Assunto nosso

Já tenho idade suficiente para lembrar-me que houve tempos, e não tão remotos, em que se morria decentemente, que é como quem diz em casa, rodeado da gente com quem se tinha vivido, e morrer era uma coisa normalíssima, que acabaria por acontecer a todos e que não requeria medidas excepcionais, além dos paliativos possíveis. O quarto do doente não era território tecnológico, como o é agora a enfermaria do hospital, com máquinas a apitar e enfermeiras a interromper a sopa para medir glicoses e temperaturas, e médicos sempre cheios de pressa porque lhes pedem que se desdobrem em vários e que rematam tudo com um vamos ver isso, vamos ver isso, para logo se sumirem pela porta.

O quarto do doente era o quarto de toda a vida, o seu, com a colcha herdada de uma tia solteirona, o Cristo na parede, a foto do casamento, a cama onde a quase viúva se sentava ao lado do marido a fazer tricô, com os netos que entravam a pedir dinheiro para um gelado, o filho a contar à mulher a discussão com o patrão, e o doente era um moribundo mais ou menos conformado, mais ou menos paciente, ora tinha um feitio dos diabos ora era um santo, que ia pedindo que lhe chegassem coisas, ou que já não abria os olhos nem sabia quem era, e a quem se tentava amenizar os dias que lhe restavam. [Read more…]

Coisas que me ocorrem às 3 da manhã

Sabem o que é irónico? Irónico é pensar que ao longo dos anos, Oeiras tornou-se no alvo das piadas de humoristas, comentadores políticos, analistas e afins que abertamente criticavam ou gozavam com os eleitores do concelho que repetidamente votaram em Isaltino e nos seus sucessores. Irónico é perceber que não vimos nem metade das piadas, dos comentários sarcásticos, dos artigos tipo, “oh meu deus o povo é tão estúpido” quando Soares abraçou Isaltino e disse para toda a gente ouvir que o que lhe aconteceu foi uma injustiça. Não me lixem. A elite política de Soares a Portas (nem venham com a história dos partidos que não há paciência) e uma parte da elite “intelectual” portuguesa funcionam dentro da ideia de que há uma justiça para uns e uma justiça para outros. Funcionam assim porque no fundo, o povo, como os eleitores de Oeiras, eram ignorantes e atrasados enquanto Soares é o pai de Democracia e um iluminado que nós temos no mínimo de “respeitar”. A relação das classes “pensantes”, políticas, académicas, literárias etc. com o povo sempre foi má porque o “povo”- essa massa homogénea de pessoas que vota no Isaltino e vai aos saldos ao Pingo Doce no 1 de Maio – desaponta. Mas o povo também são eles.

Entretanto

Enquanto em Portugal andamos a por ex-primeiros-ministros em prisão preventiva e a queixarmo-nos muito do nosso sistema de Justiça, convém recordar que nos Estados Unidos, Darren Wilson, que deu seis tiros a um adolescente desarmado, não vai ser acusado.

Os pais de Michael Brown querem levar o caso ás Nações Unidas.

Michael Brown tinha 18 anos e tinha acabado o liceu. Era negro.

O fim de semana de José Sócrates

Tinha ideia de escrever sobre a RTP, nomeadamente os direitos de transmissão da Champions League. Também esperava que algum autor se debruçasse sobre a Convenção do Bloco de Esquerda que decidirá a liderança do partido. Mas a surpresa aconteceu e José Sócrates domina as atenções gerais neste final de semana.

Não simpatizo com o político José Sócrates, mas não abri uma garrafa de champagne pela sua detenção. E por agora é apenas isso, detenção para interrogatório. Não estará sequer ainda constituido arguido nem submetido a qualquer medida de coacção. E qualquer cidadão goza de presumível inocência até sentença transitada em julgada, embora seja diferente ter um estatuto de arguido, acusado, réu ou condenado. Nem vou tecer comentários sobre os métodos do Juíz Carlos Alexandre. A seu tempo o processo será conhecido.

Concordo em absoluto com o Ricardo ali atrás, enquanto foi governante permaneceu intocável por maiores que fossem as suspeitas e insinuações levantadas na imprensa. Não foi o primeiro, nem será o último. Vale e Azevedo apenas teve problemas quando deixou o S.L.B., algo me diz que Pinto da Costa tem na presidência do F.C.P. uma excelente apólice de seguro. Na política as recentes condenações de Maria de Lurdes Rodrigues ou Armando Vara aconteceram com o P.S. na oposição, enquanto o caso B.P.N. vai marinando. Será interessante verificar o que acontece caso se verifique a provável alternância nas próximas legislativas. Algumas pessoas ligadas à actual maioria talvez já não durmam com total tranquilidade.

Bandalhos do bloco central é favor ler com atenção

Três funcionários da Câmara Municipal da Póvoa de Varzim encontraram 4.407€ no meio do lixo e, contrariamente ao que fariam determinado tipo de funcionários públicos bandalhos, foram honestos e entregaram o dinheiro às autoridades. Ganharam um voto de louvor num país onde outros bandalhos condecoram bandalhos no 10 de Junho. Há bandalhos com sorte. Felizmente ainda existe gente honesta proveniente da classe dos portugueses que andaram a viver acima das suas possibilidades. Pena é haver tantos bandalhos.

O AO90 e a Casa dos Segredos

E não é que a senhora até tem razão? Ou já viram algum nome próprio começar por letra pequena? Gozem com os reality shows gozem…

 

 

Vistos gold:

o preço de vender os direitos de cidadania. A negação da democracia em todo o seu abjecto esplendor.

«Badalhoco, corta o cabelo e a barba!» (o novo padre de Canelas e os piquetes de missa)

cristo

 

 

 

Coitado do novo padre de Canelas, freguesia do terceiro concelho mais populoso do país, Vila Nova de Gaia. Tem sido um verdadeiro Cristo!
Ao que parece, os paroquianos não estão contentes com o novo titular. Queriam o antigo, que não tinha barba nem cabelo comprido. Vai daí, tentam bater-lhe cada vez que sai da missa, chamam-lhe badalhoco e mandam-no cortar o cabelo e a barba. Só Cristo é que tinha direito a andar assim.
São católicos e católicas de barba rija, de pelo na venta, a quem só falta formar «piquetes de missa» para impedir que as ovelhas tresmalhadas do rebanho caucionem, com a sua presença, o novo padre. É gente que costuma ir lá para dentro bater no peito e dizer que e é muito crente.
Felizmente que sou ateu. Caso contrário, ainda pediria a Deus que nos livrasse destes sacripantas!

Honeypot

Long Chain Mantrap

Transcrevendo directamente da Wikipedia, em informática, honeypot (tradução livre para o português, pote de mel) é uma ferramenta que tem a função de propositadamente simular falhas de segurança num sistema informático e recolher informações sobre o invasor. Tipicamente, consiste num conjunto de servidores computacionais, eventualmente com falhas de segurança e com dados aparentemente importantes. A tentativas de entrada nos servidores são registadas e acompanhadas por forma a se procurar identificar e identidade do atacante, como é que está a conduzir o ataque e o que é que procura. Existem diversos tipos de honeypots   mas todos recorrem à dissimulação e desvio da atenção de algo importante para outra coisa sem valor. [Read more…]

Trabalho Escravo em Almeirim

procura-se-escravo
“Procura-se casal ou pessoa só para viver em propriedade agrícola na zona de Santarém,
sem ordenado.

PRETENDE-SE:
- Mais de 50 anos;
- Gosto pela vida no campo;
- Transporte próprio;
- Capacidade para tratar e manter a propriedade na ausência dos seus proprietários.
OFERECE-SE:
- Casa mobilada (1 quarto);
- Despesas de água, luz e Tv Cabo;
- Terreno para pequeno cultivo e criação de pequenos animais.[Read more…]

Malabarismos

malabarismo

A comunicação social está em apoteose porque se prendeu por aí um peixe miúdo. Uau! Nunca um director da polícia tinha sido detido, isto é de loucos! É para aqueles que dizem mal da Justiça em Portugal aprenderem a ter tento na língua. Sabotam o Citius, dizem mal da ministra, agora tomem lá para aprender.

Now seriously, quem foi mesmo o homem que fez dos vistos gold uma bandeira? Quem? O dos submarinos? Sim, exactamente. O irrevogável. Até onde irá esta investigação? Vai ficar pelos robalos ou chega a peixe maior? Com o ministro da Defesa tão empenhado em levantar a imunidade europarlamentar de Ana Gomes, porque não aproveitar a deixa e exigir mais uns levantamentos? É que fica sempre a sensação que só se lixam gajos mais pequenos ou um Isaltino qualquer que deu barraco a mais e não tinha poder suficiente para ficar à superfície.

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Como é que a ministra da justiça ainda é ministra?

Portugal-Golden-Visa-Resident-Permit-Program

Depois do truque falhado do bode expiatório, cirurgicamente plantado na excelsa comunicação social, esta é uma pergunta deveras pertinente. Giro foi hoje ouvir Paula Teixeira da Cruz aproveitar para lavar a imagem com a tirada “ninguém está acima da lei” ao comentar o caso dos vistos gold. Mas, afinal, alguém está acima da lei. A ministra acusou impunemente duas pessoas de sabotagem, sem consequência que se conheça.

Já agora, sabe quanto custa um visto gold? Cinco mil e cinquenta euros durante alguns meses, o que corresponde a 10 salários mínimos, já que uma das condições de atribuição é a criação de 10 postos de trabalho.

A imagem do post é uma das que se pode encontrar nos imensos sites de “facilitação” para obtenção de vistos gold.

Um bom homem

fernando de mascarenhas
Morreu Fernando de Mascarenhas, um homem de cultura, um democrata, uma boa pessoa. Conheci-o em Coimbra, quando veio passar aqui um ano na Faculdade de Letras sobretudo para, segundo as suas palavras, assistir às aulas de filosofia de Victor de Matos. Pessoa simples, que nunca ostentou os numerosos títulos nobiliárquicos associados ao seu nome – aos quais, de resto, não dava mais importância do que merece, como para qualquer de nós, por respeito, o nome da família – morou num andar modesto na Solum – um 4º andar sem elevador; sei disso porque morava ao lado – e convivia com os estudantes da oposição, na altura em que estavam em gestação as lutas de 1969 na Academia, processo que acompanhou e com o qual foi solidário ao ponto de dar guarida no palácio de Fronteira a estudantes que se haviam deslocado a Lisboa para, na final da taça de Portugal em que participava a Académica, fazer uma manifestação contra a ditadura. Isso valeu a Fernando de Mascarenhas a fúria de várias instâncias do regime, como se pode ver consultando os jornais da época. Perdeu-se um bom homem.

Eu e os ares condicionados

acaro

Este post é um pouco ego-centrado mas a culpa é das legionellas. É, portanto, um post onde também se sacode a água do capote. Juntasse-lhe eu umas mentiras e tinha o perfeito discurso político. Mas como não é o caso, e chegando de interlúdios, como este, vamos ao que interessa.

Tenho rinite alérgica desde que me recordo, o que desde cedo me afastou de livros velhos. Não imaginam a inveja que tenho de quem se gaba do prazer das descobertas que fazem por entre páginas amarelecidas pelo tempo e pelos ácaros. Esses, os quais só de pensar neles, quase me fazem espirrar.
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Legionella, a doença de um legionário governo neoliberal

Não faltava mais nada, leis a vigiarem a qualidade do ar interior. O ar, interior e exterior, regula-se pelo mercado, um tem legionella, outro não, quem vença o mais forte.

O surto de Vila Franca de Xira até pode ter outra origem, mas entende-se bem nesta notícia do Público, não disponível online, que aqui funcionou o lóbi das grandes superfícies e outros espaços, que passaram a poupar uns cobres em inspecções. Mais um exemplo do neoliberalismo enquanto ideologia criminosa, onde o lucro vence a prevenção e a saúde pública.
Governo eliminou auditorias obrigatórias à qualidade do ar interior

Adenda:

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O dia em que o mundo mudou

WB

Sem consciência dos que tornaram possível ou viveram, o dia 9 de Novembro de 1989 ficará para sempre na memória como um dos dias mais belos na história da humanidade, pela liberdade que trouxe a milhões de pessoas um pouco por todo o mundo.

O muro da vergonha fora construído 28 anos antes, visando impedir o êxodo de cidadãos da RDA para a RFA, curiosamente poucos atravessavam em sentido inverso, bloqueando assim o contacto das massas educadas pelo partido com o crescente desenvolvimento da economia de mercado e consequente bem-estar na Europa do pós-guerra. De noite para o dia famílias ficaram separadas pela perversidade. E muitos pagaram com a vida a tentativa de fuga ao paraíso socialista… [Read more…]

Contra-semântica, co-adopção e contra-senso

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Mark Rothko, Entrance to Subway [Subway Scene],1938, Collection of Kate Rothko Prizel (http://1.usa.gov/13sD0jg)

I try to deny myself any illusions or delusions, and I think that this perhaps entitles me to try and deny the same to others, at least as long as they refuse to keep their fantasies to themselves.

Christopher Hitchens

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Ao ler “Implementar as ações [sic] necessárias à harmonização gráfica da língua portuguesa e da terminologia técnica, nos termos dos acordos estabelecidos”, na página 59 do documento estratégico orientador Agenda para a Década (Agenda para a Década ou Agenda pára a Década?), fiquei a matutar naquilo: “harmonização gráfica da língua portuguesa”.

“Harmonização gráfica da língua portuguesa”?

Interceptar?

“Harmonização gráfica da língua portuguesa”?

Aspectos? Perspectiva? Concepção? Facções? 

“Harmonização gráfica da língua portuguesa”?

Excepcionais convertido para excecionais? Percepção convertido para perceção? Aspecto  convertido para aspeto? Aspectos convertido para aspetos?  Perspectiva convertido para perspetiva? Perspectivas convertido para perspetivas? Concepção convertido para conceção? Respectivas convertido para respetivas? Respectivos convertido para respetivos? Confecções convertido para confeções? Receptivos convertido para recetivos? Ruptura convertido para rutura? Receptiva convertido para recetiva? Facções convertido para fações? Receptividade convertido para recetividade? Respectivamente convertido para respetivamente? Receptor convertido para recetor? Infecciosas convertido para infeciosas? Excepcional convertido para excecional? Recepção convertido para receção? Rupturas convertido para ruturas?

“Harmonização gráfica da língua portuguesa”?

“Harmonização gráfica”?

“Da língua portuguesa”?

Depois de lida a Agenda para a Década (Agenda para a Década ou Agenda pára a Década? — a dúvida mantém-se), debrucei-me sobre o texto  [Read more…]

Russians

America it’s them bad Russians.
Them Russians them Russians and them Chinamen. And them Russians.
The Russia wants to eat us alive. The Russia’s power mad. She wants to take our cars from out our garages.

— Allen Ginsberg, America

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Pois é.

Nem tudo depende da perspectiva e da concepção. Há outros aspectos a considerar.

intercetam eptam

Efectivamente, segundo o Houaiss (*), ‘interceptar‘ é um verbo [Read more…]

A grande mentira

Pedro,

Soube ontem do seu regozijo pela alegada descida do desemprego no país. Li o título e pensei que também podia chamar-se “a farsa”, ou “a fraude”, aquela peça que até seria cómica se não fosse trágica. Era já noite, moro a uns 150 km da sua realidade,e nunca tive o prazer de me cruzar consigo para lhe apresentar a outra, em que vivem milhares de portugueses – obviamente piegas e inevitavelmente acima das suas possibilidades, pois que insistem em comer todos os dias e em sobreviver, de forma por enquanto irrevogável. [Read more…]

Continua chamando-me assim cherne

chernia-01Durão Barroso foi, como se sabe, um dos primeiros atletas a trocar um dos três grandes cargos portugueses por um dos maiores clubes mundiais. Pouco antes disso, a sua mulher, recorrendo à obra de Alexandre O’Neill, tinha ajudado o país a arranjar uma alcunha para o próprio marido e Durão passou a ser conhecido por cherne.

Graças às suas qualidades de velocista, Barroso detém o recorde do percurso mais rápido entre Lisboa e Bruxelas. Não fosse já ter sido alcunhado e poderia ter ficado conhecido como “carapau de corrida”, mantendo a referência piscícola e relevando a virtude atlética.

Ora, o cherne foi, esta semana, condecorado por um cavaco, que é, como se sabe, um marisco, facto que ajudou a manter um ambiente de fábula marítima. Marítima, pelos espécimes em causa; fábula, porque só no mundo da fantasia é que é possível acreditar no palavreado absurdo de cada uma das personagens. [Read more…]

Será que percebemos aquilo que está em jogo?

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Um relatório da OXFAM tornado público na semana passada revela, entre outros indicadores esclarecedores sobre a situação de assalto global a que continuamos a assistir, que um imposto de 1,5% sobre as fortunas dos 1654 bilionários que existem no planeta em 2014 – há 5 anos eram “apenas” 793, menos de metade, mas as crises financeira têm destas coisas – resultaria numa colecta de 74 mil milhões de dólares o que, nas contas da organização, seria “dinheiro suficiente para preencher as necessidades de financiamento para pôr cada criança na escola e para introduzir serviços de saúde nos países mais pobres do mundo“.

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Quando eu morrer

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Hoje, já dia 2 de Novembro, mas ainda dia 1, celebrou-se mais um Dia de Todos os Santos. Dia de ida ao cemitério. Dia que se justificava ser feriado, já que as famílias aproveitam para se encontrar. Velar os mortos é apenas um pretexto e em muitos casos reúnem-se dezenas de pessoas em torno de um jazigo. É uma forma de recordar quem partiu e de estar com quem ainda por cá anda. Morte e vida são celebradas de mãos dadas. Mas claro que a nossa Igreja, ao ser confrontada com a necessidade de reduzir feriados religiosos, escolheu eliminar este. Um dos poucos feriados que realmente juntavam as famílias. Tem muito de pagão, é verdade, mas foi a própria ICAR que tentou abafar uma celebração bem mais ancestral…

Hoje celebra-se a vida através da recordação dos mortos e dos seus feitos. A mim continua-me a fazer espécie aproximar-me de um buraco no chão coberto por lápides de mármore, sabendo que o corpo inerte do meu pai está algures ali por baixo desfazendo-se lentamente. Raramente visito o cemitério. Não suporto a ideia de o saber ali. Detesto ver a fotografia dele numa placa de mármore. Abomino sabê-lo ali. Sempre acreditei e defendi que a melhor homenagem que podemos fazer aos nossos mortos é tê-los tratado bem em vida. Que adianta ir regularmente ao cemitério, limpar campas, comprar flores, acender círios, se não os tivermos tratado bem em vida? Não foi exactamente o meu caso. Sempre «choquei» com o meu pai. Feitios demasiado semelhantes. Demasiadas diferenças de opinião. No entanto, já doente, visitei-o sempre que podia. Por vezes sabia que iria ser mal recebida, que iria ser maltratada, mas aparecia. O fim de vida dele não foi digno. Um homem enérgico preso a uma cama, a usar fraldas, dependente de terceiros para a higiene e alimentação, frequentemente com alucinações… Não foi bonito.

Sei que não estive presente tanto quanto devia. Sei que não dou o apoio que devia à minha mãe. Sei que não a vejo tanto como gostaria e isso vai radicalmente contra a minha teoria de tratar bem em vida porque o que importa e o que conta é a sua presença vivos. É isso que nos permitirá recordá-los depois de os perdermos. [Read more…]

Os lucros e a criação de empregos

Lloyds aumenta lucros e anuncia nove mil despedimentos

Sempre que se alude à importância de aumentar os impostos sobre os mais ricos ou sobre os lucros das empresas, aparece sempre alguém a condenar essa intenção, defendendo que esse lucro dará origem a mais empregos.

A verdade é que ganhar mais dinheiro ou muito mais dinheiro não significa que se vá a correr diminuir a taxa de desemprego. Se assim fosse, por cada vencedor de um jackpot dos euromilhões apareceriam vários empregos.

Nada disto é simples e muito disto é fado, mas dá, no mínimo, que pensar a história do banco que, hoje, aumenta os lucros e amanhã despedirá nove mil pessoas, o que poderá afectar, pelo menos, outras tantas.

Talvez um banco não tenha de pensar nisso, mas a sociedade, essa forma humana de se ser solidário, não pode fingir que o desemprego não traz vários problemas e acabamos sempre por voltar ao papel do Estado e à importância dos impostos.

Horta Osório é o presidente do Lloyds Bank. Fez parte do Compromisso Portugal, onde estão cristalizadas muitas das ideias que este governo continua a impor. Recentemente, explicou que os salários dos portugueses podem subir se a produtividade dos trabalhadores aumentar. Pelos vistos, as reduções salariais dos últimos anos resultaram da diminuição de produtividade dos trabalhadores.

Vem aí a super-esquadra-mega-agrupamento-escolar

Imagem5Segundo os computadores da OCDE, Portugal ainda tem polícias e professores a mais. Nestas áreas, de acordo com o Jornal de Negócios, é necessário “um ajustamento mais substancial”. Alguns, mais ingénuos, poderão pensar que “ajustamento” é um eufemismo de “despedimento”, mas estão enganados: para haver eufemismo, os trabalhadores teriam de ser considerados pessoas, o que, felizmente, já não acontece.

Nuno Crato, o ministro mais rápido do Faroeste, já pensava que o único professor bom era um professor despedido. A OCDE, qual sétimo de cavalaria, faz soar o cornetim e vem em socorro dos ministros acossados no forte.

É fundamental, então, que polícias e professores se preparem para os tempos que aí vêm, porque é fácil adivinhar o futuro, tendo em conta o governo reformista que temos.

Não, não será suficiente despedir alguns professores e outros tantos polícias. O governo irá, com certeza, mais longe do que isso.

A solução estará na fusão de super-esquadras com mega-agrupamentos e as vantagens são evidentes.

Antes de mais, está para nascer uma nova profissão que poderá passar a chamar-se profelícia ou polissor. Alguns especialistas já se pronunciaram contra o primeiro termo, uma vez que se aproximará demasiado de delícia e convém evitar a lubricidade latente. De qualquer modo, a designação deste cruzamento entre professor e polícia está em consulta pública, pelo que a caixa de comentários está à vossa disposição, como serviço público que gostamos de ser. [Read more…]

Se a informação tem autoestradas, então deve pagar portagem

autoestrada da informação

Basicamente é isto que diz o governo da Hungria ao querer colocar um imposto real sobre algo virtual – a circulação de bits. Dirão que é ridículo, e eu concordarei, mas não temos nós, para citar apenas um exemplo, uma fiscalidade verde com o pretexto de ser boa para o ambiente, quando, cinismo à parte, se trata essencialmente, de aumentar o imposto sobre os produtos petrolíferos?

Já o governo húngaro diz que serão os fornecedores de Internet, e não os consumidores, a suportar este imposto, apesar dos primeiros dizerem que a factura irá mesmo para os consumidores. Onde é que, entre nós, ainda recentemente, ouvimos este argumento de novos impostos serem pagos pelas empresas e não pelos consumidores? Pois, foi exactamente na questão da cópia privada, com a SPA e governo a dizerem que a taxa sobre memórias e armazenamento digital não recairá sobre os consumidores.

Agora, com a pressão nas ruas, o governo húngaro ofereceu-se para baixar o novo imposto, sem no entanto desistir desta ideia peregrina. À semelhança do que por cá fez o governo quanto ao imposto da cópia privada, baixando-o mas, mais importante, mantendo a intenção de o aplicar, apesar da injustiça que está na sua base.

Com tantas semelhanças entre o nosso governo e o congénere húngaro, vão-se preparando. É uma questão de tempo até que a sede de impostos chegue onde nem lhe passava pela cabeça que tal fosse taxável. Sim, sim, isso em que está a pensar também.

«O impasse [deliberado]

é uma forma de conservar o poder, o estatuto, os privilégios de quem os detém (…).» António Pinto Ribeiro, sempre na mouche, fazendo as relações certas entre memória e esquecimento, o que vemos e nos vê, e sobretudo entre o que não se diz e a devastação da Europa. A que apenas poderemos contrapor «vanguardas ásperas e precisas», diz. Ásperas e precisas, tomem nota.

Europa, querida Europa

Quando julgamos ver-te um sinal de compaixão e humanidade, tiras-nos em seguida o tapete de debaixo dos pés.

 (…) a Bélgica revelou ter interrompido, desde meados de Agosto, todas as expulsões forçadas de imigrantes para os países africanos onde a epidemia de ébola alastra. Cada expulsão por via aérea exige que pelo menos dois polícias acompanhem a pessoa expulsa – tendo por vezes de levar as pessoas até aos serviços de imigração do país. “Não podemos pôr em perigo a saúde do nosso pessoal”, explicou Agnès Reis, porta-voz da polícia federal belga. (daqui)

 

Trabalhos forçados

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para repor o que o Governo tirou às pensões, para ajudar os filhos, pagar a casa e as contas, comprar medicamentos.
Um trabalho de Ricardo Rodrigues para a Notícias Magazine.

Ódio em nome de Deus

A comunidade islâmica do Canadá está receosa. E tem razão para o estar depois dos crimes cometidos por simpatizantes dos radicais islâmicos no Quebeque e em Otava. Martin Couture-Rouleau, de 25 anos, ao atropelar dois soldados num parque de estacionamento na província francófona, tendo morto um deles, e Michael Zahaf Bibeau, de 32 anos, ao abater a tiro o soldado que fazia a guarda de honra do Soldado Desconhecido, na capital federal, invadindo depois o parlamento, tendo no final sido ambos abatidos a tiro pelas forças de segurança, quebraram uma maneira de viver nacional feita de respeito pela diversidade e pela tolerância. Segundo país maior do mundo, depois da China, apenas com 35 milhões de habitantes, ocupando lugar de destaque entre os países com melhor qualidade de vida, o Canadá é um país onde têm vivido em harmonia, respeito e dignidade, pessoas oriundas de 190 países. É um país feito por imigrantes, onde tem sido possível respirar em paz e segurança. Ao contrário do melting pot americano (ou mesmo brasileiro), o multiculturalismo praticado pelo Canadá saldou-se pela positiva na inteira liberdade com que cada grupo étnico pode ter as suas escolas, clubes, religiões e culturas.
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Para o resto da vida, ou talvez não…

Se alguém tem algo que possa impedir este casamento, que fale agora…