Sobre o recorte do discurso para compor uma mensagem

A questão colocada não foi esta e, portanto, “É uma opinião” não foi uma resposta à pergunta colocada no título do artigo. É um bocadinho diferente. E mostra como jornalismo militante constrói uma mensagem.

Para referência, aqui fica o texto desta parte. Pode-se constatar que a resposta veio na sequência do jornalista ter afirmado que uma democracia “[p]assa por termos políticos eleitos, por exemplo. Esse é um princípio basilar da democracia. Na Coreia do Norte isso não existe, existe um princípio sucessório.” Ao que Jerónimo respondeu “É uma opinião”. Não se percebe se a opinião é sobre a totalidade ou sobre parte do que havia sido dito. Em todo o caso, partindo da premissa do jornalista, podemos questionar-nos se na Inglaterra há democracia. Parece que a rainha não é eleita.

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O notável “percurso profissional” de Catarina Gamboa

Sandra Peirezes

A chefe de gabinete do Secretário de Estado Adjunto e dos Assuntos Parlamentares estagiou no “banco mau” e “consultou” com um ex-ministro.

Os tempos e a percepção

Um dos mais dramáticos equívocos que circulam sobre alguns dos temas mais delicados que apelam, actualmente, à sensibilidade dos cidadãos, é o da convicção, que parece frequente, de “dantes é que era bom”, “noutros tempos não havia nada disto”. É, geralmente, falso e, muitas vezes, é criminosa e perversamente aproveitada essa falsidade. O problema da violência doméstica é um desses temas. Como se pode ser tão ignorante que se pense que há 20, 30, 40 anos ou mais tudo era melhor? Que raio de cegueira é esta? A quem aproveita? Na verdade, apesar da visibilidade mediática dos casos dos últimos anos, o que há de novo é a informação e, desde há pouco mais de dez anos, estatísticas razoavelmente fiáveis. [Read more…]

Sobre a pseudo-negociação do Ministério da Justiça com os oficiais de justiça

A Ministra da Justiça esteve na passada sexta-feira em negociação com os sindicatos dos oficiais de justiça por causa da reposição das carreiras, após a aprovação da dos professores.

A proposta apresentada foi, no entanto, absolutamente vergonhosa. Faz o paralelismo com as carreiras dos professores, que sobem de 4 em 4 anos, mas como para os oficiais de justiça o ciclo é de 3 em 3 anos, “ofereceram” menos tempo e, com especificidades tais, que poucos tirarão algum benefício.

Pior, como se pode ver pelo documento apresentado, na folha 2, os génios do ministério tiveram tanto cuidado preparação da proposta que, em vez de se referirem aos oficiais de justiça , referem-se aos professores.

Mais, os oficiais de justiça estiveram mais tempo congelados que as outras carreiras, pois a DGAJ, entendeu que determinado descongelamento não se lhes aplicava, havendo inclusivamente uma acção a correr termos no Tribunal Administrativo de Círculo de Lisboa sobre isso.

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Combater o machismo também passa por aqui

A educação sexual continua a estar refém de tabus. (…) uma forma de se tentar pôr fim ao “faz-de-conta” que ainda muitas vezes marca a abordagem à sexualidade promovida pelas escolas.

 

Captura do Jardim da Glória

Mais um, de tantos casos em que o poder do dinheiro agiliza, atropela e cria factos consumados. Numa petição, os moradores do bairro reivindicam que sejam, ao menos, cumpridos os devidos procedimentos.

O QUE ACONTECEU?  Quarta feira, 20 de fevereiro, máquinas de obras destruíram quase 5ha de árvores e mato, de um imenso logradouro muito antigo, de um “pulmão verde” entre 4 ruas e 4 eixos de prédios, um elemento vital para o equilíbrio ambiental da zona e da cidade de Lisboa. Um “logradouro verde permeável a preservar (espaço consolidado)” segundo o PDM – Plano Diretor Municipal em vigor.
 Sem aviso prévio. Sem a presença de técnicos. Sem a existência de estudos fitossanitários como o Regulamento Municipal do Arvoredo determina. E, como o imenso terreno fica ao lado da Capela Senhora da Glória, sem a respectiva avaliação arqueológica. Os serviços da CML aprovaram este LOTEAMENTO como se não o fosse, ou seja, sem cumprirem o que a Lei determina para os loteamentos: discussão pública, que compreende aviso público, fase de recolha de contributos dos interessados, relatório de ponderação, reformulação (ou não) da proposta e aprovação da mesma em reuniões de CML e de AML. [Read more…]

O impensável aconteceu: André Ventura lidera coligação de direita com partidos de esquerda

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Segundo o Expresso, André Ventura lidera uma coligação às eleições europeias entre o partido que criou – na esperança de se transformar no líder da alt-right portuguesa, se é que isso existe – o PPM e o PPV/CDC, que, tanto quanto pude apurar, é uma página extremamente divertida que partilha pensamentos profundos como:

Estou aqui a pensar no Maduro, na Catarina, no Jerónimo, no Costa & C.a. (são todos farinha do mesmo saco).

ou

Saiba porque os mulçumanos vão dominar o mundo. Preparem-se! A mordamia ocidental acabará em breve. A não ser por intervenção divina.

sendo que este último é da autoria do Padre Augusto Bezerra, que, ao que tudo indica, também se dedica ao humor. [Read more…]

PPM barriga de aluguer para Chega e D21

O PPM foi um partido com tradição no panorama político português, tendo inclusivamente integrado dois governos constitucionais. Até agora mereceu o respeito mesmo dos que discordavam do seu programa, tão legítimo quanto qualquer outro em democracia. Presta-se agora ao triste papel de barriga de aluguer para projectos políticos que apostaram tudo nas redes sociais, mas que não conseguiram até ao presente a necessária legalização no Tribunal Constitucional, que lhes permitiria disputar eleições. [Read more…]

Anomalias de temperatura por país entre 1880 e 2017

Anomalias de temperatura por país [-2ºC .. +2ºC], entre 1880 e 2017, com base em dados GISTEMP da NASA.
Fonte: Pascal Bornet (@Linkedin & @Flickr).
Portugal está ali no quadrante direito inferior.

Para a discussão: [Read more…]

Educação ou o campo de minas

No que se refere à Educação, esquerda e direita não têm pensamentos, têm tiques e reacções. O ideólogo de serviço, neste momento, é João Costa. Atacado por um vago esquerdismo que aparenta pensar nos mais desfavorecidos, já glosou a habitual treta da escola que deve preparar para a vida, apareceu, ainda, a combater a “acumulação de saberes” e inventou a Cidadania e Nova Inclusão.

A reflexão sobre a cidadania sempre foi inevitavelmente transversal, porque qualquer área do saber a implica. João Costa, no entanto, como todos os que desprezam os professores e as escolas, sentiu que era necessário impor uma disciplina, ao mesmo tempo que desvaloriza os saberes, especialmente os ligados às Humanidades. Por causa de mais uma criação desnecessária, as disciplinas de História e de Geografia estão a perder horas em algumas escolas. Não sei como é que a acumulação de ignorância e e o cultivo de generalidades formam cidadãos.

Cada vez mais, no entanto, dou por mim a pensar que a culpa, em parte, é dos professores e das escolas, que aderem entusiasmados às modas que equipas ministeriais vão impondo aos sabores das mudanças eleitorais, sempre de acordo com tiques e convencidos de que tiveram ideias brilhantes. Deus nos livre de quem se julga brilhante!

“Pára de negar, a Terra está a morrer”

Exactamente: pára.

Foto: Inês Fernandes/Público.

Belzebu no comando

Standard & Poor’s subiu o rating da dívida portuguesa, que fica agora dois degraus acima do caixote do lixo. Continua fraquinho, portanto.

Alfândega do Porto


Foto: jmc

Acima de tudo, comerciantes

As causas e as consequências do sistema depredador vigente são mais que conhecidas. Há décadas que os problemas foram identificados, é mais do que sabido que “precisamos de cortar para metade as emissões globais de gases com efeito de estufa até 2030 (e que) Isto implica uma mudança total de paradigma no modo de produção e de consumo, acabar com a exploração de petróleo, gás e carvão e com uma economia que funciona com base nos combustíveis fósseis, no plástico, na obsolescência programada e no descartável.“

É tudo mais que claro, provado e observável, mas os governos, sempre de ouvido aberto aos lobbies, têm estado mais preocupados em administrar a situação para prolongar o mais possível o coma do sistema, do que a delinear e implementar, com a urgência necessária, um modelo alternativo. É mais importante assinar acordos de comércio com um lunático que denega as mudanças climáticas e que quer que o seu país saia do Acordo de Paris, do que cumprir os compromissos assumidos na assinatura do Acordo.

Enquanto continuarem a promover uma globalização insustentável e criadora de monstros transnacionais, enquanto não introduzirem um imposto sobre o CO2, enquanto não proibirem os motores de combustão, não abolirem os subsídios ao petróleo, ao gás e ao carvão, ao gasóleo e aos veículos pesados das empresas, enquanto continuarem a subsidiar uma produção agro-pecuária industrial, enquanto não promoverem a todo o vapor as energias renováveis, não passais de umas marionetas sem visão e cobardes.

Conhecem aquele país que vai para a guerra para “estabelecer” a democracia como o melhor dos piores regimes?

Bem prega frei Tomás, fazei o que ele diz e não o que ele faz.

Trump vai vetar a decisão que anula o acto de tirania, perdão, prepotência, levado a cabo por si mesmo e que consistiu em declarar um estado de emergência inexistente, exceptuando a emergência de obter fundos para uma promessa eleitoral que os representantes do povo tinham rejeitado.

Com um desenho é mais simples.

Viva a democracia! Onde haja petróleo para explorar, claro.

Hal

Morreu Hal Blaine (1929-2019), um dos meus mestres – foi-o, mesmo muito antes de lhe conhecer o nome. Nas infinitas horas em que, com os amplificadores aos berros, tentava acompanhar e aprender como faziam os melhores, foi uma das minhas companhias.

O seu nome não dirá muito muito à maioria das pessoas. Ele fazia parte daquela aristocracia de músicos que, nos estúdios de gravação, tocavam com os melhores e, muitas vezes, em vez deles. Quem está atento a estas coisas sabe bem que muitas gravações, mesmo de artistas e bandas famosas, são feitas , de facto, por estas “raposas de estúdio”, muito mais competentes que os seus famosos “encomendantes”. [Read more…]

A máquina

David Carr, «Man and Machine XVI» (c. 1955)

Pedro Medina Ribeiro

1..A máquina ocupava a melhor parte da fábrica.

Era um monstro cansado e ruidoso, verde-sujo e cor de óleo.

Olhada com desconfiança, ansiava-se pelo momento em que deixaria de funcionar, em que seria desmanchada e vendida como sucata. E, no entanto, era uma boa máquina. Um monstro bom que durante anos transformara barulho em coisas úteis, que fabricara milhares de objectos em décadas de movimentos repetidos, e com essas repetições alimentara famílias.

O seu único crime era ser velha e funcionar com as energias combustíveis que tinham os dias contados. Expelia fumos e cheiros que ofendiam as pituitárias delicadas dos homens e mulheres que passavam à porta da fábrica com os seus computadores brancos de design estilizado (feitos, em países longínquos, por outras máquinas de electrónicas sofisticadas).

A máquina grande e boa, ruidosa e verde, era como um avô resmungão de andar arrastado e cheiro peculiar, como por vezes têm os velhos. E como os velhos de pulmões fracos, a máquina por vezes tossia e expectorava. Uma tosse cavernosa, que lhe subia das bielas e manivelas, e lhe arrancava escarros negros de óleos queimados.

Estes achaques obrigavam à intervenção da única pessoa no mundo capaz de trabalhar com a máquina e capaz de a fazer trabalhar. [Read more…]

Pulseiras electrónicas nos funcionários da CM de Braga

Não que Ricardo Rio alguma vez me tenha enganado. A personagem, toda ela conservadorismo sisudo, pouco dada à grande maçada que é a social-democracia, essa reclusa de uma qualquer gaveta coberta de teias de aranha, algures numa cave escura  da São Caetano à Lapa, sempre foi por demais evidente. Mas uma coisa é o que eu acho dele. Outra, bem diferente, é vir o senhor dizer, em plena Assembleia Municipal de Braga, que, se pudesse, colocaria pulseiras electrónicas a alguns funcionários da CM de Braga. [Read more…]

Depois do excepcional, a direcção

How can we explain that what is difficult to learn when moving from Lx to Ly is not necessarily difficult when moving from Ly to Lx, if it were true that it is mere L1–L2 differences that cause learning difficulty?
— Lourdes Ortega

***

Efectivamente, o Expresso, apesar das aparências e da propaganda, não adopta o Acordo Ortográfico de 1990.

Anteontem, o excepcional.

Ontem, a direcção.

O Expresso diz-nos que Armando Vara deixou de ser Grande Oficial da Ordem do Infante D. Henrique e que o despacho foi publicado no Diário da República de hoje.

Efectivamente, é verdade:

Todavia, também é verdade que no Diário da República, como no Expresso, há uma direcção, sem til e sem cedilha, claro, tendo em conta o contexto, mas com consoante não pronunciada ‘c’, quand même:

Além disso, como é costume, há contato

efectivamente, há contato

e fatos e factos.

Exactamente: no sítio do costume.

***

Se dependesse dele, seria um padreco a mandar no país

O padre malícias a dar cartas. Já agora, acrescento: Ó Tomás, isso não se faz!

Redes

José Meireles Graça

Os senadores da opinião, com banca montada há décadas na sala-de-estar do cidadão distraído, não gostam das redes sociais.

Não foi sempre assim: Pacheco Pereira, por exemplo, alimentou durante anos o Abrupto, até 2016. E não deve ter sido apenas a decadência da blogosfera (que não medi; é uma observação impressionista) a afastá-lo, mas antes a constatação de que todo o cão e gato pode fazer, e faz, blogues.

Miguel de Sousa Tavares espumava há tempos de raiva contra o Facebook. E não é possível ler as caixas de comentários dos jornais on-line sem um sobressalto, tal o primarismo das opiniões, a violência das soluções defendidas para problemas reais ou imaginários, a ausência de gramática ou um módico de cultura geral, e o intenso ódio que se manifesta a propósito da indignação da semana.

Depois, Trump foi eleito com o subsídio do Twitter (uma rede especializada em espirros opinativos) e Bolsonaro do WhatsApp (semelhante grosso modo ao  Facebook, com grande difusão no Brasil). E estes dois, Trump e Bolsonaro, carregam o ferrete ignominioso de não serem de esquerda, nem da direita que a esquerda tolera por não ser de direita – navegamos em pleno escândalo.

(Nota: Antes destes dois já Obama tinha sido eleito com grande campanha no Facebook; a esquerda, na altura, orgulhou-se, achou muito “moderno” e “despojado” e “popular”, mas agora está com amnésia). [Read more…]

E as aulas de Religião e Moral, deputado Bruno Vitorino? Também têm que parar?

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Perante o anúncio de uma sessão de esclarecimento sobre questões de género e LGBTI, feita no âmbito da disciplina para a cidadania e igualdade de género e sem carácter obrigatório, o deputado Bruno Vitorino (PSD) soltou a sua indignação no Facebook, numa publicação entretanto desaparecida em combate, vá-se lá saber porquê.

Ao ler esta publicação, de um deputado que, à partida, será um tipo esclarecido e dotado de inteligência, lamento desde logo que Bruno Vitorino ache que miúdos de 11 anos sejam alguns ignorantes que devem ser deixados em paz, porque, imagino, achará o senhor deputado que podem apanhar alguma doença, se confrontados com a realidade LGBTI, ainda para mais no contexto de uma disciplina que aborda o tema da igualdade de género. A partir de que idade poderão, no entender de Bruno Vitorino, ser as crianças portuguesas expostas ao perigo da existência da homossexualidade? Será que o simples facto de assistirem a tal sessão os homossexualizará? [Read more…]

O bonitinho climático é fácil

Com que então o Ministro do Ambiente mais os secretários de Estado da Educação e da Energia (não é aquele que diz que devemos consumir mais energia para compensar os investimentos da EDP?) vai reunir com cinco membros da organização Greve Estudantil Climática na próxima terça-feira?  Muito bem!

Contudo, se não é apenas para fazer bonitinho, o governo só precisa, na próxima reunião do Conselho Europeu de 21 e 22 de Março, de votar contra os mandatos de negociação propostos pela Comissão Europeia para um acordo comercial com os USA sobre bens industriais e “avaliações de conformidade” (num eufemismo adoptado para evitar nomear a lúgubre “cooperação regulatória”, destinada a eliminar barreiras não regulamentares por via de comités opacos, fora do alcance dos parlamentos nacionais e amplamente sujeitos à influência dos lobbies).

É que… a UE não prometeu que só negociaria acordos comerciais com os países signatários do Acordo de Paris sobre o Clima?  Ora o Presidente Trump não declarou que retirará os EUA do Acordo de Paris? E não anda a impingir como se não houvesse amanhã gás liquefeito maioritariamente proveniente do super poluente fracking?

Pois aí está, na próxima semana, uma extraordinária e excepcional oportunidade de o governo português, aliando-se aos governos da França, Itália, Bélgica, Espanha e Luxemburgo, ser coerente e mostrar à evidência que a sobrevivência do planeta é mais importante do que o negócio. E é só isso que interessa aos estudantes.

E já agora, os senhores eurodeputados e as senhoras eurodeputadas terão ocasião já nesta quinta-feira de provar o mesmo, quando o Parlamento Europeu votar recomendações (não vinculativas) em favor ou contra os mesmos mandatos de negociação com os EUA.

Perante a actual relação de forças no PE, não há razão para optimismo.

«Conan Osíris é mesmo um artista excepcional?»

Addison DeWitt: More plainly and more distinctly: I have not come to New Haven to see the play, discuss your dreams, or pull the ivy from the walls of Yale. I have come here to tell you that you will not marry Lloyd, or anyone else for that matter, because I will not permit it.
All About Eve

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No Expresso, é excepcional,

mas também é excecional

e, além de excecional, há excecionalidade.

Portanto, há excepcional, excecional e excecionalidade.

No Brasil do AO90, continua excepcional. Todavia, na Europa do AO90, como sabemos, “excepcionais convertido para excecionais“.

Dez anos é muito tempo (muito!) e andamos há quase nove a aturar a propaganda ortográfica do Expresso.

***

CHEGA: a ludibriar a lei antes mesmo de existir

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Fotografia: João Relvas/Lusa@RTP

Depois de anos ao serviço de um dos dois partidos que manda nisto tudo, sem que se lhe conheça, até à saída estratégica, uma crítica que seja ao caciquismo, as danças de cadeiras entre o público e o privado, aos escândalos de corrupção, tráfico de influências, peculato ou gestão danosa, quando protagonizados pelos seus pares partidários, André Ventura arquitectou um projecto pessoal chamado Chega, com uma agenda que em (quase) tudo se confunde com a da extrema-direita. [Read more…]

Efeitos malignos da gigantomania e da globalização

Com as agulhas da globalização afiadas nos acordos de comércio e investimento, andam os dirigentes políticos – nomeadamente a UE, a todo o vapor- a tricotar incansavelmente a rede em que o peixe miúdo, nós, ficamos sem escolha, sujeitos às regras dos tubarões.

Um artigo do The Guardian mostra como os brutais gigantes do agronegócio dos Estados Unidos deglutinaram as unidades agrícolas familiares, destruindo as comunidades rurais. E alerta: as grandes corporações que estão por trás dessa depredação estão agora de olho no mercado pós-Brexit do Reino Unido.

Consequência: “Se os agricultores do Reino Unido quiserem competir com as importações americanas, terão de baixar os seus padrões ou abandonar a actividade”.

“Nas unidades de produção industrial, porcos, vacas e galinhas são enfileirados aos milhares nos celeiros. Muitas unidades são semi-automatizadas, com alimentação controlada por computador e os animais assistidos por vídeo, com visitas periódicas de trabalhadores que dirigem várias operações.”

“No início da década de 70, o secretário de agricultura dos EUA, Earl Butz, impulsionou a ideia da agricultura em larga escala com o mantra “tornar-se grande ou sair”. [Read more…]

Caso Neto de Moura: podia ser um sketch de humor. Pena não ser

Começo a achar que o juiz Neto de Moura (assim como parte significativa dos seus pares) pretende transformar-se na personagem mais odiada deste país, mais até que os banqueiros mafiosos ou os políticos mais corruptos. Na entrevista que deu na passada semana ao Expresso, cuja leitura se recomenda, o magistrado faz afirmações como “Os casos que julguei não são particularmente graves” ou “Tenho um sentido de justiça, ponderação e equilíbrio para ser um bom juiz”.

Este indivíduo, que é juiz desembargador, julgou casos como o da mulher agredida por dois homens com um pau com pregos, o da jovem inconsciente violada por dois homens num bar em Gaia e ainda o de uma mulher cujo marido lhe rebentou um tímpano ao soco. E não acha nada disto particularmente grave. E, imagino, considerará justo e ponderado ilibar alguns destes monstros violentos.

Grave, no entender do senhor juiz, é ser alvo do humor do RAP e do Bruno Nogueira/João Quadros. Se, ao invés disso, estes humoristas lhe rebentassem um tímpano com um pau com pregos, e de seguida abusassem sexualmente do senhor, talvez o juiz Neto de Moura não agisse criminalmente contra eles, uma vez que parece não considerar tais actos particularmente graves. Agora escárnio e sarcasmo? Isso sim, é inaceitável.

Se a violência doméstica e o abuso sexual não fossem o flagelo que são, não tivessem a gravidade que têm e não transformassem a vida de tantas mulheres num verdadeiro inferno, isto até que podia dar uma sitcom engraçada. Porque o juiz Neto de Moura, que argumenta e julga da forma bizarra que hoje conhecemos, parece saído de um sketch de Monty Python ou do Herman Enciclopédia. Pena não ser.

10 Anos a Aventar: Tão Longe, Tão Perto

Paulo Guinote

2009 é um ano que me parece tão distante quanto próximo. Era um tempo já não de pioneirismo blogosférico, num espaço comunicacional que ainda não se designava como de “redes sociais”, mas em que os blogues funcionavam como campo de combate político que escapava aos limites da comunicação social tradicional. As “redes sociais” ainda não o eram verdadeiramente: o hi5 já tinha quase desaparecido, substituído pelo ainda graficamente incipiente facebook que então parecia um twitter em nascimento. Sim, já lá tínhamos muitos conta, mas aquilo não era bem um espaço de debate. Existia youtube, mas os youtubers ainda andavam a aprender a ler e a escrever mal, culpa dos professores na altura momentaneamente descongelados de uma (falhada) forma eleitoralista.

Os blogues, sim, estavam talvez no seu período áureo em Portugal, nos anos de chumbo do socratismo, directos antecessores dos anos de aço do costismo da geringonça, por isso 2009 acaba por não parecer assim tão longe.

A blogosfera, que em Portugal teve a paternidade reclamada quase em exclusivo por Pacheco Pereira, já tinha sido dividida na altura entre “boa” blogosfera (o seu Abrupto) e “má” blogosfera (o resto todo, salvo adequadas excepções que não me ocorrem). Na má blogosfera, à qual se atribuíam pecados do pior, avultava no início de 2009 um conjunto de blogues colectivos com posicionamentos políticos razoavelmente claros. Existiam mais, mas a meia dúzia que fazia escola dividia-se pelos “radicais de esquerda” (5dias, Arrastão), os situacionistas do socratismo (Jugular, Câmara Corporativa, uma das incubadoras dos “factos alternativos” entre nós) e os betos de direita (31 da Armada, Insurgente). Quase todos desapareceram, à medida que os seus colaboradores mais destacados arranjaram lugar num gabinete governamental ou foram cooptados pela comunicação social mainstream. [Read more…]

Crónicas do Rochedo XXIX – Península Ibérica 2483 d.C.

ronaldo jornal da Madeira

“Em 2485 vamos celebrar os 500 anos do nascimento de Cristiano Ronaldo e por esse motivo, os responsáveis das cidades do Funchal, Lisboa, Manchester, Madrid, Turim e Miami aqui reunidos, decidiram criar a ACRM (Associação das Cidades Ronaldianas no Mundo) que terão como responsabilidade criar o programa das festividades em todo o ano de 2485 ficando a sede desta associação aqui, na cidade de Madrid” – anunciou em conferência de imprensa a governadora da província de Madrid.

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O quartel do Monte Pedral, o Portuense e os políticos que, dizem, o representam

 

Ernesto Martins Vaz Ribeiro

O Monte Pedral é um dos locais mais ligados à história da cidade do Porto e do País.

Por ali se situaram as defesas da cidade, constituídas por redutos liberais, que durante o período conhecido pelo Cerco do Porto defenderam a cidade e o rei legítimo que aqui se barricou entre 1832 e 1834.

O País deve ao Porto a defesa acérrima que conduziu à construção de um regime que transformaria definitivamente Portugal. Mas não me parece que o portuense tenha isso em consideração.

Monte Pedral, quer exactamente referir uma zona elevada e pedregosa o que, em termos militares defensivos, é de extrema importância.

Na altura, a actual Rua da Constituição, a rua que cortou e aplainou o Monte Pedral não existia e toda aquela zona entre a rua de S. Brás e o local por onde hoje passa a rua de Serpa Pinto, era dominada por um elevado monte pedregoso que ainda hoje pode ser notado na zona do quartel dos bombeiros. Esse monte era coroado pelo poderoso forte do Monte Pedral, que tinha outras defesas na vizinhança, como o forte de S. Brás, sensivelmente no local onde se situa o actual e abandonado quartel, o forte do Covelo, na quinta do mesmo nome, o forte da Aguardente, na actual praça do Marquês e o forte que ocupava sensivelmente o local onde se levanta o denominado quartel do Monte Pedral, havendo contudo muitas outras baterias defensivas nas imediações.

Tudo isto para dizer que toda a zona da Constituição, até Serpa Pinto, era um baluarte defensivo e um local onde a história da cidade se encontrou definitivamente com a história do País. [Read more…]