a morte que abandona e a morte em vida

 

 

As vezes, a vida pare-nos cumprida e entediante. Cumprida e entediante, para os que acreditamos apenas em ela. Amamos aos nossos. Esses nossos por serem parte da vida em família ou por ter partilhado os nossos dias e, um dia, por motivos importantes para eles, já não estão perto de nós. Partem para outros sítios ou não lhes apetece estar mais com nós. É denominada a morte em vida. Ou, porque apenas não nos entendemos e as nossas ideias são tão diferentes, que morar juntos no mesmo sítio, mata o amor, ou pior ainda, a paixão que, antecede ao amor. Essa morte é a separação. Morte que todos tememos ou receamos. A morte em vida é esse evitar cruzar pelas vias da vida com pessoas das que receamos, é dizer, temos medo o suspeitamos. Ao pensar na morte, nem sei se a que nos separa definitivamente porque alguém que amamos já não está; o se a separação em vida é mais pesada pelo temor a econtrar um dia esse ser humano de quem queremos evitar ver outra vez. A morte fisica e não esperada de quem amamos, é uma dor que acaba em grande depressão ou em tristeza tão profunda, que nem sair de casa desejamos. Até sermos empurrados por uma pessoa forte que nos confronta com a realidade: quem detestamos, já não pode fazer mal se entendemos e sentimos essa distância dentro de nós a ganhamos vantagem: é o triunfo sobre o nosso fabricado sofrimento e o temor de quem fazia de nós, seres entediados ou aborrecidos, epecialmente se vemos duas pessoas que se amam e a uma terceira só, na primavera da vida.

Por existir o sentimento de entediados, talvez a morte em vida seja a mais aborrecida. Ficamos sem alternativas ou sem opções. Fixamos a nossa vida em nós próprios sem saber para donde a encaminhar, sem saber qual a alternativa para o nosso ego. A morte que abandona, tira de nós os nossos sentimentos que passam a se fixar na pessoa querida que, sem saber como e porque, entra na eternidade. É o que acontece ao perdermos um ser amado. Na morte em vida, nada se perde, excepto os nossos próprios sentimentos, a maior ameaça para continuar em frente o caminho que nos traçamos. A morte que nos arrebata ao ser mais querido, como Luís Miguel, define um permanente desasosego que, enquanto andamos na burocracia para preparar o seu descanso, parece que está ainda vivo: a burocracia faz esquecer a dor e leva-nos imaginar a pessoa amadacomo um pedestal lavrado pelo melhor escultor do mundo que, na escultura que mostro de Luís Miguel, deveria ser Michelángelo, apesar de ter sido Marcus Aureliuis, na Roma de 115 da nossa era. Luís Miguel, como a imagem de Marcus Aurelius, foi chorada ao longo dos tempos. Como a da nossa novas pérdidas de esta semana, o brilhnate, calmo, sábio e sereno Claude Lévi -Strauss que conhecemos de esta maneira , sendo antes um sedutor homem sábio que namorava enquanto explorava a selva amazónica, de esta maneiraOs dois sábios, retiram dos nossos sentimentos ese do aborrecimento e nos faz fixar os sentimentos de aussência no jovem da escultura, um Luís Miguel que tinha toda a sua vida em frente e que podia ser comparado com a vida mais do que feita do nosso também desparecido sábio. Luís Miguel e Claude Lévi-Strauss partilharam, sem se nunca conhecer, estes sentimentos: de amor, de alegria, de procura do saber e da criação de novas ideias para o mundo progredir. Há a frase que diz: quebrou com uma visão etnocêntrica da história e humanidade […] Em um tempo em que tentamos dar sentido a idéia de globalização, construir um mundo mais justo e humano, eu gostaria que o eco universal de Claude Lévi-Strauss ressonasse mais forte". Como soa mais forte a do Luís Miguel. Os dois nos fazem sofrer esta semana, mas a obra feita de Luís Miguel, nos seus 32 anos é, em devidas proporções,  como a que durante 101 anos fez Claude Lévi -Strauss. Este, aos seus 32, namorava e trabalhava; o outro, também. Um teve imensa sorte, o outro, a moda

dos tempos o levara antes de cumprir a sua obra completa. Os dois nos retiram do aborrecimento da vida. Muito obrigado, Senhores. 

 

A falta de educação

Curioso no artigo do Público sobre pais que não querem educação sexual para os seus filhos na escola pública é o facto de os progenitores citados terem uma média de procriação muito acima da média nacional.

Não sei porquê mas cheira-me a que não praticam planeamento familiar. É uma opção de vida, respeitável, mas tentar impô-la aos seus filhos, e é disso que se trata, é no mínimo repugnante. E fazer-lhes o favor de avisar quando se vai falar de sexualidade nas aulas é, por parte das escolas, no mínimo absurdo, e de resto impraticável. Ou vão fazer o mesmo em relação a outras matérias com as quais a família do petiz não concorde? Tipo:

– olhe que amanhã começa a educação ambiental senhor suinicultor, fica avisado que a criança pode chegar aí a casa com comentários críticos sobre as suas descargas poluentes.

Não dá.

Sobre arte contemporânea

Acerca da arte contemporânea (sobre a qual tudo se pode dizer sem dizer nada), fiz esta pequena reflexão, após uma pequena conversa que ouvi:

 

Recuso considerar a esquematicidade e as técnicas artísticas

como dimensão imprescindível e fundamental da arte.

A arte começa, a meu ver, na intersecção dos factores técnicos

com os factores culturais e humanos, isto é, na estruturação

e na formação do homem global onde assenta a verdadeira

expressão da vida, rampa de lançamento para as questões

da essência.

 

A arte é uma atitude quase intemporal e projectiva,

e não apenas uma habilidade, uma tecnologia, ou um modo

de inserção no que quer que seja. Desta forma, sendo ela

nuclearmente individuísta, não é individualista, podendo ser

tanto mais de cada um quanto mais livremente for de todos.

Daqui, a contradição entre a subjectividade da consciência artística

e a perversa orientação no sentido das influências,

sejam elas quais forem.

 

A arte não assinala os passos nem se mede a metro

ou a baldes de tinta. Os passos e as medidas pertencem

ao mundo da moda, e a moda, como mistificação dialéctica,

é a morte da arte.

 

Concurso «Blogues Escolares» – Regulamento

Como ja demos conta aqui, o Aventar está a promover o Concurso «Blogues Escolares», destinado aos professores e alunos das escolas básicas e secundárias portuguesas. Dado o interesse que a iniciativa tem despertado, aqui fica o Regulamento do Concurso:

Regulamento do Concurso «Blogues Escolares»

 
1. O Blogue Aventar organiza um concurso designado «Blogues Escolares», dirigido aos professores e alunos do ensino básico e secundário das escolas portuguesas públicas e privadas.
 
2. O concurso «Blogues Escolares» tem como objectivos fundamentais:
Interessar os alunos portugueses pelo mundo da blogosfera e das novas tecnologias;
Criar situações que favoreçam a criatividade dos alunos;

Abrir as turmas participantes à sua comunidade educativa;

Promover o intercâmbio entre as várias turmas participantes;
 
3. O Blogue Aventar cria o blogue da turma, no caso de ele ainda não existir, e promove a sua divulgação através de um «link» num «post» fixo do blogue.
 
4. A actualização do blogue fica a cargo da turma participante, que poderá recorrer ao Blogue Aventar sempre que houver necessidade.

5. Periodicamente, o Blogue Aventar destacará uma das turmas participantes através de um «post».

6. O Aventar poderá recorrer a um ou mais elementos exteriores para a escolha do blogue vencedor. Esse(s) elemento(s) serão membros de reconhecida capacidade ligados ao mundo das escolas e/ou da blogosfera.
 
7.  Todas as turmas participantes terão direito a um diploma de participação.
 
8. As candidaturas podem ser apresentadas até ao final da segunda semana do 3.º Período.
9. Os resultados do Concurso «Blogues Escolares» serão divulgados no Blogue Aventar durante a última semana do ano lectivo.
 
10. O Concurso «Blogues Escolares» terá carácter anual.
 
Explicação geral da iniciativa aqui.
Turmas participantes aqui. 

 

Monsieur le Professeur Claude Lévi-Strauss

Um ser humano não é eterno. Um dia pára de viver, o seu coração pára, a respiração já não está. Um ser humano não é eterno. Pode viver ao longo de muitos anos. Pode sentir-se que a vida é uma eternidade por ser pesada para a pessoa. Um ser humano pode pensar que há seres humanos eternos: um dia estão connosco e habituamo-nos à sua presença, no outro dia podem não estar mais. Vivem no símbolo, esse sinal que representa, nas nossas mentes as suas formas de viver a vida, o transcorrer da cronologia da vida material na história, ou a representada na imagem virtual que criámos dessa pessoa. Porque não é eterno, cria uma eternidade, fabrica uma longevidade que fica fora deste mundo e alimenta os que nele já não estão, com comida que passa a ser oferta aos deuses que tomam conta dessa  inexistência de vida material. Vida material que representa  o que é, tem sido e será. A vida material, que vivemos em interacção enquanto não existe morte social e estamos com os outros. Há morte social por nos afastarmos dos outros, ou porque os outros nos afastam por respeito, desapreço, desdém, ou desprezo, por não sermos capazes de atingir a grande obra que ele fez ou, ainda, por louvor a esse saber que dá medo.

 

Medo de não saber responder à acumulação de saber que aparece em frente de nós. Os nossos encontros eram no Laboratoire de Anthropologie Sociale, Rua Cardinal Lemoin Nº 3, ou na Ecole des Hautes Études en Sciences Sociales ou, em raras quintas-feiras, na sua casa. Tocava Bach e Mozart para os poucos convidados, sempre seleccionados pela sua terceira mulher, Monique Roman. Eu sentia um imenso apreço pelo seu trabalho, especialmente pelo, em minha opinião, melhor texto, Tristes Tropiques, Libraire Plon, 1955, escrito depois da viagem de lua-de-mel com a sua primeira mulher, Dina Dreyfus. Nessa época, Lévi-Strauss encontrava-se exilado por causa da guerra e da perseguição aos hebraicos etnia de que era membro. Uma narrativa etnográfica romanceada, com excertos curiosos sobre sociedades indígenas brasileiras. Aparentemente, apenas um livro de viagem, mas, repleto de passagens onde o autor faz especulações filosóficas sobre o status da Antropologia; análise comparativa de religiões, entre o Novo e o Velho Mundo, as concepções de progresso e de civilização. Começo do questionamento da palavra selvagem para grupos sociais que tinham outro tipo de conhecimento, tão importante e válido como o da nossa cultura. Não é em vão que mais tarde, no seu texto La Poitiére Jalouse, Plon, Paris, 1985, publicado em português sob o título Oleira Ciumenta, Edições 70, 1985, diz, in passin: Que há de comum entre um pássaro insectívoro, a arte da olaria e o ciúme conjugal? Entre o pensamento especulativo dos índios e os dos psicanalistas? Entre uma tragédia de Sófocles e uma Comédia de Labiche? A sua obra de 1947,   defendida como tese e publicada em 1948 como livro, Les Structures Éleméntaies da la Parenté, Mouton & Ca, Paris, Der Hagen, defende o universo das regras parentais, especialmente exogamia e endogamia. Escreveu tanto, que é impossível analisar a sua obra num curto espaço de linhas. Menciono apenas a «guerra» intelectual com o meu Mestre de Cambridge, Jack Goody. Não havia livro que Jack publicasse sobre a escrita e a leitura ou sobre o pensamento, que M. Lévi-Strauss não refutasse com a sua principal criação: a Teoria Estruturalista ou Teoria Linguística, que considera a fala como um conjunto estruturado, onde as analogias definem os termos. Goody defendia que era a escrita a dar esta virtualidade. Leach, introdutor  de Lévi-Strauss na Antropologia Britânica, meu antigo professor, dividia, na linha de M. Le Professeur, os antropólogos entre substantivistas – como Goody e vários de nós, pelo delito de trabalho de campo – e racionalistas, os que retiram ideias do pensamento humano, como o próprio Lévi-Strauss. O parentesco, para ele, não eram relações consanguíneas, mas antes ideias para classificar relações, baseadas num totem e nas classificações dos tipos de matrimónio. No seu texto de 1952, Race et Histoire, escrito a pedido da UNESCO, Lévi-Strauss classifica os povos entre aqueles que têm a História como base da sua memória, e aqueles em que a cultura reiterada e não escrita é a base da orientação do comportamento social. Acrescento ainda que brincou com o seu professor Émile Durkheim, nomeadamente sobre o livro As estruturas elementares da vida religiosa, seu tutor em estudos de Antropologia (Lévi-Strauss tinha estudado Direito e Filosofia anteriormente) e de quem mais tarde tomaria conta, quando, por terror às SS alemãs, gerou uma psicopatia que o manteve vivo até os 90 anos. Lévi-Strauss publicou todos os livros da autoria de Durkheim

Pelos anos 70 do século XX aposentou-se, e começou a corrida para o suceder na Cátedra de Antropologia, a primeira criada na Europa e por causa dele. Mas M. le Professur não hesitou e entregou directamente o poder a Françoise Heritier. Muitos ficaram magoados, entre eles o meu grande amigo e colega Maurice Godelier, que actualmente e após ter sido duas vezes Ministro da Ciência e Director do CNRS com François Miterrand, luta ontra uma doença que mata, como me tem referido.

Este é o Lévi-Strauss que eu conheci: humilde e calmo. Costumava dizer que não gostava de louvores, nem de barulhos, nem de festejos. Eis porque o seu funeral será privado.

 

Assim era quem tanto ensinou aos meus discípulos ingleses e portugueses e a tantos de nós, que hoje choramos por ele. Fica o consolo de morar na eternidade feita por todos nós, e materialmente na sua obra.

 A sua ideia preferida era: O antropólogo é o astrónomo das ciências sociais: ele está encarregado de descobrir um sentido para as configurações muito diferentes, por sua ordem de grandeza e seu afastamento, das que estão imediatamente próximas do observador.” Antropologia Estrutural, 1967.

 

A máquina do tempo: isto anda tudo ligado

O escritor e jornalista Eduardo Guerra Carneiro, um amigo que desde o dia um de Janeiro de 2004 já não está entre nós, deu como título a um seu livro de poemas «Isto Anda Tudo Ligado». E este título, como disse Jorge Listopad, numa nota publicada na «Colóquio-Letras», que aparentemente é um «slogan banal», quase um lugar-comum, tem sido centenas de vezes utilizado, por escritores, jornalistas, por músicos (como o Sérgio Godinho)  e não só. Creio que muitos que o utilizam já nem o relacionam com o grande poeta e a maravilhosa pessoa que foi o Guerra Carneiro. Não é o meu caso. Fui amigo e companheiro de luta do autor destas palavras. Evoco a conhecida frase «Isto anda tudo ligado» homenageando a memória do Eduardo.

 

 

 

 

 

Nesta fotografia, tirada em Novembro de 1962, em Coimbra, da esquerda para a direita podemos ver o Egito Gonçalves, eu, o Eduardo e o António Cabral, ainda sacerdote católico na altura. O Eduardo, de perfil, parece ausente, alheado, coisa que lhe acontecia com frequência. Talvez estivesse preocupado com a eventual presença nas proximidades de algum agente da PIDE.

 

 

Fomos ali reunir-nos por questões políticas e culturais – a expansão do Centro de Cultura Ibero-Americana, que pretendíamos alargar editando um boletim periódico multilingue (nos idiomas da Península a que juntaríamos resumos em francês e inglês). Mas voltemos ao Guerra Carneiro e ao seu livro.

 

Não era em globalização, na famosa globalização de que hoje tanto se fala, que o Eduardo pensava quando, em 1970, publicou o livro por acaso numa colecção da Ulmeiro onde também publiquei uma colectânea de poemas. Era na dimensão dialéctica do Universo na qual, de facto, tudo se relaciona e interage. Música, literatura, desporto, política, vida quotidiana, são fragmentos indissociáveis de uma mesma realidade que por comodidade e hábito de classificar, dividimos em compartimentos.

Fui passar esse fim do ano a Vilamoura (onde só consigo ir sem ser no Verão) e, no dia três de Janeiro, um sábado, estava na esplanada do Paulo China a ler o Expresso quando me saltou aos olhos o nome do Eduardo numa pequena notícia – Fora encontrado morto na madrugada do dia um num pátio subjacente ao seu terceiro andar. Presumivelmente suicidara-se, adiantava a notícia. Às primeira horas do novo ano. Quando regressei a Lisboa, logo telefonei a um amigo comum, o José Quitério. Sim, confirmou, o Eduardo suicidara-se. Poucos dias antes ao telefone tinha dito ao Quitério isso mesmo, que estava farto, que a vida não lhe interessava. O Zé pensou que fosse apenas um dia mau e que aquilo passasse. Não passou.

 

A última vez que estive com ele, pouco tempo antes, almoçámos juntos num restaurante perto do meu escritório. Trouxera-me alguns dos seus livros que eu  não tinha ainda lido e combinámos que iria colaborar num projecto editorial da empresa. Estava bem disposto, recordámos os velhos tempos de Vila Real, do Setentrião, do António Cabral e do Ascenso Gomes. Mas acabou por não fazer o tal trabalho – foi-me telefonando e adiando. Até àquele dia.

 

 As coisas não lhe tinham nunca corrido bem. Interrompera os estudos universitários por lhe parecer inútil o curso que frequentava. Profissionalmente, jornalista, um bom jornalista, diga-se, tinha de fazer muita coisa de que não gostava. Na vida privada, casamentos falhados, o refúgio no alcoolismo e, sobretudo, o suicídio inexplicável da sua filha, a  Catarina, destruiu a sua capacidade de resistência, provocaram-lhe o cansaço da vida que confidenciou ao Quitério. A soma de tudo isto resultou numa rápida viagem de três andares até ao cimento do pátio.

 

Quando estas coisas acontecem, ficamos sempre com uma sensação de culpa, com a ideia que poderíamos tê-las evitado conversando, acompanhando, ajudando. Porque, no fundo, quando estas coisas acontecem, todos temos, de facto, culpa por ajudarmos a manter um mundo em que tudo anda ligado, mas no qual não sabemos conservar entre nós pessoas como o Eduardo que, depois de desaparecerem, verificamos tanta falta nos fazerem.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O porta bandeira

Um dia, no velho estádio da Luz, fiquei no terceiro anel no meio da rapaziada do Porto. Gente porreira, o terceiro anel era alto como tudo, rapidamente arranjei por ali umas amizades que isto de gente do norte é tudo mais fácil quando se trata de camaradagem.

 

Como é de bom tom, o grupo de adeptos que tinha descido à capital reunia à volta de uma enorme bandeira do Futebol Clube do Porto, empunhada por um  chefe de família que dava toda a ideia de ser o gajo que nos jogos de futebol de rua jogava onde não havia mais ninguém. E a bandeira era muito  grande, pela conversa era filha da emoção e do entusiasmo do porta-bandeira e com ela nas mãos ninguém via o jogo.

 

Estava pois entregue a bandeira a quem de direito, e vá de gritar alto e cantar que o jogo está a começar. E cá o "mangas" ali estava a equilibrar a alegria, o entusiasmo e as manifestações, pelo que me ía sobrando tempo para apreciar o que se desenrolava ali bem perto de mim, com manifesto interesse para a "postura" (como não se dizia na altura) do nosso porta-bandeira.

 

O homem, mal começado o jogo, começou a dar mostras de não aguentar a bandeira, a princípio ainda pensei que fosse do peso, com o vento a dar-lhe pesava um bocado, mas a situação degradava-se rapidamente, a bandeira cada vez descia mais, e o pobre do homem começou a pedir ajuda aos companheiros, que não, que a não trouxesse, bem o avisaram que transportar uma bandeira daquelas era um frete de não poder mais, e era tão grande que não cabia em lugar nenhum.

 

E o homem cada vez mais aflito, que o árbitro era um ladrão, já sabia que ia ser assim, e os outros a dizerem-lhe, não olhes, se não és capaz não olhes e o homem cada vez mais de esguelha para o jogo, começou a pedir-me para lhe relatar o jogo, onde é que a bola andava, perto da "nossa" área?, com uma ansiedade cada vez maior, e eu a não saber o que fazer, ninguem se mexia, tal era a multidão, não havia por onde fugir, nem lugar havia para deitar a bandeira, queriam lá saber da ansiedade do porta bandeira, que agora já estava segura a quatro mãos, e eu sem saber se seria melhor tornar-me um garboso porta-bandeira ou não conseguir ver o jogo.

 

Optei por ver o jogo, e saber por experiência própria quanto de amor clubístico é preciso para aguentar noventa minutos com uma grande bandeira desfraldada ao vento!

 

PS: Ao Carlos Loures, grande benfiquista, e ao Fernando M Sá, grande portista, um e outro do melhor que há.

Reparem!!!!!!!!!!!!!!!!!

«No dia em que Santos Ferreira admitiu prejuízo para a imagem do BCP e que o Banco de Portugal pediu para o ouvir, Armando Vara pede para suspender mandato. O vice-presidente abdica de um salário mensal de 34 mil euros e um rendimento anual de 480 mil …»

 

Comento eu:

ISTO O QUE DEIXA DE ALAPARDAR!

GRANDE VARA!

NEM PRECISA DE PAPEL HIGIÉNICO!

 

O equívoco da plutocracia

  

 

 

 

 

 Desde que deixei de pertencer ao grupo coral da igreja de Santo António da Polana (Lourenço Marques, Moçambique), raras foram as vezes em que presenciei à celebração de uma missa. Respeitando a Igreja e as suas tradições como é normal em qualquer português consciente do importantíssimo papel por ela desempenhado durante os séculos da formação da nossa nacionalidade, confesso não ter sido bafejado pelo sopro redentor da Fé. Talvez por ignorância ou atávica preguiça, os textos sagrados foram lidos como curiosidades filosóficas, histórias exemplares para a formação da conduta da res publica, ou no pior dos casos, como frutos da superstição necessária que consolidou gentes esparsas num mundo que já foi muito maior.

 

  O discurso pronunciado há uns tempos por Bento XVI em França, carece de cuidadosa atenção. No país de todos os laicismos e de todas as superstições iluministas, o Papa procedeu a um violento e implacável ataque a este novo capitalismo dos nossos dias que parece ameaçar a própria existência da até agora vitoriosa civilização ocidental liberal. Este chamado capitalismo que desde os anos oitenta do século XX foi sendo crismado consoante o surgimento deste ou daquele grupo de manipuladores do sistema, é um perfeito mas odiado desconhecido. Não se lhe reconhecem quaisquer regras nem limites. Não é um capitalismo quantificável em obras, nem materializável em metal sonante.

É uma simples e quimérica abstracção de números e de equações ou teoremas, quantas vezes imaginários, mas  que controlam efectivamente a vida de todos, desde o mais ignoto habitante da Matabelalândia, até ao refastelado accionista do NASDAQ novaiorquino.  Longe vão os tempos dos empreendedores florentinos que se alçaram à categoria principesca pelo patrocínio do Renascimento, pela criação material que fez o mundo ocidental saltar etapas e libertar-se da tacanhez territorial de uma Europa fria, pobre, suja, feudal e sem reminiscências daquele luxo oriental que auferira durante dois milénios.

Já não existem Médicis, nem Függers e no horizonte, erguem-se os guindastes que possibilitam a construção de novos polos económicos que nada têm que ver com a produção de novidades, a promoção de postos de trabalho que tranquilizam a sociedade, ou pelo menos, que se destinem a embelezar a vida dos centros urbanos. Estas provisórias torres de aço, gigantescos Meccano que parodiam aquele famoso guindaste medieval que durante séculos foi erguendo a Catedral de Colónia, servem apenas a mera especulação. Constroem casas de minguada dimensão, sem real valor de investimento e que se inserem naquilo que o medo incutido pela insegurança, habilmente designa por condomínio.

É este mundo de medo e de condomínios que arruina a segurança física e mental de todos. Medo do vizinho que menos pode, medo do estrangeiro que connosco se cruza na rua sem em nós sequer reparar, medo do continente mais a sul, mais a leste ou a  ocidente, onde se trabalha para uma improvável perdição dos nossos.

O simples exercício de um quarto de hora de zapping televisivo, demonstra-nos a fragilidade de todo um sistema perfeitamente virtual e logicamente dispensável. Uma breve visita ao canal Bloomberg ou à CNBC,  consiste num quase paranóico exercício de masoquismo, pois a linguagem cifrada da especulação mais chã e despudorada, evidencia-se na interminável passagem de cifras, siglas, onde uma multiplicidade de termos ininteligíveis procuram conformar aquilo que para a quase totalidade dos cidadãos é absolutamente inexplicável. Consiste num mundo de fantasia alicerçada no éter das suposições de uma economia que não encontra correspondência material na realidade visível. Os serviços – ou aquilo que se imagina existir como tal -, ocupam plenamente o espaço outrora reservado aos golpes de génio de cientistas e estudiosos que mediante aturado labor, nos deram mais tempo de vida, conforto e democracia no consumo acessível para aqueles que jamais conheceram algo mais que a miserável farpela que os protegia do frio, ou a malga de sopa e o bocado de pão que enganava a fome. Longe vão os tempos dos titãs da indústria e da finança. Onde estão os Krupp, os Thyssen, os Vanderbilt, Hearst ou Citroën? Onde param as portentosas realizações sociais daquelas empresas que dentro dos seus muros incluiam creches, hospitais, escolas técnicas, primárias e laboratórios de pesquisa onde o mais humilde podia ambicionar a glória da ascensão pela simples manifestação do talento? Onde estão os herdeiros dos Luíses XIV ou Joões V que  imortalizaram na pedra os sonhos de grandeza e nos proporcionam aquilo que orgulhosamente exibimos como a nossa cultura? Onde estão aqueles Alfredos da Silva que construíram impérios, arrancaram milhares à gleba ancestral e impeliram ao estudo várias gerações que nos deram o mundo moderno de que desfrutamos despreocupadamente e de forma tão ingrata?

 

Este capitalismo dos nossos dias, não é o capitalismo do conceito que aprendemos e que muitos até reprovaram de forma violenta, acabando-o até por copiá-lo travestido de estatismo. É algo de profundamente nefasto, mesquinho e brutal no seu apetite de exploração. Trata-se de uma manipulação iconoclasta que não conhece nações nem fronteiras, que não respeita homens ou locais de trabalho e que para cúmulo da nossa previsível infelicidade, abre de par em par as até agora bem aferrolhadas portas do nosso mundo, possibilitando o ímpeto oportunista de novos comunismos ou aventureiros de ocasião, desta vez providos do ensinamento da História e dos impiedosos recursos tecnológicos que farão sentir o esmagador peso de uma inaudita opressão. É isto o que o futuro parece reservar à totalidade das nações e países, mas teremos ainda a possibilidade de o esconjurar?

 

 

 

Quadras do dia

O país de cima a baixo

É um covil de ladrões

Mas ainda há gente séria

Entre os nossos dez milhões.

 

Ser corrupto é ser podre

Porco, sujo, cagalhão

Não há crime mais nojento

Do que a grande corrupção.

 

Tudo gente muito fina

Tudo altos figurões

Gente da alta finança

Empresários e patrões.

 

Não há nada que te safe

Ó meu portuga coitado

O poder é todo deles

E a justiça passa ao lado.

 

Como Se Fora Um Conto – As Minhas Férias na Montanha (segunda parte)

AS MINHAS FÉRIAS NA MONTANHA (SEGUNDA PARTE)

(CONTINUAÇÃO DAQUI)

Um ano sem nos vermos. Tanto tempo!

A ESTADIA

Da minha idade, os meus amigos eram o A e o O, a A e mais alguns, cujos nomes a memória apagou, provocada por quarenta anos de ausência, que não as caras, essas presentes e marcadas indelevelmente em mim. E todos os outros, que pela idade poderiam ser meus pais ou avós. A sra Isaura, a sra Zulmira, o sr Manuel Inácio, a I, o primo T M, o Zé das porras (interjeição sempre presente nas suas palavras), o Brasileiro, porque esteve para ir para o Brasil embarcado, o B.

Havia ainda o Padre que tinha um rádio a pilhas que tocava alto na janela, e a irmã mais nova deste, que um dia se zangaram connosco. Tanta gente boa, tantas lembranças saudosas.

Em Meneses viviam os Marta, os Maio, os Miranda, e outros igualmente importantes. Esta aldeia chegou a ter um movimento imenso de pesssoas. Hoje está reduzida a meia dúzia de habitantes.

Depois de tudo arrumado, ou ainda antes dada a euforia do momento, saía de “nossa” casa em direcção à casa do meu amigo A. Por lá, o pai, a mãe e o irmão, davam-me calorosamente as boas vindas. A prova do presunto ou do salpição, acompanhados pelo minúsculo copito de vinho, era obrigatória. Durante a prova, que os donos da casa faziam questão de providenciar, contavam-se as novidades, e punha-se a conversa em dia. Havia sempre muito que contar. Um ano de ausência é muito tempo.

Depois corria as “capelinhas” todas. A casa do primo, a casa do Padre, a casa da A, e acabava em casa da I. Em todos os lados, as mesmas conversas, e as mesmas provas, com as cambiantes próprias das diferenças de interesses de cada um.

O regresso a casa foi numa das vezes, complicado. Convém dizer que entre as duas casas mais afastadas não distavam mais de duzentos metros. A aldeia é pequenina.

Já perto do fim da tarde, com o sol a pôr-se para lá dos montes, regressava eu da minha última visita, quando me perdi. Dei por mim a não saber onde estava nem o que fazia por ali. Depois das muitas provas, quatro ou cinco, de um copito meio cheio de vinho em cada casa, de muitos cigarros (sim, naquela altura eu fumava uns cigarritos) a acompanhar, e de pouco pão de centeio e pouco presunto e salpicão, fiquei um pouco etilizado. Deveria ter perto de dezoito anos quando isso aconteceu. Com muita dificuldade, e também um pouco de sorte, já escuro, cheguei a casa. O jantar foi frugal, mas a bebida continuou a acompanhar-me, assim como os cigarros. Estava instalada a minha primeira bebedeira assumida (tinha havido, anos antes, uma outra, dizem as más línguas, que nunca aceitei que o fosse). Aquela noite ficou-me gravada para sempre. Passei mal, muito mal, e como resultado, não bebi mais durante dois anos, e não fumei durante cinco. Infelizmente ainda retomei o cigarro durante sete anos, altura em que acabei com eles para sempre.

No dia seguinte, começavamos a acalmar da euforia do dia anterior. Com a chegada do pão, fresquíssimo, grande, de centeio ou de mistura, acordávamos. A noite mal se tinha despedido de nós. Depois as coisas habituais. Ver quem ia primeiro à casa de banho, minúscula. Era uma “guerra”. Quem se levantasse mais cedo, mais sorte tinha. Depois, o pequeno almoço. A mesa já posta, o leite, o café, o chocolate, a manteiga, tudo em cima da mesa a chamar por nós. E os seus cheiros, esses, acompanham-me desde então. Quando os sinto, salivo, e uma saudade tremenda apodera-se de mim. Comíamos como se fosse a nossa última refeição. Os ares da montanha tinham começado já a fazer efeito. Saboreávamos tudo muito devagar. Tudo era feito com muita calma.

Como sempre, após ter comido, e em paz comigo e com o mundo, saía, dava a volta à casa, e ficava durante algum tempo, a olhar o vale, a serra e os campos espalhados pela encosta. Também me deliciava a sentir os cheiros que ali eram totalmente diferentes dos da cidade. Não me cansava de olhar. Era a altura do dia que eu mais gostava. Dei comigo a pensar muitas vezes, nos últimos anos que por lá andei, que seria ali que gostaria de vir a acabar os meus dias.

Nos anos, e foram bastantes, em que todos os primos, ou quase, estavam juntos, não havia lugar para todos dormirem em casa da sra Margarida. Por essa razão, eu ia dormir em casa do meu amigo A. Era bom, era diferente. Era uma maravilha.

A casa dele, separada da outra por uma vereda, era antiga, o chão era de largas réguas de madeira, em grande parte por cima das cortes do gado e tinha uma varanda sobre o vale e a serra. Perdia-me de amores pela varanda. Adorava estar lá a olhar, a olhar.

Foi lá que aprendi a ouvir o silêncio, quebrado aqui e além pelo vento, por um restolhar dos braços das árvores, pelo chilrear de algum pássaro ou pelo mugir de algum boi.

Fui muitas vezes com estes meus amigos, “trabalhar” para os campos. Eu nada fazia, claro. Mas levava a enxada, a mais pequena como é evidente, e às vezes a barriquinha do vinho, ou a merenda.

Quando isto acontecia, o dia era diferente para melhor. Os pés nus na lama e nos regos da água, os cheiros, o da terra acabada de cavar, ou o da erva cortada, ou ainda o do folhelho arrancado e atado mesmo ali a meu lado.

Era uma jorna dura, de trabalho árduo, de que eu mal me apercebia. Eu era o menino da cidade que nada sabia fazer e só estava a passar férias. Os meus amigos e o pai deles, trabalhavam quase sem parar. Os intervalos eram raros, e só para um gole na barrica ou para uma bucha de pão.

Quando regressávamos a casa, eu vinha feliz. Sujo de terra, mas feliz. Tinha sido um dia em cheio. Dos que valem a pena lembrar pela vida fora.

Noutras alturas, estamos em Setembro, lembram-se (?), acertávamos na semana da vindima. A azáfama era imensa. Era preciso ser rápido, que havia muita uva para apanhar.

Na minha memória ficaram estampados os grandes cestos de vime onde todos despejávamos o que íamos colhendo, os pequenos cestos pendurados nas ramadas ou nas escadas, as tesouras, os cheiros, sempre os cheiros que ainda hoje sinto, os carros de bois, a alegria estampada no rosto de toda a gente.
Nestas coisas eu já ajudava, embora pouco, e por pouco tempo. Depois, mais tarde, quando tudo apanhado, havia o pisar das uvas com os cânticos dos homens descalços dentro do lagar, a pisar, a pisar, a pisar.

Adorava estar no meio deles. Sentia cócegas nos pés ao calcar as uvas. Entalado entre dois dos homens, era engraçado reparar como, ombro com ombro, íamos pisando ritmadamente sem parar. E mais uma vez, o cheiro forte da uva pisada.

Mas os trabalhos que aqui relato, eram esporádicos, para nós, crianças. Na maior parte do tempo, os dias eram gastos em brincadeiras infantis. Um “pau” de milho (o caule da planta, que na sua parte superior faz uma curva onde encaixa a espiga), servia como espada, e também servia como cavalo. Com um pau atravessado a unir dois caules na sua parte superior servia como junta de bois. E lá fazíamos as nossas lutas de capa e espada, as nossas cavalgadas, ou os nossos trabalhos do campo, imitando o som maravilhoso dos carros puxados pelos bois. Iiiiióóóó … íiiiióóóó… íiiióóóó.

As horas passavam bem depressa. Logo logo era noitinha e íamos para casa. Durante o dia só lá passávamos para o almoço ou para o lanche. De resto andávamos pelos montes, sozinhos, sem necessidade de quaisquer cuidados. Por vezes íamos às aldeias vizinhas, Moçães, Torgueda, Arrabães, só por ir, ou para telefonar aos nossos pais, ou ainda para comprar, na “venda”, alguma coisita que a sra Margarida necessitasse (a venda era uma espécie de mercearia onde havia de tudo, desde pão ou grão ou caramelos, até enxadas ou productos para a terra, ou ainda telefone ou serviços de correio). Também para deitar qualquer carta no marco do correio, ou para comprar o respectivo sêlo. Se a memória me não falha, naquelas bandas, só havia um telefone em Moçães e outro em Arrabães. Sá havia marco do correio em Arrabães e uma venda em cada uma dessas aldeias. Em Torgueda, havia a igreja onde aos domingos íamos à missa, e o cemitério.

Foi em Meneses que pela primeira vez, vi lacraus. Os meus amigos mostraram-mos, levantando algumas pedras, e ensinaram-me a não me meter com eles. Foi por lá, que me familiarizei com os bichinhos que existem por todo o lado, aprendendo a não ter medos e a saber respeitá-los. Foi lá, em Meneses que aprendi muito do que a vida é.

As noites eram engraçadas. Quando nada havia para fazer, jogávamos às cartas (ao burro, à bisca dos três ou dos sete, ao crapô ou à canasta), ao dominó, ao jogo chinês e às adivinhas. Tudo debaixo da luz do petromax ou do gasómetro. E era giro. Adorávamos as noites sem horário para deitar.

Mas quando havia que fazer, valia ainda mais a pena. E o que havia para fazer, era trabalho que todos fazíamos com muita satisfação. O mais interessante de todos era o debulhar do milho. Juntavamo-nos numa espécie de cabanal, ou eira fechada, sentavamo-nos em roda e começávamos a debulhar o milho. Havia conversas, cânticos, anedotas, tudo o que se possa imaginar. Na roda, muita gente, nova e menos nova. Rapazes e raparigas das mais diversas idades. Tudo numa alegria imensa, que explodia quando alguém apanhava uma espiga vermelha. O milho rei. O felizardo ou felizarda, tinha então direito a festa, a beijos, a abraços e a ditos maliciosos. Quando tinha a sorte de me calhar a mim, sempre corava de vergonha. Tinha de escolher uma moça para me beijar, e a minha timidez não me deixava. A vontade era imensa, e no fim, depois de risos e chacotas, lá acabava por se concretizar o meu prémio. E o beijo lá vinha, acompanhado das brincadeiras dos restantes, e era dado na parte da cara que mais longe estivesse da boca. Às vezes, quase na orelha, que na testa não era permitido. Satisfação interior grande, a minha, e a cara mais vermelha que o milho. Havia quem fosse malandro e  escondesse a espiga de milho rei atrás das costas para que ciclicamente fosse bafejado com a “sorte”. Eu, nunca fui capaz de o fazer. Azar o meu!

As férias acabavam depressa. Normalmente no dia de aniversário do dono da casa, ou no Domingo a seguir, que era o dia do almoço, onde toda a minha família ia, e onde quase não se notava que era para festejar a ocasião. No entanto, nunca vi aquele senhor queixar-se de alguma coisa. A felicidade dele e da sra Margarida em nos ter lá a todos, assim como de toda a gente que connosco convivia, era enorme, e não se preocupavam com menores atenções, se é que alguma vez existiram. Eu, também só acabei por reparar nessas coisas, muito mais tarde, e é até possível que nem fosse tanto assim.

A tarde chegava num ápice. Tínhamos de estar no Porto antes de anoitecer, que o Marão era perigoso de descer. Encontrávamos nevoeiro com muita frequência. Pelo menos duas horas de caminho, se não mais.

Despedidas, abraços, promessas, beijos.

-Até para o ano.

-Adeus, até para o ano.

-Façam boa viagem.

-Obrigado, fiquem bem.

Um último aceno antes da curva da estrada que nos impedia a visão.

Uma lágrima no canto do olho, aparecia por vezes, e eu fazia todos os possíveis para a disfarçar, mesmo de mim.

Quando dei por ela, tinham passado alguns anos, muitos, sem que eu lá voltasse naquela altura do ano, e até alguns, demasiados, em que simplesmente não ia de forma alguma. As minhas férias na montanha, naquela aldeia maravilhosa, tinham acabado há muito. E aí, a saudade chegou, mas não havia nada a fazer.

A não ser, talvez, conseguir deixar um testemunho saudoso.

In O Primeiro de Janeiro, 4-11-2009

Não quer não vai! Ia obrigá-lo?

Com estes dois que a terra irá um dia comer, ou não:

 

Numa reunião de Pais, ontem, numa escola do Grande Porto.

 

"- O meu filho não gosta das professores, eu estava de férias, ficou em casa. Ia obrigá-lo a ir para a escola? Por acaso…"

 

Siga a avaliação!

Mário Crespo – Os Intocáveis (a propósito da Face Oculta)

O processo Face Oculta deu-me, finalmente, resposta à pergunta que fiz ao ministro da Presidência Pedro Silva Pereira – se no sector do Estado que lhe estava confiado havia ambiente para trocas de favores por dinheiro. Pedro Silva Pereira respondeu-me na altura que a minha pergunta era insultuosa.

Agora, o despacho judicial que descreve a rede de corrupção que abrange o mundo da sucata, executivos da alta finança e agentes do Estado, responde-me ao que Silva Pereira fugiu: Que sim. Havia esse ambiente. E diz mais. Diz que continua a haver. A brilhante investigação do Ministério Público e da Polícia Judiciária de Aveiro revela um universo de roubalheira demasiado gritante para ser encoberto por segredos de justiça.

 

O país tem de saber de tudo porque por cada sucateiro que dá um Mercedes topo de gama a um agente do Estado há 50 famílias desempregadas. É dinheiro público que paga concursos viciados, subornos e sinecuras. Com a lentidão da Justiça e a panóplia de artifícios dilatórios à disposição dos advogados, os silêncios dão aos criminosos tempo. Tempo para que os delitos caiam no esquecimento e a prática de crimes na habituação. Foi para isso que o primeiro-ministro contribuiu quando, questionado sobre a Face Oculta, respondeu: "O Senhor jornalista devia saber que eu não comento processos judiciais em curso (…)". O "Senhor jornalista" provavelmente já sabia, mas se calhar julgava que Sócrates tinha mudado neste mandato. Armando Vara é seu camarada de partido, seu amigo, foi seu colega de governo e seu companheiro de carteira nessa escola de saber que era a Universidade Independente. Licenciaram-se os dois nas ciências lá disponíveis quase na mesma altura. Mas sobretudo, Vara geria (de facto ainda gere) milhões em dinheiros públicos. Por esses, Sócrates tem de responder. Tal como tem de responder pelos valores do património nacional que lhe foram e ainda estão confiados e que à força de milhões de libras esterlinas podem ter sido lesados no Freeport.

 

Face ao que (felizmente) já se sabe sobre as redes de corrupção em Portugal, um chefe de Governo não se pode refugiar no "no comment" a que a Justiça supostamente o obriga, porque a Justiça não o obriga a nada disso. Pelo contrário. Exige-lhe que fale. Que diga que estas práticas não podem ser toleradas e que dê conta do que está a fazer para lhes pôr um fim. Declarações idênticas de não-comentário têm sido produzidas pelo presidente Cavaco Silva sobre o Freeport, sobre Lopes da Mota, sobre o BPN, sobre a SLN, sobre Dias Loureiro, sobre Oliveira Costa e tudo o mais que tem lançado dúvidas sobre a lisura da nossa vida pública. Estes silêncios que variam entre o ameaçador, o irónico e o cínico, estão a dar ao país uma mensagem clara: os agentes do Estado protegem-se uns aos outros com silêncios cúmplices sempre que um deles é apanhado com as calças na mão (ou sem elas) violando crianças da Casa Pia, roubando carris para vender na sucata, viabilizando centros comerciais em cima de reservas naturais, comprando habilitações para preencher os vazios humanísticos que a aculturação deixou em aberto ou aceitando acções não cotadas de uma qualquer obscuridade empresarial que rendem 147,5% ao ano. Lida cá fora a mensagem traduz-se na simplicidade brutal do mais interiorizado conceito em Portugal: nos grandes ninguém toca.

 

 

 

 

Os brinquedos de Nathan Sawaya

 

Antigo advogado, aos 36 anos, Nathan Sawaya vive graças aos trabalhos excepcionais que constrói, ele próprio, utilizando pequenos tijolos de brincar, sim, Legos.

Nathan deixou para trás um ordenado muito generoso para um jovem jurista em início de carreira para seguir o sonho de criança. Foi há cerca de nove anos. Agora, concebe e monta esculturas feitas apenas com o brinquedo da empresa dinamarquesa. Vende as peças por milhares de dólares. Por norma, dez mil dólares. São arte. E ele é o artista dos tijolos.

Olha-olha…

  

 

O mais conhecido e dispendioso mudo nacional, recusa-se a tecer qualquer tipo de comentários acerca do mais recente caso de tráfico de influências, viaturas de alta cilindrada, envelopes "notificadores" e outras prendas habituais.

 

Faz bem em não comentar. Aliás, não se esperava outra coisa, desde a teimosa resistência quanto a um certo episódio ocorrido há poucos meses e que envolveu uma velha instituição nascida logo após a Restauração de 1640.

 

Como diz Miguel Sousa Tavares, "não há Máfia em Portugal, porque não é preciso ameaçar gente com uma pistola. Basta abanar umas notas".

 

Querem pistas? Pelo "diz que disse", podem começar pela adjudicação de troços de auto-estrada na zona de Condeixa – já há uns bons dez anos – e certas campanhas eleitorais destinadas a róseos palácios.

 

Exílio

Acaba por ser a sensação mais dolorosa que pode acontecer a um ser humano. Bem sabemos que exílio é a expulsão da pátria, é o desterro, deportação, degredo, tenha-se ou não cometido um crime.  É a solidão em que se vive como uma punição. Quem tem de abandonar a Pátria, abandona os que ama, perde os laços familiares, fica sem bens: parte do exílio tem uma punição, essa punição é arrecadar para si os meios de sobrevivência que a pessoa tem e deve procurar em idade adulta em alternativas de interacção social, conhecer outras pessoas e, talvez, partilhar com elas as desventuras causadas por essa perca da Pátria.  É o começo do relacionamento com pessoas que nunca tinha visto antes. O exílio é refazer a vida, a qualquer tempo, a toda a idade em que  o desterro acontece. Porquê desterro?

 

 

Não era mais conveniente a palavra desaterro? Esse acto de escavar entre relações sociais e vizinhança para retirar do fundo do poço do abandono, relações suaves e ternas.  É simples a definição, perde-se a terra em que se criou, as pessoas queridas e a memória vai-se apagando. A Europa sofreu uma imensidão de punições de exílio durante o Século XIX, quando a Revolução Industrial não precisou mais de seres humanos nas cidades e as pessoas tiveram que abandonar o sítio onde repousavam os seus antepassados, não poder visitar os túmulos para prestar veneração ritual aos seus antepassados que muitos pensam que moram com eles: uma continuidade entre a vida e a morte que se cultiva na memória enquanto há materialidade para recordar. O exílio obriga a aprender novas línguas e costumes e causa uma tristeza que não permite descansar nem como falar dos seres queridos que mais ninguém conhece em outras terras. Como Portugal durante a ditadura do Século XX, desde Sidónio Pais até ao 25 de Abril de 1974

 

 

 

 

A procura de novas alternativas orienta os seres humanos para sítios sem fim nem objectivo. É-me quase impossível esquecer o compositor polaco, Frederick Chopin, desterrado da sua terra pelo duque russo que em nome do Czar, a ocupava organizando a vida dos polacos, conforme o seu caprichoso entendimento. Queria ouvir Chopin noite e dia e se este não se apresentava, mandava a policia buscar o jovem compositor, a qualquer hora do dia, unicamente para seu prazer.  O pai, exilado francês das guerras napoleónicas, enviou-o de imediato para Paris, cidade na qual veio a falecer cedo na vida. Seu único desejo era que o seu coração fosse sepultado na sua terra de Varsóvia, a sua irmã Ludvicka cumpriu essa dolorosa vontade, pondo-o com cognac numa urna de cristal selada (ver mais em http://pt.wikipedia.org/wiki/Cognac">Cognac). É aí onde o seu coração descansa e permanece, até hoje, dentro de um pilar da Igreja da Santa Cruz (Kościół Świętego Krzyża) em Krakowskie Przedmieście" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Krakowskie_Przedmie%C5%9Bcie">Krakowskie _fcksavedurl="http://pt.wikipedia.org/wiki/Krakowskie_Przedmie%C5%9Bcie">Krakowskie Przedmieście, debaixo de uma inscrição do Evangelho de Mateus, 6:21: "onde seu tesouro está, estará também seu coração". Formas de consolo  de um exilado que tudo tinha perdido. Como tantos outros que procuravam paz e confiança não apenas numa divindade que sabiam não existir, mas a angústia dava-lhe vida. Como a maior parte dos exilados em procura de trabalho em terras desconhecidas. O exílio é a imagem da desolação, solidão, traição e abandono , sem companhia que possa sentar-se ao pé da pessoa só, carente de ternura e carinho. O exílio é a morte em vida, antes, ontem e ainda hoje. Todavia, esta punição tem tido as suas vantagens. A circulação de pessoas por sítios diferentes passou a ser a base para convénios de trabalho e comerciais de operariado, entre países. Pode haver sucesso, pode haver perseguição, sedução para arrecadar sustento, mas, acima de tudo, há  um profundo luto do coração que não sabe como descrever os que perdeu. O exílio é a morte em vida, o desaparecer do mundo ainda em plena actividade. Um símbolo descreve-o, símbolo que fala mil palavras sobre o desterro:

 

                            

 

 

É possível governar com este nível de suspeita?

Como se recorda sempre que é preciso, o PS está no poder desde 1996 com um hiato de 2 anos e meio. Tudo o que Portugal hoje é tem o selo do PS ! Para o bem e para o mal!

 

Somos novamente o país mais pobre da União Europeia, o que não acontece de um ano para o outro, é fruto de um processo contínuo de empobrecimento.

 

Hoje temos uma dívida externa colossal, um déficite orçamental que alcança este ano os 8% e no ano que vem deve subir para os 9%, um desemprego que anda nos 9% e vários déficites estrututais na economia . É dificil fazer pior!

 

Quando para enfrentar este cenário, o mais necessário é ter agentes geradores de confiança, o que se verifica é que nunca houve tanta suspeita em relação ao poder económico e político. Isto é o resultado do poder absoluto do PS!

 

Temos um Primeiro Ministro que está há vários anos sob suspeita, em vários processos que correm na Justiça. Temos  magistrados colocados em lugares chave com conhecidas e íntimas relações com o PS,  alguns com processos de inquérito, como é o caso de Lopes da Mota.

 

Temos, agora, vários gestores de empresas públicas nomeados com a confiança do PS, envolvidos numa gigantesca rede de corrupção e tráfico de influências, o que indica que há conexões com membros do poder político em exercício, caso do Ministério das Obras Públicas.

 

O governo prepara-se para fazer toda a pressão no lançamento dos megaprojectos, que a verificar-se, será na vigência de quem está sujeito a este enorme nível de suspeição. Uma enorme soma de dinheiro será aplicada e gerida por estes interesses instalados que estão sob investigação.

 

O que pensar disto? Com é isto possível, quando as funções chave de regulação e controlo têm o comportamento conhecido e foram nomeados por quem está sujeito a investigações policiais?

 

 

Menino ou menina?

 

O amor é uma força da natureza. A frase não é minha, mas os sentimento sim. Se não houver essa paixão que leva um corpo a se juntar com outro de diferentes géneros, o mundo não teria população. Fazer filhos, é uma dádiva da divindade, se divindade houver . Parece-me que a divindade é a força da paixão que nos seduz, nos namora, faz de nós seres doces, protectores e ternurentos, que faz dos nossos, um arrepio permanente. Arrepio permanente de namoro e desejo. Desejo que faz dos corpos, um no que penetra essa  pessoa que que nos seduz. Também há a paixão que nãoo rende fruto, essa paixão de pessoas do mesmo género. Sobre este tipo de paixão temos falado tanto, até o ponto de esquecer referir ao amor que rende fruto, essa atracção que faz doer o corpo se nãoo é satisfeita Satisfação que acaba em sangue, suor e lágrimas na felicidade que, após render o nosso corpo ao corpo que amamos, faz distender esse corpo e adormecemos. Dias inteiros, horas cumpridas, com um acarinhar ao outro que, apenas no fim, se rende e procura o nosso erotismo. O que acontece nesses casos? A descendência aparece no meio de nós, que amamos de outra maneira, mas amamos compaixão, uma paixão que leva ao sedutor a estar sempre ao pé do bebé desprotegido, essa criança que depende de nós ao longo de períodos cumpridos. Se o resultado é rapaz o rapariga, é-nos igual: são nossos, a nossa responsavilidade. Mas nem sempre.

É irrelevante que essa descendência seja menina ou menino. Há, entre outros assuntos, os ciúmes do pai que se quer ver projectado a si próprio na forma de rapaz. Permite na vida adulta uma certa cumplicidade nas brindeiras masculinas, jogar a bola, ouvir a histórias de amor que o mais novo confia ao seu progenitor.

Na nossa cultura há um ditado: os filhos são do pai, as filhas da mãe. Depende, como é natural, da confiança que pai ou mãe ofereçam aos seus pequenos.

Nunca esqueço a análise que fiz a um conjunto de crianças de uma aldeia de Portugal, outra na Galiza e outra na Cordilheira dos Andes. Na de Portugal, havia este sacristão que todos os 10 meses fazia um bebé a sua mulher. Cada nascimento, era uma desilusão para ele: apenas meninas, até seis. Por milagre, o sétimo descendente foi um rapazito. A alegria do meu Sacristão, por nome Joaquim Beato foi tão grande, que deixou de se embebedar e esqueceu os ciúmes que sentia pela sua mulher, a quem não era permitida de falar com ninguém na rua: não fosse o caso que tiver prelúdios com um homem qualquer e for enganado na paternidade. Estudei o caso ao longo de 20 anos. 

Para mal do sacristão, homem tradicional, o filho foi criado pelas irmãs e hoje em dia vive com o seu amigo íntimo. Como se amar pessoas do mesmo sexo, for delito ou pecado. Joaquim Beato não entendia e em vez de ensinar, punia, abandonava, não era solidário nem com a mãe que nada comentava dos amores do filho: aceitava com facilidade, como as irmãs. Foi levado ao estrangeiro pelas irmãs e vive feliz com quem ama, o seu rapaz pessoal. Há também outros motivos, bem conhecidos na História, como esse anseio de Henrique VIII Tudor, que casava uma e outra vez para obter um herdeiro para a sua monarquia, o que parecia impossível.

A sua primeira mulher, Caralina de Aragão, deu-lhe apenas uma filha, Maria Tudor, que reinou. Pensava que o seu matrimónio não era válido e era punido pela falta de herdeiros. A sua mulher foi afastada e casou com uma rapariga da corte, estava certo que ela sim lhe daria um filho, mas apenas nasceu uma outra rapariga, Elizabeth, a melhor monarca de todos os tempos.

Na sua infância, afastou-se da sua mãe e procurou um dama da corte, Jane Seymur, quem lhe dera um filho, Edward VI, o que fez dele um homem feliz porque tinha tido um filho. Reinou seis anos e faleceu muito novo. Rapaz ou rapariga? Tem a sua importância se há bens pelo meio ou História para construir.

Por causa do seu desapontamento, no seu tempo não se sabia que determinava o sexo do descendente era o pai, pelos cromossomas x e y. Ele matava as sua mulheres e reformou o seu reino, separado-o de Roma na esperança de, sendo ele a orientar a religiosidade do seu povo, um milagre ia acontecer: teria um filho. Casualidade ou ambição? Ambição, antes.

Este Henrique tinha as suas mulheres e, as tantas, os seus rapazito de 15 ou 20 anos. Relações que não rendiam fruto.Se o descendente é menino ou menina, tem a sua importância, de forma diferente, nos três casos narrados, todos eles falhados. Quem por fim reinou e reformou a religião, foi o seu sobrinho neto, Jaime I de Inglaterra e VI da Escócia. O Tudor não sobrevevu para ver este milagre. Menino ou menina, ou paixão infrutífera, acaba por ser de importância para o pai quem deseja se ver retratado no seu descendente e partilhar com ele aventura. Não podemos esquecer qye até o dia de hoje, a mulher é, infelizmente, um ser humano de segundo plano, como analiza o frade dominicano, Emílio Garcia Estebánez, no seu texto de 1992: Es cristiano ser mujer?, Século XXI Madrid. Será assim que os filhos mais do que as filhas são procurados? 

 

 

A avaliação é necessária e é possível

Era fatal como o destino que a avaliação dos professores se croncretizasse, pode e deve ser melhorada , até porque é um processo  próactivo,  mas é muito necessária para a melhoria das escolas.

 

A argumentação dos professores sempre foi muito pobre e na parte final já só se agarrava aos professores "titulares" e à, para si impossibilidade, de se fixarem objectivos justos e mensuráveis, esquecendo que ali ao lado as escolas privadas já o fazem há imenso tempo.

 

A avaliação, desde que negociada e aceite por todos, permite que todos os professores saibam o que a escola espera do seu trabalho, e assim pôr todos a remar na mesma direcção. Depois leva ao envolvimento de todos nos processos e objectivos reconhecidos e aceites, como os mais importantes, os problemas passam a ser do grupo e depois da escola.

 

Um aluno problemático não o é para o professor, é-o para a escola, não só porque exige compromissos e tarefas que não estão ao alcance do professor, enqunto entidade individual, mas tambem porque os meios da escola são muito superiores à resolução ou enquadramento do problema.

 

Por outro lado, ninguem como os professores sabe exactamente quem é bom professor e quem tem mérito, é só preciso que esse conhecimento seja estruturado, seja natural e não visto como algo de "mau companheirismo", e que o seu merecimento seja comparativamente avaliado e recompensado.

 

Tenho-me batido desde há muito pela avaliação dos professores, toda a minha vida profissional foi avaliada, uma vezes melhor outras pior, é um processo exigente e de todos os dias, mas quem trabalha e quem obtém resultados tem o direito de ver reconhecido o mérito do seu empenhamento.

 

Oxalá a enorme massa dos professores que querem uma escola melhor, saiba tapar os ouvidos a quem precisa da contestação para ter poder e sobreviver.

 

 

As Prendas de Natal e Outras

.

PRENDINHAS, QUEM AS NÃO QUER

. .

A operação, chama-se Face Oculta, mas já há muitas faces descobertas.

Sobre isso já escrevi aqui, e aqui.

Aquilo que muitos dos arguidos, ou alegadamente implicados, deram ou receberam, têm nomes diferentes, consoante quem os nomeia.

Para uns, os investigadores e o público em geral, o nome que têm é "luvas provenientes de corrupção".

Para outros, os que ofereceram ou os que receberam, são "prendas de Natal ou de outra altura qualquer".

Mas, dificilmente, automóveis e dinheiro, podem ser considerados presentes desse género.

A todos os níveis da nossa sociedade, se utiliza a prenda, ou a nota, ou a influência, para obter o que se pretende.

A corrupção, pequena ou grande, faz parte do nosso estilo de vida. Desde a notita dada à funcionária que nos põe dentro do consultório do sr dr uns minutos mais cedo, ao segurança que nos deixa entrar mesmo sem a devida credencial num qualquer sítio onde pretendemos ir, ou ao sr graduado de uma qualquer força militarizada que mete uma cunha pelo nosso pirralho e por isso recebe à posteriori uma prendinha, em quase todas as circunstância da vida dos Portugueses encontramos situações destas.

Não seria portanto de admirar que nos altos negócios se proceda da mesma forma.

Mas, se nas pequenas coisas, é aceite pelo comum dos cidadãos, que se proceda assim, pois que quem o não faz fica sempre prejudicado, já nas grandes coisas esta postura não tem o aval de ninguém. Nestas, a lisura de procedimentos, até ao mais pequeno pormenor, é exigível.

O Português, como outros, aceita que a pequena corrupção se faça, até porque é ele quem a faz, mas exige que os que estão em situação de mandar, os que têm poder, o não façam, até porque não precisam, e só corrompe quem necessita.

O grande problema desta situação, para além do facto em si mesmo, é que tem já muitas ramificações, que tocam altas figuras da nossa Nação. À Ren, Refer, EDP e Galp, juntam-se agora a CP, a Portucel, a Lisnave, os CTT, a EMEF, os Portos de Setubal, Sines a a Capitania de Aveiro, a ENVC, a IDD, a Empordef, a Carris e as Estradas de Portugal. Muitas destas empresas estão já a fazer investigações internas. Mas são já demasiadas as empresas ligadas a este caso. É o País inteiro.

E só o mais pequeno dos actores deste caso, o que corrompeu (alegadamente claro, que é preciso ter cuidado com o que se diz) os altos funcionários de quem se fala, está em prisão preventiva.

Daí o poder-se inferir que aos outros, nada de mais lhes acontecerá. O sr Vara, ainda está e continuará a estar na Vice Presidência do BCP. O sr Penedos continua na presidência da Ren. E outros continuam onde sempre estiveram.

Daqui a muitos anos, como em outras situações que estão a correr na nossa justiça, ainda estaremos na situação de hoje. As investigações vão ser demoradas e a nossa justiça irá ser ainda mais lenta que de costume. Há demasiada gente muito importante envolvida.

Esta forma suja e abjecta de se viver, não pode deixar de criar nojo a quem olha para ela.

Ninguém pode confiar em ninguém. A corrupção grassa por todo o lado. Quem tem poder, e é pouco sério, faz o que muito bem entende e enriquece quase da noite para o dia. Quem não tem esse poder, ou se for uma pessoa séria, nem trabalhando muito, chega a algum lado apetecível economicamente. Quem não for de modo algum, uma pessoa séria, como muitos que por aí andam, depressa chega a ter poder. Seja em que nível for.

E o poder em Portugal, pelo que se ouve nas ruas e nos cafés, está associado à burla e à corrupção.

Vivemos num País de vigaristas e de vigarices. E, desde à alguns anos a esta parte, a principal ideia que transmitimos aos nossos filhos, é a de que devem ser "espertos" para poderem ter poder e ser ricos, não interessando o que se faça, desde que surta efeito.

O que em alguns momentos me apetece, é sair daqui, fugir, imigrar para um qualquer lugar, longe de tudo e de todos. Ou então viver no meio do monte, sem acesso a seja o que for. Mas não sendo de baixar os braços, vou, à minha escala, continuar a lutar contra a corrupção em Portugal.

Conforme está, é uma tristeza, o País em que vivemos.

 

 

(In, O Primeiro de Janeiro, 5-11-2009)

 

 

 

 

A máquina do tempo: vacinar ou não vacinar

A ex-ministra da saúde da Finlândia, Dra. Rauni Kilde, falou sobre a gripe A. Realmente foi muito esclarecedora, mas… a seguir foi despedida… Vejam porquê.

Hoje, a nossa máquina, não viaja nem até ao passado nem na direcção do futuro – fica-se pelos nossos dias. Instalada que está a polémica sobre a  bondade ou a nocividade de nos vacinarmos contra a gripe A, com alguns médicos, enfermeiros e outros técnicos de Saúde a recusarem essa medida preventiva, os leigos como eu, ficam confusos. Depois, para aumentar a confusão, circulam por aí e-mails, textos e vídeos que, pelo seu conteúdo sensacionalista, não podem deixar de alarmar e de causar preocupação. É o caso do vídeo que mostro acima.

 

Dois dos meus melhores amigos são médicos e então, sempre que me surgem questões destas não hesito em lhes bater à porta e indagar sobre a credibilidade deste tipo de «informações» – quase sempre é preciso pôs aspas. Com a paciência que por certo lhes advém do exercício da profissão (e, claro, da amizade que há décadas nos une), nunca me deixam às escuras. E, mais uma vez, me iluminaram.

 

O que escrevo a seguir é o resultado das duas consultas que fiz aos Doutores Carlos Leça da Veiga e Rui de Oliveira. As suas palavras esclarecem-nos sobre a credibilidade da «ministra» finlandesa e sobre o momentoso problema das vacinas contra a gripe A. Peço a vossa atenção:

Ser a Sra. Rauni Kilde ministra, ou não, nada traduz que saiba do que está a falar. Para afirmar-se a causa real de qualquer doença infecciosa há critérios objectivos que nesta caso da vacina da gripe não estão confirmados. Os vírus utilizados nas vacinas da gripe são vírus inactivados e, desde há muitos anos, que a vacina da gripe é a vacina vírica indicada para todas – todas – as grávidas. Até agora a mortandade anunciada pelo uso da vacina não está à vista. Não se acredita que seja possível torná-la obrigatória nem mesmo, para tanto, invocando o precedente da vacinação anti-variólica que era obrigatória e, desse modo, conseguiu acabar com a doença no mundo.

Procurando nas mesmas fontes da Net onde se vão buscar estas intervenções “espectaculares”, o que se encontra não credencia especialmente a Sra. Rauni Kilde. Correndo o risco de fazer juízos errados (mas usando as mesmas fontes…), parece (nas palavras de um seu apoiante 1) que nunca foi ministra (logo nunca demitida) mas apenas responsável provincial (e nem sequer responsável – chefe). Em particular após o seu acidente de carro (causa do afastamento ?), afirma-se defensora da presença de extraterrestres entre nós (ver texto abaixo 2 ) e, entre outras campanhas de que é dinamizadora, destaca-se a tese de que há uma conspiração para o controlo da mente pelas microondas (telemóveis, implantes de micro-chips, etc). Encontram-se, por exemplo, tais congeminações no artigo “MICROWAVE MIND CONTROL: MODERN TORTURE AND CONTROL MECHANISMS ELIMINATING HUMAN RIGHTS AND PRIVACY by Dr. Rauni Leena Kilde, MD September 25, 1999” a que se pode (e deve) aceder pelo link http://www.raven1.net/kilde1.htm Diz-se deve porque o artigo é um pouco aflitivo pela sua argumentação paranóide.

Em suma, o discurso da Dra. Kilde nada acrescenta e não será por aí que devemos ir. Questionar o lucro e o peso de certa indústria farmacêutica é legítimo e defensável, achar que a vacina aconselhada a grávidas e crianças é para diminuir a espécie é transtorno mental.

_______

 1 Rauni-Leena Luukanen-Kilde (born 1939 in Värtsilä, now in the Republic of Karelia) was the provincial medical officer of the FinnishLapland Province with a doctorate in medicine from 1975 until a car accident in 1986, which took away her ability to continue her work and career. She likes to advertise her former title, but often she rather calls herself a former Chief Medical Officer of Finland.

 

2  “Finnish physician Rauni-Leena Kilde, MD spoke of the extraterrestrial experience among the Sammi (Laplander) people she was raised with above the Arctic Circle and in Scandinavia. Her first remembered contact was when she was in a severe car crash. As she laid there mortally injured, a small ET was at her side working on healing her injured liver. Later, the hospital staff could not understand how she survived the crash. Later she remembered ET contacts as a child living among the Sammi. She reported that there is a change of attitude in Scandinavia and the European Union about cosmic contacts. She hears positive reactions to ET encounters. …  Her country borders Russia, where cosmonauts were threatened with death if they talked openly about UFO encounters…”

 

 

 

Salvar a Ponta de S. Lourenço

TEXTO DE FRANCISCO LEITE MONTEIRO

 

Nos últimos 6 meses foram 5 os textos que escrevi e o Diário publicou, a propósito do “susto”, como classifiquei a ameaça de descaracterização que representa para a zona o tão falado “eco-resort” da Quinta do Lorde. Como se antecipava, o relatório do inquérito da comissão nomeada pela ALRAM foi presente e aprovado na última terça-feira, tendo o plenário concluído não existirem quaisquer actos administrativos ilegais e lesivos do interesse público regional ou do Estado. A esse mesmo respeito, no Diário de 29, em “Opinião”, assinado por Jacinto Serrão, foram feitas algumas considerações eminentemente politico-partidárias e, até certo ponto, superficiais, sobre a decisão do parlamento regional, ficando-se pelo que dir-se-ia ser o reconhecimento do facto consumado, mas a que faltou muito do essencial, a tempo que se está, ainda, de precaver contra outros desastres de natureza ambiental em toda a Região.

 

Pretendo com isto lembrar, repetindo, que muito mais importante do que assacar responsabilidade aos promotores, nem tendo sido detectadas irregularidades no licenciamento, mas mais ainda, pela impossibilidade de fazer recuar o tempo e repor o espaço natural destruído, o que muito mais importa é, sem mais perdas de tempo, impedir a repetição de situações semelhantes.

 

Resumindo e concluindo, importa agora e sempre, alertar o poder público para a necessidade de ser reforçada a legislação e respectiva fiscalização, por forma a pôr cobro a novas situações, não mais consentindo qualquer uso ou alteração do solo, do que resta da Ponta de São Lourenço, até ao farol, bem como em outras espaços em toda a RAM que isso justifique, impedindo o alastramento da descaracterização do espaço natural que, no caso dos 16 hectares ocupados pelo “Quinta do Lorde Resort” é, lamentavelmente, irreversível. Publicado no «Diário de Notícias da Madeira»

Homem velho e mulher nova filhos até à cova

Sempre se viu homens mais velhos apaixonarem-se e darem um piparote na vida, largarem tudo, por amor a uma mulher mais nova.

 

Uma das mulheres mais bonitas que vi estava casada com um homem muito mais velho (conhecido por ter belos programas de educação física na TV) e tinham duas belas crianças. felizmente parecidas com a mãe.

 

A primeira reação para quem na altura tinha trinta e cinco anos, foi de incompreensão, ciúme, o que lhe queiram chamar, mas o tipo apesar da idade era bem parecido e culto.

 

Outro caso muito conhecido, entre outros foi o de Sofia Lauren e a de Carlo Ponti, ela era só uma das mais belas mulheres e ele era baixote, gordo e careca.

 

Mas o que vos quero contar é o caso de um dos políticos mais conhecidos de Espanha, poderoso, banqueiro, economista e que tinha uma bela família com filhos, um palacete e uma mulher que era só dele. Um belo dia deixou tudo para se casar com uma mulher que ía no terceiro casamento, com filhos de dois homens, cheia de plásticas apesar de muito mais nova, uma cabecita tonta mas muito bela.

 

Alguém se interrogou na sua frente sobre tal decisão, e o poderoso devia estar na fase do desencanto e respondeu : "é como estar na última estação, a ver passar o último comboio e a decidir se agarro ou não a última carruagem."

 

Eu por mim, dou comigo a ver as "teens" na Guerra Junqueiro e a justificar-me. No amor tambem alguem tem que ser capaz de se mexer.

 

Ora…

 

Ui… temos manif pela certa

O ministro dos Assuntos Parlamentares, Jorge Lacão, garante que está fora de questão o Governo suspender a avaliação dos professores.

Já votou

pela suspensão deste modelo de avaliação?

A Bial e o mérito

A BIAL investigou durante 15 anos para introduzir um medicamento no mercado. Passou por todas as fazes inerentes à complexidade de um medicamento para ser utilizado na epilépsia, e foi reconhecido e autorizado por todas as instituições europeias e americanas.

 

No processo foram investidos 300 milhões de euros, dinheiro dos sócios, sem redes, num  mercado onde só se ganha se se for melhor que os melhores, num mercado aberto sem protecção a não ser os resultados. E com um forte impacto nas exportações.

 

São estas empresas como a BIAL que devem ser apoiadas e reconhecidas, não as empresas monopolistas ou em cartel a trabalharem no mercado interno como a REN,a GALP,  a PT, a BANCA e todas as outras onde os seus gestores ganham fortunas sem se perceber bem porquê.

 

Mas a BIAL não é única, há mais empresas que trabalham no duro e com mérito, produzindo bens transaccionáveis, para exportação, operando em mercados altamente competitivos e sem andarem a mamar nas tetas do Estado e no dinheiro dos nossos impostos.

 

Enquanto não se reconhecer o mérito, este país vai continuar a ser um país pobre e adiado, pese embora a prosápia dos grandes vencimentos e dos grandes carros.

 

 

Contos proibidos: Memórias de um PS desconhecido. O afastamento de Tito de Morais

continuação daqui

 

«No rescaldo do Congresso Manuel Tito de Morais seria de certo modo responsabilizado pela situação a que tinha chegado o Partido por ter sido «ultrapassado pela grandeza da tarefa que lhe estava incumbida», sendo desterrado, enquanto responsável pelas relações internacionais, para um primeiro andar na rua D. João V, perto do Largo do Rato. O outro dirigente histórico a quem o Partido muito devia, por ter sido ele a abrir as primeiras relações internacionais nos anos 70 e que poderia ter sido uma excelente alternativa para Ministro dos Negócios Estrangeiros, tabém não seria poupado, não entrando sequer para o Secretariado Nacional do Partido que tanto lhe devia. Francisco Ramos da Costa seria também desterrado para embaixador em Belgrado. Quando faleceu, em 1982, estava contra o rumo que o seu velho amigo Soares imprimia ao PS e em total sintomia com as posições de Zenha e do grupo que viria a ser conhecido por «ex-secretariado». (…)

Salgado Zenha, com quem eu não tinha grande intimidade, uma vez que não o conhecera pessoaalmente antes do 25 de Abril, era a grande figura do PS. As bases e os dirigentes reconheciam a sua grande estatura moral e intelectual. Ao contrário de Mário Soares, era algo introvertido, comedido nas suas palavras e possuidor de um apurado sentido de humor que, quando desfiado, podia resvalar para um temível sarcasmo. Logo nesse meu primeiro contacto a sós com os dois dirigentes juntos, pareceu-me também que Soares se ressentia daquela evidente superioridade. Era o número dois do PS quem tinha sempre a última palavra, com frequentes arremessos de paternalismos.

Enquanto Soares nunca se aventurava sozinho num raciocínio novo e recorria quase sempre à cumplicidade de «O Zenha e eu», este, pelo contrário, raramente falava a dois. Mas era frequente começar por explicar uma situação com uma farpa ao seu amigo. «Bom, dir-me-ia, aqui o Mário gosta muito de viajar e depois queixa-se de que o Tito não tem mão no Partido.»

 

 

 

 

 

 

Bárbara Reis e a entrevista à TSF

Bárbara Reis começa por falar da mudança do paradigma do «Púbico» – ficou para trás a fase dos textos curtos, porque os leitores não tinham tempo para ler, e regressaram os textos mais longos e específicos. Os jornais impressos vão ter de encontrar os seus nichos, as suas minorias.

Mudança a partir de hoje: eliminar a percepção pública de que existe no jornal, actualmente, um excesso de carga ideológica.

Depois de dizer que o facto de ser mulher nada tem de relevante, porque as pessoas conhecem-na há mais de 20 anos, recorda os seus inícios do «Público» na Somália e em Nova Iorque. Fala várias vezes de Vicente Jorge Silva, o primeiro director do «Público», e do interregno nas Nações Unidas. Quando se fala de Sérgio Vieira de Mello, o silêncio, que na rádio ganha uma dimensão maior, é sepulcral.

Duas notas pessoais: tive pena que Carlos Vaz Marques não explorasse a frase relativa ao excesso de carga ideológica do «Público». Penso que Bárbara Reis se referia à forma como o jornal se posicionou, nos últimos tempos, relativamente ao Governo, mas o jornalista não sou eu.

Outra nota: a voz de Bárbara Reis é muitíssimo sensual, típica de uma voz da rádio. Não devia ter ido ao Google procurar a sua cara. 

O Público ressuscita o BPN

Quando tudo ainda ferve com os dignitários socialistas apanhados nas malhas da corrupção, e tráfico de influências, os 3 mil Milhões de euros do PS enterrados no BPN vêm à liça.

 

Repare-se que a comparação entre os casos só afunda os socialistas. No caso Oliveira e Costa temos um banco privado que fez batota e uns quantos barões sociais-democratas que mamaram sem freio. Só passou a ser público ou com interesse público a partir da montanha de massa que lá meteu este governo (é o mesmo…).

 

No caso "Face Oculta" o que temos são políticos socialistas colocados ao mais alto nível em empresas públicas a traficar influências, porque têm ligações aos camaradas que estão noutras empresas controladas pelo Estado ou no próprio Estado.

 

Armando Vara, após a sua saída do governo por se ter envolvido em questões menos claras, foi colocado pelos camaradas na Caixa Geral de Depósitos e depois transferido para o BCP, após o assalto socialista a este banco e tomada de poder.

 

No primeira caso, temos crimes de lesa património, desvio de dinheiros e negócios desastrosos numa empresa privada, que devem ser, naturalmente, castigados.

 

No segundo caso temos corrupção, tráfico de influências e prejuízo do Estado em concursos públicos, por pessoas que estão naquelas funções por razões de confiança política.

 

Acresce que o polvo, pela primeira vez, é atingido nos tentáculos escondidos nas estruturas técnicas e administrativas , que permanecem ano após ano, corrompendo e traficando, mas sem nunca serem postas em causa, nem democraticamente, por não se sujeitarem a eleições, nem porque são alvo do escrutínio da comunicação social e das polícias.

 

Durante 30 anos os corruptos são uns senhores muito maus que não pertencem aos serviços e que foram ali parar, no meio dos santos e milagreiros.

 

A comunicação social deve-lhes muitas "notícias…"

No Centenário (2): Relvas aparadas

 

Da leitura em diagonal das Memórias Políticas de José Relvas, decidimos retirar mais alguns valiosos contributos para o melhor conhecimento daquilo que foi o regime saído do golpe de 1910, assim como das questíunculas, ódios e irresponsabilidade política e moral dos seus principais dirigentes.

 

Sendo Relvas geralmente apontado pelos panegiristas do regime da Demagogia, como uma inatacável personalidade eivada de todo o tipo de qualidades políticas, morais e intelectuais, os seus escritos deverão ser encarados como honestos testemunhos da situação imposta pela violência a um país coagido pela coacção física e propagandista.

 

Já na fase pós-sidonista, Relvas parece esquecer-se da feroz luta contra a "ditadura" administrativa de Franco (1906-08) e assim, declara em 1919 …"como pode o Governo com o actual Parlamento que já não representa a vontade nacional, visto que o País aceitou o meu Ministério, não só sem resistências, mas até com aplauso? Foi por isso que eu fiz na entrevista um apelo ao Parlamento para nobremente votar o princípio da dissolução e uma nova lei eleitoral, elaborada com o consenso dos partidos, deixando entrever que se a vida do executivo ainda fosse possível com as actuais Cortes iríamos até ao momento em que novas eleições constituíssem uma necessidade inevitável para a formação dos dois novos e grandes partidos, base duma tranquilidade, que não conhecemos há muito tempo".

Este parágrafo remete-nos de imediato à famosa entrevista dada pelo rei D. Carlos aoTemps, em que os pressupostos para a normalização da vida pública, tinham como ponto central a formação de dois partidos constitucionais verdadeiramente alternativos – o governo "à inglesa" – e à elaboração de um novo sistema eleitoral mais equilibrado. Mais de uma década decorrida e num cenário de indescritível desordem pública, miséria económica e clara, embora camuflada derrota militar na I Guerra Mundial, Relvas parece pretender ressuscitar o plano de João Franco, num momento em que a dissolução do regime já se tornara inevitável.

 

Continuando, o autor escreve que …"acentua-se a campanha da dissolução em termos da maior violência. Hoje, na Câmara, quando se começava a discutir o projecto a que me referi na carta de ontem, o Francisco Fernandes afirmou que tal projecto, recordando o decreto de 31 de Janeiro, de João Franco, o excedia todavia nas autorizações arbitrárias que concedia ao poder executivo. Devo dizer-lhe que não é muito grande a correcção do dr. Fernandes e o seu espírito de transigência, não hesitando em aprovar o projecto desde que ele contivesse a restrição das autorizações concedidas apenas ao actual Governo". Por outras palavras, é a "ditadura!

 

A guerrilha entre os caciques republicanos, vai enrubescendo de fulgor e assim, …"o Cunha Leal – comediante-tragediante sabendo que o Parlamento já não existia, resignou o seu mandato de deputado perante o comício. E acrescentou que, se o Governo não decretasse a dissolução, convocava desde já o povo para dissolver o Governo!" Foi esta a gente de alegados elevados princípios de rectidão moral que quis governar o país. Continuando, vai escrevendo que …"esse farsante subiu as escadas do Ministério do Interior, acompanhado de populares, que a breve trecho entravam violentamente no meu gabinete, armados com pistolas e espingardas, invectivando-me e não me tendo morto, graças à oportuna e enérgica intervenção de Tito de Morais (…) entretanto, nas Ruas do Ouro e dos Capelistas continuava o tiroteio com a polícia, obrigada a defender-se dentro já da esquadra do banco de Portugal. Havia mortos e feridos. O primeiro polícia foi morto à porta do Ministério (…) durante a noite a Polícia, que se manifestara hostil ao Governo, teve de render-se, não sem ter manifestado num pátio da Parreirinha os seus afectos em vivas entusiásticos à Monarquia"…

De Machado Santos, a grande figura do 5 de Outubro da Rotunda, , dizia que …"é um sincero em tudo o que faz. Há porém entre estes dois homens diferenças fundamentais. É honestíssimo. Mas é de uma mediocridade intelectual assustadora, o que o conduz, fora da Rotunda, a todos os desaires e a todos os desastres. Está sendo cúmplice inconsciente do Cunha Leal, que não tem escrúpulos de nenhuma espécie, que é superiormente inteligente, e ilimitadamente ambicioso".

 

Na sua 24ª carta, desabafa que …"quando mataram o Sidónio – vilíssimo assassinato -, e quando o Teófilo Duarte passeava por Lisboa as suas loucas tropelias, dizia-lhe eu que tinha a impressão de presidir a um manicómio. Hoje tenho a impressão de habitar um covil de feras!" Estas palavras são absolutamente idênticas às de D. Manuel II logo após os acontecimentos de 1908-10, mas Relvas parece esquecer-se do constante recurso à violência física promovida pelos chefes do p.r.p. nos derradeiros anos da Monarquia Constitucional.

 

De Guerra Junqueiro, fazendo juz ao preconceito da época e aludindo ao desvario pela acumulação de riqueza que parecia obcecar o vate da república, dizia que …"ofundo irresistível da sua origem semita procura conciliar, com a mais alta e nobre visão da Pátria, os interesses da sua ambição. O que o conduz por vezes a situações lamentáveis".

 

Voltando à dissolução do parlamento, Relvas escreve: "Outro acto de firmeza do governo que parece estar esquecido, e que todavia não podia ser de maior transcendência, foi a dissolução do parlamento. Por não estar incluída na Constituição a faculdade de dissolver o Parlamento, atravessámos épocas políticas agitadíssimas, e viemos a dar a uma revolução." Curiosa auto-condescendência do escriba-primeiro ministro, parecendo oportunamente esquecer-se da tremenda campanha de imprensa levantada pelos republicanos durante o governo de João Franco. Assim, para Relvas a ilegalidade justifica-se desde que seja a "sua ilegalidade".

 

Não nos alongando mais no demolidor contributo do antigo primeiro ministro da 1ª república, finalizamos, como epitáfio de uma situação insolúvel, com um pequeno parágrafo:

"Entretanto, todas as pessoas que passam pelo meu gabinete estão assombradas com o espectáculo duma política tão mesquinha. Realmente, este gabinete é agora um posto de observação, e até de estudo, para psicólogos. Nesta luta de pigmeus, a fingirem de grandes homens, é fácil distinguir os motivos que os fazem agir (…) é a indicação que leva ao Terreiro do Paço outro Governo, que não pode ser, senão em outros moldes e com outras pessoas, uma reprodução do que vai desaparecer sumido nessa terrível voragem de desorientação e desprestígio em que se somem, nos últimos anos, em Portugal, umas atrás das outras, todas as situações ministeriais?"

 

* Na imagem, manifestação popular de apoio a D. Manuel II, diante do Paço das Necessidades (1910).