Aconteceu em Tiananmen

 

Recorde-se, o país a quem os nossos governantes alienaram diversas infra-estruturas é o mesmo onde, em 1989, se cometeu a barbárie de Tiananmen. Foi há 30 anos. Ontem, portanto, apesar de tanto se ter passado por lá desde então. Como por exemplo, a implementação do, até há alguns anos, inacreditável sistema de crédito social.

José Patrocínio

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Morreu José Patrocínio, activista angolano.
Uma voz contra a violação dos direitos humanos, sempre do lado dos que não têm voz em Angola. Um inconformado com a injustiça, um lutador pela liberdade e dignidade de todos e todas.
Lamento muito a sua morte.

Director-adjunto do Expresso

Tout se vend, tout s’achète: les enfants, le sperme, les pailletes, le ventre des femmes, les utérus, toutes ces choses-là. Allez hop! Allons-y! Ça se vend, ça se loue, ça s’achète, ça se prête: c’est la grande marchandisation du capital.

Michel Onfray

Il y a dictature quand il y a péril pour la liberté. Et il me semble qu’on est en train d’assister à une civilisation, on fabrique une civilisation, dans laquelle il y a péril pour la liberté.

Michel Onfray

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Expresso, sabe-se, é extremamente versado em pronunciar-se acerca de assuntos ortográficos, ao ponto de até dar aulas de Português. Todavia, pelo caminho, vai tendo recaídas (aqui, ali, acolá…) e dando alguns tropeções (acolá, ali, aqui…), engrossando as fileiras da diáspora.

A grafia exibida pelo Expresso é a prova acabada quer da hipocrisia ortográfica instalada, quer da inutilidade do Acordo Ortográfico de 1990.

Efectivamente, quem se dá ao luxo de ter um director-adjunto no dia 29 de Maio de 2019, quase nove anos passados sobre o anúncio da poupança de letras, demonstra em última análise que o Acordo Ortográfico de 1990 não faz falta absolutamente nenhuma e que o cê, esse sim, dá imenso jeito.

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Joana Marques Vidal BEM

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Nas Conferências do Estoril, mesmo na cara do Sérgio Moro. Respect!

Os portugueses que vão votar dão uma lição de civismo

Acabo de votar numa das escolas reservadas para o efeito e por verificar, in loco, o civismo de tantos e tantos portugueses no momento do voto.
Ele é estacionamento dos carros em cima do passeio, em cima das passadeiras, nos lugares de deficientes, em segunda fila, enfim, onde calha. Em qualquer sítio que garanta ficar à porta do local de voto.
Ufanos por estarem a cumprir o seu dever, esses portugueses regressam a casa felizes. O seu civismo foi posto à prova e, mais uma vez, a exemplo do seu Querido Líder, ultrapassaram o teste com distinção.

A figura do ano em Gaia

O ex-deputado do Bloco de Esquerda, João Teixeira Lopes, foi o homenageado da noite numa Gala que ocorreu no passado dia 18 de Maio, em Vila Nova de Gaia, organizada por um jornal local. O evento, pelo qual a Câmara Municipal pagou 35 mil euros, contou também com um espectáculo de Mickael Carreira.

João Teixeira Lopes foi recentemente nomeado pelo município gaiense, dirigido, como se sabe, por uma coligação PS/PSD, “presidente do Observatório Social de Gaia”, tendo agradecido “a homenagem”.

Universidade do Porto abre Instituto Confúcio

Foto: Universidade do Porto

 

É um momento de particular e profunda satisfação e, certamente, um ponto alto nas relações entre Portugal e a República Popular da China. Votos de grande prosperidade e sucesso ao Instituto Confúcio da Universidade do Porto. Que contribua para o fortalecimento das relações de amizade e benefício mútuo entre os dois povos.

Foi inaugurado esta sexta-feira o primeiro Instituto Confúcio da Universidade do Porto. O projeto, desenvolvido numa parceria entre a Universidade do Porto e a Guangdong University of Foreign Studies, tem como objetivo alargar os horizontes culturais dos estudantes, estreitar as relações entre a Universidade e a cidade à China, fortalecendo, desta forma, a cooperação entre os dois países.

Como manter viva uma ideia

Impondo-lhe dificuldades.

Morreu uma lenda


R.I.P. Niki.

Os dois Presidentes

 

 

[clique no vídeo para assistir] O presidente de uma das maiores Câmaras Municipais do país – Vila Nova de Gaia – assina, em nome do Município que representa, um contrato de financiamento de centenas de milhares de euros com um clube de futebol, na mesma cerimónia em que toma posse como presidente do Conselho Fiscal desse mesmo clube.

Por que motivo terão apagado o vídeo do Youtube ?

As Comendas, os que vão comendo e os que comem tudo

Vai, pelos vistos, séria e profunda a reflexão na Assembleia sobre os “deveres e obrigações” dos titulares de graus honoríficos, matéria em que releva actualmente a alegada dislexia do Comendador patriarca do Budismo do Bombarral ao qual, imagine-se, se dirige agora um “processo disciplinar” que visa retirar-lhe a comenda e a grã-cruz da Ordem do Infante D. Henrique, este último às voltas no túmulo ante tanto escândalo institucional, tanta cruz, tanta comenda e tão pouco que comer.
Instrua-se, com a coerência que reste, igual e competente “processo disciplinar” aos que distribuem comendas, sempre às custas dos que são comidos, pelos que comem tudo e nada deixam a não ser esta República em feitio de comissão de garagem. Uma comissão de garagem que pensa poder disfarçar a sua falta de vergonha com tardios e artificiais “processos disciplinares” para retirar comendas a quem não apenas já comeu tudo, mas, acima de tudo, deu de comer a muitos dos falsos indignados de circunstância.

A ideologia da decência

A decência – a mera decência – não é característica que exija santidade, que faça andar o paralítico ou o cego ver. A decência não é um milagre nem viaja até junto de nós num raio cósmico vindo de outros sistemas ou galáxias. A decência é um módico atributo da simples humanidade, um asseio que a separa das bestas, as quais, porém, manifestam amiúde graus de decência que uma boa parte dos homens não alcança.

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Tell No One

O documentário independente pelos irmãos Tomasz e Marek Sekielski. Sobre a ICAR na Polónia.

Este documentário já conta com mais de 12 milhões de visualizações nos últimos três dias (página IMDB). O documentário foi financiado on-line. É neste momento história de destaque na imprensa polaca. O documentário apresenta várias vítimas de padres pedófilos, o que parece ser hábito.

(Em polaco, legendado em inglês, espanhol e noutros idiomas.)

Ilusões ortográficas

Tu já imaginou a decepção, homem?

Coronel Jesuíno Mendonça

Para o segundo número da revista preparou um artigo, em português não menos clássico e com argumentos irrespondíveis, no qual, baseado em fatos e sobretudo nos versos do poeta Teodoro de Castro, esmagava definitivamente as negativas do conde.

Jorge Amado

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Ontem, 13 de Maio de 2019, lembrei-me do dia 13 de Maio de 2009.

De facto, tendo lido isto,

lembrei-me disto:

O Diário da República não nos desilude.

Efectivamente,

Não adianta olhar pro chão, virar a cara pra não ver.

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Kramer contra Kramer

É sem surpresa que se verifica a tentativa de fazer do Comendador Joe Berardo o “bode expiatório” da gigantesca rapina de que foi – e é – objecto o povo português.

Quem tenha assistido à audição do empresário na II Comissão de Inquérito à Recapitalização da Caixa Geral de Depósitos, terá ficado a pensar que de um lado estavam os representantes da República e do Estado Português, e do outro lado um milionário habilidoso procurando iludir as suas responsabilidades. Mas não foi isso que sucedeu. Na verdade, de um lado estava o Estado a fazer perguntas e do outro estava também o Estado, representado pelo senhor Comendador Joe Berardo, a responder a essas perguntas de modo juridicamente adequado. Ou seja, estava o Estado a fingir que inquiria o Estado e este a fingir que respondia.

Não é fácil, convenhamos, descobrir um caminho virtuoso neste jogo de espelhos. Mas pior é continuar a permitir a grotesca impunidade daqueles que, em nome e representação do Estado e da República, são cúmplices da rapina e da destruição do património comum, rapina e destruição que servem depois como argumento falacioso para esmagar os direitos da população que é seu dever servir.

Bandas de garagem

O senhor Comendador Berardo parecia que estava numa barraca da queima das fitas, a servir “shots” de aguardente de arroz. Recitou o Sutra Diamante, mas ninguém percebeu. Ali ninguém percebe nada. Nem sequer foram ao Bombarral.

O maior.

GAIA, a fraude política das “contas no verde”

Clique para aumentar.

Em meados do passado mês de Março houve polémica estridente por causa de uma informação da Comissão Nacional de Eleições sobre propaganda proibida em período pré-eleitoral. No centro dessa polémica, liderando as críticas à CNE, esteve a Câmara de Gaia, cujo presidente se queixou de uma alegada “lei da rolha” que o impedia de apresentar “as melhores contas” de sempre do Município. Dizia então o autarca que estava “a dias de apresentar as melhores contas de sempre da Câmara de Gaia. Vou ser impedido de apresentar as melhores contas porque a CNE não me deixa dizer “melhores contas”? A democracia não é prestação de contas? A CNE está a beneficiar quem prevarica”.

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Os homens de poder

Quis, certo dia, um homem de poder explicar-me sucintamente a sua visão sobre o mundo, a qual determinava tudo o que ele fazia. Disse-me assim:
– Eu gosto de ver o Porto ganhar aos 95 minutos de jogo, com um penálti inventado.

A confissão não pedia resposta. Era uma espécie de lição gratuita do presumido mestre em “petas e lérias” ao ingénuo aprendiz que se lhe apresentava em inferioridade.

Sou do Porto. Mas não sou do mesmo Porto daquele homem de poder. Sou do Porto que ele ajudou a matar. Do Porto que ganha porque é melhor. Do Porto que perde porque não soube mais.
Aquele homem de poder simboliza a derrota do que é mais valioso na humanidade. Simboliza a traição ao esforço de superação, à determinação inquebrantável dos que acreditam poder criar força das suas fraquezas, dos que enfrentam os obstáculos transmutando o medo em energia vital, dos que não se submetem ao destino que qualquer falso deus lhes quis impôr.

Aquele homem de poder é um símbolo da batota e da fraqueza. Na verdade, ele não é do Porto. Ele é de quem ganha.
Lembrei-me dele por causa desta história dos professores e do golpe palaciano urdido pelo primeiro-ministro.

A outra crise

Há crises e crises.

Fila da sopa.
Porto, Praça do Município.
5 de Maio de 2019. 20h33.

Pela dignidade da Democracia e das instituições

O Professor Doutor Eduardo Vítor Rodrigues, dirigente nacional do PS e autarca de Gaia.

Talvez comece a ser hora de a Faculdade de Letras da Universidade do Porto se pronunciar sobre isto, já que a direcção nacional do PS não o faz.

Notícia do jornal PÚBLICO:

“As queixas-crime contra o presidente da Câmara de Gaia apresentadas por autarcas, funcionários da autarquia e até por um ex-colaborador sucedem-se nos tribunais. Eduardo Vítor Rodrigues tem sido alvo de vários processos por crimes de difamação, injúria e ofensa à honra e consideração dos ofendidos, mas também há uma acção administrativa por “assédio moral”. Contactada pelo PÚBLICO, a Câmara de Gaia recusou-se a falar.

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Marcelo tem o Tao

“É mais importante a aposta da divulgação da língua e cultura portuguesa, a aposta no mandarim e no ensino nas escolas portuguesas e intercâmbio cultural – porque tem efeito em várias gerações – do que os muito importantes acordos em matéria económica”.

Artigo completo no Hoje Macau.

Foi para isto que se fez o 25 de Abril?

Ontem em dia de sessão solene evocativa do acontecimento, lá apareceu o inenarrável deputado Carlos César falando em nome do partido do governo. Pensando no número de familiares a quem o político conseguiu emprego no Estado, dei comigo a pensar, será que Portugal mudou assim tanto nos últimos 45 anos? Bem sei que talvez não seja caso único, mas este deputado é um símbolo do descrédito que nos merece toda a classe política. Depois queixem-se do populismo…

O 25 de Abril em versão comercial

bisolnatural_25abrilO acto histórico que mais impacto tem nas vida das pessoas da minha geração entrou agora naquela fase sem adjectivos possíveis. Faltam-me mesmo as palavras. Dá-me comichão, ataca-me a tosse.
Talvez o bisolnatural seja mesmo aquilo de que estou a precisar.
Viva o 25 de Abril.

25 de Abril

Todo o Ser Vivo vem a este mundo com um desígnio primeiro, que é o de cumprir-se. Cumprir-se é esgotar todos os seus possíveis, todo o potencial que transporta como a semente de algo que ele é e que simultaneamente o transcende e que o aguarda num tempo e num espaço ainda para si desconhecidos. Caminhará sempre por um Mar de obstáculos que colocarão à prova não tanto a sua inteligência como a sua Liberdade. A Liberdade de perante cada um desses acidentes do caminho optar, fazer escolhas, decidir. Assumir com absoluta integridade essa missão de estar vivo, de materializar, trazer ao lugar da Manifestação, os mundos infinitos que habitam em potência a tal semente. Lugar e não-lugar onde é ele próprio em transcendência, em rigorosa e absoluta Obediência ao desígnio de ser livre.

Autarca e Sacerdote

Ricardo Rio, no exercício do seu segundo mandato como presidente da Câmara Municipal de Braga fotografado hoje, no interior do edifício-sede da Câmara Municipal de Braga, no exercício das funções de sacerdote religioso.
O Estado português é laico.
A CMB não é.  Já o sabíamos.

Marcas lapidares

Algumas pedras das igrejas e catedrais são assinadas. Essas Marcas Lapidares identificam os mestres-pedreiros que ergueram a obra, mas também o seu grau de conhecimento da Arte. A gramática das Marcas não é, normalmente, visível, e só a reconhece quem sabe “ler” para lá do que é aparente. Oculta, nessas Marcas, está geralmente uma Matriz geométrica que tem por base o Círculo e a inscrição nele do Triângulo e do Quadrado.

Todas as obras humanas têm uma Marca. Seja ela visível ou invisível. Se for visível, a identificação do seu autor é facilitada, por ser patente e notória. Se for invisível, há que buscar a matriz oculta, eminentemente simbólica, que traça com igual clareza o perfil do Mestre de Obras. Isto vale para as Catedrais góticas que buscam rasgar o céu, como para as catacumbas do Hades, onde se abre caminho para o inferno. Vale para qualquer obra humana.

O incêndio de Notre Dame também tem uma marca, uma assinatura. Ela é evidente para os que têm os olhos abertos. É uma Marca nauseabunda, infernal. Mostra-se teatral, quase angélica, mas é uma cicatriz do Mal. É o sinal de um fortíssimo inimigo da humanidade.

Carlos Costa, o super-herói do Banco de Portugal

Carlos Costa, governador do Banco de Portugal, declarou que fazia “figura de corpo presente” nas reuniões do conselho de crédito da Caixa Geral de Depósitos. Parece que só lá ia porque era preciso assegurar o número de administradores necessários para que as decisões fossem tomadas, a fazer lembrar o miúdo que era recrutado para um jogo de futebol porque faltava um para ficarmos iguais. Os que hesitavam, dizendo que jogavam pouco, acabavam por ficar à baliza, porque sempre era melhor, pelo menos atrapalhava.

Algumas pessoas ficaram escandalizadas com esta confissão, mas a verdade é que Carlos Costa não pode ser acusado de incoerência, porque continua a fazer a mesma figura como Governador de Banco de Portugal. Também aqui, ninguém poderá acusá-lo de ter tomado verdadeiramente alguma decisão.

Carlos Costa não só poderá continuar a exercer funções, perdoe-se-me a contradição, após a reforma como poderá fazê-lo depois da morte, tendo em conta as modernas técnicas de mumificação. Se houvesse necessidade de prova, as constantes intervenções de Cavaco Silva seriam suficientes. Carlos Costa, tendo em conta que os mortos não se cansam, poderá acumular vários cargos, já que, para efeitos práticos, fazer-se de morto ou estar morto é o mesmo.

Apesar de alegadamente vivo, Carlos Costa poderá, de qualquer modo, acumular a governação, por assim dizer, do Banco de Portugal com um lugar no Madame Tussauds. Um leitor mais ansioso poderá perguntar “Mas em que secção?” É evidente: na dos super-heróis. Carlos Costa será o Homem Visível, aquele que tem o superpoder de ser visto em reuniões, a que junta, ainda, a capacidade extra-sensorial da amnésia.

Entretanto, o departamento de merchandising do Banco de Portugal, já está a preparar uma novidade: os clientes poderão passar a comprar miniaturas de Carlos Costa, que passará a ser vendido como o primeiro boneco de inacção do planeta.

O Polígrafo faltou à verdade

O Polígrafo, que se apresenta como “o primeiro jornal português de Fact-Checking”, faltou à verdade, no seu artigo publicado a 14 de Abril de 2019, pelas 19h10, com o título “Estes exames divulgados pela Wikileaks depois da prisão de Assange provam que Steve Jobs era seropositivo?”

O jornal escreve nesse artigo “Promessa feita, promessa honrada. Logo após a detenção de Julian Assange, 47 anos, na Embaixada do Equador em Londres, a Wikileaks, que avisara que se isso acontecesse divulgaria o arquivo de segurança que mantinha reservado para uma situação de emergência,  libertou milhares de novos documentos.”

Acontece que isto é falso. 

A verdade é que a Wikileaks não libertou qualquer arquivo após a detenção de Julian Assange na embaixada do Equador, tendo, aliás, tido a preocupação de informar, a 13 de Abril de 2019, pelas 18h51, que o endereço file.wikileaks.org, a que o Polígrafo se refere, está disponível há vários anos e não constitui qualquer “cumprimento de promessa”, conforme afirma o jornal de pretenso “fact-checking”.

Nota da Wikileaks publicada no Twitter a 13 de Abril de 2019 (ontem):

“Note: file.wikileaks.org is not a release, insurance dump, or response to Assange’s arrest. It is the page where published documents are available for bulk download so that people can create mirrors, access publications offline, or use the raw data. It has existed for years.”

 

“As grandes insubmissões”

Ruy Belo (1933-1978)

Um texto de Ruy Belo:

As grandes insubmissões sempre foram para mim as pequenas. Na minha vida, lembro duas.
Começava um ano lectivo. Andaria no segundo ano do liceu. Era a época da feira da piedade. Cheguei de férias na minha terra e vi o vítor a andar de carrocel. Esperava que a volta acabasse para o abraçar. Fui esperando, ele nunca mais descia. Uma volta, mais outra, outra ainda. Fui contando: vinte. O vítor tinha vinte escudos. Eu já o respeitava, porque era muito alto. Passei a respeitá-lo mais. O Vítor era capaz de gastar vinte escudos no carrocel.

Outra grande insubmissão foi a do maurício, também nos primeiros anos do liceu.
Um dia o maurício faltou à aula das nove. Até aí, nada de particular. Saímos para o pátio e o maurício estava no campo de basket, perfeitamente equipado, sozinho, a lançar a bola ao cesto.

– Ó maurício, faltaste à aula das nove.

E o maurício, sem responder, imperturbável, continuava a lançar a bola ao cesto.
Tocou para a aula das dez.

-Ó maurício, não vens à aula?

O maurício não respondia. Continuava, imperturbável, a lançar a bola ao cesto.
Faltou à aula das dez, faltou toda a manhã. Nos intervalos saíamos e logo ouvíamos a bola contra a tabela. O maurício, sozinho, continuava a lançar a bola ao cesto.
Só se foi vestir quando tocou para a saída da última aula dessa manhã. Esperámos todos por ele. Não lhe perguntámos nada. E seguimo-lo cheios de admiração. O maurício, apesar dos professores, apesar dos contínuos, apesar da campainha, faltara a todas as aulas.
Toda a manhã jogara basket. Sozinho. Contra professores, contra contínuos, contra a campainha.

Ruy Belo
in Todos os Poemas, Círculo de Leitores

O 69 das reformas

A notícia aparece com declinações diversas. De facto, a encomenda do estudo sobre a sustentabilidade da Segurança Social que propõe que a reformas passem a ser aos 69 anos é da prestimosa Fundação Francisco Manuel dos Santos e não do Instituto de Ciências Sociais, como rezam algumas notícias. O coordenador do estudo pertence, de facto, àquela instituição, mas isso é tudo. De resto, faz aquilo para que lhe pagam, servindo os interesses do encomendante do estudo: criar insegurança e as condições subjectivas que sirvam a gula de bancos e companhias de seguros. Reconhecemos este tom; era o que dominava o discurso do poder durante o governo anterior. Um espécie de terrorismo social em versão português suave que leve as pessoas a comportar-se como os mandantes querem, canalizando as suas parcas poupanças para produtos de aforro privados – para não falar na sonhada via de privatização da própria Segurança Social. A estratégia das alcateias ao atacar rebanhos.

Como me atrevo a ir tão longe nestas considerações sem ser especialista? Não é difícil. É estar atento ao que o estudo diz – as receitas do costume – e, sobretudo, ao que omite – como seja uma mudança estratégica ao nível fiscal, uma abordagem séria do financiamento da Segurança Social. Até lá, ficamos sujeitos à pressão dos estudos que, no nosso país, tantas vezes substituem a razão ou um simples fundamento de legitimidade democrática. Assim, os famosos estudos sempre aparecem do mesmo modo que as estratégias de publicidade: se é necessário vender produtos, não se lhes demonstra o valor objectivamente mostrando-se as suas qualidades; cria-se nos consumidores a necessidade subjectiva de os possuírem, mesmo que isso não lhes sirva para nada. Se se querem obter certos comportamentos sociais e políticos, um das vias é muito semelhante; mas chama-se-lhes estudos. Sempre é outro nível.