamente uma idade de respeito. O Aventar é dos tempos em que os blogues serviam para  comunicar algo de diferente, informar mais, esclarecer o que se sentia que não tinha lugar nos meios de comunicação tradicionais e não apenas para vender fraldas, cosméticos ou cera para a ponta dos bigodes. É do tempo – e assim se mantém – em que não se entrava numa página tão carregada de publicidade que dá vontade logo de sair, tamanha a dor nos olhos e na alma.

Apesar do aspecto que não hesito em classificar como “clássico” (partilho o gosto por aquele fundo branco), soube adaptar-se aos tempos, espalhando-se pelas redes sociais e até tendo agora – o tempora, o mores! – um podcast de sucesso. Ao contrário de umas teses peregrinas que por aí andam, o Aventar está muito vivo e recomenda-se. Ao contrário de outros blogues que se limitam a sobreviver para dar visibilidade a uns quantos aspirantes a assessores de grupos parlamentares ou governantes, o Aventar existe porque faz sentido em si mesmo. [Read more…]

Pela boca morre o peixe…

“Estes gajos do Porto são uns calimeros, sempre a reclamar que são mal tratados pela comunicação social do Al Andalus e tal e coisa”.

Entretanto:

 

2009 – 2021: 12 Anos a arejar

Chamar os Putins pelos nomes

Joe Biden chamou assassino a Vladimir Putin, e logo um coro de virgens ofendidas surgiu a rasgar as vestes, pelos mais variados motivos que vão da vassalagem a Moscovo, que impera no leste da Europa, ao anti-imperialismo estado-unidense, passando pela fábula da diplomacia, inútil contra tiranos totalitários, ou peloa receios de que o Ocidente perca o acesso ao enorme mercado russo.

Putin é um facínora que deve ser sancionado, embargado e isolado. E a cada novo negócio que a Europa ou os EUA fazem com o regime de Moscovo, onde praticamente toda a economia está concentrada nas mãos dos oligarcas UE gravitam em torno do Kremlin e da figura do seu imperador, é mais um prego que se martela no caixão da democracia, mais um milhão que Putin transfere para os seus satélites europeus, mais um passo na legitimação da autocracia, com cada vez mais adeptos no bloco europeu.

Esteve bem, Joe Biden, ao apelidar Vladimir Putin de assassino. Porque é exactamente isso que ele é. Depois de quatro anos de vassalagem bajuladora de Trump, é tempo de chamar os ursos pelo nome e assumir uma posição de ruptura. Enquanto o Ocidente não for capaz de se demarcar deste é de outros regimes, como o chinês ou o Saudita, a democracia continuará a ser um mero eufemismo para o colaboracionismo que nos assiste. Não foi para isto que se derrubou a Cortina de Ferro. Putin é nosso inimigo e é tempo de o começarmos a tratar como tal.

Magina tu isto!

O vídeo que se segue foi publicado pelo juiz Rui Fonseca e Castro. Neste vídeo, declara que irá apresentar uma queixa-crime contra Magina da Silva, Director Nacional da PSP, a quem acusa de ser maçom. No final, desafia Magina para uma luta de MMA (Artes Marciais Mistas), a fazer lembrar as ameaças que os meus colegas e eu trocávamos no oitavo ano, “lá fora vais ver”.

Do ponto de vista humano, é um documento interessantíssimo. No que respeita ao processo de selecção dos magistrados, é caso para ficarmos todos preocupados.

 

Citações: A RTP que você paga e bem

O João Gonçalves no JN a explicar como a coisa funciona:

O dr. Paulo Portas esperou pela altura que mais lhe convinha para largar uma frase, outra, no “Expresso”. Se houvesse mexidas na RTP, então o CDS tinha de rever os termos do acordo de governação. Passos Coelho, que tinha mais com que se preocupar, deixou cair o assunto numa reunião melancólica em S. Bento, no Outono de 2012, aquando da apresentação de modelos alternativos de gestão. Gaspar fez orelhas moucas. E o regime ganhou. Miguel Poiares Maduro que, meses depois, sucedeu a Relvas, criou o Conselho Geral Independente da RTP. Filtrado pela composição circunstancial do Parlamento, o CGI passou a indicar a Administração da empresa. Foi assim que, 70 mil euros depois, pagos à consultora Boyden (onde Rio trabalhou), aparece Nicolau Santos para presidente do CA da RTP. Ainda presidente da Lusa, Nicolau nem por isso deixou de comentar nas televisões e na Antena1, de forma invariavelmente favorável ao PS e ao Governo. No grupo Impresa, chegou a promover um falso “alto funcionário da ONU” que incensou no ecrã e em prosa vária. A Oposição, a começar pelo PSD, vai deixar passar o simpático Nicolau, um homem para todas as estações.

O comportamento de Cristiano Ronaldo foi vergonhoso!

Numa das três ou quatro tiradas avulsas em que despejei nas redes sociais a minha indignação face ao comportamento de Cristiano Ronaldo, pessoa amiga deixou o seguinte comentário:

Mas querias o quê?! Que ele continuasse em campo e não atirasse a braçadeira ao chão, portando-se à altura de um atleta profissional, de 36 anos, que sabe agir com desportivismo e maturidade? Tens cada uma…

Lapidar, ou seja, digno de ser inscrito na pedra – está tudo aqui: a falta de profissionalismo, de desportivismo e de maturidade.

É difícil, em qualquer jogo, com a adrenalina no máximo, manter a serenidade? É, mas aos que devem ser exemplos exige-se que façam o mais difícil. É difícil dominar uma bola que vem com força, é difícil driblar em corrida, é difícil rematar com os dois pés, é difícil saltar a 2,56 metros de altura durante 1,5 segundos e cabecear, é difícil ser o melhor marcador de sempre. É difícil não perder a compostura, quando um golo é mal anulado no último minuto de jogo.

É grave que o português mais conhecido no mundo, ídolo da juventude, abandone o campo e atire com a braçadeira de capitão, como se fosse um menino mimado e malcriado.

Também é grave que uma multidão de adultos apoie este comportamento: pais e filhos, jornalistas e cronistas, recorrendo à habitual conversa da inveja, das conspirações das arbitragens ou da necessidade de defender a tribo, elogiaram o que Cristiano Ronaldo fez ontem. O povo português talvez devesse redireccionar esta capacidade de revolta para outros assuntos e, no mínimo, não elogiar a falta de educação só porque joga por nós.

Aprendizagens irrecuperáveis

Sem prejuízo de melhores opiniões e de estudos especializados, gostaria que alguém me explicasse, como se eu nunca tivesse tido ou dado aulas, de que modo é que, havendo meios e vontade, um aluno ficará

brutalmente

violentamente

extraordinariamente

irremediavelmente

prejudicado nas aprendizagens, chegando-se ao ponto de os especialistas

(ou seja, toda a gente excepto os professores)

anteverem uma catástrofe cognitiva, um atraso talvez mesmo mental, a estupidificação de uma geração inteira, uma bomba atómica que arrasará para sempre o cérebro das crianças confinadas. [Read more…]

Obrigado! Obrigado! Obrigado!

Sim, estamos entre o estado de euforia e o de espanto. E graças a todos vocês! Sim, são vocês, os nossos leitores e ouvintes os responsáveis por semelhante feito. O Aventar está a poucos dias de celebrar mais um aniversário, o 12º ano consecutivo sempre online. Nos períodos áureos da blogosfera fomos crescendo em leitores diários. Fomos marcando presença nas redes sociais (Twitter e Facebook) onde fomos amealhando audiência mas sempre com a escrita no blogue como único meio de comunicação convosco. Fomos subindo nas audiências e a partir de certa altura fomos liderando nos chamados blogues de Política (sendo o Aventar bem mais do que isso). Depois a blogosfera foi definhando mas nós seguimos o nosso caminho, um caminho das pedras por onde fomos caminhando graças a vocês. Aliás, internamente, sempre foi dito que enquanto tivermos leitores, vamos continuar. Persistir. Resistir. E vocês foram o nosso oxigénio. Nos últimos meses os leitores foram crescendo. E o Aventar respondeu com a chegada de novos aventadores, de uma nova geração (não digam a ninguém mas temos aqui na casa, de entre os mais recentes, aventadores com vinte e poucos anos de idade). Até que, em Fevereiro após muita discussão ficou tomada a decisão: avançar com o PodAventar, o podcast do Aventar que serve de complemento ao blogue.

O PodAventar não é um podcast, é o podcast do blogue. Porque o Aventar será sempre um blogue e o PodAventar será apenas mais uma plataforma do blogue, tal como o WordPress é apenas a plataforma da nossa escrita. O Aventar, como os nosso leitores sabem, é um blog colectivo e as decisões são tomadas em grupo. Demoram. São meditadas. Por isso o podcast não nasceu de um dia para o outro. Nem é uma coisa profissional: é gravado via zoom mas só aproveitando o áudio (ainda estamos na fase de ter algum pudor) e gravado onde calha, na varanda de casa, no escritório, na esplanada do café ou em locais ainda mais esconsos. E, de repente, como quem não quer a coisa e estando o blogue apenas alojado na plataforma do blog (WordPress) verificamos que eram muitos, mesmo muitos os que nos ouviam. Até perguntarem no nosso fórum interno: “Será que alguém nos ouve?”. Ao que o WordPress respondeu assim: Só ontem foram 2.514 almas. E as audiências continuaram a subir. E o nosso cepticismo com os números da WordPress também. Até hoje.

Quando hoje recebemos os dados da Apple (só estamos na Apple desde o início desta semana) ficamos sem palavras. E por isso queremos partilhar convosco. São vocês, como atrás se escreveu, o oxigénio que permitiu manter o blogue vivo mesmo quando alguns repetem aos fiéis que a blogosfera morreu. Até escrevem uns livritos sobre isso. Só que existem por aí uns teimosos a contradizer, com factos. Um deles dá pelo nome de Aventar e se as audiências do blogue estavam a subir, agora com o PodAventar triplicaram. Pelos vistos, só somos batidos (na categoria daily news e na Apple) pelos pesos pesados internacionais. Quem são estes gajos do New York Times? Ou aqueles ali do The Economist ou da CNN? Estamos em sétimo lugar, logo acima do segundo português na lista, a Antena 1 – Notícias. Ou seja, estamos em boa companhia. Como sempre. Na sua companhia.

Por isso, OBRIGADO! Muito Obrigado a si. E sigam as gravações que isto ainda agora começou.

Globalização encalhada

Um porta-contentores encalhado no Canal do Suez é um símbolo certeiro do manifesto falhanço das políticas liberais da globalização que o governo português teima em promover com suspeita devoção, no caso do acordo EU-Mercosul.

P.S. E a pressão braquial que o Governo português anda a exercer na promoção do UE-Mercosul ocorre num período em que Portugal, estando na presidência do conselho da UE, supostamente deveria manter a isenção própria dessa função. Mas quando toca a fortes interesses, lá se vão as maneiras por borda fora…

 

Quo vadis, União Europeia?

Sempre fui um europeísta convicto. Acredito numa Europa de nações com parte da sua soberania partilhada, celebro os seus feitos e virtudes, que (ainda) superam as suas falhas e limitações, reconheço a necessidade de a reformar, mas, devo dizê-lo, a minha convicção já conheceu melhores dias.

Não que me tenha deixado infectar pelo vírus da conspiração reptiliana do globalismo, que me merece a mesma reacção que as 40 virgens que aguardam os terroristas islâmicos no céu deles – eles que acreditem no que quiserem, desde que não chateiem e ou rebentem com os outros – mas os factos são o que são e eles aí estão para testar a minha fé no projecto europeu.

Primeiro foi a resposta à crise financeira do final da década passada. A receita da austeridade autoritária foi um desastre, trouxe ao de cima o egoísmo e a ausência de uma verdadeira solidariedade entre os membros, e deixou a nu a incapacidade que muitos Estados têm de aceitar que estamos nisto juntos, no exacto mesmo barco, mais não almejando que poder beneficiar de uma moeda única, nefasta para as economias dos países mais frágeis, e de um mercado interno sem barreiras, para pessoas, mercadorias e, sobretudo, capitais. Sobretudo capitais.

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Ditadura sanitária selectiva

No início de Fevereiro, um homem foi multado em 200€, por estar a consumir um pacote de gomas, à porta de uma dessas pseudo-lojas de máquinas de vending que se vêm cada vez mais por aí. Como ele, centenas de outros portugueses foram sujeitos à aplicação das leis em vigor, sempre aprovadas com uma confortável maioria parlamentar, que resultaram em multas, detenções e confusões.

Um mês depois, cerca de 3 mil (so they say) negacionistas e activistas contra o uso de máscara e confinamento juntaram-se no Rossio, para protestar contra as medidas de combate à pandemia, sem máscara ou respeito pelas normas de distanciamento social, colocando em risco a saúde de milhares de pessoas e a recuperação económica, sob o olhar atento da PSP, que não conseguiu ser tão valente como o foi com o degustador de gomas e tantos outros portugueses. Uma gritante dualidade de critérios e pelo menos meio milhão de euros em multas por cobrar.

E lá andavam eles, revoltadissimos, com cartazes da ditadura e mais não sei o quê, sem que meia bastonada ou coima lhes fosse aplicada. Quando isto passar, seria importante que as farmacêuticas se dedicassem ao desenvolvimento de uma vacina contra a falta de noção. Fica a dica.