PCP tem medo de ficar atrás de Tino de Rans?

Imagem: RTP/Renascença

Já tinha ficado com a pulga atrás da orelha quando, no debate entre ambos, Vitorino Silva pediu a João Ferreira que aceitasse o convite para debater no Porto Canal. O candidato apoiado pelo PCP não respondeu. Soou estranho.

Hoje, o director de informação do Porto Canal, Tiago Girão, deu conta no Twitter (e mais tarde no próprio canal) que a candidatura de João Ferreira fez uma participação à Comissão Nacional de Eleições sobre os debates de Vitorino Silva contra os restantes candidatos, alegando que esses debates se transformariam numa vantagem de tempo de antena, favorecendo a candidatura de Vitorino.

A CNE emitiu, então, um parecer propondo à ERC uma medida provisória que impeça os debates em questão.

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O verdadeiro artista (*)

André Ventura foi trazido para a lide política pela mão de Passos Coelho, ao dar-lhe palco político em Loures. Constituiu o Chega no meio de ilegalidades apontadas pelo Tribunal Constitucional e que não foram completamente esclarecidas. Viu o seu partido ser elevado ao nível da decência com a coligação dos Açores e posterior abertura ao restante território pelo líder do PSD, Rui Rio.

Porém, para Henrique Raposo, André Ventura é “um filho de José Socrates”. Cola-o a um ex-primeiro-ministro problemático (coloquemos as coisas assim) mas que, para o caso, nada tem a ver com Ventura. Diz que o faz por causa das mentiras e dos maneirismos, como se não tivesse dose igual noutras áreas.

Raposo, ao relacionar Ventura com Sócrates, faz um branqueamento da ligação do Ventura ao PSD. É de artista, como aqueles que metem um nariz vermelho no circo.

∗ título roubado daqui

Adenda: artigo do Henrique Raposo

UE-China ou a subalternidade dos Direitos Humanos

Foi considerada a cereja no topo do bolo da presidência alemã do Conselho da UE, que terminou a 31 de Dezembro passado: após 7 anos de negociações, a União Europeia e a China chegaram, no dia 30 de Dezembro de 2020, a um acordo de princípio sobre investimento (“Comprehensive Agreement on Investment”). Desta vez não se trata de um acordo de comércio livre, nem um acordo clássico de protecção do investimento, mas de um acordo que regula o acesso das empresas europeias ao mercado chinês e vice-versa.

A euforia foi grande, sendo o mercado chinês o gigante que é. Mais uma vez, fez-se jus à expressão “money makes the world go round” e demonstrou-se a sua superioridade face a valores subalternos aos do negócio, como manifestamente são os Direitos Humanos e laborais.

À revelia de tudo o que é do conhecimento geral a respeito das botas cardadas com que a China espezinha os Direitos Humanos, aqueles que nos governam, tanto a nível nacional como da EU, não têm pruridos em “fazer negócios, tolerar abusos e violações de direitos humanos, ou vender o nosso património mais valioso a uma ditadura como a chinesa.[Read more…]

Os idiotas e o debate de ideias

  O Presidente da República e candidato, Marcelo Rebelo de Sousa, afirma que é “no debate de ideias” que se derrota o Chega e a extrema-direita.
  Como é que se consegue debater ideias com um partido racista, xenófobo e fascista? Toda a gente sabe que foi a debater ideias com António de Oliveira Salazar, com Marcelo Caetano e com a PIDE que se derrotou o regime do Estado Novo…e também foi no debate de ideias que impedimos, depois da Restauração da República, o golpe de Estado que deu origem à Ditadura que vigorou de 1926 até 1974. O lixo põe-se no lixo.
  Diz, também, Marcelo Rebelo de Sousa, que Ana Gomes, enquanto cidadã, poderia ter pedido a ilegalização do Chega junto do Ministério Público e do Tribunal Constitucional. O que o sr. Presidente sabe, mas não diz, é que existe uma petição, com mais de 16.000 assinaturas, a pedir a ilegalização do partido de extrema-direita (assinaturas mais do que suficientes para o assunto ser debatido na Assembleia da República). O que sr. Presidente sabe, mas não diz, é que foram enviados mais de 300 e-mails para várias instituições do Estado a pedir o mesmo, e foram ignorados. O que o sr. Presidente sabe, mas não diz, é que muitas pessoas, enquanto cidadãos (como o é a cidadã Ana Gomes), foram à Provedoria da Justiça, aos partidos com assento parlamentar, ao Presidente da AR, ao Supremo Tribunal de Justiça, ao MP junto do STJ, ao Tribunal Constitucional, ao MP junto do TC, à Procuradoria Geral da República, à Comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias…e até ao próprio Presidente da República.
  O que o sr. Presidente sabe, mas não diz, é que o seu partido só poderá ser Governo se se juntar ao Chega. O que o sr. Presidente sabe, mas não diz, é que não quer queimar o PSD.

  Não se debate com fascistas. Ou há alguém, por aqui, que goste de se banhar em bosta?

Marine Le Pen, presidente do Frente Nacional, numa conferência de imprensa em Lisboa (Portugal), com André Ventura, líder do partido de extrema-direita Português, Chega.                                                                                      PHOTO / REUTERS / PEDRO NUNES

 

A propósito das Presidenciais

Acho curioso como há quem seja capaz de compartimentar quem vota neste ou naquele partido: no PCP votam estes, no Chega votam aqueles, no PS aqueles outros, e por aí fora.
Aquilo que fui percebendo é que os eleitorados são realidades muito mais transversais do que realidades compartimentadas.
Conheci empresários que votavam PCP e operários que votavam CDS.
Há uma mescla de gerações, de sonhos e frustrações, que torna a realidade eleitoral em algo muito mais rico do que grupos ou tendências.
No meio disto tudo, à medida que a República vai degradando-se, o chamado voto de protesto vai ganhando maior peso eleitoral.
O real e concreto perigo para a Democracia é quando o voto motivado pelo ódio e pela revolta se sobrepõe ao voto motivado pelo sonho e pela utopia.

A Quinta Pata

Sílvio Servente*

*Former collegiate equestrian Phd. 

Estão à espera da invasão à Assembleia da República?

Foto: @adn

A invasão que manifestantes pró-Trump fizeram ao Capitólio esta semana devia, não só fazer corar de vergonha todos aqueles que defenderam o (ainda) Presidente dos EUA, com argumentos sobretudo económicos, mas também reflectir sobre a complacência que existe, em Portugal, do mesmo tipo de discurso que levou um apresentador de televisão à presidência da “maior democracia do mundo”.

Hoje, no Plenário da Assembleia da República, foi a discussão uma petição assinada por cerca de 9000 cidadãos contra conferências de extrema-direita em Portugal (num caso que remonta a 2019) e pela ilegalização de grupos de cariz fascista, racista e neo-nazi.

Entre vários argumentos, os peticionários usam a Constituição como argumento máximo para defenderem as suas posições, citando o tão badalado art. 46º/4 que proíbe, e cito: “associações armadas nem de tipo militar, militarizadas ou paramilitares, nem organizações racistas ou que perfilhem a ideologia fascista.”

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A ditadura e as pessoas de bem

“A única ditadura que quero é aquela onde os portugueses de bem são reconhecidos”

André Ventura, durante o debate com Marcelo Rebelo de Sousa

 

André Ventura (AV) defendeu que quer uma ditadura, o que pode ser um acto falhado, um engano, uma metáfora. Ficarei a esperar, sentado, que os críticos de Mamadu Ba façam o mesmo a Ventura. É verdade que AV não quer qualquer outra ditadura, quer “aquela”, uma ditadura específica. De qualquer modo, parece uma ditadura, cheira a ditadura, sabe a ditadura, esperemos não ter o azar de a pisar e sujar o sapatinho.

E o que caracteriza a ditadura que AV quer? É “aquela onde os portugueses de bem são reconhecidos”. Deve haver algumas ditaduras que não reconhecem os portugueses de bem, o que está mal. Não é uma dessas que AV quer; é só esta.

O que é um “português de bem”? Isso ficará ao critério de AV. Pode parecer um bocado discricionário, mas ditadura que é ditadura não anda a perguntar às pessoas, deixa o ditador decidir e não há necessidade de grandes debates. Além disso, AV foi escolhido por Deus, o que lhe confere a infalibilidade. A pergunta que inicia este parágrafo é, portanto, desnecessária, meus filhos. [Read more…]

Encerre-se tudo

A mim parece-me bem.

Encerre-se Machu Picchu, Encerre-se Chan Chan,
Encerre-se a Capela Sistina,
Encerre-se o Pártenon,
Encerre-se o Nuno Gonçalves,
Encerre-se a Catedral de Chartres,
Encerre-se o Descimento da Cruz,
de Antonio da Crestalcore,
Encerre-se o Pórtico da Glória
de Santiago de Compostela,
Encerre-se a Cordilheira dos Andes,
Encerre-se tudo, privatize-se o mar e o céu,
Encerre-se a água e o ar, Encerre-se a justiça e a lei,
Encerre-se a nuvem que passa,
Encerre-se o sonho, sobretudo se for diurno
e de olhos abertos.
E, finalmente, para florão e remate de tanto encerrar,
Encerrem-se os Estados, entregue-se por uma vez
o governo deles a carcereiros e hipocondríacos,
mediante recomendação da OMS,
Aí se encontra a cura do vírus…

E, já agora, encerre-se também
a puta que os pariu a todos.

Adaptação de José Saramago, em “Cadernos de Lanzarote – Diário III”. Lisboa: Editorial Caminho, 1996.

Estados Unidos da República das Bananas

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Quem dizia que isso de Trump estar a conduzir à guerra civil já quer reequacionar face ao golpe de Estado que o Loser-in-chief tem vindo activamente a promover? É uma coisita de somenos. Chamam-lhe democracia. E ainda um outro detalhe que é o Estado de Direito.

Uma turba de egoístas, comandada por um narcísico, não olha a meios para tentar manter o poder. O que se passa na América tem consequências entre nós devido à legitimização que os aspirantes a ditadores de pacotilha sentem perante este exemplo de corrupção. Veja-se o debate do populista de trazer por casa com o candidato do PCP, fazendo o número do pateta americano, não deixando o adversário falar.

Quando os do costume atirarem com os seus argumentos venezuelanos, que não se esqueçam do que aqui se passou.

O Natal Ortodoxo na Sérvia

Tal como a maioria dos cristãos ortodoxos a Sérvia celebra amanhã o Natal e de acordo com o calendário juliano. Como tal, hoje assinala-se a noite de consoada ou “Badnje Veče”.
Por tradição todas as famílias têm o “badnjak”, um ramo de carvalho simples ou enfeitado com sementes de trigo e que é queimado em grandes fogueiras, numa cerimónia de inspiração pagã que tem início por volta das 18:00 e se prolonga até de madrugada (conforme foto em anexo). [Read more…]

Candidatos de primeira e candidatos de segunda

Créditos da Imagem: @Jornal Expresso

Imagem: @Expresso

O António Fernando Nabais já trouxe o assunto ao aventar, mas mesmo depois de algumas mudanças desde esse texto, continua a haver uma discriminação em relação ao candidato Vitorino Silva na candidatura à Presidência da República.

Sou um leitor assíduo do jornal Expresso e acompanho, desde o primeiro debate, na app do jornal, uma série de artigos conjuntos que pontuam os debates e os candidatos, num trabalho de vários jornalistas e cronistas do jornal. Embora estranhe o conceito quase futebolês da análise política, a verdade é que, no final, o que conta são os números.

Vitorino Silva não faz parte dessa análise. Ou seja, os seus debates não são analisados dentro desta estrutura de artigo, nem a sua foto acompanha a imagem que os ilustra (e que ilustra também este texto). Mesmo que existam artigos de análise mais extensos sobre os seus debates, como para os outros, neste particular é excluído.

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Coitadinho do Ventura. Alguém pegue nele ao colo e lhe dê muito miminho, que o jornalista mau fez dói-dói ao bebé

Os adeptos do Chega, tanto os mais ferrenhos, como aqueles que começam as frases com “eu não voto neles mas…” estão irritados com o timing da reportagem da SIC, dedicada ao partido de extrema-direita. Já eu prefiro saudar o Pedro Coelho, um dos melhores jornalistas de investigação deste país, que, ao contrário da narrativa repetida pelos adeptos do Chega, nunca poupou partido algum e já deixou em maus lençóis, várias vezes, os poderosos aparelhos do PS e do PSD, antes e depois de eleições. A reportagem sobre o caso BES, “Assalto ao Castelo”, por exemplo, é absolutamente destrutiva para o PS e para o consulado Sócrates. Já antes se havia também debruçado sobre o caso BPN, onde, claro, não poupou o PSD e o cavaquismo.

Podia continuar a enumerar exemplos, do Pedro Coelho e de outros excelentes jornalistas de investigação, como Paulo Pena ou José António Cerejo, mas seria inútil. O adepto do Chega não se interessa por dados objectivos, porque o Chega, tal como o catolicismo ou o islamismo, é uma religião, com enorme potencial para se transformar em fanatismo ideológico, cego e absolutamente imune a factos. Interessa-me, isso sim, sublinhar o seguinte: não há timings para fazer jornalismo. Este documentário está a ser produzido há largos meses, não tendo chegado ao ecrã mais cedo pelo mesmo motivo que tem colocado a nossa vida em suspenso: a pandemia. Não obstante, o jornalismo de investigação não tem que fazer compassos de espera para deixar passar procissões. Tem, isso sim, que informar devidamente o cidadão, para que este possa, no caso da antecâmara de um acto eleitoral, fazer a escolha mais informada possível.

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Basta não falar dele?

Entre os adversários do Chega, há quem defenda que não se deve falar do Chega, que já chega.

Não tenho soluções. Contudo.

(Não tenho soluções, ficais já avisados, é, aliás, o título da autobiografia que nunca publicarei)

As pessoas que fazem afirmações destas têm uma crença definitiva no poder do silêncio. Nada tenho contra o silêncio, que prefiro mil vezes ao barulho, mas não consigo perceber como é que se combate um inimigo de que não se fala. Nem o demónio é ignorado na Bíblia e olhai que a Bíblia sempre é a Bíblia.

Imagine-se o comandante de um exército, rodeado pelos seus conselheiros, mapas espalhados pela mesa de campanha, alguns cachimbos, semblantes gravíssimos, cenhos franzidos. Um conselheiro mais inexperiente arrisca:

  • Talvez devêssemos atacar os ruinlandeses neste…

Não chega a acabar a frase porque sente imediatamente uma pasta com sabor a ferro na boca, percebendo que tem um dente partido. Depois de levar alguns pontapés no chão, o comandante, humano, sereno, levanta a mão:

  • Vamos parar com isso, não somos assim tão selvagens.

O desgraçado levanta-se, tentando perceber o que lhe aconteceu. O comandante, olhando para um infinito próximo, explica:

  • Aqui não se fala dessa gente, porque, se falarmos, eles passam a existir. Isso quer dizer que deixarão tanto mais de existir quanto mais não falarmos deles.

O politraumatizado ainda balbuciou:

  • Mas como vamos combater?

O comandante não consegue evitar que a voz lhe saia mais elevada. Academia Militar, condecorações, vitórias várias, umas, morais, outras, por falta de comparência, anos de experiência a anular o inimigo e ainda tinha de explicar o óbvio:

  • O combate faz-se calando. Nunca ouviu dizer que o calado é o melhor? E tirem-me daqui estes mapas, que ainda digo alguma coisa que não devo.

No campo dos ruinlandeses, diante do silêncio alheio, urdiam-se planos em sossego, a ventura sorria.

Sente-se bem, dr. Rui Rio?

Li ontem uma peça no Público, já com alguns dias, que cita Rui Rio sobre as eleições presidenciais, com o líder do PSD a afirmar que um bom resultado de André Ventura é “mau para o país”.

Say what???

Então o homem anda todo empolgado a legitimar o líder da extrema-direita, abençoou um acordo de governação para Açores entre os dois partidos (do qual nem sequer precisava, sublinhe-se), admitiu acordos futuros a nível nacional, contribuiu, como ninguém, para a normalização do democraticamente anormal, e agora vem dizer que um bom resultado do parceiro é mau para o país?

Que é mau já nós sabíamos.

O único que não só não percebeu, como até contribuiu, activamente, para o reforço da posição do Chega, algo que, eventualmente, poderá garantir ao partido de extrema-direita um resultado mais robusto, foi, precisamente, Rui Rio.

Qual terá sido a parte que o líder do PSD não percebeu?

Boicotar e embargar o regime chinês, já!

Entretanto, na China, a jornalista independente que mostrou ao mundo a verdade sobre o surto inicial de Coronavirus, em Wuhan, foi condenada a 4 anos de prisão efectiva por “causar distúrbios” e “procurar problemas”, dois dos muitos eufemismos que este regime totalitário utiliza para legitimar a censura, perante o silêncio cúmplice, ou autocensura, mais ou menos generalizada, entre as democracias ocidentais, parcialmente detidas pelo império chinês, que continuam a assobiar para o lado e a recorrer ao trabalho semi-escravo que mantém as engrenagens de um certo capitalismo a funcionar.

Zhang Zhan, 37 anos, já foi advogada mas converteu-se ao jornalismo independente, profissão de risco no Império do Meio. Tal como muitas outras jornalistas e activistas que vieram antes de si, que ousaram desafiar o regime chinês, Zhan foi detida, julgada arbitrariamente, derrotada, humilhada e viu a sua liberdade suprimida, liberdade essa que, em bom rigor, nunca teve, tal como não tem cidadão algum de uma ditadura. Esteve em greve de fome, foi alimentada à força pelas autoridades chinesas, e promete iniciar novo protesto, mesmo que isso lhe custe a vida.

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A culpa é da Greta

Uma investigação do jornal britânico The Guardian revela que a factura a pagar pelos vários desastres ambientais que ocorreram durante o ano que agora termina, como os incêndios devastadores na Austrália e na Califórnia, ultrapassa os 150 mil milhões de euros. Mas esta é apenas a fatia quantificável, sendo que o total real é bastante superior a este valor.

Outro dado relevante é que o conjunto destes gravíssimos problemas ambientais foram agravados pelas alterações climáticas. A isto devemos juntar mais de 3500 mortes, 13,5 milhões de deslocados e refugiados ambientais, muitos deles provenientes de África, parte dos quais sepultados no Mediterrâneo, sem direito a honras fúnebres. [Read more…]

Debates Presidenciais 2021: Marcelo toma um chá com Marisa, Ventura arrasta Ferreira para o lamaçal

Dois debates, de escassos 30 minutos.

No primeiro, onde reinou a educação e a cordialidade, Marcelo foi um elegante cavalheiro. Elogiou a adversária, tendo mesmo ido buscar a questão da luta pelo estatuto do cuidador informal – Marcelo, o hábil analista, fez, como se esperava, um bom trabalho de casa – elogiou o Bloco e até pediu ao moderador para deixar Marisa Matias concluir, quando Carlos Daniel queria passar a palavra ao presidente em funções. Gostava, sinceramente, de ver um Marcelo que não fosse a jogo com a eleição ganha. Assim é só chato. E, no meio do aborrecimento, onde ambos estiveram bem, parece-me, Marisa soube mostrar as garras, mas a teia de Marcelo ocupava já todo o estúdio.

No segundo, a antítese. À primeira pergunta, dirigida a João Ferreira por uma moderadora incapaz de segurar um André Ventura full-Trump mode, o líder do Chega demorou poucos segundos para começar a interromper ininterruptamente o adversário, com piadolas, risos histéricos e chavões. A escola CMTV de discussão futebolística hardcore. Foi um debate penoso. Ventura falava na sua vez e na vez de Ferreira, repetia a táctica Venezuela-URSS-Coreia do Norte (alguém o avise do bromance entre o seu ayatollah Trump e o seu amor norte-coreano, Kim) à exaustão, e tanto se esforçou que lá conseguiu, mais para o final, arrastar João Ferreira para o seu território: a lama. E conseguiu o que quis: caos e histeria. E a moderadora terminou o debate como começou: ausente. Um péssimo debate, excelente para perceber o manipulador populista que André Ventura é.

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Sobre a miséria que alimenta o fundamentalismo religioso

Um destes dias estive a ver um episódio do Toda a verdade, na SIC, numa edição dedicada ao Paquistão. Num país onde reina a miséria, centenas (milhares?) de crianças trabalham desde tenra idade, nos fornos de tijolos, na periferia de Islamabad. Algumas têm 5 anos, nunca foram à escola e recebem uma miséria por turnos de 14 horas de trabalho duro, que compromete o seu crescimento e a sua saúde.

Trabalham porque os pais não têm dinheiro e mal conseguem pagar uma alimentação digna do nome, sempre a léguas dos padrões de decência mínima. E são alvos fáceis para os fundamentalistas islâmicos, que andam à pesca em locais como este, prometendo casa, conforto, comida e estudos, em troca de uma vida de obediência cega na madrassa, onde serão doutrinados na interpretação mais extremista da Sharia, com o alto patrocínio, como tantas outras, de oligarcas de estados poderosos como a Arábia Saudita. [Read more…]

Ano Europeu do Caminho de Ferro


2021: European Rail Year 
A todos, um ano cheio de bons momentos, boas viagens!

R.I.P.


2021 a começar mal, deixou-nos o fadista Carlos do Carmo, a obra permanecerá bem viva nas nossas memórias.

2020: o ano de todas as pandemias

2020 foi um ano difícil, que pode ser resumido em poucas palavras: vírus, epidemia, pandemia, medo, confinamento, distanciamento social, máscara, álcool-gel, negacionismo, contágio, zaragatoa, teste, ventilador, profissionais de saúde, SNS, layoff, crise económica, vacina e morte. Talvez pudessem ser acrescentadas mais algumas, que nem me ocorrem nem me apetece procurar, porque não pretendo fazer disto uma obra científica, mas este foi o léxico dominante, durante os nove últimos meses. E, não nos iludamos, continuará a sê-lo.

Muito foi dito e escrito sobre a pandemia. Da “gripezinha” à falsa sensação de segurança, passando pelas habituais conspirações, amplificadas pela ignorância militante, de repente éramos 7,8 mil milhões de especialistas em saúde pública, virologia e gestão de crises. Por cá fomos bestiais, depois bestas, e, quer-me agora parecer, terminamos o ano como culpados pelo agravar dos números. E não, não saíamos mais unidos, mais conscientes ou mais humanos de tudo isto. Saímos como entramos, com as nossas virtudes e defeitos, adaptados ao novo normal que, esperamos, já seja uma recordação distante daqui por um ano. [Read more…]

Sobre ser demasiado, ou as quotas de género

César Alves

A notícia dizia que a Câmara de Paris tinha sido multada por empregar demasiadas mulheres. Veio logo aquele arrepio na espinha: que raio de situação era essa, ainda por cima não sendo saída de um qualquer país demasiado conhecido pelo facto de as mulheres serem cidadãs de segunda?

O problema era simples: a lei das quotas de género, instaurada em 2013, que prevê que nenhum género esteja representado acima dos 60%, foi violada, uma vez que a Câmara de Paris emprega 69% de mulheres. A presidente do executivo, Anne Hidalgo, fez da multa um acto de activismo, assumindo a felicidade por ela e prometendo entregar pessoalmente o cheque.

Eu percebo genuinamente esta felicidade, uma vez que o problema da desigualdade entre homens e mulheres é gravíssimo, demasiado pesado e estrutural. Não a percebo do ponto de vista dos objectivos daquela lei que, desde a sua origem, tem pouco sentido. [Read more…]

A melhor história de 2020

A melhor história de 2020? No estado da Virgínia um grupo de moradores resolveu homenagear Anthony Gaskins, um funcionário da UPS.
Durante anos Anthony entregou cartas e encomendas, sempre sorridente e cumprimentando toda a gente. Nas semanas de confinamento, Anthony não só manteve um serviço eficaz como passou a bater à porta das pessoas para fazer entregas ou apenas para saber se estavam todos bem. Foi um apoio presente nos dias mais complicados, sendo inclusive um dos primeiros a ajudar quem se mudou para aquela localidade durante a pandemia.
Esta semana centenas de moradores organizaram-se para agradecer ao seu carteiro de forma sincera e bonita de se ver, como se pode comprovar no vídeo com a peça da ABC News. Sou fã destas coisas, destas pequenas coisas.
Paulo Franzini

Iluminismo Às Escuras: ideologia ou deriva ideológica?

  Há uns quantos iluminados que confundem o plano ideológico com o plano terreno. Ou então não é confusão, é propósito.
  Deixo aqui o meu manifesto, de uma forma redutora, mas para que não haja dúvidas: sou de esquerda, sou socialista democrata, defendo uma economia democrática, baseada no serviço público e posta em prática por cidadãos conscientes dos seus direitos e deveres em democracia política. Sou socialista, mas também sou democrata. Aliás, antes de ser socialista, sou democrata. Rejeito qualquer tipo de autoritarismo e totalitarismo partidário, rejeito regimes opressores de partido único, rejeito a repressão e a opressão, seja ela de direita ou de esquerda. Sou neto da democracia, da qual os meus pais são filhos e os meus avós são pais. O meu último objectivo, enquanto cidadão e enquanto pensador, é destruí-la. Por tal, não confundo teoria ideológica com a História real; como também não confundo a legítima fé dos Homens com fundamentalismos religiosos.
  Como tal, cada vez mais vejo pessoas da minha geração que parecem não ter aprendido nada com a História e, montadas no ideal (porque hoje o ideal vale mais do que o pensar sozinho), desbravam novos contos de fadas, onde partidos totalitários não são, afinal, assim tão totalitários, onde regimes imperialistas opressores não foram, afinal, tão imperialistas e opressores como pareciam e onde ditadores sanguinários que mataram em nome de um ideal não eram, afinal, tão assassinos como a História mostrou que foram.
  Ter um ideal não nos impede de nada. Não nos impede de questionar, não nos impede de abominar regimes opressores e não nos impede de preferir, sempre, a democracia ao totalitarismo. Identificando-me como socialista democrata, o partido com o qual melhor me identifico com assento parlamentar é o Bloco de Esquerda. Ora, o BE, de raízes pluri-dimensionais, nasceu por oposição a dois partidos: em primeiro lugar, ao PCP, por rejeitar os laivos autoritários e totalitários em que o PCP e os partidos comunistas clássicos redundam; e, em segundo, ao PS, por rejeitar o socialismo dito “real” e uma aproximação do socialismo e da social-democracia à direita. O Bloco de Esquerda é, e sempre foi, um partido que concentra em si várias formas de pensar, à esquerda, diferentes de si mas compatíveis entre si: desde marxistas-leninistas (uma minoria no partido), a trotskistas mandelistas (grande parte da formação do partido foi assente na ideia trotskista de combater o regime opressor soviético) e a socialistas democratas e a sociais-democratas. Não fosse o BE um “partido-de-partidos” (isto é, com base de fundação assente em vários partidos: a saber, UDP, PSR e Política XXI) e não haveria a pluralidade ideológica e de pensamento que existe no Bloco de Esquerda. É também por isto e levado por esta ideia de pluralidade que gosto do BE. Aconselho a leitura do manifesto fundador do partido, de 1999, e deixo aqui o link: https://www.bloco.org/media/comecardenovo.pdf
  Não posso é aceitar que um partido onde me encaixo albergue em si retorcidos mentais que são capazes de enaltecer atrocidades como as que se passaram na antiga URSS e tenham um discurso pró-Partido Comunista. Sei que os há, no Bloco de Esquerda. E, não sendo eu filiado, pouco ou nada posso fazer em relação a isso, senão repudiar e deixar aqui o testemunho da vergonha que sinto por tais factos e dizer-vos que não perceberam nada sobre como o BE surgiu e se fez notar. Comigo não contam para essa “esquerda alternativa” que mais não quer do que uma esquerda antiga baseada na usurpação dos poderes e assente na ladainha dos “trabalhadores e do povo”. Comigo não contam.
  Socialismo, por convicção e pensamento. Democracia, pela Humanidade e contra qualquer tipo de autoritarismo político.

Vem aí uma época de reforço de Lobbies…

Em vésperas de Portugal assumir a Presidência do Conselho da União Europeia, mais de 60 organizações da sociedade civil portuguesa subscreveram uma carta aberta exigindo que, em especial durante este período, o interesse público seja colocado acima dos interesses empresariais. Concretamente, a carta apela a que:

  • o Governo português assegure que os interesses empresariais não tenham acesso privilegiado às suas decisões durante a Presidência (e para além dela)
  • sejam promovidas políticas livres de interesses da indústria de combustíveis fósseis. E acrescenta: “Foi chocante saber que o plano de recuperação do coronavírus do Governo português foi elaborado por um representante da indústria dos combustíveis fósseis. Este tipo de acesso privilegiado deve terminar imediatamente; é contrário ao interesse público e profundamente inapropriado.”
  • seja defendida a transparência legislativa e de lobbying, sendo o Governo instado a “impulsionar o seu registo nacional de transparência dos lobbies, implementando urgentemente a proposta de lei nacional sobre lobbies.” e
  • que o Governo português abra o seu processo de tomada de decisões sobre a UE para permitir o escrutínio por cidadãos e deputados portugueses, afirmando a carta que: “os deputados em Portugal não têm grande capacidade de responsabilizar o Governo pela sua tomada de decisões da União Europeia, nem de escrutinar essas posições antes de serem apresentadas em Bruxelas.

Enfim, vamos tentando fazer ouvir a nossa voz nesta luta de David contra Golias…

Nenhuma nação foi bem-sucedida pondo em prática políticas de esquerda, excepto todas as que foram

Sempre que alguém ousa tecer uma crítica aos abusos do capitalismo, na sua forma mais selvagem e desregulada, rapidamente surge alguém que nos recorda uma de duas coisas (ou ambas): que 1) Cuba e Venezuela existem e que 2) nenhuma nação foi bem-sucedida pondo em prática políticas de esquerda.

Sobre o primeiro ponto, é interessante verificar que raramente se traz a China para esta equação, apesar de se tratar de um regime que monitoriza, persegue e oprime os seus cidadãos como nenhum, talvez com a excepção da Coreia do Norte. Imagino que tal não seja alheio a uma das características desse incriticável capitalismo, na sua forma mais selvagem e desregulada: a China é o seu motor. E porque, é bom dizê-lo, não faltam governos e governantes, no ocidente democrático, a sonhar com um poder (proporcionalmente) igual ao de Xi Jinping. Erdogan, Orbán, Bolsonaro, Borisov ou Morawiechi, os candidatos acumulam-se e já nem se dão ao trabalho de dissimular. [Read more…]

Massacre na Azambuja

Matar animais por satisfação pessoal é cruel, desumano, abjecto. Tenho para mim que existe uma linha que nos separa, humanos normais que cumprem mínimos de decência, dessa subespécie de homens e mulheres das cavernas que matam por um qualquer prazer sádico e doentio. Uma linha vermelha que separa a civilização da barbárie.

Massacrar animais não é caça. E se não é crime, talvez esteja na hora de legislar sobre o assunto, sem perder muito tempo. Porque a caça tem um propósito, ao nível do controle populacional, que, ao contrário de que alguns fazem crer, desempenha um papel fundamental na manutenção da biodiversidade. Mas isto não foi caça. Isto foi um massacre brutal, perpetrado por subgente hedionda que se regozijou com o resultado da matança. [Read more…]

O Chega como cavalo de Tróia do PSD

César Alves

Quem achasse que Portugal estava imune aos fenómenos de extrema-direita que, um pouco por todo o mundo, despontam, foi surpreendido pela ascensão meteórica de André Ventura.

O líder do Chega pode ser apenas a versão portuguesa do que se vê por aí mas, por outro lado, há a possibilidade de nos bastidores estarem a acontecer coisas, invisíveis aos nossos olhos, mas que daqui a uns anos nos façam pensar: como é que não vi isto.

André Ventura, ex-militante do PSD, foi candidato à Câmara de Loures, em 2017, pela mão de Pedro Passos Coelho. Com um discurso xenóbofo, dirigido à comunidade cigana, Ventura, apesar do 3º lugar, conseguiu melhorar o resultado face a 2013, numa autarquia historicamente comunista. [Read more…]

Vergonha nas Presidenciais: Tino de Rans fora dos debates

O presidente do Partido Reagir Incluir Reciclar – RIR, Vitorino Silva (Tino de Rans), momentos após entregar o seu processo de candidatura às Eleições Presidenciais, no Tribunal Constitucional, em Lisboa, 23 de dezembro de 2020. JOSÉ SENA GOULÃO/LUSA

Tino de Rans, por opção das três televisões, não participará nos debates frente-a-frente que ocorrerão nos dias 2 a 9 de Janeiro.

A candidatura de Tino tem, à face da Lei e da Democracia, o mesmo valor de todas as outras. Esta exclusão revela de um elitismo absolutamente escandaloso. O facto de a televisão pública ser cúmplice desta situação é ainda mais vergonhoso, mas, em Portugal, a televisão é pública para receber dinheiro e privada para o gastar.

Os restantes candidatos têm, aqui, uma ocasião para confirmar que fazem, verdadeiramente parte do jogo democrático. É fácil: deverão recusar-se a participar em debates, a não ser que esta situação seja alterada.

Este é, demasiadas vezes, o país do senhor doutor, do respeitinho e pasto da partidocracia. Há um cheiro a mofo muito perigoso, até porque a humidade pode dar cabo das fundações de uma casa.

Declaração desinteressante de interesses: até hoje, não estava a pensar em dar o meu voto a Tino de Rans.