O dia começara como tantos outros.
Era mais um dia de trabalho.
Zé Pequeno levantara-se com o corpo dorido do trabalho que o fustigara no dia anterior. E na boca conservava o mesmo sabor amargo com que a vida o ia marcando, aos poucos, os socalcos que galgavam a pele escurecida pelo trabalho árduo. Não era velho. A sua juventude apenas se ia esvaindo por entre a fome e a labuta, que o fizera forte como os trepos que circundavam a pobre casa de seus pais que também era a sua.
Uma vez de pé, respirou fundo o ar de fuligem e caruma que impregnava a casa, a que se misturava ainda ao cheiro do azeite da sopa fervida, no preto caldeirão que parecia ter aterrado pela chaminé na lareira.
Seguiu mecanicamente os seus próprios passos até à rude porta. Abriu e sorveu o ar fresco da alvorada que corria livre e selvagem.
Para Zé Pequeno, a única liberdade que havia era a dos ventos e dos rios. O Portugal de então cobrara o preço da não participação na Segunda Guerra Mundial.
De selvagem ficara o coração de Zé Pequeno e a sua força que não cedia ao cansaço nem ao medo.
Mirou em volta à busca de um pedaço de pão que enganasse o seu estômago e iludisse a fome que sentia. Levou-o à boca e mastigou-o com a mesma convicção com que enfrentava cada dia. A mesma convicção que o fazia acreditar. Acreditar que um dia tudo iria mudar pela força do seu braço e da sua arte.






Talvez se inicie aqui a construção de um pilar essencial de qualquer Estado moderno. Uma sociedade civil, esclarecida, com efectivo poder de influenciar as decisões políticas que dizem respeito a todos nós (é preciso lembrar uma e outra vez) capaz de escrutinar o “regabofe” a que chegou a vida partidária.










Recent Comments