A vida é um palco, já dizia o Bardo, transformando-nos a todos em actores. No prolongamento desta imagem dramática, e sem ser original, é possível dizer-se que o mundo é um conjunto de palcos em que desempenhamos papéis diferentes. Não me faz, portanto, confusão que, de copo em riste, entre compinchas, possamos exercer o saudável direito ao disparate, mesmo que seja politicamente incorrecto ou só incorrecto e até desinformado, porque há sítios em que é lícito que todas as louras sejam burras e todos os alentejanos, preguiçosos. [Read more…]
“Caprichos onanísticos”
O líder de um partido político que se refere à adopção e co-adopção por casais homossexuais como “disponibilizar crianças para satisfazer os caprichos onanísticos e preconceitos heterofóbicos dos gays e das lésbicas” deve saber que está a descer ao nível mais baixo da política, aquele em que não se hesita em aviltar um conjunto de cidadãos para marcar uma posição face a um adversário político. É isto que faz Marinho e Pinto neste artigo. Degrada e calunia tanto as famílias compostas por casais homossexuais que já existem como aquelas que poderiam vir a formar-se, reduzindo a vontade de dar um lar a uma criança a “caprichos onanísticos” e manifestação de “heterofobia”, e fá-lo porque encontrou nisso uma arma de arremesso político que ele provavelmente entende que pode valer-lhe uns votos.
Marinho e Pinto poderia esgrimir argumentos contra a adopção homossexual, ou não tivesse ele o direito a opor-se a essa possibilidade, mas não o faz, opta pela generalização ofensiva e aviltante. Poderá ser porque não sabe fazer melhor do que isso ou apenas porque é esse o caminho mais fácil. Seja como for, e para usar as palavras dele, “é bom que o país saiba o que pode esperar”, caso tenha andado distraído até aqui.
(Via Malomil)
Governar para números ou governar para pessoas?
Santana Castilho
O filósofo Slavoj ZizeK citou T. S. Elliot num comício da Syriza para dizer que “há momentos em que a única escolha é entre a heresia e a descrença”. E clarificou a ideia afirmando que “só uma nova heresia, representada hoje pela Syriza, pode salvar o que vale a pena salvar do legado europeu: democracia, confiança nas pessoas, igualdade e solidariedade”.
O estado em que a política educativa dos dois últimos governos colocou escolas e professores faz-me suspirar por um “momento Syriza” na Educação. Por uma nova heresia, que coloque cooperação onde hoje está competição. Porque a cooperação aproxima-nos e sedimenta-nos enquanto grupo e a competição, ampliando as diferenças, afasta-nos, isolados por egoísmos. Porque a cooperação serve as pessoas e harmoniza-as, tal como a competição, hoje sacralizada na nossa cultura, serve os números e os conflitos. [Read more…]
Passos Coelho, contador de histórias e de outras coisas que não existem
Ver Pedro Passos Coelho referir-se às propostas do Syriza como “contos de crianças“, independentemente de elas se virem ou não a cumprir, remete-me para os inúmeras histórias de embalar ovelhas com que este sujeitinho aldrabou o eleitorado na sua busca desenfreada pelo poder entre 2010 e 2011 e que o Ricardo Santos Pinto teve o cuidado de compilar pouco depois deste contador de histórias ter chegado ao poder.
Auschwitz, agosto de 2014
Conhecia a estatística dos campos de morte. Mas não conhecia o lugar, nem o efeito que provoca nos homens.
Li bastante sobre as experiências atrozes do Dr. Mengele, foram leituras duras mas sem sequelas. Em Auschwitz I essa paz abandonou-me.
Os ciganos eram considerados seres associais pelos teóricos do nazismo. Muitos combateram com uniforme romeno na frente russa lado a lado com os soldados alemães. Quando regressaram da guerra as suas famílias tinham sido eliminadas e as suas casas destruídas pelos nazis. [Read more…]
Hélder Bataglia, presidente da ESCOM
“Foi montado um esquema para fugirmos aos impostos (no negócio dos submarinos)”.
No further questions.
Não devem ser drogas leves!
Neste fim de semana um conjunto de pessoas (100 dizem uns, 400 dizem outros) deslocaram-se da Covilhã a Évora, onde se manifestaram à porta do Estabelecimento Prisional. Por causa de José Sócrates, está visto.
Por entre declarações várias, o facto de dizerem que o antigo primeiro ministro estava preso por motivos políticos!
Mas o que me espantou foi alguns estarem de cravo vermelho e cantarem a Grândola Vila Morena!
Salgueiro Maia e Zeca Afonso devem estar a dar voltas nos caixões, mas pergunto-me: o que é que andam a fumar na Covilhã?
Radicais para todos os gostos
Fotomontagem@Uma Página Numa Rede Social
No Domingo abateram-se os corruptos gregos. Na Segunda o sistema salivou como se não houvesse amanhã. Hoje, Terça-feira, coisas extraordinárias acontecem. O PSI-20 abriu a sessão em queda. Culpa do Syriza? Nada disso, culpa dos radicais que geriram e destruíram a PT e do BPI, que foi hoje alvo de “corte de rating” por parte do BBVA. Culpa do Syriza? Nada disso, culpa dos “fracos rácios” de eficiência na operação do banco e do “modelo de negócio desequilibrado em Angola“. Aguenta Ulrich, ninguém te mandou fazer negócios com radicais.
Auschwitz
Setenta anos após a libertação dos campos de Auschwitz pelo Exército Vermelho, na caminhada que de Estalinegrado e Kursk até Berlim virou o rumo da guerra, relembro as vítimas que morreram duas vezes, uma às mãos do nazismo e todos os dias na continuação do esquecimento.
Relembro o Porajmos, 220000 ou 1500000 mortos, o maior genocídio (pelo menos relativamente à população total da etnia) cometido pelo mal que assolou a Alemanha e muito mais Europa.
Não se fizeram filmes e séries de televisão, não se escreveram prateleiras de livros, não lhes deram uma pátria porque também não a tinham (e ao menos por eles não se roubou a terra a outros), não constam dos manuais escolares. Não contam, são ciganos, e até nos massacres há vítimas que são mais vítimas do que outras.
Vinte e três mil ciganos alemães e austríacos foram prisioneiros em Auschwitz, e cerca de 20.000 deles foram mortos naquele local. Fonte.
Para saber mais: Embaixada Cigana
Da colecção O governo que destrói recursos humanos (6)
Uma nota final sobre o Charlie Hebdo
Após ler este texto e este conjunto de textos comecei a pensar que todos têm as suas pertinências, uns mais do que outros. Mas parece-me também trágico que Charlie Hebdo, um jornal que nunca pretendeu ser o símbolo da República francesa (lembro-me de Luz a dizer nesta entrevista “I didn’t go to the spontaneous rally on January 7th. People sang the national anthem. We’re talking about Charb, Tignous, Cabus, Honoré, Wolinski: they would’ve scorned this kind of attitude.” E que “I’m going to think about my dead friends, knowing they didn’t fall for France!” ) que não pretendia influenciar ou coagir, que não pretendia fazer dinheiro ou ser popular, que era, sobretudo, um jornal anti poder e anti-sistema se tenha tornado num argumento para esgrimir em discussões sobre a laicidade, ou o universalismo do republicanismo francês, a forma como lidam com o colonialismo, os limites da laicidade, da liberdade de expressão, ou pior ainda uma discussão sobre a sociedade de valores francesa. Não é que estas discussões não sejam válidas, não é que não se devam ter. Custa-me é ver este jornal que tem tão poucas pretensões, que nunca pretendeu ser um símbolo, ser dado como exemplo máximo de todas estas coisas (ou o exemplo contrário a todas estas coisas, dependendo do autor), como um ponto de partida essencial para todas estas discussões. Charlie Hebdo era só um jornal satírico que nem sequer tinha grande público (esteve praticamente à beira da bancarrota nos últimos anos). Custa-me ver no fundo, o jornal a ser instrumentalizado desta forma não só por políticos mas por intelectuais e activistas que de certeza que têm até as melhores intenções.
É difícil de ver isto porque não há ninguém para falar em nome do jornal, porque as pessoas que podiam falar sobre o jornal em si estão mortas. Parece-me óptimo que se debata estes pontos de vista, que se ponha em causa visões de sociedade mas acho um absurdo caírem no erro de atirar o jornal para todas estas discussões como se Charlie Hebdo fosse de repente um símbolo da França, como se estivesse para o regime como está Charles de Gaulle ou a Marselhesa.
Ao menos tenham a decência de ouvir um dos sobreviventes: ” Today, it seems that Charlie fell for the freedom of speech. The simple fact is that our friends died. The friends we loved and whose talent we admired so very much.”
Momentos
Ontem foi um dia animado. Tivemos o momento Marretas, com Pires de Lima, o momento lacrau de Massamá, com o Passos, o momento Salazar com Maria Alberta Fernandes e Camilo Lourenço, o momento a-sombra-do-radicalismo-ameaça-a-europa, com José Rodrigues dos Santos, o momento aibalhamedeuscaoropataperdida com os Luís Delgado e similares, os vários momentos ai que vêm aí “os radicais extremistas de esquerda”, dos pivôs da RTP, enfim, um dia animado.
Houve até, valham-nos os deuses do Olimpo, o momento de verdadeiro serviço público, quando o José Manuel Pureza desembainhou a palavra e disse umas verdades como estalos na própria cara da RTP.
A propósito de contos de crianças – ele fez as contas
“Passos diz que não será preciso cortar salários nem fazer despedimentos: O presidente do PSD, Pedro Passos Coelho, afirmou, este sábado, que fez as contas e está em condições de garantir que não será preciso cortar salários nem fazer despedimentos para consolidar as finanças públicas portuguesas.” Foi apenas há 4 anos.
Merkel também visita Sócrates
Angela Merkel in visita a Palazzo Vecchio a Firenze – Credits: EPA/TIBERIO BARCHIELLI/PALAZZO CHIGI PRESS OFFICE/HANDOUT
Uma enorme lata
O próximo governo grego será o primeiro governo de esquerda da Europa desde… sejamos magnânimos, o governo francês de 1981-83. A rigor teríamos de ir ao Portugal da década de 70, ao V Constitucional, para não ir mesmo mais atrás, ao V Provisório. Obviamente não conto com as ditaduras dos satélites da URSS, que além de ditaduras são tanto de esquerda como o actual da China. [Read more…]
Pânico no sistema
Eles andam todos muito nervosos. Das clientelas dos blocos centrais aos teóricos do regime, passando pela extrema-direita ressabiada ou pelos apóstolos da ditadura dos mercados, a vitória esmagadora do Syriza nas legislativas de ontem na Grécia causou profundos arrepios a todos os parasitas que se alimentam ou que anseiam vir alimentar-se do apetitoso lombo do sector público, quais percevejos comodamente instalados costas do rinoceronte estatal.
O murro do Papa
O Papa, justificando a violência contra os blasfemos que ofendem Deus, exemplificou com a resposta que daria – um murro na cara – a quem lhe insultasse a mãe. Sem mais considerações e independentemente da minha avaliação de tal resposta, gostaria só de lembrar Francisco, o Papa, e os que gostaram desta rábula, que as nossas mães existem – ou existiram – realmente. Existiram! Realmente! Para lá de todas as dúvidas.
Aviso público ao serviço público
José Manuel Pureza e a peça do José Rodrigues dos Santos sobre a Grécia.
Já agora, sobre as mentiras repetidas da direita a propósito da Grécia.
Eleições na Grécia: Tsipras no dia depois da vitória do Syriza

Com ou sem maioria absoluta, amanhã começará um período interessante na Grécia. Teremos em Tsipras uma segunda versão do flop Hollande? Ou, por outro lado, terá o novo governo uma boa mão de poker para negociar com os credores gregos? Da esquerda à direita, ninguém ficará indiferente.
A esquerda portuguesa não é a grega, tem de encontrar o seu caminho
O problema da esquerda portuguesa tem um nome: sectarismo. Tem outros, como dogmatismo, incapacidade de perceber que 100 anos depois nem o capitalismo é o mesmo nem combatê-lo pode ser de feito da mesma forma, mas esses são problemas de toda a esquerda europeia.
Se na Grécia temos outro caminho, a unidade entre forças que se degladiavam há meia-dúzia de anos, a capacidade de construir uma frente que ocupe o espaço da social-democracia ocupado pelo social-liberalismo, a aprendizagem com a queda do estalinismo, se no estado espanhol um outro surgiu, fora dos partidos tradicionais e contrariando a sua esclerose, em Portugal precisamos de outro ainda. [Read more…]
Iogurte grego estragado
O deputado do KKE Miguel Tiago e o Rui Tavares estão com azia. A direita nem se fala.
Não olhes para trás, Orfeu
Tem a mitologia grega tanto por onde escolher que cada um guarda para a vida uma que faz sua: calhou-me a do Orfeu, fixemos este instante, quando tudo se iria resolver a meio contento proibido estava de olhar para trás e ver Eurídice, olhou e assim a deixou ficada em estátua de sal.
Serve perfeitamente para esta ida dos gregos a votos, uma cena que por acaso até foram eles que para nós, europeus, inventaram de forma primitiva e limitada, é certo, numa cidade-estado chamada Atenas. Não olhar para trás, seguir em frente, fugir dos infernos.
Teve a Grécia o azar de ficar no lado errado das contas de dividir entre Estaline e Churchill, e levou com outra invasão, a inglesa. A guerra civil, a primeira onde a guerra fria se joga nas guerras onde morrem os outros, a guerra civil da Grécia fecha o ciclo iniciado em 1936 pela de Espanha. Não é mera coincidência que agora seja na Grécia e na Espanha que a libertação pode começar, e não esqueçamos que as ditaduras onde os três povos sofreram (e os deixaram abertos à corrupção máxima e clientelismo das castas) iniciaram o seu fim em Portugal. Desta vez seremos os últimos, lá chegaremos. [Read more…]
Guia para as eleições na Grécia: poderá o Syriza obter a maioria absoluta?
Jorge Martins
Tudo indica que, hoje, será um dia histórico para a Grécia e para a Europa, com a muito provável a vitória do partido de esquerda SYRIZA nas eleições gerais. A dúvida que se coloca é se obterá uma maioria absoluta ou apenas relativa, o que o obrigará a fazer coligações com outras forças políticas.
Para percebermos as probabilidades de isso acontecer, há que atender a três particularidades do sistema eleitoral grego:
a) o partido vencedor tem um bónus maioritário, que lhe permite ocupar, automaticamente, 50 dos 300 lugares do Parlamento helénico;
b) existe uma cláusula-barreira de 3% dos votos validamente expressos, pelo que os partidos que não atinjam essa percentagem ficam sem representação parlamentar;
c) os restantes 250 lugares serão distribuídos a nível nacional, através de um quociente eleitoral simples, pelo partidos que ultrapassaram a cláusula-barreira, sendo, posteriormente, distribuídos pelos círculos regionais.
Daqui resulta que se o partido vencedor obtiver mais de 40% dos votos validamente expressos assegura uma maioria absoluta no Parlamento. Basta multiplicar 250 por 0,4, que será igual a 100. Somando os 50, ficaria com 150 (metade do hemiciclo). Mas, como há sempre partidos que não chegam aos 3% dos votos, aquela percentagem é suficiente. [Read more…]
O poder

Imagine que há 16 anos lhe teriam dito que optar pelo euro significaria perda acentuada de rendimento, transferência de soberania para entidades não democráticas e destruição súbita de direitos lentamente conquistados. Resumindo, imagine que em 1999 lhe teriam dado um vislumbre de um futuro, que seria hoje, onde a aniquilação do controlo sobre a política monetária viria a ser uma arma de guerra capaz de subjugar nações inteiras com maior eficácia do que as bombas. Capaz de concentrar a riqueza num grupo restrito, graças ao desaparecimento do mecanismo de, equitativamente, distribuir os problemas do país por todos, via desvalorização da moeda.
Neste cenário, teria aceite o euro? Possivelmente, não. E no entanto, aqui estamos nós presos a essa decisão, incapazes mesmo de a questionar.
É esta a capacidade do poder, a de moldar as pessoas por forma a não pensarem fora da caixa.
















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