«Uma campanha mortiça, não por acaso, mas por tacticismo: Angela Merkel tem conseguido convencer todos de que a situação não tem saída, e muito menos requer visão prospectiva, isto é, políticas. A cultura política que foi construíndo ao longo dos últimos oito anos não deixa espaço para a crítica nem para o debate. Fá-lo apresentando todas as suas grandes decisões como sendo actos involuntários, movidos pela necessidade. E todos os seus erros como problemas sistémicos. (…) Os eleitores alemães não estão a receber informação suficiente, nem fazem ideia alguma sobre o futuro. Isto aplica-se a tudo. Assim vamos: dirigentes que estão na disposição de governar sem o envolvimento do povo, nem têm tempo para debates nem novas ideias.»
Um texto de Juliane Mendelsohn, aqui.
Nem vale a pena ir votar que a Merkel resolve tudo
Egipto: Irmãos muçulmanos e militares disputam o poder a qualquer preço
«Eis o que se pensa no Ocidente sobre a situação egípcia: uma experiência democrática estava em curso, o exército quis por-lhe termo, instrumentalizou o descontentamento popular para fazer um golpe de Estado. E lamenta a ingenuidade do povo egípcio, que preferiria submeter-se aos militares a confiar no presidente islamista que ele próprio elegeu. Incapaz de se vergar à longa aprendizagem da democracia, o povo egípcio teria esquecido todos os males que o exército lhe infligiu…
Não, o povo egípcio não esqueceu. Não esqueceu o que sofreu durante os dezasseis meses em que o exército governou de forma directa o país. A iniciativa que entretanto tomou não é, de forma alguma, uma escolha entre os militares e os Irmãos Muçulmanos. Ela representa uma nova etapa na marcha que empreendeu para afirmar a sua autonomia cidadã. Pois o povo egípcio deixou de ser um comparsa no teatro de operações do palco político. Adquiriu, desde Janeiro de 2011, um estatuto de actor autónomo e decisivo. E adquiriu esse estatuto, qualitativamente novo, não porque tenha derrubado o autocrata Mubarak, mas porque recusou a legitimidade do seu poder. Até então, no país dos faraós e dos sultões, esse poder não era apenas exercido sem limites e sem controlo. Era, ainda por cima, legitimado pelo conjunto da população. Por que razão aceitava, com a naturalidade de uma evidência indiscutível, um poder em relação ao qual não tinha qualquer ascendente? Porque esse poder, parecia-lhe, emanava de uma instância superior, transcendente. Porque representava, aos seus olhos, o reflexo na terra de um destino celeste. [Read more…]
Egipto: o longo caminho para a democracia
Ismail Serageldin, o director da nova Biblioteca de Alexandria, esteve recentemente em Portugal para receber o Prémio Calouste Gulbenkian 2013. Entrevistado para o jornal Público, falou daquilo em que acredita: no poder das ideias, e no pluralismo. No seu país vivem-se por estes dias momentos de confronto entre os partidários das velhas e das novas ideias, entre islamistas (que pretendem impor no Egipto a vontade da Irmandade Muçulmana) e todos os outros, que representam cerca de metade dos cidadãos eleitores. Islamistas que não costumam aparecer nos debates promovidos pela Biblioteca Alexandrina, “encontros de teor tendencialmente liberal [e não falamos de economia]”, diz Serageldin, de que compreensivelmente não participam, imaginando talvez que dessa forma essas outras ideias perderão relevância na sociedade. [Read more…]
Democracia sim, mas a minha
Anda a blogo-direita histérica por ter encontrado uma frase, com meses, de um deputado do PCP, perfeitamente óbvia e natural, basta não acreditar no fim da história para a entender. Ao mesmo tempo e nos mesmos espaço, no meio dela encontro esta afriamção, fresquinha, de Luís Naves:
Uma democracia implica muitos outros elementos, tais como mercado livre, imprensa plural, diversidade de opiniões,
A ideia de que só há democracia com “mercado livre“, muito respeitável no séc. XIX, vale no séc. XXI a responsabilidade directa pela crise europeia e não só: foi a liberdade dada aos mercados financeiros que a produziu, no dominó da salvação dos bancos e outros fundos mais que tóxicos. O resto é propaganda de treta. Mesmo que assim não fosse temos de convir que é um sentido muito restritivo de democracia: e se o povo votar contra o livre mercado, optando por um pacato programa social-democrata? não é democracia? e se amanhã o PCP for o partido mais votado, não pode formar governo, chama-se a NATO?
Vindo de quem recentemente defendeu com unhas e dentes Viktor Órban, o proto-nazi húngaro não nego que eleito mas questiono em que condições de “imprensa plural” (habitual sinónimo de pluralmente na posse dos donos dos mercados, como entre nós), não será de espantar. Depois admirem-se de a história continuar no sentido de um dia levaram com um safanões na propriedade privada, essa deusa que só não se adora quando se trata de arcar com o prejuízo bancário dos que nos têm governado.
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Pobres, parvos e de mãos atadas
Os manifestantes que irritaram a presidente actualmente em funções na Assembleia da República, Assunção Esteves, não passavam de agitadores para ali enviados pelo PCP, dizem-me vários. É provável. Em qualquer caso, o sindicalista Mário Nogueira andava por lá, e aquilo terá porventura sido uma acção combinada (os jornalistas das têvês referiram os olhares suspeitos que esses elementos presentes nas galerias ditas do povo da AR trocaram entre si antes da performance propriamente dita), e não uma reacção espontânea vinda de cidadãos ali reunidos de forma não-organizada.
No entanto, vale a pena observar a que ponto a indignação os tomou, como de resto tem tomado muitos mais que se têm manifestado desde que a vida em Portugal se tornou um verdadeiro inferno para a maioria – que são os que pagam a austeridade deste Governo, o IVA a 23% nas facturas dos fornecedores domésticos, as propinas imorais (no caso dos que ainda conseguem manter os filhos e netos a estudar), os cortes nas funções sociais do Estado (o aumento das taxas moderadoras nas consultas e urgências hopsitalares, por exemplo), e também a reforma dourada de Assunção Esteves. Comunistas ou não, as suas vidas (sejam eles trabalhadores, desempregados, aposentados ou pensionistas) estão transformadas numa luta pela sobrevivência que os indigna. [Read more…]
rUMAR para onde?
A UMAR elogia cegamente: “Saudamos Assunção Esteves, mulher inteligente e determinada, como segunda figura de Estado”, não percebendo que a guerra é entre classes e não entre sexos. A UMAR critica no facebook. E a Helena Pinto?
Queda de Assunção
Assunção Esteves é o que é. A senhora até me merecia respeito, é transmontana e eu tenho uma paixão por Trás-os-Montes, provavelmente por a minha mãe ser transmontana. Há mais coisas que Assunção Esteves tem em comum com a minha mãe. Transmontanas, reformadas e continuam a trabalhar. Ficamos por aqui. [Read more…]
Ideia
Depois do episódio de ontem, a Assembleia da República deve discutir o estado da Nação e o estado da Assunção.
184450000
Em euros, o valor do plantel do Sport Lisboa e Benfica.
386750000 é o valor do Chelsea.
São mais de duzentos os milhões que separam as duas equipas e o Chelsea tem um onze inicial com um valor médio de 35 milhões e o SPORT LISBOA E BENFICA um valor médio inferior a 17 milhões.
O Chelsea é o campeão europeu em título e o SPORT LISBOA E BENFICA ganhou um título semelhante há 51 anos, precisamente na Holanda.
O Chelsea pode ir ao Real Madrid buscar o melhor treinador do mundo e o SPORT LISBOA E BENFICA tem o Jorge Jesus.
Eles conseguiram cá vir buscar o David Luíz e o Ramirez, dando em troca dinheiro e, à época, um cromo – o Matic.
O Chelsea pode vir ao BENFICA comprar quem quiser e o BENFICA pode ir ao Chelsea buscar quem eles já não quiserem.
Seria um clássico da bola referir frases do tipo “David contra Golias”, “São onze contra onze” e tal…
Mas, no futebol, ganha mais quem tem mais dinheiro. Sempre. Ou quase. Tem sido assim em Portugal, tem sido assim na Europa.
Só a cegueira de adepto me permite ter a certeza que hoje, contra a Ditadura do Capitalismo, o pobre, de Vermelho, vai ganhar ao, Rico e Monárquico, equipado de azul.
Democracia
O Público de hoje traz depoimentos de 55 personalidades sobre aquilo que melhorariam na democracia portuguesa. Muitas das declarações não passam de colagens de banalidades românticas, ingénuas e tardo-adolescentes. Outras, pelo contrário, são estruturadas e fazem uma leitura política de um tema naturalmente político.
Serve esta introdução para dizer que, se houve depoimentos mais importantes e lúcidos do que outros, aquele que mais me tocou e melhor põe o dedo na(s) ferida(s) pertence a Gonçalo M. Tavares, e não é “político”, nem “programático”, nem sequer “objectivo”, muito pelo contrário: é metafórico, artístico e literário, na melhor acepção dos termos. No entanto, estas parábolas ilustram na perfeição a situação de “captura democrática” em que vivemos
1 –“O cantor”
Um pássaro foi atingido com um tiro na asa direita e passou por isso a voar na diagonal.
Mais tarde foi atingido na asa esquerda e viu-se obrigado a deixar de voar, utilizando apenas as duas patas para andar no chão. [Read more…]
25 de abril em Gaia: é urgente parar esta gente
A cada dia que passa fico mais convencido da sorte que temos em alguém se ter lembrado da limitação de mandatos

porque, pelo menos de forma egoísta, estamos livres de um problema. E a coisa está a atingir um nível completamente insuportável.
Então agora um quer, o outro não quer. Um diz que sim e o outro, não senhor, não vamos por aí?
E, as sondagens, tal como os pareceres são dos amigos?
Felizmente há no Aventar quem pense diferente de mim – é um sinal da nossa qualidade – mas eu já não tenho paciência para este tipo de política, que ignora as pessoas, que vive do folclore e do faz de conta.
Estou a exagerar?
Quem se lembra da promessa do Menezes, no programa do Mário Crespo, sobre a vacinação?
Pois, ao que parece e tal, não será bem assim e que afinal em Gaia as vacinas grátis devem chegar no mesmo comboio dos empregos. [Read more…]
O Tesouro de Manuel António Pina
25 de abril sempre e, por estes dias, mais que nunca!
Ainda Soares e a Esquerda Guilhotina
Portugal está literalmente sob um regime constritivo, imposto do exterior, no plano económico e em tudo semelhante ao de um estado em Guerra. Todo o nosso ambiente económico-financeiro está condicionado pelos ditames alemães e norte-europeus. Contra isto, nada ou muito pouco há a fazer que passe pela acrescida fragmentação e pelo extremismo ideologizante na sociedade portuguesa. Linha atávica e oportunista a alemã? Sem dúvida. No entanto, o problema português passará a ser ainda mais grave, mal nos disponhamos a devorar-nos uns aos outros como as ratazanas alegóricas de que fala o vilão de 007, Skyfall.
Ora, neste ponto, Soares não pode estar bem nem quantos advogam que o sangue mane das frontes e da jugular de Cavaco, Passos e quem mais Soares acha passíveis de um atentado. Não somos ratazanas, Dr. Soares. Pensei que a democracia e o respeito pelos adversários fossem dados adquiridos bem mais valiosos para si e não uma febre passageira da idade madura.
Não deveria ser a anarquia, a conflitualidade cega, nenhuma dicotomia anacrónica, na sociedade portuguesa, sob o bafo a enxofre de uma espécie de extremismo de suposta Esquerda Guilhotina, a orientar-nos. Se a raiva, o mau perder, o descabelamento estapafúrdio, medulam, afinal, o espírito do tonto octogenário, não podemos fazer nada.
UE: de Keynes a Kafka
«Num sistema oligárquico como é o da UE», o debate democrático é apagado. Uma construção europeia kafkiana, conclui André Grjebine no Le Monde.
Das Gerações à Rasca, às manifestações Que se Lixe a Troika*
Estive dois dias a “mastigar” o que foram as manifestações simultâneas do passado sábado.
Pouco tempo, eu sei, para
produzir o que quer que seja de uma reflexão aprofundada. Mas mesmo assim, gostaria de partilhar e, para quem o quiser fazer(coisa nada fácil de fazer no nosso mundo-chiclete), colocar a debate, algumas ideias.
Penso que a “Geração à Rasca”, há pouco menos de 2 anos, que estudei em profundidade graças à bem-aventurada aventura académica, marca uma espécie de início visível de um longo processo de re-tomada do espaço público simbólico por um “cidadão anónimo” novo, que já não coloca em campos antagónicos a “cidadania” e o “anonimato”, o que pode significar que estaremos num processo reformulador do próprio conceito de “cidadão”. Trata-se, pois, da possível emergência de algo cujas consequências políticas ainda não temos suficiente informação para perceber.
Digo que se trata da re-tomada, ou re-ocupação do “espaço público simbólico” porque, nas últimas décadas, o capitalismo (chamemos-lhe “democracia de mercado” para sermos, vá, simpáticos) desvitalizou, de facto, o espaço público como “espaço político”. Julgo que é da sua tentativa de revitalização que tratam estas manifestações, o 12 de Março de 2011, o 15 de Setembro de 2012, o 2 de Março de 2013.
Para já, estaremos num período de diagnóstico a que poderíamos chamar “a rebelião dos consumidores”. [Read more…]
É isso
Pedro Passos Coelho chamou hoje à indignação de um país inteiro “ansiedade e impaciência de alguma gente que vai em modas passageiras”. Diz-se nada preocupado com “o que vai na alma dos portugueses” (ao contrário de muitos outros, “que estão em casa” (a fazer nenhum) “preocupados em sintonizar com as espumas dos dias” – Boris Vian odiaria esta imagem e este plural desqualificador. Mais disse, sempre muito aprumado e aparentemente convicto: que quem está em casa vai ser informado sobre o futuro que o Governo está a preparar para os portugueses. Ouvido assim lembra um conciliábulo de malfeitores, reunidos numa cimeira de mágicos-maus empenhados em lixar a vida às pessoas – e a malta a vê-los naquilo pela televisão, os truques à vista de todos. Reformar o Estado sem levá-lo a escrutínio popular é isso. [Read more…]
Amor com amor se paga
Se o governo interrompeu a “Grândola”, é justo que a “Grândola” interrompa o governo.
Silenciar a tua tia!
Será que ouvi bem? Esta gentinha laranja é mesmo arrogante
Nota: o ar de ABRIL que passou pelo Parlamento foi da responsabilidade do Movimento “Que se lixe a TROIKA” e foi uma forma de apelar à participação nas manifestações previstas para amanhã, 16 de fevereiro e para o dia 2 de março.
Olha quem fala
Luís Montenegro, espécie de garante-moral do PSD (sempre indignado com o que de menos bom acontece ao partido onde também estão Passos e Relvas) ameaça não deixar cair a questão da reforma do Estado por não “aceitar que as regras da democracia sejam subvertidas”.
Votar
Uma das consequências perversas da arma de propaganda política que constituem as sondagens – falando das que se publicam para desmoralizar –, é levar as pessoas a desacreditar completamente: na democracia, na classe política (claro), mas também no próprio povo de cidadãos eleitores. Tudo fica então reduzido a essa visão do Inferno que transforma a gente a que se pertence no mais abjecto dos povos – gente burra que nem portas, incapaz de raciocinar e compreender os princípios do sistema eleitoral que, com a abstenção, premeia os vencedores, entregando-lhes ilegitimamente (falando da representatividade em que assenta o sistema) os governos da Nação. [Read more…]
Cavaco e Passos representam quantos portugueses?
Presidenciais 2011 (maior abstenção de sempre em eleições para a Presidência)
2.231.956 votaram em Cavaco Silva, representando 23,32% do universo de eleitores inscritos. Abstenção+Brancos=5.164.859, representando 56,63% do universo de eleitores inscritos. Cavaco ganhou com 52,95% dos que votaram.
Legislativas 2011 (maior abstenção de sempre em eleições para o Parlamento)
Dos 9.624.354 eleitores inscritos, abstiveram-se 43,88%, ou seja, 4.039.725 não votaram, 2.159.181 votaram no PSD (22,62%) e 653.888 votaram no CDS-PP (6,85%).
(num apanhado rápido, usando esta fonte, que entretanto se ‘fornece’ na Comissão Nacional de Eleições)
O problema das “estigmativas”
Duas mulheres na casa dos quarenta anos a conversar na rua sobre as respectivas facturas da EDP. Uma: Eles fazem o que querem com o nosso dinheiro. A outra: É para isso que eles usam as estigmativas. A outra: É tudo uma roubalheira. E ainda querem eles que a gente vote. Abeirei-me delas e meti-me na conversa para dizer que a contagem que vem numa factura serve para ser confrontada com aquela que o contador exibe. E assim vamos, com esta gente que não conhece as palavras da Língua que fala, nem é capaz de interpretar o que está escrito numa factura de consumo eléctrico doméstico. São eles os que não votam, acreditando ser esse o procedimento virtuoso do cidadão que não quer participar da ruina do sistema democrático – paradoxalmente contribuindo para a eleição dos governantes que não nos representam. Ou será que representam, e andamos aqui a falar de um país prevalecente imaginário? Sempre essa dúvida.
Agora falo eu!
Um homem conseguiu furar o sistema de segurança e irromper nas galerias da AR esta manhã. “A democracia é uma ilusão”, gritou.
O devir histórico (6)
Uma sociedade politicamente organizada, é tanto mais democrática, quanto for a proximidade da população aos centros de decisão política e judicial, ao conhecimento e à cultura. Quanto maior for o afastamento, menos democrática a sociedade se torna. Espelho disso, são as ditaduras em que se afasta liminarmente o povo dos centros de decisão política. Desde logo, não permitindo que se possa escolher os representantes nas instituições políticas. Todavia, uma sociedade organizada com base dum modelo democrático, pode, ela mesmo, afastar-se da própria democracia. Exactamente na mesma medida em que as instituições se afastam do povo. Do que resulta que o tradicional centralismo de decisão, que impera há séculos no nosso país, e que nem o municipalismo conseguiu, verdadeiramente, contrariar, leva a que haja um défice democrático, ainda que em plena democracia. Ou seja, que a democracia se manifeste mais em sentido formal, do que, propriamente em sentido material. Centralismo a que o povo, na sua ancestral sabedoria, soube sintetizar, há muito, no adágio “Portugal é Lisboa e o resto é Paisagem”. Sim, a lógica de “Capital do Império” subsiste. E, curiosamente, vem mais ao de cima quando as dificuldades apertam. Como no Estado Novo, com a centralização do poder político à reverencial mão de um salvador da pátria, à custa da supressão das liberdades individuais. Tudo para que um então Ministro das Finanças pusesse as contas do país em ordem. E, depois, para que já o Presidente do Conselho de Ministros pusesse na ordem todo o país. Para que, logo a seguir, pusesse na ordem quem não concordasse. E nessa ancestral tendência de se centralizar o poder em momentos de maior aperto, lá vamos seguindo o nosso curso. Hoje, o poder encontra-se evidentemente centralizado em Lisboa. E, pior, agravam-se as assimetrias e vilipendia-se a democracia material, afastando as populações daquilo que são instituições fundamentais da própria democracia. Como é o caso da Justiça, tal como prevê o actual projecto de Mapa Judiciário, onde se extingue tribunais à luz de interesses meramente económicos. Não havendo maior retrocesso civilizacional do que afastar a Justiça do povo. Mais, ainda, em tempos de dificuldades, de populações empobrecidas e já isoladas por sucessivos êxodos resultantes de políticas desastrosas. E, no entanto, é isso mesmo que está na calha. Ora, recalcando-se, assim, os mesmos maus trilhos doutrora, não pode ser mera coincidência.
A Internet entrou na nossa vida
Na revista 2 do PÚBLICO de hoje, um artigo sobre como a Internet entrou na nossa vida e como poderá ser daqui a dez anos: a Internet tornou-se num “meio privilegiado de troca de mensagens, partilha pública da vida privada, meio de organização colectiva, instrumento de ajuda à democracia e às ditaduras. Daqui a outros dez anos, ninguém arrisca dizer como será um meio que todos os anos se transforma de forma avassaladora.”
Uma das constatações de especialistas entrevistados pelo PÚBLICO, é que “perdemos a capacidade de afastar as distracções e de sermos pensadores atentos, de nos concentrarmos no nosso raciocínio” ou, dito de outra forma, “está a fazer-nos perder a capacidade de concentração e a tornar-nos menos reflexivos”.
Usamos a Internet para trocar mensagens e para namorar, repara a jornalista em conclusão.
Não é perda de tempo pensarmos nas vantagens e desvantagens da Internet. Eu, por mim, vejo mais prós que contras. A Internet permite, só para dar um exemplo, esta troca de ideias concordantes e discordantes entre os leitores e os autores dos artigos no Aventar. Entre gente que não se conhece pessoalmente mas que, há medida que o tempo passa, ganha o título de «familiar». Sem nos conhecermos, escrevemos «caro»; «cara»; «abraço». Por que fazemos isto?
Os leitores poderão ajudar nesta reflexão!
O devir histórico (2)
Quanto se aborda numa perspectiva histórica, não importa se mais ou menos recente, qualquer facto com relevância, existe uma perenidade assertiva na alternância entre o “eu” ou o “nós” e o “eles”. Veja-se a dicotomia entre a vitória e a derrota. A vitória dá gosto partilhar, mas a derrota não. A tradicional diferença entre o “nós ganhamos” e o “eles perderam”, como é o caso, por exemplo, dos adeptos de um clube de futebol. Ou o clássico estado civil da culpa, pois que ninguém a quer por companheira. Da mesma forma que olhando para o passado glorioso do nosso país, não faltam razões para se afirmar que fomos grandes, fomos valentes, intrépidos, etc. Já quando o passado é inglório, o “eles” vem ao de cima. E isto vale para o passado distante, como para o passado recente. Assim, critica-se o ponto a que o país chegou – e repare-se que a própria ideia de “país” é, intrinsecamente, de um todo: território, povo, cultura, organização política, etc. -, sendo que, ao mesmo tempo, se apontam dedos acusadores de modo a não se ficar sequer tangido por esse todo do qual fazemos parte. Também, esta, é uma tradição recorrente. Principalmente quando as coisas correm mal. O facto é que um povo quando elege democraticamente por maioria os seus governantes, faz uma escolha. Podemos, individualmente, não concordar. Mas é inelutável que resulta de uma escolha popular, de uma expressão do povo. Porque é essa a essência da democracia: o poder do povo materializado nas escolhas que faz por maioria. Por isso, se um país chega ao ponto a que chegou o nosso, num regime democrático, não há como negar que a culpa é das escolhas que o povo fez. Se, individualmente, concordamos ou não com as escolhas da maioria, é questão diversa. “Nós”, enquanto povo, temos responsabilidades. Embora se possa sempre abdicar do preço da democracia – ter de aceitar as escolhas da maioria – e escolher alguém que decida por “nós”. Também já tivemos disso e não vai há muito tempo. É mais cómodo, dá menos trabalho, e podemos exercitar a toda a força o “eu” que existe em todos “nós”, e invocar o “nós” de que cada “eu” faz parte.
Pela boca morreu Passos
Santana Castilho *
O orçamento de Estado para 2013 quer tapar à bruta três enormes buracos: um enorme buraco resultante de uma enorme derrapagem do orçamento de 2012; um enorme buraco orçamental previsto para 2013; e um enorme buraco que resultará de uma enorme derrapagem na execução de 2013, prevista por antecipação, passe a redundância, no próprio orçamento de 2013. Com efeito, lá estão alguns milhares de milhões de “almofada”: para uma receita que, embora orçamentada, não será cobrada; para responder ao desemprego que esconde; e para suprir um corte na despesa que, embora orçamentado, acabará por não ser feito. Com 3 milhões de pobres e os restantes exaustos pelo confisco fiscal, com o PIB a cair entre 2,8 e 5,3 por cento (FMI dixit), só fanáticos suicidas orçamentam assim. É preciso pará-los.
A credibilidade técnica de Vítor Gaspar foi um mito com pés de barro. Estimou que as receitas do IVA subiriam 11,6 por cento e acabaram caindo 2,2. Previu, em Março passado, que o encargo do Estado com o desemprego cresceria 3,8 por cento e, em Agosto, já ia em 23. O consumo público contraiu 3,2 por cento em 2011 e a Comissão Europeia estima que contraia 6,2 este ano. O consumo privado caiu 4,2 por cento em 2011 e a CE prevê que caia 5,9 este ano. E Gaspar ignora, quando orçamenta e taxa. E ignora o Tribunal Constitucional. E volta a ignorar, com arrogância e desprezo, o presidente da República e o próprio FMI. Ignora tudo e todos. E ignora o “melhor povo do mundo”, que esmaga com impostos em 2013. [Read more…]













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