Oligarca bom, oligarca mau

Ainda sou do tempo em que Salgado, e outros como ele, patrocinavam tudo e todos. Ds selecção nacional de futebol às férias na neve de José Gomes Ferreira e Paulo Ferreira, entre outros jornalistas acima de qualquer suspeita, o dinheiro do oligarca de Cascais chegava a todo o lado. E se alguém ousava falar sobre as muitas suspeitas dos muitos crimes que há anos sobre ele pendiam, sempre surgia alguém a mandá-los calar, porque davam emprego a muita a gente e o que nós precisávamos era de mais uns quantos iguais.

Depois, começaram a cair em desgraça, uns atrás dos outros, e já ninguém se lembrava dos empregos, das mesadas, das capas da Exame com os CEOs do ano, do mecenato e da filantropia que paga com benefícios fiscais. Já ninguém era amigo deles. Acontece agora o mesmo com os oligarcas russos. E, suspeito, virá o tempo em que os seus congéneres chineses, que hoje controlam meio país, também cairão em desgraça. E a jihad do mercado livre, que lhes fez juras de amor num anexo da sede do Partido Comunista Chinês, garantirá que nunca se envolveu com tão má rês. E os senhores da narrativa, aqueles que controlam, de facto, os órgãos de comunicação social, cá estarão para garantir que tudo se desenrolará de acordo com o plano.

Os luso-McCarthys, o PCP (e o BE) e dinheiro sujo dos oligarcas

Lembram-se da luta dos luso-McCarthys, que, durante anos, combateram a crescente influência de oligarcas russos, chineses, angolanos e de outras nacionalidades na economia portuguesa?

Pois não, não lembram. Não lembram porque nunca aconteceu. Estavam ocupados a garantir o seu quinhão de dinheiro sujo, extorquido a milhões de pessoas oprimidas por governos totalitários, a quem vendemos grupos de comunicação social, empresas, mansões e nacionalidade através do branqueador preferido das elites capitalistas: o Visto Gold.

Então, o que mudou?

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O dia em que Putin mandou fechar a Praça Vermelha para Sócrates fazer jogging

Vejo muita gente do PS destroçada com a invasão da Ucrânia, e não duvido que estejam, mas não me lembro de ver qualquer indignação quando o corrupto czar mandou fechar a Praça Vermelha para o jogging matinal de Sócrates e sus muchachos. Não que sejam situações comparáveis, é óbvio que não são, mas não deixa de ser um bom exemplo do bom relacionamento entre as nossas elites e o regime autoritário de Vladimir Putin, ou, por outras palavras, da normalização para a qual contribuíram.

Sim, eu sei. Paulo Portas também andou aos abraços com o Maduro e Passos Coelho vendeu meio Estado ao regime totalitário instalado em Pequim. Cavaco juntou-se a minoria que votou contra a libertação de Mandela e Soares fez a folha ao Rui Mateus, de cujo livro, Contos Proibidos, o Aventar é fiel depositário. E o Durão isto, o Guterres aquilo e o Balsemão não-sei-quê Bilderberg. E isto só me leva a concluir o seguinte: andamos de calças em baixo, a normalizar ditadores e práticas ditatoriais há mais de 40 anos. E não, não é o divino Espírito Santo que os põe lá. Somos nós.

Ucrânia e Palestina, heróis e terroristas: o terror que nos vendem e o mundo real

Não é à toa que a narrativa dominante impõe um silêncio sobre o passado, rotulando de apoiante de Putin quem ousa falar nos antecedentes desta guerra. Não que eles justifiquem a agressão, que deve ser condenada e combatida por todos os meios e sem hesitações – e eu defendo, há vários anos, um embargo à Rússia, quando ainda muitos destes freedoms fighters da treta estendiam tapetes vermelhos aos oligarcas que continuam a voar para a Europa, apesar dos espaços aéreos fechados – mas a tentativa de reescrever a história que está em curso é ilustrativa do quão usado o povo ucraniano e o seu sofrimento estão a ser. Usados por gente que se está literalmente nas tintas para eles. Usado, aqui em Portugal, por muitos daqueles que os trataram como merda, quando aqui começaram a chegar há 20 anos, e os remeteram para as obras e para as limpezas, ignorando diplomas e elevados níveis de formação superior, com a arrogância xenófoba que se lhes conhece.

Sou pela autodeterminação dos ucranianos, pelo respeito pelo direito internacional e pelo isolamento total de Putin, que defendo desde 2014, sem “mas” nem meio “mas”. Também sou pela autodeterminação dos palestinianos, que estão a ser agredidos hoje, foram-no ontem e sê-lo-ão amanhã. Pela sua autodeterminação, pelo respeito pelo direito internacional, no que toca também (mas não só) ao cumprimento do plano de partilha da Palestina de 1947, que nunca foi respeitado por Israel, que continua a construir colonatos ilegais na Cisjordânia (hoje, não há não-sei-quantos anos), e pelo julgamento dos criminosos de guerra que, protegidos pelas potências ocidentais e pela nossa cobardia, continuam a espancar e a matar crianças, idosos, mulheres e homens que só querem ser livres. Como os ucranianos. Porque continuamos a negar aos palestinianos os mesmos direitos que hoje nos mobilizam pelos ucranianos? Simples: porque isso não serve a agenda de quem realmente manda nisto tudo. E, por isso, um palestiniano que luta contra um colonato ilegal na Cisjordânia é terrorista, e um ucraniano que luta contra a ocupação da sua cidade é um herói.

Orbán, Salazar, Putin e Hitler entram num bar

Salazar, figura maior do autoritarismo e da corrupção política deste país, mostrou os seus valores em plena Segunda Guerra Mundial, ora fazendo negócio com os Aliados, ora fazendo negócios com os Nazis, ora deixando-se fotografar com a foto do amado Duce na secretária, ora castigando Aristides Sousa Mendes por salvar judeus a mais, num acto de profundo e devoto Cristianismo.

Já Viktor Orbán, o Salazar de Budapeste, parece seguir as pisadas do fascista português. Diz-se ao lado das democracias ocidentais, apesar de repudiar o seu modo de vida, presta vassalagem ao Adolfo de São Petersburgo, agora estrategicamente suspensa, enquanto aguarda o desfecho da guerra, e não está disponível para auxiliar o esforço de guerra ucraniano, ou sequer de permitir a passagem, pelo seu território, de armamento fornecido por Estados-membros à Ucrânia.

O argumento do regime húngaro é não querer arriscar um ataque ao país, caso Putin se aperceba da passagem de tais armas. Argumento nobre para quem integra a UE, que se quer solidária, e a NATO, uma aliança militar que, em caso de invasão russa, será a única a vir em seu socorro, agora que os amigos do Kremlin estão na outra trincheira. A menos que Orbán seja o Facho de Tróia. Sim, o Facho. Ia agora insultar os cavalos porquê?

Rápido, abram o espaço aéreo europeu! Vem aí mais um oligarca russo! – O Equilíbrio do Terror #10

Alexander Abramov, co-fundador da Evraz, a maior empresa de produção de aço da Federação Russa, à qual preside e através da qual controla subsidiárias nos EUA e Reino Unido, aterrou hoje em Londres, no seu jacto privado. Apesar do espaço aéreo, fechado para inglês ver.

Este fiel vassalo de Putin é apenas um entre vários oligarcas que abandonaram o país em direcção aos espaços aéreos que o Ocidente fechou, mas que lá se vão abrindo pelo preço certo em euros. Uma vez aqui, rapidamente serão reciclados, eventualmente apresentados como heróicos dissidentes, para regressar ao fausto financiado por décadas de extorsão do povo russo, liberalmente branqueada pelas incansaveis lavandarias europeias. Para Marx, o capital não tinha pátria. Para o capitalismo, que se foda a pátria que o dinheiro é sempre limpo, mesmo que ensopado de sangue.

Sangue ucraniano nas mãos do banca ocidental (e de uns quantos “liberais”) – O Equilíbrio do Terror #9

Durante décadas, a banca europeia e americana financiou e guardou os milhões dos oligarcas de Putin, sabendo, perfeitamente, que esse dinheiro havia sido extorquido ao povo russo. Não quis saber, nunca quer, de liberdades, garantias, direitos humanos ou democracia. Queria ganhar dinheiro. Muito dinheiro. Sem olhar a meios. O sangue nunca a incomodou.

Fê-lo conscientemente, conhecendo a natureza autoritária do regime, e apesar das prisões arbitrárias, da violência contra minorias, da perseguição da comunidade LGBT, dos envenenamentos de opositores em solo europeu, da ocupação da Ossétia, da Abecásia e da Crimeia. Foi colaboracionista. Traiu o ideal liberal das democracias ocidentais.

Onde estavam estes revolucionários instantâneos, que agora até em manifestações aparecem? Os tais que não admitem que se mencionem os antecedentes desta guerra, mas que estão, desde o seu início, a usá-la única e exclusivamente para alavancar os seus partidos e interesses? Uma boa parte estava a ganhar dinheiro com estes e outros ditadores. Continua a fazê-lo. Seja em Moscovo, Pequim, Riade ou Caracas. Não são apenas hipócritas. São cúmplices destes assassinos. E, como a banca, têm sangue ucraniano nas mãos.

Portugueses vítimas de segregação racial na fronteira ucraniana

Domingos e Mário são dois jovens portugueses, ambos a estudar Medicina na Ucrânia, e estão há três dias em frente ao portão da fronteira polaca, de passaporte português na mão, mas não os deixam passar. Não os querem sequer ouvir. E porquê? Porque Domingos Ngulond e Mário Biangnê são negros, apesar de nascidos e criados em Portugal. E porque as autoridades ucranianas têm instruções para só deixar passar brancos.

Este é apenas um de muitos relatos da segregação racial que está neste momento a acontecer na fronteira da Ucrânia com a Polónia, onde a cor da pele parece definir quem pode ou não passar. Não haveria aqui qualquer novidade, ou não fosse o governo polaco um dos bastiões da direita racista no seio da UE, mas são os soldados ucranianos a impedir a passagem de não-brancos na sua fronteira. Isto é inaceitável e diz-nos muito sobre quem manda na Ucrânia e, sobretudo, sobre a dualidade de critérios que norteia aqueles que controlam a narrativa e estão a usar a sofrimento dos ucranianos para servir agendas partidárias. Putin agradece.

Adenda: Quando escrevi os dois parágrafos acima, Mário e Domingos ainda estavam retidos na fronteira. Felizmente, já a conseguiram atravessar, graças à acção conjunta do ministério dos Negócios Estrangeiros português e da embaixada ucraniana em Lisboa. Tal não invalida a vergonha que é ver um país invadido por uma força opressora, envolvido neste tipo de práticas nada democráticas. Se não servir para outra coisa, que nos sirva pelo menos para pensar

Soldados russos agridem violentamente ucraniana de 12 anos

Agora que tenho a vossa atenção, que diminuiria drasticamente caso o título escolhido fosse honesto, quando é que começamos a exigir sanções contra o governo israelita, que nunca respeitou os acordos de Minsk, perdão, o plano de partilha da ONU de 1947, e que continua a violar direitos humanos, a segregar palestinianos e a construir colonatos ilegais na Cisjordânia? Que ocupa diariamente território palestiniano, tal e qual as tropas de Putin na Ucrânia?

Sim, eu sei, o que se passa na Ucrânia não tem nada a ver com liberdade, democracia, direito internacional ou autodeterminação dos ucranianos. Tem a ver com poder. Com a “justiça” do mais forte. Com a dualidade de critérios que preside à ordem mundial, que determina quais as invasões, guerras, fomes e genocídios do bem e as restantes, aquelas que devemos considerar inaceitáveis. Que determina que oligarcas, criminosos e tiranos podem ou não investir nas democracias liberais. Os de Putin, por exemplo, ainda na semana passada tinham livre-trânsito em todo o mundo ocidental. E mansões em Kensington. E contas na Suíça. E lojas da Gucci a fechar portas para receber a sua família. E clubes de futebol por toda a Europa. O que me leva a crer que, na semana passada, a Federação Russa era uma democracia liberal. Não era, hipócritas?

O erro de Putin

A imprensa internacional está a avançar que Putin terá contratado 400 mercenários do grupo Wagner, para assassinar Zelensky. Um erro incompreensível, vindo do hiper-cerebral ex-KGB,que podia e devia ter optado por assassinos a soldo da americana Blackwater, que passou a chamar-se Academi, após processo de reciclagem.

A grande vantagem dessa escolha, e é aqui que reside o erro de Putin, é que, ao contrário dos seus homólogos do Wagner, os mercenários da Blackwater são mercenários do bem. O próprio massacre da praça de Nisour foi um massacre do bem, o que ajuda a explicar o perdão presidencial concedido por Trump aos sicários da Land of the Free.

Para quem já teve o presidente e o responsável máximo da diplomacia norte-americana no bolso das moedas, contratar mercenários americanos seria, para o Adolfo de São Petersburgo, peanurs. Alguém o anda a aconselhar mal. Pode ser que tombe mais rápido do que imaginamos.

Fífia

Como toda a gente sabe, Vladimir Putin só passou a ser uma pessoa em quem não confiar, um déspota, um neo-fascista e persona non grata há três dias, depois de invadir a Ucrânia. Antes, eram só mares de rosas, Putin deveria ser um anjo caído, um deus na Terra, o artífice que consertava todos os males. Só assim se explica o contorcionismo a que os senhores do capital se sujeitam por causa… do capital.

Quando a Federação Russa enche a FIFA e a UEFA de rublos cambiados em euros, quando a Gazprom enche o esfíncter dos marmanjos dos sorrisos amarelos ou quando os oligarcas capachos do líder russo mexem cordelinhos junto das grandes instâncias mundiais (FIFA e UEFA, como dizia o que abusava das secretárias, estão todas lá dentro… o resto já sabem), prevendo-se a situação win-win para ambas as partes, não os vejo preocupados com o perigo que vem de Leste. Nós, pessoas “normais”, cidadãos comuns, há muito sabemos do que é feito Putin, há muito estamos avisados para o seu calculismo, há muito sabemos que quer construir, de novo, a Rússia imperial czarista, há muito sabemos da sua simpatia pelo nacionalismo, da sua antipatia pelos valores democráticos, do seu ódio ao Estado de Direito. Há muito sabemos que famílias políticas europeias são financiadas por Putin. Nós, pessoas comuns. E a FIFA? Não o sabia? Duvido. Duvido muito. Aliás, não duvido: tenho a certeza – a FIFA sempre o soube.

Agora, qual zeladora dos interesses do mundo pacifista, vem a FIFA informar, cinicamente, que a “selecção da Rússia vai continuar a jogar, mas com algumas restrições”. A sério? “Algumas restrições”? Coitados. Isto é o equivalente a um homem que matou a esposa à pancada, mas que vai poder continuar a bater com algumas restrições. Entre as restrições constam: não pode usar moca de pregos, armas de fogo estão estritamente proibidas, facões e outras lâminas só em legítima defesa. E por legítima defesa, entenda-se, quer dizer a FIFA: “na eventualidade da esposa se recusar a lavar a loiça”.

E estamos nisto. Nos jogos de sombras típicos destes eventos históricos, há sempre a megalomania que os donos disto tudo têm, de fingir que estão do lado certo da História. Não estão. E não enganam ninguém.

Fotografia: AFP/Getty

O Equilíbrio do Terror #8 – Lukashenko nuclear

Entretanto, na Bielorrússia, o fim de semana foi de referendo. Com a invasão da Ucrânia em curso, na qual Lukashenko está a participar, e 30 mil soldados russos no território, a garantir que o processo decorre com a necessária “normalidade”.

Surpreendentemente, 62,5% da população votou favoravelmente o fim do estatuto de neutralidade nuclear do país. E digo surpreendentemente, na medida em que era expectável que 99,8% dos bielorrussos estivessem devidamente alinhados com as directrizes transmitidas pelo Kremlin ao fantoche de Minsk.

Perante este resultado, que configura, também ele, uma ameaça ao Ocidente, é meu entendimento que a NATO deverá responder e não ficar de braços cruzados. Se Putin instalar capacidade nuclear na Bielorrússia, talvez não seja má ideia acompanhar a escalada e entrar no jogo da dissuasão. Estou certo que os Estados Bálticos aceitarão, de bom grado, que se instalem uns quantos mísseis no seu território. São Petersburgo está ali ao lado, Kalininegrado também. E Moscovo é já além…

Putin, Bin Salman e a direita que não legitima ditadores, tirando aqueles que legitima

Mohammed Bin Salman, o Kim Jong-un da Arábia Saudita, famoso por fatiar jornalistas incómodos em embaixadas estrangeiras e nem por isso deixar o ter o seu ass licked pelos capitalism freedom fighters da direita ocidental, que adoram a democracia mas gostam ainda mais de petro-dólares, pinguem o sangue que pinguem, reafirmou o compromisso da OPEP com o tirano que invadiu a Ucrânia. É sempre bom saber quem está ao lado estão os nossos fiáveis parceiros do Golfo. Após a abstenção dos EAU no condenação de Putin no Conselho de Segurança, ficamos todos muito mais tranquilos.

Se fosse o PCP, a frente conservadora-liberal-fascista que se organizou para derrubar os comunistas já estaria aos berros no meio da rua, porque democracia, liberdade e pardais ao ninho. Acontece que a direita não cospe em mãos invisíveis, e o homem até faz boas compras de armamento aos EUA, e de imobiliário na Europa, e de software de detecção de jornalistas para fatiar em Israel, pelo que convém ficar caladinho, não vá o capitalismo ver vedado o acesso ao dinheiro totalitário do bem.

Adega de Pegões na linha da frente da resistência à ocupação russa

Cumprido o seu propósito, esta garrafa da adega de Pegões foi transformada em cocktail molotov, e será – talvez já tenha sido – usada para resistir à ocupação do Adolfo de São Petersburgo. Melhor que reciclar uma garrafa de boa pinga setubalense, só mesmo arremessá-la e fazê-la explodir contra o exército invasor. No mínimo, rebenta com um blindado.

Esta é pelos produtores de vinho deste país, que estão agora privados de um mercado de 45 milhões de euros – que até cresceu 61% em 2021, apesar da pandemia – porque aquele filho da Putin decidiu invadir a Ucrânia e ameaçar os países da NATO com nukes. Em vez de deixar os russos beber o seu Adega de Pegões em paz. Facho de merda.

O Equilíbrio do Terror #7 – Putin, o Mundial do Qatar e o erro de insistir no erro

Insistimos nestas figuras. Em 2018, era vê-los a todos nos camarotes do Mundial da Rússia, poucos meses após o envenenamento de Sergei Skripal. Penso que os britânicos foram os únicos a não comparecer. Agora, queremos excluir um tirano de um Mundial de futebol, que terá lugar numa monarquia absoluta, governada por outro tirano.

Um Mundial de futebol que, não tendo ainda começado, está marcado pela corrupção e por violações de direitos humanos de milhares de trabalhadores dos estádios, acessos e outras infraestruturas construídas para o efeito.

Um Mundial de futebol que nenhuma selecção de nenhuma democracia teve a coragem de boicotar, apesar das centenas de trabalhadores semi-escravos que morreram para o levantar. Apesar da natureza totalitária do regime Qatari.

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O Equilíbrio do Terror #6 – não há comparação possível

Há quem ainda esteja a insistir na falsa equivalência, entre aquilo que é a expansão da NATO para Leste, que é uma decisão discutível e que, naturalmente, não agrada ao Kremlin, com aquilo que é uma agressão militar efectiva, como aquela que está em curso na Ucrânia. Mas não existe comparação possível. Estão a morrer pessoas. Está em curso a destruição de um país. Há milhares de pessoas em pânico, a fugir em direcção à fronteira. Há uma crise económica, energética e – sobretudo – humanitária a descer montanha abaixo, como uma bola de neve. Há crianças aterrorizadas, a chorar, e idosos em pânico, sem forças um recursos para fugir.

Não há comparação possível.

Sou anti-imperialista, sempre serei, e isso vale para agressões levadas a cabo por americanos, chineses ou russos. Não obstante, a guerra desencadeada por Putin não encontra legitimação na invasão do Iraque ou no golpe de Estado contra Allende. Houve um tempo para criticar essas acções. E podemos debatê-las (e criticá-las) hoje, amanhã ou todos os dias, se assim o entendermos. Mas isto é não um concurso de whataboutism. Porque é possível ser critico do imperialismo americano sem o usar como argumento para legitimar o imperialismo russo. Para legitimar ameaças de guerra nuclear, bombardeamentos e mortes. E a agressão em curso não é uma resposta a outra agressão. Não é legitima defesa. É uma decisão expansionista que se funda na visão imperialista de Vladimir Putin. Ou estamos contra, ou estamos a favor. Não há meio termo. E que se refugia em “se’s” e “mas” escolhe um lado. O lado da agressão.

O Equilíbrio do Terror #5 – Uma luz no interior do túnel

Lá em cima, nas ruas de Kiev, o carniceiro de Moscovo espalha o terror. Lá em baixo, na estação de metro convertida em bunker para os refugiados que não conseguiram sair da cidade a tempo, uma mãe de 23 anos dá à luz a pequena Mia, no cenário mais adverso. Uma luz de esperança numa cidade tomada pelas trevas.

Mesmo na hora mais sombria, a vida teima em resistir e enfrenta a tirania. Na criança que nasce no metro de Kiev, nas manifestações violentamente reprimidas nas principais cidades russas ou na Ilha das Serpentes, onde os militares ucranianos que a defendiam foram abatidos pelas tropas de Putin, não sem antes mandarem foder o regime.

“Mesmo na noite mais triste
Em tempo de servidão
Há sempre alguém que resiste
Há sempre alguém que diz não.…”

O Equilíbrio do Terror #4 – SWIFT: a bomba atómica financeira que pode eventualmente incomodar os verdadeiros donos disto tudo

Durante estes dois longos dias, muito se tem falado na possibilidade de utilizar a bomba atómica das sanções: banir a Federação Russa do SWIFT, um sistema integrado de comunicação de transacções transnacionais, que engloba mais de 11 mil instituições financeiras. O resultado prático da utilização deste nuke, long story short, seria a exclusão da Rússia do sistema financeiro internacional, mainstream, obrigando as suas empresas e bancos, bem como os seus fornecedores internacionais, e encontrar alternativas para as suas operações.

Diz quem percebe da poda que seria inútil recorrer a este instrumento de dissuasão, na medida em que Putin poderia optar, por exemplo, por criar uma cryptomoeda, ou aproximar-se ainda mais da China, que funcionaria como seu pivot na economia internacional. Mas eu, que percebo poucos destas podas, apesar de já ter assistido a umas quantas em Sobreposta, terei a ousadia de contrariar os especialistas. Por um lado porque Putin não invadiu a Ucrânia sem ter a lição bem estudada, como de resto nos vem provando, e já terá a crypto-opção em cima da mesa. Se nós temos esta informação, ele também a terá, prévia e devidamente estudada. Por outro lado, porque a aproximação à China está mais que consumada, como revelam os acordos para compra de petróleo e gás russo, firmados esta semana, para não falar na narrativa dominante na imprensa chinesa, toda ela controlada pelo comité central do PCC, assente na ideia de uma luta comum das duas potencias contra a opressão ocidental. [Read more…]

O Equilíbrio do Terror #3 – Putin, o querido líder da extrema-direita internacional

O partido do Putin, o Rússia Unida, é um partido de extrema-direita, que se rege pela mesma cartilha da extrema-direita europeia: é nacionalista, securitarista, ultraconservador, tradicionalista e apoia-se na Igreja Ortodoxa como a extrema-direita ocidental se apoia na Católica. Anti-progressista, o Rússia Unida é profundamente racista e xenófobo, intolerante em relação a minorias étnicas, absolutamente intolerante em relação à comunidade LGTB, anti-aborto, anti-eutanásia, anti-ideologia de género e usa slogans estilo “Rússia Primeiro” ou frases como “vai para a tua terra”, dirigida a pessoas de outras nacionalidades.

Rejeita, em absoluto, a luta de classes, basilar para qualquer partido comunista, e, em certa medida, transversal à generalidade das correntes de esquerda. Aliás, no seu discurso de há dois dias, quando anunciou ao mundo o reconhecimento das “repúblicas” de Lugansk e Donetsk, Putin foi muito crítico de Lenine, que seria a mesma coisa que o Papa ser muito crítico de Deus.

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O Equilíbrio do Terror #2 – Ucrânia: correr atrás do prejuízo, depois de duas décadas de normalização ocidental de Vladimir Putin

Um dia triste para a humanidade. Putin fez aquilo que eu e muitos outros não acreditavam ser possivel e lançou um ataque em larga escala contra o território ucraniano, em toda a sua extensão. A guerra está às portas da União Europeia e, parece-me, uma nova cortina de ferro voltará a dividir a Europa. A Ucrânia está entregue à sua sorte e Putin já deixou implícito que qualquer interferência externa elevará o conflito para o patamar nuclear.

As democracias têm agora a obrigação moral de se unir em torno de um embargo total à Federação Russa, sem excepções, como pretendem alguns sectores económicos, insensíveis ao drama ucraniano. Fecho imediato de fronteiras, congelamento de todos os activos russos no nosso território, suspensão de qualquer troca comercial, corte de vias de comunicação ao mínimo indispensável para manter aberta a via diplomática de serviço mínimo. Não podemos contribuir com um cêntimo que seja para o esforço de guerra russo.

Foram muitos anos, anos demais, a normalizar Putin e o seu regime. O resultado está à vista. Que nos sirva de lição para que percebamos a ameaça que a extrema-direita contemporânea representa. É por isso que não, não podem mesmo passar.

Anda um espectro pela Europa, o seu nome é Vladimir Putin, e é bom que os poderes da velha Europa se aliem para lhe fazer frente

A ameaça a Leste nunca deixou de o ser, apesar do alegado desanuviamento da era Yeltsin. Vladimir Putin, uma espécie de Estaline 2.0, tem hoje um poder desmesurado, reforçado por quatro anos de enfraquecimento do hard power ocidental, uma das muitas consequências do consulado do idiota-útil Trump, e representa, agora mais do que nunca, pelo menos desde a desintegração da União Soviética, uma ameaça permanente para as democracias liberais da Europa. Vale a pena ler a peça da jornalista Ana França, no Expresso, que sintetiza bem aquilo que se está a passar.

Comecemos pela Ucrânia: em 2014, Putin invadiu e anexou a Crimeia. Num ápice e sem que a comunidade internacional movesse mais do que os lábios e os dedos para declarações contidas, cobardes e circunstanciais. Desde então, tem apoiado os separatistas russos na região de Dombass, parcialmente controlada pelas milícias apoiadas pelo Kremlin, onde o risco de novo Anschluss é real. Desde então, mais de 14 mil pessoas perderam a vida no conflito.

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Como se Putin precisasse de Medina para alguma coisa

Em Janeiro, um grupo de manifestantes juntou-se em frente à embaixada russa em Lisboa, para protestar contra o regime totalitário de Vladimir Putin, em particular contra a detenção de Alexei Navalny, um dos mais audíveis opositores da ditadura instalada no Kremlin. Meio ano depois, Expresso e Observador noticiaram o caso, que rebentou como uma bomba no espaço publico nacional.

Este caso, gravíssimo e intolerável, não se circunscreve ao alegado erro, que resultou na entrega dos nomes dos organizadores daquela manifestação às autoridades russas, conhecendo o historial de assassinatos de activistas perpetrados pelos sabujos de Putin, pese embora resulte de um procedimento em vigor há 10 anos. Ainda assim, deveria ser suficiente para Medina colocar o lugar à disposição e se afastar do exercício de cargos públicos até que tudo estivesse esclarecido.

Não quero com isto dizer – muito menos alinhar nas conspirações estapafúrdias e imbecis que li no Twitter e no Facebook – que Medina recebeu um telefonema de Putin para denunciar os activistas, e que o autarca fez o frete ao ditador russo. Isto é um absurdo a todos os níveis, até porque Putin não precisa das autoridades portuguesas para nada, logo a começar no facto de a manifestação ter decorrido em frente à sua própria embaixada, observada de perto pelos elementos do FSB com passaporte diplomático. Aliás, se os hackers russos conseguem minar as eleições nos EUA, certamente não precisarão de nenhum Snowden para entrar na rede CM de Lisboa e extrair toda e qualquer informação que lhes interesse.

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Chamar os Putins pelos nomes

Joe Biden chamou assassino a Vladimir Putin, e logo um coro de virgens ofendidas surgiu a rasgar as vestes, pelos mais variados motivos que vão da vassalagem a Moscovo, que impera no leste da Europa, ao anti-imperialismo estado-unidense, passando pela fábula da diplomacia, inútil contra tiranos totalitários, ou peloa receios de que o Ocidente perca o acesso ao enorme mercado russo.

Putin é um facínora que deve ser sancionado, embargado e isolado. E a cada novo negócio que a Europa ou os EUA fazem com o regime de Moscovo, onde praticamente toda a economia está concentrada nas mãos dos oligarcas UE gravitam em torno do Kremlin e da figura do seu imperador, é mais um prego que se martela no caixão da democracia, mais um milhão que Putin transfere para os seus satélites europeus, mais um passo na legitimação da autocracia, com cada vez mais adeptos no bloco europeu.

Esteve bem, Joe Biden, ao apelidar Vladimir Putin de assassino. Porque é exactamente isso que ele é. Depois de quatro anos de vassalagem bajuladora de Trump, é tempo de chamar os ursos pelo nome e assumir uma posição de ruptura. Enquanto o Ocidente não for capaz de se demarcar deste é de outros regimes, como o chinês ou o Saudita, a democracia continuará a ser um mero eufemismo para o colaboracionismo que nos assiste. Não foi para isto que se derrubou a Cortina de Ferro. Putin é nosso inimigo e é tempo de o começarmos a tratar como tal.

Recessão democrática

No take introdutório do GPS emitido na passada semana na RTP3, Fareed Zakaria apresentou a sua visão sobre aquela que deve ser a prioridade das prioridades da Administração Biden: conter a pandemia. Conter a pandemia, salvar pessoas, vacinar mais e mais rápido, recuperar a economia e mostrar ao mundo que os EUA podem liderar no combate à pandemia e à crise económica, e voltar a ocupar a posição de farol das democracias liberais, reconstruindo alianças estilhaçadas por quatro anos de governação destrutiva, recuperando a credibilidade perdida, redefinindo prioridades diplomáticas, estratégicas e geopolíticas, reafirmando o papel dos EUA no mundo e recolocando o país no centro da política internacional. Uma missão quase-impossível, pelo menos no curto prazo, depois dos estragos causados pelo furacão Trump.

No mesmo programa, David Miliband usou um termo que ouvi pela primeira vez, “democratic recession”, associado não só à governação Trump, mas a toda a onda de populismo oportunista, mais ou menos autoritária, sempre grosseira e arrogante, ideologicamente vazia, no sentido filosófico da palavra, e cuja artilharia pesada consiste na divisão, exacerbada pela construção artificial de um (ou mais) inimigo comum, pela transformação de minorias em bodes expiatórios, para efeitos de distracção, e numa profunda instrumentalização do medo, de feridas mal saradas, do ressentimento e do ódio, como catalisador da violência miliciana.

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QAnon: o pináculo da demência neofascista

Entretanto, numa manifestação de teóricos da conspiração contra o uso de máscaras, seguidores da seita QAnon clamam pela dupla Putin-Trump, que os salvará do deep state, das vacinas contra o sarampo, do marxismo cultural e, claro, de Satanás. São chanfrados? Sim, são chanfrados. E isso torna-os ainda mais perigosos. Já tínhamos os mujahedines, os telecurandeiros do dízimo e agora estes. Em princípio, é desta que o mundo acaba.

Segundo estas raríssimas espécies, “A Tempestade” está para breve. E o que é “A Tempestade”, perguntam vocês? É o dia em que o exército tomará o país de assalto, durante o qual milhares de membros da cabala mundial de pedófilos adoradores de Satanás serão presos e sumariamente executados, e a Terra será salva. Não é um Nineteen Eighty-Four, mas dava um bom argumento para uma série televisiva. A Netflix que abra a pestana. [Read more…]

A falsa equivalência

CR (2)

Na narrativa do fascismo do terceiro milénio, a luta por mais e melhores direitos civis, em particular de quem não os tem, representa uma ameaça à sobrevivência da nação e dos patriotas, seja lá o que isso significa para essas pessoas. Depois existem os idiotas úteis, que, não sendo necessariamente mal-intencionados, caem na esparrela da falsa equivalência, abrindo caminho para a normalização da extrema-direita. [Read more…]

Putin e os eurofachos

Salvini teve uma vitória estrondosa. Marine Le Pen venceu em França, Farage no Reino Unido e Orban, do respeitável PPE, confirmou o domínio absoluto sobre a Hungria. O que une estes quatro vencedores das Europeias, dois dos quais em estados fundadores da Comunidade que deu origem à União?

Para além da preferência pelo fascismo, une-os um ideólogo, Steve Bannon, incansável durante os meses que antecederam a eleição e focado em destruir o que resta da União, e um líder, função que, em alguns casos, acumula com a de financiador. O seu nome é Vladimir Putin.

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Reféns da nossa irrelevância militar

GF

Quase 30 anos depois do fim da Guerra Fria, o palerma americano e o czar russo entretêm-se a rasgar contratos de não proliferação e a falar abertamente sobre a instalação de mísseis na Europa, como quem fala de um corte numa prestação social. E nós aqui no meio, reféns da na nossa irrelevância militar, a ser tomados de assalto por fascistas apoiados pelos dois.

Dois ditadores entram numa cimeira do G20

 

Na cimeira do G20, dois ditadores cumprimentam-se com aquele entusiamo de quem faz do presidente da superpotência mundial a sua bitch. Diz quem esteve por lá que trocaram ideias sobre como eliminar opositores e jornalistas, à bruta e sem consequências, sem prejudicar os seus investimentos na Europa dos Direitos Humanos. E que o dia terminou com a visualização da pee tape de Donald Trump.

Distracções

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Noam Chomsky considera Donald Trump uma distracção. E talvez o seja. Enquanto milhões se agarram aos televisores e ao Twitter, para visualizar ou ler a mais recente palermice ou machadada na credibilidade dos EUA, vendem-se armas a facínoras, cozinha-se a próxima crise financeira mundial e o 1% aproveita as borlas fiscais para fazer o seu capital great again, antecipando a época de saldos que chegará quando o próximo Lehman Brothers cair. [Read more…]