Omeletes sem ovos

Lê-se no Público que «Liberais foram ao hospital de Loures alertar que fim da PPP é um “erro”». Afirmam que na PPP do Hospital Beatriz Ângelo se consegue fazer omeletes sem ovos – assim se depreende do seu discurso. E ainda sobram ovos, que não existem, para o lucro do privado que gere a PPP. Depois admiram-se que lhes chamem a Ilusão Liberal.

[Imagem de Manfred Antranias Zimmer por Pixabay]

A verdade

Num filme que vi há tempos, cujo nome me esqueci, uma das personagens dissertava sobre a verdade, em resposta a outra que dizia «o importante é a verdade».

«A verdade? Primeiro vem o que as pessoas querem ouvir, depois o que elas acreditam e a seguir tudo o resto. Só depois vem a verdade.»

Um aforismo que me parece um truísmo, assim me parece ouvir alguém dizer e, creio, com muita razão, não fosse o restante contexto. Comece-se a aplicá-lo aos temas do dia-a-dia, à escolha do leitor, para o confirmar.

Ventura, o castrado

Para André Ventura, o CDS é a “direita mariquinhas” . O uso do termo “mariquinhas”, associado à homossexualidade, é uma artimanha populista que visa enfraquecer e desqualificar a imagem do CDS e de Francisco Rodrigues dos Santos aos olhos do eleitorado mais conservador à direita, que Ventura disputa com Chicão e que abomina a comunidade LGBT. Uma estratégia repugnante, mas bastante eficaz.

Estou nos antípodas de Francisco Rodrigues dos Santos, mas reconheço-lhe a coragem de ter enfrentado o establishment do seu partido, num momento em que o CDS estava de rastos. Já André Ventura, o único líder partidário que passa a vida rodeado de seguranças, e que só ataca os mais fracos e desprotegidos, é o mais aproximado a um maricas – no sentido cobardolas da palavra – que a política portuguesa pariu nos últimos anos. Compará-lo a um homossexual e ofensivo para os homossexuais. Porque ser um demagogo é fácil. Ser um homossexual e enfrentar o estigma social requer um par de tomates que Ventura não tem. Tanto paleio sobre castrações e o castrado é ele.

A sexão, a secção, a seção e a sessão

Columbo. I’m trying to reconstruct that note.
Galesko. You need any help with your spelling, lieutenant?
Columbo: Negative Reaction

***

É sabido que é curta a distância entre a *seção e a *interseção e, mais lá para a frente, entre a *interseção e a *intercessão. Sabe-se igualmente, como já nos lembrou Nabais, que a sessão é contínua. Em tempo de eleições (e eis uma bela imagem enviada pelo excelente leitor do costume),

também temos *sessões em vez de *seções, por haver *seções em vez de secções. Como já escrevi, mal por mal, prefira-se sexões, devido à vantagem do elemento [k]. Enfim. Continuação de uma óptima semana.

***

CARTA ABERTA AO VENTURA (de um subsídio-dependente)

Ventura, tu não sabes quem eu sou mas como tens falado tanto de mim e de tantos outros sem sequer nos conheceres, tomei a iniciativa de te escrever esta carta. Por mim e por todos os que por certo se vão rever nela. Tu és o interlocutor em nome dos demais demagogos, mas esta diatribe serve para todos os teus semelhantes, mais ou menos violentos, mais ou menos saudosistas, mais ou menos enganados.

Antes de tudo gostava de te explicar que desconheces o que supostamente dizes combater quando falas de pessoas que vivem de subsídios, sejam elas pensionistas, desempregadas, refugiadas ou sobreviventes, pouco te importa porque o teu lucro reside também nessa estúpida generalização. Repara, deves começar por saber que a generalidade dos subsidiários são subsidiários porque são contribuintes, alguns deles de verbas significativas que foram deduzidas dos salários, além dos impostos ao consumo. Já sei que queres cobrar o mesmo de imposto sobre o rendimento a quem recebe o salário mínimo e ao Rendeiro, ao Sócrates, ao Espírito Santo e a ti próprio, pois claro, que isto quando toca ao nosso interesse somos todos o quarto pastorinho de Fátima. Mas convenhamos, devias procurar saber, até porque já fizeste disso biscate, que os contribuintes, seja quando pagam, seja quando recebem parte do que pagaram, não são subsidiários por geração espontânea, são subsidiários porque foram contribuintes. Tu que foste do sistema toda a vida, sempre mais beneficiário do que contribuinte, és o expoente do que criticas, sem te dares conta do jogo de espelhos. Se não for demais para o quadrado que carregas sobre os ombros, espaço onde nem um esfarrapado democrata-cristão a cavalo foi capaz de encontrar uma ideia, trava lá esse ódio, não vá o ódio que tanto divulgas acabar a conspirar com violência contra ti próprio. Atenta também outros detalhes, não tão importantes mas também relevantes: sabes quantos pensionistas, desempregados, refugiados e sobreviventes fizeram a diferença? Sabes quantos contribuíram para vários anos de subsídios dedicados ao teu salário? Sabes quantos foram agraciados? Sabes quantos salvaram vidas? Sabes quantos fizeram história? Não sabes, que tu és esperto como os ratos mas, felizmente, pouco estudioso e tão frágil da masculinidade como da inteligência.

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Cristãos-caviar

Adoro o termo esquerda-caviar, essencialmente por dois motivos: porque 1) impede pessoas de esquerda como eu de usar iPhone, o que é perfeito, porque não conto dar um cêntimo que seja à Apple (e porque demonstra taxativamente a natureza autoritária dos proponentes desta chalupice), e 2) porque demonstra o nível de ignorância de quem acha que ser de esquerda implica não possuir bens materiais, algo que me diverte.

Por outro lado, o termo cristão-caviar, aqui proposto pelo genial Duvivier, está mal explorado e é, de longe, uma contradição infinitamente maior que a do gajo de esquerda que tem um iPhone. Religião por religião, o marxismo lá acaba por ser mais honesto. Pobre Jesus, que deve andar às voltas no túmulo à quase 2000 anos, com tanto cristão-caviar a subverter os seus ensinamentos.

Mais um dia no escritório

Para onde iriam vocês?

O desastre humanitário no Afeganistão é total.
6 milhões de refugiados.
9 milhões de afegãos a passar fome.
Mulheres brutalizadas.
Direitos humanos esmagados.
1 milhao de crianças desnutridas.

Se estes seres humanos não conseguem viver, comer ou sobreviver, para onde acham vocês que eles irão?

Para onde iriam vocês?

Prioridades VIP

O Governo autorizou o Turismo de Portugal a gastar nos próximos dois anos até 10 milhões de euros para campanhas de publicidade digital

O OE2022

é péssimo.
Por esse motivo, isto

era perfeitamente escusado.

 

Quando…

… te perguntarem quem conheces que já votou CDU e agora vota Chega:

 

O debate do verdadeiro sistema

Vi meia hora do debate entre Costa e Rio e fui interrompido por motivos de força maior: o meu filho não queria ver. E eu sou um tipo que respeita a hierarquia cá de casa, de maneira que mudei a TV para o Panda e nem arrebitei cabelo. Lá voltarei.

No entanto, não posso deixar de constatar o seguinte: este debate é a maior demonstração daquilo que é o sistema. Não o sistema fantasioso da extrema-direita, dos beneficiários de RSI com Mercedes à porta, mas do verdadeiro sistema, aquele que se ocupa de eternizar PS e PSD no poder.

Todos os debates tiveram 25 minutos. Este teve mais de uma hora. Porque é que Costa e Rio têm direito a este tratamento especial? Porque as suas propostas são melhores? Porque são necessariamente melhores governantes? Nada disso. Porque as cadeias televisivas assim o decidiram. E porque o sistema não permite sequer que qualquer outro partido seja considerado alternativa. Porque a sua sobrevivência depende desse status quo.

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LT2 – SIGLA PARA UM LUTO

No próximo fim-de-semana, decorre em Paredes o EuroHockey Indoor Championship II, Men, com a participação das equipas da Croácia, Eslováquia, Espanha, Polónia, Portugal, Turquia e Ucrânia.

Na última participação nesta prova, em Lucerna, em 2019, imediatamente antes de a pandemia ter alastrado ao mundo, a selecção portuguesa esteve a escassos segundos de ser promovida ao Championship I, a divisão maior do hóquei de sala europeu.

Na prova que se inicia, amanhã, dia 14, para além da Polónia e Ucrânia, que foram despromovidas da divisão acima e expectavelmente com ritmo competitivo superior ao nosso, acresce que, com o crescendo de importância da variante indoor a nível mundial, teremos em Paredes desde logo a Espanha, que em 2009 entrou pela divisão mais baixa, tendo sido promovida, como era esperado, em função do peso que o hóquei espanhol tem no mundo. Um pouco como, também em 2019, aconteceu com a selecção feminina que, na Eslováquia, teve pela frente exactamente a Espanha e a Irlanda. [Read more…]

Acções, sff

A prova de que Jerónimo de Sousa vale por dois

O líder comunista vai ser submetido a uma intervenção cirúrgica urgente à carótida interna esquerda. João Oliveira e João Ferreira vão substituí-lo nas ações de campanha.”

No debate com Ventura, Chicão deu uma lição… a Rui Rio

O frente a frente entre Francisco Rodrigues dos Santos e André Ventura foi, pessoalmente, a maior surpresa desta bateria de debates. O presidente do CDS apareceu com tudo, em modo metralhadora, atirando várias coisas ao líder do Chega, falando de Luís Filipe Vieira, apresentando dados concretos sobre o RSI, reduzindo os argumentos de Ventura a populismo puro, dizendo-lhe que o Chega é um partido unipessoal, falando ainda de que o deputado de extrema-direita parece líder de uma seita religiosa, pelas “figuras” que faz nos congressos.

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A maioria trabalha para sustentar uma minoria

Estado perdoa 81 milhões a empresário que estava a ser julgado por burla ao BPN

Esta malta com Mercedes à porta é, efectivamente, uma vergonha!

Guantánamo: 20 anos de terror

Imagem retirada do Observador.

20 anos de Guantánamo.

Vinte anos. Vinte. Vinte anos em que esta prisão em Cuba prende, tortura e massacra opositores políticos. Muito se fala sobre o regime cubano, e acho muito bem que dele se fale. Mas a prisão de Guantánamo, localizada numa base naval em Cuba, pertence aos… Estados Unidos da América.

E é em Guantánamo que norte-americanos prendem, torturam e massacram opositores políticos que não comunguem das ideias neo-liberais e conservadoras usadas pelos EUA, ao longo dos anos, para aniquilar comunistas, socialistas e social-democratas. Já vem de trás, mas esta espiral começou a sério nos anos 80, com a Operação Condor à cabeça. Cuba vai resistindo; não sendo um regime democrático, vai resistindo aos atentados, também eles, anti-democráticos dos EUA. Aponta-se, muitas vezes, o facto de Cuba não ser uma democracia para justificar o insucesso económico do país… esses esquecem-se dos enormes embargos dos EUA ao país e do controlo exercido sobre eles pelos “polícias do Mundo”; os que o fazem, têm, normalmente, zero a dizer sobre a China.

Vivem, ou sobrevivem, neste momento em Guantánamo 39 pessoas, a maioria sem qualquer acusação criminal.

Vinte anos de ataques aos Direitos Humanos. Vinte anos. Vinte. Está na hora de acabar com o imperialismo norte-americano e chinês.

Cartoon de Matt Wuerker.

3 coisas que aprendi quando desisti da faculdade (duas vezes!)

E porque voltaria a fazê-lo, se fosse preciso.

@fonte

É difícil quando sentes que não te enquadras no paradigma social de terminar o ensino obrigatório, escolher um curso de uma curta lista (aqueles que dão mais dinheiro, claro), independentemente das tuas paixões ou dos teus sonhos. De seguida, tens de dedicar toda a tua vida a essa área, a esse trabalho, porque precisas de dinheiro para sobreviver. Um dia, reformas-te e passas o resto dos teus dias a pensar porque não fizeste mais nos teus melhores anos.

Quem disser que isto não é o que a sociedade espera de nós, mente. Porque todos sentimos essa pressão na escola, a pressão de ter boas notas, de entrar na universidade, de ter um “futuro”. Tudo clichés que tomamos por garantidos e nem sequer questionamos.

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A importância da linguagem e os macacos que não comem bananas

Quando era miúdo, tinha uma obsessão por questionar tudo o que me era transmitido com uma certeza inabalável. Detestava a resposta do porque sim, do porque eu digo, e do porque sempre foi assim. Queria que me respondessem de uma forma clara porque é que as coisas eram como eram.

Bem sei que hoje associamos a idade dos porquês a uma certa parte da infância, mas, no meu caso, esta atitude acabou por se tornar parte integrante da minha personalidade, até aos dias de hoje.

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Da fractura do fémur aos apoios sociais

A antropóloga Margaret Mead afirmou, certo dia, que o primeiro sinal de civilização humana era um fémur humano com sinais de uma fractura curada – um achado arqueológico com cerca de 15000 anos. Mead explicou que, para que tivesse havido essa cura, houve pelo menos uma pessoa que perdeu tempo a tratar de outra. Se um animal sofrer uma fractura no mundo selvagem, acabará por morrer.

O meu cinismo sussurra-me ao cérebro uma série de possibilidades menos simpáticas, como a de um canibal que curou uma refeição para melhor a engordar, mas, seja como for, acredito que a humanidade reside neste combate quotidiano contra o predador que também somos – se, de um lado, temos esta solidariedade ortopédica, temos de lembrar a frase “O homem é lobo do homem”, presente na Asinaria, de Plauto.

Humanidade será, então, solidariedade, o que quer dizer que a sua ausência é selvajaria.

Há quem ponha Deus no seu lema, preferindo, talvez, o do Velho Testamento, essa figura castigadora e terrível, que chegou ao ponto de afogar a maior parte da humanidade, por considerar que as pessoas eram demasiado defeituosas. O Novo Testamento, cuja personagem principal, Jesus, tem a mania de dizer àquele que nunca pecou que atire a primeira pedra ou de ajudar os desvalidos (antepassados decerto dos beneficiários do RSI), transmite uma mensagem que alguns considerarão laxista, fraca. Num debate com Jesus, André Ventura perguntar-lhe-ia se não tinha vergonha de se ter deixado crucificar com um ladrão de cada lado, mostrando-lhe uma pintura do Gólgota. Já os ricos não terão de preocupar com o buraco da agulha ou com o pagamento de impostos; dos pobres poderá ser o Reino dos Céus, mas nunca o Rendimento Social de Inserção.

Numa sociedade civilizada, humana, ajudar os mais fracos é um dever. Nesta mesma sociedade, não se pode abandonar alguém que fracturou o fémur ou que não tenha meios para se sustentar. Haverá sempre o perigo do parasitismo, mas há valores antigos como o da presunção da inocência, início de um caminho difícil, porque fácil é acusar sem provas. Seguir este caminho não é ser de esquerda ou de direita, é ser decente.

Quem disparar acusações a torto e a direito, atirando lama sobre aqueles que recebem apoios sociais, com o único objectivo de recolher uns votos, ainda tem um longo caminho a percorrer até chegar às fronteiras da humanidade. Não terá uma fractura, mas é uma fractura. Temos o dever de ajudar também quem pensa assim, não lhe entregando votos.

Luta na lama

Ninguém ganha um debate contra André Ventura. Nem perde. Porque, na realidade, ninguém debate com André Ventura. Não é possível. Ventura não quer debater com ninguém. Ventura é o Gajo de Alfama antes de se levantar para andar à porrada. É uma criatura bannonizada que deseja o caos para emergir dele. É um incendiário que quer enervar os opositores, com vista a puxá-los para baixo, para o seu lamaçal ideológico, onde serão derrotados, todos sem excepção, pela experiência de quem chafurda como nunca neste país alguém chafurdou.

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O que é que os outros vão pensar?

do genial Susano Correia

Todos nós, pelo menos uma vez, já nos calamos por pensarmos que alguém não ia gostar do que íamos dizer. Também já deixamos de fazer coisas pelas mesmas razões. E porquê? Continuo à procura de uma resposta racional para um comportamento que se estende por tanta gente.

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Telescópio Espacial James Webb completamente instalado


O segmento final do espelho principal desdobrou-se hoje pouco antes 15h30, completado o longo e complexo processo de tomar a sua forma final.

Dona Júlia e as percepções

Clicar para aumentar

Clicar para aumentar // Fonte: Comissão Europeia

Segundo o Eurostat, com dados publicados em 2016, Portugal é o 7º país da União Europeia com mais polícias por 10000 habitantes (452). A média da UE cifra-se nos 318. Isto é um dado que, em teoria, significará que Portugal é um país, na sua generalidade, seguro.

Podemos complementar este dado com o Índice Global da Paz que, em 2021, declarou Portugal como o 4º país mais seguro do mundo.

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A dívida do Governo para com o futuro: Agro-ladroagem

Portugal está em “stress hídrico”, mas o governo projecta até 2030 mais 134 mil hectares de novos regadios … intenções de investimento que superam os 2.000 milhões de euros em novos regadios e a modernização dos sistemas já instalados para “acelerar” a intensificação de culturas, quando se verifica uma redução nas disponibilidades de água, segundo Relatório do Estado do Ambiente 2020/21 da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), que revela um diagnóstico “preocupante” sobre o futuro dos recursos hídricos em Portugal. Ao longo dos últimos 20 anos houve uma redução na disponibilidade de água deixando o país em “stress hídrico”…
“Apesar deste cenário crítico, o governo anuncia que prevê investir 588 milhões de euros na modernização dos regadios existentes e 199 milhões na construção de novas infra-estruturas de rega. Destes montantes, a região alentejana irá beneficiar de 304 milhões. Para o centro do país serão canalizados 212 milhões.”

A região alentejana irá “beneficiar” ??? Que falácia inaudita, quando se está a falar de sugar a região alentejana, de a sobre-explorar e dela abusar à bruta com cada vez mais culturas intensivas e superintensivas !

“Visto de longe, um olival acabado de plantar parece um cemitério americano”. “Ele domina o manto de verde em quilómetros e quilómetros até perder de vista. Esta é a nova realidade no Alentejo, sobretudo em Beja, Serpa, Moura, Ferreira do Alentejo.”

Com infindável hipocrisia se declara que “A agricultura intensiva de regadio é perfeitamente compatível com a sustentabilidade dos recursos“ – o quê ??? E nem tendes vergonha nenhuma de reconhecer que “é um modelo agrícola atraente porque garante elevados rendimentos a curto prazo“ – pois, a curto prazo, para encher bolsos alheios e empobrecer tudo o resto…  e de concluir que “existe hoje uma dinâmica empresarial muito interessante no sector agrícola, que interessa acarinhar e suportar” – muito interessante é a vossa avó torta! No Alentejo, “antes existia grande variedade de culturas de sequeiro e de prados. Hoje, a homogeneidade de culturas domina numa região que está, em mais de 70%, na mão de grupos estrangeiros. Sem respeito pela paisagem ou tradição dos locais, os custos para a região são imensos.”

Sabeis vós e sabemos todos que a intensificação das culturas agrícolas acarreta a contaminação dos solos e águas por pesticidas e fertilizantes, a alteração das paisagem e problemas socio-económicos que afastam as pessoas do interior e promovem a perda de biodiversidade, bem como incêndios recorrentes…

Mas tudo isto pretendeis vós, governo, promover e subsidiar. Porque só vos interessa o curto prazo das eleições, só interessa sacar, esmifrar a qualquer custo. E quando a terra e o solo estiverem exangues, vão-se os investidores à sua vida e cá ficam os restos estéreis de terra deserta, mas nessa altura já vocês estarão reformados e sem punição. [Read more…]

Don’t Look Up: Muito mais retrato do que sátira

@Netflix

Segundo o dicionário Priberam, sátira é uma crítica em tom jocoso ou sarcástico. O filme “Don’t look up”, da Netflix, com um elenco de luxo, tem sido apelidado de sátira, um pouco por todo o lado. Percebo, mas não podia discordar mais.

A verdade é que considero o filme mais retrato do que sátira, mais documentário do que ficção. Nada do que lá acontece, por incrível que pareça, me parece demasiado estranho para poder ocorrer “cá fora”, no mundo real. E, não sendo uma obra-prima, nem um filme que será recordado daqui a 100 anos, é um filme que faz pensar, que está perfeitamente ajustado ao momento histórico e isso é muito do que de mais importante se poderia pedir nesta altura.

A verdade é que entramos numa era de profundo obscurantismo em que os alicerces em que fomos construíndo o mundo estão a ser abalados, a ser colocados em causa, deixando a sociedade apoiada em resquícios de informação. Foram rompidos os princípios de confiança nas instituições, na ciência, no conhecimento. Tudo substuído por uma inflação do ego e do comportamento manada, numa caminha de excesso de entretenimento e distracção. A escala de prioridades foi invertida e, apesar de o filme usar uma ameaça objectiva (que, do ponto de vista narrativo, me parece ser uma metáfora para o aquecimento global), a verdade é que as ameaças que o mundo real tem são outras. Muito para além da pandemia, do aquecimento global, da pobreza, da desigualdade, os problemas aos quais, infelizmente, nos habituamos e não devíamos, existe um adormecimento colectivo que poderá transformar o mundo como o conhecemos. Já o está a fazer.

A afastar-nos da essência humana, tornando-nos uma espécie de híbridos entre o humano e a máquina, numa sucessão de respostas pré-definidas, de comportamentos repetidos ao infinito, a caminho de um conformidade de pensamento assustadora, digna dos melhores escritos de Orwell. A parte mais assustadora é a apatia generalizada, porque o inimigo não é concreto. Não está corporizado num ditador, num grupo extremista, numa entidade. A ameaça é uma espécie de aura colectiva que nos empurra para o mesmo fim.

E, da mesma forma que a população do filme nega a existência de um cometa que está, literalmente, acima das suas cabeças, também no mundo real se pensa que está tudo bem, se normaliza o que nunca foi ou será normal, se encolhe os ombros até ser tarde demais

Tavares VS Ventura: atropelamento sem fuga

A forma como Rui Tavares destruiu André Ventura no debate de ontem foi épica. Acusou-o, com substância, de ser do sistema que diz combater, expôs o vazio que é o programa do CH, esfregou-lhe Luís Filipe Vieira na cara a propósito do RSI, enumerou os financiadores e membros do CH ligados à banca, à evasão fiscal e a outros esquemas do verdadeiro sistema, e ainda puxou de Calouste Gulbenkian, a propósito dos passaportes humanitários. E tudo isto com serenidade e segurança, sem nunca se deixar irritar pela lama que o pequeno Ventura lhe tentava arremessar. Uma tareão à moda antiga. E Ventura, nervoso é visivelmente irritado, nunca se levantou. Não recebeu réplica às provocações demagógicas, soltou uns Sócrates e Salgados desesperados e de nada lhe valeram as interrupções constantes. Foi dizimado. E foi bonito de ser ver.

Chega: disparar primeiro e depois se vê

Uma das bandeiras do Chega é, como se sabe, a subsidiodependência. E o Chega, quando agita bandeiras, faz uma barulheira desgraçada.

Penso que podemos entender subsidiodependência como um sinónimo de parasitismo. Não haverá apoios sociais sem parasitismo, como não há medicamentos sem efeitos secundários.

A questão está em se a dimensão do parasitismo e dos efeitos secundários é suficiente para medidas mais drásticas. Depreende-se, então, do discurso do Chega, que a subsidiodependência é uma praga social, com multidões de parasitas alojados no erário público ou, para usar o chavão de Ventura, num país em metade vive à custa da outra metade, o que inclui Mercedes à porta e telemóveis e o diabo a quatro.

Diga-se, de passagem, que o parasitismo endémico, pandémico ou localizado deve ser combatido.

Nos Açores, o Chega alcançou uma boa votação com este discurso de combate à subsidiodependência como um problema, defendendo que é preciso reduzir os apoios sociais. A responsabilidade epistémica, a que se refere o César no seu magnífico texto, obrigaria a que o anúncio deste problema estivesse ancorado num conhecimento profundo.

Parece que, afinal, falta ao Chega-Açores esse mesmo conhecimento profundo, como se pode deduzir do pedido que fez à Assembleia dos Açores, com o deputado do partido a pedir informações sobre o RSI na região.

Diz um ditado antigo: “Quem não tem vergonha, todo o mundo é seu.” Nem responsabilidade, nem epistémica – o Chega é o pistoleiro bêbedo do faroeste que dispara primeiro e depois se vê.

Uma questão de liberdade de escolha

É muito gira a ideia da Inciativa Liberal, de que os pais podem escolher livremente a escola e que o Estado suporte o custo.
Espero que a IL também proponha que o trabalhador escolha livremente o restaurante, ao invés de comer na cantina, e que o patrão pague a conta.