Diogo Faro falou na TVI24 sobre cyberbullying no debate com Fernando Moreira de Sá. Para a semana, teremos André Ventura a falar sobre democracia e Francisco Louçã sobre a importância da verdade.
Má sorte ser-se Cavaco
Cavaco tem todo o direito a escrever e a dizer o que lhe apetecer e a ser deselegante e malcriada, porque vivemos num país livre e é preciso respeitar as pessoas com incapacidades. Ninguém está livre de ter um filho assim e não é menos filho se for assim. Ainda por cima, ser malcriado não impede ninguém de chegar a bastonário ou de ter ambições políticas, como já foi demonstrado por outros antes dela.
Pelos vistos, Cavaco chamou “gorda fura filas” à Presidente da Câmara de Portimão, que se considera “obesa”, termo débil e politicamente correcto. Cavaco não é mulher de meias palavras. Sendo mestre em Saúde Comunitária e Saúde Pública, terá aprendido que a melhor maneira de tratar uma pessoa com problemas de peso é chamar-lhe “gorda”, havendo teóricos que defendem a importância curativa de apodos como “vaca” ou “baleia”. No fundo, isto é enfermagem. Acrescente-se que Cavaco tem, também, uma pós-graduação em Gestão pela Católica, onde aprendeu, decerto, a sentir-se superior e a espalhar pragas bíblicas.
Já é pior ser-se desonesto, mas também isso é um direito e os tribunais poderão resolver esse assunto daqui por dez anos. Cavaco escreveu que ouviu dizer que o secretário de Estado da Descentralização e da Administração Local e a sua esposa, directora da Segurança Social de Faro, tinham sido indevidamente vacinados. Ficou a saber não era verdade e que, portanto, não se tinha verificado nada de indevido. No faroeste das redes sociais, Cavaco confessou que foi contactada pelo próprio secretário de Estado, o que a levou a acrescentar que não foi vacinado, mas que podia ter sido e que isto é tudo uma grande vigarice, porque há muito nepotismo, recorrendo a uma técnica habitual em qualquer tasca, quando um bêbado muda de insulto, por o anterior não ter resultado. [Read more…]
Daqui a 20 minutos
Às 22h45, Fernando Moreira de Sá estará em ‘dirêto’ na TVI 24, para falar sobre política e redes sociais.
The Ana Rita Cavaco meltdown show

Ana Rita Cavaco não é uma ilustre desconhecida, muito menos uma bastonária imparcial ou com um percurso à prova de bala. Aliás, para quem fala “do alto da burra” contra quem passa à frente da fila das vacinas, seria interessante perceber se o ajuste directo de 72 mil euros, celebrado em Março de 2020 com o seu amigo pessoal Tiago Sousa Dias, para mais uma assessoria jurídica à Ordem dos Enfermeiros – que são inúmeras, quase todas com os grandes escritórios deste país, como o do seu companheiro de partido e dos bons velhos tempos do passismo, José Pedro Aguiar Branco – teve fila de concorrentes ou se pautou pelo habitual critério que assiste aos ajustes directos à moda do bloco central, algures entre a amizade pessoal e a camaradagem partidária.
Em bom rigor, importa sublinhar que Tiago Sousa Dias milita hoje no Chega, em cuja convenção, marcada pelo total desrespeito pelas mais elementares regras e restrições de combate à pandemia (o que não admira, considerando a concentração de negacionistas por metro quadrado), Ana Rita Cavaco deu o ar da sua graça, para “dar um beijo de amiga” a André Ventura. Sobre esse atentado contra a saúde pública, que levou mesmo à intervenção da GNR na reunião magna da extrema-direita portuguesa, é que não se ouviu uma palavra de indignação da bastonária. Nem um pio contra aquele festim de desrespeito pelo esforço dos profissionais de saúde que representa. Amigos, amigos, comportamento negligente que coloca a saúde pública em risco à parte.
Notas sobre o recomeço das aulas
O governo falhou. O fechamento das escolas sempre foi uma possibilidade muito forte. A preparação deveria ter começado aquando do primeiro confinamento, mas o que interessa é adiar, empurrar com a barriga, prometer computadores esperando que não seja preciso entregá-los (o conselho de ministros reuniu na quinta-feira para aprovar a despesa para aquisição de computadores para alunos que começam as aulas hoje) . As salas de aula poderiam estar verdadeiramente preparadas para um sistema misto, com alguns alunos em casa e outros nas escolas, mas não estão.
Alguns iluminados descobriram que o fecho das escolas aprofunda as desigualdades sociais. Pois aprofunda. Como de costume, esses iluminados tentam explicar aos habituais ignorantes de tudo: os professores. Os professores sabem isso muito bem. Os professores até sabem que a condição sociocultural e/ou socioeconómica dos alunos tem um peso brutal no seu rendimento, havendo crianças que entram no Primeiro Ciclo com limitações vocabulares e, portanto, cognitivas, brutais. Os professores, por várias razões, conhecem a vida de muitos alunos que vivem privados de comida, de afecto e de acompanhamento. Os professores até sabem que as férias, para alguns alunos, são uma tortura. As escolas, na verdade, disfarçam como podem todas essas insuficiências, até porque estão transformadas em mecanismo de compensação das enormes insuficiências de uma polícia social para a juventude.
E enquanto os governos sobrecarregam as escolas, tiram-lhes condições, aumentando o número de alunos por turma, entre outras estratégias que servem apenas para baixar a despesa, mas não para ajudar os alunos.
O ensino à distância não serve para substituir o ensino presencial, por variadíssimas razões, sendo a mais importante a necessidade de contacto humano. Os professores, de uma maneira geral, no primeiro confinamento, conseguiram fazer o melhor possível, com erros, insuficiências e exageros, aprendendo, experimentando e arriscando. É preciso fazer algo muito evidente: confiar nos professores.
Convém não esquecer que os professores são os principais financiadores do próprio patrão. Para além dos impostos que pagam, é do próprio bolso que saem as despesas com transportes, alojamento e, até, formação. O material de trabalho dos professores também não é fornecido pelo patrão: da caneta ao computador, é tudo pago pelos trabalhadores. O que de bom se conseguiu fazer durante o primeiro confinamento assentou na propriedade pessoal dos professores, o que, de resto, é costume e, curiosamente, nunca fez parte das reivindicações sindicais. Se os professores não tivessem investido em material informático, o sistema de ensino à distância não existiria. Também por isso, a sociedade deve agradecer, como se agradece a um amigo que nos dá boleia porque tem carro, mas não tem obrigação de nos dar boleia.
É possível ensinar à distância, mesmo que não seja desejável, mesmo que não seja fácil e mesmo que uma circunstância indesejada não seja suficiente para criar um novo paradigma. O novo paradigma só fará sentido se resultar de uma reflexão. O futuro próximo, esperemos que sem pandemia, poderá incluir a possibilidade de apoiar alunos que, por alguma razão, seja impedido de frequentar as aulas presencialmente, entre outras possibilidades.
Aprender à distância também é possível e há quem tenha conseguido, graças a um esforço enorme de quem quer aprender e de quem quer que os alunos aprendam. Isso: esforço.
All a bunch of socialists
No sábado, Pacheco Pereira escreveu uma crónica no Público intitulada “Não deixem os atuais liberais apropriarem-se da palavra liberdade”. O texto de Pacheco Pereira começa bem quando fala de neoliberalismo, aquele termo incerto que nunca ninguém soube explicar muito bem o que é. Talvez porque não exista. Neoliberal não passa de uma tentativa de insulto aos liberais. E para não haver hipótese de julgarem que sou faccioso, avanço já que o equivalente a isto é aquela direita que grita marxismo-cultural sempre que a esquerda faz algo que não gostam, mas que não sabem como argumentar. Pacheco Pereira diz que neoliberalismo é o liberalismo reduzido à economia. Certamente não se refere à Iniciativa Liberal, que defende o liberalismo económico, social e político desde o primeiro dia. Falam os liberais mais de economia do que em temas sociais? Certamente, porque estamos num país exemplar para a Europa em certos pontos sociais, mas que caminha para o abismo económico. Admitia que há anos se duvidasse do liberalismo em toda a linha da IL, visto que era desconhecida. Hoje, é só desonestidade intelectual. Um partido que já fez várias propostas de caráter social, que foi a favor de um referendo mesmo sabendo que a sua posição seria aprovada em Assembleia, o único partido que é capaz de condenar veementemente os ataques aos direitos humanos pelo Estado chinês, o partido que propôs medidas para combater problemas de saúde.
Para fazer uma análise mais precisa da Iniciativa Liberal recorre ao PREC Liberal, que são 100 medidas apresentadas em contexto de pandemia. Tinha também programas políticos ao longo destes três anos de existência, mas optou pelo PREC Liberal. A Iniciativa Liberal não coloca tudo no mesmo saco, como gosta de fazer passar. A Iniciativa Liberal defende as liberdades de uma forma plena, não tendo preferências. E é preciso voltar a dizer: as ideias liberais para a saúde e para a educação aumentam a liberdade de escolha do cidadão. Em que medida isso é mau? Nunca saberemos.
Vamos ao que interessa: o que levou Pacheco Pereira a escrever este texto? Não sei. Mas não posso deixar de reparar num dado curioso. Esta crónica foi lançada sábado, um dia depois do famoso caso nos Açores, em que depois de se saber que o governo PSD/CDS/PPM repete a estratégia tachista do PS, a IL afirma não aprovar um orçamento com estas gorduras. Mais uma vez, a IL provou que não fará oposição clubística, colocando-se numa barricada, criticando os do outro lado, mas de olhos tapados para os defeitos do seu. A IL faz oposição a tudo aquilo que não representa os seus valores, quer tenha de se opor ao PS, PSD ou ao MAS. E isto afeta, porque o PSD perdeu finalmente a esperança de ver na IL aquilo que viu muitas vezes no CDS. O PSD olha para o que o PS faz com o BE e o PCP e ficou triste por não poder fazer o mesmo com a IL. [Read more…]
Aposta Betclic – Ana Rita Cavaco
Qual será o próximo insulto da bastonária da Ordem dos Enfermeiros?
José Manuel Bolieiro é o novo Carlos César

Durante 20 anos, entre 76 e 96, os Açores foram governados pelo PSD, com Mota Amaral na liderança do executivo regional até 1995, ano em que foi eleito deputado da nação, sendo substituído por Alberto Romão Madruga da Costa. Em 1996, o tabuleiro inverte-se e o PS sobe ao poder, onde ficou até 2020, primeiro com Carlos César, que liderou o arquipélago durante 16 anos, sendo sucedido por Vasco Cordeiro, que completou dois mandatos, tendo falhado a reeleição em Outubro passado.
Durante estes 44 anos, e apesar de apenas ouvirmos falar dos “primos” de Carlos César, a verdade é que o governo regional dos Açores, tal como o da Madeira, sob domínio jardinista, foram, ininterruptamente, palco de um festim insular de contratos por ajuste directo ou concursos públicos viciados, nomeações decorrentes de lealdades e favores partidários, sem olhar ao mérito ou à competência e restante regabofe a que por cá estamos habituados a ver nas mais variadas autarquias, onde, tal como nas regiões autónomas, o poder quase-absoluto dos caciques é a lei. [Read more…]
CDS/PP, passado, presente e futuro
O CDS/PP, partido fundador da democracia em Portugal, nunca teve vida fácil, mas já conheceu melhores dias. Fundado por Freitas do Amaral e Amaro da Costa, pretendeu posicionar-se rigorosamente ao centro, nas palavras dos fundadores, primeiro equívoco, no período pós-revolucionário, o país estava completamente inclinado à esquerda e não existindo opção política à direita, acabou estigmatizado, permitindo uma colagem excessiva à extrema-direita, saudosista do Estado Novo, quiçá injusto para quem estava alicerçado na democracia-cristã, mas foi assim que aconteceu. [Read more…]
«Quero dar um sinal positivo, vamos ter verão»
Recessão democrática

No take introdutório do GPS emitido na passada semana na RTP3, Fareed Zakaria apresentou a sua visão sobre aquela que deve ser a prioridade das prioridades da Administração Biden: conter a pandemia. Conter a pandemia, salvar pessoas, vacinar mais e mais rápido, recuperar a economia e mostrar ao mundo que os EUA podem liderar no combate à pandemia e à crise económica, e voltar a ocupar a posição de farol das democracias liberais, reconstruindo alianças estilhaçadas por quatro anos de governação destrutiva, recuperando a credibilidade perdida, redefinindo prioridades diplomáticas, estratégicas e geopolíticas, reafirmando o papel dos EUA no mundo e recolocando o país no centro da política internacional. Uma missão quase-impossível, pelo menos no curto prazo, depois dos estragos causados pelo furacão Trump.
No mesmo programa, David Miliband usou um termo que ouvi pela primeira vez, “democratic recession”, associado não só à governação Trump, mas a toda a onda de populismo oportunista, mais ou menos autoritária, sempre grosseira e arrogante, ideologicamente vazia, no sentido filosófico da palavra, e cuja artilharia pesada consiste na divisão, exacerbada pela construção artificial de um (ou mais) inimigo comum, pela transformação de minorias em bodes expiatórios, para efeitos de distracção, e numa profunda instrumentalização do medo, de feridas mal saradas, do ressentimento e do ódio, como catalisador da violência miliciana.
A direita açoriana e a normalização de Carlos César

Tanta merda para acabar com o nepotismo e o controle absoluto do PS sobre as estruturas da administração pública nos Açores, e, em apenas três meses, o novo regime PSD/CDS/PPM, com acordos parlamentares firmados com a IL e o CH, têm mais nomeados que o anterior regime socialista, que fizeram a factura para manter toda aquela gente subir dois milhões de euros. E muitos familiares à mistura, provando que o efeito Carlos César é transversal aos caciques do PSD, do CDS e do PPM, que é pequeno mas tem os mesmos vícios dos grandes. Perante este agravamento da tacharia e do nepotismo no arquipélago, é de esperar que IL e CH rompam imediatamente com o acordo firmado com a nova maioria, que a IL encha as rotundas dos Açores com outdoors #comPrimos e que o CH faça o mesmo, denunciando esta vergonha, com as suas artimanhas populistas. E muitos parabéns à direita dos puros e castos que combatem o socialismo, por nos mostrarem que conseguem ser iguais ou piores que os seus antecessores. Depois de normalizarem a extrema-direita, conseguem agora o feito inédito de normalizar o Carlos César. Parabéns!
“Nunca pensámos que isto acontecesse”
A frase é da ministra da saúde, ouvida no noticiário de hoje às 13h, na SIC. Podia tê-la concluído depois das duas primeiras palavras. “Nunca pensámos”.
Então não pensaram que era preciso planear? Não tinham já visto o que aconteceu em Itália? Ou na Espanha? Ou em muitos outros países?
Se não pensaram no que poderia acontecer, quem quem é que ia pensar? Recebem um belo salário ao fim do mês para quê? Para vir dizer que não fizeram o que deveriam ter feito?
Desde o início da pandemia que assistimos a uma gestão política da coisa, em detrimento do planeamento e execução. Exemplos? Vejam-se os computadores prometidos para a educação há meses e que só tiveram a compra adjudicada em fim de Janeiro, depois do caos se ter instalado. Ou a constatação de que não existe um plano de vacinação, quando se sabia desde o início que haveria uma vacina. Ou, ainda, as conferências de imprensa diárias que foram actos de propaganda quando poderiam ter sido momentos instrutivos.
Portanto, Sra. Ministra, se não pensou, pensasse. Se não o sabe fazer, dê o lugar a quem sabe.
O plano de vacinação da Venezuela

A julgar por aquilo que se vai ouvindo e lendo em boa parte da imprensa nacional, e pelo seu reflexo mais ou menos adulterado nas redes sociais, o plano de vacinação em Portugal está a ser o maior desastre da história desde o Estado Novo. Já ouvimos dizer que é culpa do socialismo, que somos um país de terceiro mundo e que a coisa tem o dedo do Bill Gates. Se estivermos bem atentos, somos até capazes de ouvir, bem lá no fundo, alguém a sussurrar: “Venezueeeeeela”.
O Tratado da Carta da Energia volta a atacar

Ontem, duas filiais da gigante energética alemã RWE – um dos maiores emissores de CO2 da Europa – interpuseram uma acção judicial (ISDS) contra os Países Baixos, invocando a protecção do investimento do Tratado da Carta da Energia (TCE).
O TCE, um acordo internacional para o sector energético assinado em 1994, protege os investimentos em combustíveis fósseis e permite aos investidores e às multinacionais de energia reclamar dos Estados milhões de indemnização, por praticamente qualquer medida que prejudique os seus interesses económicos, presentes ou futuros.
Em Setembro de 2019, o governo holandês anunciou que, até 2030, iria aprovar uma lei para proibir a produção de electricidade proveniente do carvão. Em resposta a esta medida, a RWE respondeu exigindo milhões como indemnização pelo encerramento de duas das suas centrais eléctricas a carvão, que começaram a funcionar no país em 2015.
A exigência da RWE – 1,4 mil milhões de euros, metade do seu investimento inicial – ao abrigo do TCE é a primeira em toda a Europa a atacar os planos de descarbonização de um país para cumprir os seus compromissos climáticos adoptados com a assinatura do Acordo de Paris. Já em Abril de 2020, a multinacional alemã Uniper tinha ameaçado processar os Países Baixos e exigir uma indemnização de até mil milhões de euros, mas até à data não passou tinha passado a factos. [Read more…]
Suspeito de vacinação indevida
“Suspeito de vacinação indevida” é o crime do momento. Já não há corrupção, não há violência doméstica, não há condução sob o efeito de álcool, não há criminalidade económica nem tráfico de influências. O que há é um pequeno grupo de chicos-espertos, versão “pulha sem escrúpulos ou vergonha na cara”, que fura o plano de vacinação com muita criatividade, as mais esfarrapadas desculpas e uma imensa cara de pau, levando maridos, filhas e notáveis de um qualquer conselho de administração consigo. São sobretudo autarcas, quiçá a espécie mais versada na arte do crime em Portugal, mas também administradores de IPSS, gestores hospitalares e outros vigaristas em posição de poder. E quanto mais pequeno o meio, mais fácil o assalto: voltando aos autarcas, basta ver como se gere a maioria das câmaras municipais e juntas de freguesias desde país, principalmente fora dos grandes centros urbanos, onde o escrutínio mútuo é mais elevado, para percebermos isso mesmo. Se se gerem orçamentos camarários e o acesso à função pública em função dos apetites e das necessidades das habituais redes de tráfico de influências, em prejuízo dos concelhos e dos munícipes, porque não desviar umas vacinazitas? Os idosos em princípio nem vão votar!
Diogo Faro ou o mundo em que gostava de viver

@liberty.edu
O incêndio da semana, nas redes sociais, foi o de Diogo Faro, humorista português que, nos últimos tempos, solidificou a sua imagem como activista dos direitos humanos e sociais, personificando a agenda identitária dos dias que correm. De uma forma legítima, note-se, até porque a maioria das questões que aborda são de uma extrema importância. No entanto, o meu problema com o Diogo Faro foi sempre o tom bélico das suas intervenções, criando uma divisão entre bons e maus. Ele próprio se identificou como um “pugilista digital”. Ou seja, nunca esteve em causa o conteúdo mas a forma que, a meu ver, soa a pregação para convertidos. Desconfio do facto de alguém que esteja do lado errado desses tópicos – porque sim, há um lado errado quando o tema são direitos humanos – tenha mudado a sua postura e opinião ao ler o Diogo Faro. Por isso, o humorista falha sistematicamente naquilo que para mim é um dever social de quem tem alcance público como ele: o de fazer a diferença. Amplifica a voz de muita gente? Talvez. Mas falta o passo seguinte, o de conseguir chamar à razão outras pessoas.
Bucha e Estica
Há pessoas que, em posições de poder que representam classes trabalhadoras, tendem a tomar como seu o lugar, quando o que representam são profissionais de diversas áreas. Profissionais esses que merecem o brio de quem os conduz, a honestidade e, acima de tudo, capacidade de isenção. Infelizmente, há certos bastonários que, por mais do que uma vez, têm mostrado esforço em beneficiar, com palavras e com acções concretas, certas cores políticas. Usar cargos de poder em representação de X classe trabalhadora para aparecer e fazer oposição política, tentando compensar o fraco trabalho de quem devia fazer realmente oposição, mostra a falta de carácter, apenas e só, de quem o faz. E também há certos bastonários de ordens que acham que fazem parte de um sindicato.
Se a senhora bastonária da Ordem dos Enfermeiros, Ana Rita Cavaco, tivesse tanta noção quanta a vontade que tem de dar beijos de amiga a André Ventura, e se calhar não fazia figuras de otária.
André Ventura dirige-se a adversários chamando-lhes “avô bêbedo” ou “coisa de brincar”, Ana Rita Cavaco dirige-se a uma presidente da câmara como “gorda fura filas” e desculpa a sua própria piada de mau gosto dizendo que foi Isilda Gomes, autarca de Portimão, quem assumiu ser “obesa”. Pois, pá. Todos sabemos que sempre que alguém assume uma doença, isso nos dá o direito de gozar com essa pessoa e com a sua doença. Especialmente quando essa pessoa agiu mal em alguma situação! Por exemplo: sempre que vejo que um obeso não faz o pisca a conduzir, ultrapasso-o e grito “ó gordo, mete o pisca!”.
Vai-se a averiguar e, afinal de contas, foi o deputado do Chega quem deu aulas de etiqueta à senhora bastonária.
Ou então, surpreendentemente, em vez de transmitir COVID-19, aquele “beijo de amiga” em Setembro transmitiu estupidez. Concluindo: podes tirar o Chega do PSD, mas nunca conseguirás tirar o PSD do Chega, sejam militantes, dissidentes ou bastonárias da Ordem dos Enfermeiros.
O que se tem passado com a distribuição das vacinas, segundo o que tem vindo a público, é grave e expõe, mais uma vez, a “chico-espertice” típica dos portugueses e, também, que a família do Partido Socialista é cada vez maior. Mas grave ou não, Ana Rita Cavaco é bastonária da Ordem dos Enfermeiros, não é apresentadora do “Isto é gozar com quem trabalha” e, como tal, não é sua função dizer facécias. E se não sabe onde começa e onde acaba a importância do cargo que ocupa, é porque não merece o cargo que ocupa. Por fim, Ana Rita Cavaco está lá em representação dos enfermeiros e não do PSD e da direita, pois, que eu saiba, ser bastonária não é ser deputada.
Imagino que Ana Rita Cavaco se preocupe com o compadrio. Aliás, preocupa-se tanto, mas tanto, que até contratou Tiago Sousa Dias, seu amigo de longa data, ex-militante do PSD, apoiante de Rui Rio nas directas do partido contra Santana Lopes, braço direito de Santana no Aliança depois do PSD correr com ele e agora activo do Chega e alegado futuro secretário-geral do partido “neo-preconceitos”, a quem a Ordem dos Enfermeiros paga 72 mil euros, a dividir num contrato de 3 anos, desde Março de 2020. Aparentemente, PS e PSD gostam de medir o membro “eu sou mais asqueroso do que tu”.
O que vale é que a qualidade dos nossos enfermeiros não se mede pela qualidade da sua bastonária (que é nula, no caso da senhora Cavaco, se é que ainda é preciso dizê-lo). Neste caso: “Mulher gorda/Ai, a mim não me convém/Eu não quero andar na rua/Com A VACINA de ninguém/E mulher magra/Ai, a mim não me convém/Eu não quero andar na rua/Com A ESTUPIDEZ de ninguém”.

FILIPE AMORIM/GLOBAL IMAGENS
Mencionar um fato: this never happened to Pablo Picasso
I loved all sorts of English language experimentation.
— John CaleIn fact, comparing previous research on UG principles in L2 phonology vs. L2 syntax, and pointing out the relatively little work in this area by L2 phonologists, Young-Scholten (1995, 1996) argued that there is, nevertheless, reason to believe that interlanguage phonologies do not violate the principles of UG, because they often correspond to natural languages (a point first made by Eckman, 1981), and because learners can often reset phonological parameters, instead of being stuck with the L1 values.
— Öner Özçelik & Sprouse (2016)
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Há quem tente adoptar o AO90 e escreva fatos e contatos, em vez de factos e contactos. Nunca grafei nem fatos em vez de factos, nem contatos em vez de contactos. Ao não adoptar o AO90, estou automaticamente protegido da base IV e de interpretações abusivas (eufemismo para ‘erradas’) dela feitas, como o famoso “agora facto é igual a fato (de roupa)“. Neste contexto, jamais me ocorreria, por exemplo, mencionar um fato.

Mencionar um fato, em vez de facto? Homessa! Como cantam os Modern Lovers (e o Cale e o Bowie e o White), this never happened to Pablo Picasso.
Continuação de uma óptima semana.
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Lembrar um mestre

Por estes dias tenho pensado muito em George Steiner. A morte dele, há precisamente um ano, fez antever um 2020 que nada trazia de bom.
Steiner é uma das presenças intelectuais mais assíduas na minha vida. Não há semana que passe sem que eu leia qualquer coisa que ele escreveu ou disse. A longa entrevista ao programa Beauty and Consolation, os artigos no New Yorker, excertos das Dez Razões para a Tristeza do pensamento estão nos favoritos do meu computador, na pastazinha onde escrevo passagens que me marcam. Antes do confinamento, comprei alegremente as quatro entrevistas a George Steiner feitas por Ramin Jahanbegloo e publicadas pela VS.
Acusado frequentemente de snobismo – uma questão que das várias que ele suscita é a menos interessante – Steiner entendia algo de muito importante sobre o trabalho intelectual: ele é suposto ser díficil. A literatura, por exemplo, é um constante diálogo entre diversas formas de pensamento, entre várias personagens e enredos e formas narrativas, e só a leitura incansável nos pode transmitir a plenitude de determinado livro ou história (estória).
Li vários artigos extraordinários sobre Steiner depois da sua morte. Mas o mais notável, pela sua compreensão da obra e do homem, foi o de Diogo Vaz Pinto no Jornal I em Dezembro de 2020:
Dotado de uma abrangência incomparável, move-se com uma elegância e uma desenvoltura que nos absorvem, com aquela capacidade de aceder à realidade como se a atraísse a um ínvio argumento, ressaltando algum padrão inusitado, aspectos finos e que traduzem uma qualidade mítica numa razão de outro modo insuportável. Deste modo, ensina-nos a perdoar à vida, e até à condição humana “o facto de ser a coisa indiferente e pontual que é”. Steiner diz-nos que as artes da compreensão (hermenêutica) são tão variadas quanto os seus objectos, e que “não há nada de mais exasperante na condição humana que o facto de nós podermos significar e/ou dizer seja o que for”.
“Flood the zone with shit”
Praticar o distanciamento de nós próprios: a questão do eu

@dougsavage
Não será de todo irreflectido pensar que vivemos uma constante e abrangente crise de identidade. A procura pelo significado do eu pintou a história de aventuras, da realidade à ficção ou mesmo na intersecção de ambas. Somos, afinal, eternos contadores da nossa própria história.
A ideia de sermos história cria, desde logo, uma crise de identidade: somos a nossa história ou os contadores dela? E se a contarmos, ela deixa de ser nossa?
Coloca-se o problema do distanciamento. Será proveitoso pensar que quanto maior o distanciamento, maior a incapacidade de encontramos o eu na história. Precisamos de estar próximos de algo para podermos dissertar sobre esse algo. A proximidade e a convivência garantem-nos experiência acumulada que se transforma em conhecimento de causa. Mas esta proximidade tem, em si mesma, encerrado um paradoxo existencial do distanciamento: não será a nossa visão mais clara quanto mais nos distanciarmos do objecto em análise, neste caso, nós próprios?
Notas sobre as presidenciais 8: The António Costa & André Ventura connection
António Costa não é um político qualquer. E não anda nisto há dois dias. Sempre que me deparo com escritos que tratam António Costa como um acéfalo parido por uma juventude partidária, desprovido de inteligência, fico perplexo com a ignorância. A verdade é que António Costa começou na JS, e bem cedo, num tempo diferente deste, e até andou a colar cartazes pelas ruas de Lisboa. Contudo, como em qualquer juventude partidária, existe sempre aquela pequena minoria que se destaca dos condenados a uma existência de peão-carne para canhão. António Costa foi um deles.
Depois da formação na jota, no período pós-revolucionário, Costa teve uma ascensão meteórica. Aos 22 estava na Assembleia Municipal de Lisboa. Aos 30 no Parlamento. Aos 32 foi escolhido pelo PS para encabeçar a candidatura autárquica do partido por Loures, que perdeu, mas não sem antes deixar a sua marca na história com a célebre corrida entre um burro e um Ferrari, ganha pelo burro. Ficou como vereador, cargo que acumulou com o de deputado. Aos 34 foi director da campanha de Jorge Sampaio às presidenciais, na qual o socialista derrotou Cavaco Silva. No mesmo ano foi convidado por Guterres para assumir a Secretaria de Estado dos Assuntos Parlamentares, pasta que permite, como poucas, conhecer e dominar todas as manobras na Assembleia da República. Aos 36, foi promovido a Ministro dos Assuntos Parlamentares e encarregue de coordenar o dossier Expo98. Aos 38, no segundo governo Guterres, assume o Ministério da Justiça. Aos 41, após a demissão de Guterres, regressa ao Parlamento para assumir a liderança da bancada socialista. Aos 43, ruma a Bruxelas, onde, durante um ano, acumula a função com a de vice-presidente do Parlamento Europeu. Aos 44, regressa a Portugal para ajudar Sócrates a conquistar a primeira maioria absoluta do PS, assumindo, no mesmo ano, a função de Ministro de Estado e da Administração Interna. Aos 46, abandona o governo, antes de Portugal conhecer o verdadeiro José Sócrates, para se candidatar às Intercalares de 2007 em Lisboa, corrida que vence e que revalida duas vezes, em 2009 e 2013, abandonando o cargo em 2015 para assaltar a liderança de António José Seguro, e, posteriormente, construir a histórica Geringonça, que o colocou à frente do país desde então, com sondagens constantes a garantir a sua reeleição se o país for a votos amanhã. [Read more…]
Resistir à vacina
Sou uma das pessoas mais importantes do mundo. Pode haver algumas mais importantes, dentro da minha família. Tenho amigos, todos eles importantes, mas nenhum é tão importante como eu. Tenho amigos maravilhosos, mas sou muito mais importante do que qualquer um deles, mesmo aqueles que são os melhores amigos. As dores que sinto, quando, por exemplo, bato com um cotovelo numa esquina são infinitamente maiores do que as de uma fractura exposta de qualquer outra pessoa. Há pessoas que se magoam a menos de um metro de mim, sem que eu sinta a mais pequena dor. Peço desculpa, mas é assim mesmo.
Isto quer dizer que também eu quereria ser vacinado antes da larga maioria da população, incluindo uma enorme quantidade de velhos, de enfermeiros, de médicos, de bombeiros, de gente que, em geral, estará mais exposta do que eu ao vírus. E por que razão quereria eu ser vacinado antes de toda essa gente? Porque sou uma das pessoas mais importantes do mundo, como é evidente.
Não tenho conhecidos em lugares suficientemente importantes para conseguir ser vacinado antes dos milhões de pessoas muito menos importantes do que eu, porque como eu não há ninguém.
Se tivesse essa possibilidade, mesmo sabendo que ninguém iria saber, aceitaria ser vacinado? Se um amigo chegasse a minha casa com a vacina na mão, seria eu capaz de resistir a essa oferta? Não sei, gosto de acreditar que sim, mas gostaria de deixar claro que se eu, devido a algum privilégio ou outra circunstância favorável, fosse vacinado antes da minha vez, passaria a fazer parte da nojenta e viscosa categoria dos filhos da puta, tal como foram magistralmente definidos por Alberto Pimenta.
A Lei do Teletrabalho Aplica-se aos Professores?
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Carta aberta ao Governo de um grupo de professores bloggers com pedido para que seja cumprido o estipulado no Plano de Ação para a Transição Digital, de modo a que os docentes tenham condições para trabalhar a partir de casa.
A Lei do Teletrabalho Aplica-se aos Professores?
Para ler este conteúdo de forma completa, é favor visitar o blogue Correntes.
Notas sobre as presidenciais 7: Ana Gomes against the system

Não quero imaginar o que teria sido esta eleição sem a candidatura de Ana Gomes. Sem uma candidatura que representasse o espaço que vai da social-democracia ao socialismo democrático, onde me posiciono ideologicamente. Sem uma voz de esquerda suficientemente corajosa para questionar o establishment socialista, mas sem nunca renegar o europeísmo ou as vantagens de uma economia mista, onde os sectores público, privado e social se complementam, regulados pelo Estado. Uma voz do centro-esquerda com provas dadas de carreira e competência, que tem sido um farol na luta contra a corrupção, contra a criminalidade económica e a favor de um Estado mais honesto e transparente. Senti-me representado desde o primeiro momento, mesmo sabendo tratar-se de uma eleição com um resultado mais do que expectável, que de resto se veio confirmar. [Read more…]
Notas sobre as Presidenciais 6: será que Rui Rio e Francisco Rodrigues dos Santos já perceberam o que se está a passar?
O resultado destas presidenciais, para os partidos da área política do presidente reeleito, são, como um dia disse o grande Jaime Pacheco, “uma faca de dois legumes”. Porque se é verdade que o candidato por ambos apoiado foi o inequívoco vencedor, não é menos verdade que a situação destes partidos piorou substancialmente.
E porquê?
Em primeiro lugar, porque a contestação a Marcelo Rebelo de Sousa tem sido mais estridente à direita do que à esquerda. Como seria de esperar, após cinco anos de braço dado com António Costa. E se é desejável que presidente e governo não se hostilizem por desporto ou tricas partidárias, e mais desejável ainda que estejam em sintonia para combater a pandemia, assume-se que a direita, legitimamente, esperaria que os quatro primeiros anos fossem de alguma oposição vinda de Belém. Ou pelo menos que Marcelo não se convertesse no BFF de Costa. Mas, como bem sabemos, não foi isso que aconteceu. Acresce a isto que Costa foi o primeiro a apoiar Marcelo oficialmente, tendo inclusive lançado a sua candidatura, e que arrastou consigo o eleitorado do PS. E, afirmar os matemáticos que estudam estas coisas, foi precisamente o eleitorado socialista quem maior peso teve na reeleição do presidente incumbente.
Em segundo lugar, o meio milhão de votos de André Ventura não apareceu por obra do divino Espírito Santo. Quando Rui Rio apareceu em êxtase, na noite eleitoral, a celebrar a vitória alentejana de Ventura, felicíssimo com o facto de João Ferreira ter ficado atrás do candidato de extrema-direita, não se terá certamente apercebido que os votos conquistados por André Ventura (e Tiago Mayan, sublinhe-se) em Beja, Évora, Portalegre e nos concelhos setubalenses pertencentes a território alentejano equivalem mais ou menos à votação obtida por PSD e CDS nas Legislativas de 2019. Mas Rio, deslumbrado com o resultado do parceiro açoriano, reagiu como se dezenas de milhares de votos obtidos pela extrema-direita no Alentejo tivessem sido subtraídos ao PCP, que, no total nacional, face a 2016, perdeu 2 mil votos. Não 60 mil.
Em terceiro lugar, ver Francisco Rodrigues dos Santos gritar “vitória”, na primeira reacção da noite, enquanto André Ventura digeria o que restava do CDS, rodeado por antigos quadros do partido de bandeira do Chega na mão, está ali algures entre o trágico e o cómico. É preciso não ter noção da realidade, ou estar em absoluta negação, para não perceber que o eleitorado do CDS está a ser literalmente açambarcado pelo Chega. E, já agora, pela Iniciativa Liberal, que, caso o CDS não mude rapidamente de rumo, rapidamente lhe ficará com toda a ala liberal que, nota-se, encaixa melhor no partido de Carlos Guimarães Pinto e João Cotrim Figueiredo do que no de Francisco Rodrigues dos Santos e Abel Matos Santos.
O que nem um nem outro parece perceber, é que PSD e CDS saem desta eleição mais fracos, com perda de eleitores para o Chega e perante dois novos adversários que, no médio prazo, transformarão o lado direito do espectro numa paisagem de pequenos partidos, sem capacidade de fazer frente a António Costa. Nem isoladamente, nem todos juntos. E se, no caso do CDS, o problema está na disputa do eleitorado mais conservador e católico, num duelo entre um predador e uma presa que parece não compreender a sua condição, de vitória de pirro em vitória de pirro, até à extinção total, no caso do PSD foi uma sucessão de erros, a começar pela narrativa de um partido ao centro, território dominado por António Costa, deixando a direita à mercê dos seus adversários. On top of that, foi Rui Rio que se atirou nos braços do abraço do urso, quando furou o cordão sanitário nos Açores, sem que tal fosse necessário para governar o arquipélago. Foi Rio, mais que qualquer outro, quem oficializou a legitimação do Chega. E pagará uma factura elevada por este misto de ambição e ingenuidade.







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