O acordo é meu! Não, é meu!

patoConfesso: não gosto de humor inteligente. O humor inteligente obriga as pessoas a esperar demasiado tempo para se poderem rir, porque é preciso ouvir a piada, pensar sobre a piada, debater a piada com os amigos em tertúlias demoradas e, dois dias depois, rir da piada, já sem muita vontade, porque quem muito pensa ri pouco.

Por isso, uma das minhas anedotas preferidas é uma daquelas que qualquer cidadão de qualquer país pode usar para fingir que é superior ao de uma nação vizinha. Reza assim: um  espanhol e um português andavam à caça e dispararam, simultaneamente, contra o mesmo pato. Discussão, caído o bicho, o pato é meu, el pato es mío, e é meu, es mío, e torna e deixa. O português propõe: “Sodomizemo-nos um ao outro. Quem gemer perde o pato!” (Não tem piada nenhuma contar anedotas por escrito, especialmente em blogues respeitáveis, com crianças ainda acordadas. Como devem calcular, nunca ouvi nem utilizei o verbo “sodomizar” em anedota nenhuma.) O espanhol aceita e, com valentia, suporta sem um ai. Quando se preparava para exercer o contraditório, o português afastou-se, dizendo: “Ó pá, eu nem gosto de pato!” [Read more…]

Os alunos que não lêem

semigrejaUm estudo da Universidade do Minho revela que 10% dos alunos do secundário nunca leram um livro até ao fim. Outros dados: 14% das famílias dos alunos participantes no inquérito não têm livros em casa, um quarto dos alunos não gostava de ler em criança porque tinha dificuldades em compreender o que lia e o professor como estimulador de leitura aparece em último lugar nas motivações dos alunos para lerem.

A responsável pelo estudo, Leopoldina Viana, fez algumas declarações a propósito destes dados. Sobre a pouca importância que os alunos dão aos professores como fonte de motivação para a leitura, afirmou o seguinte: “Dá-nos a entender que há trabalho a fazer e que o professor tem de ter um papel mais activo nesta área.”

De repente, numa breve viagem pela memória, descobri que não me lembro de ter lido um livro graças ao incentivo de um professor, o que não é necessariamente um elogio para mim ou para os meus professores. Por outro lado, tive vários professores que me ajudaram a perceber e a gostar de livros que fui obrigado a ler. [Read more…]

Os seguranças das forças de segurança

Há instalações militares cuja segurança e vigilância são da responsabilidade de empresas privadas. Numa pequena pesquisa, não consegui aceder directamente ao exclusivo do Correio da Manhã, uma notícia de Agosto de 2014. Vale a pena realçar, entre as várias críticas, que as empresas de segurança contratadas pertencem a “ex-militares e [a] ex-políticos.”

Ontem, ficou a saber-se que o Ministério da Administração Interna contratou empresas de segurança para vigiar, entre outras, instalações do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras e dos Serviços Sociais da PSP. É ler, com atenção, a notícia. Seria interessante que se soubesse os nomes dos proprietários destas empresas, só para termos a certeza de que os dinheiros do Estado não estão a cair nas mãos erradas.

A brincadeira a que me dediquei há menos de um ano não faz sentido: a solução que aí apontava era ainda demasiado estatizante. Reformulo: no futuro, as super-esquadras-mega-agrupamentos serão controladas por empresas privadas cujos funcionários serão professores-seguranças contratados pelo Ministério das Finanças e da Administração Interna da Educação.

Quem quer poder mostra a fila

luismontenegro0113627bce_400x225Há homens que ficarão para a História, por feitos que os libertarão da lei da morte; outros transformar-se-ão em anedotas, a História dos mais pequeninos. Se os primeiros alcançarem algum tipo de poder, a humanidade ganhará com isso; tenham poder os segundos e será fácil perceber a política portuguesa.

Apesar de a introdução poder indicar que iria escrever sobre Duarte Marques, a verdade é que, infelizmente, há muitos que lhe disputam a palma da mediocridade e do disparate. Luís Montenegro, chefe de bancada do PSD, é um desses cómicos involuntários cujas palavras surgem no espaço público com a sensatez de uma manada de búfalos em fuga e com a delicadeza de um elefante em plena época de cio, perdoe-se-me o exagero das metáforas.

Em Fevereiro do ano passado, Luís Montenegro foi o autor involuntário de uma concepção de país que não inclui necessariamente os seus habitantes. Por isso, faz sentido ter afirmado que a vida das pessoas não estava melhor mas que o país estava muito melhor. Para folgazões como Montenegro, mais do que haver pessoas a mais, as pessoas estão sempre a mais. Se fosse guia turístico, o líder parlamentar do PSD diria aos turistas: “À vossa direita, as pessoas, que, na verdade, estão com muito mau aspecto; mas, do lado esquerdo, vejam o país, que lindo que está!” [Read more…]

Olhos gregos, lembrando

A Europa jaz, posta nos cotovelos:

De Oriente a Ocidente jaz, fitando,

E toldam-lhe românticos cabelos

Olhos gregos, lembrando.

O cotovelo esquerdo é recuado;

O direito é em ângulo disposto.

Aquele diz Itália onde é pousado;

Este diz Inglaterra onde, afastado,

A mão sustenta, em que se apoia o rosto.

Fita, com olhar esfíngico e fatal,

O Ocidente, futuro do passado.

O rosto que fita é Portugal.

Mensagem, Fernando Pessoa

Mal sabia Fernando Pessoa que a História viria a dar outros significados ao poema “Os Castelos”, porque o tempo traz consigo novas leituras. [Read more…]

“É muito difícil dizer não a um amigo”

Retrato_oficial_Miguel_RelvasOntem, Miguel Relvas lançou um livro que terá alegadamente escrito. O facto de ter o seu nome na capa fará com que, no mínimo, tenha equivalência a autor. De qualquer modo, para bem do sucesso da obra, espero que a capacidade argumentativa de Relvas tenha melhorado ou sido melhorada.

A peça do Público é absolutamente exemplar, ao permitir que a realidade se mostre a si mesma. Basta ver a quantidade de vezes que palavras como “amigo” ou “amizade” foram utilizadas pelos entrevistados para justificar o título do texto: “O outro lado da governação são os amigos”.

Numa assistência constituída sobretudo por políticos, todos negaram ou, no mínimo, omitiram essa qualidade, substituindo-a pela de “amigo”. Paula Teixeira da Cruz classificou mesmo a sua presença como “um acto pessoal, muito pessoal”, talvez por oposição a actos menos pessoais ou pouco pessoais e num contraponto às justificações dos assassinos mafiosos que pedem desculpa ao iminente assassinado dizendo-lhe: “Não é pessoal, é negócio.”

Face às afirmações de alguns dos presentes, ou seja, dos amigos, fico, no entanto, com a impressão de que há, por vezes, a confissão de que a sua presença implicou, aparentemente, alguns sacrifícios. [Read more…]

Aprender mandarim ou o primado do empresarialês

top120charactersArriscando uma sociologia de bolso, diria que, desde os anos 80, pelo menos, o mundo está dominado pelo empresarialês, uma religião (e, portanto, uma linguagem) cujos seguidores proclamam que tudo no universo é uma empresa. Para os cultores do empresarialismo, cabe ao gestor dirigir o mundo, com a avaliação substituída por rankings, ou seja, por listas ordenadas (o gestor, apóstolo do empresarialismo, confunde avaliação com classificação, mas, como qualquer membro de uma seita, não admite argumentos).

Esta religião é seguida por todos os políticos do arco da governação, o que tem condicionado, evidentemente, as decisões sobre todas as áreas. Tudo é, portanto, economia, empresa, dinheiro, excel.

O mais grave é que esta mentalidade já se entranhou no resto da sociedade. Vejamos alguns exemplos, antes de chegarmos (ou voltarmos) à importância dada ao ensino do chinês nas escolas portuguesas. [Read more…]

O escravo deve aprender a língua do dono

Chinês chega a 23 escolas secundárias no próximo ano lectivo

Acordo? Ortográfico?

atar2by2bdesatarEm Díli, durante uma reunião da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP), houve um momento de tensão, quando os representantes de Angola e de Moçambique rejeitaram a utilização do chamado acordo ortográfico de 1990 (AO90) na acta da reunião, sendo que o problema começou exactamente na própria palavra “acta”. Relembre-se que o AO90 não está em vigor naqueles dois países africanos.

(Mas o AO90 não veio impor uma ortografia única no mundo da lusofonia? A propósito, o que terá acontecido aos professores portugueses que, em 2013, davam formação a colegas angolanos?)

É curioso relembrar que, há dois anos, os representantes das agências de notícias dos países lusófonos reuniram-se, tendo como um dos objectivos a “escolha do padrão ortográfico” de um site comum.

(Mas qual seria a dúvida? Depois de o AO90 ter sido imposto no Brasil e em Portugal, o padrão ortográfico não estava escolhido por inerência? Mau, Maria!) [Read more…]

Isaltino Morais elogia José Sócrates

“O melhor que este país tem hoje são os presos.”

Carta a Julieta

Querida Julieta

Soube que ganhaste o Prémio Mulher Flash Lifestyle. Tentarei, durante uns breves instantes, fazer de conta que não estou orgulhoso disso e vou fingir que não votei em ti. Mais: terei, até, o desplante de declarar alto e bom som que só te deram este prémio para te compensar do facto de o teu Futebol Clube do Porto não ter ganho nada pelo segundo ano consecutivo (sei bem as dores físicas que esta provocação me vai valer, no nosso próximo reencontro). Como se isso não bastasse, considero-me discriminado por não ter sido, pelo menos, nomeado, porque num tempo em que se fala tanto da igualdade de géneros seria justo que um homem pudesse concorrer ao Prémio Mulher.

Na minha qualidade de pseudo-intelectual peneirento, é claro que nunca admitirei que leio a Flash nem mesmo nas salas de espera dos consultórios médicos (se alguém me apanhar com uma na mão, aberta numa página em que se veja uma rapariga em trajes menores, saiba que o meu interesse é puramente etnográfico ou coiso ou eventualmente) . Para além disso, revolta-me que dêem a uma mulher tão portuguesa e tão portuense um prémio cheio de inglesices, mas a verdade é que vivemos num tempo em que os hotéis são sempre Qualquer Coisa Spa, Wellness, Business and Golf Center. Se aquela gente em Lisboa te conhecesse verdadeiramente, terias ganho o Prémio Mulher Estilo de Bida, carago! (e “carago!” faria parte do nome do prémio)

Ser professor num tempo em que a Educação é um dos maiores desinvestimentos do país é muito difícil. Pior do que isso só trabalhar na direcção de uma escola, tendo em conta que ser criança ou adolescente é estar sempre em crise, o que é ainda pior em tempos de crise, para não falar das constantes reviravoltas impostas por um ministério que parece apostado em desorganizar a vida dos estabelecimentos de ensino. [Read more…]

E será um rico país?

PM diz que Portugal é considerado um país rico no mundo

Não há cor-de-rosa sem espinhos

Rosa_chinensisNos últimos tempos, tenho-me dedicado a passear pela página que a Porto Editora dedica às dúvidas frequentes sobre o chamado acordo ortográfico (AO90). Confesso que tem sido instrutivo e não no melhor sentido da palavra. Dar-vos-ei conta deste meu périplo.

Certo dia, entrei pela pergunta O vocábulo cor-de-rosa tem hífenes?

Ainda antes de abrir, não pude deixar de estranhar que o vocábulo sobre o qual se pergunta se tem hífenes tivesse efectivamente hífenes e cheguei a imaginar que esta ligação conduzisse a um texto bem-humorado em que o leitor fosse levemente invectivado com uma frase como “Então não se viu que a resposta estava na pergunta? É claro que cor-de-rosa tem hífenes.”

Mas não. A resposta é muito mais engraçada. Ei-la:

O vocábulo cor-de-rosa é considerado uma exceção consagrada pelo uso à eliminação geral dos hífenes em locuções de uso geral no texto do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (1990), Base XV, 6.º. Embora este vocábulo seja escrito com hífenes, segundo o vocabulário oficializado em Portugal – o Vocabulário Ortográfico do Português (VOP), a grafia sem hífen já é aceite como uma outra grafia possível, tal como acontece noutras combinações idênticas iniciadas por “cor de”, como cor de laranja e cor de vinho. Os critérios de aplicação das novas regras estão, portanto, conformes ao vocabulário oficializado.

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Jornais de Coimbra têm medo do Sindicato dos Jornalistas?

SJ impedido de visitar redacções dos dois principais jornais de Coimbra

O que é uma susana valente?

fb11É decerto um espécime criado num dos viveiros das juventudes partidárias, o que lhe permitiu desempenhar papéis de relevo na política espinhense e no mundo das anedotas de louras. Na sua página de linkedin, usando uma língua semelhante ao português, apresenta-se:

Destaco o empenho, o rigor e a dedicação para ser bem sucedida e prestar uma efetiva e produtiva colaboração em todos os projetos que participo.
Capacidade de gestão de prazos e cumprimento de deadlines.
Organizada, responsável, capacidade de liderança, de gestão, maturidade, dinamismo, pró-atividade, de análise e de comunicação aliada a um forte espirito de equipa.

Palavras para quê? É uma mulher que participa projectos e que não só tem capacidade para gerir prazos como para cumprir deadlines. [Read more…]

Alarme social: meses com maiúsculas no site do IAVE

Meses_IAVE2Nos últimos dias, várias vozes chamaram a atenção para os prováveis prejuízos decorrentes da obrigatoriedade de usar nos exames nacionais apenas a grafia permitida pelo acordo ortográfico de 1990 (AO90). Naturalmente, fiz parte do coro.

Hoje, no jornal Público, apresentei vários argumentos a favor da utilização das grafias de 1945 e de 1990 nos exames nacionais, tal como acontecia até ao ano passado,  e, ontem, comentei as infelizes declarações de Edviges Ferreira, que, a propósito do mesmo assunto, conseguiu a quadratura do círculo, ao reconhecer que pode haver prejuízo para os alunos, defendendo, apesar disso, que não devem ter direito a duas grafias, castigando-os por culpas que atribui aos professores. [Read more…]

A Associação de Professores de Português reconhece que há problemas com o AO90

Este ano, de acordo com informação do IAVE, a única grafia admitida nos exames nacionais será a que está conforme o acordo ortográfico de 1990 (AO90)

Entretanto, a sociedade portuguesa não conseguiu, não pôde ou não quis adoptar o referido acordo. As causas são variadas e começam nos vários erros de concepção do próprio AO90, com várias pessoas e instituições a fingir que não há problemas.

Os jovens que vão, este ano, fazer exames nacionais foram obrigados, ao longo do seu percurso escolar, a conviver com duas ortografias, sendo que a mais recente tem contribuído para o aumento de erros. Como é evidente, os estudantes, sentindo-se ortograficamente inseguros, desejam, no mínimo, que seja reposta a possibilidade de continuar a optar pelas duas ortografias – a de 1945 e a de 1990 –, tal como acontecia nos exames de 2014.

Edviges Ferreira, presidente da Associação de Professores de Português (APP), discorda dessa pretensão e julga ter explicado a razão, ao declarar que, “se todos os docentes tivessem feito o que deviam, preparando os alunos activamente durante os últimos três anos, para este momento, não haveria qualquer problema.” [Read more…]

Acordo ortográfico: bem prega o Ministério da Educação!

Bem prega Frei TomásAté ao ano passado, o Ministério da Educação e Ciência (MEC) permitia aos alunos que utilizassem as grafias de 1945 e a de 1990, sem que isso implicasse penalizações na classificação dos exames.

Este ano, a única ortografia aceite é a de 1990 (AO90). Assim, o aluno que, por distracção ou por ignorância, escreva “acção”, terá direito a um desconto de 0,1 valores, no exame de Português de 12º. O limite máximo para penalizações por erros ortográficos, no referido exame, pode ir até quatro valores, o que é mais do suficiente para impedir a entrada num determinado curso superior. [Read more…]

Eu apoio Passos Coelho

Quem se confessar distraído e curto de finanças poderá sempre contar com a minha compreensão, porque gosto de me sentir acompanhado. Possuo uma capacidade de desorganização demasiado humana e, portanto, imperfeita e sou, muitas vezes, obrigado a fazer alguns malabarismos financeiros para que o mês não fique mais comprido que o salário. Também eu não sou um cidadão perfeito. É por isso que compreendo Passos Coelho.

Também tolero a dificuldade do primeiro-ministro em explicar-se: uma pessoa, às vezes, dá uma resposta apressada e, depois, tem de andar uns tempos a tentar endireitar aquilo que nasceu torto. Primeiro, não sabia que tinha de pagar e pensou que havia obrigações opcionais. Como essas explicações não podiam ser aceites pelo Direito e eram malvistas pelos que pagaram à Segurança Social, é natural que Passos Coelho, humanamente, tenha tentado disfarçar, fazendo de conta que havia “chicana política” ou invejas ou mesmo mau-olhado. Finalmente, não restaram senão a verdade ou a verosimilhança sob a forma de distracção e de falta de dinheiro.

Devo dizer que a crónica de Vasco Pulido Valente acabou por contribuir para que a minha tolerância para com Passos Coelho aumentasse ainda mais. Na realidade, as pessoas que passam pelas juventudes partidárias são, muitas vezes, as crianças-soldado da política, obrigadas, desde pequeninas, a alombar com as armas da demagogia e da conspiração, ficando, para sempre, deformadas e, portanto, incapazes de dizer a verdade ou de governar um país.

É por isso que Passos Coelho poderá sempre contar com o meu apoio para deixar de ser primeiro-ministro, porque faz tanto sentido colocar um jotinha a governar o país como oferecerem-me um lugar de cirurgião. É que pode morrer gente, senhores!

De boas intenções está o CNE cheio

De acordo com a notícia do Público, o Conselho Nacional de Educação defende o fim das retenções, argumentando que os alunos sujeitos a essa medida têm mais dificuldades em recuperar e que, para cúmulo, é uma medida dispendiosa para o Estado. Para além disso, o CNE faz referência a uma alegada “cultura de retenção”, reduzindo, no fundo e de modo simplista, as causas do problema, como é costume, aos maus hábitos dos professores.

Já começa a ser cansativo repetir que as causas do insucesso escolar são várias e que muitas delas têm origem no exterior das escolas. É igualmente cansativo relembrar que as escolas, apesar do folclore da autonomia, têm falta de recursos humanos, docentes e não docentes, o que dificulta a detecção e resolução de muitos problemas. Relembre-se, ainda, e muito a propósito, que a municipalização da educação em curso corresponde a uma diminuição da autonomia das escolas.

Tirando isso, há recomendações que me parecem razoáveis, mesmo que estejam muito longe de ser originais, nomeadamente as que se referem à necessidade de detectar o mais cedo possível os problemas que poderão dificultar aprendizagens e à realização de exames apenas no final do ano lectivo (ao contrário do que acontece para os 4º e 6º anos). De qualquer modo, e voltando a meter o rabo na boca da pescada, a primeira recomendação implica autonomia das escolas e, muito provavelmente, contratação de recursos humanos.

Boas notícias para as universidades   portuguesas

Durão Barroso vai dar aulas na Universidade de Genebra

Lembrete: não repetir maiorias absolutas

Sócrates ganhou maioria há dez anos

Municipalização da Educação: leituras e bom senso

Continua a bom ritmo o processo de municipalização da educação. Como tem sido hábito, especialmente nos últimos dez anos, trata-se de uma medida imposta pelo governo ao arrepio da maioria dos que trabalham no terreno.

Vale a pena, apesar de tudo, ler o Decreto, especialmente o palavreado introdutório, porque nunca devemos perder uma oportunidade de nos rirmos, mesmo no meio das desgraças. Aqui pelo Aventar, Santana Castilho glosou o tema. O Paulo Guinote tem dedicado vários textos ao assunto (para além dos publicados no blogue, recomenda-se “Municipalização da Educação: uma reforma necessária e coerente?”). O Arlindo, como de costume, colocou vários materiais ao alcance dos leitores, sendo de realçar a Declaração conjunta ANDAEP, CONFAP e FNE sobre transferência de competências para as autarquias (a primeira sigla é a da Associação Nacional de Directores de Agrupamentos e Escolas Públicas, a segunda é a da Confederação Nacional das Associações de Pais, sendo a terceira a da Federação Nacional de Educação). A FENPROF tem uma página especificamente dedicada esta questão.

No que se refere à transferência de competências para as câmaras municipais, o Arlindo comenta “nada disto me parece um bicho papão.” Mesmo que seja verdade, pergunto-me se deverá ser esse o critério para que um governo imponha medidas, seja em que área for.

Finalmente, o Conselho de Escolas, órgão consultivo do Ministério da Educação constituído por directores de escolas, emitiu um parecer em que são levantadas várias reservas ao processo de transferência de competências para as câmaras. Leia-se a notícia do Público sobre este parecer, com direito a contra-argumentação do Ministério.

O leitor sensato pensará “Se eu fosse ministro, iria, no mínimo, ler todos estes pareceres e, muito provavelmente, iria reconsiderar, tendo em conta que provêm de pessoas e entidades informadas e conhecedoras.” O leitor tem, no entanto, um problema: é sensato.

Municipalização da Educação: uma reforma necessária e coerente?

” (…) discordo de reformas que correspondem a ficções políticas, a pseudo-utopias particulares baseadas em conhecimentos superficiais de realidades externas, quantas vezes em rápida desactualização, destinadas a satisfazer este ou aquele grupo específico de interesse ou o ego pessoal de políticos em trânsito.” – Paulo Guinote.

Vejo-me grego!

Expressão que servia para indicar que se estava com dificuldade em resolver um problema. Agora, poderá ser utilizada por alguém que quer que os problemas dos seus concidadãos sejam resolvidos.

Momento de humor: Luís Montenegro fala sobre dignidade

Luís Montenegro mostrou-se desagradado com a intervenção de José Carlos Saldanha na Comissão Parlamentar de Saúde, tendo declarado que esse episódio “não dignificou o trabalho parlamentar”.

Na minha opinião, no entanto, o que verdadeiramente não dignifica os trabalhos parlamentares é termos uma maioria de deputados, para não dizer a totalidade, que está na Assembleia da República para votar, dar a pata e rebolar, de acordo com as ordens das direcções dos partidos, quando foram eleitos para representar o povo.

O que verdadeiramente não dignifica os trabalhos parlamentares é termos deputados que conseguem afirmar que as pessoas não estão melhores, ao contrário do país, que, esse sim, está muito melhor, como se fosse possível um país ser o contrário dos cidadãos.

O que verdadeiramente não dignifica os trabalhos parlamentares é termos deputados que pensam que os problemas pessoais dos cidadãos podem condicionar o desempenho do trabalho parlamentar, porque, para estas gravatas amestradas, esse trabalho, já se sabe, não é resolver os problemas dos cidadãos.

O que verdadeiramente não dignifica os trabalhos parlamentares é haver um deputado que pensa que os dramas pessoais não devem ser levados para o “seio do debate político”, porque, para estes cabides de fatos caros, o debate político e parlamentar deve estar o mais afastado possível dos dramas pessoais, essas coisas que levam os doentes a gritar que não querem morrer e outras incomodidades.

O que verdadeiramente não dignifica o trabalho parlamentar é termos Luís Montenegro a chefiar uma das bancadas parlamentares.

Jornal de Notícias e AO90 prejudicam alunos nos exames nacionais

wp_20150206_08_53_59_pro (1)Esta semana, o destaque do Jornal de Notícias de 6 de Fevereiro foi aquele que se pode ver na imagem.

O JN é um dos jornais que, sem que se perceba porquê, decidiram adoptar o chamado acordo ortográfico (AO90).

Ora, o acento agudo de “pára”, segundo a Base IX, 9º, é para suprimir. No 5.4.1. da Nota Explicativa, os autores do AO90 tentam explicar por que motivo se tomou essa decisão, recorrendo, em parte, ao segundo mantra do acordismo.

A manchete do JN, dotada, eventualmente, de uma vontade própria, contraria, assim, a ortografia adoptada pelo prestigiado jornal. Embora defenda, no mínimo, a suspensão imediata do AO90, percebo que isso tenha de se fazer gradualmente: hoje, a manchete; a notícia local, amanhã. [Read more…]

Mais uma lição a Passos Coelho

“Os contos de crianças trazem sempre esperança.” – do gabinete do Ministro das Finanças da Grécia

O cuspo de vida

Passos Coelho gastou saliva ao declarar que se deve fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para salvar vidas, desde que não seja caro. Ainda teve tempo para segregar uma preocupação diplomática com os doentes de hepatite C, que não estão a ser tratados porque o Estado português fará tudo o que estiver ao seu alcance para lhes salvar a vida, na condição de que fique a preços acessíveis.

A propósito do mesmo assunto, Passos Coelho babou umas instruções sobre o modo como os jornalistas deverão noticiar os casos daqueles que irão morrer porque governos e farmacêuticas existem para garantir lucros de empresas.

Tendo em conta o valor das metáforas, e já que andamos pelas glândulas salivares, um político que reduz o custo de uma vida a cuspo não passa de um escarro.

A pobreza de Passos Coelho

Pedir esmolaDados divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) mostram que o risco de pobreza aumentou em 2013, informação desvalorizada por Passos Coelho, sempre pronto a imitar exemplos como o de Luís Montenegro. Segundo o primeiro-ministro, esses dados correspondem a “um eco daquilo por que passámos, não é a situação que vivemos hoje. reporta aquilo que foi a circunstância que vivemos, nomeadamente em 2013, que foi, talvez, o ano mais difícil em que o reflexo de medidas muito duras tomadas ao longo do ano de 2012 acabaram por ter consequências.”

Convém relembrar, muito a propósito, que 2012 e 2013 foram considerados anos de viragem por Passos Coelho.

Em 2015, ano-mesmo-mesmo-de-viragem-agora-é-que-é, o risco de pobreza, segundo o ainda primeiro-ministro, diminuiu, o que, mesmo que fosse verdade, faria uma enorme diferença a quem continuasse pobre ou em risco de empobrecer.

Entretanto, o valor das penhoras da Segurança Social subiu 11% em relação a 2013 e foram cobrados coercivamente mais 68,8 milhões de euros que em 2011, o que só pode ser sinal de enriquecimento dos portugueses.