Uma arte portuguesa

 

Há uns anos fiz um trabalho de investigação sobre os azulejos em Aveiro, tentando fazer uma história da Empresa Cerâmica da Fonte Nova, uma fábrica aveirense iniciada no final do século XIX e por muito tempo nas mãos dos irmãos Melo Guimarães.

Sempre gostei de casas revestidas a azulejo… Arte Nova ou não, em relevo ou lisos.

“A paisagem urbana portuguesa está marcada por eles. São os azulejos, que, em cada cidade e vila do país, cobrem fachadas e decoram interiores. Os turistas que nos visitam espantam-se e maravilham-se com a cor que dão às ruas, e interrogam-se sobre o gosto que, com gradações diferentes, continua a ser o nosso. Mas poucos sabem como começou.” («Uma arte muito nossa», Público, 17/7/2012).

O Museu Nacional do Azulejo expõe, até 28 de Outubro, azulejos do século XVII.

Três dicas para estas férias: visitar a exposição, fotografar os azulejos da sua vila ou cidade ou fazer passeio de comboio prestando atenção aos painéis de azulejos que decoram as nossas estações de comboio de norte a sul!

Os que não chegaram a nascer

Este é o nome do terceiro capítulo do romance Quem Ama não Dorme de Robert Schneider (1961), escrito em 1992.

Uma obra inesquecível. Trata-se da história de um músico genial do século XIX, nascido numa aldeia miserável algures na Áustria, onde a mesquinhez e outros defeitos de mentalidade (ignorância, inveja, indiferença) “não permitiram reconhecer o seu enorme talento”.

Deixo um excerto que me parece traduzir algo muito real ainda no século XXI e em Portugal:

(…) que magníficos seres, filósofos, pensadores, poetas, escultores e músicos terá o mundo perdido, apenas por não lhes ter sido proporcionado ensejo para aprender o seu genuíno ofício? (…) Chorámos então por estes desconhecidos, estes homens nascidos, que, em vida, não chegaram, porém, a nascer. Johannes Elias Adler foi um deles.”

Eu sei… O título deste post pode ser lido com outro sentido… claro.

Choramos também por esses desconhecidos seres que não se deixou, sequer, nascer. Onde poderiam chegar?

E são cada vez mais…

Não acho bem!

Não acho bem que um bispo, mesmo sendo das Forças Armadas (e alguém mais perspicaz do que eu, conseguirá, seguramente, explicar para que serve um bispo das Forças armadas), seja assumidamente ATEU. Eu também sou, mas acho que um bispo não devia ser. Pô! É um bispo! Devia, no mínimo, disfarçar e dar a ideia que acredita na justiça divina. Cometer, ostensivamente, p’raí 3 ou 4 pecados mortais de uma só vez é de alguém que se está a marimbar para o que a sua “colectividade” tenta impingir. Bem prega “Frei Tomaz”, fazei o que ele diz mas não o que ele faz!

PS: O nosso bispo sem fé também assinou aquele “manifesto”. Em grande!

Não, não sou Doutor

Muito se tem escrito sobre a licenciatura de Relvas feita em apenas um ano.

Miguel Esteves Cardoso escreveu muito bem sobre o caso: “Mas o não-dr. Relvas não tirou curso nenhum. Por muito mau que seja o curso de Ciência Política e Relações Internacionais da Universidade Lusófona (UL) se o não dr. Relvas o tivesse tirado, não só seria dr. Relvas, como seria, com certeza, menos ignorante.”

Miguel Relvas é um não-doutor que chegou a ministro.

Ao mesmo tempo, há «doutores» –  efectivamente, comprovadamente e merecidamente doutores -, que têm que esconder que são licenciados, ou mestres ou doutores para conseguirem um emprego.

Há jovens licenciados que “criam várias versões do seu CV de forma a garantir que os chamem mais depressa para entrevistas de trabalho“. “Reduzem as habilitações ao 12.º ano como estratégia, tornando o currículo simples e atraente”. ??

Há portugueses que negam a sua formação, que quase têm vergonha do seu esforço e da sua formação académica de alto nível. Anos das suas vidas que têm necessidade de negar com medo!!!!Portugueses que recebem um salário muito aquém daquilo para que se prepararam.

Há portugueses que se sentem prejudicados por excesso de habilitações. O que é isto? E ainda se lhes pede: voltem à escola (Mariano Gago)!!

Isto é uma vergonha! Uma vergonha nacional!

A Educação em Portugal: «só para inglês ver».

Um retrato do nosso país.

P.S.: E há portugueses que não são «doutores» por falta de oportunidade para estudar e a quem respeitamos! Uma palavra para eles, como o meu pai: não têm mais que a 4ª classe mas são «doutores» pelo respeito que me merecem, pelo exemplo que dão nas suas vidas de gente íntegra. O meu pai, com mais de 60 anos, acabou agora o 9º ano (Novas Oportunidades). Parabéns a todos os que, com esta idade, procuram actualizar as suas habilitações académicas, desinteressadamente…

A Educação nas ruas da República – vigília dia 18 de madrugada

A Escola Pública pegou fogo!

Já não dá para aguentar mais!

Está na hora de sair à rua. Depois da fantástica manif de Lisboa, está na hora de continuar a lutar pela Educação.
Das redes sociais surgiu uma ideia simples, mas que pode ser eficaz:

Vigília toda a noite de 18 para 19 de julho, em todas as capitais de distrito.

Lema: “Que nenhum português fique em casa!”

Em Lisboa seria junto ao parlamento, onde, nestes dois dias se vai discutir Educação.

Nas outras capitais, nas respetivas Praças da República como símbolo da importância da Educação para a República. Umas violas, umas telas para umas pinturas, uns poemas e teremos uma noite…

Começamos às 19h de 4ª feira. Uns poderiam ir dormir ou ficar…

Mas todos regressavam com o sol para terminar ao meio dia. Fica a dica….

Vamos a isso?

A ideia é mostrar à população que está em causa a Escola Pública com o aumento dos alunos nas turmas, com a redução das horas de apoio, com menos tempo para trabalhar matemática e língua portuguesa, com o fim dos CEF e dos Profissionais, com a estupidez dos Mega-agrupamentos.

Não se trata de coisa de professor!

Estamos a falar da Escola como um direito e da Escola como um pilar da Democracia e da República!

Vamos fazer da noite de dia 18 uma noite histórica – a noite em que Portugal saiu à rua para lutar pela Escola!

Orgulho

A Lusófona meteu-se numa alhada! Ou antes, algumas das suas práticas junto dos “poderes” colocaram os alunos que a frequentam ou que a frequentaram (na sua maioria são jovens a quem as famílias pagaram, a custo, os estudos) em dificuldades.

Percebe-se, por isso, a preocupação.

Estou certo que o Sr. Miguel tem orgulho na Lusófona. E o sr. João também.

O poder dos sem-poder

Gosto de ler as crónicas de Frei Bento Domingues ao domingo no Público.

Hoje, escreveu: “O poder da palavra é o poder dos sem-poder. Daí, o perigo do seu contágio.”

Que bom podermos dizer livremente aquilo em que pensamos.

O perfume das revoluções

Tivemos a Revolução dos Cravos há quase quarenta anos. Que ideia bonita buscar cravos aos jardins para baptizar esta revolução da liberdade.

Penso que nos falta uma revolução ou uma revolta neste intervalo de anos. Aquela que devíamos ter levado a cabo, com lírios na mão, sei lá, quando se começaram a fazer investimentos megalómanos e que nos deixaram nesta miséria.

Agora não há dinheiro para se viver decentemente, sem medos, sem depressões, sem o afastamento daqueles que nos são queridos. Há gente a sair do país e da sua cidade para poder viver.

O português migrante (professores) e emigrante para sempre.

Falta-nos o perfume dessa revolução!

Os 12 na Estrada


O retrato social
, político e económico de um dos mais difíceis anos do pós-25 de Abril é a proposta de um grupo de fotógrafos portugueses, que se encontra a percorrer todo o país, incluindo ilhas, para registar em imagens o ano de 2012. O projeto leva o nome de ’12.12.12’ e reúne duas gerações de profissionais da área do jornalismo e documental, que se propõem a fazer a sua própria leitura da crise portuguesa.
Adriana Morais, Adriano Miranda, Duarte Sá, José António Rodrigues, José Carlos Carvalho, José Manuel Ribeiro, Lara Jacinto, Nuno Fox, Nuno Veiga, Ricardo Meireles, Rodrigo Cabrita e Vasco Célio, todos profissionais da imprensa nacional e internacional, juntaram-se para documentar o ano de 2012 num projeto sem paralelo no nosso país.

No final do ano, as imagens recolhidas e selecionadas serão objeto da interpretação de várias individualidades da sociedade portuguesa, que aceitaram associar-se a este projeto, compondo uma narrativa para o trabalho de cada um dos fotógrafos. [Read more…]

A comédia humana

Luís Manuel Cunha

– “Convidamos p’ra você vir ver um jogo, estar presente num dos nossos jogos do Europeu, tá?”, disse Ronaldo dirigindo-se a Cavaco Silva. Ronaldo não passa de um labrego mimalho e cheio de dinheiro. Mas um labrego carregado de dinheiro não deixa de ser um labrego. “Obrigadinho”, respondeu Cavaco, agradecendo o convite. Estão bem um para o outro. Só que um, Ronaldo, tem milhões. Muitos milhões. O outro, Cavaco, vive “miseravelmente” de uma reforma de 10 mil euros que, disse, não lhe chegam para as despesas mensais. “Ditosa pátria que tais filhos tem”, citando Camões. Ironicamente, claro. Para mim, apenas o ranço da raça. Ambos.
Chama-se Varela. É jogador de futebol. Saiu do banco de suplentes. À primeira, desajeitadamente, não acertou na bola. À segunda, acertou na baliza e fez golo. Portugal venceu a Dinamarca. Escreveu Sílvio Cervan, que até já foi deputado do CDS: “A sorte impensável de um herói (…) É a gesta de um povo”! Pobre povo… cuja pátria se tornou uma equipa de futebol, escreveu Pacheco Pereira. Não posso estar mais de acordo. [Read more…]

Apresentação

Lançamento dos livros de Adão Cruz e de Eva Cruz (texto de Augusta Clara)

(Fotografias de Elisabete Silveira)

(da esquerda para a direita Carla Romualdo, Augusta Clara, Adão Cruz, Susana Fernando e Marcos Cruz) [Read more…]

Relvas: Inimigo Público

Depois de um post «depressivo» como o que escrevi atrás, rir é o melhor remédio…

O Inimigo Público é um suplemento genial daquele jornal.

Hoje, apetece-me fazer «copy/paste» de algumas piadas:

1. “Clube dos distritais muda de nome para Relvas Futebol Clube para subir à primeira divisão num ano” (JH);

2. “Bloggers do PSD pagos a €3, 96/ hora pelo Governo para não dizerem nada sobre o Relvas” (JH)

3.” Licenciados da Lusófona em Ciência Política que foram obrigados a estudar 4 anos estão a assistir ao caso Relvas no ‘call center’ com enorme consternação” (JH)

4. “Relvas já foi apagado do Orçamento de Estado para 2013” (MB)

5. ” Ciganos vendem piadas do Relvas para usar nas redes sociais a 1 euro” (JH)

(JH-João Henrique; MB- Mário Botequilha)

Duas Pombas Assassinadas na sua Honra

A grande pomba perseguida Relvas e a grande pomba-abutre ou papagaio-pomba-corvo Filho da Puta. Só nós, os que se licenciaram ou pós-graduaram a sério e a doer, é que não podemos defender a nossa honra e dignidade maltratadas. Após décadas de precariedade, extinguem-nos o trabalho e inviabilizam remunerações dignas dos filhos que fizemos, das famílias que constituímos. Andam estes políticos em regime de excepção, décadas acalentando a sua estufa privativa de milagres homologantes, décadas a abrir a anilha ao capital e aos donos fáticos de Portugal, e ainda lhes sobra lata para defenderem uma coisa, neles extinta ou exilada, chamada honra e bom nome. Quanto mais, por exemplo, o Filho da Puta desde Paris fala ou manda falar da sua honra e do seu bom nome, mais vontade dá de o chibatar sem dó nem piedade. Quanto ao perseguido Relvas, aprenderá cedo pelo menos a calar o bico matraqueante de pomba tagarela?!

A depressão entre os professores

Passos Coelho no debate sobre o Estado da Nação, esta semana, disse que não queria assustar os portugueses.

Mas a verdade é que nunca estivemos tão assustados.
Que o digam, por exemplo, os professores e respectivas famílias!!
É deveras preocupante: 25 000 horários perdidos e 18 mil professores contratados poderão ser despedidos. E não são só os mais jovens: há professores a contrato há dezenas de anos.
“É uma agonia”.
É a depressão entre uma classe cuja importância é indiscutível para o desenvolvimento do nosso país.
Andamos deprimidos, nós professores: ao nosso lado vão caindo colegas, engrossando o número já trágico de desempregados. “Quando serei eu?”, é uma pergunta inevitável. As turmas serão menos, mas aumentará o número de alunos; as salas vão rebentar pelas costuras; os professores irão trabalhar sem motivação e assustados. Para cúmulo, muitos terão que saltar de escola em escola, gastando do seu próprio dinheiro. Pagar para trabalhar.
Até quando?
Corte-se mais na Educação e vamos longe!

Tu és melhor do que tu

Faz-me o favor…

Faz-me o favor de não dizer absolutamente nada!

Supor o que dirá
Tua boca velada
É ouvir-te já.

É ouvir-te melhor
Do que o dirias.
O que és nao vem à flor
Das caras e dos dias.

Tu és melhor – muito melhor!
Do que tu. Não digas nada. Sê
Alma do corpo nu
Que do espelho se vê.

Mário Cesariny, in “O Virgem Negra”

Donos de Portugal: à venda por 4, 99€

“No momento em que a crise expõe as fragilidades do desenvolvimento económico do país, o documentário revela quem foram os principais intervenientes e protagonistas na economia portuguesa durante o último século. Produzido para a RTP2 no âmbito do Instituto de História Contemporânea, o filme é realizado por Jorge Costa (juntamente com Cecília Honório, Luíz Fazenda, Francisco Louça e Fernando Rosas)” (Público, 13/7).  

Repare nisto: “Os nomes das grandes famílias que detêm o poder económico em Portugal são as mesmas de há 100 anos“. Uma delas e no centro do referido grupo, “sempre esteve a família Mello”: os Mello ligaram-se, na primeira metade do século XX, aos Lima Mayer pelo casamento de Jorge de Mello com Luísa Lima Mayer. Um dos filhos desta união, Manuel de Mello, vai casar-se com a filha do industrial Alfredo da Silva integrando assim o grupo CUF no império Mello. Desta união nasce Cristina, futura esposa de António Champalimaud. Os seus filhos iniciam a linhagem Mello-Champalimaud.” Esta é apenas uma dessas famílias que o documentário refere.

Ligações desinteressadas… Tudo por amor! 

Podemos falar em «dinastias» e «impérios» depois do fim «oficial» das Monarquias e Impérios… Outros reis e rainhas, outros imperadores e imperatrizes, o mesmo povo.

DVD Donos de Portugal está à venda a partir de segunda-feira juntamente com o jornal Público, por mais 4, 99€.

 

A Escravatura é uma Oportunidade?

O desemprego não é mau, “é uma oportunidade para mudar de vida“.
E com a ajuda do IEFP, é fácil encontrar um emprego de futuro, justamente remunerado e sem ter que comer brioches de manhã à noite, que isso são proteínas a mais.
Melhor mesmo a “ardiúmes na pachacha” é ser engenheiro mecânico, com experiência, desenhador e com conhecimentos avançados em duas línguas estrangeiras, e trabalhar meio ano à recompensadora paga de 3 moedas de euro por cada uma de 160 horas de trabalho.
Sempre é melhor que nada, e há enfermeiras a ganhar menos!

Canalha em Auto-Felação Falhada

Esta narrativa da vida foda-se real, ilustra os perigos puta que os pariu de certas famílias de classe média-alta que não orientam devidamente os seus rebentos no sentido do amor ao próximo, assim-tipo como se o coiro do próximo fosse o deles.

É extraordinário que um feixe de rapazolas, após consumo de bebidas alcoólicas, tenha decidido sacudir o tédio a atear fogo a uma casa-pardieiro para ver os sem-abrigo que lá estavam a fugir, assustados, saltar pelas janelas de um segundo andar, partir os ossos do pânico, no processo. Mais extraordinário ainda é que tais montes de merda não mostrem arrependimento pelo acto cometido.

É caso para pensar se não lhes passou pela cabeça ser governantes. Talvez um dia pudessem atear fogos mais vistosos, sacudir as piças, atirando a vida feita de professores, médicos e enfermeiros, pelas janelas insustentáveis do sistema. Nada mais divertido que milhares desprevenidos e sem chão a meditar sobre o significado de emigrar.

A classe média-alta pode ser fodida e, por vezes, acaba mesmo por parir as decisões mais sádicas sobre gente lamurienta cujos contratos com o Estado nunca estão afinal tão blindados como os deles-classe média-alta. E sem vestígios de arrependimento.

Os filhos

Zita é mais rápida no regresso a casa. O trabalho fica para trás a cada quilómetro das dezenas que faz, seis dias na semana. À frente, já só vê os filhos: a «coisa» mais maravilhosa que tem na vida. À noite, mete-se no meio deles, na cama, uma mão sobre as pernas pequeninas dos dois filhos. E eles adormecem com a cara encostada à mãe.

Zita tenta compensar o tempo perdido, longe de quem mais ama. Se ela soubesse como, escreveria um hino aos seus filhos… Como não sabe, diz-lhe que os adora, todas as noites, e aborrece-os com tantos beijos.

A paz que a envolve ali sentada entre os filhos dormindo, é uma paz que reanima, que reabilita, que lhe dá forças para o dia seguinte.

A Capela do Silêncio

Ando há procura dele…

Saint-Exupéry…

Não há ninguém que escreva melhor sobre o silêncio.

Hei-de escrever um hino ao silêncio. Tu, músico dos frutos. Tu habitante das adegas (…) vaso de mel da diligência das abelhas. Tu, repouso do mar na plenitude. (…) Silêncio das mulheres (…). Silêncio do homem que se apoia nos cotovelos e reflete e (…) fabrica o suco dos pensamentos. Silêncio que lhe permite conhecer e lhe permite ignorar (…). Silêncio dos próprios pensamentos. (…) Silêncio do coração. Silêncio dos sentidos. Silêncio das palavras interiores, porque é bom que tu encontres Deus (…). Silêncio de Deus qual sono de pastor. (Cidadela, cap. 39)

Saint -Exupéry dizia que somos uma raça tagarela (“raça tagarela dos homens”)!

(Já estou a dispersar. Mas é impossível resistir a este António…)

Mal ele podia imaginar, quando escreveu Cidadela (1948), que em Helsínquia, em pleno séc. XXI, alguém se ia lembrar de construir uma capela do Silêncio! Ou dito de outra forma, o silêncio mereceu uma capela naquela cidade!!

Saint-Exupéry iria gostar desta capela sem santos e sem decoração? Pois eu acho que sim!!

“Embora se chame Capela do Silêncio, não deverá acolher serviços ou cerimónias religiosos. Foi concebida como um local de retiro no espaço urbano. A obra, assinada pelo Mikko Summanen, com 270 metros quadrados, é um exemplo do uso inovador da madeira na arquitectura”. (Público, 10/7)

Este será um espaço para ateus e não ateus, crentes e não crentes. Porque todos procuramos o silêncio, afinal! “Serve ao turista e ao necessitado”- uma ideia muito interessante.

Também é caso para dizer: se o homem da cidade já não procura o silêncio, vem o silêncio à procura do homem.

Pela sua Saúde, os Médicos uniram-se

Retratos da Crise – Espera(nça)

Abaixo el-rei Sebastião

É preciso enterrar el-rei Sebastião
é preciso dizer a toda a gente
que o Desejado já não pode vir.
É preciso quebrar na ideia e na canção
a guitarra fantástica e doente
que alguém trouxe de Alcácer Quibir.

Eu digo que está morto.
Deixai em paz el-rei Sebastião
deixai-o no desastre e na loucura.
Sem precisarmos de sair do porto
temos aqui à mão
a terra da aventura.

Vós que trazeis por dentro
de cada gesto
uma cansada humilhação
deixai falar na nossa voz a voz do vento
cantai em tom de grito e de protesto
matai dentro de vós el-rei Sebastião.

Quem vai tocar a rebate
os sinos de Portugal?
Poeta: é tempo de um punhal
por dentro da canção.
Que é preciso bater em quem nos bate
é preciso enterrar el-rei Sebastião.

Manuel Alegre, O canto e as armas

Sem comentários

A PSP de Aveiro anunciou ontem, em comunicado, a detenção de uma mulher, de 62 anos, pelo crime de furto. A suspeita, que reside naquela cidade, furtou uma lata de atum, no valor de 1,27 euros, num supermercado local. A PSP não informou quais as medidas de coacção aplicadas à mulher, que depois de ter sido levada ao juiz terá sido libertada. in CM

Não porque me falte vontade de comentar, mas escasseia-me o engenho para conseguir escrever alguma coisa que não inclua várias injúrias a imensas autoridades.

Férias: contagem decrescente

Quem trabalha tem direito a descansar. E este ano, parece-me, todos trabalhámos muito mais, sem, contudo, recebermos na proporção certa. Mas enfim… Adiante.

As férias não são um luxo, nem um escape. São uma necessidade.

Com tanta austeridade, só faltava agora tirarem-nos os poucos dias de férias que nos cabem por direito e mérito! Qualquer dia nem férias temos…

As férias são «sagradinhas» e há até um certo stress em querer que elas sejam perfeitas. Os dias de gozo são tão poucos. Há que aproveitá-los da melhor forma.

Procuramos fazer um corte radical com o trabalho e com a rotina. Deixamos tudo pronto antes de partirmos. Este «partir» não significa, porém, e cada vez mais, ir para longe. Mas, de facto, uma certa distância de casa faz toda a diferença.

As férias aproximam-se para a maioria dos portugueses. Há pequenas coisas que nos falam desse tempo maravilhoso que todos aguardamos. Estou a lembrar-me dos chinelos de dedo (que prazer tê-los nos pés); do café que se vai tomar a seguir ao almoço, sem correrias; do pequeno-almoço que nos permitimos, de vez em quando, tomar na padaria mais próxima; dormir mais um pouco de manhã (o despertador também vai de férias para dentro da mesinha de cabeceira), relaxando, aos poucos, o nosso relógio biológico (coisa difícil); etc.

Para mim estes são os primeiros sinais das queridas férias. Já falta pouco…

Queira alargar esta lista!

Obrigada!

O JJC faz anos

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Higgs: “O inventor de Deus”

Esta partícula tem dado «pano para mangas».

Tem muitos nomes: bosão de Higgs, “partícula de Deus”, divina partícula (como lhe chamou o provedor do leitor do Público, José Queirós) ou, ainda, “a maldita partícula” («the goddamn particle», na acepção do físico Leon Ledermann). A que eu gosto mais é mesmo de “partícula de Deus”! Muito mais poético!

Mas vamos onde eu quero chegar: ao homem que, em 1964, com apenas 34 anos, ” imaginou pela primeira vez a existência de uma partícula, a que hoje chamamos o bosão de Higgs ou a “partícula de Deus”, escreveu o jornalista Miguel Gaspar na Pública de ontem. Intitulou a sua crónica de «Peter Higgs O Inventor de Deus». E começou-a desta forma: “Todos os grandes passos foram um dia passos pequenos“. É que Higgs teve aquela genial ideia durante um passeio a pé no parque natural de Cairngorms, na Escócia.

Passaram-se 48 anos.

Higgs esperou quase meio século para ver a sua inspiração comprovada.

Uau! Esperar tantos anos. É admirável ter esta paciência e esta fé em si mesmo. Só por isto merecia o Nobel da Física!

Miguel Gaspar termina assim o seu texto também de elogiar: “O que seria de Deus (e do universo) sem os sonhos dos homens?”

Em tempo de férias, que tal um passeio a pé (ou vários)? Sabe-se lá se nos surge uma ideia brilhante, não digo para o conhecimento do Universo, claro, mas para as nossas vidas! Estamos a precisar!

Jornalismo v.2.1

“Há muito tempo,  numa galáxia muito, muito distante…” os jornalistas eram muito estúpidos e só publicavam factos e faziam-no com isenção e ética. Até tinham um código deontológico e tudo que dizia burrices como “O jornalista deve relatar os factos com rigor e exactidão e interpretá-los com honestidade”, “O jornalista deve assumir a responsabilidade por todos os seus trabalhos e actos profissionais, assim como promover a pronta rectificação das informações que se revelem inexactas ou falsas” ou “O jornalista não deve valer-se da sua condição profissional para noticiar assuntos em que tenha interesses”.

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O ano em que encarece a palha

Num país estranho de que me falaram, rapazes de vida airada brincavam até aos 40 anos, aprendiam tudo acerca de intriga, manobrismo e rasteiras nos partidos em que, tendo começado a colar cartazes, acabaram por ser dirigentes, passadeira pela qual chegaram a mandantes. Estudar é que não era com eles e nem mesmo trabalhar, porque para isso estavam aboletados na CP (Casa do Pai). Sabiam vagamente do interior do país e do seu povo por serem dados à grande cidade e às delícias que ela traz a quem não sabe quanto a vida custa a ganhar.
Mas um dia perceberam que, na grande cidade, eram olhados de alto por uns barões e marqueses de muito título e pilim. Mudaram de agulha e resolveram ser como eles. Começaram pelo pilim, pelas negociatas proporcionadas por uns bardinas partidários que sabiam da poda. Quando a carteira engordou, trataram dos títulos: como não era possivel ser barão  ou marquês, mesmo rebentando com o Visa e a conta bancária, porque é aquela chatice de haver neste mundo coisas que não se compram, atiraram-se a ser “dótores”. Sem estudarem, porque eles não tinham pachorra para isso.  Que estudassem outros, uns parvos sem o golpe de asa dos ladinos. E era esse país tão estranho que o puderam fazer na mais estrita legalidade, segundo roncaram os donos das escolas por onde saltaricaram.  É que as leis eram cozinhadas no parlamento, sítio esquisito onde os partidos estavam acampados: por fás e nefás eram todos primos e compadres. Tão esquisito, o tal sítio, que nele pai e filho não podiam parlamentar ao mesmo tempo. É que, se ao pai fosse perguntado o que fazia o filho, não podia o progenitor sujeitar-se à violência da verdade: meu filho deputa. [Read more…]

A Delicadeza

É nome de um livro, que dá nome ao filme francês que estreou esta semana em Portugal e classificado como «comédia romântica». Uma história de David Foenkinos (1974), considerado hoje um dos melhores escritores da nova geração, pelo menos na França.

Nathalie fica viúva. Entra numa «letargia» que dura cerca de três anos, “até ao dia em que rouba um beijo a um colega de trabalho tímido e pouco carismático”. 

“Será um beijo capaz de mudar tudo?”, lê-se na contracapa do livro (Editorial Presença, 2011). O autor cita Maupassant: “O beijo, contudo, não é mais do que um prefácio.” Foi uma amiga que me ofereceu o livro o ano passado pelo meu aniversário. Uma boa prenda, como são sempre os livros…

Isto é a delicadeza enquanto ficção!

Enquanto realidade: é uma qualidade que poucos têm. E quando encontramos alguém com ela… preste bem atenção: é maravilhoso. Um gesto, uma palavra, uma pergunta no tom certo, um toque nos ombros, um mimo…

Preste atenção. Esteja atento ou atenta às pessoas delicadas, poucas, é certo, que vai encontrando na sua vida ou no seu quotidiano.

Tentemos ser uma delas.

Não basta parecer sério

P. Vaz

No exercício de cargos públicos, não basta parecer sério e falar bem na televisão. É preciso ser mesmo sério (!) e fazer dissipar quaisquer dúvidas.
Por outras palavras: quão normal e verosímil é um estudante, com 4 cadeiras feitas em 36, conseguir equiparação às restantes 32 apenas com base num alegado curriculum profissional?