O Júri pode exigir o quê?

They are dumb proposals.
Frank Zappa

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O novo ano lectivo começa na próxima semana. Felizmente, como nos garantiram há uns anos, a aplicação do Acordo Ortográfico de 1990 corre sobre rodas.

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Raspadinhas

 

O rato é metido numa caixa transparente. Lá dentro, há uma chave ou uma pequena alavanca, que, ao ser accionada, faz cair comida de um alçapão. O animal dá umas quantas voltas dentro da caixa até descobrir a alavanca. A comida cai. A partir de então, não quer outra coisa. Tanto dá se se trata de um hamster ou de uma ratazana de esgoto, o comportamento do animal dentro da caixa é invariável: ver a alavanca, puxar por ela, receber a recompensa. E outra vez, e outra vez, e outra vez. Burrhus Frederic Skinner, psicólogo e professor na Universidade de Harvard, o homem que concebeu esta experiência a que ainda hoje se chama “caixa de Skinner”, chamou-lhe “circuito de reforço continuo”. Quando realiza uma acção que produz uma recompensa, o rato recebe uma descarga de dopamina, o neurotransmissor produzido em situações identificadas como agradáveis (beber quando se tem sede, por exemplo). E desejará mais. [Read more…]

E o Rui deixou de ser o pior Rio

Isto é tão mau, tão, tão mau que nem sei bem por onde começar. Como sempre, a esquerda a alterar a realidade para alimentar um mundo virtual onde imaginam ter uma pontinha de razão para as suas ideias sobreviverem. E a petulância, Deus Meu? Uma petulância tão insultuosa, tão patética, tão trafulha que, caso fosse necessário, bastava para definir esta senhora.

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Vão gozar com o…

Se alguém não entende a minha irritação com a complacência que esta sociedade demonstra com o Comunismo, atentem na fotografia.

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QAnon: o pináculo da demência neofascista

Entretanto, numa manifestação de teóricos da conspiração contra o uso de máscaras, seguidores da seita QAnon clamam pela dupla Putin-Trump, que os salvará do deep state, das vacinas contra o sarampo, do marxismo cultural e, claro, de Satanás. São chanfrados? Sim, são chanfrados. E isso torna-os ainda mais perigosos. Já tínhamos os mujahedines, os telecurandeiros do dízimo e agora estes. Em princípio, é desta que o mundo acaba.

Segundo estas raríssimas espécies, “A Tempestade” está para breve. E o que é “A Tempestade”, perguntam vocês? É o dia em que o exército tomará o país de assalto, durante o qual milhares de membros da cabala mundial de pedófilos adoradores de Satanás serão presos e sumariamente executados, e a Terra será salva. Não é um Nineteen Eighty-Four, mas dava um bom argumento para uma série televisiva. A Netflix que abra a pestana. [Read more…]

Distantes incêndios aqui tão perto

As razões para congelar o acordo de livre comércio entre a EU e o Mercosul são múltiplas.

Em pouco mais de um minuto, veja aqui algumas delas.

“(…) mas eu não consigo matar este cancro que, em grande medida, são as ONGs”, disse Bolsonaro na transmissão que realiza semanalmente na rede social Facebook.

“14% do território do país são reservas indígenas. Há quem queira aumentar isso para 20%, mas o Brasil não o suporta”, porque entre outros fatores “poria fim ao agronegócio”, que é um dos pilares da economia nacional, afirmou“ .

E você, de que lado está?

Tolerância zero

Unlimited tolerance must lead to the disappearance of tolerance. If we extend unlimited tolerance even to those who are intolerant, if we are not prepared to defend a tolerant society against the onslaught of the intolerant, then the tolerant will be destroyed, and tolerance with them. — In this formulation, I do not imply, for instance, that we should always suppress the utterance of intolerant philosophies; as long as we can counter them by rational argument and keep them in check by public opinion, suppression would certainly be unwise. But we should claim the right to suppress them if necessary even by force; for it may easily turn out that they are not prepared to meet us on the level of rational argument, but begin by denouncing all argument; they may forbid their followers to listen to rational argument, because it is deceptive, and teach them to answer arguments by the use of their fists or pistols. We should therefore claim, in the name of tolerance, the right not to tolerate the intolerant.

O Index e a nova Inquisição

Quem nunca ouviu aquela boa velha linha, que vai mais ou menos assim: “só dás valor às coisas quando já não as tens”? Eu já ouvi, várias vezes, em vários contextos e por vários motivos. A propósito dela, da boa velha linha, há algo que, em certos países, se está a perder. Um algo ao qual talvez não estejamos a dar o devido valor, e que, suspeito, estamos em risco de perder. E não é um algo qualquer. É o jornalismo, um dos pilares que sustenta o edifício das sociedades democráticas. Mais ou menos independente, a morte do jornalismo profissional é uma tragédia para a democracia. E está a acontecer. Aqui e agora, na União Europeia dos direitos humanos e da liberdade de expressão.

O jornalismo pode morrer de muitas maneiras. A mais comum e eficaz é a morte por autoritarismo. Chame-se o que se lhe quiser chamar: autoritarismo, nacionalismo, democracia iliberal ou totalitarismo. Ou o bolsoliberalismo evangélico, subespécie alternativa e ainda pouco estudada, que destrói o jornalismo ao mesmo tempo que cria páginas no Facebook e no Twitter, com pastores evangélicos que pregam o criacionismo e a teologia da prosperidade, através da qual burlam a ignorância e compram bons helicópteros. Com mais ou menos porrada, mais ou menos exploração, vai tudo dar – literalmente – ao mesmo. [Read more…]

Avante, camarada Teresa Guilherme!

O Avante em tempos de Covid

Quero começar por dizer que, da parte que me toca, sou tão favorável à realização da Festa do Avante como a favor das praias a abarrotar sem controle algum, das portas escancaradas ao turismo no Algarve, com os seus holandeses e ingleses ela semear covid-19 no Algarve e o aeroporto de Faro a rebentar pelas costuras, das peregrinações em Fátima, dos concertos no Palácio de Cristal, das manifestações contra o racismo e a favor dele, ou até de algumas enchentes verificadas nas feiras do livro do Porto e Lisboa, para não falar nos comícios do Chega, onde a malta da extrema-direita, que ainda olha para o problema pela óptica bolsonariana da “gripezinha”, faz questão de se apresentar sem máscaras. Isto para vos dizer que, na minha opinião, qualquer organização, de qualquer natureza, que dê origem a grandes ajuntamentos não deveria ser permitida. [Read more…]

Lógica e coerência

É bom pôr tudo em causa. Nem que seja por uma vez para cada tema, devemos questionar mesmo o que parece irrefutável. Mas, caramba, isso é apenas um processo. Um processo que aumenta a nossa lucidez, mas apenas um processo. Não pode nem deve ser um estado “ad aeternum”.

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Episódios da memória

Regresso a Bruxelas no sábado, depois de quase um mês em Portugal a carregar com o pé direito no acelerador pesado da Passat. Na segunda, desço à garagem, para pôr o Golf a trabalhar. Está sem bateria. Não há problema, só tenho dentista na sexta. Entretanto, alguém há-de me desenrascar. Na quarta, desenrascam-me, com uns cabos. Agradeço ao mecânico e ao meu amigo, esmago a embraiagem, meto a primeira, carrego no acelerador leve do Golf e eis o habitual solavanco inicial, por causa do pé direito habituado ao acelerador da Passat. O solavanco é habitual, mas só inicial. Depois, felizmente, passa. Quando for ao dentista, não haverá solavancos. Cerca das 19h50, saio de casa e vou a pé ao sítio do costume ver o futebol. Aproveito o caminho para ir ouvindo música em modo aleatório, baralhado, desorganizado — calha-me o Going Home do Mark Knopfler, na versão do Alchemy, dos Dire Straits. Vejo o jogo enquanto janto e, depois de duas de letra, cerca das 22h20, regresso a casa. Lavo os dentes e vou dormir. Acordo às 6h18, com o órgão do Going Home de há oito horas e meia na cabeça. Antes de me levantar, alinhavo esta crónica. Levanto-me e escrevo-a. Antes de a publicar, bebo um café forte — vai ser um longo dia.

Fim.

Nótula sobre o estado actual da relação entre o Governo da República Portuguesa e a língua portuguesa

I don’t know why.
— Kurt Cobain, “Stay Away

Se me não ponho a milhas lixo-me: não fica aqui
mais ninguém senão eu.
— António Lobo Antunes, “Memória de Elefante

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O Governo gosta de mandar na forma como grafamos as palavras. E, só para não abdicar desse imenso e intenso prazer, até ignora pareceres de quem, ao contrário dele, percebe da poda. Outros, mais pequenos, mas com poder, são extremamente afoitos e, embora não saibam que uma rosa pegada pelos espinhos não é bem a mesma coisa que um touro pegado pelos cornos, mostram sem medo o mesmo apetite voraz dos muito poderosos pelo policiamento dos hábitos linguísticos dos falantes. Ia rematar este longo parágrafo com um breve comentário sobre o Manifesto 2014, mas convém que não nos desviemos ainda mais do assunto.

Em matéria linguística, o Governo lá vai andando, tem-te-não-caias, rumo a lugar nenhum. Por um lado, manda-nos grafar para em vez de pára, ação em vez de acção, maio em vez de Maio, diapnoico em vez de diapnóico, etc., tudo em nome do reforço do “papel da língua portuguesa como língua de comunicação internacional“. Por outro lado, o Governo manda-nos descarregar uma aplicação portuguesa com nome em língua inglesa (StayAway Covid). Provavelmente, o Governo da República Portuguesa prefere reforçar o papel da língua inglesa como língua de comunicação internacional. Assim sendo, há esclarecimentos a prestar.

Convém lembrarmo-nos deste triste episódio, quando membros do Governo voltarem a defender o Acordo Ortográfico de 1990.

Nótula: Luiz Fagundes Duarte dá-nos algumas ideias para pormos o vírus a léguas em português — e alguns dos comentadores têm feito aditamentos. A lista vai longa. Até agora, todas as propostas são melhores do que a promovida pelo Governo.

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O amish de Famalicão marcha para Lisboa

Há um amish em Famalicão que, enquanto encarregado de educação, tomou uma decisão radical: não deixar os seus educandos frequentar uma disciplina OBRIGATÓRIA do ensino básico.
Acho muito bem. Tão bem que decidi seguir-lhe o exemplo. Há uns dias, apanhei uma multa por circular a 130 km/hora na auto-estrada. Não vou pagar a multa. Porque acho que 130 km/hora numa auto-estrada é perfeitamente razoável. E tal como no caso do amish de Famalicão, sou eu que faço a lei e cumpro-a se quiser.
Inicialmente, não percebi o que o incomodava na disciplina de Educação para a Cidadania: É a igualdade de género? É a interculturalidade? É a sexualidade? É a participação democrática? É o bem-estar animal e o ambiente?
Acabei por perceber quando li sobre o assunto. Afinal, este católico radical, membro da Associação Portugueses das Famílias Numerosas, já em 2009 andava a lutar contra a educação sexual nas escolas; pouco depois, andou a recolher asinaturas contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo; tem como advogado João Pacheco de Amorim, do Partido Pró-Vida (hoje integrado no Chega), cabeça de lista do Chega nas Legislativas e irmão de Diogo Pacheco de Amorim, ideólogo desse mesmo Chega; esteve recentemente a manifestar-se na Assembleia da República contra um eventual referendo à morte medicamente assistida; faz parte da Plataforma Resistência Nacional (o nome diz tudo). [Read more…]

O PCP come velhinhos ao almoço

já os milhares de peregrinos em Fátima estiveram protegidos por deus nosso senhor.

Entretanto, na América

O presidente do Trump First, perdão, America First é o incendiário que depois vem dizer “vejam, não controlam o fogo”. Os quatro anos de Trump resumem-se a isto. É útil para Trump ou não?

Ao longo da sua presidência, Trump sempre procurou dividir. Os aliados, os inimigos e o país. Como se diz, em terra de cegos, quem tem um olho é rei. Dividir para enfraquecer, para depois reinar.

Há quem o defenda. Será esta a visão destas pessoas para Portugal?

Não podemos branquear o comunismo

Pessoalmente, nada tenho contra a realização da “festa do avante”. O evento em si e por si, dá-me igual.

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Parabéns, Vasco!

Dia 29 de Agosto de 1979, nasceu o indivíduo que me mostrou um dos caminhos para a felicidade. O humor e a boa disposição. Parece simples? Devia ser. Parabéns, Vasco Palmeirim!

André Ventura combate o elitismo e o sistema na Quinta do Lago

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O último comício do Chega, o partido que afirma combater as elites e o sistema, realizou-se neste cenário nada elitista e absolutamente anti-sistema do Medusis Club, na popularucha Quinta do Lago. Um cenário exótico e sofisticado que tresanda a povo. O tal que André Ventura quer a pagar os impostos dos clientes habituais do club da Quinta.

Cocaína na Convenção Republicana

Entretanto, na Convenção Republicana, dominada por Trump, pelos filhos de Trump e pelas namoradas e namorados dos filhos de Trump, o stock de cocaína parece ter chegado ao fim. Vivem-se tempos perigosos e alarmantes, na Land of the free.

 

Tucker Carlson, o fantoche de Trump que saiu em defesa do assassino de Kenosha

 

A insustentável leveza da falsa equivalência

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Jacob Blake, cidadão americano, negro, desarmado, foi baleado por agentes da polícia de Kenosha, Wisconsin, com sete tiros, em frente aos seus três filhos. Está no hospital, paraplégico, a lutar pela vida.

Kyle Rittenhouse, cidadão americano, branco, armado com uma semiautomática AR-15, assassinou dois manifestantes que protestavam contra a brutalidade policial que vitimou Jacob Blake, dirigindo-se posteriormente na direcção da equipa SWAT no local, que não disparou qualquer tiro ou prendeu o criminoso, permitindo que o mesmo regressasse ao Estado vizinho do Illinois. [Read more…]

Demitiu-se o Comissário Europeu que violou regras contra a covid-19

Phil Hogan, o comissário europeu que detinha a pasta do Comércio viu-se compelido a demitir-se por ter violado as regras da covid-19 na Irlanda. Hogen participou num jantar com 89 outras pessoas e mostrou não conhecer as regras de quarentena do seu país. A paixão pelo golf foi a sua perdição.

Que venha um melhor e que o acordo EU-Mercosul fique em águas de bacalhau.

O FC Porto é notícia por ter deixado de ser o actual campeão europeu de Sub-19?

Não! O FC Porto deixou de ser o actual campeão europeu de Sub-19, mas é notícia porque o Benfica não conseguiu ser campeão europeu de Sub-19. Quando o Benfica falir, o FC Porto perderá a razão de existir.

Censura fake em Viana do Castelo (com o alto patrocínio de Nuno Melo)

NM

O grande incêndio do passado fim-de-semana, no mundo paralelo das nas redes sociais, foi o vídeo de uma escola de dança de Viana do Castelo, alusivo às festas de Nossa Senhora da Agonia, alegadamente censurado pelo Facebook, devido a denúncias de racismo.

Fui ver o vídeo, que me chegou via WhatsApp, sem ponta de racismo por onde se lhe pegasse, e, quando dei por mim, o incêndio já consumia centenas de hectares virtuais no Facebook e Twitter. Impulsionada pela extrema-direita, nas suas versões oficial, dissimulada e “still inside the closet“, a narrativa era objectiva: a extrema-esquerda antifa e anti-católica havia desferido um violento e ignóbil ataque contra as bicentenárias festas minhotas. A intolerância, o comunismo, a Venezuela e até o Estaline tinham subido à Terra para censurar as jovens bailarinas. Mais um episódio de cancel culture, marxismo cultural e mais não sei o quê. [Read more…]

Pela liberdade, sempre!

a-revolucao-liberal-do-porto-pos-fim-ao-absolutismo-em-portugal-1Revolução Liberal, há 200 anos, no Porto.

Não esperemos pela degradação total da nossa Liberdade para voltar a agir em prol do valor mais importante.

Salafrário II

Post editado porque uma das frases do texto, não correspondia, milimetricamente, à verdade. Pelo facto, me penitencio.

Vi nas redes uma lista (grande) de situações em que Costa perdeu a compostura e se irritou para lá do que é “portuguesmente” admissível. E, realmente, percebe-se que o homem não é boa rês.

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Merkel terá mesmo potencial?

Trata-se do gigantesco acordo comercial conhecido sob o lema “carros por comida”, prenhe da lógica comercial insustentável que tem sido seguida a passo estugado pela UE nos últimos anos, em estridente contradição com os anúncios “verdes” da mesma UE.

É o acordo que vai contribuir para

  • o agravamento da crise climática,
  • a devastação das florestas tropicais e da biodiversidade sul-americana,
  • o aumento de atentados aos Direitos Humanos,
  • novos ataques à produção agrícola na Europa (sobretudo de pequenos produtores),
  • a acentuação de assimetrias e vulnerabilidades
  • a redução de padrões de saúde
  • o ataque aos direitos dos trabalhadores,
  • o aumento do sofrimento animal e, como é hábito,
  • é um acordo que resulta de um processo pouco transparente e contribui para esvaziar a democracia por via da harmonização regulatória em comissões técnicas sem escrutínio e com forte influência de lobistas.

A despeito de tudo isto, bem como dos muitos protestos da sociedade civil e de moções contra o acordo UE-Mercosul aprovadas nos parlamentos da Holanda, Áustria e da Valónia, os governos dos países-membros – com a Alemanha e Portugal na linha da frente – estão determinados a levar por diante a conclusão do acordo, de preferência já durante a actual presidência do conselho da UE, que a Alemanha assume até ao final do ano. [Read more…]

Oito apartamentos e um sótão (9)

Sótão

 

Ando há muitos anos na construção civil, gosto de participar na construção de prédios, gosto de ver nascer apartamentos, imaginar que ali vão viver pessoas, comparar os espaços vazios com a decoração escolhida e confirmar que somos todos diferentes ou que somos previsíveis. Conheço os prédios melhor do que as pessoas que lá vivem, conheço cada canto dos apartamentos.

Este sótão, por exemplo. Ninguém vem aqui. É preciso saber que há uma escada escondida que é preciso puxar, fixar, subir sem apoios, realizar acrobacias que já não são para todos. Mesmo eu, que ainda não sou propriamente velho, sofri para chegar aqui.

Confesso que também tenho chaves que abrem as portas dos apartamentos. Muitas vezes, entro nas casas, quando não está ninguém. Também entro quando sei que as pessoas têm um sono mais profundo. Eu sei que seria o suficiente para ir preso, mas juro que nunca roubei nada, juro que nunca me aproveitei de ninguém. Talvez seja mais correcto dizer que não roubei nada que faça falta ou que seja material. Sim, tiro uma ou outra fotografia, anoto frases nuns cadernos velhos, colecciono sons que vou gravando, guardo pequenos vídeos.

Às vezes, faço consertos que não dêem muito nas vistas, que é uma maneira de pagar o espectáculo da vida alheia. Já lhe aconteceu a torradeira avariar de manhã e funcionar à tarde ou a chave entrar melhor numa fechadura que só estava a precisar de um bocadinho de óleo (ou de azeite, como me ensinou o meu avô, que era marceneiro)? Posso ter sido eu. Não tem nada que agradecer.

Não preciso de arrendar ou de comprar casa. Vou mudando de sótão. Um colchão, um fogareiro eléctrico, umas conservas e aqui está o porto de abrigo, a torre de vigia, a vida dos outros como minha.

Tenho esta mania desde pequeno: ver sem ser visto. Em casa, gostava de me esconder dos meus pais e compreendi que é tanto o que escondemos que só podemos ser verdadeiramente conhecidos por quem nos espiar. Há coisas que preferia não ter sabido e outras que me foram muito úteis.

Nessa altura, enquanto me escondia em casa, mostrava-me na rua: contava aos meus amigos as minhas façanhas de espionagem caseira. Quando me lembro dessas narrativas, apercebo-me, no entanto, de que não lhes contava verdadeiramente aquilo que via, preferindo romancear. Curioso: tinha acesso à verdade e preferia contar mentiras.

Depois de ter participado na construção deste prédio, instalei-me, então, aqui, neste sótão, como já disse. Quando o vírus se tomou conta do mundo, já eu estava confinado a maior parte do tempo. É certo que passei a ter o cuidado de me desinfectar e de usar máscara quando passeava pelo prédio, porque não queria contaminar ninguém.

O facto de toda a gente passar mais tempo em casa também fez com que redobrasse a minha invisibilidade, aumentasse o silêncio. Pude, então, ver ainda mais, conhecer melhor todos os vizinhos. Enchi os cadernos de vícios e de virtudes, fragmentos, pedaços, fatias de pessoas, juntei memórias e impressões, emocionei-me com gestos, senti vontade de intervir, mas isso está vedado a fantasmas ou a viajantes do tempo.

Não se passa impunemente por uma quarentena, mesmo aqueles que, como eu, já a praticavam. Senti-me outra vez criança e preciso de contar, de dar forma a estes apontamentos, de mostrar as pessoas de quem me escondi, as pessoas que se escondem.

São tantas as histórias que tenho pena de não ter contado: Beto Estrela, o artista pimba que obrigou a rua a ouvir o grande sucesso “Cor no cotovelo”; a mulher com fama de ninfomaníaca e tanta falta de proveito; o pintor impedido de ir ao estúdio que descarregou as tintas e as ideias na parede de casa e que continuou pelo interior do prédio; o homem que descobriu que era marido e pai, depois de estar adormecido tantos anos. Tudo nos obriga a esconder ou a revelar qualquer coisa.

Decidi escrever estas oito histórias. Se me perguntarem se são verdadeiras, não saberei responder-vos. O prédio existe, os apartamentos também, as pessoas de certeza.

Estou de saída. Há outra obra a começar. Meto tudo na mochila e sacudo o pó. Olho para as calças. Nunca se consegue sacudir o pó todo.

Salafrário

Duas frases que definem um pensamento políticamente corrupto, incapaz e irresponsável. Nunca tive qualquer dúvida que Costa, politicamente, era e é menos sério que Sócrates.

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