O Marquês

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Há quem se impressione com o número de crimes imputáveis a José Sócrates pelo Ministério Público mas, depois de assistir a esta entrevista, onde se terão enumerado os pontos fundamentais da acusação, apenas consegui adensar as minhas dúvidas sobre a sobrevivência deste processo judiciário com tão pouco de judicioso. Não sendo a televisão um tribunal, muito embora tenha funcionado, nestes 3 anos de preliminares, como palco para um julgamento que já terá sido efectuado pelo público – ninguém quer acreditar que Sócrates não meteu dinheiro ao bolso -, o certo é que a representação do MP feita pelo jornalista de serviço apenas permitiu que o actor principal tenha dado um passo seguro para reconquistar o seu direito à presunção de inocência junto da opinião pública. Não se esperava que Vítor Gonçalves, que luta contra o estigma das suas supostas simpatias políticas, aguentasse o embate com este ex-primeiro-ministro, e nem mesmo que dominasse as 4.000 páginas da acusação (que trouxe ao ecrã para dar substância e clamor ao libelo, supõe-se…), como naturalmente o demonstrou fazer José Sócrates. Mas este espectáculo, a que mais uma vez assistimos neste campo, teve como único resultado a severa goleada de Sócrates ao Ministério Público.

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Crónicas do Rochedo XIV – Uma direita musculada numa Espanha dividida

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O referendo da Catalunha veio provar que em Espanha ainda existe uma direita “musculada”, profundamente saudosista dos tempos de Franco. Uma direita que está desejosa de dar uns sopapos, de tirar a poeira ao revólver guardado na escrivaninha e disposta a empurrar Rajoy para o colo da ala dura do PP. “Empurrar” é simpatia minha, pois não me parece que D. Rajoy se sinta muito incomodado com a possibilidade.

Esta direita cohabita com uma esquerda ainda mais folclórica que o nosso Bloco. Um misto de saudosistas da cortina de ferro, anarquistas de cubata na mão (mas de Havana 7, que Bacardi é coisa de meninos) e deslumbrados do anticapitalismo internacional. No fundo, estão bem uns para os outros.

E depois temos a confusão: temos os independentistas da Catalunha, os independentistas da Galiza, os Independentistas do País Basco, os Independentistas da Andaluzia, os Independentistas das Baleares (sim, das Baleares que não são catalães e gostam tanto destes como dos de Madrid). Depois temos as Asturias, Castela, Leão e Estremadura sem esquecer as Canárias. Com excepção dos primeiros, os restantes até nem se importam de ficar juntos. Uma enorme salgalhada. E ainda me deve faltar aqui um ou outro movimento independentista mais discreto. Já para não falar nos casos de Ceuta e Melilla…

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Uma escuta aqui, uma escuta ali

Remixed by Bandex, via Bandex TV

Caso Marquês e Ricardo Salgado: duas perguntas que todos os portugueses deviam querer ver respondidas

O Ministério Público acusa Ricardo Salgado de ter corrompido José Sócrates, Zeinal Bava e Henrique Granadeiro, entre outros, com valores que ascendem a várias dezenas de milhões de euros. Perante a ponta deste icebergue, existem, a meu ver, duas perguntas que todos os portugueses deviam querer ver respondidas:

1. Quantos políticos e gestores, públicos e privados, corrompeu Ricardo Salgado?

2. Quantos Ricardos Salgados existem neste país?

O mais certo é nunca as vermos respondidas. Mas a minha intuição diz-me que esta e outras histórias não se resumem a Sócrates, Bava e Granadeiro. E que a probabilidade de existirem mais uns quantos Salgados é elevada. Que me perdoe a presunção de inocência, mas já são algumas décadas a ser roubado à cara podre.

31 acusações

Três de corrupção passiva de titular de cargo público, 16 de branqueamento de capitais, nove de falsificação de documentos e três e fraude fiscal agravada. É este o rol de potenciais crimes com os quais José Sócrates será confrontado no tribunal de primeira instância que julgará o caso Marquês. Será um processo longo e complexo, que conta com 27 outros acusados, e que poderá arrastar-se ainda vários meses, anos até, durante a fase de instrução que antecede o julgamento. Se este vier a acontecer (sim, essa possibilidade existe!). [Read more…]

Bruxelas quer

Ah! As costas largas de Bruxelas. Ocorre-me claramente o que eu quero para “Bruxelas”, mas vou passar à frente.

O meu problema com este tipo de pressões reside em dois aspectos. Em primeiro lugar, o que é que acontece se os alunos, pura e simplesmente, optarem por não estudar? Isso deve ser imputado aos professores? Ao que sei, hoje em dia é corrente os alunos chegarem à sala de aula e mostrarem-se espantados por irem ter teste, tal é a atenção que dão ao seu êxito.

A educação começa em casa, coisa que os ideólogos do Excel preferem ignorar a cada vez que apenas olham para os números. E começar a educação em casa implica dar tempo aos pais para poderem acompanhar os filhos, o que entra em conflito com as correntes de flexibilização do trabalho – em particular, no que respeita vínculos precários e mais horas de trabalho por semana (chamam-lhe produtividade).
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Olha, uma rã com barbas

Andam todos inchados. Apesar de terem tido um resultou pior do que há quatro anos.

O “fato” académico

Santana Lopes orgulha-se de ter assinado, em 1990, o chamado acordo ortográfico (AO90), mesmo se considera a ortografia um assunto maçador. Há cinco anos, julgando mostrar o seu conhecimento sobre o assunto, desvalorizava as críticas ao AO90, acrescentando a seguinte cereja: “Agora ‘facto’ é igual a fato (roupa).”

Em 2009, Paulo Feytor Pinto, então presidente da Associação de Professores de Português, declarava o seguinte: “Contrariamente ao muito que se diz por aí, as alterações que vão ser introduzidas são muito poucas e julgo que basta uma meia hora para os professores aprenderem as novas regras. E depois é aplicá-las.” [Read more…]

Ensaio sobre a ambiguidade

He’s gonna be wild
I’m giving you warning
He’s gotta have room
Keep an eye on him

Waylon Jennings

***

Reflictamos acerca da ambiguidade de “não pedi licença a ninguém para tomar a decisão que está tomada”. Passado esse momento, reflictamos acerca da clareza de “agora facto é igual a fato (de roupa)”.

Depois dessa reflexão e antes do jogo da selecção, vejamos o Diário da República de hoje.

Exactamente.

***

Floresta queimada, trancas à porta

Fotografia: Lusa@Sapo

Milhares de hectares de floresta queimados depois, o Ministério da Administração Interna decidiu reactivar 72 dos 236 postos da Rede Nacional de Postos de Vigia, desactivados vá-se lá saber porquê, que fogos florestais parece ser coisa que não nos assiste.

Mas pior do que esta política de “casa roubada, trancas à porta”, só mesmo a perplexidade que me provoca perceber que estes postos estão desactivados, apesar de precisarmos tanto deles, para poupar um custo miserável que não tem sequer comparação com as várias formas de despesismo com que este e os anteriores governos nos costumam brindar. A começar pela dispendiosa elite política balofa que temos em Lisboa e nas autarquias, com alguns deputados e presidentes de câmara a receber por mês ajudas de custo que chegariam para pagar um salário mensal digno a um vigia ou guarda florestal.

Mas não se preocupem: para o ano há mais.

Governo português manda boca a André Ventura

apelando à abolição universal da pena de morte. Estes geringonços não deixam os passistas em paz, carago!

Os corruptos estão todos no Sul da Europa

Isto é sem dúvida uma aberração.

CDS prepara golpe de Estado

Montagem via Uma Página Numa Rede Social

Isto já vem do tempo em que Paulo Portas afirmava, em debate com Passos Coelho, que não importava se o PS tinha mais votos nas Legislativas, desde que o seu CDS chegasse aos 23,5% e o PSD aos 23%. Estava feita a maioria, e com toda a legitimidade, apesar das palermices que a direita vendeu aos sectores mais estupidificados e/ou ignorantes do seu eleitorado.

Agora é Assunção Cristas, sem surpresas, quem assume estar preparada para governar com o PSD, mesmo que o PS ganhe as eleições, formando aquilo que, na novilíngua da direita estupidificante, se designa por “governo ilegítimo”. Agora a acenar e sorrir e fazer de conta que as imbecilidades proferidas ao longo dos dois últimos anos foram fruto da nossa imaginação. Não faltarão palermas a acreditar e jotinhas para validar esse discurso.

As “meninas”. Certo…

Tresanda a publicidade encapotada de jornalismo. Com direito a link e tudo. No SOL do Saraiva.

Na direita já se fumam ganzas?

Isenção de IRS das horas extraordinárias para premiar o mérito? O que é que o cu tem a ver com as calças? Até porque é mesmo ao contrário. A necessidade de horas extraordinárias revela mau planeamento, o que equivale a dizer ausência de mérito.

Oposição responsável? Não, demagogia barata e em conta-corrente com a senda austeritária de quando Cristas foi ministra.

A valorização dos fatos: enquanto houver Egipto, há efectivamente esperança

We’ve got five years, what a surprise.
David Bowie

If you wanna get to heaven, gotta D-I-E
you gotta put on your coat and T-I-E
Curtis Buck/Waylon Jennings

Σωκράτης … τῆς Αἰγύπτου…
— Platão, “Fedro

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Passado um lustro (e muitos meses), com algumas saudáveis e louváveis recaídas (como diria Hollande, há sempre «des rechutes possibles»), eis que surge ortografia no jornal da silenciosa resistência, da grafia rasca, da grafia inadmissível.

Exactamente, há redação e seleção. Todavia, enquanto houver Egipto, há efectivamente esperança.

Os meus agradecimentos àquele excelente leitor.

Quanto ao sítio do costume, como é habitual, nada de interessante a declarar.

Outra vez.

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Schäuble, o desavergonhado


Depois dos sucessivos ataques soezes a Portugal, tais como aqueles depois do governo que não era da sua eleição ter tomado posse, quando Schäuble precisava de desviar as atenções do Deutsche Bank e sugeriu por duas vezes que Portugal precisava de um novo resgate, é preciso ter uma lata descomunal para usar o caso português como referência para o seu suposto sucesso pessoal.

Já agora, atente-se na fotografia. O autor captou aquele momento que revela a relação de poder entre aquele que puxa os cordéis e o seu o testa de ferro.

O Passos e os barões assinalados

Foto: André Kosters/Lusa

Com o final do ciclo passista à vista, queimam-se os últimos cartuchos de propaganda de uma oleada máquina que, nos seus tempos áureos, triturou Manuela Ferreira Leite sem dó nem piedade, a quem se seguiu Aguiar-Branco e Paulo Rangel, recorrendo a práticas tão respeitáveis como a manipulação do Fórum TSF ou a concepção de apoiantes alternativos nas redes sociais, como o célebre caso Maria Luz, magistralmente desmontado e exposto neste blogue pelo J. Manuel Cordeiro.

A máquina, porém, foi esmorecendo, e nem o advento dos observadores foi suficiente para manter o passismo vivo, apesar do forte investimento e de uma mobilização de recursos considerável, na imprensa escrita como nas redes sociais. À governação de péssima memória, guiada pelo radicalismo ideológico e pela quase ausência de resultados, cuja cereja em cima do bolo é a famosa saída limpa com Banif debaixo do tapete, seguiram-se dois anos de puro fanatismo, durante os quais todas as desgraças foram profetizadas, todas as crises aventadas e até a vinda de demónios era dada como certa. [Read more…]

Dia capicua

7102017. Onde é que andam os catastrofistas?

Então, Expresso, esse relatório de Tancos?

Há duas semanas, Pedro Santos Guerreiro justificava o Expresso com o argumento de, na edição a seguir, voltar ao tema Tancos com informação relevante. A montanha pariu um rato na edição que se seguiu e nesta nem a isso chegou.

Vamos aguardar. Para já, é mais um caso para juntar à lista composta pelos dossiers WikiLeaks, Panamá Papers e mortos de Pedrogão Grande. Naturalmente que se trata de jornalismo de referência. É uma questão apenas de determinar qual é o referencial.

O esgoto do entretenimento televisivo, ridicularizado em 3:21 minutos

Não vos trago uma grande novidade, até porque este fantástico sketch do ainda mais fantástico canal Q já tem mais de dois anos. Acontece que, dois anos depois, este show de variedades duvidosas, música de qualidade questionável em formato playback e massacre psicológico via chamadas de valor acrescentada continua no ar.

Não sei que audiências terão este tipo de programas, dos quais a RTP já abdicou – já era tempo de parar de gastar dinheiro dos contribuintes com mediocridades destas – mas poucos formatos ilustram tão bem a mediocridade de um país onde há quem vote na Ágata para vice-presidente de uma autarquia. Agora imaginem o quão fácil é para um Isaltino.

Manual de instruções para rebentar com o mundo instantaneamente

Use-se uma imagem de uma senhora árabe, desnudada de burcas e afins, para ilustrar o Facebook de um americano que esteja a escolher paio de Arganil em Jerusalém. Esta simples combinação,  catalisada pelo horror americano à nudez, desencadeará um efeito de borboleta tão imparável quanto uma cólica no sistema digestivo dos mísseis norte-coreanos.

Isto deve fazer tanto sentido quanto os apelos do Facebook à bufaria vitoriana.

Crónicas do Rochedo XXIII – Catalunha: É onde dói mais…

Captura de ecrã 2017-10-06, às 22.29.21

No fundo ainda sou um ingénuo. Muito ingénuo. E porquê? Porque pensei que as empresas que nasceram na Catalunha, que a ela muito devem a força e pujança de hoje, iriam resistir. E que seriam elas a mola impulsionadora do diálogo entre as partes em confronto. Sou um ingénuo.

Quando o grupo Banc Sabadell, o grupo Caixa Bank (agora donos do BPI) ou a seguradora Catalana Occidente decidiram desertar atiraram um tiro no “meio dos olhos” da economia da Catalunha. Foi onde dói mais. A força do poder económico catalão era, para mim, a última esperança para colocar as coisas nos eixos, ou seja, obrigar as partes a ceder neste braço de ferro: por um lado, obrigar Castela/Madrid a aceitar a realização de um verdadeiro referendo na Catalunha e, pelo outro lado, obrigar Puigdemont e os seus aliados a aceitar não levar a cabo a DUI (Declaração Unilateral de Independência). Só o poder económico e a Igreja podem conseguir obrigar as partes a negociar. Se a Igreja está, discretamente, a fazer o seu papel de mediador, já o poder económico catalão escolheu um lado, o do velho pragmatismo capitalista sem pátria.

Ironia do destino: um dos mais importantes empregadores e contribuintes para a força do PIB da Catalunha (e de Espanha), os alemães da SEAT (Grupo VW), já desmentiram qualquer tipo de fuga da Catalunha.

Além de Barcelona

Saint Louis, Antuérpia, Los Angeles, Melbourne, Munique, Montreal, Atlanta, Sydney, Rio de Janeiro. Há que manter o rigor

Ele vive!

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Muitos pediram e ei-lo que regressa, impante e em grande forma.

A História é para ser estudada, não é para ser julgada…

O Padre António Vieira tem de ser entendido à luz da época em que viveu. O mesmo se aplicará a D. Afonso Henriques, que hoje seria seguramente acusado de desrespeitar a Constituição e falta de solidariedade para com os restantes povos ibéricos. Faria sentido acusar hoje D. João III, D. Manuel I, Vasco da Gama, Pedro Álvares Cabral ou Afonso de Albuquerque de terem levado a cabo uma política de expansão colonialista, ocupando território que não pertencia à coroa portuguesa, escravizando povos e tomando suas as riquezas que encontraram? [Read more…]

O 5 de Outubro e as saudades que eu já tinha do meu alegre Cavaquinho

Cavaco Silva, esse belo animal político que a República nos deu. Pendurado nos cofres públicos desde 1980. Continua a achar que não teve nada a ver com o estado a que isto chegou. Políticos são os outros.

Fenprof de regresso

Após as autárquicas, o sindicalismo reaparece

A cívica ilegalidade catalã e a inútil legalidade portuguesa

Santana Castilho*

1 Polícias a espancarem barbaramente civis que cometiam o “crime” de votar, que ensanguentaram cabeleiras brancas de mulheres que protegiam urnas de voto e que, a uma delas partiram, um a um, todos os dedos de uma mão, são coisas do foro “interno do Estado espanhol”? Nove centenas de cidadãos europeus feridos pelas forças que existem para os proteger são coisa interna de um estado membro ou, antes, matéria civilizacional que a todos importa?

O hibridismo do discurso diplomático e a contenção expressiva que o exercício politicamente correcto de determinados cargos recomenda podem obrigar a silêncios cobardes. Mas não justificam que se remeta para o remanso doméstico o comportamento protofascista de Mariano Rajoy. Murcham os afectos quando as mãos que os distribuem mergulham na pia de Pilatos! [Read more…]

O futuro do PSD

O PSD à semelhança do PS, tende a ser um catch all party. Quando ocupam o poder as várias tendências ainda que procurem exercer influencia, submetem-se às lideranças, na oposição são um saco de gatos. Perante uma hecatombe como a que o PSD sofreu a nível autárquico, em bom rigor mais em 2013 que em 2017, mas agora esperavam recuperar alguma coisa e afinal ainda conseguiram passar do mau ao péssimo, ficam sem jobs para os boys and girls, deixando no desemprego muitos destacados militantes. [Read more…]