Feliz Natal

A todos os autores, comentadores e leitores que nos visitam.

Breve pensamento avulso sobre a corrupção

Pensamentos lapidares de uma cultura nacional que vai custar muito mudar, para se conseguir melhores níveis de exigência e, também, de conduta:

  • Rouba mas faz obra.
  • São todos iguais.
  • Todos querem mama.
  • Se estivesses lá fazias igual.
  • Se eu pudesse também comia.
  • Não vai dar em nada.

E o mais lapidar de todos:

  • Estou-me a cagar.

Mudar isto é o grande desafio, pois não bastam leis. É preciso gente com vontade e com poder para o fazer.

Até lá, resta o estado de alerta reactivo da sociedade civil.

A Banalização da História

A História não é estática. Engane-se quem pensa que sim. A História é, antes de tudo, História. Contudo, o passado não nos pode amarrar nem, em sentido contrário, nos desprender. A História há-de ser sempre uma lição, um alerta e, sobretudo, um facto. Questionar a História faz-nos bem, desperta-nos e ensina-nos.

Há hoje uma tendência para a desvalorização histórica. O que não pode acontecer, não é aceitável e, em contra-senso, demonstra-nos uma falta de noção histórica de quem envereda pelo caminho da desvalorização e da falta de noção histórica.
Certas franjas à direita insistem hoje num discurso que envergonha a noção histórica.

Tenho ouvido, por mais do que uma vez, a comparação entre o tempo da Outra Senhora e os tempos que vivemos. Seja porque estamos hoje limitados na nossa liberdade de associação (por conta da pandemia), seja porque certa direita não aceita o Governo de esquerda que se encontra no poder. Desvalorizar os acontecimentos passados, comparando-os aos acontecimentos do presente é, antes de ser demagogia pura e dura, um “cuspir” na História e naqueles que a viveram. Antes de podermos entrar pela demagogia adentro e compararmos a democracia em que vivemos a uma ditadura passada, teremos de aprofundar as nossas noções históricas, quer sejamos de esquerda ou de direita.

A luta pelo regime democrático não pode escolher lados, mesmo que a ditadura que se instalou em Portugal durante mais de quarenta anos tenha sido de direita. A luta pelo regime democrático deve tocar-nos a todos: socialistas e todos no seu espectro, liberais e todos no seu espectro. Contra todo o tipo de extremismos: de direita ou de esquerda.

Quando se tenta encobrir e desdenhar tempos em que a PIDE ostracizava, perseguia, torturava e matava é desonesto, mas, acima de tudo, é uma atitude ignóbil e ignorante de quem não respeita nem estudou História. Compará-la aos tempos modernos é boçalidade. Repito: o combate aos nacionalismos, aos fascismos e aos atropelos contra a Humanidade, deve pertencer a todos os que acreditam na República e na Democracia.

Assumo-me de esquerda. Defendo o socialismo democrático. Num passado recente governou em Portugal um Governo de direita, encabeçado por Pedro Passos Coelho e apoiado em democratas-cristãos. Por muito que esse Governo tenha atropelado certos direitos e tido tiques de autoritarismo com cheiro a velho, nunca, mas nunca, o poderei equiparar a um Governo fascista, liderado por António de Oliveira Salazar, Governo esse que se regia pela opressão e repressão dos seus cidadãos, que se escudava numa polícia política impiedosa, injusta e assassina, e que reforçava o seu poder através das suas colónias.

A banalização da História é tema para os ignóbeis. O combate contra qualquer extremismo, seja de direita ou de esquerda, repito de novo, cabe a todos os democratas, sejam estes de direita ou de esquerda. O resto fica com a ignorância histórica. O resto, nunca mais.

Nos tempos modernos: fascismo nunca mais.
25 de Abril, sempre!

Aventando desde Belgrado

Fortaleza de Kalemegdan
Autor: Djordje Jovanovic

 

Chamo-me Paulo Franzini, sou natural de Vale de Cambra e resido em Belgrado desde 2011. É para mim um gosto juntar-me a este blogue de referência e largar também umas coisas ao vento. Para além dos temas normalmente aqui abordados, pretendo acrescentar algo sobre os Balcãs, ainda pouco conhecidos e quase exclusivamente associados aos conflitos que marcaram o fim da Jugoslávia. Mas acreditem em mim, os Balcãs têm muito para oferecer. Entre várias atracções destacam-se Belgrado, Sarajevo, Skopje (ou Escópia), a baía de Kotor no Montenegro, a costa da Croácia e Ljubljana. Conhecida como uma região montanhosa, apresenta várias riquezas naturais e um enorme acervo de contrastes culturais e históricos que influenciam desde a arquitectura a culinária.

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Quando um elogio é um insulto

João Miguel Tavares elogiou os professores. O Paulo Guinote já escreveu que dispensa certos elogios.

O combate às desigualdades sociais é muito complicado, especialmente quando as prioridades dos governos correspondem a outras áreas em que há fartura de desperdício de dinheiros públicos.

Essas desigualdades são especialmente revoltantes quando atingem crianças e jovens. São essas desigualdades que, se combatidas demasiado tarde, provocam atrasos culturais e mesmo cognitivos.

A Escola é, evidentemente, um das armas mais importantes desse combate. Por isso, retirar condições às escolas é criminoso – e os verdadeiros problemas continuam por resolver (número de alunos por turma, delírios curriculares, burocratização inútil do trabalho dos professores).

A dedicação de todos os que trabalham nas escolas é tão evidente e geral como frequentemente desvalorizada. E, na verdade, é nas escolas que muitos miúdos encontram pessoas que, fora da família, fazem alguma coisa por eles. As políticas sociais para a juventude assentam, então, em grande parte, na ausência do Estado e na presença da Escola. Acrescente-se que essa luta é feita, muitas vezes, para lá do que é imposto pela lei.

João Miguel Tavares e muitos outros opinadores chegam sempre a estes problemas com atraso ou acertam ao lado. Na maior parte dos casos, não querem saber. Como, de certo modo, já está instituído que as políticas sociais para a juventude se limita às escolas, o facto transformou-se em direito e passou a exigir-se às escolas que resolvam todos os problemas relacionados com a infância e com a juventude. [Read more…]

The Rio-Ventura emoji-chatice connection

Não se descarte a possibilidade de estarmos perante uma conspiração de assessores do PSD e do Chega, a soldo de socialistas, da extrema-esquerda ou da Venezuela. Ou, quem sabe, perante uma coligação informal que, em princípio, terminará no dia em que Ventura, triunfante, regresse ao PSD para tomar conta do aparelho. Seria uma grande chatice, é certo, mas os emojis compensarão a maçada.

Ana Gomes: nem carne, nem peixe

A transição de um certo eleitorado bloquista disposto a votar em Ana Gomes é real e preocupa-me.
A minha análise pessoal é a de que as pessoas, dispostas a votar em Ana Gomes, não estão a ver todo o panorama eleitoral e as consequências políticas que daí podem resultar. Marisa Matias vai a jogo com o apoio do Bloco de Esquerda, ao contrário de Ana Gomes, que sendo do Partido Socialista, não conta com o apoio do partido. As consequências políticas de um futuro resultado de Ana Gomes e de Marisa Matias são diferentes; porque Ana Gomes e Marisa Matias, mesmo estando as duas à esquerda, são diferentes e candidatam-se com programas e propósitos diferentes.
Quando a eleição acabar, Ana Gomes continuará onde está. E Marisa Matias também. Ana Gomes como comentadora num qualquer canal generalista, a levantar muito a voz e a dar uma sua opinião sobre um qualquer tema. Marisa Matias como deputada no Parlamento Europeu, eleita pelo Bloco de Esquerda, em representação da esquerda europeia e de todos e todas nós, portugueses e portuguesas que, à esquerda, querem uma Europa mais livre, mais justa e mais igualitária.
A transição de eleitorado que, em legislativas, vota Bloco de Esquerda e que, dia 24 de Janeiro, pretende votar em Ana Gomes, esquece-se que votar na Independente é enfraquecer a esquerda (que segundo as sondagens não perfaz, junta, a votação de Ana Gomes – e falo de Marisa Matias e João Ferreira) e fortalecer a extrema-direita de André Ventura, ficando este à frente dos candidatos da esquerda e apenas atrás de uma Independente sem apoio partidário e de Marcelo Rebelo de Sousa, que segue para uma re-eleição tranquila, com o apoio da direita mainstream (PSD e CDS), e que, mais à frente, essa ultrapassagem (pela direita) poderá ter repercussões em futuras Legislativas. Muito menos aceito que certas pessoas votem em Ana Gomes levados pela “promessa” de André Ventura, de que, ficando atrás desta, se demitiria do Chega: 1- é óbvio que não se demitirá; 2- mesmo que o fizesse, isso tiraria o Chega do Parlamento e da vida política? A resposta é não.
Há duas coisas mais ou menos certas: Marcelo Rebelo de Sousa será re-eleito e Ana Gomes ficará em 2º lugar, seja com 16% ou 13%. Agora é convosco decidir quem fica em 3º, se o candidato da extrema-direita ou algum dos candidatos da esquerda. Menos dois ou três pontos percentuais em Ana Gomes continuarão a mantê-la em 2º, mas mais 2 ou 3 pontos percentuais em Marisa Matias ou João Ferreira podem ser a diferença entre fortalecer a extrema-direita ou colocá-la atrás da esquerda.
Falo, especialmente, para os jovens. Pensem à frente: uma eleição não é apenas uma eleição. Muito menos esta. Quem se diz de esquerda aproveitará este clima de facções e polarização política para reforçar, com o seu voto, a esquerda. Signifique isto votar em Marisa Matias ou em João Ferreira, não em Ana Gomes que vai em representação dela própria, votando em consonância com o presente mas, acima de tudo, com aquilo que se perspectiva no futuro. E esse futuro, estou certo, não terá Ana Gomes como cabeça de cartaz. Mas poderá ter Marisa Matias e/ou João Ferreira.

O estranho caso de Ihor Homeniúk

A morte de um ser humano em Portugal sob tortura perpetrada pelo Estado português, seria, não há muito tempo, razão para um escândalo de contundente repercussão política.

Todavia, o que se assistiu foi a uma brandura de tratamento, transversal a toda a sociedade portuguesa.

Até a página da Amnistia Internacional  Portugal, não deu grande relevo a semelhante crime ignóbil (o nome de Ihor Homeniúke é apenas referido num texto recente).

Isto numa sociedade como a portuguesa, marcada, fortemente, por valores humanistas que fazem de nós, enquanto povo, gente com repulsa pela violação da dignidade humana, gente solidária e predisposta a acudir.

Além da habitual “exigência” de “apuramento de responsabilidades”, pouco mais ou mesmo nada a dita sociedade civil e as organizações políticas em geral exigiram sobre algo que deveria ter causado engulho e revolta.

Quando, recentemente, as rede sociais começaram a movimentarem-se na demanda por explicações, aos poucos lá começaram a aparecer algumas reacções.

Começou-se, então, a construir na comunicação social a ideia de que o que se passou com Ihor Homeniúk é um problema de procedimentos do SEF.

Uma bela forma de transformar um homicídio numa mera relação de causa/efeito. [Read more…]

Demita-se!

Faça um favor a si mesmo e ao país, Eduardo Cabrita. Ganhe vergonha na cara e demita-se.

É um favor que faz também ao Primeiro-Ministro, o qual já tem culpa por manter a “total confiança” política em alguém que não a merece. E ao fala-barato presidencial que até agora se manteve reservado.

Mas, sobretudo, é um serviço que presta ao país, face ao enxovalho que recebemos internacionalmente e, sobretudo, ao assassinato de uma pessoa por parte dos que exercerem funções no Estado português.

Um assassinato!

Cabrita diz que andou preocupado nove meses. E porém, isso não o impediu de mentir ao parlamento e de demorar 17 dias a abrir um inquérito, quando o assunto foi tornado público pela comunicação social. No SEF e no ministério, primeiro tentaram esconder, depois usaram a peneira para tapar o sol e agora, apertados, estrebucham.

Sobre a ideia do botão de pânico, é uma constatação de que há motivos para pânico quando alguém vai ao SEF.

Dissolver o SEF? O problema não é a estrutura, mas sim as pessoas dessa estrutura. E estas não vão desaparecer. Mais do que mudar a estrutura, importa mudar os comportamentos que conduziram a este crime. Assim, com o que está a ser feito, mais parece um movimento para proteger o ministro do que uma tentativa de se resolver o problema.

Concluindo, é mais um episódio, este o mais grave de todos, de um ministro que não tem auto-crítica quanto ao que diz e faz.

Putin falou

 

Depois da Rússia ter dado os parabéns a Joe Biden ficaram os republicanos autorizados a reconhecer a vitória de Biden. Se assim não foi, parece.

O minion também abriu o bico.

Falta só arrumar o looser na prateleira dos candidatos a ditadores que viram o poder lhes escapar por inépcia própria, já que ele não se arruma a si mesmo.

Fecha-se metade do circo. A outra metade, essa que prefere ver gigantes onde há moinhos de vento, ainda continuará na sua bolha, encapsulados num mundo onde cabe a Terra Plana, o QAnon e a vitória de Trump.

Em Portugal, há quem seja condenado por fatos

Music with classical colours and a jazz touch, but fundamentally using the structure of pop music. (1)
A chord is made up of a tonic, a “third” (3 notes above the tonic) and a fifth. It’s the third that determines if it is major or minor. A tonic and a fifth is an “open” interval, like my two favorite notes C and G (also my initials) , a sound that is neither major nor minor. If the third is raised (E), it’s major. If it is lowered to the left (E flat), it is minor. Move your finger back to the right, and it’s major again. Left -minor. Right – major. Right-wing politics, left-wing politics… it’s all there. (2)
Chilly Gonzales

***

Efectivamente, em Portugal, há quem seja condenado por fatos relativos à prossecução dos seus objectivos e, como é sabido, há quem se esteja a marimbar para isso, nomeadamente quem nos meteu neste sarilho.

Que sarilho? Não sabeis?

Ei-lo:

Por vezes, em momentos destes, apetece-me fazer como Chomsky e dizer:

You just took me from the middle of a long article on new technical work to try to extend what’s called the Minimalist Program, which is an effort to provide genuine explanations for linguistic phenomena, by reducing them to elements so elementary that they satisfy conditions of evolvability and learnability, which are very narrow and strict empirical conditions. So it’s basically trying to show that, to put it kind of fancifully, that mother nature designed language as a perfect system for expression of thought – not very good for communication. That was not a consideration. But it’s very well designed for expression of thought. And it may, in fact, constitute thought- traditional view – which is not implausible, which, if correct, means that people like you are the only organisms with thought in the entire history of life and maybe in the entire universe.

Os meus votos de muita saúde, com Óptimas Festas e um Espectacular 2021.

Até para o ano.

***

Em causa: a coragem dos Ministros da Energia em relação ao TCE

Ontem e hoje está a decorrer a reunião do Conselho de Ministros da Energia da UE. Em cima da mesa, devido à enorme pressão da sociedade civil, está o Tratado Carta de Energia (TCE) – o maior obstáculo à luta contra as alterações climáticas na Europa.

É este um momento especialmente explosivo, dois dias antes da Conferência da Carta da Energia, que se realiza quarta-feira/quinta-feira desta semana.

Conseguirão os Ministros aprovar uma estratégia para a retirada colectiva da UE do TCE?

Até agora, os governos têm-se remetido para o processo de modernização do TCE que está em curso. Mas as alterações relevantes ao tratado exigem unanimidade dos membros, o que, segundo revelam as negociações, não é atingível. [Read more…]

Portugueses que sabem que houve fraude nas eleições americanas

Há portugueses que têm a certeza absoluta de que houve fraude nas eleições americanas. Viram, com aqueles olhos que a terra há-de engolir ou que o crematório reduzirá a pó, vídeos e provas (evidências, em português técnico) que mostram irrefutavelmente a vergonha que foi a eleição de Joe Biden.

Eleição, ponto e vírgula, que aquilo não foi eleição nenhuma, foram truques atrás de truques, porque há coisas que não passam cá para fora.

(coisas que não passam cá para fora é uma expressão que só conseguimos encontrar em ambientes altamente especializados, frequentados por especialistas doutorados pela universidade da vida, do balcão de café e das caixas de comentários. As coisas que não passam cá para fora são escondidas lá dentro por gente que não quer que se saiba. Os especialistas em coisas que não passam cá para fora têm, no entanto, acesso privilegiado a toda essa informação. Aquilo que garante que sabem de que é que se está a falar fica patente em afirmações como “e mais não digo”, que é, no fundo, um diploma oral, ou “você sabe muito bem de que é que estou a falar”, frase acompanhada de uma fungadela elucidativa e de um sapiente arquear de sobrancelha) [Read more…]

Brandos costumes pidescos

Assinalou-se, na Quinta-feira, o Dia Internacional dos Direitos Humanos, e o momento não podia ser mais oportuno, na medida em que o país parece ter acordado para o estranho caso do cidadão ucraniano que foi espancado e torturado até à morte por inspectores do SEF, nas instalações desta força de segurança, no aeroporto Humberto Delgado. Uma bela forma de homenagear o resistente antifascista que dá o nome à infraestrutura.

Qual é o problema desta nossa indignação colectiva? É que já passaram nove meses desde que este atentado contra os direitos humanos foi perpetrado. E, com a excepção de algumas jornalistas, como Valentina Marcelino, Fernanda Câncio, Joana Gorjão e Daniel Oliveira, entre (poucos) outros, a opção pelo silêncio foi geral. Não tendo o caso sido abafado, pouca importância lhe foi dada nos headlines e alinhamentos noticiosos. As redes sociais, sempre implacáveis, não ebuliram como habitualmente acontece com casos de racismo, ou de tiradas xenófobas da extrema-direita. Um silêncio que envergonha, mais ainda por ter feito parte dele. [Read more…]

Pessoas que dizem que os outros têm mas é inveja

A crítica é algo tão desagradável que chega a ser desagradável até para o crítico. O criticado nunca gosta – é como perder um jogo: pode-se disfarçar, pode haver contenção, uma piada descontraída, mas é sempre mau.

São várias as reacções do criticado. Se for educado, será contido, declara que aceita, mentindo em grande parte, mas pensando sempre que a crítica é o fumo que prova a existência de um fogo.

Há, contudo, muitos mais espécimes. Há o criticado que afirma aceitar a crítica, mas. E a seguir ao mas, vêm desculpas não necessariamente esfarrapadas, porque também há desculpas bem vestidas, perfumadas.

Dentro do criticado nitidamente desagradado, há uma grande variedade de raças. Uma delas é o que critica a crítica, reclamando que seja construtiva. Ora, a verdade é que a crítica só é bem feita se for destrutiva – porque a crítica serve para destruir, cabendo ao criticado reconstruir a partir das ruínas.

O meu preferido, entre os desagradados, é o criticado que acusa os críticos de serem unicamente motivados pela inveja. Neste caso, o crítico só critica porque, no fundo, quer ser como o criticado.

Um dos mais conhecidos exemplares desta variedade é José Rodrigues dos Santos (JRS), acolitado por muitos dos seus fiéis. Diante das críticas de que é alvo nas várias actividades que pratica, JRS limita-se a acusar os outros de [Read more…]

A minha social-democracia é melhor do que a tua

Vejo por aí muita indignação com a afirmação de Marisa Matias, que se autoproclamou social-democrata. Vinda dos lados do PSD é irónico, visto tratar-se de um partido que, de social-democrata, tem apenas o nome. Poderá até tê-lo sido até ao início da década de 80, mas fechou a social-democracia numa gaveta, há muitos anos, e nunca mais de lá a tirou.

Vamos a factos: o PSD é um partido de direita conservadora, cada vez mais liberal no que toca a políticas económicas, característica que se começa a evidenciar com Durão Barroso e que atinge o ponto alto com Passos Coelho. Já a social-democracia, ideologia progressista que se situa no centro-esquerda do espectro, é filha do socialismo e neta do marxismo. [Read more…]

André Ventura, a voz de toda a direita

Entre muita direita, mesmo a católica, há a ideia de que só está desempregado quem quer ou só é pobre quem não tem mérito para ganhar dinheiro.

O Chega, para viabilizar a geringonça açoriana, impôs a redução dos apoios sociais no arquipélago. Os pobres e/ou os desempregados têm é de se fazer à vida.

Essa mesma direita – que inclui o PS do Manuel Pinho que aconselhava a investir em Portugal, porque temos salários baixos – está sempre a gritar que é preciso criar uma legislação laboral mais flexível, que é preciso poder despedir mais facilmente.

André Ventura vem, agora, com a ideia de que é preciso pôr essa malta do Rendimento Social de Inserção (RSI) a trabalhar, continuando a pagar-lhes o mesmo.

Não sei se isto é próprio da esquerda, mas acredito que, num país civilizado, é assim: o trabalho implica salário e não esmola ou subsídio. Há trabalho para se fazer? Pague-se um salário.

É verdade que o Estado é um dos patrões que mais se alimentam de vários embustes, como o de não abrir vagas necessárias na Função Pública, impondo a precariedade – basta ver os milhares de professores que trabalham há anos sem vínculo, o que mostra que são necessários ao funcionamento de um sistema que só lhes quer pagar o mínimo possível, uma espécie de trabalhadores à jorna, carne para canhão. O inaceitável praticado por uns não torna aceitável qualquer inaceitável.

Ventura não diz as verdades, mas diz aquilo que muita gente de direita gosta de ouvir e nem sempre tem coragem para dizer, por saber que é eticamente vergonhoso. A subida do Chega faz-se à custa, aliás, desta gente que não gosta de sociedade e que prefere a selva, aquela em que apenas sobrevivem os mais fortes. Ventura é só um PSD que perdeu a vergonha.

Daniel Oliveira ARRASA André Ventura

Quando Ana Gomes anunciou a sua candidatura a Belém, André Ventura afirmou, sem rodeios, que se demitiria da liderança do Chega, caso ficasse atrás da antiga eurodeputada socialista.

Várias sondagens depois, com André Ventura sempre atrás de Ana Gomes, que não precisou sequer do apoio oficial do PS para se destacar no segundo lugar em todos os estudos de opinião, o representante da extrema-direita começou a virar o bico ao prego, porque a sua palavra tem sempre o mesmo valor: o que melhor se adequar às suas necessidades momentâneas.

Daniel Oliveira “apanhou-o na curva” (expressão oportuna, nestes tempos áureos do motociclismo nacional), recordando-lhe a promessa do candidato presidencial Ventura, enquanto limpava o chão do Twitter com o político profissional do sistema que diz combater os políticos profissionais do sistema.

Com tanta discussão sobre pandemias, vacinas e crises económicas, ver a extrema-direita ser exposta, todos os dias, sempre vai dando algum alento.

Proibiccionismo vs Liberdade

Vivemos numa ditadura do politicamente correcto, quem não segue a cartilha ou pior, quem ousa discordar publicamente da cartilha que governa a choldra, é vilipendiado, desacreditado. A sociedade de forma bovina acata as orientações dos hipocondríacos e riscofóbicos que influenciam os governantes. A comunicação social serve de correia de transmissão, nos noticiários os jornalistas opinam, as reportagens de rua editadas, apenas mostram opiniões concordantes com as medidas em vigor, tudo à boa maneira das ditaduras. Apenas os maluquinhos negacionistas das teorias conspirativas ou teorias pela verdade, recebem algum destaque, apresentados como bizarria. [Read more…]

Do Mataste-os, Miguel à morte do homem branco

Miguel Oliveira, o nosso herói em duas rodas, venceu o Grande Prémio de Portimão. O seu director, no final, disse-lhe “Mataste-os, Miguel!”

Éder, o herói de um golo só, gritou em público, no meio das comemorações do Europeu de 2016: “Amanhã, é feriado, caralho!”

Num mundo em que se tomasse tudo à letra, Miguel Oliveira estaria a ser interrogado pela polícia e milhares de trabalhadores teriam ficado em casa por ordem de Éder.

Mamadou Ba defendeu, num vídeo, que é preciso “matar o homem branco assassino, colonial e racista”. Houve gente de uma certa direita que preferiu parar em “branco” e gritar que houve ali incitamento ao ódio, racismo e tudo.

Efectivamente, essa certa direita vive muito preocupada em demonstrar que não há racismo estrutural ou que não há racismo ou que o anti-racismo é outra espécie de racismo. No fundo, essa direita é filha de gente que nunca se conformará com esta mania da igualdade e que vê com maus olhos os filhos dos proletários e dos escravos de há cem anos que se atrevem a dizer o que pensam.

Dir-se-ia que a direita tem dificuldades cognitivas e que, por isso, não sabe lidar com metáforas. Seria redutor e insultuoso para a inteligência de tantos.

Há casos de grande inabilidade no uso das metáforas, é certo: há uns anos, Assunção Esteves chamou “carrascos” a vítimas que se queixavam. Os mesmos que hoje se indignam com Mamadou, por desejar o fim da toxicidade, ficaram, então, muito calados. Percebe-se: os que protestavam pertenciam a uma raça inferior.

Águia ganha. Pára o susto.

Exactamente, é possível. E repete-se.

Um professor diz que “é a cereja no topo do bolo”

Efectivamente: «Setor diz que “é a cereja no topo do bolo” para acabar de vez com a atividade».

Presidenciais 2021

Nas próximas eleições presidenciais, irei votar Tiago Mayan Gonçalves. Quem habitualmente me lê, não ficará surpreendido com a minha escolha, porque não sendo militante, assumi ter votado IL nas europeias e legislativas em 2019.
Faço votos para que todos os portugueses se desloquem às assembleias de voto a 24 de Janeiro de 2021, para escolherem o candidato da sua preferência. Apesar da tentativa em transformar o acto num plebiscito a Marcelo Rebelo de Sousa, alternativas não faltam, da esquerda à direita, Marisa Matias, João Ferreira, Ana Gomes, Tiago Mayan, André Ventura, sem esquecer opções menos ideológicas como Vitorino Silva, mais conhecido por “Tino de Rans”. [Read more…]

António Costa, orgulhosamente só

Foto: Global Imagens@Notícias ao Minuto

Após as Legislativas de 2019, António Costa recusou acordo formal à esquerda, e optou por sujeitar o seu governo minoritário ao geometria variável do parlamento.

Meses mais tarde, afirmou, de forma categórica, que, se que se precisasse do PSD para governar, o governo caia, derrubando a única ponte possível à direita, ainda antes da venturização de Rui Rio, que, até então, se ia mostrando aberto a alguns entendimentos.

Agora, isolado por culpa própria, totalmente dependente do PCP, do PAN e das deputadas não inscritas, já que o entendimento com o BE se tornou praticamente impossível, dispara em todas as direcções e acusa os restantes de empurrar o país para a ingovernabilidade, quando é o próprio António Costa o principal responsável por este desfecho. E eu que cheguei a pensar que era Rio quem queria eleições antecipadas.

O grande Vítor Oliveira partiu

Mais ainda do que a morte de Maradona, que sempre foi exímio a rebentar com a sua saúde, ou de Reinaldo Teles, apanhado nas malhas impiedosas da covid-19, encontrando-se em estado grave e ligado a um ventilador desde final de Outubro, choca-me a morte repentina do grande Vítor Oliveira, treinador que tanto deu ao futebol português, especialista na subida de equipas do segundo escalão para a Primeira Liga, e que passou pelo clube da minha terra, o CD Trofense. Hoje foi fazer a sua caminhada matinal, sentiu-se mal e já nada houve a fazer. Tinha apenas 67 anos e deixa um vazio no futebol português que não mais será preenchido, pelas características únicas de um jogador-treinador que passou por duas dezenas de clubes e que ficará para a história como o Rei das Subidas. Respeito pelo percurso inigualável e paz à sua alma.

O *Eletric e os seis *fatos de ontem no sítio do costume

I hate what computers have come to represent in a certain form of music.
Atticus Ross

In fact, learners may need instruction regarding particular sound sequences in the second language in order to overcome phonological bias that is transferred from their first language.
— Kilpatrick & Pierce (2014)

In fact, the study of electrical contacts has led to important conclusions in the theory of friction.
— Jones (1947)

***

Uma das consequências do Acordo Ortográfico de 1990 diz respeito ao impacto negativo na capacidade de falantes/escreventes de português europeu se exprimirem em determinadas línguas estrangeiras, quer oralmente, quer na escrita. Há muitos anos, a propósito do célebre “One Diretion“, receei que em português europeu o Having trouble with my direction /Upside-down, psychotic reaction dos The Cult pudesse ser transcrito como Having trouble with my diretion/Upside-down, psychotic reation. Ora, há dias, descobri que o álbum desta extraordinária canção foi vítima em português do Brasil deste fenómeno nada inesperado. Efectivamente, alguém grafou Eletric (em vez de Electric), o que é perfeitamente compreensível e só surpreenderá quem andar por aí muito distraído.

Os que andam por aí distraídos, dizendo aos quatro ventos que isto está a correr bem, não terão também reparado [Read more…]

Pela liberdade, sempre!

Hoje é dia 25 de Novembro. Há 45 anos, um golpe militar evitou que Portugal caísse numa ditadura comunista. Apenas nesse dia se cumpriram os verdadeiros valores de Abril, a democracia e a liberdade. Só podemos considerar que luta pela liberdade aquele que o faz de uma forma desinteressada. Quando o faz por todos e não apenas por alguns.

Hoje não é dia para discutir que dia 25 é mais importante, visto que foram diferentes. Um acabou com uma ditadura e o outro evitou uma que não temos ideia que consequências teria. Hoje também não é dia para apenas a direita celebrar esta data, até porque o Golpe teve influência de forças centro-esquerdistas.

O dia 25 de Novembro deve servir para nos fazer refletir sobre a nossa democracia. Temos várias franjas moderadas dependentes dos seus extremos e estamos todos a deixar que isso se normalize. O clubismo político está a sobrepor-se ao bom sentido democrático. E a melhor forma de combater este fortalecimento dos extremos não é apenas identificá-los, mas sim perceber o que leva às pessoas a optar por estes caminhos que podem pôr em causa aquilo que conquistamos.

Há valores básicos que não podem ser apropriados por ninguém, venham da esquerda ou da direita. 45 anos depois da última data realmente importante para continuarmos num país democrático, isto já não deveria ser tópico de conversa.

Que se unam os verdadeiros democratas e não deixem a liberdade refém de uma minoria. Há momentos em que a melhor ideologia é a decência.

 

VIVA O 25 DE NOVEMBRO!

Processo Reaccionário de Equivalência a Calimero (PREC)

Está em curso o Processo Reaccionário de Equivalência a Calimero (PREC), seguido pela Direita portuguesa, na esteira de um Trump que não aceita perder eleições e de polacos e de húngaros que se queixam desse empecilho que é o Estado de Direito.

A Direita portuguesa, que era tão nação valente e imortal, tão heróis do mar (preferindo, contudo, o povo pobre ao nobre povo), tão Chaimite, tão peito ilustre lusitano, anda, agora, combalida de tantas queixinhas, sempre tão desgostosa com a democracia ou por causa da democracia. Ainda recentemente, em 2015, lacrimejou e fez beicinho porque o funcionamento democrático ditou uma maioria parlamentar muito feia, de barbas e camisas aos quadrados, com seringas para velhinhos e caninos afiados para as criancinhas. [Read more…]

Chega ilegalizar o Chega?

Há quem defenda que o Chega é um partido ilegal ou que é necessário ignorá-lo para não se correr o risco de lhe dar visibilidade.

Em primeiro lugar, a expressão “partido ilegal” é um paradoxo, num Estado de Direito. O Chega existe e tem um deputado na Assembleia da República. Isso chega para estar dentro da legalidade.

Mas não temos o direito a apresentar queixa, se acreditarmos que existem indícios de inconstitucionalidades no programa, nas acções ou nas declarações do Chega? Com certeza que sim, mas reduzir o combate político a isso é superficial e, portanto, perigoso, até porque não basta estar convencido de ilegalidades, é preciso prová-las. O que fazer enquanto isso não acontece ou se nunca chegar a acontecer? Relembre-se, por exemplo, que o Partido Nacional Renovador (actual Ergue-te) existe e concorre a eleições.

Mais vale acreditar que o Chega é legal, como foram e são legais partidos tenebrosos, alguns, com responsabilidades governativas, muitos, responsáveis por coisas inomináveis.

Mas o Chega não é perigoso? É muitíssimo perigoso, inimigo do Estado de Direito, praticante de um falso cristianismo elitista que despreza as classes baixas (a cruzada contra os apoios sociais é só um dos sintomas). A Quarta República do Chega é o futuro regresso ao passado. Por muito que o seu programa seja legal, as suas intenções e as suas declarações (ainda que comicamente contraditórias, como demonstra Ricardo Araújo Pereira) devem ser combatidas. [Read more…]

João Miguel Tavares, a culpa lusitana e o mito de Mário Nogueira

Na sua crónica de hoje, João Miguel Tavares (JMT) consegue o milagre de se afastar de muita direita que vê nos apoios sociais o grande problema da economia portuguesa. Há dias assim, em que JMT escreve menos abjecções.

Quanto ao resto do texto, concordo que Portugal é um país mal gerido, com desvios de receitas – impostos ou fundos europeus – para gastos desnecessários, numa sucessão de actos de corrupção legal e ilegal que fazem de nós um país bastante pior do que deveria ser.

Note-se, no entanto, a diferença: no princípio do texto, JMT consegue, como se viu, explicar claramente quem não tem a culpa. Quando começa a identificar os culpados, limita-se aos últimos dez anos e, pelo meio, como era previsível, deixa a Passos Coelho o papel de alguém obrigado a executar uma política pela qual não era minimamente responsável, o que é uma ficção querida a muita direita.

A história da má gestão portuguesa vem de longe e inclui, entre tanta coisa, a visão deslumbrada de gente que quis ficar na História, com base no folclore de obras inacabadas, como a subordinação de Soares e de Cavaco a uma Europa que impôs a destruição do nosso tecido produtivo, com passagem por uma longa tradição de favores com dinheiros públicos a interesses privados, com bancos e parcerias público-privadas a mamarem na teta dos impostos e na tendencial supressão de direitos ou nos cortes salariais (sempre em nome de uma produtividade sem verdadeiros incentivos que não sejam os de não cair na miséria). A dívida pública, que, por ser pública, todos somos obrigados a pagar, continua por ser verdadeiramente explicada, talvez porque não convenha a quem andou criá-la enquanto parecia estar a governar o país. [Read more…]