Já lá foram 45 anos

Santana Castilho*

Boa parte da população portuguesa não tinha nascido a 25 de Abril de 1974. E porque a disciplina de História é bastarda para o que resta do currículo nacional, será cada vez maior o desconhecimento sobre o 24 de Abril, se não devolvermos siso ao sistema nacional de ensino. Porque narrar com rigor histórico o que aconteceu no passado não é apenas pugnar pela identidade de uma comunidade. É dar aos mais novos um instrumento vital para fazerem opções de futuro.

Não me aqueceu a alma a sessão solene do 25 de Abril, formalidade sem rasgo, com muitos ecos falsos, a começar por Carlos César, do PS. Com tanta coisa por fazer, apenas Marcelo, ainda assim em modo Cavaco (sem cravo na lapela), fez uma intervenção para ser ouvida, comparando o querer dos jovens de então com o querer dos jovens de hoje. Ferro Rodrigues proclamou-se, explicitamente, pior tratado “do que os cães” e, implicitamente, masoquista. Porque aceita tais tratos de polé, de livre vontade, digo eu, pelo menos desde 1985.

O PSD enganou-se no papel e fez um belicoso discurso de campanha. O CDS, incapaz como sempre de distinguir os dois 25 (o de Abril e o de Novembro), esforçou-se por esconder que a data (a primeira) o incomoda. O PCP e o Bloco fizeram intervenções condicionadas pelo suporte dado à “geringonça”, beneficiada a do Bloco pela emotividade inerente ao percurso de vida de Jorge Falcato.

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Nuno Melo não tem a certeza de que o Vox seja de extrema-direita

E já que os comunistas também não têm a certeza de que a Coreia do Norte seja uma ditadura, parece-me que estão quites.

A discriminação dos professores contratados

Imagina que o teu horário de trabalho era de 40 horas semanais, mas o teu patrão só considerava 20 para efeitos de Segurança Social.
É precisamente o que se passa actualmente com os professores contratados. Têm horários incompletos e por isso mesmo as escolas só lhes fazem descontos pela componente lectiva, ou seja, pelas horas dadas efectivamente em sala de aula.
O Ministério da Educação paga essas horas e os professores trabalham-nas, mas no fim da carreira, quando chega a reforma, é como se essas horas não existissem. Os professores contratados não prepararam aulas, não estiveram presentes em reuniões, não fizeram nem corrigiram testes.
Definitivamente, estamos a falar de uma classe à parte. A mesma que, aqui há 20 anos, era a única em todo o país que não tinha direito a subsídio de desemprego.
Governo de Esquerda? Um Governo que discrimina assim uma classe profissional, atropelando os seus direitos mais básicos, devia ter vergonha quando diz que é Esquerda.
Os Partidos que o apoiam também.
Quanto aos sindicalistas, não os aborreçam muito, que ao fim de um ano de trabalho árduo sem dar aulas já devem estar à espera de ir de férias.
9 anos, 4 meses e 2 dias? 9 anos, 4 meses e 2 dias? 9 anos, 4 meses e 2 dias?
Esqueçam! Este país não é para professores contratados… até porque nenhum sindicalista o é.

“Já lhe parti o focinho!”

Santana Castilho*

“Um aluno de 12 anos agrediu a pontapé e a soco um professor de 63, depois de este o admoestar por estar a brincar com uma bola dentro da sala de aula”, podia ler-se numa peça recente deste jornal. No desenvolvimento do texto, ficava-se a saber que o pequeno marginal tinha proferido a bazófia que “puxei” para título desta crónica. O tema foi objecto de múltiplas referências em jornais e televisões mas, 12 dias passados, está arquivado no limbo do esquecimento, para onde são remetidos os sucessivos episódios que documentam o mais grave problema da escola pública: a indisciplina. Com efeito, entre tantos outros, quem se lembra do caso de um aluno de 11 anos, violado por um colega no interior de uma escola de Montemor-o-Novo, do Leandro, 12 anos de vida, que se suicidou nas águas do Tua para fugir ao bullying dos colegas, ou do Luís, professor de música, que se atirou da Ponte 25 de Abril, “empurrado” por pequenos marginais que não o deixavam dar as suas aulas?

Voltando à agressão, já que da boca do ministro da Educação não se ouviu uma palavra e o Presidente não fez selfie com o professor agredido, arrisco eu a fotografia breve da situação que explica a cena. [Read more…]

E se o Brasil revogar o acordo ortográfico?

[João Roque Dias]

Lanço-vos um desafio. Imaginem que acordam um dia, ligam o transístor, lêem o jornal do vizinho no metro ou na Internet e ficam a saber que o Brasil acaba de revogar o acordo ortográfico de 1990.

Uns darão pulos de contentes, outros ficarão verdes de raiva, mas nada disso vem agora ao caso.

Primeiro, há que ter em conta que o Brasil é useiro e vezeiro em rasgar os acordos ortográficos assinados com Portugal e, se o de 90 for também mandado à fava, será apenas o terceiro. Eu conto-vos como foi:

Da primeira vez, quando, a 1 de Setembro de 1911, entrou em vigor em Portugal a Reforma Ortográfica sem termos falado com o Brasil, começou por lá um burburinho tremendo (mas só nos salões aveludados, por senhores de chapéu alto) sobre o nosso desplante. A coisa durou pouco, porque, quando abriram os olhos, viram que a Reforma portuguesa era mesmo coisa bem feita. Tão bem feita que, a «sua aceitação acabou sendo até maior do que aquela anteriormente realizada pelos acadêmicos brasileiros, pelo menos nos primeiros anos subseqüentes à mesma: em 1915, por exemplo, a própria Academia Brasileira de Letras acabaria aceitando um parecer de Silva Ramos (julho) que tornava oficial o sistema ortográfico lusitano, eliminando todas as divergências ortográficas entre Brasil e Portugal (novembro). Só que, «quatro anos depois (1919), a mesma academia voltaria atrás, renegando a proposta de Silva Ramos e abolindo a resolução de 1915. O amor-próprio e o sentimento nacional brasileiros parecem ter, no final das contas, prevalecido.» (in REFORMA ORTOGRÁFICA E NACIONALISMO LINGÜÍSTICO NO BRASIL, por Maurício Silva (USP).

E da segunda vez, quando, 10 de Agosto de 1945, o Brasil assinou com Portugal a “Convenção Ortográfica Luso-Brasileira de 1945”, e a adoptou pelo Decreto-lei 8.286, de 05.12.1945, mas que a renegou, DEZ ANOS DEPOIS, pelo Decreto-lei 2.623, de 21.10.1955.

Mas imaginemos que do Brasil chegam mesmo notícias da incineração do monstro.

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Ensaio sobre a perturbação do sono
ou indagação sobre as origens do meu respeito pelo sono alheio

Rui Ângelo Araújo

Bill Brandt, «Dreamer», c.1939

O problema de se ir para a cama cedo, no local onde vivo, é termos frequentemente o sono interrompido, já que a partir das duas da manhã, com uma pontualidade desesperante, se instala um pandemónio na rua, em ondas, à medida que sucessivas hordas de estudantes universitários e outros teenagers se deslocam dos bares do lado nascente do bairro, que fecham àquela hora, para outros bares a poente, que encerram mais tarde.

A turba tem de madrugada um comportamento que suplanta em inútil tontaria e decibéis o que demonstra durante as horas do dia. Não me refiro aos hinos patetas que utilizam nas praxes e que àquela hora tantas vezes repetem com vigor, associados a cânticos hooligans, mas a todo um outro repertório movido a álcool e estimulado pela intuição, certeira, de que a noite é deles e delas. Brados, guinchos, berros histéricos, urros cavernosos, por vezes lançados a solo, por vezes a várias vozes esganiçadas e desafinadas, como coros de um dos círculos do Inferno, decerto o dos néscios, ou como uma não metafórica teatralização sonora e gestual de selva urbana enquanto réplica da selva tropical, com a sua múltipla fauna, da passarada guinchante aos grandes felinos rosnantes, passando pelos primatas urrantes, batendo como eles mãos torpes no peito, numa bravata própria de estádios inferiores da evolução ou, mais prosaicamente, dos clássicos bêbados expulsos da taberna. [Read more…]

Mais justiça, menos lei

[Marco Faria]

O “Público” trouxe-nos a história na quarta-feira (e Fernando Alves nos “Sinais” já dissecou o caso).
Em 2014, um homem, de 42 anos, bebeu meio bagaço logo pela manhã num café em Amarante. Teve uma queda e, desse acidente, resultou um traumatismo crânio-encefálico, que levou à sua morte. Devia ainda 35 mil euros do empréstimo de compra da casa à Caixa Geral de Depósitos. A viúva accionou o seguro de vida da Fidelidade, mas a seguradora descartou-se do pagamento desse valor em falta, mantendo a dívida sobre a viúva.
A decisão da 1.ª Secção Cível Tribunal da Relação do Porto é um exemplo flagrante da fronteira entre lei e justiça. Podíamos estar horas a discorrer sobre se a lei é injusta, e está correcta a aplicação da modalidade do abuso de direito, «Venire contra factum proprium» (basicamente, aquele que não cumpre com as suas obrigações, não pode retirar vantagens desse incumprimento).
Mas há pontas soltas deste acórdão. Algumas. [Read more…]

Todos ao pedal

Santana Castilho*

1- Escassas semanas após a criação da nossa agência espacial, li na imprensa que haverá um “quadro de referência nacional para ensinar a pedalar”. Li igualmente que aprender a pedalar será matéria do currículo escolar e fiquei ciente de que “no 1º ciclo, as aulas serão em contexto protegido” enquanto “nos 2º, 3º ciclos e secundário haverá uma passagem para o espaço público”. A coisa foi anunciada aos indígenas por José Mendes, secretário de Estado adjunto e da Mobilidade. 

No atrasado Alentejo onde fui parido, pedalar era uma aprendizagem natural, assim houvesse um selim onde assentar o rabo. E porque sempre foi assim, de norte a sul, e assim deve continuar a ser, importa contraditar os avançados mentais da parolice curricular. 

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A futebolização do País

Pedro Correia

Vivemos por estes dias mergulhados na futebolização do País. As pantalhas dedicam horas sem fim à conversa de taberna sobre bola transposta para os estúdios televisivos. Os partidos manipulam militantes, tratando-os como membros de claques de futebol. Os debates políticos estão cheios de metáforas associadas ao chamado desporto-rei. E a linguagem mediática imita o pior dos jargões ouvidos nos estádios, anunciando divergências ao som de clarins de guerra.

Há dois aspectos a ter em conta neste fenómeno: um é o factor de identidade tribal potenciado pelos clubes desportivos. Em regra este é um factor positivo: o ser humano necessita de mecanismos de afinidade grupal e quando faltam outros, mais tradicionais, o desporto – ou, no caso português, apenas o futebol – potencia-o como forma de preencher algum vazio deixado pelos restantes (família, igrejas, sindicatos, partidos, academias, etc.)

Outro – muito diferente e claramente negativo – é o da diabolização do antagonista. Este é um fenómeno com ramificações muito diferentes, e algumas bem recentes, influenciadas pela linguagem dicotómica das redes sociais, que tendem a ver tudo a preto e branco, numa réplica do imaginário infantil (cowboys & índios; polícias & ladrões, etc) transfigurado para a idade adulta. [Read more…]

Parabéns, pré-históricos

Alexandre, 12 anos

Há dez anos nasceu um blogue chamado Aventar. A sério? Um blogue? Já ninguém usa isso. Já ninguém se lembra do que isso é,  sequer. Vocês deviam ter um canal no Youtube ou uma conta no Instagram, mas pronto – SEM S! -, o blogue lá nasceu e as pessoas foram-se juntando como na União Europeia, só que nesta União Europeia ninguém paga a ninguém (ah, isso é que era bom, mais um eurito de semanada…) Mas atenção que isto também tem vantagens, oh não é só desvantagens, aqui não há nenhuma Teresa (acho eu) nascida em maio a chatear-nos o juízo com BREXIT para aqui BREXIT para acolá, um bocado como as bolas da árvore de Natal. [Read more…]

A arte de destruir a Linha do Douro

miradouro

[Luís Almeida]

Ao longo dos anos, os pseudo ferroviários que administram e definem politicamente as orientações do setor tem-se revelado muito criativos na “arte” de destruir a oferta comercial de linhas ferroviárias um pouco por todo o país.
E quando se pensa que já se viu de tudo, percebe-se que a imaginação não tem limites.
Em 2016, os operadores fluviais do Douro deixam de usar o comboio por falta de fiabilidade e condições de conforto da oferta ferroviária. São os parâmetros mínimos de um transporte ferroviário de sucesso. Estima-se que 30 mil passageiros passaram do comboio para os autocarros.

Em 2017, a CP reage, por pressão dos operadores interessados em vender um produto no Douro que tenha… Douro! Assina-se pomposamente um protocolo em Janeiro e um novo comboio, exclusivo para operadores, começa a circular em Maio. Os mesmos operadores exigem que o mesmo se prolongue até ao Pocinho, a CP não acede mas percebendo finalmente a importância dessa parcela de turismo e a reboque de tudo o que há décadas se faz na Europa em matéria de turismo ferroviário e que se traduz em relevantes receitas para as empresas, lança o Miradouro até ao Tua. [Read more…]

Quando Seixas da Costa, o embaixador pistoleiro, andava aos tiros a jornalistas

Depois de ter chamado javardo a Sérgio Conceição, aos portistas e aos sportinguistas apoiantes de Bruno de Carvalho, o embaixador Seixas da Costa veio admitir que provavelmente não escolhera bem as palavras.

É uma constante, de resto, na vida desta personalidade pouco diplomática: a má escolha das palavras e das acções.

Que o diga o jornalista Simões Ilharco, que em 1975 levou um tiro. Seixas da Costa deixou-o entre a vida e a morte.

Muita sorte teve Sérgio Conceição. Desta vez, o embaixador pistoleiro ficou-se pelas ofensas verbais.

Pouco certeiro no tiro a Ilharco, que ainda assim escapou, Seixas da Costa foi bem mais certeiro nos seus disparos politicos. Com um único tiro junto do ICOMOS, assassinou a Linha do Tua em nome de uma barragem que interessava a muita gente.

Interessava ao Governo PS, que em 2017 o nomeou para o Conselho Geral da RTP. Interessava à construtora Mota-Engil, que o convidou para administrador da empresa. Interessava à EDP, que também o convidou para seu administrador.

É hoje tudo isso e ainda administrador da Jeronimo Martins e opinador em tudo o que é sítio.

Não há almoços grátis e Seixas da Costa sabe-o melhor do que ninguém. Ele e a generalidade do PS, que neste tipo de promiscuidades consegue ser ainda pior do que o PSD.

Os outros? Os outros são uns javardos.

 

 

 

Partiu pela curva da estrada

Ao Emanuel

“Pai, o Porto ganhou ao Braga”
O sr. Marques abriu os olhos, olhou nos olhos e sorriu ligeiramente. Há dois dias que não conseguia fazê-lo.
A doença progrediu muito depressa. Quando chegou ao Hospital de S. João, há cerca de um mês, já estava condenado. Do pâncreas, o bicho fora para o fígado e pulmões e, agora no fim, para todo o lado.
A equipa médica informou a família há uma semana de que não havia nada a fazer. Puseram-no então na unidade de Cuidados Paliativos – as condições de que usufruiu nos últimos dias deixam-nos orgulhosos do nosso SNS.
Ontem à tarde, chamaram a família. Chegara o momento das despedidas. Os que mais o amavam estiveram presentes.
“Pai, o Porto ganhou ao Braga”
Foi a última coisa que ouviu. Abriu os olhos, olhou nos olhos e sorriu ligeiramente.
Como uma cotovia, começou a respirar cada vez mais baixinho até deixar de se ouvir. Partiu, “pela curva da estrada”, pouco depois das 18 horas.

«Na Vida que a Dor povoa,
Há só uma coisa boa,
Que é dormir, dormir, dormir…
Tudo vai sem se sentir.
Deixa-o dormir, até ser
Um velhinho… até morrer!
(…)
E os anos irão passando.
Depois, já velhinho, quando
(Serás velhinha também)
Perder a cor que, hoje, tem
Perder as cores vermelhas
E for cheiinho de engelhas,
Morrerá sem o sentir,
Isto é, deixa de dormir:
Acorda, e regressa ao seio
De Deus, que é donde ele veio” (Antonio Nobre)

Francisco Seixas da Costa é um javardo


Francisco Seixas da Costa até nem parecia ser um mau embaixador. Mas é – sejamos claros! – um javardo. Deixemo-nos de eufemismos. E os políticos que se revêem no seu estilo são isso mesmo – uns javardos.
Para além de javardo, é cobarde. Atira a pedra e esconde a mão. Não gostou que lhe respondessem à letra no Twitter, vai daí fez-se de calimero (como se os primeiros insultos não tivessem partido dele) e a seguir bloqueou a sua conta.
Para além de javardo, não sabe escrever. Revêem-se escreve-se com dois e. Com um e, fica revêm-se – se não sabe o que significa, pergunte ao seu colega Jorge Ritto.
Quando penso em Francisco Seixas da Costa, penso num dos coveiros da Linha do Tua. A mando de Sócrates e de Mexia, prestou junto do ICOMOS um trabalho essencial para a construção da barragem e para a destruição de uma das mais belas linhas férreas do mundo. Espero que tenha sido recompensado em conformidade.
Entretanto, muito atento ao fenómeno futebolístico, ficamos a saber por si que os adeptos do FC Porto são javardos e que todos os sportinguistas apoiantes de Bruno de Carvalho também o são. De fora da sanha javarda de Francisco Seixas da Costa fica Luís Filipe Vieira. Pelos vistos, o discurso por ele proferido na Assembleia Geral do Benfica há pouco tempo – «Não comprámos o filho da puta de um resultado», «Jorge Mendes não tem um caralho de um jogador, caralho» ou «Isso é merda» – não é suficiente para ser apelidado de javardo.
Pois é, senhor embaixador, o respeitinho é muito bonito.

Aqui estamos

Isabela

Aqui cheguei um dia ao Aventar por acaso ( ou não ) e o certo é que por aqui fiquei convosco, com visita ”obrigatória” diariamente no meu recanto de intervenção muito limitada/condicionada e pessoal, mas firmada em princípios, alguns agora apelidados de conservadores, segundo a minha circunstância familiar, …eu que, desinformada e um tanto ingénua por educação “castradora”, marcada igualmente pela utopia dos saudosos anos sessenta, comecei a tomar consciência da complexidade do mundo só tardiamente lendo por ex. Roger Garaudy  e posteriormente em convívios  a outros níveis que não só familiar e restrito, atrevendo-me agora a comentários de acordo sobretudo com essa minha sensibilidade e vontade de acreditar ainda que é possível mantermos a esperança e teimosia simbólica de querer “ouvir as pedras a cantar ” (conforme poeta grande nosso e quase esquecido, José Gomes Ferreira) .

Apesar das pragas trazidas pelos vendavais, a capacidade de ter consciência do mundo que nos rodeia, socialmente interveniente e defensora das minhas opiniões mesmo que nem sempre escutadas ou pelo menos consideradas, ousando até agora contra essa coisa esquisita do política/socialmente correcto. [Read more…]

Respigar*

Glória Sacer*

Celebrando os 10 anos do Aventar, em que respigamos o que o dia nos traz de novo, trago o meu poema Respigar, também ele uma homenagem à cineasta belga falecida ontem: Agnes Varda.

“Nos meus filmes quero fazer com que as pessoas vejam profundamente. Não quero mostrar as coisas, mas quero dar às pessoas o desejo de ver.”
Respigar – O que foi que eu fiz ao dia de festa
No, no. Yo no pergunto, yo deseo. (Lorca)

O que foi que eu fiz ao dia de festa,

como uma flor deitada à beira do morto

imagina como morro

familiarmente e devagar,

devagar celebra – de ontem – o acerbo

e deseja relâmpago

a terra ou eu a tua água

aveludada sede

o poema

meu

esse pomar no filão de sóis

entardecendo-nos lado a lado,

e a vontade: não, não

chegar o quanto antes

a esse lado que nos traz ioiô;

ali o boomerang-amor

impedindo-nos a fuga fácil

a esse fluxo de fastio,

e a surpresa reacendo-nos

os olhos e o ventre

lado a lado: o gozo da caça,

os risos das noites de chuva arrancando

da puberdade o mar,

o coração exposto ao veneno

múltiplo das palavras

e no grupo de cães as cadelas

lambiam o próprio pêlo e o sexo

e bailavam atrás de nenhum rabo

e estabeleciam o preceito

e a intensidade da dentada

e o tão profundo medo de olhar

o sol vazado sob a areia,

veias de terror, as pegadas

tatuando dias e noite:

até morrerem – deslumbradas –

com a carne;

e a dor fecunda como a lua,

no seu movimento peculiar,

os olhos da infância,

o gozo e o riso dos olhos da infância

extinguindo-nos

diamante o sentido livre;

e o imprevisto viveu outra vez

a carne, o frio, e neles a ficção

ficando aquém de todo o sangue –

esse momento disseminando-nos

em agora: bailarina ou soldado,

e a metáfora embala, lambe

o coração em bala mata

o impossível nas forças armadas

e as nossas forças blindadas,

de visita ao corpo de batalha;

outra vez, já enternecido desse dia, fica

segando inevitáveis colmeias ou o coração

escorrendo ou discorrendo

– o quanto gostes –

exclui o mel – sem esquecer – o quase

familiar compacto

adoecer da noite.

[Continua]* poema de 2002/3

Nem tudo pode ser atribuído à natureza – o corrupto governo moçambicano tem a sua quota-parte de culpa

Michael Hagedorn

Sem dúvida que a ajuda às vítimas do ciclone IDAI é imperiosa e premente. Mas nem por isso há que fechar os olhos ao contributo do governo moçambicano para esta tragédia e para a situação miserável em que o país se encontra.

A última grande catástrofe com fortes cheias em Moçambique foi há quase 20 anos e, nesta época do ano, o país é regularmente fustigado por devastadores ciclones.

Mas o que foi feito, depois da calamidade ocorrida em 2000, para evitar que as consequências das próximas fossem tão dramáticas? Nada. Uma elite corrupta não fez nada para assegurar que na segunda maior cidade do país, que está praticamente ao nível do mar, fossem realizadas medidas concretas e eficazes para proteger as pessoas dessas devastações cíclicas. Desde o fim da guerra em 1992, o nível de vida da população pouco melhorou. No relatório da ONU sobre a pobreza, Moçambique ocupa o 180º lugar entre 186 países. [Read more…]

O elogio da saudade

João Branco

 

Certo dia, Jean-Paul Sartre afirmou que “cada palavra proferida surte as suas consequências, mas, cada silêncio também”. O silêncio mata mais do que um berro, do que uma discussão acalorada, fruto do momento. O silêncio é a arte da tristeza, os píncaros da solidão, o maior inimigo humano. Antoine Saint-Exupery pintou o quadro construtivista da nossa existência enquanto ser social, quando ditou que “somos responsáveis por todos aqueles que cativamos”.
O tempo, esse magnífico escultor de Yourcenar, não perdoa e avança a galope pela estrada fora, qual Julian Alaphillippe nos cumes dessa Europa. Se a minha vida fosse uma subida ao Muur-Kapelmuur ou ao Muur de Huy, certamente nunca teria passado da base.
Como um dia cantou Kate Bush: “se eu pudesse fazer um acordo com esse Deus de mil faces, e o convencesse a mudarmos de posições, eu subiria com todo o gosto essa estrada, essa colina, esse edifício” vezes sem conta, mesmo se não fosse para cortar a fita na primeira posição, porque saberia de antemão que estaria a chegar e a aspirar sempre a um mundo melhor.
Tu és e sabes que és o meu mundo melhor. A crítica mais certeira e aquela que me doeu mais nos últimos anos, porque de facto roça a obscenidade da verdade, esse valor tão raro nos dias que correm e como tal tão obsceno para tantas pessoas, foi proferida por uma das pessoas descritas neste breve exercício de ajuste de contas com o meu passado, com esse tenebroso monstro que por vezes não nos deixa avançar: “Tu prometes mundos e fundos às pessoas e depois nunca cumpres, não porque não queiras ou porque não trabalhes para isso, mas porque as tuas expectativas são sempre superiores à tua capacidade de trabalho”. Passaram 10 anos sobre a formação desta casa aberta por uma das pessoas com as quais me pretendo reconciliar nesta casa com este texto, o Ricardo. Porém, antes de passar ao Ricardo, que ainda está vivinho e de boa saúde, vêm-me à mente duas outras pessoas do meu passado com quem me quero reconciliar: uma infelizmente não está entre nós. A outra ainda está mais presente do que nunca, apesar da distância. Este post é dedicado ao Ricardo, ao João José e à Natascha, três das pessoas que mais rasto deixaram na minha existência, três das pessoas que mais marcas me deixaram no corpo.

“Eu sei que a saudade está morta… Quem mandou a flecha fui eu” – Conan Osiris

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Carta de amor e de eutanásia

[Pata Negra]

Amélia,

Espero que esta carta te vá encontrar de saúde que por cá a guerra não deixa que te dê boas notícias.

Estranharás a falta da palavra “querida” antes do teu nome mas reconhecerás certamente a caligrafia. Sou o Janardo, o amigo a quem o teu Bernardo tem ditado todas as cartas de amor que tens recebido. Sei que também tu és uma analfabeta e peço, por isso, à interposta pessoa que faça guarda do que te vou contar e que, tal como eu sempre faço, tenha com este serviço uma fidelidade inabalável ao dito e ao lido e um voto de segredo tão sagrado como o dum padre confessor.

Bem sabes, das missivas passadas, como é a vida da tropa no inverno das trincheiras mas o Bernardo nunca te disse que, por vezes, as ânsias de sair da podridão são tantas que recebemos com alívio as ordens para uma missão de reconhecimento nas hostes ou mesmo para fazer um avanço com fogo sobre as suas linhas. No passado dia 10 de Fevereiro, eu, o Bernardo e mais dois camaradas partimos, destemidos, para uma dessas arriscadas incursões. Os boches atacaram-nos, os outros dois caíram que nem tordos, o Bernardo ficou desfeito e moribundo mas ainda com vida para me fazer um último pedido. [Read more…]

O violento ataque do «Chega» de André Ventura aos Bancos e Grandes Grupos Económicos

E de nós, quem cuida?

Carla Catarina Neves

Comecei a pensar neste texto, a 26 de Fevereiro. E comecei a traçar umas linhas “orientadoras”, precisamente nesse dia. Mas… tal como expliquei a quem me desafiou, o mais provável é que isto demorasse a sair. Nessa semana, estava ainda mais sobrecarregada. Aos meus dependentes habituais (tia e avó), juntava-se mãe (recentemente operada a uma catarata e a exigir acompanhamento) e pai (com conjuntivite infecciosa). Ou seja: o trabalho que era dividido habitualmente por 3, passou a ser desempenhado por um.

Diariamente, subo/desço 920 degraus. Nessa semana, contabilizei 16 kms diários (entre as 8h30 e as 2h da manhã). Banhos, refeições, tratamento de roupas, compras SOS, farmácia, consultas, etc. Conseguem ter uma ideia do que isto é? Se calhar, por muito boa vontade que tenham, não conseguem.

Quando foi a última vez que foram ao café, ao cinema, jantar fora ou dar um passeio sem terem de olhar para o relógio ou para o telemóvel (para saber se alguém tinha ligado a pedir ajuda)? O Cuidador já nem se lembra do que é ir comprar pão sem ser à pressa. Multipliquem isto 24h/dia, 365 dias/ano.

Mas o que é, afinal, um Cuidador Informal? Cuidadores informais são todos aqueles que prestam cuidados aos outros, de forma continuada e sem qualquer remuneração.
Normalmente, são familiares mas – e ao contrário do que saiu da proposta do Governo – , também são frequentemente assumidos por vizinhos e amigos. É também graças a eles, que não se ouvem mais notícias trágicas sobre pessoas encontradas mortas, nas suas casas, ao fim de dias. [Read more…]

Rui Pinto está preso, mas os criminosos continuam em liberdade

Uma Justiça corrupta, num país corrupto, prende aquele que denuncia os crimes dos poderosos.
Mas aos poderosos, deixa-os em liberdade e não demonstra grande interesse em deitar-lhes a mão.
Não são as denúncias dos crimes dos poderosos que põem em causa o Estado de Direito. O que põe em causa o Estado de Direito é essa criminalidade, essa corrupção aceite e perdoada.
Rui Pinto não tem hipóteses. A Justiça corrupta vai condená-lo e vai conseguir que, no remanso da prisão, alguém lhe trate da saúde.
Rui Pinto morreu hoje e a Justiça portuguesa tem as mãos cheias de sangue.
Entretanto, os criminosos que Rui Pinto denunciou continuarão à solta. Já lá está dentro o único que tinha de estar. Para a Justiça portuguesa, foi apenas mais um dia no escritório.

Uma gigantesca prova de corta-mato nacional

[Pata Negra]

Bush filho, quase tão inteligente como Trump, apresentou um dia como solução para os incêndios na terra dos índios o corte das árvores da floresta. É assim a América do nosso contentamento: se aumenta a insegurança, há que munir os cidadãos de mais armas; se há fogo, corte-se o mal pela raiz, faça-se da floresta deserto.

No Portugal do nosso entretenimento, do fazer de conta que se faz, os fogos seguem o modo de pensar inteligente do amigo americano. Não chegam os carros de bombeiros, compram-se mais carros de bombeiros, não chegam mais carros de bombeiros, chamam-se helicópteros e aviões, não chegam os meios? ah! então vamos pensar…

Não pensando na destruição da agricultura e da pastorícia, não pensando nos fatores económicos que ditaram o abandono da floresta, não pensando nas medidas de encerramentos de serviços e na inevitabilidade de concentração da atividade económica e do emprego nos grandes centros, os corredores do Grande Centro pensaram então:
– Fazer pagar, aos que por lá resistem, os males das políticas que lhes têm sido infligidas. Punam-se esses malandros! Multas pesadas para cima deles! Não têm dinheiro? Então o que é que fazem às reformas que lhes damos?
Conclusão, pensam que podem acabar com os incêndios com a desertificação humana total. Não pensam, os imbecis, que o valor das propriedades, ou do rendimento que delas se tira, não chega para a despesa duma única limpeza anual, nem tão pouco para os custos cobrados pela sua eventual venda.

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Revoluções inevitáveis

Raquel Varela*

Este ano celebram-se os 100 anos da revolução alemã, os 100 anos da revolução húngara, os 70 da revolução chinesa, os 60 da revolução cubana, os 40 da revolução iraniana, os 40 da revolução na Nicarágua, e para quem, como eu, considera a queda do Muro e Tiananmen dois movimentos revolucionários (porque em história não se confundem processos com resultados), celebram-se os 30 anos do começo do fim da URSS e das esperanças numa China com menos opressão política. Todas estas datas têm vários factos em comum, mas dois deles são fulcrais: a força das massas contra o Estado, criando uma esperança única ao nível das mudanças no século XX,  e a derrota destas forças em regimes políticos que se consolidaram contra elas. Negar o papel das revoluções no século XX é negar que a par do lucro, força motriz das nossas sociedades capitalistas, há uma outra força que determinou os nossos destinos como a lei da gravidade: a ideia de que podemos viver num mundo mais livre e igualitário.

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Quando a civilização recua

Santana Castilho*

  1. Nos Estados Unidos da América, dirigidos pelo homem que popularizou a expressão fake news, diz a Gallup que 18% dos cidadãos acreditam que o sol gira em torno da terra, 42% afirmam que Deus nos criou há menos de 10.000 anos e 74% dos republicanos no Senado negam a validade das mudanças climáticas, apesar das evidências científicas aceites no mundo.
    Com os olhos postos nisto e nas previsíveis campanhas de desinformação em ano de eleições, o PS propôs a discussão do assunto no plenário da Assembleia da República, defendendo um projecto de resolução que recomenda ao Governo a adopção do plano de acção contra as fake news, aprovado pela Comissão Europeia em Dezembro passado. Tratando-se de matéria em que o Governo é exímio especialista, o êxito está garantido. Dêem-lhe espaço de manobra e, agora que já temos uma agência espacial, Pedro Marques ainda anunciará que seremos os segundos a pôr o pé na Lua.
    Factos que se contradizem deixam-me perplexo. O que será falso? O desvelo com que o Governo recentemente se ocupou das mulheres, a propósito do seu dia mundial e da violência de que são alvo, ou o ódio que dispensa a duas classes profissionais maioritariamente compostas por elas (professoras e enfermeiras)?
    Não será igualmente falso um primeiro-ministro falar das vítimas de Pedrogão enquanto pica cebola para uma cataplana, porque o que procura é a popularidade que o avental da Cristina lhe confere? Não será falso o homem pensar que assim se aproxima dos cidadãos, quando o problema seria fazer algo para que os cidadãos se aproximassem dos políticos (quase 50% de abstenção)? [Read more…]

A puta de Cristiano Ronaldo

A Selecção Nacional é a puta de Cristiano Ronaldo. Sempre pronta, de pernas abertas, a recebê-lo quando lhe apetece.
Veio agora para dois jogos e voltará quando quiser. Mais ou menos como fazia Luís Figo há alguns anos.
Quanto ao brochista de serviço, é o mesmo de sempre. Quem aceita que um jogador o empurre e dê indicações em campo em vez dele próprio; quem se desfaz em declarações amorosas constantes ao “melhor do mundo” sem perceber que nenhum treinador se pode rebaixar a nenhum jogador, seja ele quem for, faz jus ao papel que representa. Que é o de um treinador de quinta categoria – como o são, de resto, quase todos os selecionadores nacionais. Se fossem bons, não estavam nas Selecções.
Mas compreende-se. Afinal, o chefe deles é o mesmo que também manda na Selecção, que é como quem diz o empresário. E nestas coisas, manda quem pode, obedece quem deve.

Engate a terceira

Fernando Venâncio

A apresentadora Cristina Ferreira terá assegurado ao primeiro-ministro alguns suplementares milhares de votos quando retoricamente perguntou: «Ai, ele era engatatão?». Estava-se no programa da dita, na SIC, com António Costa de cozinheiro e a mulher de indiscreta confidente.

Pergunta retórica, sim, mas também supérflua. Todo o político de sucesso é excelente no engatar. Porque, pensando bem, é num contínuo e descarado engate que se condensa a actividade política.

“Engatar”, um verbo feliz. Lembra todos os tipos de engrenagem, de enganchadura, de engalfinhamento. Origina-se no valor “grampo” do vocábulo “gato”. Por isso se adequa tão bem às mudanças da caixa de velocidades. A gente engata, engrena, engancha, ok engalfinha a primeira, depois a segunda, e há quem tenha assentado o rabo numa máquina que mete a sexta. Não sei para que serve, ou qual seja a sensação, mas alguma há-de ter.

Um brasileiro fica em branco com os nossos “engates”. Falarem-lhe em “sites de engate” é atormentá-lo de perplexidades. E, contudo, “engate” é gramaticalmente uma formação de primeira escolha, como deverbal regressivo que é. Eleva o trivial “engatar” ao patamar da abstracção. Pede um tirar de chapéu, e ao menos uma vénia. [Read more…]

O notável “percurso profissional” de Catarina Gamboa

Sandra Peirezes

A chefe de gabinete do Secretário de Estado Adjunto e dos Assuntos Parlamentares estagiou no “banco mau” e “consultou” com um ex-ministro.

A máquina

David Carr, «Man and Machine XVI» (c. 1955)

Pedro Medina Ribeiro

1..A máquina ocupava a melhor parte da fábrica.

Era um monstro cansado e ruidoso, verde-sujo e cor de óleo.

Olhada com desconfiança, ansiava-se pelo momento em que deixaria de funcionar, em que seria desmanchada e vendida como sucata. E, no entanto, era uma boa máquina. Um monstro bom que durante anos transformara barulho em coisas úteis, que fabricara milhares de objectos em décadas de movimentos repetidos, e com essas repetições alimentara famílias.

O seu único crime era ser velha e funcionar com as energias combustíveis que tinham os dias contados. Expelia fumos e cheiros que ofendiam as pituitárias delicadas dos homens e mulheres que passavam à porta da fábrica com os seus computadores brancos de design estilizado (feitos, em países longínquos, por outras máquinas de electrónicas sofisticadas).

A máquina grande e boa, ruidosa e verde, era como um avô resmungão de andar arrastado e cheiro peculiar, como por vezes têm os velhos. E como os velhos de pulmões fracos, a máquina por vezes tossia e expectorava. Uma tosse cavernosa, que lhe subia das bielas e manivelas, e lhe arrancava escarros negros de óleos queimados.

Estes achaques obrigavam à intervenção da única pessoa no mundo capaz de trabalhar com a máquina e capaz de a fazer trabalhar. [Read more…]

Redes

José Meireles Graça

Os senadores da opinião, com banca montada há décadas na sala-de-estar do cidadão distraído, não gostam das redes sociais.

Não foi sempre assim: Pacheco Pereira, por exemplo, alimentou durante anos o Abrupto, até 2016. E não deve ter sido apenas a decadência da blogosfera (que não medi; é uma observação impressionista) a afastá-lo, mas antes a constatação de que todo o cão e gato pode fazer, e faz, blogues.

Miguel de Sousa Tavares espumava há tempos de raiva contra o Facebook. E não é possível ler as caixas de comentários dos jornais on-line sem um sobressalto, tal o primarismo das opiniões, a violência das soluções defendidas para problemas reais ou imaginários, a ausência de gramática ou um módico de cultura geral, e o intenso ódio que se manifesta a propósito da indignação da semana.

Depois, Trump foi eleito com o subsídio do Twitter (uma rede especializada em espirros opinativos) e Bolsonaro do WhatsApp (semelhante grosso modo ao  Facebook, com grande difusão no Brasil). E estes dois, Trump e Bolsonaro, carregam o ferrete ignominioso de não serem de esquerda, nem da direita que a esquerda tolera por não ser de direita – navegamos em pleno escândalo.

(Nota: Antes destes dois já Obama tinha sido eleito com grande campanha no Facebook; a esquerda, na altura, orgulhou-se, achou muito “moderno” e “despojado” e “popular”, mas agora está com amnésia). [Read more…]