Maioria amnésica

Na CNN:

Mafalda Anjos decidiu explicar o porquê de o país ter dado maioria absoluta ao Partido Socialista. Segundo a jornalista, “os portugueses recuperaram os seus rendimentos, tiveram o passe social, manuais escolares gratuitos, aumento das pensões” e, como tal, “decidiram que ainda não era o momento de tirar o poder ao PS”.

Mas Anabela Neves, que até passou a campanha eleitoral com António Costa ao colo, decidiu relembrar o que, aparentemente, Mafalda Anjos já esqueceu:

  • Sim, Mafalda, mas parte disso foram conquistas do BE e do PCP, negociadas com o PS. Eram bandeiras de BE e PCP!

Haja alguém que relembre o óbvio.

A realidade tal como ela é

Rui Naldinho

Achar-se que o eleitor português na hora de decidir o seu voto olharia para as questões de carácter, do comportamento ético e moral dos políticos à teia de interesses familiares que se desenvolvem no seio do poder, como um dos factores determinantes na sua escolha, é um erro. Desenganem-se portanto os que pensaram que o acidente com o automóvel onde seguia o Eduardo Cabrita, ou a borla fiscal à EDP, entre outras minudências, iriam mudar o sentido de voto de um número significativo de eleitores. Isso até poderá ser válido em países com elevados rendimentos por habitante, ou com um nível de formação académica muito acima da média, como alguns países do Norte e Centro da Europa, mas nunca em países pobres e com assimetrias regionais e sociais tão grandes como o nosso. O importante é que os problemas mais básicos do cidadão sejam resolvidos em conformidade com as suas expectativas, já de si baixas. O salário, o transporte público utilizado todos os dias ou com frequência, os livros escolares para os filhos, as creches, os lares da terceira idade, a escola pública, o Serviço Nacional de Saúde.

Nada disto são luxos. Chama-se dignidade. O PS conseguiu esses mínimos, ainda que sob pressão de terceiros, e recolheu os louros para si. [Read more…]

O Parlamento feito call-center

A IL elegeu oito deputados. Oito pessoas que são, agora, a contra-gosto, funcionários públicos.

É claro que não se chamam “deputados” ou “trabalhadores do Parlamento”, mas sim “colaboradores da democracia”. A bancada da IL terá uma #pub nova todos os debates. Os colaboradores da democracia da bancada da IL usarão todos um chapéu, como daqueles que o José Mota levava às conferências de imprensa em Paços de Ferreira, só que em vez de dizer “Capital do Móvel” dirá “Capitalista Ignóbil”.

A partir de agora, haverá sempre um manager no meio da bancada da IL, que a cada dez minutos vai gritar: “ESTAMOS QUASE, ESTAMOS QUASE A ATINGIR AS VENDAS DO DIA, EQUIPA MAGNÍFICA, VAMOS A UM ÚLTIMO ESFORÇO, VOCÊS SÃO INCANSÁVEIS POR ESTA MARCA. VAMOS, DEZ MINUTOS PARA FECHAR, ESTAMOS POR TUDO: IMPINJAM O SNS AO GRUPO MELLO A PREÇO DE SALDO!”. Tudo isto para manter o mindset na ordem, pois claro.

Uma vez por mês, a IL fará uma promoção especial. Portugal: pague por dois, não leve nenhum. Não acredita? Experimente você mesmo! O liberalismo funciona e, mesmo depois destes trinta anos de liberalização económica que nos trouxe ao lodo, continua a fazer falta a Portugal! [Read more…]

O fascismo não é adversário. É inimigo.

Acordei num país onde 385.543 pessoas defendem um país estruturalmente autoritário, anti-constitucional, racista, xenófobo, islamofóbico e misógino. Que querem no poder alguém que baseia a sua mensagem no ódio e na divisão. Que quer destruir o Estado Social. Que quer menos impostos para os mais ricos e mais impostos para a classe média. Que celebra, da forma aberta e descomplexada, a miséria, a fome e a violência que caracterizou o Estado Novo. Que quer cancelar a democracia. Sim, isto é muito triste e é, de longe, a maior desilusão política da minha vida. Não vale a pena estar com rodeios.

A extrema-direita, para mim, não entra na categoria de adversário. Adversários são os que pensam diferente de nós, num quadro de respeito pela democracia e pelos princípios constitucionais. A extrema-direita, enquanto inimiga da democracia e da Constituição da República Portuguesa, é minha inimiga também. Não há diálogo possível com quem defende o retrocesso como caminho. A minha condição de republicano, democrata e patriota assim o exige. O fascismo voltou, em força, mas regressará ao esgoto da história de onde nunca devia ter saído. Cairá da cadeira como a besta de Santa Comba Dão.

Costa vai facturar

Costa ganhou o braço de ferro entre o PS e PCP mais BE. Não quis ceder à negociação, como fizera nos anteriores 6 orçamentos, e deixou cair o governo.

Cheirou-lhe a fraqueza do PSD e CDS, bem como do PCP e do BE e, qual matador, avançou para o golpe final.

Na sua sofreguidão, criou o palco perfeito para o reforço de deputados do esgoto da extrema-direita. Pelo caminho, secou o PAN e, quiçá, o CDS.

Não vou entrar no discurso do povo ser sábio. Uma possível maioria absoluta para um partido que teve Cabrita e os sucessivos escândalos, Sócrates e sua entourage e a má memória da corrupção não pode vir de um povo sábio.

De nada valeram as manipulações que, de repente, passaram a colocar Rio colocado a Costa e, às vezes, até à frente, nas “sondagens” e como fez o PÚBLICO nesta capa. Título onde Costa é dado como estando à frente de Rio, mas fica em segundo plano, com uma carantonha, em contraste com um Rio sorridente.

Adenda: nem tudo é mau. O execrável Rio não tem grande futuro pela frente.

Retrocesso: uma certeza, entre várias certezas

O PS vence por larga margem. A esquerda, no global, também vence, mas a esquerda da esquerda perde de forma retumbante.

BE e CDU terão, agora, de fazer uma reflexão interna. Sabemos que a força da esquerda não se mede por números, como já se viu no passado, mas por propostas; sabemos, no entanto, que terá de ser feita, de forma ponderada, serena e comprometida com o eleitorado, um balanço dos últimos seis anos, nomeadamente da estratégia seguida desde o fim da geringonça em 2019.

O neo-liberalismo cresce a olhos vistos, mostra a perna ao eleitorado, mas este não vê que ele é perneta. Terão agora, pelo menos, dois anos para reflectir se era uma maioria do PS (ou perto disso) que realmente queriam e se o crescimento do neo-liberalismo nas últimas três décadas tem sido benéfico para o país.

Vamos à luta, camaradas. O povo castigou-nos, à boleia da manipulação do PS e da pressão das sondagens, mas continuaremos, sempre, sempre, sempre a lutar por vós. O reforço dos serviços públicos, o aumento dos salários e das pensões, justiça fiscal, criminalização das offshores, e por aí em diante. Não renunciaremos aos nossos mandatos. Viemos à luta, estamos na luta, estaremos na luta.

Avante.

Fotografia: MAYO

Just when I thought I was out…

Apesar da hora, parece ser certo que o PS, mais concretamente António Costa, ganhou as eleições e de modo bem mais expressivo do que os últimos tempos poderiam fazer antever.

Tanto quanto é previsível neste momento, quem votou, prefere que António Costa continue a governar, aumentando o seu apoio ao socialista ao ponto de poder atingir a maioria absoluta.

Nos últimos tempos, não faltou quem achasse que o socialista estaria com vontade de ir à sua vida e passar o testemunho a outro.

Afinal de contas o poder desgasta, os cabelos brancos surgem e envelhecem, e, convenhamos, foram tantos os tiros nos pés, que até parecia que queria perder as eleições.

Eu sou daqueles que desconfiam que António Costa estava farto e queria ir à vida dele.

Poderei estar enganado, é certo, mas desconfio, também, que a esta hora António Costa já deve ter tido um desabafo em família mais ou menos como este:

 

Legislativas 2022 – declaração de interesses

Há quem ache que todos devemos assumir publicamente o nosso sentido de voto. Eu acho uma parvoíce, até porque o voto é secreto e ninguém tem nada a ver com isso. Eu não vou revelar o meu, mas assumo, sem problemas, o que seria uma vitória para mim:

1) Nenhum partido ter maioria absoluta
2) Haver uma maioria de esquerda no Parlamento
3) Extrema-direita ter um resultado muito abaixo do esperado e ficar atrás da IL e CDS

Existe ainda um quarto ponto, que diz respeito ao caso de se verificar uma maioria de direita. A acontecer, celebrarei também uma entendimento que deixe de fora a extrema-direita. Mal por mal, que seja um mal menor.

Quanto ao pódio: quem fica à frente, para mim, é totalmente irrelevante. Não é isso que define o nosso futuro, mas a conjugação de forças no Parlamento e a solução que daí poderá sair. O resto é paleio de saco. Não elegemos, nunca elegemos, primeiros-ministros. Elegemos deputados. E é a Assembleia da República que detém o poder Legislativo. E que aprova, ou não, a constituição de um novo governo. Foi nisto que votamos hoje. E ainda bem, que não há sistema melhor.

Legislativas 2022 resultados – 1

Diz-me um passarinho que o PS ganhou.

O primeiro derrotado destas Legislativas

É o abstencionismo.

“Nós, os super-ricos, devemos pagar mais impostos”

Antonis Schwarz é um dos vários jovens milionários alemães que defendem uma maior tributação dos particularmente ricos.

“Antonis Schwarz: Sim, tanto na Alemanha como internacionalmente, a regra é: quanto maior a riqueza, menos se paga em impostos. Na verdade, deveria ser o contrário: Os ombros mais fortes devem contribuir mais para o bem comum. Porém, de facto, temos baixado sucessivamente os impostos para os super-ricos nos últimos 30 anos. Com a Corona, estamos num ponto em que os cofres do Estado precisam ainda mais de fundos adicionais. É por isso que dizemos: Temos de mudar o nosso sistema fiscal.

tagesschau.de: Quando diz “nós”, não é só você, mas cerca de 50 pessoas ricas que se juntaram na organização “Taxmenow”. Isso significa que existe actualmente muito apoio por parte daqueles que têm relativamente muito dinheiro?

Schwarz: Sim, exactamente. Somos mais de 50 pessoas na iniciativa “Taxmenow”. Beneficiamos muito com o sistema. Somos de opinião que temos de fazer algo e usar a nossa voz em público como pessoas ricas para dizer: As coisas não podem continuar como estão agora. [Read more…]

Ensaio sobre a cegueira

Portugal é um dos países mais desiguais da Europa quer na distribuição do rendimento quer da riqueza. Trabalhadores por conta própria e licenciados são os mais ricos. Especialistas defendem imposto sucessório e valorização dos salários

(…) somos o quinto país mais desigual da União Europeia (…)

Como sair desta espiral? Educação, valorização dos salários e da contratação coletiva, reforço das prestações sociais, mais progressividade fiscal e recuperar o imposto sucessório são caminhos apontados pelos especialistas ouvidos pelo Expresso.”

Como é possível que esta límpida constatação da desmedida desigualdade não abra os olhos a quem vai votar à direita???

A propósito do crescimento económico

Só quando a última árvore for derrubada, o último peixe for morto e o último rio for poluído é que o homem perceberá que não pode comer dinheiro.

Provérbio Indígena

O extremismo é isto, Dr. Rui Rio

Numa das várias vezes em que André Ventura entalou Rui Rio no lamaçal, durante o frente a frente na SIC, o líder do PSD não foi apenas incapaz de afirmar, de forma categórica, que o CH não entra nas contas do PSD, perdendo-se em ambiguidades e engasgando-se em “se’s” e “mas”. Dias depois, num outro debate, chegou mesmo a usar parte dos seus 12 minutos para defender a posição do líder da extrema-direita sobre a prisão perpétua.

Rui Rio foi igualmente incapaz de explicar aos espectadores em que medida o CH é extremista. Como não sei se foi por ignorância, cobardia ou tacticismo, aqui fica uma lista, com vários exemplos daquilo que é o extremismo do Chega, no improvável caso de se voltar a encontrar com Ventura para debater:

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Deus, Pátria, Família e Trabalho: a tetralogia da treta, por André Ventura, parte IV – TRABALHO

Antes de chegar ao Parlamento, André Ventura saltou da Autoridade Tributária para a Finpartner, uma empresa de contabilidade e assessoria fiscal com intensa actividade nas áreas da engenharia fiscal via offshore e vistos gold, o que não deixa de ser engraçado, à luz da narrativa em torno da “pátria” e das posições anti-emigração que agora defende. Porque isto da pátria não é para qualquer gajo que chegue de barco de borracha em fuga da miséria. Isso seria cristão demais para um farsante como Ventura. Tratando-se de um oligarca russo, angolano ou chinês, que aterre em Lisboa no seu jacto privado, então já somos capazes de ter aqui alguma coisa para lhe vender. Nacionalidade portuguesa pelo preço certo em euros.

Isto do trabalho, na óptica do André Ventura, tem muito que se lhe diga. É que eu ainda sou do tempo em que, em 2019, o líder do CH deu uma entrevista à uma estação televisiva de uma igreja qualquer, onde afirmou, com a convicção a que nos habituou, que, mal fosse eleito, deixaria todas as suas outras ocupações para se dedicar a tempo inteiro a servir o país. Porque defendia, convictamente, que os deputados o deviam ser em exclusividade de funções. Claro que, uma vez eleito, Ventura continuou a servir os interesses da Finpartner, durante quase mais dois anos, durante os quais teve acesso a informação privilegiada resultante da sua posição no Parlamento, que pode ou não ter entregue ao seu principal empregador. E desengane-se quem achar que Ventura saiu da Finpartner por imperativo de consciência. Saiu, isso sim, porque a contradição se tornou insustentável. E porque os próprios militantes do CH começaram a ficar indignados. Tivessem deixado Ventura tranquilo na sua vida, e ainda hoje lá estaria.

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Em memória de Isabel Alves Costa – quem é Rui Rio

De há uns dias a esta parte voltei a sentir-me sobressaltado com a memória do tratamento que Rui Rio infligiu a Isabel Alves Costa. Não porque não me lembre dela amiúde, talvez por a conhecer desde a adolescência, sim, mas particularmente pelo que deu ao teatro e, muito particularmente, à recuperação do Rivoli para a cidade do Porto.
Mas o que me buliu com as vísceras foi mesmo uma declaração de Rui Rio esta semana: “se se perder eleições ninguém morre!”
Talvez tenha razão, quem sou eu, mas se ganhar…?

Aquando da reabertura do Rivoli em 1993, Isabel Alves Costa aceitou o convite para ser directora artística do renovado equipamento. Desde então, o trabalho que desenvolveu foi reconhecido por se revelar como “fundamental na estruturação da vida cultural do Porto, tendo sido uma das programadoras mais activas do Porto 2001 – Capital Europeia da Cultura, como responsável pela área das artes do palco”.
O Governo francês atribuiu-lhe a medalha de “Chevalier des Arts et des Lettres” em 2006 – foi estudar para Paris em 1963 e regressou em 1997 à Sorbonne para se doutorar em estudos teatrais.
Deixa a direcção artística do Rivoli em 2007, quando Rui Rio entrega, em regime de concessão exclusiva, o equipamento a Filipe La Féria.
Vindo a falecer em 2009 de doença súbita, importa relembrar o calvário a que Rui Rio a obrigou a percorrer. Sem nunca ter tido coragem para a demitir, Rui Rio foi cortando, paulatinamente, ano após ano, o orçamento já de si parco para a programação regular, [Read more…]

Deus, Pátria, Família e Trabalho: a tetralogia da treta, por André Ventura, parte III – FAMÍLIA

Quando foi eleito deputado, o programa de André Ventura trazia consigo uma inovação que, seguramente, iria beneficiar as famílias portuguesas: desmantelar o Estado Social. Privatizar a Saúde, a Educação, privatizar tudo. Tudo. Mas como alguém foi lá ler o programa e denunciou o plano do Chega, André Ventura fez o habitual número Groucho Marx e, como as pessoas não gostaram das propostas, ele arranjou outras e mudou o programa. Pelas famílias, pois claro.

Outra grande demonstração de preocupação com a família, por parte da Unipessoal de André Ventura, reflecte-se na caça ao “subsídiodependente”, uma classe que, segundo a narrativa oficial da extrema-direita, incluiu todo e qualquer um dos 8 milhões de beneficiários do RSI, onde estão incluídos 6 milhões de ciganos, 10 milhões de afrodescendentes e 156 milhões de árabes, dos quais 290 milhões integram células terroristas ligadas ao Daesh ou à Al-qaeda. Mais milhão, menos milhão, é disto que estamos a falar.

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Deus, Pátria, Família e Trabalho: a tetralogia da treta, por André Ventura, parte II – PÁTRIA

Em Outubro passado, André Ventura esteve em Madrid para participar num comício do Vox, seu homólogo espanhol. Esforçou-se por falar castelhano, arranhando um péssimo portuñol, e gritou, em plenos pulmões, e com o entusiasmo de uma criança deslumbrada, vários “Viva España!”.

Três meses depois, em Janeiro deste ano, foi a vez de Ventura receber o amigo Abascal em Portugal. E Abascal não se esforçou minimamente por dizer uma palavra em português, optando por fazer a sua intervenção em castelhano.

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Para além das bocas

Há quem, ao invés de se entreter com as muitas trivialidades que os candidatos partidários vão arremessando para produzir títulos de jornal, analise os diversos programas eleitorais publicamente disponíveis no que se refere a temáticas específicas.

É o caso da ZERO, que efectuou uma avaliação global de dez temas chave nas áreas do ambiente e sustentabilidade e de três aspectos específicos, tendo por base os programas dos partidos/coligações candidatos com representação parlamentar. Os dez temas gerais de análise foram: o combate às alterações climáticas, promoção de energias renováveis, eficiência energética e pobreza energética, sustentabilidade no sector dos transportes, relevância de políticas de ordenamento do território, desenvolvimento de políticas com impacto na melhoria do ambiente urbano, incentivos a uma verdadeira economia circular, investimentos em conservação da natureza, melhoria da gestão de recursos hídricos e na economia do mar, promoção de uma agricultura mais sustentável e maior resiliência da floresta portuguesa. As três iniciativas específicas avaliadas foram a credibilização da Avaliação de Impacte Ambiental, a decisão sobre o novo aeroporto para a região de Lisboa e a maior transparência e participação da sociedade no Fundo Ambiental.

Também a TROCA – Plataforma por um Comércio Internacional Justo procedeu a uma análise das propostas dos partidos no que toca à temática do Comércio Internacional.

E haverá outras… Seja como for, o propósito destas análises é contribuir para a reflexão e uma escolha fundamentada, pelo que a sua leitura é da maior pertinência e se recomenda.

Os PSs a lembrarem-se da sua matriz ideológica?

Foto: PS

Depois de andarem décadas a pontapear os trabalhadores e a promover o capital, estará agora na altura de os sociais-democratas/socialistas se arrependerem dessa traição e se recentrarem no que deveria ser o seu genuíno papel?

“(…) o ex-líder da JS foi buscar um tema contra-intuitivo em Portugal – onde o mais comum é falar-se da necessidade de haver mais meritocracia – para fazer uma crítica do culto da meritocracia. Trata-se de uma nova abordagem política de um filósofo norte-americano da Universidade de Harvard, Michael Sandel, que escreveu o livro “A Tirania do Mérito”. Sandel entende que a meritocracia replica o privilégio das elites e mina a coesão social, criando as bolsas de descontentes que levam à adesão aos populismos (daí Trump ter as classes trabalhadoras ou Le Pen os ex-eleitores comunistas).

Como é filho de um industrial ligado ao calçado, foi buscar o exemplo das gaspeadeiras, as operárias, que cosem os sapatos: “As gaspeadeiras não têm mérito? Os técnicos de manutenção da CP não têm mérito? Só conseguiremos ser um país forte se respeitarmos o que une o povo com dificuldades. O que os une a todos é a cola da nossa comunidade, é o Estado social.”

No seu discurso, Pedro Nuno Santos trocou a meritocracia pelo “respeito” pelas classes trabalhadoras, como fez o novo chanceler alemão, Olaf Scholz, do SPD (Partido Social Democrata).

Porém, de A. Costa essa recuperação da memória não é mesmo de esperar; continua na linha de Schröder.

„Na “Tirania do Mérito” Sandel entende que a meritocracia replica o privilégio das elites e mina a coesão social“: é incrível como uma banalidade tão simples pode ser tão certeira e boa de ouvir.

Rui Rio, a bazófia e as sondagens que passaram de manipuladas a credíveis

Segundo Rui Rio, António Costa está na iminência de perder as eleições. Estranha afirmação, vinda de alguém que anda há anos a desvalorizar e a gozar com as sondagens, que são, literalmente, o único indicador de que dispõe para chegar a uma conclusão destas. Ou será que, agora que lhe são favoráveis, se tornaram credíveis?

Até há poucos dias, Rio estava a fazer uma campanha inteligente, facilitada pelo clima de guerrilha que se vivia à esquerda e que concentrava em si o grosso dos holofotes, apesar de uma ou outra ambiguidade comprometedora. Entretanto, as tracking polls começaram a encurtar a distância entre PS e PSD, com o PSD a ultrapassar o PS em algumas, e o que fez Rui Rio? Esqueceu-se da estratégia que o levou até ali, encheu-se de bazófia e já se apresenta como vencedor antecipado.

Para quem é tão experiente nestas andanças, o líder do PSD já devia saber que o excesso de confiança para efeitos de show-off tem um enorme potencial para dar asneira. Mas o cheiro a poder enebria, de tal forma que até Luís Montenegro já aparece ao lado de Rio em campanha. Não sei se me precipitei quando apostei, há dias, na vitória do PSD, mas confesso que também não esperava este plot twist de bazófia. A parte boa é que isto se está a tornar mais interessante. Por um lado temos Costa, que redescobriu a importância da negociação e enfiou o sonho da maioria absoluta no sítio de onde nunca devia ter saído, por outro temos Rio, que deixou a humildade em casa e já acha que ganhou as eleições. Quem diria que dois políticos tão rodados poderiam ser tão ingénuos?

Rui Rio nos bastidores – um testemunho

Texto encontrado no mural de Facebook do jornalista Paulo Moura, republicado com autorização do autor.

Foto: Fernando Veludo

 

«Há uns anos, fiz, para o Público, uma grande entrevista a Rui Rio, quando ele era presidente da Câmara do Porto. Correu mal.

Em parte, a culpa foi minha: como, na altura, Rio se recusava a dar entrevistas, alegando que os jornalistas lhe deturpavam as declarações, eu propus mostrar-lhe o texto, antes da publicação, para ele confirmar que não havia declarações deturpadas ou colocadas fora de contexto. [Read more…]

Deus, Pátria, Família e Trabalho: a tetralogia da treta, por André Ventura, parte I – DEUS

Faltavam cinco dias para as eleições presidenciais. A caravana de André Ventura estava em Coimbra e parou na Igreja de Santa Cruz, onde jaz D. Afonso Henriques. Se o nosso primeiro viajasse na máquina do tempo até ao presente, e visse Ventura todo excitado a gritar “Viva a Espanha”, no comício de um partido político espanhol que faz propaganda eleitoral com montagens de mapas em que Portugal e as suas antigas colónias surgem anexadas pelo país vizinho, aplicar-lhe-ia, seguramente, o mesmo tratamento que aplicou à sua mãe. Portugal não se fez com palermas a gritar “Viva a Espanha” num arraial de gajos que nos veem como anexáveis. Mas deixemos isto para o capítulo sobre a Pátria e voltemos a Janeiro deste ano.

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Sondagens muito convenientes para o centrão

Num repente, mais repentinoso que repentino, aparecem duas sondagens que dão empate técnico entre o PS e o PSD, fazendo desaparecer, noutro repente, a distância de 4 pontos percentuais que os separavam.
Muito conveniente, diga-se, para quem pretende não a vitória, mas secar por completo os pequenos partidos da esquerda à direita.
Semana difícil para os que não aderem ao Bloco Central, mas…, esperem um pouco…, ah, sim, o Costa faz saber, noutro repente, que, afinal, nunca recusou entendimentos à esquerda.

Ora pois! Deve ter sido por isso que já afirmou e reafirmou que apenas um orçamento apresentará caso seja Primeiro-Ministro, aquele que não obteve a aprovação da esquerda que agora volta a dizer pretender abrir a porta.
E siga o baile que a coisa vai bonita de se ver!

Como normalizar o Estado Novo e piscar o olho à extrema-direita: a lição de Rui Rio

Quando Rui Rio afirma que a justiça portuguesa , em termos de eficácia, piorou desde o 25 de Abril, está a assumir que uma ditadura é compatível com a existência de um sistema de justiça idêntico àquele que, com as suas imperfeições e falhas, vigora no seio das democracias ocidentais, o que é absolutamente desonesto e revelador do embuste que é o rótulo de campeão da seriedade que os marketeers ao serviço do PSD nos têm tentado vender. Um inception de embustes, portanto.

Um sistema que prende, tortura e manda matar por delito de opinião não é um sistema de justiça. É, apenas e só, a expressão da vontade do mais forte. E o mais forte era o directório fascista do Estado Novo, dos seus patronos e clientelas. Para Rio, este arranjo autoritário que protegia a elite e arrasava o pobre e o dissidente é mais eficaz que o sistema de justiça em vigor, que, apesar das suas limitações e falhas, repito, é um sistema de justiça, equiparado ao dos nossos parceiros europeus e restantes democracias consolidadas.

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Corno-de-ferro: encontros inesperados ao fim-de-semana

Eu andava a pé. Era Sábado e a minha hora de almoço aproximava-se.

Decidi que almoçaria no snack-bar que fica na rua das traseiras do prédio onde vivo. Nessa rua, sem saída e mal amanhada, despontam uma dúzia de casas camarárias sem condições, onde vivem dezenas de pessoas, trabalhadoras, homens e mulheres com filhos e pais.

Tenho ouvido muito falar de bairros sociais e Mercedes à porta. Tenho pensado nisso e, sempre que passo por um/entro num bairro social, fico alerta: deixa cá ver onde estão todos os Mercedes de que fala aquele líder da extrema-direita… [Read more…]

“De vez em quando é preciso que algo mude, para que tudo fique na mesma”..

Começo pela declaração de interesses, no próximo domingo, irei votar IL no círculo eleitoral de Lisboa. Estou nos antípodas de António Costa, não acredito na geringonça, considero o PS um dos grandes responsáveis pelo crescente atraso do país e perda de competitividade no contexto da U.E., espaço político-económico que também tem vindo a perder competitividade nas últimas décadas e que previsivelmente chegará ao final deste século, em estado semelhante ao que a nobreza europeia experimentou nos finais do século XVIII, início do século XIX, agonizante, impotente para competir com potências emergentes.
Desde que o regime democrático foi restaurado em Portugal após o 25 de Abril, ou. Implantado, tenho alguma relutância em classificar a I República como democracia, apenas dois partidos alcançaram vitórias eleitorais, PS e PSD, no caso dos denominados sociais-democratas, a solo, ou coligados, como AD ou PAF. [Read more…]

Rui Rio e o 25 de Abril

Rui Rio, como muita direita portuguesa, tem um problema com o 25 de Abril, o que é natural. Essa direita, também de Rio e alegadamente democrática, chega mesmo a relativizar a ditadura do Estado Novo, enveredando por preciosismos terminológicos, tentando provar que não era fascismo. Até imagino que, num acto de revisionismo analgésico, os que foram torturados pela PIDE, por exemplo, relembrem o seu passado e esqueçam as suas dores, ao descobrir que, afinal, os torturadores não eram fascistas.

Em Portugal, temos um problema com a Justiça, desde a morosidade dos processos até às custas. Espera-se que, em campanha eleitoral, os políticos falem do assunto. Rui Rio falou. Mais valia ter ficado calado.

Segundo Rio, uma das duas pessoas que poderá vir a ser primeiro-ministro, a Justiça, em Portugal, é menos eficaz desde o 25 de Abril. Deduz-se que seja o de 1974.

Disse o novel humorista e presidente do PSD: “Tirando os julgamentos políticos, em termos de eficácia, desde o 25 de Abril a justiça piorou”. Para quem mede as acções apenas pela sua eficácia, Rio está errado – os julgamentos políticos foram de uma eficácia imbatível, até porque não havia grandes demoras e até se devia poupar dinheiro.

Entretanto, com todos os defeitos que podemos e devemos identificar em muitas áreas, só quem sofre de algum défice de cognição (também) democrática é que pode dizer que Portugal está pior agora do que antes do 25 de Abril. Este Portugal cheio de defeitos é o melhor de sempre, em todas as áreas. É claro que é muito mais difícil governar em democracia e talvez Rui Rio não goste de dificuldades, o que se notou muito durante o seu consulado autárquico. [Read more…]

A (des) Graça que tivemos e o que nos espera

 

 

Tenho estado atento, como muitos portugueses, à campanha eleitoral. Naturalmente há áreas que interessarão mais a uns e menos a outros. Não fujo a essa regra. Novo aeroporto, TAP, SNS, economia, impostos, justiça, educação, etc., mas naturalmente cultura e património. 

Rui Rio até pode vir a ser 1º. Ministro. No entanto, e no que diz respeito à Cultura e ao Património Cultural não tenho ilusões. A sua actuação como Presidente da Câmara do Porto fala por si. 

O que fez no Rivoli? Lembram-se do Filipe La Féria? Podem sempre ler aqui, aqui e aqui.

E sobre a gestão municipal à época? É ler….

Outro mito é o da reabilitação urbana. Neste capítulo o que se passou com o modelo de gestão implementado, SRU,  também é elucidativo. E o célebre Quarteirão das Cardosas?

Claro que o PS enganou o pessoal da “Cultura” ao dizer que repôs o Ministério da Cultura. Tretas, pois limitou-se a nomear um titular (uma titular, diga-se) para o cargo sem criar o Ministério. Atiraram-se à época ao Passos Coelho por ele ter passado a Cultura a Secretaria de Estado. Mas nada disso aconteceu. Não havia Secretaria de Estado, havia era Secretário de Estado (primeiro Francisco José Viegas, de má memória, e depois Barreto Xavier, idem). A CS comeu de cebolada. O BE também. Desde 1980 que não houve semelhante período sem Secretaria de Estado nem Ministério. Estamos assim desde 2011, à mercê de vontades individuais, conforme os gostos e as influências dos amigos e das amigas dos titulares.

Se lermos os programas eleitorais vemos a importância que dão ao Património Cultural. Zero.

Giram todos à volta do mesmo.

A máquina de fazer vilacondenses (cinco tostões sobre Valter Hugo Mãe)

Rosa Mota referiu-se, na semana que passou, a Rui Rio como “nazizinho”, pela sua acção na CM do Porto.

Entre várias condenações e várias tentativas de escusa, uma das pessoas que veio, imediatamente, a público defender Rosa Mota foi o escritor Valter Hugo Mãe. Escreveu o meu conterrâneo, no Facebook, que a frase da antiga atleta olímpica tinha sido dita num clima de “nervosismo, sem tempo e de forma imediata”, ou qualquer coisa do género.

Como somos conterrâneos e, em Vila do Conde, frequentamos o mesmo espaço cultural (O Pátio), atrevi-me a responder ao virtuoso Valter. Disse-lhe:

“Ainda que tenha sido infeliz, quem viveu no Porto durante a governação de Rio, sabe o que quis dizer Rosa Mota. Mas convenhamos, o Valter apoiou Elisa Ferraz, outra ‘nazizinha’, para a CM de Vila do Conde”. [Read more…]