Unam-se, porra

As esquerdas representam-se por vários partidos, aos quais compete, em exclusivo, a determinação da sua estratégia. Não nos incumbe, como signatários deste manifesto e com posições diferenciadas, interferir nessas decisões. Move-nos a obrigação de contribuir para uma solução de esquerda para Portugal, manifestando a nossa opinião, porque queremos promover diálogos com resultados.

Há um manifesto onde se apela “a que os principais partidos da esquerda que recusa sem ambiguidades a austeridade, bem como milhares de independentes e activistas, se associem num pólo político, com uma resposta política clara para toda a gente”. Será eficaz? duvido, mas assinei. Não custa nada tentar.

O manifesto está aqui.

AvançAR

10342418_943953018951185_3738260670477354356_n

Ao contrário do que afirma Ana Drago nesta entrevista recente à SIC Notícias, a chamada plataforma cidadã Tempo de Avançar não é, infelizmente, uma coisa nova. E não é nova porque lhe falta massa cidadã, justamente, isto é, uma participação inequivocamente emanada dos cidadãos, e dos cidadãos indistintamente considerados, ou seja, cidadãos não-afectos ao Bloco de Esquerda, por exemplo sob a forma de simpatizantes (e basta consultar a lista de primeiros aderentes – entretanto organizados em Conselho de candidatos efectivos – para ver a que ponto ela está capturada por esses simpatizantes e amigos mais ou menos próximos do BE).

Não vejo nenhum problema em ser-se simpatizante ou amigo do BE, era o que mais faltava. Já votei no BE – ah pois foi. Mas já vejo um problema em verificar a que ponto se está disposto a lançar mão de exemplos bem sucedidos ocorridos noutros países (o Syriza, o Podemos) para tentar construir, com evidente artificialidade, o que em Portugal não há (ainda): a emergência de um movimento de cidadãos ou de uma coligação de pequenos partidos reunidos em torno de um programa anti-austeridade, de defesa dos interesses democráticos e nacionais, e aptos (i.e., prontos e preparados) para governar – o povo do País e junto da UE. E essa demagogia, enunciada ainda no adro, entristece quem, como eu, está atento à marcha da procissão dos aflitos e descontentes com os partidos, e muito especialmente os da Esquerda.

Levado pela mão de figuras todas elas emanadas do Bloco de Esquerda – dissidentes de dissidências várias, como são os casos de Rui Tavares, Ana Drago e Daniel Oliveira –, o movimento Tempo de Avançar não parece, assim, ser substantivamente diferente do que ainda há semanas foi tentado por uma outra dupla de também dissidentes do BE: Joana Amaral Dias e Nuno Ramos de Almeida, fundadores do Juntos Podemos, ao que se sabe entretanto já dissolvido por novas (ou renovadas) dissidências. [Read more…]

A esquerda portuguesa não é a grega, tem de encontrar o seu caminho

miguel tiago

O problema da esquerda portuguesa tem um nome: sectarismo. Tem outros, como dogmatismo, incapacidade de perceber que 100 anos depois nem o capitalismo é o mesmo nem combatê-lo pode ser de feito da mesma forma, mas esses são problemas de toda a esquerda europeia.

Se na Grécia temos outro caminho, a unidade entre forças que se degladiavam há meia-dúzia de anos, a capacidade de construir uma frente que ocupe o espaço da social-democracia ocupado pelo social-liberalismo, a aprendizagem com a queda do estalinismo, se no estado espanhol um outro surgiu, fora dos partidos tradicionais e contrariando a sua esclerose, em Portugal precisamos de outro ainda. [Read more…]

António Costa desaconselha voto no PS, no PSD e no CDS

O líder socialista afirma que há uma alternativa à política de austeridade.

Intenção

Quem já pegou num livro de psicologia ou, mais simples ainda, quem teve um puto a jogar à bola dentro de casa sabe que as coisas se partem por obra e graça do espírito santo. “Partiu-se”, “Não fui eu”…

Tenho pensado muito nisto quando vejo no poder pessoas como Nuno Crato ou como a Paula Teixeira da Cruz. A existência de um erro isolado é algo absolutamente natural e, em alguma medida, compreensível. Mas, um olhar atento para a matriz desta governação permite perceber que estamos longe de encontrar um acto isolado. Até parece que há uma intenção deliberada de destruir tudo o que é serviço público.

São os concursos de professores, aliado ao aumento do número de alunos por turma e ao investimento no ensino privado.

É a Ministra Paula Teixeira da Cruz que resolveu meter um pilar da democracia e do estado de direito dentro de um computador avariado.

São os laranjinhas da UGT que assinaram um acordo com o governo que retira dinheiro à segurança social para pagar o aumento do salário mínimo.

Educação. Justiça. Segurança Social.

Podia trazer aqui outras dimensões, mas penso que estas referências são suficientes para que, pelo menos, se questione o governo: incompetência ou intenção?

 

Um defensor do AO90 contra a simplificação da ortografia

Marcos Bagno é um linguista brasileiro e defende o acordo ortográfico (AO90) com a mesma frontalidade com que critica o “preconceito linguístico”. Acrescente-se que é um homem de esquerda, preocupado, portanto, com os mais desfavorecidos, que o são, também, por serem desfavorecidos em termos educativos.

Continuo a só encontrar defeitos no AO90 e sinto algum desconforto diante de algumas opiniões do autor brasileiro no que se refere à questão do preconceito linguístico. Esse desconforto é consequência de uma reacção, uma vez que o meu conhecimento dos textos de Bagno resulta de leituras dispersas e superficiais; um dia, poderei ter uma opinião sobre o assunto.

No que se refere ao campo ideológico, teremos, provavelmente, muito em comum.

Em Portugal, alguma esquerda tem defendido o AO90, argumentando que “a simplificação das regras de escrita [resultantes, depreende-se, do AO90] constitui (…) uma forma de democratização da língua portuguesa.” No Brasil, o Movimento Acordar Melhor defende que a simplificação ortográfica deve ir mais longe, sempre com o objectivo de facilitar a aprendizagem.

Confesso que, tendo em conta as minhas leituras superficiais sobre Marcos Bagno, esperaria dele uma opinião semelhante. Foi, portanto, uma agradável surpresa ter descoberto, no Facebook, que defende precisamente o contrário, com argumentação inatacável. O texto foi originalmente publicado na revista Caros Amigos e o autor resolveu disponibilizá-lo nas redes sociais. A seguir ao corte, está a transcrição. [Read more…]

O complexo anti-PS e a divisão da esquerda

dialogoRui Curado Silva concorda que «enfrentamos uma crise», apesar de a dimensão dessa «crise» ressaltar bastante pequena no seu texto, focado nas coisas domésticas do Bloco de Esquerda (que interessam pouco a generalidade dos votantes à esquerda, quer-me parecer) e na afirmação derrotista de uma alegada impossibilidade que dá força ao que supostamente pretende combater.

Pessoalmente, interessa-me pouco se foi mais ou menos bonita a maneira como alguns militantes do BE abandonaram esse barquinho – um pouco-mais-que-dóri que já foi quase um lugre, diga-se de passagem, capaz de transportar mais gentes, deputados, vontades, anseios. Os partidos têm sido assim: cheios de abandonos e traições de gente que diz estimar-se entre si. Assim é também com as famílias – Shakespeare, para citar o nome de um grande especialista, debruçou-se longamente sobre estas coisas humanas. [Read more…]

O corredor de fundo

José Xavier Ezequiel

camarada_freitas

Sempre que se fala de presidenciais, esta santa criatura levanta-se da carteira e põe o dedo no ar. Já foi delfim do antigo regime, líder da direita, quase-presidente da República pelo centro-direita, enjeitado do cavaquismo, ministro do centro-esquerda, crítico ‘feroz’ dos governos de Sócrates e logo pretendente a reocupar o antigo lugar no centro-direita. Sem qualquer sucesso, diga-se em abono da verdade.

Por estes dias, entrou na agenda o assunto presidenciais. E quem apareceu logo a dar uma entrevista ‘de fundo’ na RTP? O do costume. Cheirou o vento, apalpou os odres do tempo e para que lado resolveu cair? Para o centro-esquerda. Outra vez.

Ó senhor ‘pressor’, ainda não percebeu que, excepto a imprensa que precisa de encher o chouriço, já ninguém o consegue levar a sério?

Se eu fosse a si, fazia como o Dr Marinho Pinto e tentava a sorte com o Partido da Terra.

Em Coimbra a 21 de Janeiro de 1974 (…) rua Antero de Quental

Uma cruz carrega-a quem quer, ou se sujeita. Faz 40 anos alombo a minha, uma delas, ainda sou do tempo – quando as cruzes também mediam o fígado -, porque me sujeitei e depois porque assim a mandei estar.

2013-09-19-18h01m29-1

Pago, custou caro, teve seu tempo. Pago o preço de fiel na seita, acreditando em deuses miraculosos que eram filhosdaputa fabulosos. Como todos os deuses em todas as seitas. Como se fecha um puto de 14 anos com dois polícias, uma tarde, num vão de escada com a luz de Janeiro a passar sobre a Praça, ali mesmo abaixo, e a máquina de escrever, seu peculiar silêncio e som, a banda sonora do interrogatório, tarde fora. [Read more…]

Confesso: sou (também) um mau socialista

O texto é do Manuel Alegre e está no Público de hoje. Penso que vale a sua partilha integral:

O bom socialista é aquele que em diferentes circunstâncias diz as coisas sensatas que a direita gosta de ouvir: que é preciso rever a Constituição, fazer um pacto de regime, negociar um consenso com o Governo sobre as medidas de austeridade.

O bom socialista defende que “ o arco da governabilidade” se restringe à direita e ao PS.

O bom socialista revela abertura para um eventual governo de coligação com os partidos da direita, ou só com o CDS, ou uma reedição do “bloco central”.

O bom socialista é sensível, atento e moderno quanto à necessidade de imprescindíveis cortes e mudanças na Saúde, na Educação e na Segurança Social, tendo em vista diminuir o peso do Estado e dar lugar aos privados com apoio público.

O bom socialista aceita as “reformas” que tendem a transformar em assistencialismo a garantia de direitos sociais pelo Estado.

O bom socialista colabora em medidas que desvalorizam o trabalho em nome de um pretenso aumento da competitividade.

O bom socialista dá prioridade à estabilidade financeira em prejuízo do desenvolvimento económico e da coesão social.

O bom socialista aceita o aumento das desigualdades como consequência inevitável da globalização e considera que não há alternativa.

O bom socialista pensa que a divisão entre esquerda e direita não passa de um arcaísmo. [Read more…]

A ouvir a Aula Magna, um dúvida:

o que une o PS, o BE, o PC e o resto do povo de esquerda não é MUITO mais do que aquilo que nos separa?

A esquerda e a fossilização do homem pelo homem

A alma de paleontólogo do meu amigo Joaquim permite-lhe descobrir fósseis com uma aparente facilidade. Diz ele que a esquerda portuguesa é, toda ela, um fóssil babando uma revolta e uma ira anacrónicas.

Apesar de eu ser de esquerda, tenho de concordar que o Joaquim parece ter razão: a esquerda continua a defender as mesmas causas de há dezenas ou centenas de anos. No entanto, se analisarmos mais de perto, acabamos por descobrir que o fóssil é outro.

O problema é que a história que deu vida à esquerda está longe do fim. A esquerda existe e age, porque continua a selvajaria dos que, há milhares de anos, se alambazam com o trabalho alheio, negando-lhe, o mais possível, valor, considerando-o apenas despesa, ao mesmo tempo que usa a globalização para levar uma maioria a considerar que um emprego é uma benesse, mesmo que implique apenas direito a sobreviver, que viver é outra coisa. [Read more…]

Lista de Sócio-Enrabadores

O combate político é fodido. Vem um motociclo pela Esquerda e garante-nos que quem nos enraba é a Direita. Vem um Autocarro pela Direita e diz, não, senhor, quem nos enraba em Portugal, desde há décadas, é uma cultura de Esquerda em contraciclo com o resto do Mundo, uma cultura que petrificou a sua Constituição recozida, uma cultura de garantismo de direitos sem dinheiro para os garantir de facto, uma cultura e a sua petrificação mental. Não sei. Na minha lista de sócio-enrabadores há muitos cromos. Refuto, porém que a vocação nacional seja aturar sucessivas enrabadelas governamentais, num País onde a compita pelos orçamentos dita que muitos se comam vivos no grande balde de caranguejos. Só? É discutível. Para os mercados, o Tribunal Constitucional tem sido sado-masoquista e colocado Portugal sob risco ao obstaculizar a premência de reduzir a despesa, der por onde der, antes que as coisas piorem. Odeio a Troyka. Mas odeio ainda mais um caminho covarde e demagógico de a recambiar. O caminho dos seguros, dos semedos, das catarinas, e do diabo a quatro. Na minha lista de caramelos enrabadores cabe um Relvas, dois ou três isaltinos, mas nunca nos esqueçamos dos varas, dos sócrates, dos oliveira e costa, dos lima. A lista de enrabadores é enorme. Para que a havemos de resumir?!

Votar à Esquerda

Só há um dia em que somos todos iguais – o dia das eleições. Seja o CR7, o Passos Coelho, o Belmiro de Azevdo ou o sr. Carvalho, que vive aqui na rua, todos iguais no momento do voto.

Esta marca da Democracia também nos transporta para um outro sentimento de justiça, na medida em que podemos penalizar o mau Presidente, o péssimo governo ou as políticas erradas ou, continuar a votar em quem governa bem.

Tal como o meu camarada de escrita, parece-me que a solução nas nossas terras ou no nosso país passa pela esquerda, enquanto espaço de resistência às políticas que nos têm desgraçado nos últimos dois anos. Mas, a Esquerda tem tido (sido) um problema – não consegue encontrar um espaço para o que têm em comum. PCP, Bloco e PS, tal como a CGTP, têm sido actores políticos que sublinham sempre as diferenças entre si, quando há tanto que os une.

No que diz respeito ao sistema nacional de saúde, o BE, o PC e o PS não tem mais coincidências do que divergências?

E quanto à segurança social? Ou nos apoios sociais?

E, de forma ainda mais clara – a Escola Pública?  É ou não parte comum do património das Esquerdas? Será que o PS, o BE e o PCP não conseguem encontrar pontos comuns em torno deste pilar da nossa Democracia?

Tem que ser possível e aqui em Gaia há práticas nesse sentido.

A resistência em construção

Quem pensa que podemos sair do buraco onde nos meteram sem os partidos de esquerda está muito enganado. Os partidos de esquerda que pensam chegar a algum lado sem a mobilização dos que estão fartos de partidos e se querem manter independentes não vão longe.

Como se conjuga uma e outra coisa tem sido o problema.

Começou por se fazer na rua, em manifestações que, melhor ou pior geridas, colocaram a mobilização noutro patamar. Estas eleições permitiram ensaiar outro degrau. Falo dos movimentos de cidadãos independentes com ou sem apoio de partidos, e em particular daquele onde estou, o dos Cidadãos por Coimbra.

Juntar organicamente as mais diversas e pessoais vivências de esquerda é complicado. Inclui paciência, tolerância, e naturalmente conflitos, mal-entendidos, chatices: faz parte do fazer política. Só os que se fazem com a política não sabem o que isso é. Procurar consensos, e eles não sendo obrigatórios ajudam ao caminho, dá trabalho.

A transparência, a participação, o combate aos negócios autárquicos de todos os dias, unem. Como o pensarmos os vizinhos como a medida da cidade, aquilo a que sempre se chamou e tem de voltar a ser orgulho, o sermos progressistas.

Falta muita gente, organizada ou não? falta. Lá chegaremos.

Aquilo que já foi feito, a uma semana dos resultados, é promissor. Vários percursos na esquerda, várias correntes, muitas já históricas, e sobretudo quem nunca teve nada que ver com isso, todos sabendo que acima está aquilo que nos une, muito mais forte do que os divididos. Nada como amar a cidade e concelho onde vivemos para nos facilitar a vida:

[youtube http://www.youtube.com/watch?v=ZMwuZaoDxWQ]
Vídeo do Tiago Cravidão, digamos que a produção foi minha.

A esquerda no poder

Ouço dizer, muitas vezes, que se a esquerda tivesse chegado ao poder, o país teria entrado numa crise brutal, com o desemprego e a dívida pública sempre a aumentar, com a economia a estagnar e muitos outros episódios do apocalipse.

A não ser que esteja distraído, o país está numa crise brutal, o desemprego e a dívida continuam a aumentar e a economia está estagnada, com tendência para piorar. Por estes sinais, ficamos a saber que os governos responsáveis por este descalabro são de esquerda, como é óbvio.

Diante da necessidade de um governo de salvação nacional, penso que está na hora de o país virar à direita, permitindo que o PCP e o BE passem a governar o país. Só assim será possível emendar aquilo que os esquerdistas irresponsáveis do PSD, do PSD e do CDS andam a fazer há vários anos, num infindável processo revolucionário em curso, propiciador de instabilidade, com o Estado ao serviço de alguns privilegiados, à semelhança, aliás, do que aconteceu em muitos países do Pacto de Varsóvia.

Derivações

Ontem o PCP convida o BE para um diálogo à esquerda. Hoje o BE estraga tudo e convida o PS.

O governo Monti Papademos de Aníbal Cavaco Silva

cavaco-silva-roteiros-7Cavaco Silva mandou fazer um governo Monti Papademos, ainda não sabemos quem será o infeliz contemplado.

Cada país tem o seu pot-au-feu, variam os ingredientes mas o cozinhado é o mesmo: colocam-se numa panela e fervem em água.

A receita grega transformou o anterior partido no governo em quase nada, colocou a esquerda à beira do poder e a Alemanha a interferir descaradamente em eleições internas; a italiana fez de um novo partido populista (muito pior do que pensava) um vencedor inesperado. O cozido será à portuguesa mas dificilmente ficará longe do mesmo resultado: uma razia nos partidos arqueiros, ora intimados a entenderem-se sob a tutela de uma “personalidade”, eufemismo para um cavaquista qualquer.

Teremos portanto um governo mais ou menos medino mas seguramente carreirista, e a aplicação do permanente discurso anti-políticos do mais politiqueiro dos políticos portugueses, Aníbal de seu nome.

Os idiotas que se têm proclamado contra a “classe” política, misturando todos os partidos no mesmo saco, têm agora a sua oportunidade. Tenha a esquerda juízo, e por esquerda entendo também os deputados do PS que ontem não votaram com a troika, e a coisa promete. Guardado está o bocado.

Temos Aqui um Problema

E grave! Mas isso agora não interessa nada ao Credo de Esquerda. Porém, o problema move-se:

A promessa do “Estado social”, de uma garantia de uma pensão em função dos descontos feitos ao longo da vida contributiva, é, logo à partida, fraudulenta. O sistema de pensões equivale a um esquema de pirâmide em que os da base pagam as pensões dos do topo, e em que as verbas que estes últimos recebem, longe de estarem garantidas pelo tal “contrato”, dependem do número de pessoas (e montante de dinheiro que conseguem gerar) a alimentar o sistema na base. A proposta do Governo, por muito que ofenda as sensibilidades dos que a criticam, é a consequência natural do “modelo” que querem proteger.

Reside aí o erro de ver o sistema de pensões público como moralmente superior aos privados. Os socialistas de todos os partidos costumam dizer que estes últimos comportam um risco maior, que implicam entregar as pensões à “economia de casino” da “especulação bolsista”. Mas o “contrato social” não oferece maior segurança. Permite até que um dos contratantes (o Estado) altere os seus termos unilateralmente, sem qualquer compensação. Quem acha que entregar as pensões “aos privados” equivale a ir com elas para Las Vegas, ficando à mercê da sorte, devia compreender que, no nosso “Estado Social”, elas ficam à mercê da demografia e da discricionariedade de quem tem a “força” para impor condições. Em vez de Las Vegas, temos Chicago nos anos 20.

Bruno Alves

Pluralismo é

ser insultado e maltratado, diga o que disser, escreva o que escrever. Vou repetir: Soares já foi processado por incitação ao magnicídio?

Esquerda Protestatória, Cura-te a ti Mesma!

Passos não representa a ruptura que esperávamos com um modus operandi político-partidário que nos trouxe até às agruras presentes. Até pela forma como falha clamorosamente na moralização e robustecimento psíquico das pessoas, como o seu discurso é deprimente e passivo e pelo modo como encolhe os ombros perante o desfalecimento da esperança, dado não passar de longa manus dos incompetentes do EuroApupo. Só.

Abertura do sistema político aos cidadãos e a formas modernas de intervenção? Zero. Continuação dos velhos hábitos e das velhas submissões a banqueiros, aos rendeiros da Energia, dos combustíveis, aos que se penduraram no Estado, mamões das parcerias público-privadas e outros esquemas de dependência dos mais fortes no Estado Fraco que nos falha? Zero. Ruptura com a insultuosa mesquinhez dos belmiros? Zero. Mudar, de facto, não foi a praia de Passos. Federar-nos no reformismo por que se clama há décadas muito menos. Claro que os Bancos necessitavam de protecção e salvamento. Ok. Qualquer coisa como o contrário disto, na óptica desmiolada do PCP e do BE, representaria o colapso do País. As poupanças de uma vida salvam-se salvando efectivamente um Banco que ameaça colapsar, ou dois, ou três, por muito que os seus gestores merecessem prisão, talvez a forca, certamente a liminar inibição de conduzir os destinos daquele tipo de instituições. [Read more…]

Esquerdas pedem contas a Hollande

Francois_ Hollande_26_mai_1981_place_de_la_Bourse_Paris_copyright_Michel_Clement_AFP
Paris, 1981. Quando François Hollande era jornalista
(© Michel Clément/AFP)

Numa carta endereçada ao Presidente francês, quinze deputados pedem a François Hollande que responda à «aspiração legítima dos trabalhadores que votaram nele em melhorar as suas condições de vida materiais», exigindo que a agenda presidencial retome com urgência as questões do emprego e do poder de compra, colocando-as no mesmo plano prioritário das contas públicas e da competitividade, na senda da «grande reforma fiscal redistributiva anunciada por Hollande durante a sua campanha eleitoral.» Desemprego crescente, estagnação salarial, e dificuldades crescentes em chegar ao fim do mês com meios de subsistência – eis a vida da generalidade dos franceses, numa economia que em 2013 se prevê que entre em recessão. (fonte: AFP)

Quem Quer Casar com o PS-Carochinha?

Cartaz 03A crítica ao Sistema Político Português não pode deixar incólume seja que partido for. Já por demais abordei a questão do mutualismo essencial de esse sistema, que explica que o Protesto vá só até certo ponto e o Radicalismo não transite a estrema mínima do ponto de não retorno. Somos assim. Não disparamos na disputas de estrada. Não esfaqueamos ao menor insulto, após o acidente. Temos um inibidor idiossincrático que se manifesta nas pequenas coisas e nas de força maior, como o caminho para sair desta Vexante Ingerência Externa. Ora, tal crítica ao actual Sistema Político não é feita pelos que, pretendendo escapar a qualquer exame de Regime, se limitam a blasfemar contra a Esquerda do PS, quer contra o Partido Comunista, uma Igreja absolutamente previsível e dogmática, quer contra o minoritarismo incontornável do Bloco de Esquerda. Em Portugal, esta Esquerda de Cristal petrificou-se nos seus postulados, tão impermeável à big picture global e às dinâmicas do nosso tempo quanto assoberbados na sua mundividência exclusivista e colectivista como caminho milenarista obrigatório para organizar o mundo que não persuade nem conquista. No meio de este Parque Partidário Jurássico Nacional, o Partido Socialista, reduzido a uma agremiação de videirinhos incapaz de mais que sonhos mal disfarçados pelo enriquecimento pessoal instantâneo de um Playboy Parisiense ou de um Bardamerda Vara, nem que seja à custa das impressoras de dinheiro do Dr. Soares, não federa coisa absolutamente nenhuma. Associar-se ou submeter-se à agenda da restante Esquerda que o enjeita equivale a divorciar-se do Projecto Europeu bem como à perda de credibilidade junto dos partidos e forças sociais equivalentes na Europa. [Read more…]

A coligação PSD-CDS-PS

Talvez nunca como por estes dias tenha sido tão evidente (e até mesmo para a generalidade de distraídos) a mesmidade do PSD e do PS – e a actual cumplicidade horrorosa do PS com as acções da coligação que actualmente governa faz do PS um partido abjecto. Uma união à esquerda jamais poderá incluir o PS porque o PS não é elegível à esquerda. O PS tem as mãos sujas. O PS é um partido de quadros superlativamente comprometidos com as causas da nossa calamidade. O PS é um logro, a palavra socialista na sua sigla é um abuso de poder que serve para colher votos entre os incautos, e tudo na acção do PS de hoje é apenas e tão-somente a continuação disso. O PS é sem qualidades nem coragem política – gente nascida nesse universo de burgueses oportunistas wanna be à procura de emprego duradouro ou da vez deles nas cadeiras dos poderes próximos. O PS é o terceiro partido da coligação – nem alternativa, e nem sequer já alternância.

Greve geral: ménage à trois

Acerca da minha relação com as greves de um dia, não tenho muito a acrescentar àquilo que já escrevi e partilho a opinião do Ilídio Trindade, partindo do princípio de que haveria união suficiente para se fazer uma greve por tempo indeterminado.

De qualquer modo, não posso dizer que esteja exactamente entre o João Paulo e o José Magalhães, porque, como o primeiro, vejo muitas razões para protestar, mesmo recusando-me a fazer greves que considero inofensivas; ao contrário do segundo, no entanto, penso que, relativamente ao Estado e ao Governo, os cidadãos deste país não são devedores de coisa nenhuma, são credores de uma dívida incomensurável e protestar, com ou sem greve, é, na realidade, reclamar o pagamento, ou seja, fazer cobranças difíceis.

Entretanto, qualquer um deles cai no erro – eventualmente inevitável – de retratar (ver é outra coisa) a realidade a preto-e-branco, embora eu tenha a certeza de que sabem que o mundo tem mais cores. A incómoda afeição que sinto por ambos impede-me, no entanto, de transformar estas minhas discordâncias em palavras agrestes, até porque, seja como for, andar à porrada a três não deve ser fácil, sobretudo para quem fica no meio.

O PS já esteve neste governo

Nogueira de Brito “Cavaco devia fazer um esforço grande para meter o PS neste governo”

PS de AJS

Gostei da iniciativa do PS de comemorar o 5 de outubro. Há quem o considere dispensável – eu não penso assim e é claro que um partido de matriz republicana não pode deixar passar o 5 de outubro de uma maneira qualquer. Aliás, ontem foi um dia que muitos quiserem aproveitar:

– o Sr. Silva aproveitou para colocar a bandeira ao contrário;

– a CGTP iniciou a Marcha contra o desemprego;

– a FENPROF ( o dia 5 de outubro é o Dia Mundial dos Professores) fez tanta coisa que …;

– o Congressso das Alternativas aconteceu.

Mas vou voltar ao PS – a ideia de recuperar o 5 de outubro é brilhante! A ideia de reduzir o número de deputados é uma estupidez. É uma forma fácil de demagogia – é como reduzir concelhos, círculos uninominais e outras coisas que tais. O PS  com AJS tem e deve crescer mas não precisa de esmagar a sua esquerda na secretaria. Tem que convencer pelas ideias. Será assim tão complicado entender isso?

José Sócrates está no Congresso Democrático das Alternativas?

A minha desilusão com os políticos é tal que me tenho limitado a votar em qualquer coisa que considere um mal menor, mantendo uma inclinação para a esquerda.

Depois de ter desistido do PS, já há uns anos, tenho deixado o meu voto no Bloco de Esquerda, o que tem contribuído para tranquilizar a minha consciência, porque não foi à custa do meu voto que os meus concidadãos foram prejudicados por uma série quase infindável de medidas cuja qualificação mereceria não adjectivos mas uma catadupa de palavrões.

Como já tive oportunidade de escrever, goste ou não do estilo, concordando mais que discordando, o saldo que faço das várias intervenções de deputados do Bloco e do PCP é amplamente positivo. Entre outras afirmações, basta lembrar que foi deste lado que partiram avisos acerca das várias consequências da austeridade cega, como o aumento do défice e do desemprego. [Read more…]

RTP: sempre a diabolização do Estado

A febre de privatizar que atacou os governantes portugueses tem, aparentemente, origem no princípio básico e respeitável de que é necessário poupar. A verdade, no entanto, é que, escavando um bocadinho, descobre-se que o desperdício do dinheiro que é preciso, agora, poupar foi da responsabilidade de muitos amigos e conhecidos desses mesmos governantes. Diante destes factos, o governante esquece-se das pessoas e ataca o Estado, considerando-o um mau gestor, porque é mais fácil culpar abstracções do que companheiros de partido. [Read more…]

Resposta a “Esquerda – destinada a perder?”

Por LuisF

Comentário ao post Esquerda – destinada a perder?.

O século XX assistiu ao apogeu e declínio da esquerda. Esta, conquistou poder e falhou na sua execução, perdendo aí parte do referencial de humanismo progressista que lhe estava (e está) na base. Com a queda do modelo económico e de organização social caiu também a pujança ideológica mais radical, vermelha e comunista. As variantes social democratas não passam de subterfúgios menos ambiciosos duma sociedade baseada no “homem bom” capaz de se organizar em prol da comunidade. Esse “homem bom” revelou-se como é: individualista, interessado no melhor para si, e para os seus. A esquerda não o previu, não o incluiu nem criou formas de o “auditar”…

Apesar desta “dura” realidade para as almas generosas (e talvez a mais bela matriz da esquerda esteja precisamente no sentido humanista de protecção dos fracos e tolerância à diferença), a verdade é que o mundo precisa da “esquerda” como nunca.

Não obstante, a esquerda está ainda na ressaca dos seus próprios “falhanços” históricos e continua a ignorar as alterações profundas que o mundo experimentou nos últimos trinta anos.
Em Portugal, a esquerda “parlamentarizou-se”, sentou-se do conforto dos telejornais, na maciez amorfa do sistema e desistiu das lutas verdadeiras, optando em muitos casos pelas causas perdidas ou até levianas.

[Read more…]