A Força das Redes Sociais e a Ucrânia – Crónicas do Rochedo #53

Um dia ainda vamos saber qual foi o verdadeiro papel das redes sociais em toda esta guerra. Porém, neste momento, já não tenho muitas dúvidas da sua importância nalgumas tomadas de posição surpreendentes dos governos ocidentais – sim, nas democracias é quase impossível termos governantes imunes à força da opinião dos seus cidadãos.

Os principais governos europeus eram completamente contra lançar a “bomba atómica financeira” chamada Swift contra a Rússia. Ora, foi claro nas redes e nas ruas que essa era uma das exigências e quando os governos ocidentais divulgaram a segunda fase das sanções e não estava lá a retirada da Rússia do sistema Swift a revolta fez-se ouvir e em menos de 48h os governos mudaram de posição. Outro exemplo mais flagrante foi o caso da eterna neutralidade da Suíça. A força esmagadora da opinião dos seus cidadãos nas redes foi suficiente para este país dar um passo de gigante e quebrar a neutralidade. Ou que dizer do caso da FIFA? Primeiro veio com a velha história de que o desporto está fora da política. A seguir, graças à verdadeira avalanche de críticas começaram as federações locais a pressionar e a FIFA decide assim uma coisa meio parva de que os russos podiam jogar mas sem hino e bandeira. A coisa piorou e neste momento já é dado como adquirida a decisão de expulsão da Rússia do Mundial – e cheira-me que no fim de tudo isto vão rolar cabeças nas mais altas esferas da FIFA… E o que dizer das decisões tomadas pela Alemanha? Basta olhar para as redes sociais ou para a grandeza das manifestações de rua e a coisa está minimamente explicada.

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Fífia

Como toda a gente sabe, Vladimir Putin só passou a ser uma pessoa em quem não confiar, um déspota, um neo-fascista e persona non grata há três dias, depois de invadir a Ucrânia. Antes, eram só mares de rosas, Putin deveria ser um anjo caído, um deus na Terra, o artífice que consertava todos os males. Só assim se explica o contorcionismo a que os senhores do capital se sujeitam por causa… do capital.

Quando a Federação Russa enche a FIFA e a UEFA de rublos cambiados em euros, quando a Gazprom enche o esfíncter dos marmanjos dos sorrisos amarelos ou quando os oligarcas capachos do líder russo mexem cordelinhos junto das grandes instâncias mundiais (FIFA e UEFA, como dizia o que abusava das secretárias, estão todas lá dentro… o resto já sabem), prevendo-se a situação win-win para ambas as partes, não os vejo preocupados com o perigo que vem de Leste. Nós, pessoas “normais”, cidadãos comuns, há muito sabemos do que é feito Putin, há muito estamos avisados para o seu calculismo, há muito sabemos que quer construir, de novo, a Rússia imperial czarista, há muito sabemos da sua simpatia pelo nacionalismo, da sua antipatia pelos valores democráticos, do seu ódio ao Estado de Direito. Há muito sabemos que famílias políticas europeias são financiadas por Putin. Nós, pessoas comuns. E a FIFA? Não o sabia? Duvido. Duvido muito. Aliás, não duvido: tenho a certeza – a FIFA sempre o soube.

Agora, qual zeladora dos interesses do mundo pacifista, vem a FIFA informar, cinicamente, que a “selecção da Rússia vai continuar a jogar, mas com algumas restrições”. A sério? “Algumas restrições”? Coitados. Isto é o equivalente a um homem que matou a esposa à pancada, mas que vai poder continuar a bater com algumas restrições. Entre as restrições constam: não pode usar moca de pregos, armas de fogo estão estritamente proibidas, facões e outras lâminas só em legítima defesa. E por legítima defesa, entenda-se, quer dizer a FIFA: “na eventualidade da esposa se recusar a lavar a loiça”.

E estamos nisto. Nos jogos de sombras típicos destes eventos históricos, há sempre a megalomania que os donos disto tudo têm, de fingir que estão do lado certo da História. Não estão. E não enganam ninguém.

Fotografia: AFP/Getty

Apanhar as canas dos foguetes da reacção

A minha solidariedade para com a Esquerda Revolucionária e para com o PCP, agredidos por neo-nazis e reaccionários, ontem na manifestação de apoio ao povo ucraniano, em Lisboa. Compreenda-se, ou não, a posição do PCP, tudo bem. Concorde-se, ou não, com a posição do PCP, tudo bem também. Nada justifica a agressão.

Estive presente, em trabalho, e notei a presença de membros da ER, que distribuíam panfletos anti-guerrra, assim como uma banca do PCP, com a presença, julgo, de militantes da JCP. Vi, também, neo-nazis e reaccionários, que, confesso, não percebi o que faziam ali, dado que, na zona onde me posicionei, o que mais se via eram cartazes contra a extrema-direita, contra a NATO e a favor da paz, assim como, no local em questão, se encontravam maioritariamente camaradas de esquerda. Talvez procurassem, de facto, conflito – e os militantes comunistas foram o alvo fácil pela posição que têm assumido.

O sentimento anti-comunista que tem sido criado, baseado em desinformação e apelos de famosos neo-nazis cá do burgo, não passará. A normalização que este país tem vindo a fazer em relação a neo-fascistas e neo-nazis é perigosa… apanhem, então, as canas, antes que algo pior aconteça. Mas lembrem-se que o único regime ditatorial que Portugal viveu em República era fascista… nunca foi comunista.

Força, PCP.
Força, Esquerda Revolucionária.

Os Millennials foram para a guerra…

O doutor tasqueiro

Que maravilha. Adoro este discurso intelectual de tasca. Traduzindo para linguajar da Areosa:
“O gajo violou-a mas ela estava mesmo a pedi-las, aquela mini saia….”

O professor doutor especialista e “tudólogo” Alexandre Rublo Guerreiro

As nossas televisões são uma maravilha no que toca a descobrir aves raras do comentário. Talvez por falta de atenção minha ainda não conhecia a “última bolacha do pacote” das aves raras do comentário televisivo: o Alexandre Guerreiro. Ao que parece divide o seu tempo entre vender aulas na FDUL, o comentário desportivo e agora a guerra entre a Ucrânia e a Rússia.

Bem vistas as coisas está tudo interligado. São tudo verdadeiros cenários de guerra. E, verdade seja dita, o lado bélico do comentário sobre bola nas televisões em Portugal não anda muito longe do antagonismo verbal a que se assistiu hoje de manhã na Sic Notícias entre este Alexandre “Rublo” Guerreiro e o José Milhazes. Vamos então ouvir o especialista em guerras, sejam elas no leste da Europa ou no Sporting:

Sobre Bruno de Carvalho, Ministério Público, Terrorismo e Alcochete: AQUI

Agora sobre a manifestação das forças de segurança na crónica criminal num programa da manhã da TVI e também fala de Terrorismo: AQUI

Já neste, temos o especialista, desta vez na TV Record, a falar sobre o “Terrorista” do ISCTE: AQUI

E aqui temos o benfiquista especialista Alexandre Rublo Guerreiro a falar sobre a agressão a um director de modalidades do Sporting no programa do Goucha na TVI: AQUI

Nestes exemplos temos o homem a falar como um verdadeiro especialista em terrorismo, direito, futebol, medicina, política internacional, políticas de segurança. E confesso que não coloquei aqui tudo. Estou convencido que se a minha busca fosse mais intensa ainda descobria um vídeo sobre como fazer o melhor “Bacalhau com Todos”.

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Coragem

“Mesmo na noite mais triste
Em tempo de servidão
Há sempre alguém que resiste
Há sempre alguém que diz não”

A realidade

Lixa-nos a realidade. Foi-se o lirismo.

Somos sempre pela paz. E nunca queremos a guerra. Por isso, entrincheiramo-nos… para fazer a guerra. Ou será a luta pela paz? Será possível querer paz fazendo a guerra? Ou é uma contradição?

Sem lirismo, a realidade: é por perpetuarmos as guerras que não atingimos a paz. E enquanto houver quem se queira entrincheirar nas guerras dos burgueses, o povo continuará a ser, apenas e só, figurante.

Choninhas soberanos baixam as calças ao “imperialismo de bem”

Corre por aí uma tese: tens de apoiar um lado. Sim, tens de apoiar um lado mesmo que ambos os lados sejam péssimos! Nazis ou fascistas? Escolhe rápido!

“Aqueles também são filhos da puta, mas são os meus filhos da puta”, dizem por aí.

Os choninhas portugueses, soberanos, fazem sempre a mesma escolha: dar o cu a quem o quiser. Assim é, também, neste caso.

Deixem-se de merdas; não tens de escolher um lado entre EUA/NATO e Rússia coisa nenhuma. Se num cenário como este, o que te dão a escolher é entre o vómito e a diarreia, foge. O lado que tens de escolher é: PAZ ou GUERRA?

Por tal, Portugal agora tem uma missão. A saber:

Revogar os vistos gold dos oligarcas russos (1), acolher os refugiados ucranianos que fogem da guerra (2) e apoiar as várias sanções à Rússia (3).

Por fim, ficar bem longe das intenções de resposta de instituições nazis como a NATO (4) que só perpetuam a guerra. Escolher a paz.

Caros senhores da guerra,

Não há imperialismo bom e imperialismo mau.

Existe Rússia, China, EUA, UE e NATO. As ententes da guerra. Espero que se fodam todos bem fodidos.

Só o povo salva o povo.

Protesto anti-guerra. Estados Unidos da América, 1970. Autor desconhecido.

Um elefante na sala

Temos um elefante na sala e não é possível continuar a assobiar para o lado. Aliás, assobiar para o lado é engrossar as hostes daqueles senhores sentados na extrema direita do hemiciclo.

Agora foi em Famalicão. É fundamental analisar o que se passa e tomar medidas dentro do quadro legal. É preciso reflectir e actuar. Vamos continuar a assobiar para o lado? O caso de Famalicão foi o último mas não foi o único. Existe um padrão. Seja na forma como ocupam propriedades privadas, seja como tratam as suas mulheres seja como não cumprem as regras mínimas de um Estado de Direito. Todos? Claro que não.

Vamos deixar campo livre à extrema direita para capitalizar e aceitar o medo como algo natural?

O ataque das empresas à minha liberdade

Os (neo)liberais sentem-se sempre muito coarctados na sua selvática noção de liberdade por tudo aquilo que vem do Estado, por regulamentações dos governos. Pois eu acho isso estranho, porque no meu dia a dia só pontualmente sinto esses incómodos estatais. Eu até acho que pagar impostos é útil à sociedade e necessário, para serem garantidos os serviços públicos e diminuídas as desigualdades.

O que me incomoda sobremaneira e atenta contra a minha liberdade, é a forma invasiva e abusiva com que as empresas, que esses (neo)liberais tanto idolatram, me obrigam a usar coisas que não quero e se intrometem na minha vida para roubar os meus dados pessoais e fazerem os seus negócios. [Read more…]

E é isto….

#amigosaenviarcoisasboas

 

As viúvas do outro senhor não mudam….

Ali para os lados do twitter anda a rapaziada a discutir umas coisas sobre o ex-presidente do Sporting e a namorada e o Big Brother Famosos. Entre os partidários de uma senhora intitulada “Pipoca mais Doce” e os partidários de Bruno Carvalho a coisa está mais bélica que a fronteira da Ucrânia. De repente, foi lançado um morteiro deste calibre:

O tempo passa mas as viúvas do outro senhor não mudaram nadinha. É o que temos.

O drama dos sem abrigos deve chocar todos, JN.

Existem peças jornalísticas que são autêntico serviço público e esta, do Jornal de Notícias é uma delas. Porém, o título é todo um programa.

E qual é o título? É este: “O drama dos sem-abrigo nas ruas do Porto está a chocar os turistas”. A chocar os turistas? Porquê, não nos choca a todos? Não choca os responsáveis pela gestão da cidade? Não choca os poderes públicos? Ou só interessa que não choque os turistas? Eu quero acreditar, mais, eu acredito que o jornalista Alfredo Teixeira cometeu um erro no título mas isso não invalida da importância do seu trabalho como uma forma de chamar a atenção dos poderes locais para este problema social grave.

A câmara diz que o número de pessoas que vivem na rua não aumentou. Não? Então não percebo. É preciso recuar muitos anos para me lembrar de ver a cidade com tantos sem abrigo. Muitos anos. É preciso recuar aos tempos em que um vice-presidente da Câmara Municipal do Porto, de seu nome Paulo Morais, tomou em mãos o problema e, aí sim, diminuiu drasticamente o número de pessoas a dormir nas ruas da cidade do Porto. Ora, quando no passado mês de dezembro (e janeiro) estive na cidade fiquei chocado com a quantidade de sem abrigo espalhados pela cidade. Não só na Baixa como na Boavista e na Foz, só para citar três exemplos. E isso deve chocar todos. E deve ser resolvido não porque incomode os turistas mas porque nos incomoda a todos como seres humanos. A mim incomoda-me que só seja um problema porque “choca os turistas”. A mim incomoda-me que a cidade, nomeadamente os poderes públicos da mesma, não tomem medidas para resolver este problema, a exemplo do que no passado foi feito. Olhem, falem com o Paulo Morais ou com alguém que tenha pertencido à sua equipa. Quem sabe se desviarem umas verbas do marketing e comunicação do município e o aplicarem na resolução deste flagelo. Quem sabe se a câmara com a ajuda da Misericórdia possam investir na resolução deste problema social e dou o exemplo da misericórdia pois vejo que a esta não lhe tem faltado dinheiro para a recuperação do seu património, para investir na comunicação e promoção (nomeadamente dos seus dirigentes)…

É uma questão de prioridades. É uma questão de humanidade.

 

(a fotografia é do JN)

Futebol Clube do Porto Canal

O universo do futebol, como qualquer universo, contém monumentos espectaculares e lixeiras a céu aberto, artistas geniais e gente pouco recomendável.

Há, neste universo, muita gente a fazer figuras tristes. Neste mesmo universo, são sempre os outros que fazem figuras tristes e nunca os nossos. Os nossos, no máximo, reagem a provocações, os outros é que são violentos, desonestos e malcriados.

O último Porto-Sporting ficou marcado por vários episódios tristes, com direito a final apoteótico, no pior sentido da palavra.

Acabado o jogo e recolhidos jogadores, treinadores e dirigentes, eis que todos iniciaram o discurso da culpabilização alheia, reclamando virtudes próprias e escarrando defeitos alheios.

Frederico Varandas, que sempre teve mau perder ou mau empatar, usou a sala de imprensa do Dragão para atribuir as culpas de todos apenas a Pinto da Costa. Do outro lado, os portistas, oficiais e oficiosos, defenderam o presidente portista, erguendo o pendão dos títulos alcançados, quando o que estava em causa era o contributo, directo e indirecto, que tem dado para a lixeira a céu aberto que é o universo do futebol. [Read more…]

Porque é que estamos sempre na “cauda” da Europa?

E quando não estamos, para lá caminhamos?

Há algo de profundamente errado no Povo Português. Como também há algo de maravilhosamente bom, generoso e, tantas vezes, genial. Mas, infelizmente, esta reflexão é sobre o que nos atrasa, sobre o que, implacavelmente, nos leva à pobreza e à infelicidade.

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Como assim, o Big Brother deu merda?

Como assim, o Big Brother é um degredo que não tem razão de ser sem polémica e violência?

Como assim, o Bruno Carvalho é tóxico e conflituoso, e foi precisamente por isso que foi escolhido para o programa?

Como assim, o modelo de negócio da TVI assenta no sensacionalismo, no escândalo e na exploração de emoções primárias?

Como assim, a Cristina Ferreira indigna-se e denuncia de casos de violência doméstica na sua revista e no programa da tarde, para depois pactuar com eles enquanto membro do Conselho de Administração da TVI, Directora de Entretenimento e apresentadora do Big Brother? Querem ver que a self made woman da Malveira é uma hipócrita?

Fui apanhado de surpresa, confesso. Não estava nada à espera destas informações dramáticas. Serão verdadeiras?

FC Porto x Sporting CP: Ensaio sobre a humanidade

 

Foto: CMTV

Ontem, mais uma vez, apesar de ser um hábito que, para mim, cada vez tem menos força, desloquei-me ao sítio do costume para ver o meu FC Porto jogar. Cerca de 120 minutos depois, tudo o que me estava na cabeça era o ser-humano. A Humanidade como um todo. Lembrava-me de um ou outro lance do jogo mas, essencialmente, era o extra-futebol que me deixava a reflectir.

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Comunicação Social: Esquerda? Direita? Volver…

se o twitter fosse uma mesa de voto em legislativas, a discussão pelo primeiro lugar seria renhida entre o Bloco e a IL mas se fosse colocada uma mesa de voto só para as redações, a disputa pelo lugar cimeiro seria entre o PCP e o Bloco? Mas é mesmo assim?

 

Nas redes muito se discute quem é que domina a comunicação social. Para uns, com o nosso João Mendes à cabeça, é a direita. Para outros, não senhor, é a esquerda até porque domina as redações – se o twitter fosse uma mesa de voto em legislativas, a discussão pelo primeiro lugar seria renhida entre o Bloco e a IL mas se fosse colocada uma mesa de voto só para as redações, a disputa pelo lugar cimeiro seria entre o PCP e o Bloco? Mas é mesmo assim?

Recentemente, Pedro Guerreiro (jornalista do Público) e João Zamith discutiam esta dicotomia “esquerda VS direita” sobre os artigos de opinião do Público. Zamith atirava que a opinião no Público estava dominada pela direita (João Miguel Tavares, F. Bonifácio, MJMarques, Paula Teixeira da Cruz, Francisco Mendes da Silva, etc) ao que Pedro Guerreiro recorda outros opinadores de esquerda (Mamadou Ba, Domingos Lopes, RT, JPP, Loff, etc). Estou a resumir o “bate papo” entre eles e não a transcrever ipsis verbis, só para avisar.

Já João Mendes tanto nos seus escritos no Aventar como nas suas intervenções nas Conversas Vadias como em tweets na sua página do Twitter, segue a opinião de que a comunicação social em Portugal é dominada pela direita e, mais recentemente, que o PCP está em desvantagem total nesta matéria por falta de comentadores nas televisões e jornais. Será que é mesmo assim?

Não é alheia a esta choradeira da direita e da esquerda sobre a comunicação social o mais recente deboche com o Chega. Ou seja, desde a noite eleitoral das legislativas temos assistido a um corrupio de eleitos do Chega nas televisões a opinar. A coisa dá audiências e as televisões não se fazem rogadas. 

Posto isto, a direita domina a comunicação social? Ou é a esquerda que interpreta esse papel na perfeição?

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Ao cuidado daquela malta que acha que o Facebook é uma entidade pública eleita por sufrágio universal

Acho muita piada, muita piada mesmo, à malta que se queixa da falta de democracia do Facebook, quando a plataforma restringe ou censura um conteúdo. Como se o Facebook fosse uma entidade pública eleita por sufrágio universal. A coisa torna-se ainda mais engraçada quando este tipo de críticas parte daquela malta que defende, com unhas e dentes, a liberdade absoluta das empresas privadas de fazer o que lhes dá na real gana. Pois bem, meus amigos, não sei se já deram conta, mas o Facebook é uma empresa privada. De maneira que, se não estão bem com as regras do tio Zuck, a minha sugestão é que fechem a conta e mudem de rede. Não é que não se passem as mesmas coisas nas outras redes, também elas – preparem-se para o choque – propriedade de empresas privadas, que decidem em função dos seus interesses, não da democracia ou do bem comum, mas sempre dá aquele arejo virtual. Agora misturar democracia, liberdade de expressão e decisões racionais feitas por empresas privadas no sentido de maximizar o lucro é só parvo.

Já alguém avisou Gabriel Mithá Ribeiro?

 

Gabriel Mithá Ribeiro é o coordenador do Gabinete de Estudos do Chega e tem ascendência africana, indiana e síria. É o senhor que está à esquerda, salvo seja.

Já alguém o avisou de que Diogo Pacheco de Amorim considera que os portugueses têm como cor de origem o branco e que pertencem à raça caucasiana?

Tendo em conta as origens e a cor de pele de Mithá Ribeiro, ainda mais escura do que a de Pacheco de Amorim, poderá continuar no Chega ou estaremos na véspera de tratamentos como o que fez Michael Jackson? Mais: tendo nascido em Moçambique, deveria voltar para a terra dele?

Seja como for, o Hitler também estava longe do estereótipo do alemão alto, louro e de olhos azuis. Isto tem alguma graça, por enquanto.

DEPENDÊNCIAS

 

Há uns anos, aquando de uma greve de camionistas, muitas pessoas ganharam consciência de alguns dos perigos deste mundo em rede que temos vindo a construir. Ao fim de alguns dias de greve, as prateleiras dos supermercados começaram a esvaziar-se pelo país fora, produtos essenciais esgotaram, a gasolina faltou nos postos de abastecimento, os transportes individuais foram abalados, etc., etc.

Nessa época já o mundo funcionava em rede, já os consumos pouco tinham de produção local ou de proximidade, já nos pratos nacionais repousava na mesma refeição um bife irlandês, batatas francesas, cebolas espanholas, tomates italianos, pimentos sul-americanos e, enfim, uma alface portuguesa, mas estávamos todavia num mundo predominantemente analógico em que ainda viviam mais pessoas nos campos do que nas cidades e o digital não reinava como hoje.

A situação evoluiu e a dependência em rede aumentou.

A escalada previsível de ataques cibernéticos, de que é exemplo o agora sofrido pela Vodafone, devia preocupar-nos e alertar-nos.

Não se trata de saudosismos bucólicos ou de propôr regressos a passados idílicos e românticos. Um ataque a uma única empresa acarreta reacções em cadeia que implicam a paragem forçada de outras empresas, a falta de resposta de transportes, ambulâncias paradas, serviços hospitalares que não funcionam e por aí fora, até, num absurdo não tão absurdo, à paralisação total.

Bem sei que há quem esteja encarregado de fiscalizar, precaver, evitar, reagir e corrigir, mas trata-se de um jogo entre o gato e o rato em que os hackers fazem de ratazanas.

O problema é que, além de fugirem sempre à frente do gato, volta e meia é o próprio gato que lhes serve de refeição.

Rayan e a voracidade sem escrúpulos da imprensa sensacionalista

O caso do menino caído num poço em Chefchouen transformou-se num exercício de sensacionalismo maquiavélico, que espelha bem aquilo que é hoje parte significativa da nossa comunicação social. E esta publicação no Facebook, da jornalista da CMTV, Sandra Felgueiras, diz-nos quase tudo o que precisamos de saber sobre esta postura absolutamente abjecta.

Não se trata de sentir ou não compaixão pelo pequeno Rayan, só um ser desprovido de sentimentos e coração não a sentiria, mas da forma como alguns órgãos de comunicação social exploraram o caso, como se um reality show se tratasse, instrumentalizando, ao limite, as emoções mais primárias e irracionais dos espectadores, para ganhos de audiência e publicidade.

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Manipulação e hipocrisia

“Deus sabe” o que estas situações com crianças me alteram. “Deus sabe” o contente que vou ficar quando retirarem Rayan daquele poço.

Mas ligar a televisão e ver todos os canais informativos permanentemente em directo, a noticiarem rigorosamente “nada” e com dezenas de “especialistas” em “vá-se lá saber o quê” (género o que têm feito desde há 2 anos com a pandemia) a debitarem superficialidades, diz muito mais acerca das intenções manipuladoras dos órgãos de comunicação social que propriamente acerca da terrivel situação em que se encontra o pequeno Rayan. E já agora também acerca da bovinidade hipócrita das suas audiências.

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Corno-de-ferro: encontros inesperados ao fim-de-semana

Eu andava a pé. Era Sábado e a minha hora de almoço aproximava-se.

Decidi que almoçaria no snack-bar que fica na rua das traseiras do prédio onde vivo. Nessa rua, sem saída e mal amanhada, despontam uma dúzia de casas camarárias sem condições, onde vivem dezenas de pessoas, trabalhadoras, homens e mulheres com filhos e pais.

Tenho ouvido muito falar de bairros sociais e Mercedes à porta. Tenho pensado nisso e, sempre que passo por um/entro num bairro social, fico alerta: deixa cá ver onde estão todos os Mercedes de que fala aquele líder da extrema-direita… [Read more…]

A máquina de fazer vilacondenses (cinco tostões sobre Valter Hugo Mãe)

Rosa Mota referiu-se, na semana que passou, a Rui Rio como “nazizinho”, pela sua acção na CM do Porto.

Entre várias condenações e várias tentativas de escusa, uma das pessoas que veio, imediatamente, a público defender Rosa Mota foi o escritor Valter Hugo Mãe. Escreveu o meu conterrâneo, no Facebook, que a frase da antiga atleta olímpica tinha sido dita num clima de “nervosismo, sem tempo e de forma imediata”, ou qualquer coisa do género.

Como somos conterrâneos e, em Vila do Conde, frequentamos o mesmo espaço cultural (O Pátio), atrevi-me a responder ao virtuoso Valter. Disse-lhe:

“Ainda que tenha sido infeliz, quem viveu no Porto durante a governação de Rio, sabe o que quis dizer Rosa Mota. Mas convenhamos, o Valter apoiou Elisa Ferraz, outra ‘nazizinha’, para a CM de Vila do Conde”. [Read more…]

De quem são as nossas experiências?

Estou em crer que não haverá nada mais genuíno do que a capacidade de sentir empatia por outro ser. Acredito nisto porque não considero a empatia algo exclusivamente humano. Porque a sentimos nos animais, por parecerem ser capazes de sentir as emoções uns dos outros e também dos humanos. E isso faz-me crer que, escondido nos confins dos mistérios do universo que nunca chegaremos a compreender, a empatia tem um lugar muito próprio e apropriadamente seu.

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Cristãos-caviar

Adoro o termo esquerda-caviar, essencialmente por dois motivos: porque 1) impede pessoas de esquerda como eu de usar iPhone, o que é perfeito, porque não conto dar um cêntimo que seja à Apple (e porque demonstra taxativamente a natureza autoritária dos proponentes desta chalupice), e 2) porque demonstra o nível de ignorância de quem acha que ser de esquerda implica não possuir bens materiais, algo que me diverte.

Por outro lado, o termo cristão-caviar, aqui proposto pelo genial Duvivier, está mal explorado e é, de longe, uma contradição infinitamente maior que a do gajo de esquerda que tem um iPhone. Religião por religião, o marxismo lá acaba por ser mais honesto. Pobre Jesus, que deve andar às voltas no túmulo à quase 2000 anos, com tanto cristão-caviar a subverter os seus ensinamentos.

Guantánamo: 20 anos de terror

Imagem retirada do Observador.

20 anos de Guantánamo.

Vinte anos. Vinte. Vinte anos em que esta prisão em Cuba prende, tortura e massacra opositores políticos. Muito se fala sobre o regime cubano, e acho muito bem que dele se fale. Mas a prisão de Guantánamo, localizada numa base naval em Cuba, pertence aos… Estados Unidos da América.

E é em Guantánamo que norte-americanos prendem, torturam e massacram opositores políticos que não comunguem das ideias neo-liberais e conservadoras usadas pelos EUA, ao longo dos anos, para aniquilar comunistas, socialistas e social-democratas. Já vem de trás, mas esta espiral começou a sério nos anos 80, com a Operação Condor à cabeça. Cuba vai resistindo; não sendo um regime democrático, vai resistindo aos atentados, também eles, anti-democráticos dos EUA. Aponta-se, muitas vezes, o facto de Cuba não ser uma democracia para justificar o insucesso económico do país… esses esquecem-se dos enormes embargos dos EUA ao país e do controlo exercido sobre eles pelos “polícias do Mundo”; os que o fazem, têm, normalmente, zero a dizer sobre a China.

Vivem, ou sobrevivem, neste momento em Guantánamo 39 pessoas, a maioria sem qualquer acusação criminal.

Vinte anos de ataques aos Direitos Humanos. Vinte anos. Vinte. Está na hora de acabar com o imperialismo norte-americano e chinês.

Cartoon de Matt Wuerker.