Preços excessivos: Pomar Coutinho vs Continente

Muito se tem falado sobre os lucros ditos excessivos que algumas das maiores empresas, em Portugal e lá fora, têm acumulado ao longo dos últimos anos, primeiro durante a pandemia, agora com a invasão da Ucrânia e a inflação que daí resultou.

Já aqui escrevi sobre a decisão de vários governos europeus, à esquerda e à direita, de aplicar taxas sobre a fatia dos lucros considerados excessivos. E sobre a resistência deste governo de eSqUeRda em seguir o mesmo caminho. Não sei o que esperavam de um governo que se chegou à frente para pagar o aumento do salário mínimo nessas empresas, mas eu não esperava nem espero nada. O único governo de esquerda que este país conheceu foi o XXI, este e os restantes são o business as usual de sempre.

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Paulo Raimundo Em Curso

Foto: MANUEL DE ALMEIDA / LUSA

Os processos internos dos partidos interessam-me tanto como os das empresas privadas. Não sou apologista do modelo comunista de eleição – chamemos-lhe assim – do secretário-geral do partido, mas também não sou propriamente um entusiasta da alternativa proposta pelos partidos do bem, assente em campanhas difamatórias, compra de votos, quotas pagas em cima da hora, de militantes que vivem aos 20 na mesma casa, e facadas em geral.

Devo dizer, aliás, que a prática do PCP tem uma vantagem, que é a transparência: toda a gente sabe ao que vai quando entra no partido, e toda a gente que está fora, a rachar outro tipo de lenha, sabe o que a casa gasta. E, que se saiba, só lá está quem quer. A mim interessa-me, sobretudo, que o PCP cumpra as regras da democracia no Parlamento, nas autarquias que governa e na sua acção política em geral. O que se passa no interior do edifício na Soeiro Pereira Gomes é lá com eles.

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Quo Vadis Cristiano?

Cristiano Ronaldo é um exímio jogador de futebol, classe mundial, dos melhores na história do desporto-rei, coleccionou títulos e superou marcas que pareciam inatingíveis ao longo da sua brilhante carreira.
Faz parte da condição humana, inclusive dos atletas de eleição, a vida não perdoa e desportista algum escapa ao ocaso, mesmo que a longevidade não seja igual para todos e dependa de múltiplos factores, é importante saber quando e como terminar, ninguém gosta de ver um ídolo arrastar-se penosamente pelos recintos onde exibiu classe e triunfou. [Read more…]

A epidemia das “aparições”

As “aparições” de Nossa Senhora de Fátima são, inegavelmente, o fenómeno religioso mais célebre e consequente da História recente de Portugal, tendo alimentado mitos e narrativas mundialmente conhecidos (pelo menos no mundo católico), feito erigir um santuário, arregimentado fiéis e peregrinos, e, inclusivamente, ajudado a legitimar regimes políticos e cruzadas persecutórias no chamado Mundo Livre. Sugestivamente, Fátima nasce republicana, ao sabor do tempo, e é reciclada pela ditadura do Estado Novo, cujo poder político vivia em simbiose com a alta hierarquia da Igreja Católica, na qual se apoiava amplamente, como anticomunista, através da conveniente revelação (muito pouco) mística da conversão da Rússia e do fim do bolchevismo.

Porém, e como veremos, as “aparições” da Cova de Santa Iria, no ano de 1917, não primaram pela originalidade, nem na forma nem no conteúdo. Com efeito, multiplicaram-se, ao longo de toda a História de Portugal, relatos de avistamentos e aparições da Virgem Maria, nos mais variados locais e das mais variadas formas. Algumas, felizmente, ficaram nos anais da História, chegaram até nós e podem ajudar-nos a desmontar aquela que é a construção mitológica, bastante mais política do que espiritual, mais bem-sucedida da contemporaneidade nacional.

Assim, o primeiro fenómeno análogo ao de 1917 de que há registo verificou-se no século XIII, exatos 700 anos antes, em 1217, quando um frade franciscano alegou ter visto a Virgem Maria no cimo da Serra do Montejunto, tendo-se aproximado e conseguido chegar à conversação com o santo avistamento. O conteúdo da conversa, porém, não foi revelado.

No ano de 1758 deu-se aquela que, até Fátima, seria a “aparição” que mais agitaria as almas crentes deste país: o milagre do Cabeço da Ortiga, a uns escassos 3 quilómetros da Cova de Santa Iria, e que se consubstanciou, segundo o relato, no avistamento, por parte de uma pastorinha, da Virgem Maria, que lhe pediu, alegadamente, que fosse erguida uma capela em sua honra naquele mesmo local. A construção, efetivamente, ainda hoje lá está e acolhe, anualmente, a celebração da Virgem milagreira. Este caso ficou registado nas Memórias Paroquiais de 1758, pelo punho do pároco da aldeia, e alcançou a celebridade por essa razão. Terá havido uma anterior, que ficou nos registos da Inquisição em Portugal, da qual se sabe pouco.

No século XIX ainda há uma nova “aparição”, registada em Carnaxide, em 1822, mas o grosso destes fenómenos verificar-se-á ao longo de todo o século XX, com múltiplos e variados avistamentos e “aparições”, consolidando aquilo que pode ser considerado uma verdadeira epidemia de fenómenos deste tipo, com menos diferenças do que semelhanças entre si. Com efeito, logo no ano seguinte às “aparições” da Cova de Santa Iria, registaram-se, no mesmo ano, dois fenómenos análogos, em Ponte de Sor e em São Miguel (Açores). Seguem-se Vila Nova da Coelheira, em 1924; Santa Maria da Feira, em 1934; Baião, em 1938; Vilar do Chão, em 1946; Asseiceira, em 1954; Ladeira do Pinheiro, em 1970; e Montejunto, em 1999, a última de que há registo histórico. Para além da enorme profusão de acontecimentos, é de notar que entre 1971 e 1998 (entre o fim revolucionário do regime autoritário e a consolidação tardia da democracia) nenhum fenómeno deste tipo é relatado, o que certamente se prende com as condicionantes políticas e sociais do tempo em questão, a que a perda de influência da Igreja Católica na vida política nacional não será alheia.

Posto isto, e em jeito de conclusão, gostaria de destacar a falta de originalidade (e até a reciclagem de certos aspetos) que une as “aparições” de Fátima às do século XVIII e XIX e, por imitação evidente ou inspiração forçada, as posteriores a Fátima, ao longo de todo o século XX. Por outro lado, é também de notar o aproveitamento político feito não só pelo regime salazarista (para consumo interno e externo) mas, inclusivamente, pelo Ocidente global, através da elevação de Fátima a verdadeira santa padroeira do anticomunismo, venerada em boa parte do Ocidente capitalista, demoliberal ou autoritário, e presença assídua em propaganda antibolchevista, surgindo como protetora do Mundo Livre face às ameaças do campo socialista (reproduz-se, abaixo, um exemplo paradigmático do que aqui se disse).

Panfleto anticomunista impresso pela organização católica internacional Blue Army of Our Lady Fatima, no contexto da Guerra Fria, c. 1950

Fernando Ulrich, um banqueiro em defesa da classe política

Fernando Ulrich, banqueiro de uma longa linhagem de banqueiros e donos de Portugal, afirma não alinhar “na conversa de que temos maus políticos”. Compreende-se. É malta que nunca lhe falhou.

Twilight zone bolsonarista IV

Mulheres. Querem. Golpe. Aposto. Que. Amanhã. Não. Vão. Trabalhar.

Os bolsominions estão cada vez mais parecidos com os talibans. E o meu coração está com aquele cão que aparece no colo da alucinada no final da fila. Pobre animal. Ninguém merece aturar gente tão absurda.

O Partido Republicano convertido em agremiação de extremistas

Joe Walsh é um ex-congressista do Partido Republicano. Que nos alerta para a tomada do partido por extremistas como Trump, DeSantis, Marjorie Taylor Green ou Kari Lake. Que nos alerta para os esquemas desta extrema-direita fundamentalista, que usa o seu poder para dificultar o voto em zonas predominantemente democratas, que vai armada para os locais de voto com o intuito de intimidar os seus adversários, que nunca aceita resultados eleitorais, excepto quando estes ditam a sua vitória e que defendem golpes de Estado e intervenções militares em caso de derrota.

Por algum motivo, para mim incompreensível, é nos exigido que tratemos esta gente como moderada. E ai de quem os trate com eles realmente são: uma extrema-direita fundamentalista, autoritária e anti-democrática. Porque o problema não é a segregação eleitoral, a violência armada, a rejeição da democracia ou o apelo ao golpe militar. O problema são as pessoas LGBT, os pronomes, o wokismo, os impostos e ciência. Não admira que celebrem Putin e rejeitem os valores da democracia liberal.

Ninguém PÁRA este Benfica

Ninguém para? Não! Ninguém pára. Efectivamente. Na primeira página, para que não haja dúvidas.

Pequeno apontamento para aulas de literatura contemporânea em língua portuguesa

Cada um dos rios que lhe corriam nas veias trazia seus encantos e lamentos de outras terras, outras gentes e povos. Por isso ele se possuía de tudo e reflectia o modo de ser e de estar de todas aquelas gentes com seus sonhos e poesias em tons de lira.
Boaventura Cardoso

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O escritor angolano Boaventura Cardoso recebeu o Prémio de Literatura dstangola/Camões, promovido pelo dstgroup, em parceria com o Instituto Camões, pela obra “Margens e Travessias”, de 2021.

 

Todavia, segundo o Correio da Manhã de ontem, Boaventura de Sousa Santos terá recebido exactamente o mesmo prémio.

Esperemos que o assunto se resolva pacificamente.

Nótula: A pareceria não é a actriz principal desta indicação, mas fica o registo, para arquivo.

Agradecimento: A Jorge Nuno Silva.

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O Mundial do Qatar e a FIFA vergada ao totalitarismo

O Mundial do Qatar é uma abominação. Pelos motivos que já todos sabemos. Também sabemos que a FIFA é cúmplice da barbárie, mas não sei se estava a contar com este nível de lambecusismo. Ou se calhar até estava. Afinal, foi graças a ela que tudo isto foi possível.

Na mensagem proibida, que tanto incomodou a FIFA, podia ler-se “Direitos humanos para todos”. Para uma organização que afirma ter como valores absolutos a transparência, a responsabilidade, a integridade, a solidariedade, a coragem, a justiça e – preparem-se – a democracia, acho que fica dito tudo o que há para dizer sobre a consistência da espinha dorsal da FIFA.

Política não é folclore

Que António Costa Silva continue ministro da economia nos tempos mais próximos.

Oportunidade de emprego! Aproveita já!

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Jovem! Tens entre 20 e 30 anos? Estudaste muito e não arranjas emprego na tua área? Sentes que os jovens são diminuídos nas suas capacidades e merecem mais oportunidades?

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Dia 20 anda à roda!

Boa sorte!

Juventude frustrada

Viver, estudar e trabalhar em Portugal parece um conto de fadas que rapidamente se destrói. Aos custos associados à vida de estudante, para além das propinas, transportes e alimentação, soma-se os preços inflacionados da habitação precária e das residências. Cada vez mais jovens, desistem dos cursos que outrora sonharam porque não têm capacidade para suportar todas as despesas que a vida académica e pessoal acarreta. Aqueles que conseguem terminar, vêem-se num desespero para encontrar estágios profissionais e primeiros empregos, passando, muitas vezes, por arranjar outros biscates, que nada têm haver com o que estudaram, para ganhar alguma migalha e sobreviver. Pergunto: Como é que é possível termos os jovens mais qualificados, e, ao mesmo tempo, termos a maior taxa de desemprego jovem na UE? Como é que é possível que exista tão pouco suporte para aqueles que saem da vida académica e tentam integrar-se no mercado de trabalho?

Nos dias de hoje, assiste-se a uma descrença por parte dos jovens, no que respeita a ter uma vida digna, com grandes estudos e trabalho devidamente remunerado. Já para não falar das pouquíssimas expectativas em sair de casa dos pais antes dos 25 anos, ou mesmo em comprar ou arrendar casa a preços acessíveis. A suposta solução encontrada por muitos é emigrar à procura de melhores condições de vida e salários, deixando Portugal como um país insípido onde os jovens não atingem o potencial que tanto anseiam por falta de apoios. 70% dos jovens desempregados portugueses (entre os 20 e os 34 anos) são os que estão mais predispostos a emigrar para outro país à procura de emprego, comparativamente com os jovens de todos os países da UE, de acordo com um relatório da Eurostat.

Pergunto: até quando continuaremos na cepa torta?

É urgente pensar-se em habitação académica a preços acessíveis para todos e todas, para que ninguém fique de fora ou para trás, nesta fase tão importante da formação. É urgente pensar-se na abolição das propinas, é urgente pensar-se num melhor estabelecimento de contactos entre as universidades e as empresas, para integrar pós universitários no mercado de trabalho. É urgente pensar-se em aumentar o salário mínimo. É urgente pensar-se em reconhecer os jovens e dar-lhes as oportunidades necessárias, para que possam singrar dentro de Portugal e não queiram sair.

Como aumentar ao comprimento e adequar a potência aos 50 anos

Chegar à meia-idade não é, forçosamente, sinónimo de perda de capacidades. Ou mesmo de possibilidades. Isto mesmo aprendi, recentemente: é possível aumentar ao comprimento e adequar a potência aos 50 anos.

Na verdade, há 20 anos atrás, por sugestão de familiares e amigos, resolvi obter a Carta de Marinheiro. Tendo ficado, então, habilitado a pilotar embarcação de recreio até 7 metros com potência não superior a 45kw.

Ora, a chegar aos cinquenta anos, idade documentalmente crítica que me obrigou a renovar a Carta de Condução, recordei, então, que a validade da Carta de Marinheiro, religiosamente guardada numa gaveta, fora de perigo de salpicos de água salgada ou doce, estaria à bica.

E assim era, segundo rezava no título que dava conta da validade estar para expirar.

Foi então que, após pesquisa, fiquei a saber que, por preciosa alteração legislativa, não só tinha de renovar a Carta de Marinheiro apenas aos 70 anos, como – e aqui os 50 ficaram com outro sabor -, foi-me aumentado o comprimento da embarcação de recreio, que passou para os “até 12 metros”, bem como a potência que passou a ser a “adequada à sua certificação”.

É sabido que com a idade, vem o aumento da sabedoria, do conhecimento, da experiência, a adequação do comportamento, etc.

Agora aumento do comprimento e adequação da potência por força de lei, é obra.

Daí a César o que é de César e a Deus o que é de Deus

Marco Rubio, senador republicano reeleito na Florida, começou o discurso de vitória agradecendo a Deus por lhe permitir estar na América, afirmando, de seguida, que Deus se fez homem através de Jesus, caminhou pela Terra e voltará um dia, e por ele viveremos uma vida eterna.

Não me interessam as convicções religiosas de cada um. Não me dizem respeito. Não me interessa se rezam a Deus, Alá, Buda ou à Mãe Natureza. Interessa-me, isso sim, que a liberdade de culto seja plena. A democracia exige-o

Interessa-me também a laicidade, condição essencial para a existência de um sistema democrático. Ideologias e partidos vão e vêm. Perdem e ganham. Transformam-se e extinguem-se. Já o fundamentalismo religioso não ganha nem perde eleições. Não responde à razão. E, quando toma o poder, entranha-se, corrói e suprime a liberdade. Democracia e teocracia são incompatíveis. Sempre foram, sempre serão.

Segundo a narrativa dominante, Rubio tem um posicionamento ultraconservador. E o ultraconservadorismo tem direito ao seu lugar à mesa da democracia. Quer mais armas na rua, muros nas fronteiras – as mesmas que deixaram entrar a sua família vinda de Cuba – e não gosta de homossexuais. Outros, como é o meu caso, não são apreciam o faroeste, racistas e homófobicos. Não podemos gostar todos do mesmo. Cada um com as suas pancas.

Mas esta instrumentalização da religião, que de resto é prática comum no Brasil e em várias praças europeias, é uma perigosíssima ameaça à sobrevivência e à própria existência das democracias liberais. Com Orbán, Morawiecki e Meloni ainda se vai aguentando. Com a superpotência nuclear nas mãos de gente que professa o nacionalismo cristão e defende o Estado subjugado a religião, é capaz de ser mais complicado de lidar.

Isto, a meu ver, era mesmo como dizia Jesus: a César o que é de César, a Deus o que é de Deus. E a política é dos Césares, não dos sacerdotes. Tal como a democracia, que emana das leis que geram consenso alargado entre os Césares, não da ambiguidade da Bíblia, interpretada de diferentes formas, no tempo e no espaço, à medida das crenças e ambições de cada papa, inquisidor ou falso messias. A Deus o que é de Deus. E de Deus é a fé, a devoção e o culto. Os Césares que se ocupem de assuntos menores, como as leis e a política. Como de resto ensina o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos. De que adianta fazer política com a Bíblia na mão, se depois preferem ler o Bannon?

Ex-governador do Banco de Portugal não tirou uma selfie “nem pediu desculpas”, revela António Costa

Ex-governador do Banco de Portugal “não se retratou nem pediu desculpas”, revela António Costa.

Foto: E. Vives-Rubio (https://bit.ly/3GnsOhZ)

A mais recente campanha publicitária do Lidl: quando o capitalismo selvagem se apropria das causas sociais

A mais recente publicidade do Lidl, aplaudida por tantos, mostra-nos crianças a brincar com brinquedos. Inovador, pensam vocês. Não, são só crianças a brincar com objectos de plástico. Mas por que razão foi tão aplaudida, perguntam vocês.

O aplauso advém da ânsia que a sociedade tem em ver grandes empresas, lobbistas ou o Estado resolverem os problemas que o povo desistiu de tentar resolver. A nova campanha publicitária do Lidl mostra-nos rapazes e raparigas, com idades entre os 1 e os 7 anos, a brincarem normalmente – a mesma foi aplaudida porque, supostamente, cria uma ruptura com a “normatividade”, pois há rapazes a brincar com conjuntos de princesas e raparigas a brincar com conjuntos de super-heróis. Estas práticas, toda a gente sabe, a sociedade já não consegue aceitar… ou será que a campanha do Lidl é uma distopia?

É mesmo. A campanha do Lidl é isso mesmo: uma estratégia de marketing pura e dura, onde a publicidade apelativa leve os leitores a serem potenciais compradores… numa altura em que estamos quase no Natal… e onde gastamos dinheiro… para as crianças. Visa, acima de tudo, vender: e numa época de polarização, que tal tentar fazer a venda apelando à Humanidade do potencial comprador, usando uma causa social pelo caminho para lá se chegar? É o que acontece aqui. E o Lidl já venceu a causa.

Venceu, porque usou uma fórmula que, hoje, é o B A B A do marketing: usar causas sociais (sejam os direitos das crianças, das mulheres, das diferentes etnias, das diferentes sexualidades) como combustível para apelar à compra. Venceu, porque, inteligente, não colocou o anúncio na TV, apenas o colocou nos folhetos, os quais chegam a grupos restritos de pessoas e… à internet, onde, aí sim, o Lidl sabia que faria as delícias de alguns internautas mais “woke” e que estes se encarregariam de partilhar a campanha do Lidl, fazendo publicidade gratuita sem que o Lidl mexa mais do que uma palha. Está de parabéns, o Lidl.

O Lidl é uma rede de supermercados, presente em 32 países, pertencente ao Grupo Schwarz (o maior grupo de retalho na Europa e o sexto maior do mundo), avaliado em cerca de 57.000 milhões de dólares. O seu objectivo é vender os seus produtos e a forma de lá chegar… pouco importa. Não podem, portanto, ser deixadas nas mãos de uma empresa capitalista, avaliada em biliões, as causas sociais que dizem respeito a toda uma sociedade… sem cotação em bolsa. O mais curioso é esta campanha ter surgido depois da notícia que dava conta de, num armazém alemão de um fornecedor do Lidl, terem sido encontrados pintainhos mortos, cadáveres debicados e galinhas mal tratadas.

O povo e as suas causas não são piada, não são bens de consumo, não são folhetos divertidos para vender plásticos. O povo é carne e osso. O povo e as suas causas não são matérias primas prontas a ser transaccionadas, como se os direitos sociais fossem meros produtos de consumo, como um Action Man ou uma Cinderela de plástico. Às empresas o que é das empresas.

Ao povo o que é do povo.

Boicotar Qatar

A “festa do futebol” que nos querem servir no Qatar está banhada a sangue.

“Mete-te com os do teu tamanho!”

Na escola era recorrente ouvir-se a frase “Mete-te com os do teu tamanho!” sempre que um “valentão” era, por qualquer “razão”, violento para com quem fosse mais fraco.

Mas, diga-se, havia também quem gostasse de assistir ao espectáculo do mais forte oprimir o mais fraco.

Lembrei-me disto quando, recentemente, assisti – como todo o país – à ameaça pública de Marcelo Rebelo de Sousa (MRS) dirigida à Ministra da Coesão Territorial, Ana Abrunhosa, durante um evento oficial – inauguração dos novos Paços do Concelho da Trofa.

A estrelar em terras laranjas, e na presença de Luís Montenegro, MRS resolveu mostrar que no sangue ainda correr qualquer coisa de PSD, e resolveu brindar com aquilo que há muito a Direita reclama: dar um aperto ao Governo.

Desta vez, não fez o papel de amuado, como quando se queixou à comunicação social de que não foi atempadamente informado da composição deste Governo. Tendo mesmo de engolir João Gomes Cravinho como MNE.

MRS soube escolher o momento e a vítima. Pois em oportunidades anteriores poderia ter dado igual recado, ou melhor feito igual ameaça a António Costa ou mesmo a Mariana Vieira da Silva. Mas sabe que uma coisa é ameaçar António Costa ou uma Vieira da Silva. Ou meter-se com um Cravinho. Outra é ameaçar Ana Abrunhosa, a milhas de distância do peso genético-partidário daqueles outros.

Mais a mais, meter-se com Mariana Vieira da Silva, é meter-se com o PS. Meter-se com António Costa, é meter-se com o PS. E que sem se mete com o PS… Já se sabe. [Read more…]

Ron de Santis, o Trump letrado que vai tirar o sono ao original

Ron De Santis quer ser presidente. O seu discurso de vitória disse-o e a claque presente gritou “two more years”, pese embora o cargo de governador seja para quatro.

Trump terá, finalmente, um adversário de peso: um Trump letrado. Tem o crachá da NRA, debita a narrativa securitária, aprecia a xenofobia e a homofobia, tem populismo para dar e vender e adora meter Deus ao barulho. Seja o grunho ou o educado, os eleitores de extrema-direita ficarão igualmente bem servidos com qualquer um dos Trumps.

A mentira dos que se dizem preocupados connosco

Há muitas pessoas que apesar de estarem naturalmente preocupadas com o ambiente, têm dúvidas (muitas) sobre os argumentos que histericamente (até por isso) são recorrente e constantemente arremessados. Eu sou uma delas.

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Twilight zone bolsonarista III

Sou do tempo em que esta malta se suicidava em grupo.

Eu e Pinto da Costa: a mesma luta

“Rejeito qualquer ato de violência“. Exactamente. Contra atos de violência e, já agora, também contra aCtos de violência.

Fake news: do Vietnam, com amor

Antigo agente da CIA expõe modus operandi do regime americano, com exemplos práticos sobre como manipular jornalistas para plantar informação falsa, entre outras técnicas e esquemas de disseminação de fake news. Está-lhes no ADN.

A Grande Chalupação

Um terço dos americanos acredita que os imigrantes que chegam aos EUA estão ao serviço do Partido Democrata, com a missão de substituir a população branca. Uma genial teoria da chalupiração, de seu nome A Grande Substituição, por cá subscrita por alguns cronistas de Observador e pela palermosfera da direita radical à extrema-direita.

Seria importante que alguém lhes explicasse, devagar e com desenhos, para que o Tico não entre em conflito com o Teco, que esses migrantes, nos EUA ou em Portugal, chegam para fazer o trabalho que os locais não querem fazer e que os patrões pagam mal e porcamente. E são, não raras vezes, recrutados por empresas de recursos humanos para empresas que procuram mão-de-obra barata no nível imediatamente acima da escravatura. Para não parecer tal mal.

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Livre circulação de capital

Há uma crise que se agiganta, sem paralelo na história recente, porque afecta todo o planeta, não apenas uma região, e porque vai para lá de dívidas e bolhas, atingindo também a capacidade dos povos mais prósperos de se alimentar e aquecer no Inverno que começa a chegar. Para não falar na fome e na miséria que alastrarão com maior intensidade nas zonas mais pobres do globo, provocadas pela escassez que resulta – também mas não só – do bloqueio que impede a saída de cereais e fertilizantes dos portos ucranianos.

Entretanto, numa realidade paralela, tipo aldeia gaulesa que resiste não às investidas romanas, mas às da crise internacional, o capital flui livremente, ainda que em circuito fechado, para os bolsos dos mesmos de sempre. Wall Street é o seu nome e Outubro foi o seu melhor mês desde… 1976.

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Mercenário bom, mercenário mau

No âmbito de uma das suas muitas cruzadas do bem contra o mal, os EUA treinaram e armaram mercenários afegãos, à época freedom fighters ungidos por Deus, Alá, Jesus e Maomé.

Entretanto, a operação no Afeganistão perdeu rentabilidade e os heróis da Marvel foram em busca de outro Thanos, abandonando Cabul da forma digna e airosa que todos pudemos constatar.

Os afegãos da S.H.I.E.L.D., coitados, ficaram sem trabalho. Mas o mercado, que nunca falha nestas coisas, tratou de corrigir a assimetria. Não é que o russo seja um império tão abastado como o americano. Mas se teve recursos para garantir a cumplicidade das democracias liberais durante 20 anos, em princípio também consegue pagar o salário destes jovens desempregados. Deixam é de ser freedom, e passam apenas a ser fighters. Não se pode ter tudo.

Valha-nos o humor, que a política é uma tragédia

Há quase um quarto de hora de publicidade antes do Isto é Gozar com quem Trabalha. Achei importante começar por aqui para enquadrar o impacto do RAP – o gajo que não tem redes sociais – na televisão portuguesa. E a televisão, sublinhe-se, é um bocado como o Facebook: toda a gente diz que está obsoleta, que já ninguém usa aquilo, mas os números dizem o contrário.

Bem sabemos que os humoristas não decidem os destinos do mundo. Nos EUA, antes de ser eleito, John Stewart, Steven Colbert, John Oliver e Conan O’Brien foram implacáveis com Donald Trump. Foi um esforço inglório, mas rendeu quatro anos de boas piadas. Algumas fizeram-se sozinhas.

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Dentro de um quadro de Hopper

A música

00:00 intermezzo (charlie spivak) 04:28 charmaine (mantovani) 08:35 melody of love (wayne king) 11:46 auld lang syne (guy lombardo) 15:15 body and soul (coleman hawkins) 18:54 poinciana ‘song of the tree’ (david rose) 22:48 do you believe in dreams (francis craig) 26:56 twilight time (three suns) 30:31 intermezzo aka ‘souvenir de vienne’ (wayne king) 34:39 orchids in the moonlight (enric madriguera) 39:12 warsaw concerto (freddy martin/jack fina) 43:24 deep in my heart dear (troubadours) 48:00 dancing in the dark (artie shaw) [Read more…]

Chomsky e a doentia obsessão dos portugueses por Marcelo Rebelo de Sousa

“You can’t go to a physics conference and say: I’ve got a great theory.  It accounts for everything and is so simple it can be captured in two words: “Anything goes.””
Noam Chomsky, 15 May 2022

The Yorkists defeated and dispersed, their leader butchered on the field, it seemed, for a very brief season in the winter following upon the events already recorded, as if the House of Lancaster had finally triumphed over its foes.
R.L. Stevenson, The Black Arrow

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Em primeiro lugar, convém distinguir obsessão e afins de obcecado e afins. Por causa do <s> e do <c>. E afins. Convém, de vez em quando, ser lexicalmente pouco sofisticado (os meus convém e afins), em nome da coerência.

Nada tenho contra Marcelo Rebelo de Sousa — nada! — , embora tenha recusado uma selfie com ele (sugerida por outrem note-se), por dispersão e insensivelmente, enfim, como finados o Império Romano e o Reno (obrigado, Eça e Ega) — e a recusa está devidamente documentada. Claro, também há o AO9O. Pois é. O AO90. Siga.

Felizmente, há vida além de Marcelo. Graças aos deuses. Infelizmente, no entanto, continuamos no espírito marcelista da ponte Salazar. Venha a geração do Eduardo (e do Ernesto). Não há pachorra (nem tempo, cf. infra) para parolices e cultos de personalidade.

Nas últimas semanas, [Read more…]