Vitória dos intermediários, derrota dos autores

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Hoje na SPA festejou-se, enquanto o restante país se prepara para receber a factura (acresce IVA à taxa legal). Vitória do intermediário que fica para si mesmo com mais de 60% dos direitos dos autores. Será que um Parlamento com um diferente número de deputados já teria uma maioria de representantes que pensasse de facto pelas suas próprias cabeças?

O transtorno

Já assistimos há anos ao transtorno da justiça funcionar mal. Agora, simplesmente, acresce o transtorno de não funcionar, de todo, há quase um mês.

Deslocados climáticos

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© Arif Ali/AFP

19 de Agosto de 2013: um grupo de paquistaneses caminhando por uma estrada inundada perto de Lahore. Segundo a ONG Norwegian Refugee Council, 2013 registou mais 22 milhões de pessoas deslocadas em razão de desastres naturais causados pelas alterações climáticas. Trata-se do dobro de ditos «refugiados climáticos» no Mundo relativamente aos anos 1970, e do triplo se comparados com os deslocados resultantes das zonas em guerra

 

A negação ao direito da cópia privada

Ontem houve programa sobre a cópia privada no Prós e Contras. É curioso que tenha sido este o tema de lançamento do programa, em vez dos temas quentes como o BES ou os desastres em curso na Justiça e na Educação mas isto é assunto para outra ocasião.

O facto é que houve debate e os autores fizeram claque. Curiosamente, de novo, pareciam mais numerosos do que os restantes mas, enfim, o programa foi o Prós e o Contras e as singularidades são frequentes. O debate era sobre a actualização da lei da cópia privada, com a introdução de um novo imposto sobre produtos que contenham capacidade de memória ou armazenamento. O pretexto? Dizem que os consumidores podem fazer cópia privada do produto comprado e que isso traz prejuízo para os autores. Se bem que esse prejuízo não foi demonstrado. Mas adiante.

Acontece que o consumidor está proibido de fazer a sua cópia privada, como se pode ver na imagem abaixo de um dos DVD que comprei (e que é chapa sete nos DVD em geral). E como se pode ler nos CD áudio. Aliás, quanto a CD áudio, as editoras portaram-se tão mal quanto os produtores de vírus informáticos ao imporem sistemas anti-cópia, entretanto abandonamos devido à pressão mediática, os quais criaram sérios de problemas de segurança nos equipamentos informáticos.

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O lado sombrio da emigração

Jornais de Lisboa fizeram-se eco do discurso assertivo que o deputado socialista Andrew Cash fez no parlamento federal, em Otava, contra sucessivos surtidas de agentes do CBSA (Serviço de Fronteiras do Canadá) em estaleiros de construção, centros comerciais, bilhares, padarias e cafés, em busca de emigrantes ilegais portugueses. O parlamentar, indignado, atribui estas acções a “discriminação racial” contra os portugueses. Compreendo o seu ponto de vista mas a minha experiência de 30 anos obriga-me a adiantar que o caso é ainda mais grave do que isso.

Na verdade, estas acções de força policial são sempre originadas por denúncias, muitas delas anónimas. E quem faz as denúncias? Pois aí é que está o grave e doloroso da situação: são sempre feitas por pessoas do mesmo país das pessoa que são denunciadas. Portanto, portugueses denunciam portugueses. Há mais mulheres denunciantes do que homens mas em ambos os casos, por infeliz coincidência que psiquiatras e sociólogos haviam de estudar para alertar as autoridades canadianas, trata-se de pessoas que foram sexualmente abusadas por familiares e/ou vítimas de violência doméstica. A perversão moral coze em caldo de inferioridade, despeito e inveja, saltando para o crime da denúncia quando apanha o mínimo pretexto. Vou dar-vos um exemplo. Uma jovem açoriana, a Ana, viu-se coagida pelo mau passadio e falta de trabalho em S. Miguel a entrar em Toronto como turista, deixando-se depois ficar e arriscar. Felizmente, encontrou trabalho de cozinha no restaurante dum português do continente. O processo de emigração foi iniciado, e demora sempre, mas ela trabalhava com gosto e ganhava bem a vida. Um dia, sentiu umas dores esquisitas no peito e como não tinha direito a assistência médica por ser ilegal, o patrão pagou generosamente essa assistência que se saldou, de imediato, por uma biopsia. Nessa mesma altura uma mulher da sua freguesia insistiu para que fosse viver em casa dela e do marido. De boa fé, Ana aceitou. Logo de seguida, a tal encostou-lhe facas ao peito: ia abrir um restaurante e contava com ela para ali trabalhar. Decente e bem formada, Ana recusou alegando que o patrão não merecia uma coisa dessas, pois lhe tinha dado trabalho, pagava-lhe bem e respeitava-a. A resposta da outra veio de recochete: ai era assim?, pois ela ia ver o que era bom. Ao amanhecer, a chamada polícia de imigração apareceu na casa, levou a Ana, em roupão e chinelos, para o hotel-prisão junto do aeroporto e deportou-a. Meia dúzia de dias depois desta brutalidade, o médico ligou para o restaurante à procura da Ana e ficou siderado quando lhe disseram que ela tinha sido deportada. Quis falar com o patrão e pediu-lhe que avisasse imediatamente a moça porque ela tinha um cancro da mama. Ana viveu o calvário da cirurgia nos Açores, da quimioterapia e radioterapia em Lisboa, tem uma saúde precária e vive dum magro subsídio da assistência social e de ajudas de pessoas de boa vontade, entre as quais se contam o antigo patrão e colegas do restaurante. Nada aconteceu à criminosa que a pôs nesta situação e é facil de calcular que esteja muito satisfeita com a façanha. [Read more...]

Obrigada por este bocadinho, François! (III)

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Na montra de uma livraria em França onde o livro da ex de Hollande não está à venda, um poster de um filme imaginário com menção ao caso do tweet contra Ségolène Royal com que Trierweiler desafiou Hollande

Alguns livreiros recusam-se a vender o livro de Valérie Trierweiler, Merci pour ce moment, revoltados que estão com o fenómeno estapafúrdio gerado por um livro que, com justeza, consideram sem qualidades, apesar de ter vendido numa só semana o que a maior parte dos escritores franceses não consegue numa vida literária. [Read more...]

O Público e as Fotomontagens

fotomontagem_easyjet_jornal_publicoO Público deu-se ao luxo de dispensar dezenas de bons profissionais, inclusive na área da imagem. Não é, portanto, de admirar que o diário de ex-referência português publique fotomontagens (via Flickr) como sendo ilustração de qualidade. Qual o próximo passo?

“NOS é que somos burros”

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Autor Identificado

Em Janeiro cessei contrato com a Zon. Pergunto se é preciso devolver o equipamento, porque não me faz falta. Dizem-me que não é preciso.
Dois meses depois recebo um telefonema da Zon a pedir para eu devolver o equipamento. Eu disponibilizo-me para fazer 50 km para fazer a entrega, porque na minha cidade não dá, mas digo que quando cessei contrato indicaram-me que não era preciso fazer a devolução. Reviram a ficha e afinal não era preciso mesmo. Das duas vezes fui muito bem atendido e desta vez até me pediram desculpa.

Mudo de casa e guardo tudo nas caixinhas respectivas, apesar de não me servir para nada. Hoje, recebo um sms da NOS a exigir a devolução do equipamento em 30 dias senão terei que pagar o valor correspondente. Vou à loja: tenho mesmo que devolver tudo, mas ao menos vêm-me buscar as coisas a casa.

Num país decente, estas indecisões são vistas como incompetência. E num país decente, com estas e com outras situações que lesam os clientes, iniciava-se uma acção colectiva nos tribunais contra a empresa que, ainda por cima, é má nos serviços que presta.

Para cúmulo, estou numa lista negra por dinheiro que não lhes devo e fui ameaçado o ano passado com um processo de dívida quando tinham 6 meses para o fazer, sobre um contrato cessado em 2005.

Não gosto de ameaças muito menos por empresas que ganham a vida a intrujar os clientes, com renovações sucessivas de fidelização a cada alteração do serviço, dificuldades no término do serviço com cobranças a surgir depois de não estar activo, com facturas perdidas de anos anteriores que muita gente paga para não ter chatices.

NOS é que somos burros em tolerar isto.

A cópia privada e a Lei de Moore

O vice-presidente da SPA é muito engraçadinho. Usou do “argumento” de que o iPhone 6 Plus custa mil euros e que uma taxa de 15 euros não é nada. Mais, acabou de sugerir que, com esta nova lei, deixam de andar a prevaricar, sem dizer como. Especialmente quando o direito à cópia privada existe.

A Maria João Nogueira esteve muito bem, pena que lhe tenham cortado a palavra para falar David Ferreira, o qual veio falar em roubo. Roubo de quê? E fala em aumento no máximo de 1.5%. A questão mesmo é que não lhe importa se é justo ou não eu pagar a porcaria da taxa só porque tenho um disco com conteúdos meus.

José Valverde, falando pela indústria, tocou num ponto sensível: esta malta que defende a cópia privada quer pretender, sem o assumir, que a cópia privada será uma forma de resolver o problema da pirataria.

Agora fala o SEC dizendo uma mentira. Sim, mentira, porque dizer que o montante a pagar é um valor nos dias de hoje, baixo, na ordem dos cêntimos, é falsear, a realidade. E é na parte da realidade que entra a Lei de Moore. Esta lei, postulada por Gordon Moore, diz que o número de transístores dos circuitos electrónicos duplica a cada 18 meses. É um estimador que tem previsto muito bem a evolução da tecnologia. É uma lei que também tem servido para prever a evolução de outras tecnologias tais como a capacidade de armazenamento e de memória em uso nos dispositivos. A mentira do SEC, mentira por omissão, consiste em não dizer que os valores máximos deste imposto serão atingidos em apenas 5 anos.

Tabela ilustrando o crescimento de SD storage, segundo a Lei de Moore, partido do caso do iPhone 6 Plus

Letria, da SPA, acabou de confirmar o que já aqui foi escrito: nem 40% do imposto recolhido pela cópia privada chega aos autores. Esta é que esta. Na verdade, o valor que chega aos autores é, de facto, mais baixo. Letria fala das dificuldades dos autores. Mas acontece que, e isto Letria não o diz, muitos autores estão a ganhar um novo fôlego, precisamente, porque conseguem chegar directamente ao seu público através do digital e das novas tecnologias, sem intermediários como AGECOP e afins.

Pelo caminho, seremos todos taxados, com ou sem justa causa.

Adenda: petição “Impedir a aprovação da proposta de lei n° 246/XII, da Cópia Privada

Editado (link para a Lei de Moore em inglês e legenda da tabela)

A lei da cópia privada no Prós e Contras

Está a começar o programa Prós e Contras na RTP1, desta vez sobre a proposta de lei da cópia privada. Eis algumas questões que gostaria de ouvir respondidas pelo SEC, pela AGECOP e pela SPA:

  1. Como é que demonstram que a cópia privada tem prejuízo para os autores?
  2. Como é que é possível exercer o direito de cópia privada se os DVD e CD vem protegidos tecnica e legalmente contra a possibilidade de fazer cópia privada?
  3. Qual é a percentagem de dinheiro recolhido pela cópia privada que chega aos autores?
  4. Como é que determinam que autores é que recebem dinheiro vindo da cópia privada?
  5. Porque é que quem não exerce o direito da cópia privada tem que pagar este imposto (sim, é um imposto)?
  6. Como é que quem paga o direito da cópia privada nos produtos digitais não irá pagar duas vezes o mesmo imposto?
  7. Com que base é que os meus equipamentos usados para fins profissionais e pessoais onde não irei exercer o direito da cópia privada terão que pagar esse imposto?

 

Obrigada por este bocadinho, François! (II)

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A baixa política e o baixo jornalismo franceses geraram Valérie Trierweiler, uma cara bonita que aos 23 anos se agarrou com unhas e dentes (literalmente) à corda de ascender socialmente. Valérie era pobre mas aquilo não ía ficar assim. Ensombrada por essa infância de pobreza e por um casamento que não a tirou de lá, muito pelo contrário pondo no Mundo três filhos para criar, Trierweiler (nome do pai dos seus filhos, Massonneau de seu apelido de solteira) descreve no seu livro-vingança, escrito com a raiva do despeito, um começo de vida que evoca um famoso livro de Christiane Rochefort, Les petits enfants du siècle (1961): estimulado pelas ajudas estatais à natalidade, um casal em dificuldades esmifra-se por gerar a descendência que lhe permitirá comprar os electrodomésticos com que sonha. Despeito é a palavra que domina o livro, visando antes de mais François Hollande que, como a maior parte dos homens faz, trocou uma mulher na meia-idade por uma mais nova, mas talvez e sobretudo a mulher anterior: Ségolène Royal, mãe dos quatro filhos de Hollande a cujos poderosos calcanhares influentes Valérie tenta sem sucesso chegar.

Embora ciente da ironia do destino que expõe com crueldade o ciclo da infidelidade, a despeitada dedica longas passagens do seu livro-sensação Merci pour ce moment a desancar Ségolène. A actriz Julie Gayet, por quem Hollande se perdeu de amores, não está isenta de culpas, mas a pior de todas é Ségolène que, não satisfeita e tendo perdido a eleição presidencial anterior, se abalança em 2012 à presidência da Assembleia nacional de França, a câmara baixa do Parlamento francês. Supostamente em nome da defesa da separação dos poderes executivo e legislativo, Valérie lança no espaço do Tweeter 139 caracteres em defesa de outro candidato ao cargo, desafiando a paciência de Hollande que publicamente apoia Ségolène, «o símbolo supremo, a mãe, a intocável». Trierweiler também é mãe, «mas não a dos filhos do Presidente», e por isso não conta. Royal é uma espécie de Hillary Clinton, diz a dado passo a despeitada. O caso do tweet terá sido o começo do fim para Trierweiler.

Pelo meio, a best-sellerista vai descrevendo a sua triste vida privada de “First Girl Friend”, como lhe chamavam os norte-americanos por não ser casada com Hollande, e os encontros com este e aquele, no âmbito das responsabilidades de Estado que, como mulher de Hollande, teve de acompanhar. O dia em que se encontrou pela primeira vez com Angela Merkel, por exemplo, que a convidou para ir ao festival de Bayreuth.

“O que tem valido ao SNS é a mãe, a Constituição”

Um balanço dos 35 anos do SNS por António Arnaut.

Obrigada por este bocadinho, François!

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145 mil exemplares vendidos em 4 dias (de uma 1ª tiragem de 200 mil)

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Valérie Trierweiler na noite da eleição de François Hollande, em Maio de 2012

[Resumo do 1º capítulo]
Valérie (Val) era feliz junto do seu François, organizando almoços de caridade e promovendo o bem em redor dela com a ajuda, designadamente, do seu chefe de gabinete – um antigo jornalista da RFI. Até que outra mulher (há sempre outra) lhe tirou o marido e o descanso. Interrogado certa tarde no apartamento conjugal, na sequência de algumas notícias que o davam como adúltero (um fotógrafo paparazzi apanhara-o a sair de motorizada pela manhã, da casa dessa outra mulher), François confessou: que sim, que andava a dormir com outra há um mês. Val conteve-se para não gritar com ele nem partir loiça, e propôs-lhe que fizesse sem mais demoras uma declaração pública pedindo-lhe desculpas e comprometendo-se a não voltar a ver essa outra mulher. Sucede que François estava afinal a mentir, e que já andava naquilo há mais tempo. Há quanto tempo François? perguntou Val. Há três meses. Não, há seis. Não, desculpa, há nove. Um ano, na verdade, disse finalmente François, antes de voltar para o seu gabinete. Val fica ali feita parva no apartamento e a sua tarde de trabalho vai para o galheiro.

À noite, François volta para jantar e Val vai dar com ele de joelhos no quarto, a cabeça entre as mãos. Como é que vamos fazer? pergunta perdido de todo. Durante o jantar, Val pergunta-lhe onde está afinal o presidente exemplar, que anda naquela vida durante a noite enquanto as fábricas fecham, o desemprego aumenta e a sua popularidade baixa todos os dias? [Read more...]

Aroma de Hitler

Cada vez estou mais convencida de que o mundo está a transformar-se na caricatura de si mesmo, ridícula e superficial até ao limite do suportável.

Numa época em que se vão fazendo evidentes as semelhanças entre o momento actual e a história recente, e em que por isso tão vital é conhecê-la, quanto mais não fosse como antídoto para a repetição do que ela teve de pior, reparem na promoção que um canal televisivo temático decidiu fazer de uma série de programas dedicados à II Guerra Mundial.

O perfumista Lourenço Lucena foi convidado a criar um aroma para cada um dos protagonistas da série: Winston Churchill, Adolf Hitler, Franklin D. Roosevelt, Hideki Tojo, Benito Mussolini e Josef Estaline. Conhecer os “aromas da história”, é a original metáfora, e enormíssimo desafio, porque os aromas desta história não são aqueles que costumam caber num frasquinho de essências: o sangue derramado, e “só o sangue cheira a sangue”, dizia Anna Akhmátova, o gás das câmaras de Auschwitz-Birkenau, a carne queimada em Hiroshima. Não era simpático, deve ter pensado o perfumista, e por isso inspirou-se nas características dos protagonistas, homens fortes, de aroma intenso. [Read more...]

In Memoriam

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Dedicado a todos os seres humanos que perderam a vida às mãos de bárbaros terroristas num dia infame.

Luxo pago com o dinheiro do contribuinte é imoral

Não sei se o conteúdo deste vídeo é novo para quem o está a ouvir. Para mim não é mas mesmo assim senti a necessidade de o partilhar. Ele fala-nos de um juiz do Supremo Tribunal de Justiça da Suécia que todos os dias pedala até à estação de comboios da sua cidade – Uppsala – e dai segue, imagino, para Estocolmo, num comboio que faz o percurso, segundo o Google Maps, em 38 minutos (de carro seriam 53). Um juiz que, imaginem lá o maluco, é contra a corrupção e acredita que luxo pago com dinheiro dos contribuintes é imoral.

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Terra rasa

Há tempos, cansada das paragens do costume, rumei a sul. Parei no Alentejo. Como a maioria dos portugueses, gosto muito do Alentejo. Tenho uma capacidade razoável para mimetizar sotaques e ao fim de dois dias falava aquilo que eu achava que era um alentejano excelente e que aos alentejanos deveria parecer uma anedota, que só não chegava a ser insultuosa porque desenvolveram uma saudável capacidade de não levar a mal o que outros achariam uma afronta, encolhendo os ombros e fazendo de conta que não perceberam.

Gosto do Alentejo, como a maioria dos portugueses, pela simpatia amavelmente prudente das pessoas, pelo despojamento das paisagens, limpas da mancha verde no Inverno e chamuscada no Verão a que o norte nos habitua, porque a comida e o vinho são excelentes, porque os dias trazem uma agradavelmente monótona sucessão de calor e sol sem nuvens, e as povoações têm ainda lugares de silêncio e sombra que convidam a meditações erráticas e especulações irrealistas.

Tenho o hábito já sem emenda de não preparar viagem alguma, e de partir sem saber o que vou encontrar. Cheguei a uma localidade com pouca graça, não direi qual, e no dia seguinte, de manhã, fui ao posto de turismo. [Read more...]

Das histórias e das memórias

Caro Nuno Feijão

Não se surpreenda com a informalidade do trato: a minha provecta idade tende a considerar jovens todos os que me rodeiam. A juventude é um estado de espírito, mesmo quando as articulações refilam, e o seu livro bem o demonstra. Há nele a espontaneidade, a frescura saudável, a ingénua esperança de quem ainda tem muita estrada à sua frente.

Venho agradecer-lhe o envio de um exemplar, com carinhosa dedicatória, e faço-o publicamente porque é para mim uma alegria imensa ver que, na nossa terra, há cada vez mais pessoas a escreverem com a sinceridade e a modéstia de quem sabe que não nascemos todos Eça de Queiroz. Grande alegria, também, saber que o Nuno é membro da Universidade Sénior de Tomar – uma ideia feliz que defendia e praticava Agostinho da Silva numa garagem perto de sua casa, ao Príncipe Real, sempre apinhada de operários, vendedeiras, caixeiros, funcionários públicos, que ali acorriam com sede de saber. Maravilhoso é o conhecimento, seja qual for a idade. Uma sociedade justa e forte é aquela que garante educação e conhecimento dos 3 aos 100 anos. Muito saboroso o seu livro MEMÓRIAS E HISTÓRIAS. Ninguém devia sair da vida sem deixar escrito o que viveu e sentiu, como viu o mundo à sua volta, assim legando as pedras e as escoras com que se aguenta uma Nação em tempos de perda de identidade e de soberania. Sobre isso, o Nuno pertence às Curvaceiras, a terra do Padre Jerónimo E aqui sou eu a relatar-lhe uma memória bem disposta. [Read more...]

O verdadeiro inferno!

I rest my case, serenamente

José Xavier Ezequiel

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Alegadamente, hoje fez-se alguma justiça em Portugal. De uma penada foram oficialmente arrecadados alguns ‘cães grandes’, como diz o povo. A saber, por ordem de grandeza da pena de prisão efectiva, em 1ª instância:

— um ex-padrinho-do-ferro-velho-de-Aveiro-tipo-Camorra-Napolitana (por comparação como o queijo-Limiano-tipo-Flamengo);

— um ex-secretário de estado do bondoso engº Guterres (duas vezes), ex-ministro (outras duas), ex-banqueiro público-privado e, até ver, Grão-Cruz-da-Ordem-do-Infante, classe 2005;

— um ex-secretário de estado sempre sorridente;

— um filho anafado do ex-secretário de estado sempre sorridente;

— etc.

Permitam-me, apesar desta fabulosa novidade democrática, densificar o conceito — ALEGADAMENTE.
Até ver, só vejo xuxas. Sim, todos nós já sabíamos que os pedófilos e/ou corruptos são, por definição, do PS. Não é que a tralha guterrista e a tralha socrática não tenham, alegadamente, culpas no cartório. Contudo, seria a sua condenação pública mais credível se, entretanto, o caso BPN também produzisse penas de prisão. E nem sequer havia necessidade de serem efectivas. Bastava que suspensas até ao limbo do próximo governo xuxa, como tudo parece levar a crer que voltará a acontecer muito em breve.

Não é por nada, mas a laranjada BPN é cronologicamente menos hodierna que a arosada Face Oculta.

Dão-se alvíssaras. Morigeradamente, é claro (como diria o Mário-Henrique Leiria).

Feira do Livro do Porto: o regresso

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Organizada pela Câmara Municipal do Porto. O programa de actividades é variado.

Hospitais da luz vermelha

imagesDaniel Bessa teve medo de assumir, frontalmente, as consequências das suas declarações. Na Universidade de Verão de um dos seus partidos, o ex-ministro da Economia explicou que há demasiadas semelhanças entre um hospital e um hotel para que o primeiro não possa ser, também, o segundo, porque, segundo Bessa, “na saúde, há muito de hotelaria.” E acrescentou: “O que é um hospital? São camas, como um hotel. Tem uma cozinha, como um hotel. Muito do que se passa num hospital é equivalente ao que se passa no turismo.”

Nunca tinha pensado nisso, mas, na realidade, não há nada mais parecido com um turista do que um paciente que passeia, com vagares ociosos, a sua garrafinha de soro, que, conforme as posses, poderá passar a ser gourmet. E haverá turista mais privilegiado do que alguém que, por exemplo, tenha ficado incapaz de comer pelas próprias mãos, podendo, agora, ser alimentado sem se cansar?

Mas Daniel Bessa deveria ter ido mais longe e não soube ver mais além. E se, em vez de “O que é um hospital? São camas, como um hotel!”, saltássemos para fora do quadrado e disséssemos “O que é um hospital? São camas, como um bordel.” [Read more...]

Maldito Estado Social!

Vítor Cunha descobriu por que razão há ocidentais atraídos por causas radicais, islâmicas ou outras. Segundo o ilustre estudioso, tudo começa no facto de ser uma gente que sofre do gravíssimo problema de ter as refeições garantidas. Logo, conclui a luminosa criatura, isto é tudo culpa do Estado Social, essa baba solidária que encharca a sociedade, contribuindo para que as pessoas fiquem demasiado desocupadas e descansadas. Não é por acaso que do ócio ao ódio vai uma pequena consoante.

Vítor Cunha tem, portanto, a solução: é pôr as pessoas a passar fominha e tornar a sua vida o mais insegura possível. Assim, é certo que nunca haverá revoltas nem extremismos.

Polícias passarão a perseguir criminosos com foguetes

163107_153367804715542_100001269708830_297412_5212164_nConfesso a minha ignorância e respectiva perplexidade: se bem percebi, ser polícia, segundo a lei, não corresponde a desempenhar uma profissão de risco e de desgaste rápido. Tal situação levou a que a Associação Sindical dos Profissionais da Polícia (ASPP/PSP) tenha lançado um debate e uma petição. [Read more...]

Ucrânia: a arma da Língua

Des figurines de soldats séparatistes prorusses en vente dans un atelier de Moscou, le 29 août. (Photo Sergei Karpukhin. Reuters)
Soldadinhos separatistas pró-russos à venda numa loja de Moscovo
(Photo Sergei Karpukhin/Reuters)

Quando estalou aquilo a que a que nos telejornais chamaram com simplismo a “revolução ucraniana”, conversei com uma jovem nascida na Crimeia soviética, numa pequena cidade a cerca de 150 quilómetros de Simferopol cuja construção, de raiz, se iniciou em 1976 para acolher as famílias dos operários e do pessoal especializado de uma central nuclear que veio depois a ser abandonada, na sequência da catástrofe de Tchernobyl. A rapariga falou-me da crescente “ucranianização” da sua terra, que considera russa: «Nós somos russos, a Crimeia é russa. Nós já sabíamos que isto ia acontecer, que mais tarde ou mais cedo ia haver problemas, porque apesar de aos dezasseis anos ter recebido um passaporte ucraniano, eu sei que não sou ucraniana. O meu pai é russo, e eu também. A Crimeia ucraniana não existe, é uma realidade artificial. Vão estudar a História.»

E no entanto, apesar do posicionamento pró-russo (entenda-se pró-reintegração da Crimeia na Rússia, realizada enquanto o diabo esfregava um olho em Março passado), a rapariga não é anti-europeísta, e aliás vive na Europa.«Nós não somos anti-Europa, mas trata-se da nossa História, dos nossos próprios problemas, que temos de ser nós a resolver. A política e os negócios são uma coisa, mas a História é do povo, respeitem-na. Vamos ter de arranjar uma maneira, uma federação pode ser a melhor solução para a actual Ucrânia. Somos como irmãos zangados uns com os outros, mas vamos ter de nos entender.»

O entendimento está destinado a ser falado em Língua russa, apesar [Read more...]

O mar-mãe

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Um seminário itinerante vai percorrer o País pensando o Espaço e a Paisagem no cinema português, território em que desde logo cabe o mar, sendo-lhe dedicada a primeira sessão já no próximo dia 17 de Setembro no Museu Marítimo de Ílhavo, um dos mais belos e importantes lugares de memória de Portugal. [Read more...]

Sobre a cegueira: a ministra e a Justiça

justica1Estamos quase a comemorar as primeiras vinte e quatro horas do novo mapa judiciário. Trata-se de um conjunto de medidas coerente, se tivermos em conta o que tem sido feito na Educação e na Saúde: baixar os custos, recorrendo, sobretudo, à concentração de serviços.

A palavra “custos”, num mundo tão impregnado de economês, refere-se, apenas, ao dinheiro que se gasta e nunca às consequências que as decisões políticas podem ter na vida das pessoas, mesmo que o discurso oficial inclua expressões que transmitem a ilusão de que se está a servir as populações. Ora, não se pode planear um país sem se ter em conta todos os custos, sabendo-se, por exemplo, que poupar dinheiro pode originar problemas estruturais amanhã.

Não sendo um conhecedor dos meandros do mundo judiciário português, é com desconfiança que assisto àquilo a que a ministra da tutela chama uma “revolução”, a fazer lembrar a “implosão” prometida por Nuno Crato.

Ainda antes que o mapa judiciário complete as suas vinte e quatro horas de vida, já sabemos que houve uma falha no sistema informático, que não se conhece o destino dos tribunais encerrados (a escola mortuária poderá servir de inspiração), que ir a um tribunal pode demorar quatro horas (e a distância é dinheiro), que há funcionários que viram a vida virada do avesso e que há uma série de obras feitas por ajuste directo.

Noutros tempos, os mapas resultavam da descoberta de novas terras. Com o novo mapa judiciário, parece passar-se o inverso: as terras já conhecidas são apagadas. A cegueira é, agora, para além de uma virtude da Justiça, um defeito da ministra. Já não deve faltar muito para que a realidade seja mais disparatada que um disparate qualquer.

Para reflectir…

-Sem pretender aprofundar o alegado rapto da criança britânica encontrada em Málaga, cujos pais terão sido detidos pela polícia espanhola, deixo isso para a Justiça e seguramente iremos ouvir falar do caso durante os próximos tempos, o assunto levanta algumas questões que me parecem passíveis de reflexão.

Por um lado temos a convicção religiosa que poderá ter estado na base da acção desesperada dos progenitores, envolvendo a família. Supostamente rejeitam o tratamento médico a que a criança estaria a ser submetida. O que nos poderá levar longe na discussão, se extrapolarmos da saúde para educação e não só. Será legítimo que os progenitores se submetam às decisões do Estado, que supostamente sabe o que é melhor para nós? Há algum tempo tivemos outro episódio em que pais convictamente vegetarianos, terão negligenciado os superiores interesses da criança.

Por mim, embora respeite a fé de cada um, bem como a sua Liberdade de orientação política, social ou qualquer outra, afinal defendo que o indivíduo está antes da sociedade, não podem ser colocados em causa os direitos de terceiros. E até mesmo um filho não é propriedade dos progenitores. É uma terceira pessoa. Por muito que custe aos pais, ou pelo menos a alguns, que gostariam de ver os filhos seguir as carreiras, religiões ou clubes a que pertencem, não raras fezes como forma de alcançar o sucesso onde eles próprios fracassaram, a verdade, doa a quem doer, é que todos os seres humanos nascem livres, únicos…

 

O Suicídio

suicidio-pontes-portoA sociedade aprende o quê com isto?

Broxar vs. Brochar


Será “broxar” a versão brasileira e ortograficamente correcta de “brochar”?
Será que o Acordo Ortográfico vai unificar a semântica, para além da grafia, da língua portuguesa?
É este tipo de equívocos vocabulares que o famigerado Acordo Ortográfico vai resolver? – afinal, o que poderia correr mal se os portugueses usassem as mesmas palavras e as escrevessem da mesma maneira??

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