Durante a campanha, e antes dela, Ventura e o seu partido afirmaram, várias vezes, que se opunham e queriam acabar com os laços familiares no Parlamento. Fizeram disso uma bandeira. Talvez por isso, imagino eu, é que Rita Matias, a única mulher eleita pelo CH para a AR, é filha de Manuel Matias, assessor de Ventura na AR e antigo líder de um micropartido que o CH engoliu. E se dúvidas restarem, puxem a box atrás e vão ver o debate da jovem com a Joana Amaral Dias, na CNN, para perceberem a mediocridade. Parafraseando o saudoso Chicão, um esquadrão de cavalaria à desfilada naquela cabeça não esbarra numa ideia. Sim, é um tacho. E sim, a narrativa do CH é uma fraude. Mas cada um come os gelados que quer com a testa. Por enquanto, ainda somos um país livre.
A verdadeira semântica da vitória do PS

No meu artigo anterior, “A Direita e as Direitas” analisei os desafios para as direitas no pós legislativas de 2022. Agora vou procurar analisar a vitória de António Costa e do PS. Para isso vou recordar os dados da Pordata: são 9,2 milhões de eleitores dos quais 5,2 milhões (56%) dependem directamente do Estado (funcionários públicos, trabalhadores de empresas públicas, reformados e pensionistas assim como beneficiários do RSI – nestes 56% não estão contabilizadas as respectivas famílias.
Um dos motivos que me levou a escrever este artigo sobre a vitória de António Costa é a falta de noção de inúmeras pessoas que, perante o resultado obtido, começaram a disparar contra os eleitores que escolheram o PS. Desde o “a culpa é do Povo que é estúpido” ao suposto problema da falta de percepção do eleitorado. No primeiro caso, vi muitos laranjinhas descontentes atirar a matar ao povo. Aliás, uma senhora do PSD disse-o na televisão com todas as letras e sem gaguejar. Já outros queixam-se que o Povo votou no PS graças a um conjunto de medidas que foram impostas pelo PCP e pelo Bloco. Até pode ser verdade mas o erro de percepção é, sobretudo, responsabilidade daqueles que agora se queixam. Será que é o Povo que é estúpido e burro a justificação para a derrota de tantos e a vitória do PS?
Não. O Povo não é estúpido, nem quando nos brinda com derrotas nem tão pouco quando nos oferece vitórias. O Povo vota segundo os seus interesses, o seu bolso, os seus medos e angústias e as suas ambições. Ora, 56% do eleitorado (e suas respectivas famílias) o que viram nestes seis anos? Viram o seu salário mínimo crescer 40%. Viram as suas reformas aumentar e os cortes, antes efectuados, repostos. Viram as carreiras serem descongeladas. Viram o Serviço Nacional de Saúde funcionar para eles antes e durante a pandemia. Viram, como bem explica o José Mário Teixeira neste artigo, que podem continuar a recorrer ao sistema de justiça de forma gratuita ou quase. Mais, durante a pandemia viram o governo actuar segundo os seus interesses, os interesses destes 56% que não perderam poder de compra, que não viram os seus postos de trabalho terminar nem os seus salários cortados. Nada. Ou seja, nestes seis anos, não viram a sua vida piorar, o que é melhor do que na legislatura anterior a Costa. [Read more…]
Acabaram-se as desculpas
Transversalmente, os partidos políticos, à semelhança da sociedade em geral, estão viciados na falsa concepção de que existe uma Justiça para ricos e outra para pobres.
Na verdade, quem é pobre ou quem é rico, tem o acesso mais facilitado à Justiça do que a classe média. Os pobres podem recorrer ao apoio judiciário, e os ricos às suas fortunas. Quem faz parte da classe média é que não pode recorrer nem a uma coisa nem a outra. Antes, enfrenta taxas absurdas.
É, pois, imperativo e urgente acabar com as taxas e os encargos proibitivos. E de uma vez por todas, à semelhança da Saúde, ser consagrado o princípio de “tendencialmente gratuita”. Pois se sem Saúde não há vida, sem Justiça não há sociedade.
Infelizmente, a Justiça tem sido assunto mais de títulos noticiosos do que de análise e ponderação. A reboque de fúrias, paixões e oportunismos, pouco se tem feito para começar, desde logo, a legislar melhor.
Do programa eleitoral do PS, existe um diversificado elenco de ambições e de medidas, mormente de modernização e de agilização, que quem as lê fica com a ideia que os socialistas têm estado na Oposição e não na governança.
Nada do que agora o PS propõe realizar, foi feito ao longo dos últimos 6 anos. Pela simples razão de que muito pouco – pois nada seria sempre impossível, por muito pouco que fosse -, foi feito em matéria de Justiça.
Efectivamente, os dois mandatos da Ministra Francisca Van Dunem, reduzem-se a 6 anos perdidos. Nada mais. E, talvez por isso, o PS nem se recorde, que esteve a governar nesses mesmos 6 anos. Prometendo, agora, tudo quanto havia prometido antes e mais um par de botas. Ainda que em matéria de taxas de justiça, apenas ambicione reduzir nos casos em que “importam valores excessivos”.
Ao fim de 6 anos, aperceberam-se que há “valores excessivos”. Lindo!
A verdade é que uma maioria absoluta, acaba com quaisquer desculpas: a Justiça só não se aproximará do povo e cumprirá a sua missão, se não houver vontade política.
Por isso, é bom que se deixem de merdas e arregacem as mangas. Se não for por convicção, ao menos que seja por vergonha. Se ainda houver, uma ou outra.
Boa, Suécia!
“Portugal não ratificou alterações a convenção fiscal negociada em 2019 e, descontente com o impasse, Estocolmo pôs fim a acordo original. Agora, vai tributar pensionistas que vivem em Portugal, até há pouco isentos de IRS. “
Bloco de táxi
Contas feitas, o Parlamento continua a alojar uma maioria expressiva de esquerda, que fica com 129 dos 230 deputados ontem eleitos. Mas as consequências desta eleição, que resultam de um braço de ferro entre o PS e os partidos de esquerda, subordinado ao tema “Quem foi o (ir)responsável pelo chumbo do OE22 que precipitou o país neste abismo, quem foi?”, só sorriram, e de que maneira, a António Costa. Rui Tavares também foi eleito, o que representa uma inegável vitória para o Livre, que lá conseguiu sobreviver ao desastre Joacine, e é digno de nota. Mas uma nota de rodapé, numa história que é sobre um eucalipto que secou tudo à sua volta.
Sobre o PCP já escrevi na noite eleitoral. Foi um dos derrotados da noite, teve um resultado desastroso, perdeu parlamentares de peso como António Filipe e João Oliveira, que prestigiaram a AR com o seu trabalho, e viu aprofundar uma crise que vem de trás, e que não parece ser de fácil resolução. Mas continua com seis deputados, mais dois no Parlamento Europeu, quase duas dezenas de autarquias, presença em praticamente todos os concelhos do país e um forte ascendente no meio sindical.
Já a situação do BE é completamente diferente e muito mais grave. É o grande derrotado da noite à esquerda e só não é o grande derrotado da noite porque houve um partido fundador da democracia que foi obliterado do Parlamento e um Rui Rio que levou a tareia da vida dele. Mas deixarei o grande derrotado da noite e a implosão do CDS para outro escrito.
[Read more…]E continuam a insistir na agricultura intensiva de regadio

A situação é dramática, mas não há sensatez que entre na cabeça dos governos espanhol e português, que, na avidez do negócio (e viva o crescimento económico liberal, que, como se vê, não é exclusivo do partido que o reivindica para si!), continuam a destruição do ambiente e a promoção da desertificação, aumentando violentamente ou mantendo a agricultura intensiva de regadio.
Consta hoje no Jornal Público:
„Esta terça-feira está reunida a Comissão Permanente da Seca, que congrega vários ministérios, para analisar a situação e eventuais medidas a tomar. A seca, que começou a agravar-se no país em Novembro, deixou Portugal continental no final do ano com 93,7% do território em seca fraca, moderada ou severa. O mapa de Janeiro do IPMA, além de indicar que 100% do território se encontra nessa situação, coloca já uma vasta área do Algarve e do Alentejo em seca extrema.“
Algumas notas sobre as eleições legislativas de 1922: Uma maioria absoluta do PS e 12 deputados fascistas
As eleições estiveram mais próximas da lógica do Big Brother, ou de qualquer concurso televisivo, do que de um exercício capaz de esclarecer os eleitores para uma escolha democrática. Por isso mesmo o Viagra do Cotrim, o Albino do Rio ou a Acácia do facho foram mais citados do que os temas centrais da governação ou as aberrações programáticas dos respectivos partidos. Assim, a direita que quer proibir greves e acabar com a negociação colectiva, radicalizar a liberalização do mercado de trabalho, vender o que sobra da estrutura económica do país, cobrar os mesmos impostos a ricos e pobres, foi capitalizando simpatia ao invés do escrutínio público que por certo teria o seu preço a pagar em votos. Os jornalistas passaram a apresentadores de um concurso de variedades destinado a medir a popularidade do espectáculo pelo espectáculo, mesmo que isso aconteça sobre a vala comum do jornalismo e do debate de ideias. A direita da direita cresceu, a esquerda da esquerda foi devorada pelo PS que ganhou às suas custas com maioria absoluta, há 12 fascistas medievais num parlamento democrático, mas as lições a tirar destas eleições não se ficam por aqui.
A realidade tal como ela é

Rui Naldinho
Achar-se que o eleitor português na hora de decidir o seu voto olharia para as questões de carácter, do comportamento ético e moral dos políticos à teia de interesses familiares que se desenvolvem no seio do poder, como um dos factores determinantes na sua escolha, é um erro. Desenganem-se portanto os que pensaram que o acidente com o automóvel onde seguia o Eduardo Cabrita, ou a borla fiscal à EDP, entre outras minudências, iriam mudar o sentido de voto de um número significativo de eleitores. Isso até poderá ser válido em países com elevados rendimentos por habitante, ou com um nível de formação académica muito acima da média, como alguns países do Norte e Centro da Europa, mas nunca em países pobres e com assimetrias regionais e sociais tão grandes como o nosso. O importante é que os problemas mais básicos do cidadão sejam resolvidos em conformidade com as suas expectativas, já de si baixas. O salário, o transporte público utilizado todos os dias ou com frequência, os livros escolares para os filhos, as creches, os lares da terceira idade, a escola pública, o Serviço Nacional de Saúde.
Nada disto são luxos. Chama-se dignidade. O PS conseguiu esses mínimos, ainda que sob pressão de terceiros, e recolheu os louros para si. [Read more…]
O Parlamento feito call-center
A IL elegeu oito deputados. Oito pessoas que são, agora, a contra-gosto, funcionários públicos.
É claro que não se chamam “deputados” ou “trabalhadores do Parlamento”, mas sim “colaboradores da democracia”. A bancada da IL terá uma #pub nova todos os debates. Os colaboradores da democracia da bancada da IL usarão todos um chapéu, como daqueles que o José Mota levava às conferências de imprensa em Paços de Ferreira, só que em vez de dizer “Capital do Móvel” dirá “Capitalista Ignóbil”.
A partir de agora, haverá sempre um manager no meio da bancada da IL, que a cada dez minutos vai gritar: “ESTAMOS QUASE, ESTAMOS QUASE A ATINGIR AS VENDAS DO DIA, EQUIPA MAGNÍFICA, VAMOS A UM ÚLTIMO ESFORÇO, VOCÊS SÃO INCANSÁVEIS POR ESTA MARCA. VAMOS, DEZ MINUTOS PARA FECHAR, ESTAMOS POR TUDO: IMPINJAM O SNS AO GRUPO MELLO A PREÇO DE SALDO!”. Tudo isto para manter o mindset na ordem, pois claro.
Uma vez por mês, a IL fará uma promoção especial. Portugal: pague por dois, não leve nenhum. Não acredita? Experimente você mesmo! O liberalismo funciona e, mesmo depois destes trinta anos de liberalização económica que nos trouxe ao lodo, continua a fazer falta a Portugal! [Read more…]
O fascismo não é adversário. É inimigo.
Acordei num país onde 385.543 pessoas defendem um país estruturalmente autoritário, anti-constitucional, racista, xenófobo, islamofóbico e misógino. Que querem no poder alguém que baseia a sua mensagem no ódio e na divisão. Que quer destruir o Estado Social. Que quer menos impostos para os mais ricos e mais impostos para a classe média. Que celebra, da forma aberta e descomplexada, a miséria, a fome e a violência que caracterizou o Estado Novo. Que quer cancelar a democracia. Sim, isto é muito triste e é, de longe, a maior desilusão política da minha vida. Não vale a pena estar com rodeios.
A extrema-direita, para mim, não entra na categoria de adversário. Adversários são os que pensam diferente de nós, num quadro de respeito pela democracia e pelos princípios constitucionais. A extrema-direita, enquanto inimiga da democracia e da Constituição da República Portuguesa, é minha inimiga também. Não há diálogo possível com quem defende o retrocesso como caminho. A minha condição de republicano, democrata e patriota assim o exige. O fascismo voltou, em força, mas regressará ao esgoto da história de onde nunca devia ter saído. Cairá da cadeira como a besta de Santa Comba Dão.
Vitória moral
Tendo em conta o empate técnico das sondagens, Rui Rio vai reclamar uma vitória moral.
Costa vai facturar
Costa ganhou o braço de ferro entre o PS e PCP mais BE. Não quis ceder à negociação, como fizera nos anteriores 6 orçamentos, e deixou cair o governo.
Cheirou-lhe a fraqueza do PSD e CDS, bem como do PCP e do BE e, qual matador, avançou para o golpe final.
Na sua sofreguidão, criou o palco perfeito para o reforço de deputados do esgoto da extrema-direita. Pelo caminho, secou o PAN e, quiçá, o CDS.
Não vou entrar no discurso do povo ser sábio. Uma possível maioria absoluta para um partido que teve Cabrita e os sucessivos escândalos, Sócrates e sua entourage e a má memória da corrupção não pode vir de um povo sábio.
De nada valeram as manipulações que, de repente, passaram a colocar Rio colocado a Costa e, às vezes, até à frente, nas “sondagens” e como fez o PÚBLICO nesta capa. Título onde Costa é dado como estando à frente de Rio, mas fica em segundo plano, com uma carantonha, em contraste com um Rio sorridente.

Adenda: nem tudo é mau. O execrável Rio não tem grande futuro pela frente.
Perdas em combate. E quem perde é Portugal.
Beatriz Gomes Dias, Isabel Pires, José Gusmão, José Manuel Pureza, Moisés Ferreira, António Filipe, João Oliveira, Heloísa Apolónia, João Ferreira.
Não são os partidos que perdem. É o país. Sobretudo quando os portugueses os substituem por deputados classicistas, racistas, xenófobos e homofóbicos.
Eu já vi este filme e não gostei.
A IA nas projecções
Legislativas 2022 – 2
O mesmo passarinho diz-me que as três sondagens à boca das urnas dão a vitória ao PS.
Legislativas 2022 – declaração de interesses
Há quem ache que todos devemos assumir publicamente o nosso sentido de voto. Eu acho uma parvoíce, até porque o voto é secreto e ninguém tem nada a ver com isso. Eu não vou revelar o meu, mas assumo, sem problemas, o que seria uma vitória para mim:
1) Nenhum partido ter maioria absoluta
2) Haver uma maioria de esquerda no Parlamento
3) Extrema-direita ter um resultado muito abaixo do esperado e ficar atrás da IL e CDS
Existe ainda um quarto ponto, que diz respeito ao caso de se verificar uma maioria de direita. A acontecer, celebrarei também uma entendimento que deixe de fora a extrema-direita. Mal por mal, que seja um mal menor.
Quanto ao pódio: quem fica à frente, para mim, é totalmente irrelevante. Não é isso que define o nosso futuro, mas a conjugação de forças no Parlamento e a solução que daí poderá sair. O resto é paleio de saco. Não elegemos, nunca elegemos, primeiros-ministros. Elegemos deputados. E é a Assembleia da República que detém o poder Legislativo. E que aprova, ou não, a constituição de um novo governo. Foi nisto que votamos hoje. E ainda bem, que não há sistema melhor.
“Nós, os super-ricos, devemos pagar mais impostos”

“Antonis Schwarz: Sim, tanto na Alemanha como internacionalmente, a regra é: quanto maior a riqueza, menos se paga em impostos. Na verdade, deveria ser o contrário: Os ombros mais fortes devem contribuir mais para o bem comum. Porém, de facto, temos baixado sucessivamente os impostos para os super-ricos nos últimos 30 anos. Com a Corona, estamos num ponto em que os cofres do Estado precisam ainda mais de fundos adicionais. É por isso que dizemos: Temos de mudar o nosso sistema fiscal.
tagesschau.de: Quando diz “nós”, não é só você, mas cerca de 50 pessoas ricas que se juntaram na organização “Taxmenow”. Isso significa que existe actualmente muito apoio por parte daqueles que têm relativamente muito dinheiro?
Schwarz: Sim, exactamente. Somos mais de 50 pessoas na iniciativa “Taxmenow”. Beneficiamos muito com o sistema. Somos de opinião que temos de fazer algo e usar a nossa voz em público como pessoas ricas para dizer: As coisas não podem continuar como estão agora. [Read more…]
Ensaio sobre a cegueira

(…) somos o quinto país mais desigual da União Europeia (…)
Como sair desta espiral? Educação, valorização dos salários e da contratação coletiva, reforço das prestações sociais, mais progressividade fiscal e recuperar o imposto sucessório são caminhos apontados pelos especialistas ouvidos pelo Expresso.”
Como é possível que esta límpida constatação da desmedida desigualdade não abra os olhos a quem vai votar à direita???
A propósito do crescimento económico

Só quando a última árvore for derrubada, o último peixe for morto e o último rio for poluído é que o homem perceberá que não pode comer dinheiro.
Provérbio Indígena
O extremismo é isto, Dr. Rui Rio

Numa das várias vezes em que André Ventura entalou Rui Rio no lamaçal, durante o frente a frente na SIC, o líder do PSD não foi apenas incapaz de afirmar, de forma categórica, que o CH não entra nas contas do PSD, perdendo-se em ambiguidades e engasgando-se em “se’s” e “mas”. Dias depois, num outro debate, chegou mesmo a usar parte dos seus 12 minutos para defender a posição do líder da extrema-direita sobre a prisão perpétua.
Rui Rio foi igualmente incapaz de explicar aos espectadores em que medida o CH é extremista. Como não sei se foi por ignorância, cobardia ou tacticismo, aqui fica uma lista, com vários exemplos daquilo que é o extremismo do Chega, no improvável caso de se voltar a encontrar com Ventura para debater:
[Read more…]Deus, Pátria, Família e Trabalho: a tetralogia da treta, por André Ventura, parte IV – TRABALHO

Antes de chegar ao Parlamento, André Ventura saltou da Autoridade Tributária para a Finpartner, uma empresa de contabilidade e assessoria fiscal com intensa actividade nas áreas da engenharia fiscal via offshore e vistos gold, o que não deixa de ser engraçado, à luz da narrativa em torno da “pátria” e das posições anti-emigração que agora defende. Porque isto da pátria não é para qualquer gajo que chegue de barco de borracha em fuga da miséria. Isso seria cristão demais para um farsante como Ventura. Tratando-se de um oligarca russo, angolano ou chinês, que aterre em Lisboa no seu jacto privado, então já somos capazes de ter aqui alguma coisa para lhe vender. Nacionalidade portuguesa pelo preço certo em euros.
Isto do trabalho, na óptica do André Ventura, tem muito que se lhe diga. É que eu ainda sou do tempo em que, em 2019, o líder do CH deu uma entrevista à uma estação televisiva de uma igreja qualquer, onde afirmou, com a convicção a que nos habituou, que, mal fosse eleito, deixaria todas as suas outras ocupações para se dedicar a tempo inteiro a servir o país. Porque defendia, convictamente, que os deputados o deviam ser em exclusividade de funções. Claro que, uma vez eleito, Ventura continuou a servir os interesses da Finpartner, durante quase mais dois anos, durante os quais teve acesso a informação privilegiada resultante da sua posição no Parlamento, que pode ou não ter entregue ao seu principal empregador. E desengane-se quem achar que Ventura saiu da Finpartner por imperativo de consciência. Saiu, isso sim, porque a contradição se tornou insustentável. E porque os próprios militantes do CH começaram a ficar indignados. Tivessem deixado Ventura tranquilo na sua vida, e ainda hoje lá estaria.
Em memória de Isabel Alves Costa – quem é Rui Rio
De há uns dias a esta parte voltei a sentir-me sobressaltado com a memória do tratamento que Rui Rio infligiu a Isabel Alves Costa. Não porque não me lembre dela amiúde, talvez por a conhecer desde a adolescência, sim, mas particularmente pelo que deu ao teatro e, muito particularmente, à recuperação do Rivoli para a cidade do Porto.
Mas o que me buliu com as vísceras foi mesmo uma declaração de Rui Rio esta semana: “se se perder eleições ninguém morre!”
Talvez tenha razão, quem sou eu, mas se ganhar…?
Aquando da reabertura do Rivoli em 1993, Isabel Alves Costa aceitou o convite para ser directora artística do renovado equipamento. Desde então, o trabalho que desenvolveu foi reconhecido por se revelar como “fundamental na estruturação da vida cultural do Porto, tendo sido uma das programadoras mais activas do Porto 2001 – Capital Europeia da Cultura, como responsável pela área das artes do palco”.
O Governo francês atribuiu-lhe a medalha de “Chevalier des Arts et des Lettres” em 2006 – foi estudar para Paris em 1963 e regressou em 1997 à Sorbonne para se doutorar em estudos teatrais.
Deixa a direcção artística do Rivoli em 2007, quando Rui Rio entrega, em regime de concessão exclusiva, o equipamento a Filipe La Féria.
Vindo a falecer em 2009 de doença súbita, importa relembrar o calvário a que Rui Rio a obrigou a percorrer. Sem nunca ter tido coragem para a demitir, Rui Rio foi cortando, paulatinamente, ano após ano, o orçamento já de si parco para a programação regular, [Read more…]
Deus, Pátria, Família e Trabalho: a tetralogia da treta, por André Ventura, parte III – FAMÍLIA

Quando foi eleito deputado, o programa de André Ventura trazia consigo uma inovação que, seguramente, iria beneficiar as famílias portuguesas: desmantelar o Estado Social. Privatizar a Saúde, a Educação, privatizar tudo. Tudo. Mas como alguém foi lá ler o programa e denunciou o plano do Chega, André Ventura fez o habitual número Groucho Marx e, como as pessoas não gostaram das propostas, ele arranjou outras e mudou o programa. Pelas famílias, pois claro.
Outra grande demonstração de preocupação com a família, por parte da Unipessoal de André Ventura, reflecte-se na caça ao “subsídiodependente”, uma classe que, segundo a narrativa oficial da extrema-direita, incluiu todo e qualquer um dos 8 milhões de beneficiários do RSI, onde estão incluídos 6 milhões de ciganos, 10 milhões de afrodescendentes e 156 milhões de árabes, dos quais 290 milhões integram células terroristas ligadas ao Daesh ou à Al-qaeda. Mais milhão, menos milhão, é disto que estamos a falar.
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