O plano de vacinação da Venezuela

A julgar por aquilo que se vai ouvindo e lendo em boa parte da imprensa nacional, e pelo seu reflexo mais ou menos adulterado nas redes sociais, o plano de vacinação em Portugal está a ser o maior desastre da história desde o Estado Novo. Já ouvimos dizer que é culpa do socialismo, que somos um país de terceiro mundo e que a coisa tem o dedo do Bill Gates. Se estivermos bem atentos, somos até capazes de ouvir, bem lá no fundo, alguém a sussurrar: “Venezueeeeeela”.

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O Tratado da Carta da Energia volta a atacar

Ontem, duas filiais da gigante energética alemã RWE – um dos maiores emissores de CO2 da Europa – interpuseram uma acção judicial  (ISDS) contra os Países Baixos, invocando a protecção do investimento do Tratado da Carta da Energia (TCE).

O TCE, um acordo internacional para o sector energético assinado em 1994, protege os investimentos em combustíveis fósseis e permite aos investidores e às multinacionais de energia reclamar dos Estados milhões de indemnização, por praticamente qualquer medida que prejudique os seus interesses económicos, presentes ou futuros.

Em Setembro de 2019, o governo holandês anunciou que, até 2030, iria aprovar uma lei para proibir a produção de electricidade proveniente do carvão. Em resposta a esta medida, a RWE respondeu exigindo milhões como indemnização pelo encerramento de duas das suas centrais eléctricas a carvão, que começaram a funcionar no país em 2015.

A exigência da RWE – 1,4 mil milhões de euros, metade do seu investimento inicial – ao abrigo do TCE é a primeira em toda a Europa a atacar os planos de descarbonização de um país para cumprir os seus compromissos climáticos adoptados com a assinatura do Acordo de Paris. Já em Abril de 2020, a multinacional alemã Uniper tinha ameaçado processar os Países Baixos e exigir uma indemnização de até mil milhões de euros, mas até à data não passou tinha passado a factos. [Read more…]

Suspeito de vacinação indevida

“Suspeito de vacinação indevida” é o crime do momento. Já não há corrupção, não há violência doméstica, não há condução sob o efeito de álcool, não há criminalidade económica nem tráfico de influências. O que há é um pequeno grupo de chicos-espertos, versão “pulha sem escrúpulos ou vergonha na cara”, que fura o plano de vacinação com muita criatividade, as mais esfarrapadas desculpas e uma imensa cara de pau, levando maridos, filhas e notáveis de um qualquer conselho de administração consigo. São sobretudo autarcas, quiçá a espécie mais versada na arte do crime em Portugal, mas também administradores de IPSS, gestores hospitalares e outros vigaristas em posição de poder. E quanto mais pequeno o meio, mais fácil o assalto: voltando aos autarcas, basta ver como se gere a maioria das câmaras municipais e juntas de freguesias desde país, principalmente fora dos grandes centros urbanos, onde o escrutínio mútuo é mais elevado, para percebermos isso mesmo. Se se gerem orçamentos camarários e o acesso à função pública em função dos apetites e das necessidades das habituais redes de tráfico de influências, em prejuízo dos concelhos e dos munícipes, porque não desviar umas vacinazitas? Os idosos em princípio nem vão votar!

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Diogo Faro ou o mundo em que gostava de viver

@liberty.edu

O incêndio da semana, nas redes sociais, foi o de Diogo Faro, humorista português que, nos últimos tempos, solidificou a sua imagem como activista dos direitos humanos e sociais, personificando a agenda identitária dos dias que correm. De uma forma legítima, note-se, até porque a maioria das questões que aborda são de uma extrema importância. No entanto, o meu problema com o Diogo Faro foi sempre o tom bélico das suas intervenções, criando uma divisão entre bons e maus. Ele próprio se identificou como um “pugilista digital”. Ou seja, nunca esteve em causa o conteúdo mas a forma que, a meu ver, soa a pregação para convertidos. Desconfio do facto de alguém que esteja do lado errado desses tópicos – porque sim, há um lado errado quando o tema são direitos humanos – tenha mudado a sua postura e opinião ao ler o Diogo Faro. Por isso, o humorista falha sistematicamente naquilo que para mim é um dever social de quem tem alcance público como ele: o de fazer a diferença. Amplifica a voz de muita gente? Talvez. Mas falta o passo seguinte, o de conseguir chamar à razão outras pessoas.

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Willkommen!

Sejam bem-vindos, ó profissionais de saúde alemães.

Antes de mais, pedimos desculpa pelo facto de se saber primeiro na Alemanha que vocês vinham para cá ajudar, sem que aqui se soubesse ainda.

É que isto sem a pandemia já era um pandemónio, com a bronca de um ucraniano a morrer às mãos do SEF, um Presidente a fazer striptease em campanha por uma vacina que depois não houve, uma candidatura martelada ao lugar de Procurador da União Europeia, entre outras cenas tipo.

E aquela coisa do Cavani não ter vindo para o Benfica, também não ajudou nada.

Enfim, tem sido só scheisse.

Mas, como podem ver, tivemos o cuidado de vos colocar num hospital privado.

O que não é para qualquer um.

Olhem que nesta terra, recorrer aos privados só mesmo depois de esgotar o parque automóvel das ambulâncias às portas das nossas urgências.

E, também, porque há sempre comunicação social e sociedade civil a meterem nojo.

Compreendam que os nossos recursos são parcos, e se queremos continuar a ser o país que menos gasta com a pandemia, temos de manter este esforço.

Atenção que não é austeridade. É esforço.

De qualquer forma, vindos de tão longe, era só o que faltava se iam agora andar de ambulância em ambulância para assistir ao povo, às portas das urgências do Santa Maria.

Ainda para mais com este tempo.

Mas, dizia eu, que são muito bem-vindos.

Fazem-nos um jeito do caraças.

Imaginem que temos imensos profissionais de saúde a trabalhar no estrangeiro. Principalmente enfermeiros. Que foram para fora à procura de melhores salários e progressões na carreira e outras coisas assim.

E nenhum parece estar com ideias de voltar para cá e dar uma mãozinha.

Malandros!

Mas, o que importa é vocês estão cá. E até trouxeram material auxiliar.

Pena não ter sido no Natal, pois faziam de Reis Magos.

De qualquer forma, se precisarem de alguma coisa, seja o que for, até mesmo umas sandes de pernil, é só dizerem.

Estejam à vontade e obrigadinho.

Bucha e Estica

Há pessoas que, em posições de poder que representam classes trabalhadoras, tendem a tomar como seu o lugar, quando o que representam são profissionais de diversas áreas. Profissionais esses que merecem o brio de quem os conduz, a honestidade e, acima de tudo, capacidade de isenção. Infelizmente, há certos bastonários que, por mais do que uma vez, têm mostrado esforço em beneficiar, com palavras e com acções concretas, certas cores políticas. Usar cargos de poder em representação de X classe trabalhadora para aparecer e fazer oposição política, tentando compensar o fraco trabalho de quem devia fazer realmente oposição, mostra a falta de carácter, apenas e só, de quem o faz. E também há certos bastonários de ordens que acham que fazem parte de um sindicato.

Se a senhora bastonária da Ordem dos Enfermeiros, Ana Rita Cavaco, tivesse tanta noção quanta a vontade que tem de dar beijos de amiga a André Ventura, e se calhar não fazia figuras de otária.

André Ventura dirige-se a adversários chamando-lhes “avô bêbedo” ou “coisa de brincar”, Ana Rita Cavaco dirige-se a uma presidente da câmara como “gorda fura filas” e desculpa a sua própria piada de mau gosto dizendo que foi Isilda Gomes, autarca de Portimão, quem assumiu ser “obesa”. Pois, pá. Todos sabemos que sempre que alguém assume uma doença, isso nos dá o direito de gozar com essa pessoa e com a sua doença. Especialmente quando essa pessoa agiu mal em alguma situação! Por exemplo: sempre que vejo que um obeso não faz o pisca a conduzir, ultrapasso-o e grito “ó gordo, mete o pisca!”.

Vai-se a averiguar e, afinal de contas, foi o deputado do Chega quem deu aulas de etiqueta à senhora bastonária.

Ou então, surpreendentemente, em vez de transmitir COVID-19, aquele “beijo de amiga” em Setembro transmitiu estupidez. Concluindo: podes tirar o Chega do PSD, mas nunca conseguirás tirar o PSD do Chega, sejam militantes, dissidentes ou bastonárias da Ordem dos Enfermeiros.

O que se tem passado com a distribuição das vacinas, segundo o que tem vindo a público, é grave e expõe, mais uma vez, a “chico-espertice” típica dos portugueses e, também, que a família do Partido Socialista é cada vez maior. Mas grave ou não, Ana Rita Cavaco é bastonária da Ordem dos Enfermeiros, não é apresentadora do “Isto é gozar com quem trabalha” e, como tal, não é sua função dizer facécias. E se não sabe onde começa e onde acaba a importância do cargo que ocupa, é porque não merece o cargo que ocupa. Por fim, Ana Rita Cavaco está lá em representação dos enfermeiros e não do PSD e da direita, pois, que eu saiba, ser bastonária não é ser deputada.

Imagino que Ana Rita Cavaco se preocupe com o compadrio. Aliás, preocupa-se tanto, mas tanto, que até contratou Tiago Sousa Dias, seu amigo de longa data, ex-militante do PSD, apoiante de Rui Rio nas directas do partido contra Santana Lopes, braço direito de Santana no Aliança depois do PSD correr com ele e agora activo do Chega e alegado futuro secretário-geral do partido “neo-preconceitos”, a quem a Ordem dos Enfermeiros paga 72 mil euros, a dividir num contrato de 3 anos, desde Março de 2020. Aparentemente, PS e PSD gostam de medir o membro “eu sou mais asqueroso do que tu”.

O que vale é que a qualidade dos nossos enfermeiros não se mede pela qualidade da sua bastonária (que é nula, no caso da senhora Cavaco, se é que ainda é preciso dizê-lo). Neste caso: “Mulher gorda/Ai, a mim não me convém/Eu não quero andar na rua/Com A VACINA de ninguém/E mulher magra/Ai, a mim não me convém/Eu não quero andar na rua/Com A ESTUPIDEZ de ninguém”.

           FILIPE AMORIM/GLOBAL IMAGENS

Mencionar um fato: this never happened to Pablo Picasso

I loved all sorts of English language experimentation.
John Cale

In fact, comparing previous research on UG principles in L2 phonology vs. L2 syntax, and pointing out the relatively little work in this area by L2 phonologists, Young-Scholten (1995, 1996) argued that there is, nevertheless, reason to believe that interlanguage phonologies do not violate the principles of UG, because they often correspond to natural languages (a point first made by Eckman, 1981), and because learners can often reset phonological parameters, instead of being stuck with the L1 values.
Öner Özçelik & Sprouse (2016)

***

Há quem tente adoptar o AO90 e escreva fatos e contatos, em vez de factos e contactos. Nunca grafei nem fatos em vez de factos, nem contatos em vez de contactos. Ao não adoptar o AO90, estou automaticamente protegido da base IV e de interpretações abusivas (eufemismo para ‘erradas’) dela feitas, como o famoso “agora facto é igual a fato (de roupa)“. Neste contexto, jamais me ocorreria, por exemplo, mencionar um fato.

Mencionar um fato, em vez de facto? Homessa! Como cantam os Modern Lovers (e o Cale e o Bowie e o White), this never happened to Pablo Picasso.

Continuação de uma óptima semana.

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Lembrar um mestre

Por estes dias tenho pensado muito em George Steiner. A morte dele, há precisamente um ano, fez antever um 2020 que nada trazia de bom.

Steiner é uma das presenças intelectuais mais assíduas na minha vida. Não há semana que passe sem que eu leia qualquer coisa que ele escreveu ou disse. A longa entrevista ao programa Beauty and Consolation, os artigos no New Yorker, excertos das Dez Razões para a Tristeza do pensamento estão nos favoritos do meu computador, na pastazinha onde escrevo passagens que me marcam. Antes do confinamento, comprei alegremente as quatro entrevistas a George Steiner feitas por Ramin Jahanbegloo e publicadas pela VS.

Acusado frequentemente de snobismo – uma questão que das várias que ele suscita é a menos interessante – Steiner entendia algo de muito importante sobre o trabalho intelectual: ele é suposto ser díficil. A literatura, por exemplo, é um constante diálogo entre diversas formas de pensamento, entre várias personagens e enredos e formas narrativas, e só a leitura incansável nos pode transmitir a plenitude de determinado livro ou história (estória).

Li vários artigos extraordinários sobre Steiner depois da sua morte. Mas o mais notável, pela sua compreensão da obra e do homem, foi o de Diogo Vaz Pinto no Jornal I em Dezembro de 2020:

Dotado de uma abrangência incomparável, move-se com uma elegância e uma desenvoltura que nos absorvem, com aquela capacidade de aceder à realidade como se a atraísse a um ínvio argumento, ressaltando algum padrão inusitado, aspectos finos e que traduzem uma qualidade mítica numa razão de outro modo insuportável. Deste modo, ensina-nos a perdoar à vida, e até à condição humana “o facto de ser a coisa indiferente e pontual que é”. Steiner diz-nos que as artes da compreensão (hermenêutica) são tão variadas quanto os seus objectos, e que “não há nada de mais exasperante na condição humana que o facto de nós podermos significar e/ou dizer seja o que for”.

 

“Flood the zone with shit”

A guerra de informação da Extrema-Direita que agora ameaça Portugal (parte 1)

Praticar o distanciamento de nós próprios: a questão do eu

 

@dougsavage

 

Não será de todo irreflectido pensar que vivemos uma constante e abrangente crise de identidade. A procura pelo significado do eu pintou a história de aventuras, da realidade à ficção ou mesmo na intersecção de ambas. Somos, afinal, eternos contadores da nossa própria história.

A ideia de sermos história cria, desde logo, uma crise de identidade: somos a nossa história ou os contadores dela? E se a contarmos, ela deixa de ser nossa?

Coloca-se o problema do distanciamento. Será proveitoso pensar que quanto maior o distanciamento, maior a incapacidade de encontramos o eu na história. Precisamos de estar próximos de algo para podermos dissertar sobre esse algo. A proximidade e a convivência garantem-nos experiência acumulada que se transforma em conhecimento de causa. Mas esta proximidade tem, em si mesma, encerrado um paradoxo existencial do distanciamento: não será a nossa visão mais clara quanto mais nos distanciarmos do objecto em análise, neste caso, nós próprios?

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Notas sobre as presidenciais 8: The António Costa & André Ventura connection

António Costa não é um político qualquer. E não anda nisto há dois dias. Sempre que me deparo com escritos que tratam António Costa como um acéfalo parido por uma juventude partidária, desprovido de inteligência, fico perplexo com a ignorância. A verdade é que António Costa começou na JS, e bem cedo, num tempo diferente deste, e até andou a colar cartazes pelas ruas de Lisboa. Contudo, como em qualquer juventude partidária, existe sempre aquela pequena minoria que se destaca dos condenados a uma existência de peão-carne para canhão. António Costa foi um deles.

Depois da formação na jota, no período pós-revolucionário, Costa teve uma ascensão meteórica. Aos 22 estava na Assembleia Municipal de Lisboa. Aos 30 no Parlamento. Aos 32 foi escolhido pelo PS para encabeçar a candidatura autárquica do partido por Loures, que perdeu, mas não sem antes deixar a sua marca na história com a célebre corrida entre um burro e um Ferrari, ganha pelo burro. Ficou como vereador, cargo que acumulou com o de deputado. Aos 34 foi director da campanha de Jorge Sampaio às presidenciais, na qual o socialista derrotou Cavaco Silva. No mesmo ano foi convidado por Guterres para assumir a Secretaria de Estado dos Assuntos Parlamentares, pasta que permite, como poucas, conhecer e dominar todas as manobras na Assembleia da República. Aos 36, foi promovido a Ministro dos Assuntos Parlamentares e encarregue de coordenar o dossier Expo98. Aos 38, no segundo governo Guterres, assume o Ministério da Justiça. Aos 41, após a demissão de Guterres, regressa ao Parlamento para assumir a liderança da bancada socialista. Aos 43, ruma a Bruxelas, onde, durante um ano, acumula a função com a de vice-presidente do Parlamento Europeu. Aos 44, regressa a Portugal para ajudar Sócrates a conquistar a primeira maioria absoluta do PS, assumindo, no mesmo ano, a função de Ministro de Estado e da Administração Interna. Aos 46, abandona o governo, antes de Portugal conhecer o verdadeiro José Sócrates, para se candidatar às Intercalares de 2007 em Lisboa, corrida que vence e que revalida duas vezes, em 2009 e 2013, abandonando o cargo em 2015 para assaltar a liderança de António José Seguro, e, posteriormente, construir a histórica Geringonça, que o colocou à frente do país desde então, com sondagens constantes a garantir a sua reeleição se o país for a votos amanhã. [Read more…]

Resistir à vacina

Sou uma das pessoas mais importantes do mundo. Pode haver algumas mais importantes, dentro da minha família. Tenho amigos, todos eles importantes, mas nenhum é tão importante como eu. Tenho amigos maravilhosos, mas sou muito mais importante do que qualquer um deles, mesmo aqueles que são os melhores amigos. As dores que sinto, quando, por exemplo, bato com um cotovelo numa esquina são infinitamente maiores do que as de uma fractura exposta de qualquer outra pessoa. Há pessoas que se magoam a menos de um metro de mim, sem que eu sinta a mais pequena dor. Peço desculpa, mas é assim mesmo.

Isto quer dizer que também eu quereria ser vacinado antes da larga maioria da população, incluindo uma enorme quantidade de velhos, de enfermeiros, de médicos, de bombeiros, de gente que, em geral, estará mais exposta do que eu ao vírus. E por que razão quereria eu ser vacinado antes de toda essa gente? Porque sou uma das pessoas mais importantes do mundo, como é evidente.

Não tenho conhecidos em lugares suficientemente importantes para conseguir ser vacinado antes dos milhões de pessoas muito menos importantes do que eu, porque como eu não há ninguém.

Se tivesse essa possibilidade, mesmo sabendo que ninguém iria saber, aceitaria ser vacinado? Se um amigo chegasse a minha casa com a vacina na mão, seria eu capaz de resistir a essa oferta? Não sei, gosto de acreditar que sim, mas gostaria de deixar claro que se eu, devido a algum privilégio ou outra circunstância favorável, fosse vacinado antes da minha vez, passaria a fazer parte da nojenta e viscosa categoria dos filhos da puta, tal como foram magistralmente definidos por Alberto Pimenta.

A Lei do Teletrabalho Aplica-se aos Professores?

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Carta aberta ao Governo de um grupo de professores bloggers com pedido para que seja cumprido o estipulado no Plano de Ação para a Transição Digital, de modo a que os docentes tenham condições para trabalhar a partir de casa. 

 

A Lei do Teletrabalho Aplica-se aos Professores?

Para ler este conteúdo de forma completa, é favor visitar o blogue Correntes.

 

Notas sobre as presidenciais 7: Ana Gomes against the system

Não quero imaginar o que teria sido esta eleição sem a candidatura de Ana Gomes. Sem uma candidatura que representasse o espaço que vai da social-democracia ao socialismo democrático, onde me posiciono ideologicamente. Sem uma voz de esquerda suficientemente corajosa para questionar o establishment socialista, mas sem nunca renegar o europeísmo ou as vantagens de uma economia mista, onde os sectores público, privado e social se complementam, regulados pelo Estado. Uma voz do centro-esquerda com provas dadas de carreira e competência, que tem sido um farol na luta contra a corrupção, contra a criminalidade económica e a favor de um Estado mais honesto e transparente. Senti-me representado desde o primeiro momento, mesmo sabendo tratar-se de uma eleição com um resultado mais do que expectável, que de resto se veio confirmar. [Read more…]

Notas sobre as Presidenciais 6: será que Rui Rio e Francisco Rodrigues dos Santos já perceberam o que se está a passar?

O resultado destas presidenciais, para os partidos da área política do presidente reeleito, são, como um dia disse o grande Jaime Pacheco, “uma faca de dois legumes”. Porque se é verdade que o candidato por ambos apoiado foi o inequívoco vencedor, não é menos verdade que a situação destes partidos piorou substancialmente.

E porquê?

Em primeiro lugar, porque a contestação a Marcelo Rebelo de Sousa tem sido mais estridente à direita do que à esquerda. Como seria de esperar, após cinco anos de braço dado com António Costa. E se é desejável que presidente e governo não se hostilizem por desporto ou tricas partidárias, e mais desejável ainda que estejam em sintonia para combater a pandemia, assume-se que a direita, legitimamente, esperaria que os quatro primeiros anos fossem de alguma oposição vinda de Belém. Ou pelo menos que Marcelo não se convertesse no BFF de Costa. Mas, como bem sabemos, não foi isso que aconteceu. Acresce a isto que Costa foi o primeiro a apoiar Marcelo oficialmente, tendo inclusive lançado a sua candidatura, e que arrastou consigo o eleitorado do PS. E, afirmar os matemáticos que estudam estas coisas, foi precisamente o eleitorado socialista quem maior peso teve na reeleição do presidente incumbente.

Em segundo lugar, o meio milhão de votos de André Ventura não apareceu por obra do divino Espírito Santo. Quando Rui Rio apareceu em êxtase, na noite eleitoral, a celebrar a vitória alentejana de Ventura, felicíssimo com o facto de João Ferreira ter ficado atrás do candidato de extrema-direita, não se terá certamente apercebido que os votos conquistados por André Ventura (e Tiago Mayan, sublinhe-se) em Beja, Évora, Portalegre e nos concelhos setubalenses pertencentes a território alentejano equivalem mais ou menos à votação obtida por PSD e CDS nas Legislativas de 2019. Mas Rio, deslumbrado com o resultado do parceiro açoriano, reagiu como se dezenas de milhares de votos obtidos pela extrema-direita no Alentejo tivessem sido subtraídos ao PCP, que, no total nacional, face a 2016, perdeu 2 mil votos. Não 60 mil.

Em terceiro lugar, ver Francisco Rodrigues dos Santos gritar “vitória”, na primeira reacção da noite, enquanto André Ventura digeria o que restava do CDS, rodeado por antigos quadros do partido de bandeira do Chega na mão, está ali algures entre o trágico e o cómico. É preciso não ter noção da realidade, ou estar em absoluta negação, para não perceber que o eleitorado do CDS está a ser literalmente açambarcado pelo Chega. E, já agora, pela Iniciativa Liberal, que, caso o CDS não mude rapidamente de rumo, rapidamente lhe ficará com toda a ala liberal que, nota-se, encaixa melhor no partido de Carlos Guimarães Pinto e João Cotrim Figueiredo do que no de Francisco Rodrigues dos Santos e Abel Matos Santos.

O que nem um nem outro parece perceber, é que PSD e CDS saem desta eleição mais fracos, com perda de eleitores para o Chega e perante dois novos adversários que, no médio prazo, transformarão o lado direito do espectro numa paisagem de pequenos partidos, sem capacidade de fazer frente a António Costa. Nem isoladamente, nem todos juntos. E se, no caso do CDS, o problema está na disputa do eleitorado mais conservador e católico, num duelo entre um predador e uma presa que parece não compreender a sua condição, de vitória de pirro em vitória de pirro, até à extinção total, no caso do PSD foi uma sucessão de erros, a começar pela narrativa de um partido ao centro, território dominado por António Costa, deixando a direita à mercê dos seus adversários. On top of that, foi Rui Rio que se atirou nos braços do abraço do urso, quando furou o cordão sanitário nos Açores, sem que tal fosse necessário para governar o arquipélago. Foi Rio, mais que qualquer outro, quem oficializou a legitimação do Chega. E pagará uma factura elevada por este misto de ambição e ingenuidade.

Notas sobre as Presidenciais 5: Deixem-se de tretas: os eleitores do Chega não são todos uns coitadinhos revoltados que não sabiam ao que iam

Não engulo a narrativa anti-sistema. Anti-sistema era o Tino de Rans. André Ventura veio do bloco central do sistema, teve um padrinho do sistema, foi recentemente acolhido pelo sistema, nos Açores, esteve ligado ao Correio da Manhã, andou no debate futebolístico, tira selfies com Luís Filipe Vieira, rodeia-se de pessoas com credenciais como ligações ao BES, aos Panama Papers, a contratos milionários com o estado, à evasão fiscal – em tempos uma das especialidades do próprio André Ventura – e a inúmeros outros esquemas, amplamente difundidos pela imprensa nacional, para não falar nos vários membros da elite endinheirada deste país que o apoiam e financiam, e agora é anti-sistema?

Vamos lá ter noção, sim?

Anti-sistema, repito, é o Tino de Rans. O Chega é do sistema, para além de herdeiro do sistema anterior, e tem ligações a todo o tipo de elites, abastadas, excêntricas e nada católicas. A única diferença entre ele e o restante sistema, é que André Ventura cruza constantemente a linha vermelha do racismo, da xenofobia, do fanatismo religioso, do ódio, enfim, uma série delas que já todos sabemos. Mas não é anti-sistema. É apenas a pior face dele. A que oprimiu Portugal durante mais de 40 anos. Aliás, o Chega é tão sistema, que o quartel general de Ventura já tem mais oficiais do CDS do que o Largo do Caldas. Tudo isto é público, tudo isto é apoiado em factos muito concretos, e nem Ventura, nem o Chega tentaram sequer o contraditório. E quem cala consente. [Read more…]

Dona Natividade e os seus 126 vacinados

Já quase não é notícia nem incomoda ninguém, mas o saque de vacinas em Setúbal é o grau zero na escala de desumanidade e só comparável ao abandono a que foram sujeitos vários habitantes de Pedrogão Grande.
A abertura de inquérito e a demissão (ainda que digna) da Sra Natividade Coelho, não me dizem nada.
Porque a mensagem que 126 membros vacinados do centro da Segurança Social passaram a idosos, profissionais de saúde e outros prioritários foi simples: desenrasquem-se com cêgripe e chá com mel. [Read more…]

Pense e Fique Rico

 

@luadepapel

Não consigo precisar com toda a certeza, mas penso que a primeira vez que li um livro que se enquadre na categoria de “auto-ajuda” ou de “desenvolvimento pessoal” foi por volta dos 13 anos. Na altura “O Segredo”, de Rhonda Byrne.

Fiquei fascinado com toda uma série de conceitos como a lei da atracção, a força do pensamento e tantos outros que, estando mais ou menos atentos, já ouvimos falar pelo menos uma vez.

Nestes 12 anos que se passaram, fui do fascínio por estes livros à crítica profunda e ao rótulo de “banha da cobra” e adjectivações semelhantes. Posso dizer que atingi o equilíbrio no que à perspectiva sobre estes livros diz respeito (será que eles ajudaram?).

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Notas sobre as Presidenciais 4: a esquerda identitária no divã

Esta nota poderia chamar-se “o Bloco de Esquerda e a ala esquerda do PS no divã”, até porque o PCP, não sua ortodoxia conservadora, é um partido com uma matriz ideológica e programática muito diferente da restante da esquerda, mas este é um problema que não se resume à esquerda partidarizada, mas também ao eleitorado flutuante que, sendo de esquerda, não tem uma lealdade partidária cristalizada.

Quando o Bloco surgiu, alguns já não se lembrarão, teve uma entrada ainda mais fulgurante no panorama político português do que o Chega, num tempo em que não se arregimentavam pessoas nas redes sociais com dinheiro, marketing e algoritmos, mas com propostas concretas e contactos nas ruas, nas empresas ou nos fóruns culturais. Na eleição de 1999, ano de fundação do Bloco, o partido elegeu dois deputados para a Assembleia da República e o foco estava nas grandes questões que verdadeiramente interessam aos excluídos, aos revoltados e aos esquecidos pela macrocefalia lisboeta: rendimento, desigualdade, emprego, acesso ao elevador social. E sim, também lá cabiam outras causas, também elas importantes e estruturais, como o combate ao racismo e à xenofobia, os direitos da comunidade LGBT, o feminismo e outras causas mais identitárias. [Read more…]

O Fim dos Directos Televisivos


Acabaram-se as selfies, os intermináveis directos na televisão. Vai ficar tudo bem!

Cuidado!

In fact, theories such as direct realism suggest that perception and production are not just closely tied, but rather that production gestures are the basis of speech perception (Best, 1995; Fowler, 1986).
Baese-Berk & Samuel (2016)

Some people get a freak outta me
Some people can’t see what I can see
Some people wanna see what I see
Some people put an evil eye on me
Franz Ferdinand

***

Efectivamente, como me disse o excelente leitor do costume (já tinha saudades de o mencionar):

Cuidado! São espetáveis!

 

Obviamente, segui o conselho.

Entretanto, houve outro leitor, um autor com quem simpatizo imenso, a almejar que uma pérola, sobre a qual conversávamos há dias, viesse desaguar no Aventar. Detectei-a, por suspeita, à margem da preparação de reunião sobre occisões (exacto, é a vida, como diria o actual SG da ONU). Trata-se de forma invasora, ocorrida nove vezes no sítio do costume: três entre 1985 e 2008 e seis entre 2017 e 2020.

Só três antes de 2008? E seis, só entre 2017 e 2020? Ora, tendo o AO90 começado a ser aplicado em Janeiro de 2012… Portanto, noves fora nada… Contas feitas, este aumento das ocorrências de *ocisão deve ser por razões que a literacia de cordel explicará.

Quanto à edição de hoje do Diário da República, tudo como dantes.

Continuação de uma óptima semana.

***

O estranho caso da procurador europeu

Fala-se muito no Chega como um fenómeno novo, que veio mobilizar uma parte do eleitorado abstencionista, quando, na verdade, está a crescer à custa do desaparecimento estatístico do CDS-PP, levando consigo o sector ultraconservador e saudosista do partido, ao mesmo tempo que subtraí eleitorado ao PSD, também ele ultraconservador, mas, até então, acomodado aos benefícios que a rotatividade no poder lhe trazia.

Não obstante, e, apesar da subida do PS nas intenções de voto, algo que parece resultar de uma transferência de votos provenientes do BE, ainda a pagar a factura por ter tirado o tapete a António Costa no último orçamento de Estado, parece-me claro que o Chega está a beneficiar do ambiente de suspeição que rodeia o governo e a figura do primeiro-ministro. Porque não há melhor alimento para o populismo e para a extrema-direita, do que haver quem no poder valide a sua narrativa. Aliás, importa referir que o Chega é um subproduto de mais de 4 décadas de miséria governativa protagonizada pelo bloco central, com as suas portas rotativas e esquemas público-privados. [Read more…]

A “culpa” do jornalismo

[Miguel Carvalho*]
Ah, e tal, o jornalismo é o principal culpado do resultado de André Ventura. Sempre a dar-lhe voz, a fazer pé de microfone, a execrá-lo ou a pensar no próximo bitaite incendiário que virá dali, pois sempre virá alguma coisa.
Bem, sou capaz de concordar que Ventura e o Chega têm tempo de palha em demasia. Digo tempo de palha porque uma boa parte da antena está sempre a salivar com zaragata.
Mas o que sugerem: que o jornalismo se demita da sua responsabilidade de investigar, de escrutinar, de contrastar, de trazer a público aquilo que leve os cidadãos a tomar decisões mais responsáveis e aprofundadas, mesmo se escolhem não o fazer?
O que sugerem: que fiquemos sentadinhos a ver o andor passar e fazer de conta que não há um entertainer político hábil que ocupou o espaço de sucessivas irrelevâncias partidárias, do esquecimento a que foi votada parte do País, do ressentimento acumulado por tanto submundo engravatado e promessa por cumprir?
O que sugerem: que o jornalismo abdique de prestar um serviço público, independentemente da sociedade valorizar esse esforço, ainda por cima em tempos de recursos esganados?

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Notas sobre as Presidenciais 3: hecatombe à esquerda?

À medida que os resultados iam saindo, a narrativa da hecatombe à esquerda foi sendo construída, por painéis essencialmente feitos de fazedores do opinião alinhados à direita, que toda a gente sabe que a comunicação social é controlada pela esquerda.

Mas será que foi mesmo assim?

Comecemos pelos resultados PCP, responsáveis pelo primeiro momento de vergonha alheia da noite eleitoral, com assinatura de Rui Rio, que fez questão de dar grande ênfase, no seu discurso, ao facto de João Ferreira ter ficado atrás André Ventura, apesar de tal se dever, essencialmente, a votos do PSD.

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Notas sobre as presidenciais 2: fascism is the new minority

Encontrei este apontamento do Daniel Oliveira, que nos diz muito sobre onde estamos em matéria de defesa da democracia:

Mais de 88% dos eleitores votaram em candidatos comprometidos com o essencial dos valores constitucionais democráticos. Somos, se me permitem dizer assim, a esmagadora maioria do país. Isto deve ser dito de forma clara, antes que se institua que uma minoria diz o que o país sente”

Agora, está nas mãos do PSD travar a extrema-direita. Não sem antes mudar de líder, que o que lá está já deixou claro que só está apto para ser gato-sapato do Salazar 2.0.

E agora?

Mário Machaqueiro
Há várias coisas que me apetece dizer face aos resultados eleitorais. A primeira destina-se à ideia de que o PS de António Costa é um dos grandes vencedores com esta vitória do situacionismo do centrão. Especialmente numa altura em que anda a cavalgar as sondagens que, a serem fidedignas, mostram como os portugueses se estão nas tintas para os escândalos políticos associados ao governo – a inacreditável fraude na selecção do procurador europeu que, pelos vistos, nem um sobrolho levanta à grande maioria dos nossos conterrâneos – como lhes é também indiferente a forma desastrosa na gestão que o primeiro-ministro está a fazer da pandemia, indiferença que, em grande medida, explica o facto de a abstenção ter sido inferior ao esperado (eu diria, ao lógico: mas a realidade social não se compadece com a lógica). O centrão, portanto, reinstalou-se e foi até buscar votos ao eleitorado da esquerda mais “radical”, pois sabe-se que muitos eleitores do BE saíram de casa para pôr uma cruzinha no Marcelo. Nada disto, porém, propicia grandes extrapolações para futuras legislativas e até mesmo para o relacionamento futuro do presidente com o governo de Costa. Acho que não tive alucinações auditivas quando percebi umas advertências sibilinas que Marcelo foi insinuando, aqui e ali, no seu discurso de vitória – aliás, excelente – e que deixam no ar a ideia de que ele talvez se prepare para não facilitar a vida do governo relativamente à errância, ao desleixo e à casmurrice obtusa nas medidas contra a pandemia. A sua insistência neste tema, a estratégia (brilhante) de ter iniciado e terminado o discurso colocando a tónica neste assunto, podem antecipar uma actuação mais determinada (ou menos mole ou menos pactuante) em relação àquele que é, realmente, o único assunto que agora nos deve mobilizar em primeira instância. A alternativa é termos, no tempo que separa até às eleições legislativas, a mesma marmelada pastosa, em matéria de relações institucionais, que temos conhecido ao longo destes meses. Hipótese que, claro, não será de excluir. Não sabemos, pois, que problemas ou entraves Costa terá pela frente no seu relacionamento com Marcelo, sobretudo se estivermos cientes de que o “presidente dos afectos” é, por detrás da máscara do homem das selfies, um tipo florentino e sinuoso, cuja agenda nem sempre é politicamente clara.

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Presidenciais 2021 – Prémio Falta de Noção: os discursos

Carlos César, Rui Rio, Chicão.

Qual o vencedor do prémio “Falta de Noção: os discursos”?

Confesso que titubeei, mas o meu voto vai para Rui Rio. Um homem que é líder de um partido aos cacos, cada vez mais refém da extrema-direita, e que, segundo o próprio, não está nada preocupado com o Chega. Como se não bastasse, o importante, para o líder do PPD sem SD, é que a direita “esmagou a esquerda”. Sim, Rui, aquela direita que votou em Marcelo Rebelo de Sousa apoiado pelo Partido Socialista em força. Ganha o prémio “Falta de Noção: os discursos” destas Presidenciais 2021.  Em suma, para Rui Rio, um voto no Chega é um voto no PSD. E pensar que o Chega nasceu ainda dentro do PSD…bons filhos à casa tornam, dizem. Como o Rio nunca soube o que quis dizer “cordão sanitário”, actualmente acha por bem não puxar o autoclismo para poupar água. Mas, no fundo, o que é um leve cheiro a cocó quando comparado com as valências da extrema-direita? Nada que o nariz não aguente, não é Rui?

No entanto, menção honrosa para Carlos César, o Drácula do PS: quase ninguém dá por ele, ou tampouco o conhece, mas o homem já deve ser uma reencarnação, anda cá há tanto tempo sem envelhecer que deve ser feito de cera. Conseguiu transformar a ínfima vitória de Ana Gomes sobre André Ventura numa vitória do PS. No fundo, para Carlos César, o PS faz linha no Bingo: o candidato que apoiou venceu, mesmo sendo de direita, a candidata que é do PS mas que odeia o PS ficou em segundo e o Carlos César continua a ser um lacaio putrefacto que gravita à volta de tudo o que lhe convém. Boa, Carlos! Com este apoio a Marcelo garantiu, certamente, emprego às próximas gerações da sua família. Não dorme em serviço, este açor.

Quanto ao Chicão, fica num modesto terceiro lugar da lista. Ouvi-o dizer que o CDS sai vitorioso por ter apoiado o Presidente re-eleito, e pareceu-me que enquanto o dizia outra meia dúzia de militantes foram filiar-se no Chega. Para além disso, não gosto de políticos que fazem olhinhos de menino da lágrima e afinam a voz para parecer que estão indignados. O Chicão é aquele tipo de pessoa que tirou 5 valores no teste, mas que diz que esse resultado o enche de orgulho porque passou a cábula da pergunta 3.2 ao Vítor, que tirou 14. O CDS ainda existe?

Dito isto, parabéns Rui Rio. A caminhar a passos largos para infectar de vez o PPD sem SD. E isto no meio de uma pandemia, é um excelente dois em um para os sedentos de poder.

Já o nosso Primeiro-Ministro, esse grande socialista e esquerdista, que ontem aproveitou para dormir o dia todo (depois de votar em Marcelo, claro), talvez acorde, um dia, em sobressalto. É que sempre ouvi dizer que nunca se deve dormir à sombra da bandalheira…da bananeira, desculpem.

                  Ilustração de Carlos Sêco

Notas sobre as Presidenciais 1: António Costa, o grande vencedor da noite eleitoral

António Costa é, na minha opinião, e a par de Marcelo, o grande vencedor da noite eleitoral.

Porquê?

Pelos motivos que se seguem:

  1. Escolheu o candidato vencedor, antes mesmo do partido desse candidato, ou do próprio anunciar a (expectável) recandidatura, e anunciou-o publicamente, lançando Marcelo na corrida, a um metro de distância dele, sem lhe dar hipótese de fuga. Com isto colou-se à popularidade do presidente, garantiu a cohabitação pacífica para o mandato seguinte, quando a tentação de afastamento, pela impossibilidade de reeleição, poderia ser maior, garantiu a sua – não do PS – vitória nas presidenciais e poupou uns milhares ao seu partido, em falência técnica há vários anos. [Read more…]

Um mau sinal

Um escroque ficar em terceiro ou segundo lugar, à frente de gente decente e com uma ideia para o país, é um péssimo sinal sobre a saúde política dos portugueses.

O tempo da porrada, aquela vinda dos regimes que estes populistas procuram ressuscitar, já tem umas décadas e a memória de muitos é fraca. Outros não a têm, por não serem desse tempo, e não a construíram pela aprendizagem na escola.

Fonte: PÚBLICO

Em casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão, vox populi dixit. A realidade actual é feita de extremos económicos, com alguns (poucos) extremamente ricos e muitos no limite da pobreza (“10% das famílias mais ricas tem mais de metade da riqueza total em Portugal“). De crise em crise, “Portugal foi um dos poucos países europeus que se tornaram mais desiguais desde o início do milénio“.

É este o estrume onde crescem as raízes do populismo. Que tem o apoio dos imensamente ricos e os votos daqueles que pouco têm, o que não deixa de ter a sua dose de ironia.

Exemplo a não seguir – II

Pouco tenho a acrescentar ao que escrevi no post anterior.
O cidadão Marcelo Rebelo de Sousa, deslocou-se hoje a Celorico de Basto, para exercer o seu direito de voto. Sem que as autoridades policiais o incomodassem, ao que se sabe. Não se percebe assim a legitimidade de qualquer operação policial em território português, que ouse perguntar ao cidadão comum, motivo para se deslocar. Pior ainda, não vi a qualquer jornalista, ousar questionar o cidadão que exerce a função de presidente da República, porque motivo, não trabalhando em Celorico há várias décadas, continua ali recenseado.
Até parece, estarmos em presença de alguém ungido, acima de todo e qualquer mortal cidadão. Portugal é cada vez mais uma choldra, verdadeira república das bananas…